As minhas recomendações à Mining Explorations (International) (MEI) sobre a aplicação intensiva da gravimetria, de preferência às sondagens com insuficiente apoio geofísico, não foram tidas na devida consideração e a Companhia via passar o tempo sem obter resultados positivos.
Começou a ficar desanimada e chegou a ponderar o abandono da área que lhe estava adjudicada, antes do termo do contrato.
Aconteceu, porém, um facto que levou MEI a rever esta atitude negativa.
O SFM acabava de revelar, na área de Aljustrel, que tinha conservado para as suas próprias investigações, uma grande concentração de minério piritoso com disseminação abundante de blenda e menor percentagem de galena e calcopirite.
Esta concentração mineral, que se situa no mesmo horizonte onde se localiza o jazigo de Feitais, anteriormente descoberto através dos estudos da Lea Cross Geophysical Company, ficou designada como jazigo da Estação, dada a proximidade da estação de caminho de ferro de Aljustrel.
Perante tão notável êxito, (a ele dedicarei um próximo post), MEI recuou na sua decisão, criando novo ânimo para continuar os seus estudos, por reconhecer que a parcela da Faixa Piritosa, que lhe estava adjudicada, mantinha ainda intactas áreas com forte potencialidade para a ocorrência de novos jazigos.
MEI, consciente do decisivo papel que eu tinha vindo a desempenhar na valorização da Faixa Piritosa Alentejana e da valiosa colaboração que tinha vindo a prestar-lhe, teve a simpatia de festejar a descoberta, no dia 28-3-1968, convidando-me para um jantar, no Hotel Tivoli, no qual estiveram presentes os mais altos dirigentes das Companhias que participavam no Consórcio.
Foram eles: Dr. Stanley Holmes (Presidente de MEI), Dr. Armstrong (Presidente de Cominco canadiana), Dr. Taylor (Presidente de Union Corporation sul-africana), Geólogo sénior Dr. Stam, Professor José Ávila Martins (representante de MEI em Portugal), Dr. Robert Batey (principal responsável pelos trabalhos de campo de MEI).
No final do repasto, houve discursos exaltando o mérito do êxito e manifestando o forte empenho de MEI em dar continuidade às suas investigações.
Quando chegou o momento para eu agradecer tão grande manifestação de apreço, causei alguma perplexidade aos meus anfitriões, ao declarar que se MEI ainda não tinha descoberto jazigo algum foi porque ainda o não merecera.
Salientei que a descoberta da Estação tinha sido a consequência de 20 anos de persistentes estudos, sem esmorecimentos perante alguns inevitáveis resultados negativos quanto a descobertas, mas positivos pela acréscimo de informação que auxiliara a encontrar os alvos desejados.
Classificava a actividade de MEI insuficiente para poder aspirar a um sucesso. Apesar de MEI já ter despendido cerca de 30 000 contos (o equivalente a perto de um milhão de euros actuais) era preciso trabalhar muito mais!
Mais tarde, o Geólogo Dr. Batey que estava encarregado da maior parte dos estudos no terreno, cujo esforço talvez não estivesse a ser devidamente apreciado, agradeceu-me vivamente esta intervenção.
Todavia, não se verificou no terreno a intensificação prometida, sobretudo em campanhas de gravimetria que eu tinha recomendado vigorosamente.
MEI não criou a sua própria equipa para a aplicação desta técnica.
Expirado o prazo de validade do seu contrato, sem ter descoberto jazigos, MEI não se interessou em celebrar novo contrato, preferindo fazer os seus investimentos em áreas de outros países onde estava a obter francos sucessos.
O seu Presidente Dr. Stanley Holmes formou novo Consórcio com capitais de outras Companhias e firmou contrato com o Estado para uma área envolvente das Minas de S. Domingos e Bicada, onde considerava existirem boas probabilidades de existência de novas massa de pirite, apesar das muitas sondagens que nessa área já tinham sido feitas.
O Director-Geral, por motivos que não me foram revelados, decidiu não me nomear seu representante junto desta nova Companhia, acontecendo que, sendo eu o único Engenheiro da Direcção-Geral a acompanhar os estudos de todas as Companhias que actuavam na Faixa Piritosa e a neles colaborar, era o único que não era remunerado por esta actividade suplementar!
Foi este o modo que o Director-Geral encontrou para manifestar o seu apreço pelo êxito da Estação de que eu tinha sido o principal autor. Mas não foi único, como irei revelar, nas devidas oportunidades.
Imediatamente após a libertação da vasta área que havia sido adjudicada a MEI, promovi que fossem realizados levantamentos gravimétricos numa área de cerca de 100 km2 que abrangia a Mina de Algaré e outras ocorrências cupríferas,
Logo começou a evidenciar-se extensa e pronunciada anomalia que viria a dar origem à descoberta do já célebre jazigo de Neves-Corvo.
A este tema dedicarei vários posts, para reposição da verdade que tem sido escandalosamente desrespeitada, em artigos publicados com grosseiros erros, em prestigiadas Revistas de vários países.
Alguns Geólogos oportunistas têm-se feito passar por autores do êxito, no qual tiveram intervenção insignificante, nula ou até negativa, chegando ao cúmulo de receber louvores em Diário do Governo e condecorações do Governo francês, com apoio presencial de altos dirigentes nacionais.
Continua ...
quinta-feira, 18 de dezembro de 2008
sábado, 13 de dezembro de 2008
32 – Os contratos de prospecção com empresas privadas.
O SFM foi criado para suprir a escassez de iniciativa privada séria para o aproveitamento dos recursos minerais do País.
Para impedir que viessem a ser requeridas concessões dentro das suas áreas de estudo, aproveitando resultados conseguidos pelo SFM sem as correspondentes contrapartidas, foram declaradas cativas para o Estado, por portarias publicadas no Diário do Governo, vastas áreas, sobretudo no Alentejo, onde decorria a quase totalidade das investigações em prospecção mineira.
Todavia, uma incompreensível morosidade da Direcção do SFM em dar andamento ao processo de aquisição de equipamentos de prospecção, considerados essenciais (são disso exemplo os 10 anos para se adquirir um gravímetro, apesar das insistentes referências à sua indispensabilidade, feitas em projectos de trabalhos e em outros documentos !!), deu origem a que empresas, sobretudo estrangeiras, se antecipassem ao SFM, mostrando-se interessadas na aplicação de técnicas modernas, para aumentar as suas reservas minerais, e requeressem autorizações para investigar zonas situadas no interior de áreas cativas para os trabalhos do SFM.
Para alguns destes requerimentos, chegou a ser pedida a minha informação.
Como o papel do SFM não era impedir a iniciativa privada mas, pelo contrário, estimulá-la, as minhas informações foram favoráveis, enquanto o SFM se não equipava convenientemente.
Foi assim que foram concedidas autorizações a todos os concessionários radicados na Faixa Piritosa Alentejana, sem outras condições para além da apresentação de relatórios periódicos sobre a sua actividade e sobre os resultados conseguidos.
Já revelei, em post anterior, a generosidade excessiva do contrato celebrado em 1960 com a CRAM (Compagnie Royale Asturienne des Mines), para o qual não fora pedida a minha informação.
Em 1965, começaram a aparecer outras empresas e outros grupos empresariais a manifestar interesse em fazer investimentos em Portugal, com vista à futura exploração de jazigos minerais
O Director-Geral então em exercício, acolheu bem este interesse mas informou que a generosidade dos contratos anteriores não iria repetir-se.
O SFM encontrava-se já razoavelmente preparado para cumprir os programas de prospecção para que tinha sido criado e estava em curso a aquisição de novos equipamentos e a especialização de técnicos para deles fazer bom uso.
Por isso, só seriam concedidos direitos de prospecção, no interior de áreas cativas, com vista à futura atribuição de novas concessões de exploração dos jazigos que viessem a ser revelados, mediante compensações.
Foi para a Faixa Piritosa Alentejana que se celebraram os principais contratos, por negociação directa com as entidades interessadas.
Em 1966 foi adjudicada a quase totalidade da Faixa.
O SFM apenas manteve, para estudos nesta Faixa, uma pequena área envolvente das Minas de Aljustrel, onde tinha em curso campanha de prospecção com aplicação privilegiada da técnica gravimétrica.
À Mining Explorations (International) (MEI) foi adjudicada uma vasta parcela de cerca de 4.000 km2, desde a fronteira nas proximidades da Mina de S. Domingos até às Minas de Aljustrel.
À Sociedade Mineira de Santiago, afiliada da CUF (Companhia União Fabril), foi atribuída a Bacia Terciária do Sado, entre as Minas de Aljustrel e Louzal.
A Mines et Industries, concessionária das Minas de Caveira e de Louzal, foi adjudicada uma área envolvente das suas concessões.
Todos estes contratos incluíam cláusulas sobre compensações ao Estado, que foram consideradas vantajosas.
Incluíam, além disso, outra cláusula, segundo a qual a Direcção-Geral de Minas nomearia um seu representante, junto de cada um dos contratantes, para acompanhar os trabalhos e prestar colaboração, tendo em vista facilitar a sua actividade.
Eu fui o representante junto de MEI; o Chefe do 3.º Serviço, que tinha a seu cargo os Petróleos e as Sondagens, foi o representante nomeado junto de Mines et Industries; outro Engenheiro que estava destacado na Circunscrição Mineira do Sul, mas exercia sobretudo funções de adjunto do Director-Geral (o apelidado de Ajax) foi o representante junto da Sociedade Mineira de Santiago.
Nem o Chefe do 3.º Serviço nem o adjunto do Director-Geral tinham a mínima experiência nas técnicas de prospecção aplicáveis na Faixa Piritosa, nem tinham exercido qualquer actividade nesta Faixa.
Estes dois Engenheiros e o Engenheiro Chefe do 4.º Serviço, que tinha a seu cargo o inventário das pedreiras, constituíam o designado “Gabinete de Estudos”, que funcionava junto do Director-Geral.
Nunca conheci a que estudos se dedicaram, nem percebi a razão pela qual os Chefes dos 3.º e 4.º Serviços exerciam as suas funções em Lisboa, junto do Director-Geral, quando eu (Chefe do 1.º Serviço) e o Chefe do 2.º Serviço desempenhávamos as nossas actividades a partir da sede do SFM em S. Mamede de Infesta.
Mas o Director-Geral resolveu compensá-los da sua dedicação, nomeando dois deles representantes simbólicos da Direcção-Geral junto das empresas, para lhes poder atribuir remuneração adicional.
Perante a sua total impreparação, fui eu o efectivo representante da Direcção Geral de Minas junto de todas as empresas contratantes.
A experiência adquirida durante os 20 anos que passara no Alentejo, sem nunca descurar o problema das pirites, dava-me essa possibilidade sem grande esforço.
Nas raras reuniões em que esses simbólicos representantes estiveram presentes, o que eu mais desejava era que as suas descabidas intervenções não viessem perturbar a análise dos problemas suscitados pelos trabalhos que se iam realizando.
Entre o Serviço de Prospecção do SFM, sob minha chefia, e as empresas estabeleceu-se uma estreita colaboração de que resultaram benefícios mútuos.
A elevada competência dos Geólogos integrados em todas as Empresas foi de grande utilidade para um conhecimento mais profundo da estrutura geológica da Faixa Piritosa.
Por outro lado, a experiência que o SFM vinha adquirindo com a aplicação das técnicas geofísicas, foi de extrema utilidade para as Empresas, pois todas, reconhecendo a sua qualidade, passaram a solicitar que o SFM realizasse para elas, campanhas sobretudo de gravimetria.
O SFM facturava essas campanhas com uma sobrecarga de 50% sobre o seu custo, valor que era considerado pelas empresas muito atractivo, quando comparado com o custo que seria facturado por especialistas estrangeiros que viessem cumprir contratos a Portugal.
As solicitações eram tantas que cheguei a ponderar a aquisição de um terceiro gravímetro. Já tínhamos dois gravímetros quase totalmente absorvidos pelas solicitações das empresas, atrasando assim os nossos programas próprios. Não fiz proposta, apenas porque continuava a enfrentar o grave problema da remuneração ao pessoal assalariado que teria que recrutar localmente e fazer preparar. Apesar das constantes exposições sobre este grave problema e de fazer notar que a actividade do 1.º Serviço não constituía encargo para o erário público, a Direcção-Geral da Contabilidade Pública não dava andamento às propostas de revisão salarial que lhe eram remetidas, segundo informava o Director do SFM. Dificilmente já conseguíamos manter o pessoal ao qual tínhamos dado formação especializada. Já tínhamos que atribuir, a vários deles, categorias de mais elevados salários da tabela superiormente aprovada, que não correspondiam às funções realmente desempenhadas.
Mining Explorations (International), detentora da maior área, privilegiava a execução de sondagens, com base nos seus estudos geológicos e em alguma gravimetria.
Na minha qualidade de representante da Direcção Geral de Minas junto da Companhia e de seu colaborador, apresentei relatórios com recomendações de trabalhos, acentuando a importância da técnica gravimétrica e aconselhando o seu mais amplo uso, antes de se passar à execução de sondagens.
No meu 3.º relatório, com data de 15-3-1968, do qual anexei cópia ao meu relatório mensal enviado ao Director do SFM, chamei vigorosamente a atenção de MEI para a necessidade de incrementar o uso da técnica gravimétrica, considerando a vastidão da área que lhe estava adjudicada.
Deste relatório, destaco as seguintes passagens:
“Além das áreas que já anteriormente foram objecto de levantamentos gravimétricos, muitas outras há, dentro da concessão de Mining explorations (International), onde nunca o método foi utilizado.
Recordamos, por exemplo, que na vasta área de rochas vulcânicas de Castro Verde – Panoias, que tem uma extensão superior a 30 km e uma largura que atinge 10 km, muito poucos trabalhos de prospecção gravimétrica se fizeram, até à data.”
…
“Noutras vastas áreas, como as de Albernoa, Juliana, Pomarão, Alcoutim e Ourique, onde a potencialidade é também grande, nada, praticamente foi feito, em matéria de prospecção gravimétrica.
Aconselhamos vigorosamente a aplicação deste método.
Lembremo-nos de que, a todos os jazigos novos conhecidos na Faixa Piritosa Alentejana correspondem anomalias bem definidas pela gravimetria, o mesmo não podendo afirmar de qualquer dos outros métodos que têm sido aplicados.
O Serviço de Fomento Mineiro poderá continuar a prestar a sua colaboração na matéria, em campanhas de curta duração, tal como fez em anos anteriores. As numerosas solicitações que tem de várias Companhias e o seu programa próprio não lhe permitem comprometer-se em campanhas longas.
Como o tempo de que dispõe Mining Ezxplorations (International), contando já com as prováveis prorrogações, é muito limitado para a cobertura de todas as áreas favoráveis, é aconselhável que Mining Explorations (International) disponha de, pelo menos, uma equipa de gravimetria, em trabalho permanente, até ao termo do contrato com o Estado Português.
Na impossibilidade de o Serviço de Fomento Mineiro lhe poder dar este apoio permanente, sugerimos que Mining Explorations (International) crie a sua própria equipa.
