segunda-feira, 16 de março de 2009

52 - Os estudos do SFM nas Faixas Carboníferas do Douro e de Ourém

O SFM iniciou estudos na Faixa Carbonífera do Douro, logo após a sua criação em 1939, dando continuidade a anteriores trabalhos do Instituto Português dos Combustíveis

Quando, em Agosto de 1943, ingressei no SFM, ainda como estagiário, encontrava-se em cumprimento uma campanha de sondagens, nas zonas de Gens, Midões e Covelo.
Durante o meu estágio nestas zonas, colaborei nos estudos em curso, sobretudo em trabalhos de topografia, adquirindo alguma preparação na técnica das sondagens que estavam a cargo da empresa belga Foraky.
As sondagens prosseguiam, quando, em Maio de 1944, já com a categoria de Engenheiro, fui nomeado para chefiar a Brigada de Prospecção Eléctrica, que iria efectuar a investigação pelo método electromagnético Turam, da Faixa Piritosa Alentejana.

Vinte anos depois, ficou a meu cargo o Serviço de Prospecção do SFM, extensivo a todo o território continental.
Ainda com poucos dias de presença na sede do SFM, em S. Mamede de Infesta, o Director, a propósito de ordem emanada da Secretaria de Estado da Indústria, para apresentar um “Plano para os Carvões” desabafou com esta frase que me deixou estupefacto: “Eu sei lá o que vou apresentar!”

Eu estava, então, longe de suspeitar do estado em que se encontravam as investigações feitas nas bacias carboníferas do Douro e de Ourém...

A situação que se me deparou causou-me enorme surpresa. Havia por estudar 40 sondagens longas que tinham sido efectuadas na Faixa Carbonífera do Douro e número semelhante na bacia carbonífera de Ourém.
Além disso, nem sequer estava feita a sua implantação em mapas geológicos.
A agravar a situação, decorriam sondagens na zona de Ourém, para investigar o prolongamento em profundidade de camadas de carvão de espessuras exíguas, sem hipótese de viabilidade de exploração económica, não fazendo, consequentemente, sentido, manter em curso tal projecto.

Encarreguei, então, um dos dois Agentes Técnicos de Engenharia, afectados ao Serviço de Prospecção Mineira, de fazer a implantação em cartas geológicas, das sondagens e sanjas que tinham sido efectuadas na Faixa Carbonífera do Douro, anteriormente à minha chefia do Serviço de Prospecção.
Não tive oportunidade de controlar o rigor deste trabalho, mas acredito que tenha sido aceitável. Apenas comento a lentidão da sua execução.

Fez ainda, a implantação em desenhos (perfis geológicos longitudinais e transversais) dos elementos das sondagens efectuadas na Bacia Carbonífera do Douro, as quais estavam a ser estudadas pelo Geólogo a cujo cargo estivera o projecto de investigação desta Bacia.

Ao Geólogo competiria elaborar estes perfis, que iriam constituir a base para cálculo e identificação das reservas evidenciadas, para a planificação da futura exploração.
Mas o Geólogo, não só recusou fazer tal trabalho, como desvalorizou tudo quanto o Agente Técnico de Engenharia havia feito por ele.

Perante o ambiente que vigorava na sede do SFM, estimulado pelo Director e dado tratar-se de um dos funcionários mais antigos do SFM não me era possível impor a metodologia normal.
Nesta matéria, prestou, portanto, valiosa contribuição, o referido Agente Técnico de Engenharia.

Quando ficaram concluídos os desenhos, entreguei, ao Geólogo, volumoso rolo em papel cenográfico que os continha para dele fazer adequado uso, apesar da sua relutância em o receber.
Registo a escassa ou nula representação por testemunhos inteiros das zonas onde se admitiu ter sido atravessado o carvão. Por outro lado, não tinha havido o cuidado elementar de controlar devidamente as trajectórias dos furos.

Eu tinha dado instruções ao Geólogo no sentido de apresentar relatório sintetizando toda a actividade realizada na Faixa Carbonífera do Douro, para se poderem planificar as acções futuras.
Tal relatório teria obviamente que conter peças desenhadas, entre as quais os perfis longitudinais e transversais seriam fundamentais.

O relatório, que recebi, em Agosto de 1968, sem as peças desenhadas a que aludi, foi de pouca utilidade, não correspondendo ao que seria de esperar.

Aconteceu, então, que o Director do SFM, que em 1964 se mostrara incapaz de apresentar o plano que o Secretário de Estado lhe solicitara, sem me informar, chamou a si o problema dos carvões da Bacia Carbonífera do Douro, dando instruções directas ao Geólogo, resultantes de reuniões que realizou com um dos concessionários.
A sequência dos estudos na Bacia Carbonífera do Douro deixou, consequentemente de ser da minha responsabilidade.
A disciplina que eu pretendia introduzir nestes estudos foi destruída pelo Director do SFM.

Tive conhecimento de ter sido elaborado novo projecto de sondagens.
Constou-me também que as peças desenhadas preparadas pelo Agente Técnico de Engenharia, sob minha orientação mas sem a indispensável revisão pelo autor do exame dos testemunhos das sondagens acabaram por ter a utilidade que mereciam.

Em reunião da Comissão de Fomento, tomei conhecimento de que o concessionário da Minas do Pejão não tinha encontrado, em novo piso que instituíra, as camadas de carvão exploráveis, que o exame dos testemunhos das sondagens fizera prever.

