Conheci esta Mina, no verão de 1946.
Nesse tempo, eu chefiava a Brigada de Prospecção Eléctrica, que tinha sido criada pelo primeiro Director do SFM, Engenheiro António Bernardo Ferreira, com o objectivo de descobrir novas concentrações de pirite complexa na Faixa Piritosa Alentejana, que permitissem não só manter em laboração as indústrias instaladas no Barreiro para produção de enxofre, cobre e seus derivados, mas também a exportação desta matéria-prima.
A Brigada actuava então na zona de Aljustrel, em áreas que estavam a ser aproveitadas para cultivo de trigo e outros cereais. O desenvolvimento das searas, durante o verão, não permitia o seu atravessamento, para efectuar as observações electromagnéticas, nos perfis previamente piquetados, sem causar danos aos proprietários agrícolas.
O Director do SFM decidiu que a Brigada se transferisse para as Minas do Braçal, para investigar a continuidade de filões conhecidos e a possível existência de filões que ainda não tivessem sido detectados.
Foi nestas circunstâncias que passei a conhecer as Minas do Braçal.
Embora os resultados da prospecção electromagnética efectuada não tivessem sido positivos, no que respeita a novas descobertas, o que pude observar, durante os meses em que residi nas Minas, deixou-me francamente bem impressionado.
As Minas tinham sido objecto de intensa exploração desde recuados tempos, como o demonstravam objectos encontrados em trabalhos antigos com os quais as mais recentes explorações iam deparando. Lembro-me de ter visto em pequeno Museu organizado nas Minas, lucernas e chicotes em couro entrançado, que eram interpretados como “argumentos” usados para o trabalho de escravos.
A Companhia que, nessa época, adquirira a concessão do Braçal e várias outras concessões na sua imediata proximidade, não tinha como principal objectivo a actividade mineira. Tratava-se de uma Companhia industrial e agrícola, que tendo observado a grande quantidade de minério existente em antigas escombreiras, resolvera fazer a sua recuperação.
Dos estudos que terá mandado efectuar, concluíra que o minério existente nas escombreiras justificava a instalação de uma lavaria.
Para dirigir a actividade desta lavaria, contratou um jovem Agente Técnico de Engenharia que, embora sem experiência mineira, revelava grande capacidade de aproveitamento de excelente mão de obra que conseguia recrutar localmente.
Este técnico interessou-se, não apenas pelo bom funcionamento da lavaria. Julgo ter sido de sua iniciativa retomar a exploração da Mina do Braçal e das Minas Malhada e Coval da Mó, que lhe ficam próximas.
Visitei a Mina do Braçal e, conquanto, nessa data, a minha experiência de trabalhos mineiros fosse praticamente nula, pois estava dirigindo desde a minha formatura trabalhos de prospecção à superfície, fiquei convencido de que se estava em presença de jazigo rico.
A exploração estava a incidir principalmente em antigos desmontes, aproveitando zonas cujos teores de chumbo não tinham sido considerados suficientes para se justificar a sua extracção. A produção que se conseguia, permitia manter uma actividade mineira lucrativa.
Durante a minha permanência nestas Minas, tive ainda a oportunidade de assistir à produção de chumbo metálico, em fornos que tinham sido construídos em meados do século XIX e que a Companhia recuperara.
Pelo que acabo de referir, foi com enorme surpresa que tomei conhecimento, em 1959, do encerramento destas Minas e o consequente despedimento de cerca de 600 mineiros que lá exerciam a sua actividade.
quarta-feira, 8 de abril de 2009
quarta-feira, 1 de abril de 2009
58 – Problema no abastecimento de água a Mira d’Aire resolvido pelo SFM
Em Setembro de 1968, Mira d’Aire preparava-se para festejar melhoramento importante no abastecimento de água à sua população, quando um acontecimento imprevisto fez adiar a inauguração, para a qual até já os foguetes tinham sido adquiridos.
Tinha-se tornado premente alteração no sistema de captação que estava a ser utilizado.
A água era aspirada num algar do maciço calcário de Porto de Mós e bombeada para a superfície, em condições que não garantiam a qualidade recomendável.
À medida que baixava o seu nível, por ausência de recarga motivada por escassez de chuvas, tornava-se necessário, com bastante frequência, deslocar os grupos moto-bombas, para garantir a possibilidade de aspiração.
Para acabar com esta permanente preocupação, planeou-se a abertura de um poço com a profundidade 100 metros e uma galeria também com a extensão de cerca de 100 metros, orientada para atingir o algar a um nível que evitasse as constantes mudanças de posição dos grupos electro-bombas.
O levantamento topográfico do algar foi feito à bússola por um escafandrista, com as naturais dificuldades.
Aconteceu que, tendo a galeria atingido comprimento mais que suficiente para ter interceptado o algar, este não fora encontrado.
Fui, então contactado por um Engenheiro dos Serviços de Urbanização, que tinha anteriormente pertencido ao Quadro de técnicos do SFM, integrado na extinta Brigada de Prospecção Eléctrica, com vista a tentativa de resolução deste problema, usando o equipamento Turam de prospecção electromagnética.
Com o melhor espírito de colaboração, após autorização superior, planeei o ataque do problema com aplicação, não apenas do método electromagnético Turam, mas também do gravimétrico.
Relativamente ao método Turam, projectei o seu emprego, como método do ângulo de inclinação. Ao dar as minhas instruções ao Engenheiro que, na 1.ª Brigada de Prospecção estava encarregado dos métodos eléctricos, obtive, inicialmente como reacção, dúvidas quanto à eficácia da modalidade indicada, uma vez que ainda não tinha sido tentada no País e o método, (como o seu nome indica, na linguagem sueca de onde é originário), exigia o uso de duas bobinas, ao passo que na modalidade que eu pretendia usar, apenas uma se tornava necessária.
Sugeri-lhe que fizesse experiência, estendendo um cabo condutor rectilíneo por cima de trincheira de uma estrada e verificasse se conseguia localizar esse cabo, do modo por mim indicado, A este respeito, sugeri que colhesse mais informação no livro elementar de Prospecção da autoria de Parasnis.
Em 25 e 26 de Setembro de 1968, estiveram em Mira d’Aire, os Engenheiros da 1.ª Brigada de Prospecção que tinham a seu cargo os métodos eléctricos e o método gravimétrico, a fim de darem execução aos trabalhos projectados.
No dia 25, foi estendido um cabo condutor eléctrico, desde o poço até uma distância de cerca de 50 metros, numa direcção sensivelmente perpendicular à da galeria. Este condutor foi ligado à terra em ambos os extremos, tendo um destes ficado situado no ponto mais fundo do algar que o mergulhador conseguiu atingir.
No dia 26, eu desloquei-me do Porto para acompanhar os trabalhos que iam ser realizados.
Fiquei deveras surpreendido com a instalação que estava a ser usada para a movimentação do pessoal, dentro do poço, a qual não reunia as mínimas condições de segurança, só por muita sorte não acontecera, até então, nenhum acidente grave.