Computamos em cerca de 4.000$00/dia a despesa de uma destas equipas (contando já com a amortização de gravímetro, taqueómetro, níveis, viatura e outro equipamento auxiliar, em 5 anos, e duas estadias de Mr. Roux em Portugal, como supervisor deste trabalho).
…
Não se aconselham novas sondagens na Faixa Piritosa, sem haver um número suficientemente grande de anomalias gravimétricas que permita fazer uma selecção das verdadeiramente auspiciosas.
Quanto maior for o número de anomalias para escolha, maior será a probabilidade de sucesso.
Não deve esquecer-se que as maiores despesas na procura de jazigos minerais são as feitas pelas sondagens.
Um mês de trabalho com o gravímetro (considerando 50 observações diárias com malha d 100m x 100m) dá informação sobre 13 km2, a um custo muito inferior a 10 contos por km2. Uma só sondagem custa geralmente, algumas dezenas de vezes mais e a informação que presta é muito mais limitada”
Continua...
Para impedir que viessem a ser requeridas concessões dentro das suas áreas de estudo, aproveitando resultados conseguidos pelo SFM sem as correspondentes contrapartidas, foram declaradas cativas para o Estado, por portarias publicadas no Diário do Governo, vastas áreas, sobretudo no Alentejo, onde decorria a quase totalidade das investigações em prospecção mineira.
Todavia, uma incompreensível morosidade da Direcção do SFM em dar andamento ao processo de aquisição de equipamentos de prospecção, considerados essenciais (são disso exemplo os 10 anos para se adquirir um gravímetro, apesar das insistentes referências à sua indispensabilidade, feitas em projectos de trabalhos e em outros documentos !!), deu origem a que empresas, sobretudo estrangeiras, se antecipassem ao SFM, mostrando-se interessadas na aplicação de técnicas modernas, para aumentar as suas reservas minerais, e requeressem autorizações para investigar zonas situadas no interior de áreas cativas para os trabalhos do SFM.
Para alguns destes requerimentos, chegou a ser pedida a minha informação.
Como o papel do SFM não era impedir a iniciativa privada mas, pelo contrário, estimulá-la, as minhas informações foram favoráveis, enquanto o SFM se não equipava convenientemente.
Foi assim que foram concedidas autorizações a todos os concessionários radicados na Faixa Piritosa Alentejana, sem outras condições para além da apresentação de relatórios periódicos sobre a sua actividade e sobre os resultados conseguidos.
Já revelei, em post anterior, a generosidade excessiva do contrato celebrado em 1960 com a CRAM (Compagnie Royale Asturienne des Mines), para o qual não fora pedida a minha informação.
Em 1965, começaram a aparecer outras empresas e outros grupos empresariais a manifestar interesse em fazer investimentos em Portugal, com vista à futura exploração de jazigos minerais
O Director-Geral então em exercício, acolheu bem este interesse mas informou que a generosidade dos contratos anteriores não iria repetir-se.
O SFM encontrava-se já razoavelmente preparado para cumprir os programas de prospecção para que tinha sido criado e estava em curso a aquisição de novos equipamentos e a especialização de técnicos para deles fazer bom uso.
Por isso, só seriam concedidos direitos de prospecção, no interior de áreas cativas, com vista à futura atribuição de novas concessões de exploração dos jazigos que viessem a ser revelados, mediante compensações.
Foi para a Faixa Piritosa Alentejana que se celebraram os principais contratos, por negociação directa com as entidades interessadas.
Em 1966 foi adjudicada a quase totalidade da Faixa.
O SFM apenas manteve, para estudos nesta Faixa, uma pequena área envolvente das Minas de Aljustrel, onde tinha em curso campanha de prospecção com aplicação privilegiada da técnica gravimétrica.
À Mining Explorations (International) (MEI) foi adjudicada uma vasta parcela de cerca de 4.000 km2, desde a fronteira nas proximidades da Mina de S. Domingos até às Minas de Aljustrel.
À Sociedade Mineira de Santiago, afiliada da CUF (Companhia União Fabril), foi atribuída a Bacia Terciária do Sado, entre as Minas de Aljustrel e Louzal.
A Mines et Industries, concessionária das Minas de Caveira e de Louzal, foi adjudicada uma área envolvente das suas concessões.
Todos estes contratos incluíam cláusulas sobre compensações ao Estado, que foram consideradas vantajosas.
Incluíam, além disso, outra cláusula, segundo a qual a Direcção-Geral de Minas nomearia um seu representante, junto de cada um dos contratantes, para acompanhar os trabalhos e prestar colaboração, tendo em vista facilitar a sua actividade.
Eu fui o representante junto de MEI; o Chefe do 3.º Serviço, que tinha a seu cargo os Petróleos e as Sondagens, foi o representante nomeado junto de Mines et Industries; outro Engenheiro que estava destacado na Circunscrição Mineira do Sul, mas exercia sobretudo funções de adjunto do Director-Geral (o apelidado de Ajax) foi o representante junto da Sociedade Mineira de Santiago.
Nem o Chefe do 3.º Serviço nem o adjunto do Director-Geral tinham a mínima experiência nas técnicas de prospecção aplicáveis na Faixa Piritosa, nem tinham exercido qualquer actividade nesta Faixa.
Estes dois Engenheiros e o Engenheiro Chefe do 4.º Serviço, que tinha a seu cargo o inventário das pedreiras, constituíam o designado “Gabinete de Estudos”, que funcionava junto do Director-Geral.
Nunca conheci a que estudos se dedicaram, nem percebi a razão pela qual os Chefes dos 3.º e 4.º Serviços exerciam as suas funções em Lisboa, junto do Director-Geral, quando eu (Chefe do 1.º Serviço) e o Chefe do 2.º Serviço desempenhávamos as nossas actividades a partir da sede do SFM em S. Mamede de Infesta.
Mas o Director-Geral resolveu compensá-los da sua dedicação, nomeando dois deles representantes simbólicos da Direcção-Geral junto das empresas, para lhes poder atribuir remuneração adicional.
Perante a sua total impreparação, fui eu o efectivo representante da Direcção Geral de Minas junto de todas as empresas contratantes.
A experiência adquirida durante os 20 anos que passara no Alentejo, sem nunca descurar o problema das pirites, dava-me essa possibilidade sem grande esforço.
Nas raras reuniões em que esses simbólicos representantes estiveram presentes, o que eu mais desejava era que as suas descabidas intervenções não viessem perturbar a análise dos problemas suscitados pelos trabalhos que se iam realizando.
Entre o Serviço de Prospecção do SFM, sob minha chefia, e as empresas estabeleceu-se uma estreita colaboração de que resultaram benefícios mútuos.
A elevada competência dos Geólogos integrados em todas as Empresas foi de grande utilidade para um conhecimento mais profundo da estrutura geológica da Faixa Piritosa.
Por outro lado, a experiência que o SFM vinha adquirindo com a aplicação das técnicas geofísicas, foi de extrema utilidade para as Empresas, pois todas, reconhecendo a sua qualidade, passaram a solicitar que o SFM realizasse para elas, campanhas sobretudo de gravimetria.
O SFM facturava essas campanhas com uma sobrecarga de 50% sobre o seu custo, valor que era considerado pelas empresas muito atractivo, quando comparado com o custo que seria facturado por especialistas estrangeiros que viessem cumprir contratos a Portugal.
As solicitações eram tantas que cheguei a ponderar a aquisição de um terceiro gravímetro. Já tínhamos dois gravímetros quase totalmente absorvidos pelas solicitações das empresas, atrasando assim os nossos programas próprios. Não fiz proposta, apenas porque continuava a enfrentar o grave problema da remuneração ao pessoal assalariado que teria que recrutar localmente e fazer preparar. Apesar das constantes exposições sobre este grave problema e de fazer notar que a actividade do 1.º Serviço não constituía encargo para o erário público, a Direcção-Geral da Contabilidade Pública não dava andamento às propostas de revisão salarial que lhe eram remetidas, segundo informava o Director do SFM. Dificilmente já conseguíamos manter o pessoal ao qual tínhamos dado formação especializada. Já tínhamos que atribuir, a vários deles, categorias de mais elevados salários da tabela superiormente aprovada, que não correspondiam às funções realmente desempenhadas.
Mining Explorations (International), detentora da maior área, privilegiava a execução de sondagens, com base nos seus estudos geológicos e em alguma gravimetria.
Na minha qualidade de representante da Direcção Geral de Minas junto da Companhia e de seu colaborador, apresentei relatórios com recomendações de trabalhos, acentuando a importância da técnica gravimétrica e aconselhando o seu mais amplo uso, antes de se passar à execução de sondagens.
No meu 3.º relatório, com data de 15-3-1968, do qual anexei cópia ao meu relatório mensal enviado ao Director do SFM, chamei vigorosamente a atenção de MEI para a necessidade de incrementar o uso da técnica gravimétrica, considerando a vastidão da área que lhe estava adjudicada.
Deste relatório, destaco as seguintes passagens:
“Além das áreas que já anteriormente foram objecto de levantamentos gravimétricos, muitas outras há, dentro da concessão de Mining explorations (International), onde nunca o método foi utilizado.
Recordamos, por exemplo, que na vasta área de rochas vulcânicas de Castro Verde – Panoias, que tem uma extensão superior a 30 km e uma largura que atinge 10 km, muito poucos trabalhos de prospecção gravimétrica se fizeram, até à data.”
…
“Noutras vastas áreas, como as de Albernoa, Juliana, Pomarão, Alcoutim e Ourique, onde a potencialidade é também grande, nada, praticamente foi feito, em matéria de prospecção gravimétrica.
Aconselhamos vigorosamente a aplicação deste método.
Lembremo-nos de que, a todos os jazigos novos conhecidos na Faixa Piritosa Alentejana correspondem anomalias bem definidas pela gravimetria, o mesmo não podendo afirmar de qualquer dos outros métodos que têm sido aplicados.
O Serviço de Fomento Mineiro poderá continuar a prestar a sua colaboração na matéria, em campanhas de curta duração, tal como fez em anos anteriores. As numerosas solicitações que tem de várias Companhias e o seu programa próprio não lhe permitem comprometer-se em campanhas longas.
Como o tempo de que dispõe Mining Ezxplorations (International), contando já com as prováveis prorrogações, é muito limitado para a cobertura de todas as áreas favoráveis, é aconselhável que Mining Explorations (International) disponha de, pelo menos, uma equipa de gravimetria, em trabalho permanente, até ao termo do contrato com o Estado Português.
Na impossibilidade de o Serviço de Fomento Mineiro lhe poder dar este apoio permanente, sugerimos que Mining Explorations (International) crie a sua própria equipa.
Computamos em cerca de 4.000$00/dia a despesa de uma destas equipas (contando já com a amortização de gravímetro, taqueómetro, níveis, viatura e outro equipamento auxiliar, em 5 anos, e duas estadias de Mr. Roux em Portugal, como supervisor deste trabalho).
…
Não se aconselham novas sondagens na Faixa Piritosa, sem haver um número suficientemente grande de anomalias gravimétricas que permita fazer uma selecção das verdadeiramente auspiciosas.
Quanto maior for o número de anomalias para escolha, maior será a probabilidade de sucesso.
Não deve esquecer-se que as maiores despesas na procura de jazigos minerais são as feitas pelas sondagens.
Um mês de trabalho com o gravímetro (considerando 50 observações diárias com malha d 100m x 100m) dá informação sobre 13 km2, a um custo muito inferior a 10 contos por km2. Uma só sondagem custa geralmente, algumas dezenas de vezes mais e a informação que presta é muito mais limitada”
Continua...
sexta-feira, 5 de dezembro de 2008
31 - A inauguração oficial das novas instalações do SFM em S. Mamede de Infesta
A inauguração oficial das novas instalações do SFM ocorreu em Agosto de 1964, com a presença do Presidente da República e de membros do Governo, do Director-Geral em exercício e do Director-Geral cessante.
O projecto destas instalações e o acompanhamento da sua construção ficaram a dever-se, ao Arquitecto António Linhares de Oliveira, que tinha ingressado no SFM como desenhador e que tirara o curso como estudante-trabalhador.
Com surpresa minha e de outros funcionários do SFM, o Director-Geral, recentemente nomeado, não lhe atribuiu a designação que lhe competia.
Designou-as como “Laboratórios da Direcção-Geral de Minas”, menosprezando assim o SFM, perante a passividade do dirigente deste Serviço, que se refugiou num total apagamento na cerimónia inaugural.
Esta foi a primeira indicação de que o novo Director-Geral pretendia exercer, as funções que competiam ao Director do SFM, consciente como estava da mediocridade deste e, também, porque confiava poder ser autor de algumas descobertas.
Se as equipas por mim constituídas tinham conseguido resultados notáveis, porque não poderia ele, com outras equipas, obter idênticos sucessos?
À actuação que teve, neste âmbito, ir-me-ei referir em devido tempo.
Recordo do seu discurso na inauguração, os elogios ao chamado “Estado Novo” da era Salazar e o estilo retórico, denunciando as “vestes sebastianistas” que muito fizeram rir o Engenheiro Castro e Solla que, a meu lado, não conteve os seus perspicazes comentários.
Recordo ainda alguns dos meus colegas constrangidos no fato-macaco que raramente usavam, mas que nesse dia se prontificaram a envergar, para dar mais evidência á sua actividade mineira.
A mim, não convidou a colaborar nessa ridícula atitude teatral, pois sabia de antemão que tal não seria aceite, apesar de saber das minhas muitas horas em trabalhos subterrâneos nos 15 anos em que os dirigi, quando exerci as funções de Chefe da Brigada do Sul.
O projecto destas instalações e o acompanhamento da sua construção ficaram a dever-se, ao Arquitecto António Linhares de Oliveira, que tinha ingressado no SFM como desenhador e que tirara o curso como estudante-trabalhador.
Com surpresa minha e de outros funcionários do SFM, o Director-Geral, recentemente nomeado, não lhe atribuiu a designação que lhe competia.
Designou-as como “Laboratórios da Direcção-Geral de Minas”, menosprezando assim o SFM, perante a passividade do dirigente deste Serviço, que se refugiou num total apagamento na cerimónia inaugural.
Esta foi a primeira indicação de que o novo Director-Geral pretendia exercer, as funções que competiam ao Director do SFM, consciente como estava da mediocridade deste e, também, porque confiava poder ser autor de algumas descobertas.
Se as equipas por mim constituídas tinham conseguido resultados notáveis, porque não poderia ele, com outras equipas, obter idênticos sucessos?
À actuação que teve, neste âmbito, ir-me-ei referir em devido tempo.
Recordo do seu discurso na inauguração, os elogios ao chamado “Estado Novo” da era Salazar e o estilo retórico, denunciando as “vestes sebastianistas” que muito fizeram rir o Engenheiro Castro e Solla que, a meu lado, não conteve os seus perspicazes comentários.
Recordo ainda alguns dos meus colegas constrangidos no fato-macaco que raramente usavam, mas que nesse dia se prontificaram a envergar, para dar mais evidência á sua actividade mineira.