As minas deram por finda a exploração, já quando eu estava aposentado. Disso tomei conhecimento pelos jornais. Pelo que me foi dado conhecer, quando o estudo dos carvões esteve sob a minha supervisão, sou levado a concluir que houve graves deficiências no reconhecimento desta importante faixa Carbonífera, que podem ser responsáveis pelo encerramento das Minas.

terça-feira, 10 de março de 2009

51 - Missão falhada ao Japão

Quando, em Novembro de 1962, o Director-Geral de Minas me telefonou a informar que eu tinha sido nomeado para representar o País, em reuniões que iriam ser realizadas em Tóquio, tomei esta nomeação como distinção que me era concedida, face ao invejável currículo que já, nessa data, podia ostentar.

Convencido de que a matéria a analisar se situaria no âmbito da prospecção mineira, onde vinha exercendo a minha actividade, rejubilei com a oportunidade que me era facultada de, mais uma vez, representar o País.

Ao receber, porém, a documentação que tinha sido acumulada na DGMSG a este respeito, há mais de um ano, fiquei perplexo.

A matéria em causa versaria o estabelecimento, em bases científicas, de normas para a amostragem de lotes de minérios de ferro, e as respectivas análises químicas.

Quanto à amostragem, ainda pensei que me seria possível fazer adequada preparação no escasso tempo disponível (cerca de 3 meses), cumulativamente com as funções de Chefe da Brigada do Sul do SFM.
Para tal, adquiri livros de Cálculo das Probabilidades e Estatística, matérias que não tinham constado do meu curso universitário

Quanto às análises, ainda contactei o Engenheiro Químico do SFM, que dirigia o Laboratório instalado nos Serviços Geológicos, convicto de que seria ele a desempenhar-se dessa matéria.

Todavia, tendo consultado o Director-Geral, foi-me respondido que seria eu o único técnico a representar o País nas reuniões de Tóquio.
Não se mostrava, porém, preocupado quanto à qualidade dessa representação. Considerava suficiente a presença, como observador, justificada por o País ser exportador para o Japão, de minérios de ferro extraídos de jazigos existentes no Estado de Goa, nessa data, ainda sob a soberania portuguesa.

Não me conformando com esta atitude, que considerava desprestigiante para o País, fiz ofício de 8 páginas dactilografadas explicando as razões pelas quais me via forçado a renunciar a tal missão.

Desse ofício, com data de 11-2-1963, registado no arquivo da Brigada do Sul com o n.º 305/B:S., transcrevo as seguintes passagens:

“No que respeita às amostragens, há dois pontos fundamentais: o primeiro é a compreensão das normas propostas; o segundo é a análise crítica das mesmas.
Quanto ao primeiro, embora tenha ainda algumas dúvidas na interpretação de determinados conceitos, por se tratar de matéria que me não era familiar, poderei considerá-lo suficientemente dominado.
O segundo exigiria bons conhecimentos de Cálculo das Probabilidades e Estatística, que não possuo nem tenho tempo de adquirir.
No que respeita às análises químicas, é evidente a minha impossibilidade de vir a dominar o assunto. Não se consegue, normalmente, obter, em meses, a experiência que só os anos dão aos indivíduos com formação científica adequada. É matéria para um Engenheiro Químico que, na vida profissional, haja sobretudo, procedido a análises de minérios de ferro ou que faça uma preparação nesse sentido, com a necessária antecedência.
Que o problema exige um cuidadoso estudo demonstra-o a correspondência de vários países com a Organização Internacional de Normalização.
Com efeito, esta Organização começou por enviar, em Março de 1961, para estudo pelos países interessados, a norma japonesa sobre métodos de amostragem de minérios de ferro e métodos de determinação de calibres de minério e de humidade.
Esta norma tem muitíssimo interesse.
Se, na data em que foi recebida, e na qual Portugal informou que participaria nos trabalhos da comissão técnica internacional que iria constituir-se para estudo das normas relativas a minérios de ferro, tivessem sido designados os técnicos da futura representação portuguesa, não surgiriam talvez hoje dúvidas quanto ao êxito da missão.
O estudo desta norma e a sua análise crítica, para conscienciosamente se determinar se ela seria de aceitar, rejeitar ou corrigir nalguns pontos, permitiria, com facilidade, fazer a análise das normas que posteriormente foram recebidas e que constituem a matéria a discutir em Tóquio.
Houve um questionário formulado em 1961, pelo documento ISO/TC 102 (Secretariat-1) 1E. que, como já dissemos, não chegou ao nosso conhecimento.
Todavia, através das respostas ao mesmo contidas no documento ISO7TC 102 (Secretariat-10) 10 E, verificamos que:
a) A Bélgica informava, em 1961, ter em vias de constituição a comissão nacional encarregada de assistir o Instituto que, naquele país, representa a ISO, nestes trabalhos.
b) Vários países propõem a divisão do trabalho por grupos de sub-comissões.
c) A França, concordando com a cidade de Tóquio para local da reunião, mas considerando as despesas que resultarão para os membros da delegação francesa, emite o parecer de que seria extremamente desejável que esta primeira reunião conduzisse a resultados frutuosos, concluindo que importaria, portanto, que cada comissão membro pudesse preparar esta reunião o mais cedo possível.
d) A Alemanha sugere que a reunião tenha lugar numa cidade europeia, informando, contudo, que esperava enviar um representante a Tóquio. A decisão final só seria posteriormente tomada.
e) A Itália manifesta-se em desacordo com a reunião de Tóquio, porque estaria impedida de se fazer representar.
f) A Polónia informa não poder participar por motivo das elevadas despesas da viagem.
g) A Suécia considera aconselhável a reunião na Europa, deixando dúvidas quanto à sua representação.
h) O Reino Unido informa ser extremamente improvável poder enviar uma delegação a Tóquio. Aconselharia a Europa Ocidental
i) A Argentina informa que provavelmente não assistirá.
j) Os Estados Unidos da América do Norte, segundo uma informação não oficial, comunicariam, mais tarde, se participariam ou não.
k) O Canadá, a Índia, a Rússia e a Bulgária concordaram com a escolha de Tóquio para local da reunião.
l) Numerosos países, entre os quais Áustria, Brasil, Chile, Espanha, Grécia, Irão, Nova Zelândia, Paquistão, República da África do Sul, Suíça, Turquia, Estados Unidos da América do Norte, Jugoslávia, não responderam ao questionário.
Concluímos das respostas a este questionário, que na próxima reunião de Tóquio, haveria um certo grau de certeza quanto à participação dos seguintes países: Rússia, Índia, Bulgária, França, Canadá, Japão e Portugal e probabilidade de representação dos Estados Unidos da América do Norte, Alemanha e Suécia.
A reunião será, portanto, na melhor das hipóteses, restrita a 10 países, alguns dos quais nos são nitidamente hostis, do ponto de vista político.
Por todos os motivos, seria da maior conveniência uma representação condigna de Portugal
Não faria também sentido que as avultadas despesas que originaria a deslocação do delegado português, no período de austeridade que o País atravessa – tanto mais que, segundo concluo da correspondência trocada com a Inspecção-Geral dos Produtos Agrícolas e Industriais não foi fácil obter a verba de 40 000$00 para esta missão – não tivessem a compensação de uma representação condigna.
A probidade profissional que me honro de sempre ter demonstrado, impedir-me-ia também de representar o País, nas condições que se me depararam.
Em face do exposto, é com verdadeira mágoa que venho declarar a V. Ex.ª que, sendo manifestamente impossível preparar-me para um satisfatório cumprimento da missão de que V. Ex.ª me incumbiu na capital japonesa, no próximo mês de Março, renuncio ao seu desempenho.
Nesta data, entrego a V. Ex.ª a documentação que recebi sobre este assunto.
Como se trata de uma primeira reunião em que será analisado ainda um ante-projecto, é de presumir que outras reuniões venham a realizar-se, tanto mais que agora, numerosos países membros da ISO se não farão provavelmente representar.
Seria, talvez de designar, desde já, a comissão portuguesa que estará presente em futuras reuniões, a fim de ela poder iniciar, com tempo, a sua preparação.
Em tal comissão, reputamos essencial a presença de um engenheiro químico.
Aproveito o ensejo para afirmar a V. Ex.ª, que, na medida das minhas possibilidades, continuarei ao dispor para quaisquer outras missões que V. Ex.ª entenda dever confiar-me, solicitando, no entanto, a nomeação com a antecedência que me permita uma conveniente preparação.”


Fui propositadamente a Lisboa entregar este ofício e toda a documentação que tinha recebido, ao Director-Geral, estando presente o seu Adjunto, o cognominado Ajax

O Director-Geral mostrou-se francamente desagradado, mas logo nomeou o Ajax para o desempenho da missão,

O Ajax imediatamente aceitou, sem hesitação, mas aconteceu que o Ministério das Finanças, tendo-se apercebido da situação, não autorizou o dispêndio que a missão iria originar.

Receoso de que ao meu ofício não tivesse sido dada entrada, anexei cópia ao meu relatório do mês de Fevereiro de 1963.

Julgo que, como retaliação, o Director-Geral nomeou um Inspector Superior que recentemente tinha deixado o cargo de Director do SFM, para representar o País nas reuniões do Grupo “ad hoc” constituído na OCDE sobre métodos modernos de prospecção.
Fez esta nomeação sem me informar de eu ter sido substituído nas funções parta que tinha sido designado pelo anterior Director-Geral.
O resultado foi desastroso, conforme referi no post N.º 22.

domingo, 8 de março de 2009

50 - A minha mania da justiça

Os trabalhos de prospecção do 1.º Serviço do SFM eram realizados, no campo e em gabinete, com a colaboração de pessoal assalariado recrutado nos locais onde se exercia a sua actividade.

Muitos destes assalariados iam adquirindo formação nas diversas técnicas, mantendo-se no SFM, nalguns casos, durante décadas.

Já referi, no post N.º 24, a minha mágoa por ver abandonarem o SFM alguns elementos que tinham adquirido especialização nessas técnicas, apenas porque não eram autorizados os pequenos aumentos de salários que eu tinha proposto. O meu desalento era tal, que até, em desabafo perante o Director-Geral, cheguei a dizer que me passava pela cabeça também abandonar o SFM, por se tornar muito difícil a execução dos trabalhos que projectava. Isso, porém, não impressionou o Director-Geral que reagiu dizendo-me, que se eu quisesse ir embora, … que fosse!