Os meus colegas, sem experiência de trabalhos mineiros terão considerado que estes teriam, pela sua natureza, que ser perigosos e não me fizeram qualquer observação sobre o assunto, talvez para não darem sinal de se mostrarem medrosos.
Eu hesitei antes de me decidir a deixá-los entrar com todos os equipamentos, arriscando-me a originar perdas de vidas, entre as quais a minha e material valiosíssimo.
A minha decisão final foi enfrentar esse perigo, consciente de que outra atitude da minha parte poderia ser mal interpretada pela DGGM e confiante de que, se nenhum acidente tinha acontecido até àquela data, a probabilidade de acontecer, nesse dia, não seria grande.
Fez-se então percorrer pelo cabo uma corrente alterna de cerca de 1,5 A e uma frequência de 440 hz e fez-se a pesquisa das características geométricas do campo electromagnético gerado pela passagem desta corrente, ao longo de toda a extensão da galeria.
Dos resultados encontrados, foi possível determinar, com exactidão, o local mais próximo do algar, onde à galeria passava a um nível que lhe estava subjacente cerca de uma dezena de metros.
A aplicação do gravímetro tinha por base o grande contraste densitário entre o calcário e a água que preenchia a gruta nele existente, que comunicava com o algar. Todavia, não se registou anomalia significativa, talvez devido às reduzidas dimensões da gruta.
Quando regressei ao Porto, após a conclusão deste trabalho, a minha primeira preocupação foi escrever ao colega dos Serviços de Urbanização para mandar suspender, de imediato, os trabalhos que estavam a decorrer nas deploráveis condições a que aludi, antes que um acidente grave viesse a registar-se.
A sua reacção deixou-me estupefacto. Referiu que nas Minas sujeitas à fiscalização da DGGM, se registavam situações muito piores! Eu nunca tivera funções de fiscalização, mas tinha tido oportunidade de visitar numerosas minas em exploração por empresas privadas e nunca encontrara qualquer situação que se assemelhasse à que mereceu os meus reparos.
Tudo acabou por correr bem. O algar foi encontrado à marca prevista e até houve que bater em retirada, algo apressadamente, perante a invasão de água que se verificou através de furo que foi efectuado na sua direcção.
Os festejos foram noticiados nos jornais da época.
O colega que me tinha contactado fez deste êxito artigo que publicou, como se tivesse sido seu autor.
Tinha-se tornado premente alteração no sistema de captação que estava a ser utilizado.
A água era aspirada num algar do maciço calcário de Porto de Mós e bombeada para a superfície, em condições que não garantiam a qualidade recomendável.
À medida que baixava o seu nível, por ausência de recarga motivada por escassez de chuvas, tornava-se necessário, com bastante frequência, deslocar os grupos moto-bombas, para garantir a possibilidade de aspiração.
Para acabar com esta permanente preocupação, planeou-se a abertura de um poço com a profundidade 100 metros e uma galeria também com a extensão de cerca de 100 metros, orientada para atingir o algar a um nível que evitasse as constantes mudanças de posição dos grupos electro-bombas.
O levantamento topográfico do algar foi feito à bússola por um escafandrista, com as naturais dificuldades.
Aconteceu que, tendo a galeria atingido comprimento mais que suficiente para ter interceptado o algar, este não fora encontrado.
Fui, então contactado por um Engenheiro dos Serviços de Urbanização, que tinha anteriormente pertencido ao Quadro de técnicos do SFM, integrado na extinta Brigada de Prospecção Eléctrica, com vista a tentativa de resolução deste problema, usando o equipamento Turam de prospecção electromagnética.
Com o melhor espírito de colaboração, após autorização superior, planeei o ataque do problema com aplicação, não apenas do método electromagnético Turam, mas também do gravimétrico.
Relativamente ao método Turam, projectei o seu emprego, como método do ângulo de inclinação. Ao dar as minhas instruções ao Engenheiro que, na 1.ª Brigada de Prospecção estava encarregado dos métodos eléctricos, obtive, inicialmente como reacção, dúvidas quanto à eficácia da modalidade indicada, uma vez que ainda não tinha sido tentada no País e o método, (como o seu nome indica, na linguagem sueca de onde é originário), exigia o uso de duas bobinas, ao passo que na modalidade que eu pretendia usar, apenas uma se tornava necessária.
Sugeri-lhe que fizesse experiência, estendendo um cabo condutor rectilíneo por cima de trincheira de uma estrada e verificasse se conseguia localizar esse cabo, do modo por mim indicado, A este respeito, sugeri que colhesse mais informação no livro elementar de Prospecção da autoria de Parasnis.
Em 25 e 26 de Setembro de 1968, estiveram em Mira d’Aire, os Engenheiros da 1.ª Brigada de Prospecção que tinham a seu cargo os métodos eléctricos e o método gravimétrico, a fim de darem execução aos trabalhos projectados.
No dia 25, foi estendido um cabo condutor eléctrico, desde o poço até uma distância de cerca de 50 metros, numa direcção sensivelmente perpendicular à da galeria. Este condutor foi ligado à terra em ambos os extremos, tendo um destes ficado situado no ponto mais fundo do algar que o mergulhador conseguiu atingir.
No dia 26, eu desloquei-me do Porto para acompanhar os trabalhos que iam ser realizados.
Fiquei deveras surpreendido com a instalação que estava a ser usada para a movimentação do pessoal, dentro do poço, a qual não reunia as mínimas condições de segurança, só por muita sorte não acontecera, até então, nenhum acidente grave.
Os meus colegas, sem experiência de trabalhos mineiros terão considerado que estes teriam, pela sua natureza, que ser perigosos e não me fizeram qualquer observação sobre o assunto, talvez para não darem sinal de se mostrarem medrosos.
Eu hesitei antes de me decidir a deixá-los entrar com todos os equipamentos, arriscando-me a originar perdas de vidas, entre as quais a minha e material valiosíssimo.
A minha decisão final foi enfrentar esse perigo, consciente de que outra atitude da minha parte poderia ser mal interpretada pela DGGM e confiante de que, se nenhum acidente tinha acontecido até àquela data, a probabilidade de acontecer, nesse dia, não seria grande.
Fez-se então percorrer pelo cabo uma corrente alterna de cerca de 1,5 A e uma frequência de 440 hz e fez-se a pesquisa das características geométricas do campo electromagnético gerado pela passagem desta corrente, ao longo de toda a extensão da galeria.
Dos resultados encontrados, foi possível determinar, com exactidão, o local mais próximo do algar, onde à galeria passava a um nível que lhe estava subjacente cerca de uma dezena de metros.
A aplicação do gravímetro tinha por base o grande contraste densitário entre o calcário e a água que preenchia a gruta nele existente, que comunicava com o algar. Todavia, não se registou anomalia significativa, talvez devido às reduzidas dimensões da gruta.
Quando regressei ao Porto, após a conclusão deste trabalho, a minha primeira preocupação foi escrever ao colega dos Serviços de Urbanização para mandar suspender, de imediato, os trabalhos que estavam a decorrer nas deploráveis condições a que aludi, antes que um acidente grave viesse a registar-se.