A mim, não convidou a colaborar nessa ridícula atitude teatral, pois sabia de antemão que tal não seria aceite, apesar de saber das minhas muitas horas em trabalhos subterrâneos nos 15 anos em que os dirigi, quando exerci as funções de Chefe da Brigada do Sul.
quarta-feira, 3 de dezembro de 2008
30 - As reuniões do Director do SFM com os Chefes de Serviço e com o Chefe do MOVIC -2.ª parte
Os temas principais a abordar nestas reuniões deveriam, obviamente, ser os programas dos diferentes Serviços e os procedimentos a adoptar para lhes dar cumprimento.
Pelo que à 1.ª Brigada de Prospecção dizia respeito, estavam já em execução os programas que eu tinha apresentado, ainda como Chefe da Brigada do Sul.
Com esse objectivo, foi progressivamente constituído o Quadro de Engenheiros e Geólogos e promovida a sua especialização, como já disse em post anterior.
Na actividade das Secções, apenas ficou desguarnecida a Secção de Castro Verde, onde decorriam trabalhos de prospecção geofísica, em virtude de o Director ter afectado ao 2.º Serviço o Agente Técnico de Engenharia que a chefiava, o qual tinha obtido boa formação, através dos ensinamentos que lhe transmiti, desde que ingressou no SFM, sem experiência e com insuficiente preparação académica.
Já com alguns anos de actividade diversificada, contava com ele para a concretização das campanhas de prospecção projectadas nesta importante parcela da Faixa Piritosa.
Durante algum tempo, este Agente Técnico de Engenharia, disponibilizou-se para me prestar colaboração, para além das tarefas que lhe estavam distribuídas no 2.º Serviço, chegando até a acompanhar-me em visitas que, durante as minhas estadias periódicas em Beja, efectuei, em fins de semanas, às antigas minas de cobre de Algaré, Barrigão, Brancanes e Porteirinhos, onde anos mais tarde viriam a ser projectados trabalhos de gravimetria que deram origem à descoberta do jazigo de Neves-Corvo.
Tentei demover o Director da sua teimosa decisão de me retirar a colaboração deste técnico, provocando até, em sábado à tarde, reunião sobre o tema, com presença do Director-Geral.
Manifestei-lhes o receio de que o Agente Técnico de Engenharia, que já revelava grandes divergências com o seu Chefe, pudesse abandonar o SFM, perante oportunidade que empresa privada lhe estava a oferecer, com melhor remuneração.
As minhas reflexões não foram consideradas e o Agente Técnico de Engenharia abandonou, de facto, o SFM, assim se consumando mais uma perda de valioso elemento com formação adequada ao cumprimento dos objectivos do SFM.
Perante a situação que se lhe deparou, a solução que o Engenheiro citado encontrou para orientar os trabalhos mineiros da Secção de Castro Verde foi deslocar a esta Secção, em tempo parcial, um dos Agentes Técnicos de Engenharia da Secção de Moura e Barrancos.
Não considerou a hipótese de ele próprio fazer essa orientação, como lhe competia, certamente por se não sentir preparado.
A lacuna criada ao 1.º Serviço foi resolvida com maior assistência no terreno pela equipa sediada em Beja.
Esta é uma amostra do ambiente que se ia gerando nas reuniões, que se foi progressivamente deteriorando, sendo eu elemento estranho ao grupo há muito constituído no Norte, que alguém apelidou de “companheiros da opa”, pelas suas idênticas religiosidades hipócritas.
As minhas ingénuas esperanças de que o Director apreciasse a leal colaboração que lhe estava a prestar, contribuindo para o seu próprio prestígio, foram-se progressivamente desvanecendo perante a impossibilidade de conseguir no Norte resultados idênticos aos obtidos no Sul.
Tornou-se-me evidente a deliberada preocupação deste dirigente em dificultar a minha actividade.
Não conseguiu, inicialmente, causar grande dano, pois nessa época, o Director-Geral dava-me grande apoio e até iria aproveitar a obra conseguida pelas equipas sob minha chefia, para demonstrar a governantes a importância do SFM e da Direcção-Geral de Minas onde o SFM se integrava.
Recordo uma reunião em que o Director e seus acólitos perderam totalmente a serenidade na manifestação das suas divergências para comigo, estando o gravador com a fita magnética a rodar, supostamente a registar tudo quanto se dizia. Mas o Director, não tendo conseguido que eu alinhasse neste tipo de procedimento, acabou por revelar que afinal a fita rodava mas não gravava, por não ter sido accionado o botão adequado. Esperteza saloia que me deixou estupefacto.
O Director, por exemplo, achara estranho e manifestara-se violentamente contra o facto de eu ter inserido em relatórios, documentos de transmissão de poderes, quando foram integradas no 1.º Serviço as Brigadas de Levantamentos Litológicos, de Prospecção Geofísica, etc., destacando as suas actividades anteriores à integração. E estes documentos, a mim, afiguravam-se essenciais até para evitar repetições de estudos que tivessem qualidade.
No Norte e no Centro do País, antes de completada a fase de documentação, podiam imediatamente considerar-se os três problemas que constituíram a plano inicial de reconhecimento mineiro do País, isto é: o inventário das existências de carvões e de minérios de ouro e de ferro.
No que respeita aos carvões, a situação que encontrei foi de grande desorganização. Havia sondagens em curso e muitas das efectuadas estavam por estudar, tanto na bacia carbonífera do Douro como na zona carbonífera de Ourém, em condições que descreverei proximamente.
Tornava-se necessário pôr ordem nestes estudos, antes de projectar nova fase de investigações, como se pretendia.
Quanto ao problema do ouro, duas regiões sobressaíam: a de Jales - Três Minas e a Faixa antimonífera e aurífera do Douro.
Relativamente à primeira, informei já ter estabelecido contacto pessoal com o Director Técnico da Mina de Jales, na sequência de inquérito formulado no âmbito de um Plano de Fomento, em que tinha participado, por nomeação do Director-Geral.
Desse contacto resultou o meu conhecimento de que a empresa concessionária enfrentava um problema que o SFM poderia ajudar a resolver.
Esse problema era encontrar a continuidade para Sul, do filão principal que a Empresa estava a explorar.
Como o SFM tinha tido sucesso na detecção do sistema filoniano de Aparis, pela aplicação do método electromagnético Turam, apresentei plano que já tinha preparado para a região de Jales – Três Minas com uso da mesma técnica.
Esperava, não só encontrar a continuidade do filão conhecido, mas também, eventualmente, outros filões.
Tornava-se, obviamente necessário que me fosse disponibilizado pessoal que eu prepararia para dar execução a este projecto.
Tal não aconteceu e o projecto não teve concretização.
Anos mais tarde, um prestigiado Geólogo português, que estava integrado no departamento mineiro da Companhia petrolífera BP, contactou-me para que lhe indicasse locais do País com potencialidades para a ocorrência de jazigos de ouro. Sugeri-lhe a área de Jales – Três Minas. A BP aceitou a sugestão e, através de contrato com a concessionária, realizou importantes trabalhos de prospecção, mas não conseguiu resultados que justificassem investimentos na exploração do jazigo.
Relativamente à Faixa antimonífera e aurífera do Douro, dela se encarregou o 2.º Serviço, através da execução de trabalhos mineiros, em áreas de concessões em vigor ou abandonadas.
No caso do ferro, salientava-se o jazigo de Moncorvo. As reservas conhecidas eram abundantes, não se colocando, nessa data, defini-las com maior precisão.
As minas estavam em exploração e o minério era expedido, por via férrea, para a Siderurgia Nacional que tinha sido inaugurada em 1960.
O ritmo de exploração era, porém desproporcionado em relação à grandeza das reservas.
Já os livros de Liceu citavam autor espanhol que considerava este jazigo como contendo “as reservas de ferro da Europa”.
O principal problema que, então se colocava era o transporte do minério, em termos económicos, até aos centros siderúrgicos nacionais e estrangeiros,
Estava-se na fase de analisar esses meios de transporte.
A navegabilidade do Rio Douro e a preparação do porto de Leixões para embarque do minério deram origem a várias Comissões de técnicos encarregados dos respectivos estudos.
Como já referi, noutro post, anos mais tarde, foram disponibilizados dois Geólogos para colaborar com a empresa concessionária em projecto de sondagens com vista a mais exacto conhecimento das reservas no sector do Cabeço da Mua, onde se planeava concentrar principalmente a exploração.
Mas não era apenas com os minérios de Moncorvo, de Orada e de Cercal- Odemira que se contava para a metalurgia do ferro em Portugal.
O jazigo de Guadramil, onde o SFM fizera importantes trabalhos de pesquisa e reconhecimento estava fora de causa, não só pela exiguidade das suas reservas, mas principalmente pelas maiores dificuldades de acesso.
Havia Vila Cova do Marão, onde, em 1956, entrara em funcionamento um complexo mineiro e metalúrgico com capacidade de produção de gusa de fundição de 29.000 toneladas/ano.
Nas Minas de Vila Cova o SFM tinha feito realizar, no princípio da década de 40, uma campanha de prospecção magnética, por contrato com a Companhia sueca ABEM.
Em anos mais recentes, tinha dado cumprimento a um projecto de sondagens.
Numa das reuniões, o Director afirmou haver divergências grandes entre resultados dos estudos do concessionário e os do SFM.
Impunha-se uma análise cuidada de toda a documentação respeitante a este jazigo, pois considerava-se a hipótese de deverem ser projectadas novas sondagens.
O Director encarregou-se de encontrar, não só os relatórios, como os logs, plantas e perfis pelas sondagens e os testemunhos destas sondagens.
Em reuniões seguintes, este caso de Vila Cova voltou a ser por mim abordado. Todavia, o Director começou a ficar embaraçado, pois nem relatórios, nem desenhos nem testemunhos se encontravam.
Deste embaraço resultou que não mais se realizaram reuniões!
O Director-Geral, que já em diversas ocasiões se assumira como dirigente do SFM, criou em Janeiro de 1968, uma Comissão a que chamou “Comissão de Fomento”, através da qual passou a ter forte intervenção na actividade do SFM, assim procurando suprir a incapacidade demonstrada pelo dirigente do SFM.
Às reuniões desta Comissão me referirei, em devido tempo.
Não tendo conseguido pessoal para enfrentar os problemas do ouro e do ferro, foi, já na década de 70, que criei as Secções de Caminha e de Talhadas, chefiadas por Colectores, aos quais proporcionei formação adequada, conforme já referi noutro post..
Na Secção de Caminha, os estudos tiveram por objectivo investigar essencialmente a existência de mineralizações tungstíferas.
Na Secção de Talhadas, o objectivo foi detectar sobretudo mineralizações de chumbo e zinco numa área que denominei de Faixa Metalífera da Beira Litoral, que se estende desde as proximidades do Porto até Sul de Coimbra.
A vida atribulada destas duas Secções constituirá matéria para vários posts.
Pelo que à 1.ª Brigada de Prospecção dizia respeito, estavam já em execução os programas que eu tinha apresentado, ainda como Chefe da Brigada do Sul.
Com esse objectivo, foi progressivamente constituído o Quadro de Engenheiros e Geólogos e promovida a sua especialização, como já disse em post anterior.
Na actividade das Secções, apenas ficou desguarnecida a Secção de Castro Verde, onde decorriam trabalhos de prospecção geofísica, em virtude de o Director ter afectado ao 2.º Serviço o Agente Técnico de Engenharia que a chefiava, o qual tinha obtido boa formação, através dos ensinamentos que lhe transmiti, desde que ingressou no SFM, sem experiência e com insuficiente preparação académica.
Já com alguns anos de actividade diversificada, contava com ele para a concretização das campanhas de prospecção projectadas nesta importante parcela da Faixa Piritosa.
Durante algum tempo, este Agente Técnico de Engenharia, disponibilizou-se para me prestar colaboração, para além das tarefas que lhe estavam distribuídas no 2.º Serviço, chegando até a acompanhar-me em visitas que, durante as minhas estadias periódicas em Beja, efectuei, em fins de semanas, às antigas minas de cobre de Algaré, Barrigão, Brancanes e Porteirinhos, onde anos mais tarde viriam a ser projectados trabalhos de gravimetria que deram origem à descoberta do jazigo de Neves-Corvo.
Tentei demover o Director da sua teimosa decisão de me retirar a colaboração deste técnico, provocando até, em sábado à tarde, reunião sobre o tema, com presença do Director-Geral.
Manifestei-lhes o receio de que o Agente Técnico de Engenharia, que já revelava grandes divergências com o seu Chefe, pudesse abandonar o SFM, perante oportunidade que empresa privada lhe estava a oferecer, com melhor remuneração.
As minhas reflexões não foram consideradas e o Agente Técnico de Engenharia abandonou, de facto, o SFM, assim se consumando mais uma perda de valioso elemento com formação adequada ao cumprimento dos objectivos do SFM.
Perante a situação que se lhe deparou, a solução que o Engenheiro citado encontrou para orientar os trabalhos mineiros da Secção de Castro Verde foi deslocar a esta Secção, em tempo parcial, um dos Agentes Técnicos de Engenharia da Secção de Moura e Barrancos.
Não considerou a hipótese de ele próprio fazer essa orientação, como lhe competia, certamente por se não sentir preparado.
A lacuna criada ao 1.º Serviço foi resolvida com maior assistência no terreno pela equipa sediada em Beja.
Esta é uma amostra do ambiente que se ia gerando nas reuniões, que se foi progressivamente deteriorando, sendo eu elemento estranho ao grupo há muito constituído no Norte, que alguém apelidou de “companheiros da opa”, pelas suas idênticas religiosidades hipócritas.
As minhas ingénuas esperanças de que o Director apreciasse a leal colaboração que lhe estava a prestar, contribuindo para o seu próprio prestígio, foram-se progressivamente desvanecendo perante a impossibilidade de conseguir no Norte resultados idênticos aos obtidos no Sul.
Tornou-se-me evidente a deliberada preocupação deste dirigente em dificultar a minha actividade.
Não conseguiu, inicialmente, causar grande dano, pois nessa época, o Director-Geral dava-me grande apoio e até iria aproveitar a obra conseguida pelas equipas sob minha chefia, para demonstrar a governantes a importância do SFM e da Direcção-Geral de Minas onde o SFM se integrava.
Recordo uma reunião em que o Director e seus acólitos perderam totalmente a serenidade na manifestação das suas divergências para comigo, estando o gravador com a fita magnética a rodar, supostamente a registar tudo quanto se dizia. Mas o Director, não tendo conseguido que eu alinhasse neste tipo de procedimento, acabou por revelar que afinal a fita rodava mas não gravava, por não ter sido accionado o botão adequado. Esperteza saloia que me deixou estupefacto.
O Director, por exemplo, achara estranho e manifestara-se violentamente contra o facto de eu ter inserido em relatórios, documentos de transmissão de poderes, quando foram integradas no 1.º Serviço as Brigadas de Levantamentos Litológicos, de Prospecção Geofísica, etc., destacando as suas actividades anteriores à integração. E estes documentos, a mim, afiguravam-se essenciais até para evitar repetições de estudos que tivessem qualidade.
