sexta-feira, 24 de abril de 2009

63 – A atitude do SFM perante o encerramento das Minas do Braçal. Continuação

A seguir, transcrevo os três documentos a que fiz referência no post anterior:

1- Carta do munícipe de Sever do Vouga, Joel Macedo Marques, com data de 22 de Maio de 1974, dirigida ao Senhor Presidente da Câmara Municipal de Sever do Vouga:

“Junto remeto a V. Ex.ª uma fotocópia de notícia do Diário de Lisboa de 15/12/1959, em que se dava conhecimento ao País do encerramento das Minas do Braçal.
Ficaram sem trabalho cerca de 600 mineiros, trabalhadores do nosso Concelho, quase todos chefes de família. Como é do conhecimento de V. Ex.ª, houve, nessa altura, uma determinação do Governo para que fosse dada prioridade aos nossos conterrâneos desempregados, para que emigrassem para França. E foi assim que se permitiu o encerramento de uma exploração mineira, com indústria transformadora anexa, a coberto de uma melhoria de vida às pessoas em questão, com grave prejuízo para a nossa região.
Vários factores contribuíram para estes acontecimentos, que estamos à altura de fornecer, porém a Administração Concelhia em exercício nessa altura, foi culpada por não ter actuado. Se tivesse havido uma imposição perante a Direcção-Geral de Minas, para que a exploração de galena não fosse interditada, obstar-se-ia a que os Poços não fossem inundados e posteriormente as instalações fabris vendidas como sucata.
A firma proprietária, sem o auxílio oficial, não tinha rendibilidade na referida exploração. O Fomento Mineiro andou no nosso Concelho, nas Minas das Talhadas sem resultado.
Segundo os estudos dos mesmos Serviços e a confirmação do actual responsável Técnico das Minas do Braçal, o filão de minérios de Chumbo é dos mais ricos do País ou mesmo da Europa.
É altura de se solicitar ao Governo Provisório, através da nossa Câmara Municipal Renovada, de que o Ministério respectivo se debruce sobre o nosso problema, que seja aberto um inquérito ao proteccionismo das importações, com total desprezo pela economia nacional.
Queremos as nossas antiquíssimas Minas a funcionar. Queremos trazer para a nossa Terra todos os nossos conterrâneos que tiveram que deixar o nosso País na busca de trabalho.
Queremos defender um Concelho Rico, da ideia errada de que somos Pobres. Aliado às potencialidades mineiras, temos uma floresta das mais ricas do distrito. Estamos numa zona turística por excelência chamada a “Suíça Portuguesa”.
Queremos defender o futuro dos nossos Filhos criando-lhes estruturas, onde mais tarde se possam empregar.
Rogamos a V. Ex.ª que seja exarado em acta da primeira sessão camarária, da memorável Comissão Administrativa Democrática, parecer favorável a esta exposição.
A bem da Nação
Um Munícipe
(a) Joel de Macedo Marques

2 – Notícia do “Diário de Lisboa” de 15-12-1979 sobre o encerramento das Minas do Braçal:

O encerramento das minas de chumbo do Braçal cria um grave problema para a região de Sever do Vouga.

SEVER DO VOUGA, 6 - Nesta linda região do Vale do Voga, de incomparável cenografia e deslumbrante paisagem, existem os únicos filões de chumbo do País – as minas do Braçal, situadas neste concelho.
São as mais antigas da Península e há notícia de que a sua primitiva exploração foi empreendida pelos Romanos, os quais abriram o primeiro poço, o mais antigo, que, encoberto por espessos matagais, se manteve ignorado até há coisa de um século. Acrescente-se que a primeira concessão mineira em Portugal foi a dos jazigos saturninos.
A exploração, nos tempos modernos, tem tido períodos de prosperidade alternando com outros de decadência, como o que atravessa agora, de bem negras e angustiosas perspectivas. Um desses períodos calamitosos decorreu entre os anos de 1930 e 1942 quando a antiga empresa concessionária, decidiu encerrar as minas e alienar o seu apetrechamento. Foi a paralisação completa e quase se perdeu a esperança de reiniciar o seu labor. Veio, porém, a Guerra Mundial, operando-se uma acentuada revalorização do metal, e, adquiridas as minas do Braçal pela firma Francisco José Simões, de Lisboa, reentraram em pleno labor, a todo o rendimento, possibilitado pelo seu completo equipamento para extracção e transformação da galena.
As antigas instalações, em âmbito reduzido, foram montadas pela Companhia de Minas e Metalurgia, a qual, por escritura lavrada em 23 de Junho de 1943, na Secção Notarial desta vila, se transferiu para a posse da Companhia Industrial e Agrícola do Braçal, com sede em Lisboa, que empreendeu a grande obra renovadora, incluindo o seu apetrechamento técnico ao nível moderno.
Seiscentos mineiros sem trabalho
Surgiu, porém, a grave crise que afecta profundamente este ramo da exploração mineira, originada pela concorrência, a preço mais baixo, do chumbo produzido no estrangeiro e à sua fraca cotação no mercado internacional.
Viu-se a empresa concessionária dos jazigos do Braçal compelida a reduzir consideravelmente a exploração, o que provocou ter sido dispensada, há cerca de um ano, metade dos trabalhadores, seguindo-se outros, no fim do ano e ficando o pessoal reduzido ao indispensável para a conservação dos maquinismos e guarda das instalações e matas anexas.
Desnecessário se torna acentuar a gravidade do caso, pois o encerramento das minas priva do seu ganha-pão seis centenas de trabalhadores que exerciam ali a sua actividade, atirando para a miséria milhares de pessoas das suas famílias. Além deste caso fundamental, nos seus aspectos humanos e sociais, há a considerar os graves prejuízos que resultam para a economia do concelho de Sever do Vouga.