A sua reacção deixou-me estupefacto. Referiu que nas Minas sujeitas à fiscalização da DGGM, se registavam situações muito piores! Eu nunca tivera funções de fiscalização, mas tinha tido oportunidade de visitar numerosas minas em exploração por empresas privadas e nunca encontrara qualquer situação que se assemelhasse à que mereceu os meus reparos.
Tudo acabou por correr bem. O algar foi encontrado à marca prevista e até houve que bater em retirada, algo apressadamente, perante a invasão de água que se verificou através de furo que foi efectuado na sua direcção.
Os festejos foram noticiados nos jornais da época.
O colega que me tinha contactado fez deste êxito artigo que publicou, como se tivesse sido seu autor.
segunda-feira, 30 de março de 2009
57 – A vaca, a gasolina e os corredores dos edifícios do SFM
Houve quem passando perto do edifício principal do SFM estranhasse a presença frequente de um funcionário à janela absorvido em contemplação da paisagem exterior.
Maior estranheza manifestou quando soube que esse funcionário era …o Director.
Estava o Director, numa dessas atitudes contemplativas, quando entra no seu gabinete o Agente Técnico de Engenharia ABDC e lhe expõe uma situação delicada que tinha herdado. Tratava-se de um caso de silicose diagnosticada a um operário da sua equipa que transitara de uma extinta Secção do SFM.
O Director, concentrado como estava na sua contemplação, pouca atenção dava à exposição de ABDC. Em dado momento, a demonstrar o seu apurado espírito de observação, declara: “Aquela vaca passa aqui, todos os dias à mesma hora”. Esta atitude só não deixou ABDC perplexo, porque já se habituara a observações do género!
Em outra ocasião, expunha ABDC um caso a resolver e o Director mantinha-se bastante alheio à matéria em causa, tão absorvido se encontrava a observar a extensa fila de automóveis que aguardava a vez para encher os seus depósitos de gasolina, em posto de abastecimento situado na Via Norte, em período de grande carência deste combustível. Aparentemente encantado, exclamou, com veemência: “Acabou-se a gasolina!”. Por esta não esperava ABDC, conforme me declarou, desabafando comigo, como era seu hábito.
Outro caso que bem define o Director que tive que suportar durante 15 anos passou-se comigo.
O Director entra no meu gabinete para pedir que lhe ceda um dos dois Agentes Técnicos afectados, no Norte, ao Serviço de Prospecção sob minha chefia, para dar apoio em matéria de topografia a outro departamento do SFM.
Estranhei o pedido, pois sempre considerei fundamental que em todos os departamentos técnicos existisse pessoal habilitado a fazer topografia. No Alentejo, eu tinha preparado muitos funcionários, vários deles apenas com a 4.ª classe de Instrução Primária a desempenhar-se, não só dos trabalhos de campo, como do cálculo das cadernetas e da implantação dos resultados em mapas finais. Só não ensinei cálculos de triangulações, por envolverem uso, em larga escala, de funções trigonométricas.
Nas minhas funções docentes na Faculdade de Ciências do Porto, cheguei até a proporcionar instrução nesta matéria a vários Geólogos do SFM, em trabalhos, tanto no campo como no gabinete, para não ficarem na dependência do trabalho de Agentes Técnicos de Engenharia, cuja qualidade era, por vezes, discutível.
Dado que para as imensas tarefas a resolver no Norte do País, além de Geólogos envolvidos em cartografia para os Serviços Geológicos e em estudos de testemunhos de sondagens, apenas dispunha de dois Agentes Técnicos de Engenharia de modesta qualidade, reagi dizendo que o técnico no qual se mostrara interessado, tinha trabalho distribuído que o absorvia completamente.
Reagiu prontamente o Director: “Eu vejo-o sempre a passear pelos corredores!” Surpreendido, disse apenas: “Eu não sabia disso, porque não frequento assiduamente esses corredores!”
Outros casos irei revelar, a propósito de variados temas, que contribuem para bem definir um Director que conseguiu permanecer no cargo durante década e meia!
Maior estranheza manifestou quando soube que esse funcionário era …o Director.
Estava o Director, numa dessas atitudes contemplativas, quando entra no seu gabinete o Agente Técnico de Engenharia ABDC e lhe expõe uma situação delicada que tinha herdado. Tratava-se de um caso de silicose diagnosticada a um operário da sua equipa que transitara de uma extinta Secção do SFM.
O Director, concentrado como estava na sua contemplação, pouca atenção dava à exposição de ABDC. Em dado momento, a demonstrar o seu apurado espírito de observação, declara: “Aquela vaca passa aqui, todos os dias à mesma hora”. Esta atitude só não deixou ABDC perplexo, porque já se habituara a observações do género!
Em outra ocasião, expunha ABDC um caso a resolver e o Director mantinha-se bastante alheio à matéria em causa, tão absorvido se encontrava a observar a extensa fila de automóveis que aguardava a vez para encher os seus depósitos de gasolina, em posto de abastecimento situado na Via Norte, em período de grande carência deste combustível. Aparentemente encantado, exclamou, com veemência: “Acabou-se a gasolina!”. Por esta não esperava ABDC, conforme me declarou, desabafando comigo, como era seu hábito.
Outro caso que bem define o Director que tive que suportar durante 15 anos passou-se comigo.
O Director entra no meu gabinete para pedir que lhe ceda um dos dois Agentes Técnicos afectados, no Norte, ao Serviço de Prospecção sob minha chefia, para dar apoio em matéria de topografia a outro departamento do SFM.
Estranhei o pedido, pois sempre considerei fundamental que em todos os departamentos técnicos existisse pessoal habilitado a fazer topografia. No Alentejo, eu tinha preparado muitos funcionários, vários deles apenas com a 4.ª classe de Instrução Primária a desempenhar-se, não só dos trabalhos de campo, como do cálculo das cadernetas e da implantação dos resultados em mapas finais. Só não ensinei cálculos de triangulações, por envolverem uso, em larga escala, de funções trigonométricas.
Nas minhas funções docentes na Faculdade de Ciências do Porto, cheguei até a proporcionar instrução nesta matéria a vários Geólogos do SFM, em trabalhos, tanto no campo como no gabinete, para não ficarem na dependência do trabalho de Agentes Técnicos de Engenharia, cuja qualidade era, por vezes, discutível.
Dado que para as imensas tarefas a resolver no Norte do País, além de Geólogos envolvidos em cartografia para os Serviços Geológicos e em estudos de testemunhos de sondagens, apenas dispunha de dois Agentes Técnicos de Engenharia de modesta qualidade, reagi dizendo que o técnico no qual se mostrara interessado, tinha trabalho distribuído que o absorvia completamente.
Reagiu prontamente o Director: “Eu vejo-o sempre a passear pelos corredores!” Surpreendido, disse apenas: “Eu não sabia disso, porque não frequento assiduamente esses corredores!”
Outros casos irei revelar, a propósito de variados temas, que contribuem para bem definir um Director que conseguiu permanecer no cargo durante década e meia!
domingo, 29 de março de 2009
56 – Os “Scheeliteiros”
O Director-Geral de Minas, assumindo-se progressivamente como dirigente do SFM, tinha ideias peculiares sobre os minérios que deveriam ser procurados no território metropolitano português.