No Norte e no Centro do País, antes de completada a fase de documentação, podiam imediatamente considerar-se os três problemas que constituíram a plano inicial de reconhecimento mineiro do País, isto é: o inventário das existências de carvões e de minérios de ouro e de ferro.
No que respeita aos carvões, a situação que encontrei foi de grande desorganização. Havia sondagens em curso e muitas das efectuadas estavam por estudar, tanto na bacia carbonífera do Douro como na zona carbonífera de Ourém, em condições que descreverei proximamente.
Tornava-se necessário pôr ordem nestes estudos, antes de projectar nova fase de investigações, como se pretendia.
Quanto ao problema do ouro, duas regiões sobressaíam: a de Jales - Três Minas e a Faixa antimonífera e aurífera do Douro.
Relativamente à primeira, informei já ter estabelecido contacto pessoal com o Director Técnico da Mina de Jales, na sequência de inquérito formulado no âmbito de um Plano de Fomento, em que tinha participado, por nomeação do Director-Geral.
Desse contacto resultou o meu conhecimento de que a empresa concessionária enfrentava um problema que o SFM poderia ajudar a resolver.
Esse problema era encontrar a continuidade para Sul, do filão principal que a Empresa estava a explorar.
Como o SFM tinha tido sucesso na detecção do sistema filoniano de Aparis, pela aplicação do método electromagnético Turam, apresentei plano que já tinha preparado para a região de Jales – Três Minas com uso da mesma técnica.
Esperava, não só encontrar a continuidade do filão conhecido, mas também, eventualmente, outros filões.
Tornava-se, obviamente necessário que me fosse disponibilizado pessoal que eu prepararia para dar execução a este projecto.
Tal não aconteceu e o projecto não teve concretização.
Anos mais tarde, um prestigiado Geólogo português, que estava integrado no departamento mineiro da Companhia petrolífera BP, contactou-me para que lhe indicasse locais do País com potencialidades para a ocorrência de jazigos de ouro. Sugeri-lhe a área de Jales – Três Minas. A BP aceitou a sugestão e, através de contrato com a concessionária, realizou importantes trabalhos de prospecção, mas não conseguiu resultados que justificassem investimentos na exploração do jazigo.
Relativamente à Faixa antimonífera e aurífera do Douro, dela se encarregou o 2.º Serviço, através da execução de trabalhos mineiros, em áreas de concessões em vigor ou abandonadas.
No caso do ferro, salientava-se o jazigo de Moncorvo. As reservas conhecidas eram abundantes, não se colocando, nessa data, defini-las com maior precisão.
As minas estavam em exploração e o minério era expedido, por via férrea, para a Siderurgia Nacional que tinha sido inaugurada em 1960.
O ritmo de exploração era, porém desproporcionado em relação à grandeza das reservas.
Já os livros de Liceu citavam autor espanhol que considerava este jazigo como contendo “as reservas de ferro da Europa”.
O principal problema que, então se colocava era o transporte do minério, em termos económicos, até aos centros siderúrgicos nacionais e estrangeiros,
Estava-se na fase de analisar esses meios de transporte.
A navegabilidade do Rio Douro e a preparação do porto de Leixões para embarque do minério deram origem a várias Comissões de técnicos encarregados dos respectivos estudos.
Como já referi, noutro post, anos mais tarde, foram disponibilizados dois Geólogos para colaborar com a empresa concessionária em projecto de sondagens com vista a mais exacto conhecimento das reservas no sector do Cabeço da Mua, onde se planeava concentrar principalmente a exploração.
Mas não era apenas com os minérios de Moncorvo, de Orada e de Cercal- Odemira que se contava para a metalurgia do ferro em Portugal.
O jazigo de Guadramil, onde o SFM fizera importantes trabalhos de pesquisa e reconhecimento estava fora de causa, não só pela exiguidade das suas reservas, mas principalmente pelas maiores dificuldades de acesso.
Havia Vila Cova do Marão, onde, em 1956, entrara em funcionamento um complexo mineiro e metalúrgico com capacidade de produção de gusa de fundição de 29.000 toneladas/ano.
Nas Minas de Vila Cova o SFM tinha feito realizar, no princípio da década de 40, uma campanha de prospecção magnética, por contrato com a Companhia sueca ABEM.
Em anos mais recentes, tinha dado cumprimento a um projecto de sondagens.
Numa das reuniões, o Director afirmou haver divergências grandes entre resultados dos estudos do concessionário e os do SFM.
Impunha-se uma análise cuidada de toda a documentação respeitante a este jazigo, pois considerava-se a hipótese de deverem ser projectadas novas sondagens.
O Director encarregou-se de encontrar, não só os relatórios, como os logs, plantas e perfis pelas sondagens e os testemunhos destas sondagens.
Em reuniões seguintes, este caso de Vila Cova voltou a ser por mim abordado. Todavia, o Director começou a ficar embaraçado, pois nem relatórios, nem desenhos nem testemunhos se encontravam.
Deste embaraço resultou que não mais se realizaram reuniões!
O Director-Geral, que já em diversas ocasiões se assumira como dirigente do SFM, criou em Janeiro de 1968, uma Comissão a que chamou “Comissão de Fomento”, através da qual passou a ter forte intervenção na actividade do SFM, assim procurando suprir a incapacidade demonstrada pelo dirigente do SFM.
Às reuniões desta Comissão me referirei, em devido tempo.
Não tendo conseguido pessoal para enfrentar os problemas do ouro e do ferro, foi, já na década de 70, que criei as Secções de Caminha e de Talhadas, chefiadas por Colectores, aos quais proporcionei formação adequada, conforme já referi noutro post..
Na Secção de Caminha, os estudos tiveram por objectivo investigar essencialmente a existência de mineralizações tungstíferas.
Na Secção de Talhadas, o objectivo foi detectar sobretudo mineralizações de chumbo e zinco numa área que denominei de Faixa Metalífera da Beira Litoral, que se estende desde as proximidades do Porto até Sul de Coimbra.
A vida atribulada destas duas Secções constituirá matéria para vários posts.
sábado, 29 de novembro de 2008
29 - As reuniões do Director do SFM com os Chefes de Serviços e com o Chefe do Movic -1.ª parte
Num período inicial do exercício das suas funções, o novo Director do SFM, tomou a decisão de promover reuniões com os Chefes dos Serviços instituídos pela nova Orgânica e com o Chefe do Movic.
Esta decisão fez nascer em mim a esperança na dinamização de que o SFM estava necessitado, até porque o Director também manifestara, em reunião com o pessoal mais categorizado que teve lugar na Sala das Sessões, essa mesma esperança, baseado na minha experiência no Sul, cujas provas estavam nos sucessos conseguidos na Faixa Piritosa do Alentejo com a descoberta do jazigo de Carrasco – Moinho, nos jazigos ferro-manganíferos da Região de Cercal – Odemira, nas Minas de zinco da região de Moura, na Mina de cobre de Aparis, e em muitos outros locais.
Embora tivesse manifestado, em documento que entreguei ao Director como resposta ao seu pedido, total discordância relativamente à Orgânica que ele se propunha pôr em vigor, pelos motivos que expus, acolhi com algum entusiasmo a ideia destas reuniões, através das quais pensava que poderiam, sem desrespeito pela Orgânica, ser tomadas as medidas adequadas à concretização dos reais objectivos do SFM.
Nestas reuniões, entre outras matérias, eram analisados os projectos de trabalhos e os meios para os concretizar.
Pelo que ao Serviço de Prospecção Mineira, a meu cargo, dizia respeito, comecei por salientar a dificuldade com que deparava na consulta à documentação sobre minas ou ocorrências minerais já conhecidas na região a Norte do Rio Tejo.
No que respeitava ao Sul do País, o problema estava já a ser resolvido, com a preparação de mapas a escalas apropriadas para fácil consulta. Quanto a minas ou ocorrências minerais, há muito que existiam em arquivo os documentos necessários até porque as minas, nessa zona do País, são muito menos numerosas.
Considerando a importância do sector da Documentação, que também me estava confiado, chamei vigorosamente a atenção do Director para lhe ser dada a devida atenção.
Já havia um princípio de organização neste sector, por iniciativa de um competente Agente Técnico de Engenharia.
Era ele, com a colaboração de algum pessoal administrativo, que se encarregava, não só do arquivo das publicações que davam entrada no SFM, por aquisição ou permuta, mas também da edição dos volumes da Revista “Estudos, Notas e Trabalhos do Serviço de Fomento Mineiro”.
Lamentavelmente, não pude contar com a sua preciosa colaboração, pois este Agente Técnico regressou ao Quadro da Direcção-Geral de Minas em Lisboa, ao qual pertencia, tendo estado destacado no SFM desde a sua criação.
Era ele quem se encarregava da elaboração do Relatório Anual do SFM, com base nos relatórios dos diversos departamentos do SFM. Este relatório figurava num dos volumes da Revista, a que aludi, e era fundamental para dar a conhecer ao País a actividade deste Organismo do Estado.
Na reunião que teve lugar em 4 de Agosto de 1964, apresentei a sugestão de se criar um departamento de real eficiência, a cargo do qual ficariam, não apenas livros e revistas, mas tudo quanto pudesse constituir elemento valioso de consulta, para os estudos do Serviço.
Assim, relatórios internos ou de outras entidades – publicados ou não – documentos de prospecções, amostras de minérios e rochas, lâminas delgadas, superfícies polidas, diagramas, boletins de análises, testemunhos de sondagens, etc. deveriam ser ordenados e catalogados pela “Documentação”, de forma a rapidamente se tornarem acessíveis.
Foi, nessa data que apresentei o modelo de ficha a que me referi no post anterior.
Isto que acabo de escrever consta da página 1 do meu relatório de Agosto de 1964 e ficou também gravado em fita magnética de um gravador que funcionava durante estas reuniões (receio que tanto o relatório como a fita magnética tenham desaparecido).
Esta sugestão não foi tida em consideração e aconteceu que, em 24 de Outubro de 1964, o Director decidiu desligar do 1.º Serviço o sector de Documentação, assumindo-o a seu cargo.
No que respeita a publicações recebidas e editadas pelo SFM, este departamento desempenhou muito satisfatoriamente a sua missão, apesar das instalações desadequadas que lhe foram destinadas, graças à dedicação de funcionários zelosos que do sector ficaram encarregados. Sendo eu o maior cliente deste departamento, sempre encontrei a maior solicitude em dar satisfação aos meus pedidos.
A recusa da minha proposta de criação de um amplo sector de Documentação e a colocação do sector existente a cargo do Director teve várias consequências.
A primeira foi ter deixado de se publicar o relatório anual da actividade do SFM, ficando assim a indústria mineira nacional privada de importante informação que poderia suscitar investimentos em áreas cuja potencialidade ia sendo revelada.
Outra consequência foi a perda de relatórios técnicos que eram retirados, com facilidade, dos arquivos e não eram lá repostos. Posso citar o caso de um relatório de minha autoria que um representante de Empresa privada pretendia consultar e que o Director não conseguiu encontrar. Na minha ausência, foi ao meu gabinete, e lá conseguiu encontrar a cópia que, de direito, me pertencia como seu autor.
Para evitar que casos destes se repetissem, as pastas do meu arquivo deixaram de ter indicação do que lá se continha, confiando eu na minha memória para as consultar, tendo obviamente um esquema organizativo.
Correram rumores de que alguns dos relatórios desviados foram objecto de negociações ilícitas.
Outra das consequências foi a perda de mais de uma centena de milhar de amostras de sedimentos de linhas de água e de solos que haviam sido colhidas, durante dezenas de anos, na Faixa metalífera da Beira Litoral, que um dirigente do Laboratório decidiu destruir, ignorando o seu valor. A maior parte destas amostras, cujo valor ascendia a muitos milhares de contos (na moeda antiga) tinha sido analisada no Laboratório de Beja, apenas para metais pesados (sobretudo zinco), a frio, por incapacidade de outras análises poderem ser efectuadas, quando foram colhidas.
Aguardava-se a oportunidade de as fazer analisar para outros elementos, pelos novos métodos rápidos e eficazes que, entretanto, foram desenvolvidos (absorção atómica, raios X, espectrografia de emissão, etc.).
E, no que respeita a testemunhos de sondagens a situação assumiu aspectos de extrema gravidade a que me referirei, em devido tempo.
…continua …
Esta decisão fez nascer em mim a esperança na dinamização de que o SFM estava necessitado, até porque o Director também manifestara, em reunião com o pessoal mais categorizado que teve lugar na Sala das Sessões, essa mesma esperança, baseado na minha experiência no Sul, cujas provas estavam nos sucessos conseguidos na Faixa Piritosa do Alentejo com a descoberta do jazigo de Carrasco – Moinho, nos jazigos ferro-manganíferos da Região de Cercal – Odemira, nas Minas de zinco da região de Moura, na Mina de cobre de Aparis, e em muitos outros locais.
Embora tivesse manifestado, em documento que entreguei ao Director como resposta ao seu pedido, total discordância relativamente à Orgânica que ele se propunha pôr em vigor, pelos motivos que expus, acolhi com algum entusiasmo a ideia destas reuniões, através das quais pensava que poderiam, sem desrespeito pela Orgânica, ser tomadas as medidas adequadas à concretização dos reais objectivos do SFM.
Nestas reuniões, entre outras matérias, eram analisados os projectos de trabalhos e os meios para os concretizar.
Pelo que ao Serviço de Prospecção Mineira, a meu cargo, dizia respeito, comecei por salientar a dificuldade com que deparava na consulta à documentação sobre minas ou ocorrências minerais já conhecidas na região a Norte do Rio Tejo.
No que respeitava ao Sul do País, o problema estava já a ser resolvido, com a preparação de mapas a escalas apropriadas para fácil consulta. Quanto a minas ou ocorrências minerais, há muito que existiam em arquivo os documentos necessários até porque as minas, nessa zona do País, são muito menos numerosas.
Considerando a importância do sector da Documentação, que também me estava confiado, chamei vigorosamente a atenção do Director para lhe ser dada a devida atenção.
Já havia um princípio de organização neste sector, por iniciativa de um competente Agente Técnico de Engenharia.
Era ele, com a colaboração de algum pessoal administrativo, que se encarregava, não só do arquivo das publicações que davam entrada no SFM, por aquisição ou permuta, mas também da edição dos volumes da Revista “Estudos, Notas e Trabalhos do Serviço de Fomento Mineiro”.
Lamentavelmente, não pude contar com a sua preciosa colaboração, pois este Agente Técnico regressou ao Quadro da Direcção-Geral de Minas em Lisboa, ao qual pertencia, tendo estado destacado no SFM desde a sua criação.
Era ele quem se encarregava da elaboração do Relatório Anual do SFM, com base nos relatórios dos diversos departamentos do SFM. Este relatório figurava num dos volumes da Revista, a que aludi, e era fundamental para dar a conhecer ao País a actividade deste Organismo do Estado.
Na reunião que teve lugar em 4 de Agosto de 1964, apresentei a sugestão de se criar um departamento de real eficiência, a cargo do qual ficariam, não apenas livros e revistas, mas tudo quanto pudesse constituir elemento valioso de consulta, para os estudos do Serviço.