3 – Carta do Governo Civil de Aveiro, com data de 6-5-1974, dirigida ao Senhor Ministro da Coordenação Económica

Excelência:
A pedido da Câmara Municipal de Sever do Vouga, tenho a honra de remeter a Vossa Excelência, para convenientes efeitos, a inclusa fotocópia de uma exposição dirigida ao referido Corpo Administrativo por Joel de Macedo Marques, a propósito de uma notícia publicada acerca do encerramento das Minas do Braçal.
Apresento a Vossa Excelência os meus melhores cumprimentos de elevada consideração.
A BEM DA NAÇÃO
O SECRETÁRIO SERVINDO DE GOVERNADOR CIVIL
Assinatura ilegível.

Sobre esta carta incidiu despacho do Director-Geral de Minas com data de 21-6-1974, pedindo informação ao SFM.

No próximo post, apresentarei excertos da informação de 20 páginas manuscritas que prestei em 15-7-1974, ao Director do SFM, em cumprimento dos seus despacho em documentos a que fiz referência

quarta-feira, 22 de abril de 2009

62 – A atitude do SFM perante o encerramento das Minas de chumbo do Braçal.

Em 1959, quando exercia s funções de Chefe da Brigada do Sul do SFM, que tinha a seu cargo as investigações, por trabalhos mineiros convencionais, das existências de jazigos minerais na região do País a Sul do Rio Tejo, foi com grande surpresa e algum desalento que soube do encerramento das Minas de chumbo do Braçal, as quais tinha conhecido em 1946, nas circunstâncias que referi no post N.º 59.

Afigurava-se-me que o SFM, em cumprimento dos objectivos para que tinha sido instituído, deveria ter evitado que viesse a acontecer a situação trágica que se verificou. Mas reconhecia que, no Norte do País, apesar de lá se situar a sua sede, o SFM, nos seus 20 anos de existência, não tinha conseguido criar estruturas idênticas às que vigoravam no Sul, que lhe permitissem tomar a seu cargo tal empreendimento.

Em 1-7-1974, já na minha qualidade de Chefe do Serviço de Prospecção do SFM, cujo âmbito se estendia a todo o território metropolitano nacional, recebi do Director do SFM um documento manuscrito, sem indicação de ter sido registado na Secretaria, como seria normal, do seguinte teor:

Ao 1.º Serviço:
Numa exposição dirigida ao Presidente da Câmara Municipal de Sever do Vouga e pelo Governo Civil de Aveiro remetido a Sua Ex.ª o Ministro da Coordenação Económica escreve-se (referindo-se ao encerramento das minas do Braçal):
“A firma proprietária, sem o auxílio oficial, não tinha rendibilidade na sua exploração. O Fomento Mineiro actuou no nosso concelho, nas Minas das Talhadas sem resultado.
Segundo os estudos dos mesmos Serviços e a confirmação do actual responsável Técnico das Minas do Braçal, o filão de Minérios de Chumbo é dos mais ricos do País ou mesmo da Europa.”
O 1.º Serviço deverá informar, com urgência:
1) Quais os trabalhos de prospecção realizados na área do Braçal.
2) Resultados obtidos.
3) Trabalhos em curso noutras áreas da região e resultados até agora obtidos.”


A minha primeira reacção a esta ordem foi a seguinte, com data de 2-7-1974:

“Ex.mo Senhor Engenheiro Director do Serviço de Fomento Mineiro:
Cita V. Ex.ª uma exposição, que alguém dirigiu ao Senhor Presidente da Câmara Municipal de Sever do Vouga, chamando a atenção para as potencialidades minerais da região de Braçal – Talhadas.
Refere que esta exposição transitou, através do Governador Civil de Aveiro, até Sua Ex.ª o Ministro da Coordenação Económica.
Não menciona V. Ex.ª os departamentos pelos quais passou, seguidamente, a exposição, nem os despachos que sobre ela incidiram.
Se foram respeitadas as normas correntes, é de crer que ela se encontre nas mãos de V. Ex.ª, após passagem pelo Secretário de Estado da Indústria e da Energia e Director-Geral de Minas.
A ser assim, uma vez mais um documento, que vinha seguindo as vias normais, com o objectivo de atingir o departamento competente para prestar informação sobre o assunto nele versado, é retido nas mãos de V. Ex.ª.
Em casos anteriores, V. Ex.ª, quando não se considerou apto a dar cumprimento aos despachos superiores, mandou preparar xerocópias dos documentos recebidos e sobre elas exarou os seus despachos, para que as minhas informações não acompanhassem os documentos originais e não ultrapassassem, portanto, o âmbito do Serviço de Fomento Mineiro ou da Direcção-Geral de Minas.
De tais informações, aproveitou V. Ex.ª aquilo que, segundo o seu critério pessoal, lhe pareceu de interesse.
Manifestei, por diversas vezes a V. Ex.ª o meu desacordo relativamente a esse procedimento que não considerei regular e, em 12-3-1974, solicitei que ele fosse objecto de apreciação por entidade jurídica competente.
Até à data, não me foi comunicado o parecer dessa entidade jurídica e ignoro até se ela chegou a ser consultada.
No caso presente, também V. Ex.ª se não considerou apto a dar cumprimento a despachos superiores.
Porém, em vez de enviar o documento original para informação, como seria normal, limitou-se a transcrever duas frases da exposição nele contida e a formular algumas perguntas sobre a actividade do 1.º Serviço na região de Braçal – Talhadas, determinando que as respostas fossem dadas com urgência.
Causa estranheza que, apresentando o 1.º Serviço, com regularidade, os seus relatórios trimestrais e anuais e tendo ainda na reunião de 24 de Abril passado, da Comissão de Fomento, feito exposição circunstanciada sobre a actividade desse Serviço no País e dos resultados que vem obtendo, a Direcção do Serviço de Fomento Mineiro se não encontre apta a prestar as informações que lhe foram solicitadas.
Devo lembrar ainda que, em 31-12-1972, apresentei um relatório subordinado ao título “Região de Braçal – Talhadas. Sua potencialidade mineira”, em satisfação de um despacho de V, Ex.ª exarado sobre um ofício do Dr. Vale Guimarães, então Governador Civil de Aveiro, no qual era posta em dúvida a utilidade dos trabalhos que, naquela região, decorriam a cargo do 1.º Serviço.
V. Ex.ª certamente estará recordado de que ordenou até a paragem desses trabalhos, para cumprimento de instruções que me disse ter recebido do Senhor Director-Geral de Minas.
O carácter singular desta ordem levou-me a solicitar a V. Ex.ª a sua confirmação por escrito e, como este pedido não foi atendido, tenho aguardado o despacho de V. Ex.ª sobre o meu relatório e, entretanto, os trabalhos têm prosseguido.
O teor do documento que estou analisando, leva-me a supor que V. Ex.ª ainda não teve oportunidade de ler tal relatório.
Porque a exposição a que se refere esse documento levanta, de novo, um tema de grande importância, que não tem sido devidamente avaliado em sectores da Direcção-Geral de Minas estranhos ao 1.º Serviço, afigura-se-me que a minha informação a seu respeito deve chegar, na íntegra, ao conhecimento de Sua Ex.ª, o Senhor Ministro da Coordenação Económica."


Em 10-7-1974, o Director do SFM escreveu, na sequência desta minha informação sobre o seu documento manuscrito, o seguinte:
“Não se ignora, como é evidente, a existência de relatórios trimestrais e anuais, nem tão pouco o que tem por título “Região de Braçal – Talhadas. Sua potencialidade mineira”. No entanto, pretendem-se agora informações muito concretas e sucintas sobre os pontos que se indicaram atrás.
O Engenheiro Chefe do 1.º Serviço de Fomento Mineiro é a pessoa que considero indicada para prestar a informação pedida. Insisto em que seja dada.
Para elaborar a informação em referência, não tem o Engenheiro Chefe do 1.º Serviço necessidade de consultar a “exposição” do Senhor Joel de Macedo Marques e por isso esta lhe não foi enviada. Não se vê, no entanto, qualquer inconveniente em que dela tome conhecimento. Junta-se.
Os outros assuntos abordados pelo Engenheiro Chefe do 1.º Serviço serão oportunamente levados ao conhecimento do Senhor Director-Geral de Minas que sobre eles tomará a decisão que julgar conveniente.”

Recebi, na mesma data, os seguintes documentos:
a) Carta do Presidente da Câmara de Sever do Vouga sobre notícia publicada no jornal “Diário de Lisboa” acerca do encerramento das Minas do Braçal.
b) Carta do Governo Civil de Aveiro, sobre o mesmo assunto
c) Fotocópia de artigo publicado no “Diário de Lisboa” de 15-12-1959, com o título seguinte: “O encerramento das minas de chumbo do Braçal cria um grave problema para a região de Sever do Vouga”.

No próximo post, farei a transcrição destes três documentos.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

61 – Região de Braçal – Talhadas. Sua potencialidade mineira

Este é o título de um relatório, em 2 volumes, que apresentei em 31-12-1972, em cumprimento da parte final de um despacho do Director do SFM, com data de 6-11-1972 (não 6-12-1972, como, por lapso, escreveu), em ofício do Governador Civil de Aveiro datado de 30-10-1972, que tinha merecido despacho do Director-Geral de Minas em 31-10-1972, ordenando urgente e rigoroso inquérito sobre matéria exposta no referido ofício.