Tendo exercido o cargo de Chefe da Circunscrição Mineira do Norte, durante vários anos, e tendo, por esse facto, tido frequente contacto com as Minas do Norte e do Centro do País, era de esperar que se tivesse apercebido de potencialidades que estavam longe de ter sido aproveitadas.
Não foi, porém, esse o caso.
A opinião que se gerou no seu espírito foi essencialmente de carácter negativo.
Relativamente ao tungsténio, não mostrava empenho em que fosse efectuada uma prospecção sistemática, com vista à definição das reais existências dos seus minérios, apesar de, durante os primeiros anos em que desempenhou funções na DGMSG, ter ocorrido a chamada “febre do ouro negro”, que fez afluir a Portugal, durante a 2.ª Guerra Mundial, empresas alemãs e inglesas, para explorarem volframite (essencial para as suas indústrias de guerra), em filões, em que o Norte e o Centro do País se revelavam pródigos.
Demonstrara, porém, algum optimismo relativamente às Minas de Covas, em Vila Nova de Cerveira, nas quais decorria uma modesta exploração, sob a orientação técnica de um prestigiado Professor da Faculdade de Engenharia, seu amigo pessoal. Para elas, dera instruções no sentido de o SFM prestar colaboração, usando as técnicas que eu tinha conseguido instituir no Sul do País.
O tungsténio, nestas minas, ocorria sob a forma de volframite (tungstato de ferro e manganés), ferberite (tungstato de ferro) e scheelite (tungstato de cálcio), em associação com pirrotite, mineral que pelas suas propriedades magnéticas podia ser detectado pelo método magnético de prospecção.
Já no final da década de 50, tinha sido efectuado, pela Brigada de Prospecção Geofísica, um primeiro levantamento magnético, cobrindo as principais concessões onde aflorava a formação mineralizada. Foram então registadas diversas anomalias, algumas das quais sugestivas de corresponderem a concentrações de pirrotite, que poderiam justificar exploração, se a elas estivesse associada mineralização tungstífera.
Todavia, estas anomalias não puderam ser imediatamente investigadas por trabalhos mineiros ou sondagens, por se ter verificado grande discrepância entre a topografia e a correspondente implantação dos resultados da prospecção
Houve que repetir todo o trabalho, com os cuidados aconselháveis em zona com relevo acidentado.
Após um estudo geológico rudimentar, de que se encarregou Geólogo com experiência já comprovada, sobre a zona das principais anomalias registadas na concessão Fervença, na confluência da Ribeira de Arga com o Rio Coura, realizaram-se sondagens.
Os resultados foram francamente positivos.
Encontrou-se abundante mineralização de volframite, ferberite e scheelite em associação com pirrotite.
A empresa concessionária logo passou à sua exploração.
Este foi o início de uma campanha de prospecção orientada sobretudo para a detecção de minérios de tungsténio, numa vasta área dos concelhos de Vila Nova de Cerveira, Caminha e Ponte de Lima, cujas condições geológicas foram consideradas favoráveis para a ocorrências de tais minérios.
A esta campanha me irei referir, em posts futuros, pois ela decorreu de modo atormentado, revelador de um espírito anti-fomento que passou a caracterizar o SFM após a Revolução de Abril de 1974.
Por agora, quero apenas assinalar que o Director-Geral, tendo tomado conhecimento de que um dos principais minerais detectados em Covas era a scheelite, que tem uma coloração esbranquiçada e pode facilmente confundir-se com minerais estéreis e apercebendo-se de que este mineral se torna fluorescente com uma cor azulada, quando sobre ele se faz incidir radiação ultravioleta de determinado comprimento de onda, logo congeminou que poderia ele-próprio ser autor de importantes descobertas, mediante uso de aparelho produtor dessas radiações.
Eu tinha já começado a compilar documentação para ataque do problema do tungsténio do Norte e Centro do País, dentro das funções que me estavam atribuídas.
O Director-Geral, porém, não teve pejo em quebrar a disciplina interna do SFM e decidiu invadir as funções que me estavam atribuídas. Pretendia ficar na história como autor da descoberta dos grandes jazigos que ele já ousava designar de “Torres dos Clérigos”, os quais se manteriam ocultos por terem passado desapercebidos devido à semelhança que, à simples observação visual macroscópica, a scheelite manifestava com outros minerais destituídos de valor comercial.
Afectou vários Geólogos, de recente formatura, portanto sem experiência em prospecção mineira, para a campanha de investigação das existências de scheelite, sob a sua directa dependência, cognominando-os simpaticamente de “scheeliteiros”
Esses Geólogos lograram descobrir, na região de Mogadouro, em rochas que denominaram de calcosilicatadas, bons indícios de mineralização de scheelite e logo “embandeiraram em arco”.
Durante alguns anos, foi muito propagandeado um jazigo denominado de Cravezes, onde foram efectuados trabalhos mineiros e sondagens.
Em artigo publicado no N.º 82 de “Memórias e Notícias” da Universidade de Coimbra, um desses Geólogos dá notícia desta ocorrência de Cravezes.
Em capítulo sob o título “Breve referência sobre os aspectos económicos do jazigo”, escreve o seu autor:
“O estudo do jazigo scheelítico de Cravezes encontra-se ainda numa fase inicial. Fizeram-se 14 sanjas com a finalidade de obter uma amostragem das rochas, onde foram determinados sistematicamente os teores de WO3, Sn, Pb e Ag”.
“A amostragem foi praticada, na sua maior parte, na zona alterada das rochas e foi executada por pessoal não especializado, pelo que os resultados podem estar sujeitos a uma certa rectificação”
Dois factos me surpreenderam nesta publicação.
O primeiro foi a inacreditável declaração do Geólogo responsável pelo estudo, de duvidar da correcta execução da amostragem efectuada. A amostragem é uma operação fundamental sendo a sua execução da competência do Geólogo ou de pessoa agindo sob sua directa orientação.
O segundo foi que tivesse sido aceite para publicação artigo respeitante a fase tão inicial de estudo de uma ocorrência de scheelite e com tal declaração de incompetência.
Tenho conhecimento de terem sido realizadas sondagens para investigação em profundidade desta ocorrência. Ignoro se foram publicados novos artigos sobre o tema e grau de confiança que essas sondagens merecem, sobretudo no que respeita a recuperação de testemunhos.
Constou-me que, quando O SFM começou a organizar uma “caroteca”, em novo edifício, construído na sua sede em de S. Mamede de Infesta, não foram encontrados os testemunhos destas sondagens.
Sei que se procurou interessar neste “jazigo de Cravezes” a Companhia americana Union Carbide, que cumpria contratos de prospecção com concessionários e com o Estado, na região de Vila Nova de Cerveira – Caminha. Em conversa que tive com o Geólogo americano responsável pelo cumprimento destes contratos, soube que Cravezes não lhe despertou o mínimo interesse, porquanto os seus teores de WO3 eram inferiores aos do estéril das minas que estavam em exploração na zona que estava a investigar.