O mesmo Director-Geral mostrara, porém, noutra ocasião, um particular interesse por um assalariado que eu tinha herdado da 2.ªª Brigada de Levantamentos Liotológicos, quando da reorganização do SFM efectuada em 1964.
Já referi, no post N.º 12, a deficiente qualidade dos estudos desta Brigada, o que não permitiu ao seu pessoal adquirir adequada formação. Todavia, o assalariado, no qual o Director-Geral se mostrara interessado, após a sua integração na 1.ª Brigada de Prospecção, estava a corresponder satisfatoriamente ao que dele se pretendia.

O Director-Geral tinha para esse assalariado uma “cunha” do Secretário de Estado e queria que eu apresentasse proposta para o seu ingresso no Quadro de Contratados, com a categoria de Colector, o que lhe permitiria além de um situação mais estável, melhoria de remuneração e a fixação de residência em Lisboa, com as consequentes compensações por actuação fora da sua residência, tal como se verificava com os outros Colectores contratados.

Não discordando desta promoção, informei o Director-Geral de que havia outros elementos do pessoal assalariado com muito mais mérito a promover à sua frente, até chegar a vez do que agora me era indicado.

O Director-Geral perguntou-me, então, quantos desses elementos considerava eu que deveriam ser contemplados, para que a “cunha” do Secretario de Estado pudesse ser atendida. Reflectindo uns momentos sobre este assunto, cheguei a 7 elementos das diversas Secções da 1.ª Brigada de Prospecção. Ao Director-Geral pareceu exagerado este número, mas disse para eu fazer a proposta.

Ainda me perguntou se seria muito escandalosa a promoção à frente dos elementos com melhor currículo. Respondi que sim e que tal iria perturbar seriamente o ambiente são que reinava, então, na Brigada e diminuir a autoridade que eu nela tinha conquistado.

Regressado ao Porto, logo me apliquei, na recolha dos dados curriculares dos assalariados que tinha considerado merecedores desta promoção e apresentei a respectiva proposta ao Director do SFM.

Alguns dias depois, encontrando-me em Lisboa em serviço, o Director-Geral pergunta-me se já fiz a proposta. Respondo-lhe afirmativamente e que a tinha entregue ao Director do SFM. Censurou-me por não lha ter entregue directamente, ao que eu reagi dizendo que, em casos semelhantes, me tinha ordenado que passasse pelo meu imediato superior hierárquico.

Tendo-lhe confirmado que a proposta contemplava 7 assalariados, reagiu com alguma aspereza, dizendo:

“Este gajo, com a mania das justiças, estraga tudo!!”

Este foi um dos maiores elogios que tive, durante a minha vida profissional.

Quando da análise da proposta, deu-se a curiosa circunstância de ter sido inicialmente rejeitada a promoção do elemento que eu tinha colocado à cabeça da lista, por ser silicótico e ter estado tuberculoso.
Expliquei que, conforme constava da proposta, se tratava de elemento com excepcional currículo, que a silicose tinha sido contraída no SFM e que a tuberculose já tinha sido tratada a expensas do SFM. O facto de a silicose ser da responsabilidade do SFM era, em minha opinião, mais um factor a favor do candidato. Assim mesmo, só com a minha insistência e com documento comprovativo da cura, que fui solicitar ao médico radiologista de Beja que acompanhara o seu caso, é que a processo pôde ter seguimento.

sábado, 7 de março de 2009

49 - A Comissão de Fomento

Em fins de 1968, o Director-Geral de Minas e Serviços Geológicos (DGMSG), consciente da incompetência do Engenheiro que, nomeara para exercer o importante cargo de Director do Serviço de Fomento Mineiro (SFM), decidiu criar um Grupo de Trabalho, a que chamou “Comissão de Fomento”.

Interpretei esta decisão como processo de resolver a incapacidade que vinha demonstrando o Director do SFM para desempenhar as suas funções, evitando destituí-lo, até porque lhe era útil um subordinado obediente, sem iniciativas para além das de carácter burocrático

O Director-Geral, que já tinha excluído do SFM as instalações construídas em S. Mamede de Infesta, ao designá-las “Laboratórios da DGMSG”, quando da sua inauguração, dava assim mais um passo para se assumir como real dirigente do SFM.

Nesta Comissão participavam todos os Chefes dos vários departamentos da DGMSG (Engenheiro Director-Geral, Engenheiro Director do SFM, Engenheiros-Chefes dos 1.º, 2.º 3.º e 4.º Serviços do SFM, Engenheiro-Chefe dos Serviços Geológicos, Engenheiros-Chefes das Circunscrições Mineiras do Norte e do Sul, Engenheiro-Chefe da Inspecção de Águas).
Participavam, também, um Engenheiro Inspector Superior, um Engenheiro-Adjunto do Director-Geral (o Ajax, a que já tenho feito alusão) e o Secretário Auditor Jurídico da DGMSG.
Nas últimas reuniões, passaram a participar alguns Geólogos que, se tinham destacado na sua actividade no SFM.

Apesar de este procedimento me parecer incorrecto, ingenuamente confiei que o Director-Geral, que, no início da década de 60, vinha dando grande apoio à prospecção mineira, ultrapassando já o Director do SFM, iria, de facto promover grande impulso à indústria mineira nacional, aproveitando as reais potencialidades do País.

As minhas ilusões cedo, porém, se desvaneceram.

Nas reuniões, o que mais se analisava eram problemas de ordem burocrática, secundarizando os verdadeiros objectivos de fomento.