Assim, relatórios internos ou de outras entidades – publicados ou não – documentos de prospecções, amostras de minérios e rochas, lâminas delgadas, superfícies polidas, diagramas, boletins de análises, testemunhos de sondagens, etc. deveriam ser ordenados e catalogados pela “Documentação”, de forma a rapidamente se tornarem acessíveis.
Foi, nessa data que apresentei o modelo de ficha a que me referi no post anterior.
Isto que acabo de escrever consta da página 1 do meu relatório de Agosto de 1964 e ficou também gravado em fita magnética de um gravador que funcionava durante estas reuniões (receio que tanto o relatório como a fita magnética tenham desaparecido).
Esta sugestão não foi tida em consideração e aconteceu que, em 24 de Outubro de 1964, o Director decidiu desligar do 1.º Serviço o sector de Documentação, assumindo-o a seu cargo.
No que respeita a publicações recebidas e editadas pelo SFM, este departamento desempenhou muito satisfatoriamente a sua missão, apesar das instalações desadequadas que lhe foram destinadas, graças à dedicação de funcionários zelosos que do sector ficaram encarregados. Sendo eu o maior cliente deste departamento, sempre encontrei a maior solicitude em dar satisfação aos meus pedidos.
A recusa da minha proposta de criação de um amplo sector de Documentação e a colocação do sector existente a cargo do Director teve várias consequências.
A primeira foi ter deixado de se publicar o relatório anual da actividade do SFM, ficando assim a indústria mineira nacional privada de importante informação que poderia suscitar investimentos em áreas cuja potencialidade ia sendo revelada.
Outra consequência foi a perda de relatórios técnicos que eram retirados, com facilidade, dos arquivos e não eram lá repostos. Posso citar o caso de um relatório de minha autoria que um representante de Empresa privada pretendia consultar e que o Director não conseguiu encontrar. Na minha ausência, foi ao meu gabinete, e lá conseguiu encontrar a cópia que, de direito, me pertencia como seu autor.
Para evitar que casos destes se repetissem, as pastas do meu arquivo deixaram de ter indicação do que lá se continha, confiando eu na minha memória para as consultar, tendo obviamente um esquema organizativo.
Correram rumores de que alguns dos relatórios desviados foram objecto de negociações ilícitas.
Outra das consequências foi a perda de mais de uma centena de milhar de amostras de sedimentos de linhas de água e de solos que haviam sido colhidas, durante dezenas de anos, na Faixa metalífera da Beira Litoral, que um dirigente do Laboratório decidiu destruir, ignorando o seu valor. A maior parte destas amostras, cujo valor ascendia a muitos milhares de contos (na moeda antiga) tinha sido analisada no Laboratório de Beja, apenas para metais pesados (sobretudo zinco), a frio, por incapacidade de outras análises poderem ser efectuadas, quando foram colhidas.
Aguardava-se a oportunidade de as fazer analisar para outros elementos, pelos novos métodos rápidos e eficazes que, entretanto, foram desenvolvidos (absorção atómica, raios X, espectrografia de emissão, etc.).
E, no que respeita a testemunhos de sondagens a situação assumiu aspectos de extrema gravidade a que me referirei, em devido tempo.
…continua …
quarta-feira, 26 de novembro de 2008
28 – A organização do Serviço de Prospecção Mineira do SFM. - Continuação
A minha nomeação para a chefia do Serviço de Prospecção, a nível nacional, implicou a transferência da minha residência mais frequente, de Beja para o Porto, no final do ano de 1963.
Já então o SFM se encontrava instalado em amplos edifícios que, para o efeito, haviam sido construídos em S. Mamede de Infesta.
No edifício principal, os gabinetes mais espaçosos do piso destinado aos técnicos superiores sem funções laboratoriais, à Secretaria e à Sala de Desenho, estavam já ocupados por pessoal anteriormente residente no Porto.
Tinha-me sido destinado um exíguo gabinete, entre o salão do Director e a Secretaria, onde mal me podia movimentar.
Habituado a ter um grande estirador, onde estendia mapas e neles efectuava os estudos necessários à condução das campanhas de prospecção, estranhei que me tivesse sido destinado tal gabinete, sendo eu o mais categorizado funcionário, a seguir ao Director.
Foi-me explicado que o objectivo era manter-me próximo do Director para facilmente o poder auxiliar na sua missão de dirigente.
Rapidamente, porém, se me tornou difícil realizar o trabalho a que estava habituado.
Não tinha, além disso, condições para receber condignamente os representantes de Empresas portuguesas e estrangeiras que frequentemente me procuravam, interessados em documentar-se sobre áreas com potencialidades para justificarem campanhas de prospecção mineira a que se pretendiam candidatar por contrato com o Estado.
O Director concordou na minha transferência para um gabinete mais amplo, perto da Sala de Desenho, à qual tinha de recorrer amiudadas vezes.
Neste novo gabinete, funcionei como Chefe do Serviço de Prospecção e Chefe da 2.ª Brigada, que ia começar a organizar, seguindo critério idêntico ao utilizado na 1.ª Brigada.
Relativamente à documentação sobre as Minas do Centro e do Norte do País, a organização de um arquivo de rápida consulta apresentou-se-me muito menos fácil do que tinha sido no Sul, por vários motivos.
Em primeiro lugar eram muito mais numerosas as concessões em vigor, abandonadas ou já anuladas.
A febre do volfrâmio, durante a 2.ª Guerra Mundial, tinha dado origem a concessões por todo o lado, sem contar com as ocorrências conhecidas onde tinham sido efectuadas explorações ilegais vulgarmente designadas por “pilhas”
Em segundo lugar, pouco pessoal qualificado me foi disponibilizado para efectuar a pesquisa dos dados úteis contidos nos processos dessas concessões, que a Circunscrição Mineira do Norte me facultava.
Em terceiro lugar, muitos dos dados contidos nos relatórios das empresas privadas e mesmo das entidades oficiais tinham pouco interesse ou eram de rigor duvidoso, depreendendo-se que teriam sido elaborados apenas para cumprir formalidades legais.
Tornou-se evidente a necessidade de criar uma ficha que condensasse os elementos essenciais de cada mina ou simples ocorrência.
Para o efeito, consultei modelos em uso noutros países e consultei entidades que já tivessem enfrentado o problema ou tivessem nível para poder prestar contribuição útil.
A ficha foi criada e alguns milhares de exemplares foram mandados imprimir, em oficina de Beja onde costumavam ser encadernados os relatórios finais ou intercalares das investigações mineiras.
Foi dado início ao preenchimento das fichas, mas não se verificou a continuidade prevista, por carência de pessoal.
As fichas foram, anos mais tarde, aproveitadas principalmente pelo 4.º Serviço, que entretanto havia sido criado para proceder ao inventário das pedreiras, apesar de não terem sido preparadas para esse fim.
Deste novo Serviço foi encarregado um Engenheiro do SFM que regressara da Junta de Energia Nuclear, onde estivera destacado.
Não tendo conseguido constituir uma base de dados, por meio destas fichas, fui ao longo do tempo formando, no meu amplo gabinete, um arquivo com cópias de relatórios ou dados deles extraídos sobre minas situadas em áreas onde planeei executar campanhas de prospecção, pelo conhecimento que ia adquirindo das potencialidades desta zona do País.
Constituí também, um arquivo dos mapas à escala 1:5.000 e a outras escalas, tanto do Norte como do Sul do País.
Com o decorrer do tempo este arquivo foi crescendo, atingindo à data da minha aposentação, largas dezenas de milhar de cartas topográficas, geológicas, geofísicas e geoquímicas.
Segundo informação que recentemente me foi prestada, tive a satisfação de tomar conhecimento de que este espólio tem estado a ser devidamente informatizado, evitando assim a sua perda, que era de recear, perante o facto de os mapas serem, na sua grande maioria, cópias em papel ozalid, susceptíveis de se tornarem imperceptíveis com o seu envelhecimento.
Para a 2.ª Brigada de Prospecção foram inicialmente destacados um Geólogo, dois Agentes Técnicos de Engenharia e um Colector, que pertenciam ao Quadro de funcionários da sede de SFM, quase desde a sua fundação.
Estavam-lhes atribuídas funções relacionadas com o estudo da Bacia Carbonífera do Douro e com a Zona Carbonífera de Ourém.
Em 1964, regressou ao SFM um Geólogo que tinha sido destacado para a Junta de Energia Nuclear, quando da criação deste Organismo.
Foi integrado, logicamente no Serviço de Prospecção mas, considerando que a sua especialização era a cartografia geológica e que o prestigiado Professor da Universidade de Lisboa e acérrimo defensor da Geologia, Dr. Carlos Teixeira, se propunha supervisionar a sua actividade, e dado que o conhecimento geológico do território nacional é basilar para a prospecção, este Geólogo manteve-se sobretudo a prestar colaboração aos Serviços Geológicos de Portugal na região trasmontana, com vista não só à publicação de novas cartas geológicas à escala 1:50.000, mas também a uma nova edição da carta à escala 1:500.000
Em fins de 1964, foi também considerado integrado no Serviço de Prospecção sob minha chefia, o Geólogo Dr. António Ribeiro que, como bolseiro da Fundação Gulbenkian, vinha procedendo a estudos na região trasmontana, integrado na equipa do Geólogo do SFM a que acima me referi, sob a orientação superior do Professor Carlos Teixeira.
Registo que não foi emitida a respectiva Ordem de Serviço, apesar de o facto ter sido realçado no meu relatório do mês de Novembro desse ano. Isso constituiu um primeiro indício da indisciplina que o Director passou a introduzir na Orgânica que ele tinha instituído.
Registo que, apesar desta lacuna, o Dr. António Ribeiro se considerou integrado no Serviço de Prospecção, sempre tendo prestado contas da sua actividade em relatórios mensais, até que a indisciplina introduzida após a Revolução de Abril de 1974, alterou a situação. A essa indisciplina me referirei oportunamente.
Conforme já registei em outro post, recorri ao saber do Dr. António Ribeiro em diversas ocasiões, em outras áreas, sem perturbar os seus estudos em Trás-os-Montes.
Alguns anos depois, outro Geólogo que ingressou no SFM já com tarefa indicada, também se considerou integrado no Serviço de Prospecção que eu chefiava, apesar de a respectiva Ordem de Serviço não ter sido emitida.
Sempre descreveu pormenorizadamente a sua actividade em relatórios mensais que apresentava e que eu anexava ao meu, tal como fazia com todos os relatórios dos diferentes departamentos do 1.º Serviço.
Ele foi prestar colaboração à Empresa Ferrominas, onde decorriam sondagens, segundo projecto do Dr. António Ribeiro, para definição de reservas na área do Cabeço da Mua, que se pretendia explorar para abastecimento da Siderurgia Nacional.
Anos mais tarde, outros Geólogos e Engenheiros de Minas recém-formados, foram ingressando no SFM.
Sem Ordens que os colocassem no Serviço de Prospecção, actuaram sem adequado controlo, vagamente orientados pelo Director-Geral, como foi o caso dos denominados “Scheeliteiros”.
No que respeita aos Agentes Técnicos de Engenharia que ingressaram no Serviço de Prospecção, a situação não foi estimulante.
Não tinham experiência válida em prospecção mineira, mas ambos eram tidos como especializados em trabalhos de topografia.
A realidade provou ser diferente. Trabalho de piquetagem de que encarreguei um deles na região de Caminha, foi tão imperfeito, que veio a ocasionar-me sérios problemas para sua correcção.
Proporcionei-lhe estágio no Sul do País, em Secções da 1.ª Brigada, não só em piquetagem rigorosa, mas também em técnicas geofísicas e geoquímicas.
Lamentavelmente de pouco valeu este estágio, pois estavam bem enraizados vícios antigos, nunca corrigidos, talvez por excessiva benevolência dos dirigentes ou incapacidade destes para detectarem os erros que seguramente cometeram.
A situação, por se ter tornado insustentável, levou-me a denunciá-la ao Director, que decidiu colocá-lo sob sua directa chefia.
O outro Agente Técnico de Engenharia foi útil sobretudo em trabalhos de gabinete.
Fez a consulta aos documentos de carácter técnico sobre Minas concedidas, em vigor ou já anuladas, existentes no arquivo da Circunscrição Mineira do Norte, procedendo à cópia dos que se revelaram com interesse e preenchendo as respectivas fichas.
Prestou também colaboração ao Geólogo que estava encarregado dos estudos na Faixa Carbonífera do Douro, não só em trabalhos de gabinete, mas também em levantamentos topográficos.
Para a 2.ª Brigada de Prospecção, transitou um Colector que pertencia à equipa do Geólogo encarregado dos estudos nas bacias carboníferas.
Este Colector, apesar das suas limitadas habilitações legais (tinha apenas a antiga 4.ª Classe da Instrução Primária) revelou-se um excelente colaborador.
Foi com ele e com outro Colector que transferi da Secção de Évora da 1.ª Brigada de Prospecção para a 2.ª Brigada, que contei para a execução das campanhas de prospecção, às quais me foi possível dar início no Norte do País. A elas e, às vicissitudes por que tiveram que passar, me referirei oportunamente.
A minha presença na sede do SFM, longe de constituir situação favorável ao cumprimento dos objectivos do SFM, tornou mais difícil a concretização desses objectivos.
Perante as dificuldades que encontrei para desenvolver a prospecção no Norte, decidi continuar a concentrar a minha maior atenção nos problemas do Sul, onde a interferência do Director menos se fazia sentir, sempre na esperança de que meios materiais e humanos acabassem por me ser disponibilizados para dar cabal cumprimento aos planos de trabalhos no Norte do País, que anualmente ia apresentando.
Em próximos posts descreverei os êxitos que consegui no Norte, com a preciosa colaboração dos dois Colectores a que dei formação, transformando-os em prospectores competentes, não só em trabalho de campo, mas também nas fases iniciais do respectivo trabalho de gabinete. Eles supriram bem a carência de pessoal com melhor formação académica, que intencionalmente me não foi disponibilizado
Já então o SFM se encontrava instalado em amplos edifícios que, para o efeito, haviam sido construídos em S. Mamede de Infesta.
No edifício principal, os gabinetes mais espaçosos do piso destinado aos técnicos superiores sem funções laboratoriais, à Secretaria e à Sala de Desenho, estavam já ocupados por pessoal anteriormente residente no Porto.
Tinha-me sido destinado um exíguo gabinete, entre o salão do Director e a Secretaria, onde mal me podia movimentar.
Habituado a ter um grande estirador, onde estendia mapas e neles efectuava os estudos necessários à condução das campanhas de prospecção, estranhei que me tivesse sido destinado tal gabinete, sendo eu o mais categorizado funcionário, a seguir ao Director.
Foi-me explicado que o objectivo era manter-me próximo do Director para facilmente o poder auxiliar na sua missão de dirigente.
Rapidamente, porém, se me tornou difícil realizar o trabalho a que estava habituado.