Os estudos em outras áreas não pareciam mais felizes. As tais “Torres dos Clérigos” tardavam em aparecer!
Em 22-2-1972, o Director-Geral convocou os “scheeliteiros” para prestarem informações sobre os trabalhos que tinham em curso. Como eu continuava a dirigir estudos na região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima, essencialmente com vista à descoberta de concentrações tungstíferas, fui também convocado.
O Director-Geral, depois de ouvir os “scheeliteiros”, quis então ouvir-me. Comecei por lhe chamar a atenção para o facto de o SFM ter uma “Orgânica”, segundo a qual me fora atribuída a chefia de um departamento que tinha a seu cargo os estudos geológicos e os trabalhos de prospecção mineira, em todo o território metropolitano nacional.
O facto de ter colocado o programa de investigação das existências de scheelite, na sua dependência directa, representava uma invasão das minhas atribuições e um acto de indisciplina que não contribuía para o normal funcionamento do SFM.
Permiti-me chamar-lhe ainda a atenção para a distracção que isso representava das importantes funções que tinha a seu cargo, prejudicando o seu cabal cumprimento.
Redarguiu o Director-Geral que eu poderia ter muita razão, mas o Secretário de Estado tinha mostrado urgência nesta matéria e ele entendera que devia dela encarregar-se directamente para corresponder ao seu apelo. Não encontrou reacção menos “esfarrapada”. O Secretário de Estado provavelmente nem saberia o que é a scheelite!
Em reunião da Comissão de Fomento de 10-7-1973, o Director-Geral começara já reconhecer o que classificou de “falhanço” desse programa de prospecção de scheeelites em que tanto se tinha empenhado.
Tendo exercido o cargo de Chefe da Circunscrição Mineira do Norte, durante vários anos, e tendo, por esse facto, tido frequente contacto com as Minas do Norte e do Centro do País, era de esperar que se tivesse apercebido de potencialidades que estavam longe de ter sido aproveitadas.
Não foi, porém, esse o caso.
A opinião que se gerou no seu espírito foi essencialmente de carácter negativo.
Relativamente ao tungsténio, não mostrava empenho em que fosse efectuada uma prospecção sistemática, com vista à definição das reais existências dos seus minérios, apesar de, durante os primeiros anos em que desempenhou funções na DGMSG, ter ocorrido a chamada “febre do ouro negro”, que fez afluir a Portugal, durante a 2.ª Guerra Mundial, empresas alemãs e inglesas, para explorarem volframite (essencial para as suas indústrias de guerra), em filões, em que o Norte e o Centro do País se revelavam pródigos.
Demonstrara, porém, algum optimismo relativamente às Minas de Covas, em Vila Nova de Cerveira, nas quais decorria uma modesta exploração, sob a orientação técnica de um prestigiado Professor da Faculdade de Engenharia, seu amigo pessoal. Para elas, dera instruções no sentido de o SFM prestar colaboração, usando as técnicas que eu tinha conseguido instituir no Sul do País.
O tungsténio, nestas minas, ocorria sob a forma de volframite (tungstato de ferro e manganés), ferberite (tungstato de ferro) e scheelite (tungstato de cálcio), em associação com pirrotite, mineral que pelas suas propriedades magnéticas podia ser detectado pelo método magnético de prospecção.
Já no final da década de 50, tinha sido efectuado, pela Brigada de Prospecção Geofísica, um primeiro levantamento magnético, cobrindo as principais concessões onde aflorava a formação mineralizada. Foram então registadas diversas anomalias, algumas das quais sugestivas de corresponderem a concentrações de pirrotite, que poderiam justificar exploração, se a elas estivesse associada mineralização tungstífera.
Todavia, estas anomalias não puderam ser imediatamente investigadas por trabalhos mineiros ou sondagens, por se ter verificado grande discrepância entre a topografia e a correspondente implantação dos resultados da prospecção
Houve que repetir todo o trabalho, com os cuidados aconselháveis em zona com relevo acidentado.
Após um estudo geológico rudimentar, de que se encarregou Geólogo com experiência já comprovada, sobre a zona das principais anomalias registadas na concessão Fervença, na confluência da Ribeira de Arga com o Rio Coura, realizaram-se sondagens.
Os resultados foram francamente positivos.
Encontrou-se abundante mineralização de volframite, ferberite e scheelite em associação com pirrotite.
A empresa concessionária logo passou à sua exploração.
Este foi o início de uma campanha de prospecção orientada sobretudo para a detecção de minérios de tungsténio, numa vasta área dos concelhos de Vila Nova de Cerveira, Caminha e Ponte de Lima, cujas condições geológicas foram consideradas favoráveis para a ocorrências de tais minérios.
A esta campanha me irei referir, em posts futuros, pois ela decorreu de modo atormentado, revelador de um espírito anti-fomento que passou a caracterizar o SFM após a Revolução de Abril de 1974.
Por agora, quero apenas assinalar que o Director-Geral, tendo tomado conhecimento de que um dos principais minerais detectados em Covas era a scheelite, que tem uma coloração esbranquiçada e pode facilmente confundir-se com minerais estéreis e apercebendo-se de que este mineral se torna fluorescente com uma cor azulada, quando sobre ele se faz incidir radiação ultravioleta de determinado comprimento de onda, logo congeminou que poderia ele-próprio ser autor de importantes descobertas, mediante uso de aparelho produtor dessas radiações.
Eu tinha já começado a compilar documentação para ataque do problema do tungsténio do Norte e Centro do País, dentro das funções que me estavam atribuídas.
O Director-Geral, porém, não teve pejo em quebrar a disciplina interna do SFM e decidiu invadir as funções que me estavam atribuídas. Pretendia ficar na história como autor da descoberta dos grandes jazigos que ele já ousava designar de “Torres dos Clérigos”, os quais se manteriam ocultos por terem passado desapercebidos devido à semelhança que, à simples observação visual macroscópica, a scheelite manifestava com outros minerais destituídos de valor comercial.
Afectou vários Geólogos, de recente formatura, portanto sem experiência em prospecção mineira, para a campanha de investigação das existências de scheelite, sob a sua directa dependência, cognominando-os simpaticamente de “scheeliteiros”
Esses Geólogos lograram descobrir, na região de Mogadouro, em rochas que denominaram de calcosilicatadas, bons indícios de mineralização de scheelite e logo “embandeiraram em arco”.
Durante alguns anos, foi muito propagandeado um jazigo denominado de Cravezes, onde foram efectuados trabalhos mineiros e sondagens.
Em artigo publicado no N.º 82 de “Memórias e Notícias” da Universidade de Coimbra, um desses Geólogos dá notícia desta ocorrência de Cravezes.
Em capítulo sob o título “Breve referência sobre os aspectos económicos do jazigo”, escreve o seu autor:
“O estudo do jazigo scheelítico de Cravezes encontra-se ainda numa fase inicial. Fizeram-se 14 sanjas com a finalidade de obter uma amostragem das rochas, onde foram determinados sistematicamente os teores de WO3, Sn, Pb e Ag”.