Comecei por observar uma obsessão em libertar o SFM do caso de Aparis, transformando-o num problema grave a resolver, com urgência. Desvalorizou todo o trabalho sério que tinha sido efectuado e procurou transferir o seu estudo para a iniciativa privada, esquecendo as afirmações feitas, quando da visita do Secretário se Estado da Indústria e todas as minhas propostas.,

Classificou a Mina de marginal! Tal não obstou, porém, a que Empresa recém-constituída por ela se interessasse e fizesse uma exploração amplamente lucrativa.

Ao mesmo tempo que classificava esta Mina de marginal, consentia que, na região de Almodôvar, estivesse em reconhecimento um filão cuprífero (Mina do Barrigão), com a extensão de cerca de 100 metros.
E, o que é mais grave, este filão encontrava-se incluído dentro de área adjudicada a Mining Explorationas (International), revertendo, consequentemente para esta Companhia os resultados que eventualmente viessem a ser encontrados.
Quando expus o meu parecer sobre este tema, obtive a seguinte reacção do Director-Geral: “O senhor Engenheiro Rocha Gomes pensa que por ter essa opinião, nós teremos que concordar com ela?” A minha resposta foi simples: Emiti o meu parecer sobre uma área que bem conheço; penso que cumpri um direito e até um dever, como membro desta Comissão de Fomento.
A realidade é que os trabalhos prosseguiram, apesar das minhas objecções, com os resultados negativos que eram de esperar

Numerosos outros casos foram sucedendo, demonstrativos de que o Director-Geral de Minas, assumindo-se progressivamente como dirigente do SFM, foi invadindo até as atribuições do Serviço de Prospecção, que me estava confiado, passando a dirigir pessoalmente trabalhos de prospecção de sheelites, dos quais encarregou um grupo de jovens Geólogos.
Deslumbrado com os êxitos que vinham sendo obtidos pela equipa por mim constituída, pretendeu também ele-próprio, sem consciência da impreparação na matéria, tanto dele como dos Geólogos que escolheu para o coadjuvarem, obter rapidamente idênticos êxitos, que julgava fáceis.

Obviamente, que desta atitude só poderia resultar um total fracasso e foi o que aconteceu.

A alguns destes casos me referirei, em próximos posts.

Com as suas atitudes, algumas vezes contraditórias e frequentemente obstrucionistas, o Director-Geral praticou, de facto, uma política de anti-fomento, contrariamente ao que havia anunciado.

A última reunião teve lugar em 24 de Abril de 1974. Estava prevista nova reunião, no dia seguinte. Ainda me apresentei na DGMSG, em 25 de Abril, preparado para fazer as minhas intervenções, embora consciente de que provavelmente não seriam bem recebidas, como já se tornara hábito. Todavia, o Director-Geral, impressionado com a Revolução que tinha sido iniciada nesse dia, decidiu suspender a sua realização.

Após 25 de Abril, não houve mais reuniões da Comissão de Fomento. O Director-Geral passou a demonstrar sobretudo preocupação em manter o cargo, consciente de que, no desempenho anterior, havia cometido abusos e tomado decisões que mereciam reprovação de membros da Comissão.

Oportunamente me irei referir a visitas que passou a fazer à 1.ª Brigada de Prospecção, onde estava integrado o seu afilhado Delfim de Carvalho. Dessas visitas e da colaboração combinada do Director do SFM, resultou a minha demissão da chefia desta Brigada e a sua consequente degradação.

Este foi o princípio do fim do SFM, como irei demonstrar.

segunda-feira, 2 de março de 2009

48 -O fim inglório do jazigo de cobre de Aparis, em Barrancos

Informei, no post N.º 21, que em 1964, mercê de uma reestruturação do SFM, originada pela nomeação de novo Director, os trabalhos mineiros no Sul do País deixaram de estar a meu cargo, apesar de eu ter manifestado muito sérias dúvidas sobre a sua correcta sequência, conhecedor como estava, da incompetência, nesta matéria, dos engenheiros aos quais eles iam ser confiados.

Eu tinha em preparação um relatório com descrição pormenorizada dos trabalhos realizados desde 1-1-1959 até 31-12-1963 e com proposta para continuação dos estudos.

Os trabalhos estavam documentados em mais de 150 peças desenhadas, que incluíam plantas dos diversos pisos já instituídos, perfis longitudinais e transversais pelos diversos filões conhecidos e também logs de 50 sondagens, algumas iniciadas a partir do piso 150.

As sondagens demonstravam que as anomalias electromagnéticas detectadas pelo método Turam correspondiam a estruturas filonianas, frequentemente com mineralização de calcopirite, malaquite e até cobre nativo.
Contudo, não tinham sido encontradas concentrações com interesse económico Tal não foi interpretado como significativo de que elas não existam. O facto de terem evidenciado enchimentos filonianos, quase sempre, nos locais das anomalias, foi já considerado factor positivo a ter em conta.
Projectava fazer aplicação do método de polarização induzida, que é o indicado para detectar mineralizações disseminadas, como é o caso dos jazigos filonianos.
Já havia proposto a aquisição da respectiva aparelhagem, aguardando que a Direcção do SFM acabasse por compreender a sua necessidade, não só para este caso de Aparis, mas também para outros, como por exemplo o do Salgadinho na região de Cercal – Odemira, onde também havia sido detectada disseminação de calcopirite numa sondagem.
Para a projectada utilização deste equipamento, estivera em estágio, nas Minas do Louzal, onde actuava a Companhia canadiana MC Phar, o engenheiro que, na 1.ª Brigada de Prospecção, tinha os métodos eléctricos a seu cargo (V: post N.º 27).