Deste relatório consta um texto de 22 páginas dactilografadas, um Apêndice com cópias de correspondência trocada com a Companhia alemã Preussag que se mostrou interessada em contrato de prospecção para a região e 45 peças desenhadas explicativas dos resultados que tinham sido obtidos até 31-12-1972

Dele transcrevo o resumo.

“1 – O País necessita aproveitar as suas existências de minérios de cobre, chumbo e zinco para evitar as volumosas importações que faz destes metais.
2 – Uma análise dos dados existentes, em 1968, fez sobressair a região de Braçal – Talhadas, isto é, uma faixa de mais de 60 km de extensão norte-sul e largura variável mas ultrapassando por vezes 40 km, desde as proximidades de S. João da Madeira até perto da Mealhada, como uma das de maior potencialidade para esses minérios.
3 – Embora os elementos geológicos sobre a região sejam escassos, há motivos para crer que nela possam encontrar-se jazigos importantes, não só de cobre, chumbo e zinco, mas também de outros metais, como tungsténio e estanho, não sendo de excluir os jazigos estratóides.
4 – De 1968 até ao presente, tem vindo a efectuar-se uma campanha de prospecção geoquímica, especialmente com base em amostragem de sedimentos de linhas de água e análise de metais pesados, pela ditizona, na fracção extraível a frio, pelo citrato de amónio. Acessoriamente, têm-se feito, também, análises de cobre, chumbo e zinco, também pela ditizona, mas com extracção a quente.
Foram já colhidas 102.400 amostras e efectuadas 154.420 análises, das quais 66% no Laboratório de Beja.
5 – Os resultados têm sido animadores, conforme temos assinalado em exposições verbais feitas em reuniões da Comissão de Fomento e em relatórios trimestrais. No último relatório, por exemplo, referente ao 3.º trimestre de 1972, destacamos a Região de Braçal – Talhadas dentre aquelas onde a actividade do 1.º Serviço fez aparecer resultados de maior interesse.
6 – A demonstrar a importância de região, no que respeita à possibilidade de existências minerais, há o interesse revelado pela Companhia alemãs Preussag e por outras Companhias estrangeiras nos resultados dos levantamentos geoquímicos do Serviço de Fomento Mineiro e a intenção manifestada de apresentação de propostas para novas fases de trabalho, visando a obtenção de concessões.
7 – Apesar do que se expõe nos números anteriores, foi superiormente levantada dúvida quanto à real potencialidade mineira da região de Braçal – Talhadas e mandado elaborar “relatório indicando o que se fez até agora, perspectivas e resultados, o que se projecta para o futuro, a fim de habilitar o Senhor Engenheiro Director do Serviço a propor ao Senhor Engenheiro Director-Geral a continuação ou paralisação dos trabalhos” (despacho de 6-11-1972 exarado no ofício de 30-10-1972, do Governo Civil de Aveiro).
8 – O presente relatório dá satisfação ao que superiormente se determina.
9 – Demonstra-se que, se em 1968 a região já tinha bastante interesse, em face dos dados dobre ela existentes, presentemente esse interesse é muito maior, por virtude da valorização introduzida pelos trabalhos de prospecção geoquímica realizados.
10 – Estes trabalhos permitiram definir diversos conjuntos de anomalias, alguns dos quais em coincidência com o “grande filão metalífero da Beira” e outros em áreas não anteriormente consideradas com grande potencialidade.
11 – Apresenta-se um programa para continuação do estudo da região e sugerem-se algumas medidas para mais rápida obtenção de resultados finais, isto é, definição de reservas minerais exploráveis.”

Do texto, constam os seguintes capítulos:
1 – Introdução
2 – Breve história das actividades mineiras na região
3 – Geologia da região
4 – Ocorrências minerais
5 – Trabalhos de prospecção realizados pelo Serviço de Fomento Mineiro
5.1 – Justificação da nova campanha
5.2 – Trabalhos realizados até 31-12-1972
5.3 – Resultados
6 – Conclusões
7 - Apêndice

Das peças desenhadas, a primeira (8.1) é uma carta parcial, à escala de 1:100 000, da área em estudo, salientando o “grande filão metalífero” e as 37 ocorrências minerais a ele subordinadas; as seis seguintes (8.2 a 8.7) são mapas à escala 1:250 000 indicando as áreas prospectadas pelo método geoquímico, com análises de sedimentos de linhas de água para metais pesados/extracção a frio) e para cobre, chumbo e zinco (extracção a quente); as 33 seguintes (8.8 a 8.40) são mapas à escala 1:25 000 das anomalias registadas, obtidos por redução de 434 mapas à escala 1: 5 000 constantes dos arquivos da Sede da 2.ª Brigada e da Secção de Talhadas; a 8.41 é um mapa à escala 1:5 000 com expressivas anomalias electromagnéticas da campanha de 1946; as 4 restantes (8.42 a 8.45) são mapas geoquímicos à escala 1:5 000 exemplificativos de bons resultados obtidos, merecedores de investigação por outras técnicas, incluindo sondagens.

A elaboração deste relatório, em tão curto espaço de tempo, só se tornou possível, mercê da capacidade de trabalho e disciplina da equipa constituída na Secção de Talhadas sob a directa orientação do Colector Silvério Vilar, que o Director-Geral de Minas chegou a admitir que deveria ser dispensado, sem sequer curar de saber da validade das acusações do Governador Civil de Aveiro.