“A amostragem foi praticada, na sua maior parte, na zona alterada das rochas e foi executada por pessoal não especializado, pelo que os resultados podem estar sujeitos a uma certa rectificação”
Dois factos me surpreenderam nesta publicação.
O primeiro foi a inacreditável declaração do Geólogo responsável pelo estudo, de duvidar da correcta execução da amostragem efectuada. A amostragem é uma operação fundamental sendo a sua execução da competência do Geólogo ou de pessoa agindo sob sua directa orientação.
O segundo foi que tivesse sido aceite para publicação artigo respeitante a fase tão inicial de estudo de uma ocorrência de scheelite e com tal declaração de incompetência.
Tenho conhecimento de terem sido realizadas sondagens para investigação em profundidade desta ocorrência. Ignoro se foram publicados novos artigos sobre o tema e grau de confiança que essas sondagens merecem, sobretudo no que respeita a recuperação de testemunhos.
Constou-me que, quando O SFM começou a organizar uma “caroteca”, em novo edifício, construído na sua sede em de S. Mamede de Infesta, não foram encontrados os testemunhos destas sondagens.
Sei que se procurou interessar neste “jazigo de Cravezes” a Companhia americana Union Carbide, que cumpria contratos de prospecção com concessionários e com o Estado, na região de Vila Nova de Cerveira – Caminha. Em conversa que tive com o Geólogo americano responsável pelo cumprimento destes contratos, soube que Cravezes não lhe despertou o mínimo interesse, porquanto os seus teores de WO3 eram inferiores aos do estéril das minas que estavam em exploração na zona que estava a investigar.
Os estudos em outras áreas não pareciam mais felizes. As tais “Torres dos Clérigos” tardavam em aparecer!
Em 22-2-1972, o Director-Geral convocou os “scheeliteiros” para prestarem informações sobre os trabalhos que tinham em curso. Como eu continuava a dirigir estudos na região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima, essencialmente com vista à descoberta de concentrações tungstíferas, fui também convocado.
O Director-Geral, depois de ouvir os “scheeliteiros”, quis então ouvir-me. Comecei por lhe chamar a atenção para o facto de o SFM ter uma “Orgânica”, segundo a qual me fora atribuída a chefia de um departamento que tinha a seu cargo os estudos geológicos e os trabalhos de prospecção mineira, em todo o território metropolitano nacional.
O facto de ter colocado o programa de investigação das existências de scheelite, na sua dependência directa, representava uma invasão das minhas atribuições e um acto de indisciplina que não contribuía para o normal funcionamento do SFM.
Permiti-me chamar-lhe ainda a atenção para a distracção que isso representava das importantes funções que tinha a seu cargo, prejudicando o seu cabal cumprimento.
Redarguiu o Director-Geral que eu poderia ter muita razão, mas o Secretário de Estado tinha mostrado urgência nesta matéria e ele entendera que devia dela encarregar-se directamente para corresponder ao seu apelo. Não encontrou reacção menos “esfarrapada”. O Secretário de Estado provavelmente nem saberia o que é a scheelite!
Em reunião da Comissão de Fomento de 10-7-1973, o Director-Geral começara já reconhecer o que classificou de “falhanço” desse programa de prospecção de scheeelites em que tanto se tinha empenhado.
sábado, 21 de março de 2009
55 – A conferência do Director – Geral sobre pirites em 23-5-1969
Ao conhecimento do Director-Geral chegou publicação do Instituto Bartelli, que abordava o tema da pirite, como minério de enxofre, num âmbito global.
Entusiasmado com o que leu, quis aproveitar os dados que lá encontrou, para demonstrar, perante um membro do Governo e alguns dos seus assessores, a posição privilegiada de Portugal nesta matéria e o futuro risonho que era de prever para as concentrações minerais que tinham sido descobertas com a valiosa intervenção da Direcção-Geral de Minas, através do seu Serviço de Fomento Mineiro.
Para esse fim, solicitou a presença do Engenheiro Rogério Martins (Secretário de Estado da Indústria), Engenheiro João Salgueiro (Sub-Secretário de Estado do Planeamento Económico), Dr. Cardoso Torres, Dr. Magalhães Mota e dois técnicos de produtividade do Instituto Nacional da Indústria, para estarem presentes em reunião restrita da Comissão de Fomento, onde se propunha fazer a sua exposição sobre o tema.
Da parte da DGMSG, convocou os Inspectores Superiores, o Director do SFM, o seu Adjunto conhecido por Ajax e os Chefes dos 1.º e 4.º Serviços do SFM.
Na véspera da reunião, após ter desabafado que convocara também o Director do SFM, esperando porém que ele se mantivesse calado, ensaiou, perante mim, a exposição que iria fazer e perguntou-me, quando a concluiu, qual a minha opinião.
Honestamente, refreei o seu entusiasmo, fazendo-lhe ver que a pirite como minério de enxofre, sem os outros minerais que a costumam acompanhar, é uma matéria-prima muito frequente e que a vantajosa posição de Portugal se devia à proximidade dos mercados, visto que sendo produto barato não suportava grandes despesas de transporte.
O Director-Geral não gostou desta resposta e reagiu dizendo que eu poderia saber muito de prospecção, mas da matéria da exposição ele sabia muito mais!
A reunião iniciou-se pelas 10 horas e 30 minutos de 23 de Maio de 1969, com todas as presenças previstas, mas não teve o sucesso que o Director-Geral desejava.
O Engenheiro Rogério Martins nem o deixou terminar. Já cansado da sua longa exposição acompanhada de projecções para o futuro, teve esta expressão: “E se ouvíssemos agora o Engenheiro Rocha Gomes sobre a prospecção na Faixa Piritosa Alentejana?”
Eu tive, então, oportunidade de explicar o que já tinha sido realizado, a actividade em curso e o que estava projectado.
Quanto ao Director do SFM, cumpriu o que o Director-Geral dele esperava.
Poucos anos após esta reunião, aconteceu que a pirite, como minério de enxofre, deixou de ter valor comercial. Passou a ser considerada como ganga, dado que se tornou possível obter enxofre, a partir de outras fontes, em condições muito mais económicas. O minério piritoso voltou a ser valorizado pelo seu conteúdo de cobre, zinco, chumbo e outros metais minoritários, tais como ouro, prata.
Entusiasmado com o que leu, quis aproveitar os dados que lá encontrou, para demonstrar, perante um membro do Governo e alguns dos seus assessores, a posição privilegiada de Portugal nesta matéria e o futuro risonho que era de prever para as concentrações minerais que tinham sido descobertas com a valiosa intervenção da Direcção-Geral de Minas, através do seu Serviço de Fomento Mineiro.
Para esse fim, solicitou a presença do Engenheiro Rogério Martins (Secretário de Estado da Indústria), Engenheiro João Salgueiro (Sub-Secretário de Estado do Planeamento Económico), Dr. Cardoso Torres, Dr. Magalhães Mota e dois técnicos de produtividade do Instituto Nacional da Indústria, para estarem presentes em reunião restrita da Comissão de Fomento, onde se propunha fazer a sua exposição sobre o tema.