Planeava, também, instituir dois novos pisos até ao 210, isto é, até 60 metros abaixo do piso 150, que se encontrava em reconhecimento.

Esperava que, finalmente, fosse autorizada a exploração parcial do jazigo, para se obterem os dados de natureza económica essenciais à sua avaliação.

Pretendia ainda fazer desta Mina uma Mina – Escola, onde engenheiros recém – formados pudessem adquirir a experiência que a Universidade não conseguia proporcionar-lhes.

Além disso, era minha intenção propor que esta Mina fosse utilizada para ensaios de novos equipamentos, à medida que eles fossem surgindo no mercado, para aumentar a eficiência dos trabalhos.

Estas ideias foram oralmente expostas em reuniões da Comissão de Fomento, nas quais participaram representantes de todos os departamentos da DGMSG, encontrando-se algumas delas referidas em relatórios que apresentei na qualidade de Chefe do Serviço de Prospecção do SFM.

Não pude, porém concluir esse terceiro relatório, como já tive ocasião de dizer, porque as necessidades prementes de desenvolver a equipa de prospecção absorveram completamente o meu tempo.

A sua elaboração foi confiada ao Agente Técnico de Engenharia João José de Oliveira Barros, Chefe da Secção de Moura e Barrancos, que orientava localmente os trabalhos. Sendo um excelente colaborador, as suas atribuições limitavam-se à execução das instruções que recebia. O seu relatório, naturalmente iria reflectir estas limitações e foi o que aconteceu.

As minhas dúvidas quanto à desorientação subsequente à entrega que fui forçado a fazer da Secção que tão empenhadamente fui construindo, cedo se transformaram em certezas.

Incapazes de prosseguir no reconhecimento do jazigo, em conformidade com programa que estava em cumprimento, apenas conseguiram dar início à exploração de uma das suas bolsadas.
Saliento que a autorização para passar à exploração me fora antes sempre negada, até com censura pela insistência com que a requeria.

Não se considerando, porém, aptos a tal empreendimento, solicitaram a intervenção de professor do Instituto Superior Técnico, que tinha adquirido experiência de exploração, na Mina da Panasqueira.

Quando da visita do Secretário de Estado do Indústria a esta Mina, em meados de 1965, à qual me referi no post anterior, estavam em curso trabalhos preparatórios para o desmonte da bolsada escolhida.

No documento – guia da visita, redigido, com aprovação do Director – Geral, consta o seguinte: “Todos os estudos efectuados, desde a prospecção até à preparação dos concentrados comerciais, têm oferecido a possibilidade de tomar directamente contacto com todos os sectores da actividade mineira, constituindo uma experiência de incalculável valor para a preparação de técnicos (e outro pessoal) responsáveis pelas futuras tarefas de fomento”.

Em Outubro de 1968, foi com alguma surpresa que tomei conhecimento de que o conjunto de concessões abandonadas, que cobriam o jazigo de Aparis, tinha sido posto a concurso, por portaria publicada no Diário do Governo, com vista à sua exploração.
Não constava, porém, do clausulado, obrigação de os concorrentes prosseguirem o reconhecimento das zonas onde apenas se confirmara a passagem de filões através de uma primeira série de sondagens.

Também fora totalmente abandonada a ideia de aproveitar a “experiência de incalculável valor para a preparação de técnicos (e outro pessoal) responsável pelas futuras tarefas de fomento”.

A realidade é que, com o termo dos trabalhos mineiros do SFM, na mina de Aparis, pela sua transferência para a actividade privada, terminaram quase totalmente os trabalhos mineiros do SFM em todo o Paìs!

Acompanhei, no Norte, os esforços de um Agente Técnico de Engenharia do 2-º Serviço para estudar as Minas de zinco, chumbo e cobre da região de Talhadas no concelho de Águeda. Por falta de apoio eficaz, sobretudo no âmbito da geologia, estes estudos não tiveram êxito.
Nunca percebi porque foi dada preferência ao estudo desta Minas, quando, na sua proximidade, se situavam as Minas de Braçal, Malhada e Coval da Mó, que tinham suspendido a sua laboração, não por carência de minério, mas por baixa temporária de cotação do chumbo e por outras causas que me pareceram estranhas.

Do insucesso em Talhadas resultou também a quase total paralisação dos trabalhos mineiros no Norte, perdendo-se igualmente a experiência que lá se tinha conseguido.

Áreas do Sul que poderiam ter continuado a sua investigação por trabalhos mineiros, tais como Algares de Portel, Preguiças, Vale do Vargo e muitas outras, não foram consideradas para aplicação destas técnicas, assim se perdendo uma experiência que levara décadas a conseguir.

As concessões, objecto do concurso, público foram adjudicadas a uma Empresa criada propositadamente para a exploração de Aparis, da qual eram sócios dois professores catedráticos da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto.

Esta Empresa, denominada “Minerália” passou a explorar as bolsadas ricas evidenciadas pelo SFM, não constando que se tenha interessado pelas zonas mais pobres ou tenha completado o reconhecimento do jazigo.

Em Abri de 1975, vi, no jornal “República”, o anúncio de que a Mina de Aparis ia ser encerrada “por esgotamento total do seu filão”.