Não tinha, além disso, condições para receber condignamente os representantes de Empresas portuguesas e estrangeiras que frequentemente me procuravam, interessados em documentar-se sobre áreas com potencialidades para justificarem campanhas de prospecção mineira a que se pretendiam candidatar por contrato com o Estado.
O Director concordou na minha transferência para um gabinete mais amplo, perto da Sala de Desenho, à qual tinha de recorrer amiudadas vezes.
Neste novo gabinete, funcionei como Chefe do Serviço de Prospecção e Chefe da 2.ª Brigada, que ia começar a organizar, seguindo critério idêntico ao utilizado na 1.ª Brigada.
Relativamente à documentação sobre as Minas do Centro e do Norte do País, a organização de um arquivo de rápida consulta apresentou-se-me muito menos fácil do que tinha sido no Sul, por vários motivos.
Em primeiro lugar eram muito mais numerosas as concessões em vigor, abandonadas ou já anuladas.
A febre do volfrâmio, durante a 2.ª Guerra Mundial, tinha dado origem a concessões por todo o lado, sem contar com as ocorrências conhecidas onde tinham sido efectuadas explorações ilegais vulgarmente designadas por “pilhas”
Em segundo lugar, pouco pessoal qualificado me foi disponibilizado para efectuar a pesquisa dos dados úteis contidos nos processos dessas concessões, que a Circunscrição Mineira do Norte me facultava.
Em terceiro lugar, muitos dos dados contidos nos relatórios das empresas privadas e mesmo das entidades oficiais tinham pouco interesse ou eram de rigor duvidoso, depreendendo-se que teriam sido elaborados apenas para cumprir formalidades legais.
Tornou-se evidente a necessidade de criar uma ficha que condensasse os elementos essenciais de cada mina ou simples ocorrência.
Para o efeito, consultei modelos em uso noutros países e consultei entidades que já tivessem enfrentado o problema ou tivessem nível para poder prestar contribuição útil.
A ficha foi criada e alguns milhares de exemplares foram mandados imprimir, em oficina de Beja onde costumavam ser encadernados os relatórios finais ou intercalares das investigações mineiras.
Foi dado início ao preenchimento das fichas, mas não se verificou a continuidade prevista, por carência de pessoal.
As fichas foram, anos mais tarde, aproveitadas principalmente pelo 4.º Serviço, que entretanto havia sido criado para proceder ao inventário das pedreiras, apesar de não terem sido preparadas para esse fim.
Deste novo Serviço foi encarregado um Engenheiro do SFM que regressara da Junta de Energia Nuclear, onde estivera destacado.
Não tendo conseguido constituir uma base de dados, por meio destas fichas, fui ao longo do tempo formando, no meu amplo gabinete, um arquivo com cópias de relatórios ou dados deles extraídos sobre minas situadas em áreas onde planeei executar campanhas de prospecção, pelo conhecimento que ia adquirindo das potencialidades desta zona do País.
Constituí também, um arquivo dos mapas à escala 1:5.000 e a outras escalas, tanto do Norte como do Sul do País.
Com o decorrer do tempo este arquivo foi crescendo, atingindo à data da minha aposentação, largas dezenas de milhar de cartas topográficas, geológicas, geofísicas e geoquímicas.
Segundo informação que recentemente me foi prestada, tive a satisfação de tomar conhecimento de que este espólio tem estado a ser devidamente informatizado, evitando assim a sua perda, que era de recear, perante o facto de os mapas serem, na sua grande maioria, cópias em papel ozalid, susceptíveis de se tornarem imperceptíveis com o seu envelhecimento.
Para a 2.ª Brigada de Prospecção foram inicialmente destacados um Geólogo, dois Agentes Técnicos de Engenharia e um Colector, que pertenciam ao Quadro de funcionários da sede de SFM, quase desde a sua fundação.
Estavam-lhes atribuídas funções relacionadas com o estudo da Bacia Carbonífera do Douro e com a Zona Carbonífera de Ourém.
Em 1964, regressou ao SFM um Geólogo que tinha sido destacado para a Junta de Energia Nuclear, quando da criação deste Organismo.
Foi integrado, logicamente no Serviço de Prospecção mas, considerando que a sua especialização era a cartografia geológica e que o prestigiado Professor da Universidade de Lisboa e acérrimo defensor da Geologia, Dr. Carlos Teixeira, se propunha supervisionar a sua actividade, e dado que o conhecimento geológico do território nacional é basilar para a prospecção, este Geólogo manteve-se sobretudo a prestar colaboração aos Serviços Geológicos de Portugal na região trasmontana, com vista não só à publicação de novas cartas geológicas à escala 1:50.000, mas também a uma nova edição da carta à escala 1:500.000
Em fins de 1964, foi também considerado integrado no Serviço de Prospecção sob minha chefia, o Geólogo Dr. António Ribeiro que, como bolseiro da Fundação Gulbenkian, vinha procedendo a estudos na região trasmontana, integrado na equipa do Geólogo do SFM a que acima me referi, sob a orientação superior do Professor Carlos Teixeira.
Registo que não foi emitida a respectiva Ordem de Serviço, apesar de o facto ter sido realçado no meu relatório do mês de Novembro desse ano. Isso constituiu um primeiro indício da indisciplina que o Director passou a introduzir na Orgânica que ele tinha instituído.
Registo que, apesar desta lacuna, o Dr. António Ribeiro se considerou integrado no Serviço de Prospecção, sempre tendo prestado contas da sua actividade em relatórios mensais, até que a indisciplina introduzida após a Revolução de Abril de 1974, alterou a situação. A essa indisciplina me referirei oportunamente.
Conforme já registei em outro post, recorri ao saber do Dr. António Ribeiro em diversas ocasiões, em outras áreas, sem perturbar os seus estudos em Trás-os-Montes.
Alguns anos depois, outro Geólogo que ingressou no SFM já com tarefa indicada, também se considerou integrado no Serviço de Prospecção que eu chefiava, apesar de a respectiva Ordem de Serviço não ter sido emitida.
Sempre descreveu pormenorizadamente a sua actividade em relatórios mensais que apresentava e que eu anexava ao meu, tal como fazia com todos os relatórios dos diferentes departamentos do 1.º Serviço.
Ele foi prestar colaboração à Empresa Ferrominas, onde decorriam sondagens, segundo projecto do Dr. António Ribeiro, para definição de reservas na área do Cabeço da Mua, que se pretendia explorar para abastecimento da Siderurgia Nacional.
Anos mais tarde, outros Geólogos e Engenheiros de Minas recém-formados, foram ingressando no SFM.
Sem Ordens que os colocassem no Serviço de Prospecção, actuaram sem adequado controlo, vagamente orientados pelo Director-Geral, como foi o caso dos denominados “Scheeliteiros”.
No que respeita aos Agentes Técnicos de Engenharia que ingressaram no Serviço de Prospecção, a situação não foi estimulante.
Não tinham experiência válida em prospecção mineira, mas ambos eram tidos como especializados em trabalhos de topografia.
A realidade provou ser diferente. Trabalho de piquetagem de que encarreguei um deles na região de Caminha, foi tão imperfeito, que veio a ocasionar-me sérios problemas para sua correcção.
Proporcionei-lhe estágio no Sul do País, em Secções da 1.ª Brigada, não só em piquetagem rigorosa, mas também em técnicas geofísicas e geoquímicas.
Lamentavelmente de pouco valeu este estágio, pois estavam bem enraizados vícios antigos, nunca corrigidos, talvez por excessiva benevolência dos dirigentes ou incapacidade destes para detectarem os erros que seguramente cometeram.
A situação, por se ter tornado insustentável, levou-me a denunciá-la ao Director, que decidiu colocá-lo sob sua directa chefia.
O outro Agente Técnico de Engenharia foi útil sobretudo em trabalhos de gabinete.
Fez a consulta aos documentos de carácter técnico sobre Minas concedidas, em vigor ou já anuladas, existentes no arquivo da Circunscrição Mineira do Norte, procedendo à cópia dos que se revelaram com interesse e preenchendo as respectivas fichas.
Prestou também colaboração ao Geólogo que estava encarregado dos estudos na Faixa Carbonífera do Douro, não só em trabalhos de gabinete, mas também em levantamentos topográficos.
Para a 2.ª Brigada de Prospecção, transitou um Colector que pertencia à equipa do Geólogo encarregado dos estudos nas bacias carboníferas.
Este Colector, apesar das suas limitadas habilitações legais (tinha apenas a antiga 4.ª Classe da Instrução Primária) revelou-se um excelente colaborador.
Foi com ele e com outro Colector que transferi da Secção de Évora da 1.ª Brigada de Prospecção para a 2.ª Brigada, que contei para a execução das campanhas de prospecção, às quais me foi possível dar início no Norte do País. A elas e, às vicissitudes por que tiveram que passar, me referirei oportunamente.
A minha presença na sede do SFM, longe de constituir situação favorável ao cumprimento dos objectivos do SFM, tornou mais difícil a concretização desses objectivos.
Perante as dificuldades que encontrei para desenvolver a prospecção no Norte, decidi continuar a concentrar a minha maior atenção nos problemas do Sul, onde a interferência do Director menos se fazia sentir, sempre na esperança de que meios materiais e humanos acabassem por me ser disponibilizados para dar cabal cumprimento aos planos de trabalhos no Norte do País, que anualmente ia apresentando.
Em próximos posts descreverei os êxitos que consegui no Norte, com a preciosa colaboração dos dois Colectores a que dei formação, transformando-os em prospectores competentes, não só em trabalho de campo, mas também nas fases iniciais do respectivo trabalho de gabinete. Eles supriram bem a carência de pessoal com melhor formação académica, que intencionalmente me não foi disponibilizado
sexta-feira, 21 de novembro de 2008
27 – A organização do Serviço de Prospecção Mineira do SFM
Investido nas funções de Chefe do Serviço de Prospecção Mineira, duas foram as minhas preocupações essenciais:
a) Constituir um arquivo de fácil e rápida consulta, do qual constassem cópias de documentação técnica relevante, sobre a geologia de Portugal, sobre as minas portuguesas e ocorrências minerais conhecidas e também os novos documentos que fossem produzidos.
b) Promover a especialização de técnicos (Geólogos, Engenheiros de Minas, Agentes Técnicos de Engenharia, Prospectores, Topógrafos, Colectores, etc.) nas variadas técnicas previstas para a detecção de novas concentrações minerais.
A minha presença efectiva, de cerca de 20 anos, no Sul do País, em actividades de prospecção, pesquisa e reconhecimento de jazigos minerais, facilitou a organização do novo Serviço, aproveitando pessoal já adestrado e documentação devidamente arquivada. Foi, pois pelo Sul do País que comecei a organizar o Serviço de Prospecção.
À data da criação deste departamento do SFM, já havia na Brigada do Sul abundante documentação sobre concessões em vigor, abandonadas ou anuladas e sobre campanhas de prospecção efectuadas quer pelo SFM, quer por empresas privadas. Mapas a diversas escalas e com dimensões variadas, por vezes referentes a áreas com localização imprecisa, não tornavam fácil a consulta.
Programou-se, por isso, a redução ou ampliação, conforme os casos, de todos os mapas e a implantação de toda informação neles contida em mapas topográficos à escala de 1:5.000, abrangendo cada mapa uma área de 2 km x 2 km.
Digna de registo é a redução manual de milhares de mapas elaborados em papel milimétrico, com dimensões, em geral, de 0,70 m x 0,70 m, contendo as curvas do método electromagnético Turam, respeitantes à campanha de 1944-49, na Faixa Piritosa.
Para a execução desta enorme tarefa, houve que preparar desenhadores em todas as Secções. Afigurou-se, inicialmente, tarefa morosa de concretizar, mas a persistência compensou e, em muito menos tempo que o previsto, todas as reduções tinham sido conseguidas.
Os mapas respeitantes aos novos trabalhos de prospecção obedeceram ao mesmo esquema.
Todos os mapas foram arquivados em armários, com arrumação de Norte para Sul e Oeste para Este.
Além dos mapas a 1:5.000, organizaram-se reduções para a escala 1:25.000 e 1:100.000
Nalguns casos, mapas à escala 1:1.000 forma considerados necessários.
Assim se constituiu um valioso arquivo que, com o decorrer do tempo atingiu muitas dezenas de milhar de mapas, de fácil consulta.
A geologia sempre foi o elo mais fraco nas diversas fases da prospecção. Por isso, lhe dediquei maior atenção.
Estava instituído o sistema, originado nos Serviços Geológicos, de confiar a Colectores, isto é, a funcionários contratados ou assalariados instruídos na colheita de amostras de rochas e sua referenciação em mapas a escalas apropriadas, a maior parcela do trabalho de campo.
Os Geólogos permaneciam excessivamente no gabinete e tinham insuficiente presença no terreno, sendo certo que também não tinham, em geral, adequada preparação para assinalar dados de natureza estrutural, essenciais às fases seguintes da prospecção e à interpretação dos resultados da aplicação dos métodos geofísicos e geoqímicos.
O Geólogo que em 1948 conseguiu tornar-se independente da Brigada do Sul, quando fui nomeado para chefiar esta Brigada, foi, na nova Orgânica, integrado no Serviço de Prospecção Mineira.
Registei com agrado que, em desabafo para comigo, mostrasse desalento por ter recusado proposta que lhe tinha feito para fundir as duas Brigadas (Brigada do Sul e Brigada de Levantamentos Litológicos), é que ele começava a ficar entusiasmado com os estudos que passou a ter a seu cargo, nos quais revelava qualidades até então desaproveitadas
A três Geólogos recém-formados, que foram destacados para o Serviço de Prospecção, foram proporcionadas excepcionais condições de formação pós-graduada, começando por aproveitar a presença que, então se verificava, de Companhias estrangeiras na Faixa Piritosa, em cumprimento de contratos de prospecção, as quais dedicavam à geologia primordial importância.
Dois dos novos Geólogos fizeram estágios orientados por prestigiados Geólogos ingleses, numa área envolvente da Mina de S. Domingos.
O terceiro Geólogo, natural de Beja, já tinha solicitado a minha intervenção para ser colocado nos Serviços Geológicos.
Sugeri-lhe, então, que aproveitasse o interesse que a CRAM (Compagnie Royale Asturienne des Mines) me tinha manifestado em contratar Geólogo ou Engenheiro de Minas para colaborar nos estudos que tinha em curso na zona de Moura - Ficalho da Faixa Magnetítica e Zincífera.
A minha sugestão foi aproveitada, e esse Geólogo esteve durante alguns anos a prestar colaboração à CRAM, não só em Portugal mas também no Norte de África.
Já com melhor preparação, voltou a contactar-me e mostrou desejo de ingressar no SFM.
Acolhi o pedido com grande satisfação, pois estavam em curso importantes estudos sobre formações zincíferas, na região de Portel e era de esperar que da sua especialização em jazigos de zinco pudesse resultar considerável aperfeiçoamento desses estudos. Fiz proposta e o Geólogo foi admitido.
Mas não foram só estas as possibilidades de aperfeiçoamento profissional proporcionadas a Geólogos. Também foram conseguidos estágios prolongados na Universidade de Tucson (Arizona), nos Estados Unidos da América do Norte, a dois deles e na Universidade de Paris ao terceiro.