Da parte da DGMSG, convocou os Inspectores Superiores, o Director do SFM, o seu Adjunto conhecido por Ajax e os Chefes dos 1.º e 4.º Serviços do SFM.
Na véspera da reunião, após ter desabafado que convocara também o Director do SFM, esperando porém que ele se mantivesse calado, ensaiou, perante mim, a exposição que iria fazer e perguntou-me, quando a concluiu, qual a minha opinião.
Honestamente, refreei o seu entusiasmo, fazendo-lhe ver que a pirite como minério de enxofre, sem os outros minerais que a costumam acompanhar, é uma matéria-prima muito frequente e que a vantajosa posição de Portugal se devia à proximidade dos mercados, visto que sendo produto barato não suportava grandes despesas de transporte.
O Director-Geral não gostou desta resposta e reagiu dizendo que eu poderia saber muito de prospecção, mas da matéria da exposição ele sabia muito mais!
A reunião iniciou-se pelas 10 horas e 30 minutos de 23 de Maio de 1969, com todas as presenças previstas, mas não teve o sucesso que o Director-Geral desejava.
O Engenheiro Rogério Martins nem o deixou terminar. Já cansado da sua longa exposição acompanhada de projecções para o futuro, teve esta expressão: “E se ouvíssemos agora o Engenheiro Rocha Gomes sobre a prospecção na Faixa Piritosa Alentejana?”
Eu tive, então, oportunidade de explicar o que já tinha sido realizado, a actividade em curso e o que estava projectado.
Quanto ao Director do SFM, cumpriu o que o Director-Geral dele esperava.
Poucos anos após esta reunião, aconteceu que a pirite, como minério de enxofre, deixou de ter valor comercial. Passou a ser considerada como ganga, dado que se tornou possível obter enxofre, a partir de outras fontes, em condições muito mais económicas. O minério piritoso voltou a ser valorizado pelo seu conteúdo de cobre, zinco, chumbo e outros metais minoritários, tais como ouro, prata.
sexta-feira, 20 de março de 2009
54 - A radiestesia em prospecção mineira
Quando ingressei no SFM, em 1943, o Director, como bom conversador que era, gostava de reunir à hora de saída, o pessoal técnico, à volta da sua secretária, para amena cavaqueira.
Eu não apreciava o estilo, e não me apercebi que essa era a maneira de ele conhecer as pessoas com as quais trabalhava ou iria trabalhar.
Em algumas dessas sessões, estranhei um certo entusiasmo pela radiestesia.
Parecia acreditar nas virtualidades desta técnica esotérica, sem base científica e exibia, perante os três estagiários recém-contratados, entre os quais eu me incluía, um pequeno pêndulo, com o qual dizia localizar concentrações minerais, através de radiações a que seria sensível, sem necessidade sequer de se deslocar ao campo.
Bastava um simples mapa onde se pretendesse localizar os jazigos minerais! O uso deste pêndulo obedecia a regras contidas em livro francês da autoria do Abbé Moreaux.
Recordo-me deste livro ser prefaciado por técnico com responsabilidades que escreveu: “Vous cherchez la verité”. Isto servia-lhe de propaganda.
As potencialidades atribuídas ao pêndulo eram tais, que até era possível adivinhar o sexo de pessoas representadas em fotografias. Viradas com os rostos para baixo, o pêndulo passando sobre elas dava indicações sobre o seu sexo.
Os meus colegas, fosse por acreditarem também ou apenas para se mostrarem simpáticos, colaboravam activamente nas demonstrações. Eu não podia, obviamente seguir o seu exemplo, e corri o risco de me tornar desagradável.
Perante a minha descrença, o Director fez experiência que lhe saiu mal, sendo certo que, no respeitante à determinação do sexo, tinha 50% de probabilidades de acertar.
Felizmente que esta crença não se traduziu em qualquer actividade no terreno. Como até já tive ocasião de dizer, foi ele o primeiro Director do SFM, e o grande dinamizador deste Organismo, introduzindo desde a sua criação, as técnicas geofísicas mais avançadas, nesse tempo.
Um dos colegas a que me referi foi, em 1964, investido no cargo de Director do SFM, em circunstâncias que descrevi no post N.º 25.
Alguns anos mais tarde, tomei conhecimento de terem aparecido no mercado calculadoras electrónicas que forneciam rapidamente logaritmos, funções trigonométricas, etc.
Uma vez que eu aplicava muito do meu tempo em cálculos de gabinete resultantes de trabalhos de topografia, tinha frequente necessidade de usar quer tábuas de logaritmos de 7 decimais, quer tábuas das funções trigonométricas.
Perante a possibilidade que se me oferecia de melhor aproveitar o meu tempo, sem hipótese de cometer os erros que eram fáceis de acontecer na passagem dos valores das tabelas, requisitei uma das primeiras calculadoras que surgiram no mercado.
O Director, que tinha acreditado nas potencialidades do pêndulo, nunca deu andamento à minha requisição, com a alegação de que não acreditava ser possível existirem tais prodígios.
Só mais tarde, quando os preços se tornaram acessíveis, comprei para meu uso pessoal uma destas calculadoras, que muito facilitaram sobretudo o controlo das piquetagens, pela aplicação de Pothenots ou simples triangulações.
Eu não apreciava o estilo, e não me apercebi que essa era a maneira de ele conhecer as pessoas com as quais trabalhava ou iria trabalhar.
Em algumas dessas sessões, estranhei um certo entusiasmo pela radiestesia.
Parecia acreditar nas virtualidades desta técnica esotérica, sem base científica e exibia, perante os três estagiários recém-contratados, entre os quais eu me incluía, um pequeno pêndulo, com o qual dizia localizar concentrações minerais, através de radiações a que seria sensível, sem necessidade sequer de se deslocar ao campo.
Bastava um simples mapa onde se pretendesse localizar os jazigos minerais! O uso deste pêndulo obedecia a regras contidas em livro francês da autoria do Abbé Moreaux.
Recordo-me deste livro ser prefaciado por técnico com responsabilidades que escreveu: “Vous cherchez la verité”. Isto servia-lhe de propaganda.
As potencialidades atribuídas ao pêndulo eram tais, que até era possível adivinhar o sexo de pessoas representadas em fotografias. Viradas com os rostos para baixo, o pêndulo passando sobre elas dava indicações sobre o seu sexo.
Os meus colegas, fosse por acreditarem também ou apenas para se mostrarem simpáticos, colaboravam activamente nas demonstrações. Eu não podia, obviamente seguir o seu exemplo, e corri o risco de me tornar desagradável.
Perante a minha descrença, o Director fez experiência que lhe saiu mal, sendo certo que, no respeitante à determinação do sexo, tinha 50% de probabilidades de acertar.
Felizmente que esta crença não se traduziu em qualquer actividade no terreno. Como até já tive ocasião de dizer, foi ele o primeiro Director do SFM, e o grande dinamizador deste Organismo, introduzindo desde a sua criação, as técnicas geofísicas mais avançadas, nesse tempo.