Tenho sérias dúvidas de que este relatório tenha sido lido e devidamente apreciado, porquanto sobre ele nunca foi emitida qualquer informação e, em ocasiões posteriores foi demonstrada grande ignorância sobre a actividade em curso na região de Braçal – Talhadas, conforme irei revelar em post seguinte.

terça-feira, 14 de abril de 2009

60 – A prospecção mineira na região de Braçal – Talhadas, retomada pelo SFM, em 1968

No post N.º 28, descrevi as condições que me foram proporcionadas par dar cumprimento a planos de prospecção sistemática, no Norte e no Centro do País.

Apesar das limitações referidas, foi-me possível, em 1968, criar dois núcleos com actividade no terreno, um com sede em Caminha e outro com sede em Talhadas, ambos entregues a funcionários com a categoria de Colectores, cujas habilitações de base se limitavam à antiga 4.ª Classe de Instrução Primária, aos quais eu tinha dado formação transformando-os em Prospectores e confiando-lhes trabalhos que no Sul do País estavam a cargo de Agentes Técnicos de Engenharia.

Já me referi, no post N.º 56, ao núcleo de Caminha da 2.ª Brigada de Prospecção e aos êxitos que nele estavam a obter-se em prospecção de tungsténio.

A Secção de Talhadas foi criada para investigação de uma área que sobressaiu da análise documental como tendo grande potencialidade principalmente para jazigos de chumbo, zinco e cobre.

A esta área dei, inicialmente a designação de “Região de Braçal – Talhadas”, por nela ocorrerem como minas principais as de Braçal do concelho de Sever do Vouga e as de Talhadas do concelho de Águeda.

Os trabalhos na Secção de Talhadas tiveram início em 1968 e decorriam com relativa normalidade, deles resultando anomalias sobretudo pelo método geoquímico, sugestivas de poderem corresponder a ocorrências minerais com interesse económico, justificando, por isso, o prosseguimento da investigação através de sondagens.

Todos estes resultados constavam de relatórios mensais e anuais que eu apresentava, com regularidade.

Além disso, em reuniões da Comissão de Fomento, em Lisboa, eu descrevia, com pormenor, toda a actividade do Serviço de Prospecção que me estava confiado e os resultados que estava a obter. Nestas descrições, salientava os encorajantes resultados na região de Braçal – Talhadas.

Surpreendiam-me os comentários que o Director-Geral se permitia fazer quanto ao interesse mineiro desta região, que conhecia de contactos que com ela tivera, quando exercera o cargo de Chefe da Circunscrição Mineira do Norte.
Mostrava-se o Director-Geral muito reticente quanto ao interesse de filões. Para ele só as formações estratificadas, como as que ocorrem na Faixa Piritosa ou na Faixa Zincífera Alentejana, eram susceptíveis de conter reservas que viessem a justificar exploração.

Todavia, consentia que o 2.º Serviço, que tinha a seu cargo os trabalhos mineiros, se mantivesse a reconhecer jazigos filonianos no Norte e no Sul do País, num caso (Mina do Barrigão) no interior de área adjudicada a Companhia canadiana para prospecção mineira, conforme referi em post anterior.

Apesar das reticências do Director-Geral, os estudos prosseguiam na região de Braçal-Talhadas, com a regularidade possível, dentro das limitações que me tinham sido proporcionadas.

Em Outubro de 1972, um imprevisto acontecimento veio perturbar esta relativa normalidade, O Director-Geral de Minas recebeu do Governador Civil de Aveiro o ofício com data de 30-10-1972, confidencial e pessoal, que a seguir transcrevo:

“Existe conflito entre a Junta de Freguesia de Talhadas e os Serviços Florestais.
Esse conflito tem-se agravado com a intervenção, como advogado de defesa da Junta de Freguesia, de um profissional muito mais político do que advogado – e político só preocupado em fazer especulação – dominando por inteiro o Presidente da Junta.
A campanha já atingiu a fase do manifesto agressivo.
Há um funcionário dependente da Direcção-Geral ao digno cargo de V. Ex.ª. - Silvério Vilar – em exercício de funções na região, que, em carro desses Serviços, aparece em muitas reuniões e, ao que consta, ao inteiro serviço do Presidente da Junta de Freguesia, transportando pessoas, etc.
A confirmarem-se estas informações, não há dúvida de que a actuação de Silvério, utilizando carro do Estado, levará as populações ao convencimento de que o Presidente da Junta de Freguesia tem o apoio do Governo, o que, nem em caricatura, corresponde à verdade, conforme Sua Ex.ª o Secretário de Estado da Agricultura pode esclarecer.
À esclarecida apreciação de V. Ex.ª, com os melhores cumprimentos.
A bem da Nação
O Governador Civil
(Assinatura ilegível)”

Sobre este ofício, incidiu o seguinte despacho do Director-Geral:
“Ao eng. Director do Serviço Fomento Mineiro para urgente e rigoroso inquérito. Assinatura ilegível. 31-X-72”

O Director do SFM, quando recebeu este ofício, chamou-me ao seu gabinete e revelou-me que a primeira reacção do Director-Geral, em telefonema que lhe fizera, tinha sido no sentido de despedir Silvério Vilar.
Mas reflectindo melhor, lhe ordenara que se extinguisse a Secção de Talhadas. Esperava que do rigoroso inquérito, a que mandara proceder, resultasse essa decisão. Ele, Director do SFM era de opinião que a Secção se extinguisse, pois a sua actividade “não estava a dar nada!”.