Após o encerramento da Mina de Aparis, um dos sócios de Minerália contactou-me, para me informar que a sua exploração revelou a exactidão das conclusões a que tinha chegado o reconhecimento efectuado sob minha orientação e, estando eu já afastado da direcção de trabalhos mineiros, há mais de uma dezena de anos, perguntou-me se tinha estudo de algum outro jazigo, nas mesmas condições, para Minerália se candidatar à sua exploração. Obviamente que não tinha!

Esta foi o triste fim de um estudo em que profundamente me tinha empenhado.

No arquivo do SFM de S. Mamede de Infesta deixei vasta documentação que poderá ainda ser útil, se um renascido SFM vier a surgir, como penso ter plena justificação, mas com a posição hierárquica que lhe compete. Em ocasiões oportunas, tenho defendido a criação de um Instituto de Investigação dos Recursos Minerais, com categoria equivalente à do Laboratório Nacional de Engenharia Civil, dotado de autonomia administrativa e financeira.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

47 - As visitas de Secretário de Estado a regiões mineiras valorizadas pelo SFM

Em meados de 1965, o Director – Geral de Minas, recentemente nomeado para suceder no cargo ao Engenheiro Luís de Castro e Solla, apercebendo-se da importância dos trabalhos de investigação mineira que tinham sido realizados pelo SFM, nas duas décadas anteriores, no Sul do País, considerou útil que o Secretário de Estado da Indústria deles tomasse também conhecimento, tendo em vista obter maior apoio do Governo no desenvolvimento do SFM, como Organismo criador de riqueza.

Nesta ordem de ideias, começou por organizar um programa que incluía, não só visitas a Minas do Alentejo onde o SFM tinha tido papel fundamental na sua valorização, mas também á estância termal de Monchique e às Minas de sal-gema de Loulé, nas quais apenas se manifestou a iniciativa privada. Este programa terminaria com uma conferência no Governo Civil de Beja, onde seria exposta a actividade do SFM no Alentejo, perante um auditório onde estariam presentes os Governadores Civis de todos os distritos do Alentejo e Algarve e também Presidentes das Câmaras.

Para orientar estas visitas, foi elaborado um documento – guia, de cuja redacção foram encarregados vários técnicos, com recurso a relatórios oficiais ou privados constantes dos arquivos da DGMSG.

A mim coube escrever sobre as Minas de sal-gema, que nunca antes visitara e, também, a exposição no Governo Civil de Beja. Coube a outros técnicos escrever sobre as Minas cujo estudo dirigi, durante largos anos, a respeito das quais apresentei diversos relatórios.

O Director-Geral fez-se acompanhar dos Engenheiros que, em Lisboa constituíam o designado “Gabinete de Estudos”, cujas produções científicas ninguém chegou a conhecer.

Faziam ainda parte da comitiva jornalistas do Diário de Notícias, do Diário Popular, do Diário de Lisboa, do Diário do Alentejo e da Televisão.

As visitas prolongaram-se durante dois dias, começando em 24 de Agosto, pelas Minas de ferro e manganés de Cercal do Alentejo (Serra da Mina e Serra do Rosalgar), que então se encontravam em exploração.

Aqui o Director-Geral, confiante no conhecimento que tinha dos jazigos, adquirido quando da sua passagem por esta região, na década de 40, ainda como estagiário, começou, à entrada da galeria N.º 8 da Mina da Serra da Mina, cujos trabalhos íamos visitar, a expor o que sabia do jazigo. Esquecia-se de que o conhecimento deste jazigo muito havia progredido desde a distante década de 40.

Foi, então, que eu abri o relatório final acerca das 129 Minas que tinham sido registadas na região de Cercal – Odemira e desdobrando mapa onde se encontravam descritos, com todo o pormenor, os trabalhos do grupo da galeria 8, chamei a atenção do Secretário de Estado para a real dimensão do que iríamos visitar. A partir desse momento, passei a ser o interlocutor que o Secretário de Estado usou para se informar sobre os jazigos.

Na Mina da Serra do Rosalgar, tive igualmente ocasião de mostrar, à boca da Galeria da Cela, mapas (plantas e cortes geológicos) dos trabalhos interiores derivados desta galeria a flanco de encosta e as características quer quanto a constituição mineralógica, quer quanto a composição química dos minérios em exploração, que iríamos visitar.

Terminada a visita sumária a estas duas Minas, dirigíamo-nos para as Termas de Monchique, quando a viatura em que se deslocava o Secretário de Estado, acompanhado pelo Director-Geral e pelo Director do SFM, subitamente parou e o Director-Geral saiu para se dirigir a outra viatura onde eu me encontrava para eu confirmar que as rochas expostas nas barreiras da estrada eram xistos. Desiludi-o ao informar que tais rochas eram pórfiros idênticos aos da Faixa Piritosa, que tínhamos cartografado com todo o pormenor, em mapas à escala 1:5.000. Curiosamente, o Secretário de Estado, Engenheiro Amaro da Costa, pai do malogrado Ministro da Defesa do Governo de Sá Carneiro, que era natural da freguesia das Amoreiras do concelho de Odemira, ao duvidar da classificação que o Director-Geral atribuíra a essas rochas, mostrara-se mais informado que ele sobre a geologia da sua região.

As visitas prosseguiram nas Termas de Monchique, que eu já conhecia e nas Minas de sal-gema de Loulé que me impressionaram pela grandiosidade das reservas em exploração.

No regresso, após o jantar na Estalagem da EVA (Empresa de Viação do Algarve), em Ferreira do Alentejo, tive a oportunidade de fazer a minha palestra no Governo Civil de Beja subordinada ao título “Actividade do Fomento Mineiro no Alentejo”.