Devo reconhecer que, dadas as características pessoais destes três Geólogos, os resultados das excepcionais condições que lhes foram facultadas ficaram aquém das expectativas.
Demasiado preocupados com a promoção pessoal, a sua actividade orientou-se muito para a publicação de artigos, muitas vezes com matéria de que não tinham sido autores e sem minha autorização.
O Geólogo que destaquei para aperfeiçoar a geologia da Região de Cercal - Odemira, não contribuiu significativamente para este aperfeiçoamento e, apesar da minha relutância, acabou por conseguir transferir para um Colector o trabalho que lhe competia fazer no terreno.
Durante a minha chefia dos trabalhos no Sul do País não conheci o desenvolvimento estrutural que dele esperava, apesar de contar com a base da tese de doutoramento do Geólogo holandês Klein.
Eu tinha-lhe sugerido que procurasse tirar partido das alterações das rochas da região como guias da prospecção, manifestando o parecer de que poderíamos estar em presença de alterações hidrotermais.
A comprovar-se o carácter hidrotermal destas alterações, esperava a definição de halos com composição mineralógica variada, para chegar a alvos a sondar.
Mas o Geólogo pretendeu ser original e, em vez destes halos preferiu distinguir zonas de alteração fraca, média ou forte, das quais não resultou a definição de qualquer alvo com credibilidade, face ao carácter subjectivo das suas observações no terreno.
Depois de eu ter sido afastado da chefia da 1.ª Brigada de Prospecção, por motivos aos quais me referirei oportunamente, este Geólogo, que tivera activa participação na desorganização criada, apresentou-se como autor da descoberta do que ele chamou “jazigo do Salgadinho”. A este assunto dedicarei um post, mas posso desde já revelar que a descoberta de mineralização cuprífera na área do Salgadinho, teve como base uma discreta anomalia gravimétrica, em local de geologia favorável, definido anteriormente à sua integração no SFM. Não teve, pois qualquer intervenção na descoberta, nem sequer se tinha apercebido do bom indício (bom indício, não mais do que isso!) representado pela disseminação cuprífera encontrada.
A ele se ficou devendo o projecto da sondagem N.º 2, em S. Luís, apenas com base em dados geológicos que ele me convenceu serem indicativos da forte possibilidade de ocorrência de jazigo mineral, conforme tinha aprendido no seu estágio nos Estados Unidos. Esta sondagem redundou num total fracasso, de que me penitencio por ter acreditado nas certezas inconscientes de um inexperiente em prospecção mineira.
O geólogo com quem eu contava para o aperfeiçoamento da geologia da Faixa Zincífera, deu-me a sensação de vir cansado da sua presença na CRAM, pois não se mostrou muito diligente e não fez novo estudo dos testemunhos das sondagens de Algares de Portel, conforme lhe tinha determinado.
Pequena foi a sua contribuição nesta Faixa.
Mas, tal como o Geólogo anteriormente referido, passou a tomar como certezas as hipóteses que eu havia formulado sobre a possibilidade de haver jazigos do tipo dos “porfiry coppers” associados à grande mancha de pórfiros que se estende de Montemor-o-Novo a Serpa.
Um dos objectivos da sua presença em estágio nos Estados Unidos foi esclarecer se esses pórfiros tinham características para gerarem tais tipos de depósitos.
Mas aconteceu que, pouco antes do seu regresso dos Estados Unidos, um grupo de conceituados Geólogos franceses tinha passado por Beja e eu tinha-lhes apresentado essa hipótese.
Esses Geólogos, um dos quais me tinha oferecido a sua tese de doutoramento sobre os “porfiry coppers” do Irão, após estudos minuciosos de fotogeologia, apoiados também, em algum trabalho de campo, não se mostraram apoiantes da hipótese e eu passei a secundarizar o projecto, não lhe concedendo a prioridade que o Geólogo regressado dos Estados Unidos pretendia dar-lhe, em detrimento dos estudos geológicos na Faixa Zincífera, de que o tinha encarregado.
Este tema chegou a gerar troca de ofícios, pois o Geólogo, em relatório mensal da sua actividade, em vez de descrever o que tinha produzido durante o mês, anunciou o estudo que se propunha fazer para descobrir os tais jazigos de cobre associados aos pórfiros, levando-me a suspeitar que nada tinha realizado durante esse mês.
Só anos mais tarde, após a minha demissão da chefia da 2.ª Brigada de Prospecção e da sua contribuição para este facto, fiquei a conhecer o seu carácter.
O terceiro Geólogo recém-formado que ingressou no Serviço de Prospecção, também não revelou as qualidades que dele seriam de esperar. Tendo a seu cargo estudos na faixa Piritosa e na área Norte-Alentejana, escassa foi a sua contribuição em ambas as áreas.
Regressado de estágio em França, vinha com a novidade dos “altos fundos” e logo resolveu fazer brilharete com artigo a inserir nas publicações do CHILAGE, encaixando descabidamente essa teoria, a propósito do filão dolerítico que atravessa todo o Alentejo, preenchendo falha com rejeição de 3 km.
Embora discordando da publicação, não pude evitá-la e isso até surpreendeu Geólogo holandês que estava a estudar a geologia da Faixa Piritosa, integrado na Sociedade Mineira de Santiago, por destoar do carácter sério dos artigos apresentados por quase todos os Engenheiros e Geólogos da 1.ª Brigada de Prospecção. Só não se fez representar com artigos ao CILAGE o Engenheiro que tinha a seu cargo a técnica geoquímica, por se encontrar ausente em Birmingham onde fazia estágio.
Estes três Geólogos, para além do estudo dos testemunhos de sondagens que estavam em curso com base em resultados de técnicas geofísicas e geoquímicas, pouco mais conseguiam fazer e até disso se queixavam.
Nem sequer conseguiram tempo para reexaminarem testemunhos de sondagens efectuadas antes da sua integração no SFM, pois deles se esperava um aperfeiçoamento das classificações feitas por Agentes Técnicos de Engenharia e por mim próprio.
Devo realçar a boa colaboração prestada no Sul do País pelo Geólogo António Ribeiro que, integrado no Serviço sob minha chefia, estava procedendo a estudos de geologia estrutural no Nordeste Trasmontano que iriam constituir a sua magistral tese de doutoramento.
Para dialogar em pé de igualdade com os Geólogos das Companhias que se encontravam a cumprir contratos de prospecção mineira na Faixa Piritosa, recorri ao seu saber e assisti a acesas e proveitosas discussões, em que carreamentos eram objecto de grande controvérsia.
Apesar da presença destes três novos Geólogos na 1.ª Brigada de Prospecção, foram ainda os mapas à escala 1:5.000, elaborados durante a minha chefia da Brigada do Sul, elementos basilares nas campanhas de prospecção, até para as Companhias estrangeiras que cumpriam contratos com o Estado Português.
Aos Geólogos destas Companhias, que não se apoiavam em Colectores, se ficou devendo o maior progresso verificado no conhecimento da geologia da Faixa Piritosa.
Os trabalhos de prospecção geofísica e geoquímica ficaram a cargo de quatro Engenheiros de Minas, recentemente ingressados no SFM.
O Engenheiro encarregado do método magnético deu continuidade, com maior rendimento, à actividade que se encontrava em curso, há alguns anos, nas condições que já descrevi. Forneci-lhe documentação técnica que havia compilado, para poder passar a fazer interpretação dos resultados, em bases científicas.
Ao Engenheiro que ficou encarregado dos métodos eléctricos, transmiti-lhe a experiência que tinha adquirido na Brigada de Prospecção Eléctrica e indiquei-lhe documentação técnica que deveria consultar, para bem desempenhar a sua missão. Proporcionei-lhe ainda estágio nas Minas do Louzal, onde decorria a aplicação de método de polarização induzida, que eu tencionava vir a usar, propondo a aquisição dos equipamentos respectivos. Esta técnica era considerada adequada para a detecção de jazigos com mineralizações de sulfuretos disseminadas, como era o caso do Salgadinho, onde não se justificariam novas sondagens antes da sua aplicação.
Quanto ao método gravimétrico, cuja enorme importância já realcei, manteve-se a cargo do Engenheiro que, por minha iniciativa, tinha feito estágio na Mina de S. Domingos, onde actuava a Companhia inglesa Lea Cross Geophysical Company.
Foi também de grande utilidade para a preparação nesta técnica a vinda ao País, por minha indicação, de um especialista em gravimetria da Companhia sul-africana Union Corporation, que integrava, juntamente com a Companhia canadiana Cominco e um grande capitalista americano, a Mining Explorations (International), a qual cumpria, então, contrato de prospecção em vasta área do Alentejo.
Faltava, para completar o quadro de técnicos da 1.ª Brigada de Prospecção, um especialista no método geoquímico.
Dirigi convite ao Engenheiro que tinha conhecido, quando estagiou na Lea Cross Geopysical Company, na área da Mina de S. Domingos, onde tinha adquirido experiência no método.
O convite foi aceite e, após a minha proposta, ele foi integrado na Brigada, o que permitiu dar início à aplicação da técnica geoquímica no SFM.
Por sua iniciativa, foi instalado um pequeno Laboratório, para ensaios expeditos, em prédio contíguo àquele em que se encontrava a Brigada do Sul, que por feliz casualidade se encontrava devoluto e, por isso se conseguiu alugar. Com a boa colaboração de pessoal assalariado que ele instruiu, obteve-se alto rendimento em análises de metais pesados, a frio.
Esta capacidade permitiu-me utilizar o Laboratório até para análises de amostras colhidas em áreas do Norte do País.
Foi ainda proporcionada a este Engenheiro formação pós-graduação em geoquímica, na Universidade de Birmingham, em Inglaterra, durante um ano.
Nas Secções, foi em geral confiado a Agentes Técnicos de Engenharia o cumprimento dos trabalhos de campo por mim planeados com a colaboração dos Engenheiros e Geólogos.
Além destes técnicos, contei com pessoal dotado de grande experiência em topografia, em levantamentos electromagnéticos pelo método Turam, e algum domínio no que respeita a trabalho de campo pelo método magnético, que transitou sobretudo da Brigada do Sul.
Este pessoal desempenhou um papel fundamental na aplicação, no terreno, das técnicas geofísicas e geoquímicas.
Até à data do meu afastamento compulsivo da chefia da 1.ª Brigada de Prospecção, nenhum dos Engenheiros e Geólogos desta Brigada tinha demonstrado nível que me aconselhasse a transmitir a um deles a respectiva chefia.
Todos manifestaram o desejo de que eu mantivesse a orientação e coordenação dos estudos em curso, até porque, entre eles, segundo me informaram, não havia bom relacionamento e reconheciam em mim um ascendente que respeitavam.
Eu confiava que, com o decurso do tempo, a situação pudesse vir a evoluir de modo a eu não ter que me ocupar tão intensamente com os problemas desta Brigada para poder dedicar mais atenção à 2.ª Brigada de Prospecção, no Norte do País.
Apesar das deficiências que apontei, foram a esta equipa constituída no Alentejo, que se ficaram devendo os maiores êxitos do SFM, em toda a sua existência. Mas não foi aos três Geólogos novos que coube o principal papel, como eles proclamaram ou deram a entender, sobretudo quando eu fui afastado da chefia da 1.ª Brigada de Prospecção.
Não foi também aos Engenheiros radicados em Beja que coube esse papel. Fundamental foi o desempenho dos Agentes Técnicos de Engenharia das Secções e sobretudo do seu pessoal auxiliar que, disciplinadamente, davam cumprimento às instruções que lhes eram transmitidas.
A escolha das áreas a prospectar, a indicação dos métodos a usar e das modalidades da sua aplicação e a interpretação dos resultados obtidos foram sempre de minha responsabilidade, sem deixar, obviamente de ouvir os pareceres de todos os técnicos, em reuniões periódicas, que, para o efeito, convocava.
Quando deixei de orientar a 1.ª Brigada de Prospecção, por ordem insensata de Director incompetente, os resultados foram desastrosos. Não mais se obteve qualquer êxito.
Passaram a ser apresentados como êxitos, casos que deveriam ter dado origem a procedimento disciplinar, por esbanjamento de dinheiros públicos, em trabalhos mal projectados, como em devido tempo revelarei.
Esta foi a causa original da extinção do SFM.
No próximo post, descreverei a organização que procurei instituir na 2.ª Brigada de Prospecção.
a) Constituir um arquivo de fácil e rápida consulta, do qual constassem cópias de documentação técnica relevante, sobre a geologia de Portugal, sobre as minas portuguesas e ocorrências minerais conhecidas e também os novos documentos que fossem produzidos.
b) Promover a especialização de técnicos (Geólogos, Engenheiros de Minas, Agentes Técnicos de Engenharia, Prospectores, Topógrafos, Colectores, etc.) nas variadas técnicas previstas para a detecção de novas concentrações minerais.
A minha presença efectiva, de cerca de 20 anos, no Sul do País, em actividades de prospecção, pesquisa e reconhecimento de jazigos minerais, facilitou a organização do novo Serviço, aproveitando pessoal já adestrado e documentação devidamente arquivada. Foi, pois pelo Sul do País que comecei a organizar o Serviço de Prospecção.
À data da criação deste departamento do SFM, já havia na Brigada do Sul abundante documentação sobre concessões em vigor, abandonadas ou anuladas e sobre campanhas de prospecção efectuadas quer pelo SFM, quer por empresas privadas. Mapas a diversas escalas e com dimensões variadas, por vezes referentes a áreas com localização imprecisa, não tornavam fácil a consulta.
Programou-se, por isso, a redução ou ampliação, conforme os casos, de todos os mapas e a implantação de toda informação neles contida em mapas topográficos à escala de 1:5.000, abrangendo cada mapa uma área de 2 km x 2 km.
Digna de registo é a redução manual de milhares de mapas elaborados em papel milimétrico, com dimensões, em geral, de 0,70 m x 0,70 m, contendo as curvas do método electromagnético Turam, respeitantes à campanha de 1944-49, na Faixa Piritosa.
Para a execução desta enorme tarefa, houve que preparar desenhadores em todas as Secções. Afigurou-se, inicialmente, tarefa morosa de concretizar, mas a persistência compensou e, em muito menos tempo que o previsto, todas as reduções tinham sido conseguidas.
Os mapas respeitantes aos novos trabalhos de prospecção obedeceram ao mesmo esquema.
Todos os mapas foram arquivados em armários, com arrumação de Norte para Sul e Oeste para Este.
Além dos mapas a 1:5.000, organizaram-se reduções para a escala 1:25.000 e 1:100.000
Nalguns casos, mapas à escala 1:1.000 forma considerados necessários.
Assim se constituiu um valioso arquivo que, com o decorrer do tempo atingiu muitas dezenas de milhar de mapas, de fácil consulta.
A geologia sempre foi o elo mais fraco nas diversas fases da prospecção. Por isso, lhe dediquei maior atenção.