Chamei-lhe, então, a atenção para os resultados francamente positivos que estavam a ser encontrados, os quais constavam dos meus relatórios e tinham sido descritos em reuniões da Comissão de Fomento.
Relativamente à acusação do Governador Civil, informei ter conhecimento de que Silvério Vilar apenas auxiliara o Presidente da Junta de Freguesia, realizando trabalho de topografia para demarcação de baldios e fizera isso dentro do espírito de boa colaboração que deve existir com as entidades locais, que também se mostram colaborantes, como era o caso.
Realcei, igualmente, as excepcionais qualidades de Silvério Vilar, só a elas de devendo a possibilidade de executar trabalhos por variadas técnicas, que normalmente estariam a cargo de Agentes Técnicos de Engenharia.

O Director do SFM, depois desta conversa, exarou o seguinte despacho no ofício do Governador Civil de Aveiro:
“Ao Eng.º Chefe do 1.º Serviço:
Ouvi o Colector Silvestre Moreira Vilar, o qual procurou justificar a sua actuação que não terá tido a gravidade que se poderá depreender da leitura do presente ofício.
Como se trata de um funcionário muito trabalhador, interessado, competente e com muitos anos de serviço no decorrer dos quais sempre se mostrou correcto e disciplinado, procurar-se-á resolver este caso retirando imediatamente o referido funcionário da área em que presentemente trabalha evitando-se assim contactos que podem originar problemas mais graves.
Quanto aos trabalhos em curso na região elabore-se um relatório indicando o que se fez até agora, perspectivas e resultados, o que se projecta para futuro, a fim de me habilitar a propor ao Senhor Eng.º Director-Geral a continuação ou paralisação dos trabalhos. Assinatura ilegível. 6-12-1972

Em cumprimento deste despacho, dei instruções ao Senhor Silvério Vilar no sentido de procurar instalações em Sever do Vouga, para transferir para lá a sede da Secção, que se encontrava em Talhadas, mas recomendei-lhe que não tivesse pressa nessa transferência, convencido de que este caso não passava de “uma tempestade num copo de água”.
O tempo foi passando e a transferência foi sendo sucessivamente adiada, acabando por não se efectuar, sem que deste caso voltasse a lembrar-se o Director do SFM.

Quanto ao relatório que me foi exigido, dele me ocuparei no próximo post.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

59 – Mina de chumbo do Braçal

Conheci esta Mina, no verão de 1946.

Nesse tempo, eu chefiava a Brigada de Prospecção Eléctrica, que tinha sido criada pelo primeiro Director do SFM, Engenheiro António Bernardo Ferreira, com o objectivo de descobrir novas concentrações de pirite complexa na Faixa Piritosa Alentejana, que permitissem não só manter em laboração as indústrias instaladas no Barreiro para produção de enxofre, cobre e seus derivados, mas também a exportação desta matéria-prima.

A Brigada actuava então na zona de Aljustrel, em áreas que estavam a ser aproveitadas para cultivo de trigo e outros cereais. O desenvolvimento das searas, durante o verão, não permitia o seu atravessamento, para efectuar as observações electromagnéticas, nos perfis previamente piquetados, sem causar danos aos proprietários agrícolas.

O Director do SFM decidiu que a Brigada se transferisse para as Minas do Braçal, para investigar a continuidade de filões conhecidos e a possível existência de filões que ainda não tivessem sido detectados.

Foi nestas circunstâncias que passei a conhecer as Minas do Braçal.

Embora os resultados da prospecção electromagnética efectuada não tivessem sido positivos, no que respeita a novas descobertas, o que pude observar, durante os meses em que residi nas Minas, deixou-me francamente bem impressionado.

As Minas tinham sido objecto de intensa exploração desde recuados tempos, como o demonstravam objectos encontrados em trabalhos antigos com os quais as mais recentes explorações iam deparando. Lembro-me de ter visto em pequeno Museu organizado nas Minas, lucernas e chicotes em couro entrançado, que eram interpretados como “argumentos” usados para o trabalho de escravos.

A Companhia que, nessa época, adquirira a concessão do Braçal e várias outras concessões na sua imediata proximidade, não tinha como principal objectivo a actividade mineira. Tratava-se de uma Companhia industrial e agrícola, que tendo observado a grande quantidade de minério existente em antigas escombreiras, resolvera fazer a sua recuperação.
Dos estudos que terá mandado efectuar, concluíra que o minério existente nas escombreiras justificava a instalação de uma lavaria.

Para dirigir a actividade desta lavaria, contratou um jovem Agente Técnico de Engenharia que, embora sem experiência mineira, revelava grande capacidade de aproveitamento de excelente mão de obra que conseguia recrutar localmente.