Um dos colegas a que me referi foi, em 1964, investido no cargo de Director do SFM, em circunstâncias que descrevi no post N.º 25.
Alguns anos mais tarde, tomei conhecimento de terem aparecido no mercado calculadoras electrónicas que forneciam rapidamente logaritmos, funções trigonométricas, etc.
Uma vez que eu aplicava muito do meu tempo em cálculos de gabinete resultantes de trabalhos de topografia, tinha frequente necessidade de usar quer tábuas de logaritmos de 7 decimais, quer tábuas das funções trigonométricas.
Perante a possibilidade que se me oferecia de melhor aproveitar o meu tempo, sem hipótese de cometer os erros que eram fáceis de acontecer na passagem dos valores das tabelas, requisitei uma das primeiras calculadoras que surgiram no mercado.
O Director, que tinha acreditado nas potencialidades do pêndulo, nunca deu andamento à minha requisição, com a alegação de que não acreditava ser possível existirem tais prodígios.
Só mais tarde, quando os preços se tornaram acessíveis, comprei para meu uso pessoal uma destas calculadoras, que muito facilitaram sobretudo o controlo das piquetagens, pela aplicação de Pothenots ou simples triangulações.
quarta-feira, 18 de março de 2009
53 – Armazém do SFM para testemunhos de sondagens realizadas no Sul do País
Em 1969, começou a surgir, com bastante acuidade, no Sul do País, o problema de armazenamento, em boas condições de conservação e de fácil consulta, dos testemunhos das sondagens executadas e a executar pelo SFM.
Havia, além disso, sondagens efectuadas por empresas privadas, em cumprimento de contratos com o Estado.
Estas empresas, após o termo dos seus contratos, sem resultados positivos quanto a descobertas de jazigos minerais, não se mostravam interessadas na manutenção dos respectivos testemunhos e, nalguns casos, havia cláusula contratual obrigando à entrega deste material de estudo.
Já havia, testemunhos dispersos por diversos locais (Portel, Beja, Moura, Mina de S. Domingos), em precárias condições.
Em 20-6-1969, em reunião com o Director-Geral, na qual esteve presente o Secretário Auditor Jurídico, fiz proposta no sentido de ser adquirido terreno em Beja, para construção de um armazém onde pudessem ser devidamente acondicionados todos esses testemunhos.
A minha proposta teve total receptividade.
Encarreguei a 1.ª Brigada de Prospecção de fazer as diligências necessárias para encontrar terreno nas proximidades de Beja que reunisse as condições adequadas ao fim em vista.
Essas diligências foram coroadas de pleno êxito. Foi encontrado um terreno no Penedo Gordo, a poucos quilómetros de Beja, com a superfície de 15 942 m2 que confinava, de um lado com a estrada nacional Beja – Faro e do outro com estrada para a estação de caminho de ferro, que lhe ficava próxima.
Para este terreno, que estava à venda por preço muito acessível, a Câmara Municipal de Beja, apenas impunha a condição de as edificações respeitarem a distância mínima de 15 metros aos eixos das vias e aos limites da propriedade.
Era minha intenção mandar construir, inicialmente, um módulo que albergasse os testemunhos já existentes e construir novos módulos, â medida que se tornassem necessários, em resultado da evolução dos trabalhos de reconhecimento em curso.
Havia que construir habitação para um fiel do armazém. Assim se daria início a uma série de outras construções, para as quais seriam transferidos os escritórios, as estantes com as amostras de rochas e minérios das áreas onde já tinham incidido os estudos do SFM no Sul do País e o Laboratório de Geoquímica, existentes na Rua D. Frei Amador Arrais.
Já tinha até contactado o Arquitecto António Linhares de Oliveira, autor do projecto das instalações do SFM em S. Mamede de Infesta inauguradas em Agosto de 1964 (V. Post N.º 21), que se prontificou a elaborar o projecto destas construções.
Tendo informado o Director-Geral, em posterior reunião da Comissão de Fomento, da solução que se encontrara para este problema, foi com grande surpresa que ouvi que afinal não era possível a aquisição do terreno do Penedo Gordo! Nem sequer se chegou a apresentar o caso ao Ministério das Finanças.
O problema manteve-se, pois, sem solução racional, durante a minha chefia da 1.ª Brigada de Prospecção, tendo-se corrido sério risco de destruição de muito material valioso.
Havia, além disso, sondagens efectuadas por empresas privadas, em cumprimento de contratos com o Estado.
Estas empresas, após o termo dos seus contratos, sem resultados positivos quanto a descobertas de jazigos minerais, não se mostravam interessadas na manutenção dos respectivos testemunhos e, nalguns casos, havia cláusula contratual obrigando à entrega deste material de estudo.
Já havia, testemunhos dispersos por diversos locais (Portel, Beja, Moura, Mina de S. Domingos), em precárias condições.
Em 20-6-1969, em reunião com o Director-Geral, na qual esteve presente o Secretário Auditor Jurídico, fiz proposta no sentido de ser adquirido terreno em Beja, para construção de um armazém onde pudessem ser devidamente acondicionados todos esses testemunhos.
A minha proposta teve total receptividade.
Encarreguei a 1.ª Brigada de Prospecção de fazer as diligências necessárias para encontrar terreno nas proximidades de Beja que reunisse as condições adequadas ao fim em vista.
Essas diligências foram coroadas de pleno êxito. Foi encontrado um terreno no Penedo Gordo, a poucos quilómetros de Beja, com a superfície de 15 942 m2 que confinava, de um lado com a estrada nacional Beja – Faro e do outro com estrada para a estação de caminho de ferro, que lhe ficava próxima.
Para este terreno, que estava à venda por preço muito acessível, a Câmara Municipal de Beja, apenas impunha a condição de as edificações respeitarem a distância mínima de 15 metros aos eixos das vias e aos limites da propriedade.
Era minha intenção mandar construir, inicialmente, um módulo que albergasse os testemunhos já existentes e construir novos módulos, â medida que se tornassem necessários, em resultado da evolução dos trabalhos de reconhecimento em curso.
Havia que construir habitação para um fiel do armazém. Assim se daria início a uma série de outras construções, para as quais seriam transferidos os escritórios, as estantes com as amostras de rochas e minérios das áreas onde já tinham incidido os estudos do SFM no Sul do País e o Laboratório de Geoquímica, existentes na Rua D. Frei Amador Arrais.
Já tinha até contactado o Arquitecto António Linhares de Oliveira, autor do projecto das instalações do SFM em S. Mamede de Infesta inauguradas em Agosto de 1964 (V. Post N.º 21), que se prontificou a elaborar o projecto destas construções.
Tendo informado o Director-Geral, em posterior reunião da Comissão de Fomento, da solução que se encontrara para este problema, foi com grande surpresa que ouvi que afinal não era possível a aquisição do terreno do Penedo Gordo! Nem sequer se chegou a apresentar o caso ao Ministério das Finanças.
O problema manteve-se, pois, sem solução racional, durante a minha chefia da 1.ª Brigada de Prospecção, tendo-se corrido sério risco de destruição de muito material valioso.
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