Estava instituído o sistema, originado nos Serviços Geológicos, de confiar a Colectores, isto é, a funcionários contratados ou assalariados instruídos na colheita de amostras de rochas e sua referenciação em mapas a escalas apropriadas, a maior parcela do trabalho de campo.
Os Geólogos permaneciam excessivamente no gabinete e tinham insuficiente presença no terreno, sendo certo que também não tinham, em geral, adequada preparação para assinalar dados de natureza estrutural, essenciais às fases seguintes da prospecção e à interpretação dos resultados da aplicação dos métodos geofísicos e geoqímicos.
O Geólogo que em 1948 conseguiu tornar-se independente da Brigada do Sul, quando fui nomeado para chefiar esta Brigada, foi, na nova Orgânica, integrado no Serviço de Prospecção Mineira.
Registei com agrado que, em desabafo para comigo, mostrasse desalento por ter recusado proposta que lhe tinha feito para fundir as duas Brigadas (Brigada do Sul e Brigada de Levantamentos Litológicos), é que ele começava a ficar entusiasmado com os estudos que passou a ter a seu cargo, nos quais revelava qualidades até então desaproveitadas
A três Geólogos recém-formados, que foram destacados para o Serviço de Prospecção, foram proporcionadas excepcionais condições de formação pós-graduada, começando por aproveitar a presença que, então se verificava, de Companhias estrangeiras na Faixa Piritosa, em cumprimento de contratos de prospecção, as quais dedicavam à geologia primordial importância.
Dois dos novos Geólogos fizeram estágios orientados por prestigiados Geólogos ingleses, numa área envolvente da Mina de S. Domingos.
O terceiro Geólogo, natural de Beja, já tinha solicitado a minha intervenção para ser colocado nos Serviços Geológicos.
Sugeri-lhe, então, que aproveitasse o interesse que a CRAM (Compagnie Royale Asturienne des Mines) me tinha manifestado em contratar Geólogo ou Engenheiro de Minas para colaborar nos estudos que tinha em curso na zona de Moura - Ficalho da Faixa Magnetítica e Zincífera.
A minha sugestão foi aproveitada, e esse Geólogo esteve durante alguns anos a prestar colaboração à CRAM, não só em Portugal mas também no Norte de África.
Já com melhor preparação, voltou a contactar-me e mostrou desejo de ingressar no SFM.
Acolhi o pedido com grande satisfação, pois estavam em curso importantes estudos sobre formações zincíferas, na região de Portel e era de esperar que da sua especialização em jazigos de zinco pudesse resultar considerável aperfeiçoamento desses estudos. Fiz proposta e o Geólogo foi admitido.
Mas não foram só estas as possibilidades de aperfeiçoamento profissional proporcionadas a Geólogos. Também foram conseguidos estágios prolongados na Universidade de Tucson (Arizona), nos Estados Unidos da América do Norte, a dois deles e na Universidade de Paris ao terceiro.
Devo reconhecer que, dadas as características pessoais destes três Geólogos, os resultados das excepcionais condições que lhes foram facultadas ficaram aquém das expectativas.
Demasiado preocupados com a promoção pessoal, a sua actividade orientou-se muito para a publicação de artigos, muitas vezes com matéria de que não tinham sido autores e sem minha autorização.
O Geólogo que destaquei para aperfeiçoar a geologia da Região de Cercal - Odemira, não contribuiu significativamente para este aperfeiçoamento e, apesar da minha relutância, acabou por conseguir transferir para um Colector o trabalho que lhe competia fazer no terreno.
Durante a minha chefia dos trabalhos no Sul do País não conheci o desenvolvimento estrutural que dele esperava, apesar de contar com a base da tese de doutoramento do Geólogo holandês Klein.
Eu tinha-lhe sugerido que procurasse tirar partido das alterações das rochas da região como guias da prospecção, manifestando o parecer de que poderíamos estar em presença de alterações hidrotermais.
A comprovar-se o carácter hidrotermal destas alterações, esperava a definição de halos com composição mineralógica variada, para chegar a alvos a sondar.
Mas o Geólogo pretendeu ser original e, em vez destes halos preferiu distinguir zonas de alteração fraca, média ou forte, das quais não resultou a definição de qualquer alvo com credibilidade, face ao carácter subjectivo das suas observações no terreno.
Depois de eu ter sido afastado da chefia da 1.ª Brigada de Prospecção, por motivos aos quais me referirei oportunamente, este Geólogo, que tivera activa participação na desorganização criada, apresentou-se como autor da descoberta do que ele chamou “jazigo do Salgadinho”. A este assunto dedicarei um post, mas posso desde já revelar que a descoberta de mineralização cuprífera na área do Salgadinho, teve como base uma discreta anomalia gravimétrica, em local de geologia favorável, definido anteriormente à sua integração no SFM. Não teve, pois qualquer intervenção na descoberta, nem sequer se tinha apercebido do bom indício (bom indício, não mais do que isso!) representado pela disseminação cuprífera encontrada.
A ele se ficou devendo o projecto da sondagem N.º 2, em S. Luís, apenas com base em dados geológicos que ele me convenceu serem indicativos da forte possibilidade de ocorrência de jazigo mineral, conforme tinha aprendido no seu estágio nos Estados Unidos. Esta sondagem redundou num total fracasso, de que me penitencio por ter acreditado nas certezas inconscientes de um inexperiente em prospecção mineira.
O geólogo com quem eu contava para o aperfeiçoamento da geologia da Faixa Zincífera, deu-me a sensação de vir cansado da sua presença na CRAM, pois não se mostrou muito diligente e não fez novo estudo dos testemunhos das sondagens de Algares de Portel, conforme lhe tinha determinado.
Pequena foi a sua contribuição nesta Faixa.
Mas, tal como o Geólogo anteriormente referido, passou a tomar como certezas as hipóteses que eu havia formulado sobre a possibilidade de haver jazigos do tipo dos “porfiry coppers” associados à grande mancha de pórfiros que se estende de Montemor-o-Novo a Serpa.
Um dos objectivos da sua presença em estágio nos Estados Unidos foi esclarecer se esses pórfiros tinham características para gerarem tais tipos de depósitos.
Mas aconteceu que, pouco antes do seu regresso dos Estados Unidos, um grupo de conceituados Geólogos franceses tinha passado por Beja e eu tinha-lhes apresentado essa hipótese.
Esses Geólogos, um dos quais me tinha oferecido a sua tese de doutoramento sobre os “porfiry coppers” do Irão, após estudos minuciosos de fotogeologia, apoiados também, em algum trabalho de campo, não se mostraram apoiantes da hipótese e eu passei a secundarizar o projecto, não lhe concedendo a prioridade que o Geólogo regressado dos Estados Unidos pretendia dar-lhe, em detrimento dos estudos geológicos na Faixa Zincífera, de que o tinha encarregado.
Este tema chegou a gerar troca de ofícios, pois o Geólogo, em relatório mensal da sua actividade, em vez de descrever o que tinha produzido durante o mês, anunciou o estudo que se propunha fazer para descobrir os tais jazigos de cobre associados aos pórfiros, levando-me a suspeitar que nada tinha realizado durante esse mês.
Só anos mais tarde, após a minha demissão da chefia da 2.ª Brigada de Prospecção e da sua contribuição para este facto, fiquei a conhecer o seu carácter.
O terceiro Geólogo recém-formado que ingressou no Serviço de Prospecção, também não revelou as qualidades que dele seriam de esperar. Tendo a seu cargo estudos na faixa Piritosa e na área Norte-Alentejana, escassa foi a sua contribuição em ambas as áreas.
Regressado de estágio em França, vinha com a novidade dos “altos fundos” e logo resolveu fazer brilharete com artigo a inserir nas publicações do CHILAGE, encaixando descabidamente essa teoria, a propósito do filão dolerítico que atravessa todo o Alentejo, preenchendo falha com rejeição de 3 km.
Embora discordando da publicação, não pude evitá-la e isso até surpreendeu Geólogo holandês que estava a estudar a geologia da Faixa Piritosa, integrado na Sociedade Mineira de Santiago, por destoar do carácter sério dos artigos apresentados por quase todos os Engenheiros e Geólogos da 1.ª Brigada de Prospecção. Só não se fez representar com artigos ao CILAGE o Engenheiro que tinha a seu cargo a técnica geoquímica, por se encontrar ausente em Birmingham onde fazia estágio.
Estes três Geólogos, para além do estudo dos testemunhos de sondagens que estavam em curso com base em resultados de técnicas geofísicas e geoquímicas, pouco mais conseguiam fazer e até disso se queixavam.
Nem sequer conseguiram tempo para reexaminarem testemunhos de sondagens efectuadas antes da sua integração no SFM, pois deles se esperava um aperfeiçoamento das classificações feitas por Agentes Técnicos de Engenharia e por mim próprio.
Devo realçar a boa colaboração prestada no Sul do País pelo Geólogo António Ribeiro que, integrado no Serviço sob minha chefia, estava procedendo a estudos de geologia estrutural no Nordeste Trasmontano que iriam constituir a sua magistral tese de doutoramento.
Para dialogar em pé de igualdade com os Geólogos das Companhias que se encontravam a cumprir contratos de prospecção mineira na Faixa Piritosa, recorri ao seu saber e assisti a acesas e proveitosas discussões, em que carreamentos eram objecto de grande controvérsia.
Apesar da presença destes três novos Geólogos na 1.ª Brigada de Prospecção, foram ainda os mapas à escala 1:5.000, elaborados durante a minha chefia da Brigada do Sul, elementos basilares nas campanhas de prospecção, até para as Companhias estrangeiras que cumpriam contratos com o Estado Português.
Aos Geólogos destas Companhias, que não se apoiavam em Colectores, se ficou devendo o maior progresso verificado no conhecimento da geologia da Faixa Piritosa.
Os trabalhos de prospecção geofísica e geoquímica ficaram a cargo de quatro Engenheiros de Minas, recentemente ingressados no SFM.
O Engenheiro encarregado do método magnético deu continuidade, com maior rendimento, à actividade que se encontrava em curso, há alguns anos, nas condições que já descrevi. Forneci-lhe documentação técnica que havia compilado, para poder passar a fazer interpretação dos resultados, em bases científicas.
Ao Engenheiro que ficou encarregado dos métodos eléctricos, transmiti-lhe a experiência que tinha adquirido na Brigada de Prospecção Eléctrica e indiquei-lhe documentação técnica que deveria consultar, para bem desempenhar a sua missão. Proporcionei-lhe ainda estágio nas Minas do Louzal, onde decorria a aplicação de método de polarização induzida, que eu tencionava vir a usar, propondo a aquisição dos equipamentos respectivos. Esta técnica era considerada adequada para a detecção de jazigos com mineralizações de sulfuretos disseminadas, como era o caso do Salgadinho, onde não se justificariam novas sondagens antes da sua aplicação.
Quanto ao método gravimétrico, cuja enorme importância já realcei, manteve-se a cargo do Engenheiro que, por minha iniciativa, tinha feito estágio na Mina de S. Domingos, onde actuava a Companhia inglesa Lea Cross Geophysical Company.
Foi também de grande utilidade para a preparação nesta técnica a vinda ao País, por minha indicação, de um especialista em gravimetria da Companhia sul-africana Union Corporation, que integrava, juntamente com a Companhia canadiana Cominco e um grande capitalista americano, a Mining Explorations (International), a qual cumpria, então, contrato de prospecção em vasta área do Alentejo.
Faltava, para completar o quadro de técnicos da 1.ª Brigada de Prospecção, um especialista no método geoquímico.
Dirigi convite ao Engenheiro que tinha conhecido, quando estagiou na Lea Cross Geopysical Company, na área da Mina de S. Domingos, onde tinha adquirido experiência no método.
O convite foi aceite e, após a minha proposta, ele foi integrado na Brigada, o que permitiu dar início à aplicação da técnica geoquímica no SFM.
Por sua iniciativa, foi instalado um pequeno Laboratório, para ensaios expeditos, em prédio contíguo àquele em que se encontrava a Brigada do Sul, que por feliz casualidade se encontrava devoluto e, por isso se conseguiu alugar. Com a boa colaboração de pessoal assalariado que ele instruiu, obteve-se alto rendimento em análises de metais pesados, a frio.
Esta capacidade permitiu-me utilizar o Laboratório até para análises de amostras colhidas em áreas do Norte do País.
Foi ainda proporcionada a este Engenheiro formação pós-graduação em geoquímica, na Universidade de Birmingham, em Inglaterra, durante um ano.
Nas Secções, foi em geral confiado a Agentes Técnicos de Engenharia o cumprimento dos trabalhos de campo por mim planeados com a colaboração dos Engenheiros e Geólogos.
Além destes técnicos, contei com pessoal dotado de grande experiência em topografia, em levantamentos electromagnéticos pelo método Turam, e algum domínio no que respeita a trabalho de campo pelo método magnético, que transitou sobretudo da Brigada do Sul.
Este pessoal desempenhou um papel fundamental na aplicação, no terreno, das técnicas geofísicas e geoquímicas.
Até à data do meu afastamento compulsivo da chefia da 1.ª Brigada de Prospecção, nenhum dos Engenheiros e Geólogos desta Brigada tinha demonstrado nível que me aconselhasse a transmitir a um deles a respectiva chefia.
Todos manifestaram o desejo de que eu mantivesse a orientação e coordenação dos estudos em curso, até porque, entre eles, segundo me informaram, não havia bom relacionamento e reconheciam em mim um ascendente que respeitavam.
Eu confiava que, com o decurso do tempo, a situação pudesse vir a evoluir de modo a eu não ter que me ocupar tão intensamente com os problemas desta Brigada para poder dedicar mais atenção à 2.ª Brigada de Prospecção, no Norte do País.
Apesar das deficiências que apontei, foram a esta equipa constituída no Alentejo, que se ficaram devendo os maiores êxitos do SFM, em toda a sua existência. Mas não foi aos três Geólogos novos que coube o principal papel, como eles proclamaram ou deram a entender, sobretudo quando eu fui afastado da chefia da 1.ª Brigada de Prospecção.
Não foi também aos Engenheiros radicados em Beja que coube esse papel. Fundamental foi o desempenho dos Agentes Técnicos de Engenharia das Secções e sobretudo do seu pessoal auxiliar que, disciplinadamente, davam cumprimento às instruções que lhes eram transmitidas.
A escolha das áreas a prospectar, a indicação dos métodos a usar e das modalidades da sua aplicação e a interpretação dos resultados obtidos foram sempre de minha responsabilidade, sem deixar, obviamente de ouvir os pareceres de todos os técnicos, em reuniões periódicas, que, para o efeito, convocava.
Quando deixei de orientar a 1.ª Brigada de Prospecção, por ordem insensata de Director incompetente, os resultados foram desastrosos. Não mais se obteve qualquer êxito.
Passaram a ser apresentados como êxitos, casos que deveriam ter dado origem a procedimento disciplinar, por esbanjamento de dinheiros públicos, em trabalhos mal projectados, como em devido tempo revelarei.
Esta foi a causa original da extinção do SFM.
No próximo post, descreverei a organização que procurei instituir na 2.ª Brigada de Prospecção.
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