Este técnico interessou-se, não apenas pelo bom funcionamento da lavaria. Julgo ter sido de sua iniciativa retomar a exploração da Mina do Braçal e das Minas Malhada e Coval da Mó, que lhe ficam próximas.

Visitei a Mina do Braçal e, conquanto, nessa data, a minha experiência de trabalhos mineiros fosse praticamente nula, pois estava dirigindo desde a minha formatura trabalhos de prospecção à superfície, fiquei convencido de que se estava em presença de jazigo rico.
A exploração estava a incidir principalmente em antigos desmontes, aproveitando zonas cujos teores de chumbo não tinham sido considerados suficientes para se justificar a sua extracção. A produção que se conseguia, permitia manter uma actividade mineira lucrativa.

Durante a minha permanência nestas Minas, tive ainda a oportunidade de assistir à produção de chumbo metálico, em fornos que tinham sido construídos em meados do século XIX e que a Companhia recuperara.

Pelo que acabo de referir, foi com enorme surpresa que tomei conhecimento, em 1959, do encerramento destas Minas e o consequente despedimento de cerca de 600 mineiros que lá exerciam a sua actividade.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

58 – Problema no abastecimento de água a Mira d’Aire resolvido pelo SFM

Em Setembro de 1968, Mira d’Aire preparava-se para festejar melhoramento importante no abastecimento de água à sua população, quando um acontecimento imprevisto fez adiar a inauguração, para a qual até já os foguetes tinham sido adquiridos.

Tinha-se tornado premente alteração no sistema de captação que estava a ser utilizado.
A água era aspirada num algar do maciço calcário de Porto de Mós e bombeada para a superfície, em condições que não garantiam a qualidade recomendável.
À medida que baixava o seu nível, por ausência de recarga motivada por escassez de chuvas, tornava-se necessário, com bastante frequência, deslocar os grupos moto-bombas, para garantir a possibilidade de aspiração.

Para acabar com esta permanente preocupação, planeou-se a abertura de um poço com a profundidade 100 metros e uma galeria também com a extensão de cerca de 100 metros, orientada para atingir o algar a um nível que evitasse as constantes mudanças de posição dos grupos electro-bombas.

O levantamento topográfico do algar foi feito à bússola por um escafandrista, com as naturais dificuldades.

Aconteceu que, tendo a galeria atingido comprimento mais que suficiente para ter interceptado o algar, este não fora encontrado.

Fui, então contactado por um Engenheiro dos Serviços de Urbanização, que tinha anteriormente pertencido ao Quadro de técnicos do SFM, integrado na extinta Brigada de Prospecção Eléctrica, com vista a tentativa de resolução deste problema, usando o equipamento Turam de prospecção electromagnética.

Com o melhor espírito de colaboração, após autorização superior, planeei o ataque do problema com aplicação, não apenas do método electromagnético Turam, mas também do gravimétrico.

Relativamente ao método Turam, projectei o seu emprego, como método do ângulo de inclinação. Ao dar as minhas instruções ao Engenheiro que, na 1.ª Brigada de Prospecção estava encarregado dos métodos eléctricos, obtive, inicialmente como reacção, dúvidas quanto à eficácia da modalidade indicada, uma vez que ainda não tinha sido tentada no País e o método, (como o seu nome indica, na linguagem sueca de onde é originário), exigia o uso de duas bobinas, ao passo que na modalidade que eu pretendia usar, apenas uma se tornava necessária.
Sugeri-lhe que fizesse experiência, estendendo um cabo condutor rectilíneo por cima de trincheira de uma estrada e verificasse se conseguia localizar esse cabo, do modo por mim indicado, A este respeito, sugeri que colhesse mais informação no livro elementar de Prospecção da autoria de Parasnis.

Em 25 e 26 de Setembro de 1968, estiveram em Mira d’Aire, os Engenheiros da 1.ª Brigada de Prospecção que tinham a seu cargo os métodos eléctricos e o método gravimétrico, a fim de darem execução aos trabalhos projectados.

No dia 25, foi estendido um cabo condutor eléctrico, desde o poço até uma distância de cerca de 50 metros, numa direcção sensivelmente perpendicular à da galeria. Este condutor foi ligado à terra em ambos os extremos, tendo um destes ficado situado no ponto mais fundo do algar que o mergulhador conseguiu atingir.

No dia 26, eu desloquei-me do Porto para acompanhar os trabalhos que iam ser realizados.

Fiquei deveras surpreendido com a instalação que estava a ser usada para a movimentação do pessoal, dentro do poço, a qual não reunia as mínimas condições de segurança, só por muita sorte não acontecera, até então, nenhum acidente grave.
Os meus colegas, sem experiência de trabalhos mineiros terão considerado que estes teriam, pela sua natureza, que ser perigosos e não me fizeram qualquer observação sobre o assunto, talvez para não darem sinal de se mostrarem medrosos.
Eu hesitei antes de me decidir a deixá-los entrar com todos os equipamentos, arriscando-me a originar perdas de vidas, entre as quais a minha e material valiosíssimo.
A minha decisão final foi enfrentar esse perigo, consciente de que outra atitude da minha parte poderia ser mal interpretada pela DGGM e confiante de que, se nenhum acidente tinha acontecido até àquela data, a probabilidade de acontecer, nesse dia, não seria grande.