Durante cerca de uma hora (das 23 às 24!), mantive a numerosa assistência interessada na descrição que fiz da actividade do SFM no Alentejo, referindo com algum pormenor as técnicas modernas de prospecção utilizadas, para além dos tradicionais trabalhos mineiros de pesquisa e reconhecimento e os resultados conseguidos.

Salientei a colaboração prestada a todas as empresas detentoras de concessões mineiras, a revelação de novos jazigos minerais e a descoberta de potencialidades que antes eram ignoradas, tais como as das regiões de Castro Verde – Almodôvar, Cercal – Odemira e Alcácer do Sal para jazigos de pirite complexa idênticos aos de S. Domingos, Aljustrel e Louzal.

No dia seguinte, foram visitadas a Mina de cobre de Aparis no concelho de Barrancos, as Minas de zinco da Herdade de Vila Ruiva e Preguiça N.º2 do concelho de Moura e as Minas de ferro de Orada do concelho de Pedrógão do Alentejo, todas em franca actividade sobretudo mercê da anterior valorização pelo SFM.

Não estive presente na Mina de Aparis, porque o motorista que devia transportar-me adormeceu e eu tive que recorrer a um colega da equipa de Beja para me conduzir até às Minas da Preguiça, já que não chegaria a tempo de me juntar à comitiva na Mina de Aparis.

Aconteceu que o engenheiro que em 1964 me substituiu, bem contra minha vontade, na chefia dos trabalhos mineiros do Sul do País, após ano e meio de dirigir os trabalhos na Mina de Aparis ainda não fixara os trajectos para lá chegar! E a comitiva andou perdida durante algum tempo!

Algum tempo mais tarde, o Director-Geral resolveu fazer idênticas visitas a Minas do Norte do País.

Já então eu tinha iniciado trabalhos de prospecção por método eléctrico na área das Minas de carvão de S. Pedro da Cova, tendo registado surpreendentes anomalias de polarização espontânea que se encontravam ainda em fase de interpretação.

Conhecedor deste resultado, o Director do SFM pediu-me os mapas respectivos, a fim de os apresentar ao Secretário de Estado.

Quando as visitas terminaram, veio devolver-me esses mapas e, grande foi a minha surpresa quando me declarou que, afinal, não tinham sido necessários! Reagi, dizendo-lhe que deveria ter sido ele a provocar a oportunidade de os apresentar, já que essa era a finalidade das visitas.

Durante uma posterior presença na Circunscrição Mineira do Norte, o Director – Geral teve a atenção de elogiar a minha participação nas visitas que tinham sido efectuadas a Minas do Sul do País, lamentando não ter tido no Norte um “Rocha Gomes” que o tivesse auxiliado. Ainda lhe respondi que, se não tivera, foi porque me não convidara, pois embora a minha presença no Norte fosse ainda curta já podia apresentar resultados que não envergonhariam o SFM.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

46 – A descoberta do jazigo de ferro da Alagada, na região de Elvas

Os levantamentos litológicos empreendidos, em 1966, pela Secção de Vila Viçosa da 1.ª Brigada de Prospecção, conduziram à descoberta de vestígios de antigas pesquisas mineiras na zona da Alagada da região de Elvas.

Para investigação da importância desta ocorrência, fez-se aplicação das técnicas magnética e gravimétrica.

Obtiveram-se pronunciadas anomalias por ambos os métodos, tendo sido possível, através da carta gravimétrica, fazer uma estimativa das reservas em cerca de 1 milhão de toneladas.

Foram realizadas 8 sondagens, pelas quais se obteve a confirmação destas reservas, ficando definido o seu teor médio em cerca de 40% de Fe.

Embora de pequena dimensão, este jazigo ainda mereceu a atenção da Empresa que, nessa data, explorava o jazigo de Orada, também situado na vizinhança do Rio Guadiana. Todavia, a vulnerabilidade da área relativamente a inundações, face à sua proximidade do rio, levou-a a não apresentar proposta de concessão.

Os dados colhidos nos trabalhos de campo respeitantes à prospecção realizada nesta zona foram por mim utilizados, em aulas práticas da disciplina de Prospecção Mineira, que regi, de 1970 a 1990, na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto.

Este era, de facto, um exemplo raro, pela clareza das anomalias encontradas, que permitia fazer interpretações quanto à atitude do jazigo, através dos elementos fornecidos pelo método magnético e quantificar a sua tonelagem através dos elementos do método gravimétrico.

Outros resultados da prospecção, tais como, Moinho, Feitais, Estação e Gavião em Aljustrel, Vale de Pães na região de Cuba – Vidigueira, Algares de Portel, e vários outros, poderiam ter sido tratados nessas aulas e importantes contribuições poderiam ter sido conseguidas para aperfeiçoar a sua interpretação, como era meu desejo.

Todavia, tendo sido eu o introdutor de todas as técnicas de prospecção em uso pelo SFM, foram-me negados esses dados, com manifesto prejuízo da preparação dos alunos e com prejuízo do próprio SFM, que não conseguindo explorar devidamente os dados que colhia, me impedia de ser eu a explorá-los mais completamente, ou sugerir que doutorandos os aproveitassem para as suas teses.

A esta obstrução à minha actividade docente, consequência do mau uso das liberdades introduzidas pela Revolução de Abril de 1974, me referirei oportunamente.