Fez-se então percorrer pelo cabo uma corrente alterna de cerca de 1,5 A e uma frequência de 440 hz e fez-se a pesquisa das características geométricas do campo electromagnético gerado pela passagem desta corrente, ao longo de toda a extensão da galeria.
Dos resultados encontrados, foi possível determinar, com exactidão, o local mais próximo do algar, onde à galeria passava a um nível que lhe estava subjacente cerca de uma dezena de metros.

A aplicação do gravímetro tinha por base o grande contraste densitário entre o calcário e a água que preenchia a gruta nele existente, que comunicava com o algar. Todavia, não se registou anomalia significativa, talvez devido às reduzidas dimensões da gruta.

Quando regressei ao Porto, após a conclusão deste trabalho, a minha primeira preocupação foi escrever ao colega dos Serviços de Urbanização para mandar suspender, de imediato, os trabalhos que estavam a decorrer nas deploráveis condições a que aludi, antes que um acidente grave viesse a registar-se.
A sua reacção deixou-me estupefacto. Referiu que nas Minas sujeitas à fiscalização da DGGM, se registavam situações muito piores! Eu nunca tivera funções de fiscalização, mas tinha tido oportunidade de visitar numerosas minas em exploração por empresas privadas e nunca encontrara qualquer situação que se assemelhasse à que mereceu os meus reparos.

Tudo acabou por correr bem. O algar foi encontrado à marca prevista e até houve que bater em retirada, algo apressadamente, perante a invasão de água que se verificou através de furo que foi efectuado na sua direcção.

Os festejos foram noticiados nos jornais da época.

O colega que me tinha contactado fez deste êxito artigo que publicou, como se tivesse sido seu autor.

segunda-feira, 30 de março de 2009

57 – A vaca, a gasolina e os corredores dos edifícios do SFM

Houve quem passando perto do edifício principal do SFM estranhasse a presença frequente de um funcionário à janela absorvido em contemplação da paisagem exterior.
Maior estranheza manifestou quando soube que esse funcionário era …o Director.

Estava o Director, numa dessas atitudes contemplativas, quando entra no seu gabinete o Agente Técnico de Engenharia ABDC e lhe expõe uma situação delicada que tinha herdado. Tratava-se de um caso de silicose diagnosticada a um operário da sua equipa que transitara de uma extinta Secção do SFM.

O Director, concentrado como estava na sua contemplação, pouca atenção dava à exposição de ABDC. Em dado momento, a demonstrar o seu apurado espírito de observação, declara: “Aquela vaca passa aqui, todos os dias à mesma hora”. Esta atitude só não deixou ABDC perplexo, porque já se habituara a observações do género!

Em outra ocasião, expunha ABDC um caso a resolver e o Director mantinha-se bastante alheio à matéria em causa, tão absorvido se encontrava a observar a extensa fila de automóveis que aguardava a vez para encher os seus depósitos de gasolina, em posto de abastecimento situado na Via Norte, em período de grande carência deste combustível. Aparentemente encantado, exclamou, com veemência: “Acabou-se a gasolina!”. Por esta não esperava ABDC, conforme me declarou, desabafando comigo, como era seu hábito.

Outro caso que bem define o Director que tive que suportar durante 15 anos passou-se comigo.
O Director entra no meu gabinete para pedir que lhe ceda um dos dois Agentes Técnicos afectados, no Norte, ao Serviço de Prospecção sob minha chefia, para dar apoio em matéria de topografia a outro departamento do SFM.
Estranhei o pedido, pois sempre considerei fundamental que em todos os departamentos técnicos existisse pessoal habilitado a fazer topografia. No Alentejo, eu tinha preparado muitos funcionários, vários deles apenas com a 4.ª classe de Instrução Primária a desempenhar-se, não só dos trabalhos de campo, como do cálculo das cadernetas e da implantação dos resultados em mapas finais. Só não ensinei cálculos de triangulações, por envolverem uso, em larga escala, de funções trigonométricas.
Nas minhas funções docentes na Faculdade de Ciências do Porto, cheguei até a proporcionar instrução nesta matéria a vários Geólogos do SFM, em trabalhos, tanto no campo como no gabinete, para não ficarem na dependência do trabalho de Agentes Técnicos de Engenharia, cuja qualidade era, por vezes, discutível.
Dado que para as imensas tarefas a resolver no Norte do País, além de Geólogos envolvidos em cartografia para os Serviços Geológicos e em estudos de testemunhos de sondagens, apenas dispunha de dois Agentes Técnicos de Engenharia de modesta qualidade, reagi dizendo que o técnico no qual se mostrara interessado, tinha trabalho distribuído que o absorvia completamente.
Reagiu prontamente o Director: “Eu vejo-o sempre a passear pelos corredores!” Surpreendido, disse apenas: “Eu não sabia disso, porque não frequento assiduamente esses corredores!”

Outros casos irei revelar, a propósito de variados temas, que contribuem para bem definir um Director que conseguiu permanecer no cargo durante década e meia!