Nos parágrafos finais do post N.º 30, já fiz referência a estas Minas, e à impossibilidade de conhecer concretamente qual tinha sido a actividade do SFM, antes de 1964, para seu reconhecimento.
Em relatório com data de 1966, o Geólogo Dr. António Ribeiro, menciona estudos anteriores, mais ou menos desenvolvidos, de diversos outros Geólogos, entre os quais Cotelo Neiva e Carlos Teixeira, para definir a estrutura do jazigo e avaliar as suas reservas.
Conclui, no entanto, das suas próprias observações, que o jazigo de Vila Cova se mantém incompletamente reconhecido.
Agora, pretendo apenas chamar a atenção para as possibilidades que se abrem com a aplicação conjugada dos métodos gravimétrico e magnético, na vasta área considerada potencial.
A campanha de prospecção magnética do início da década de 40 do século passado fez uso de equipamentos de baixa sensibilidade e limitou-se à área que então era tida como potencial.
A gravimetria permitirá fazer a avaliação das reservas, tal como aconteceu em jazigos de ferro descobertos no Alentejo, nomeadamente nos da Alagada e Vale de Pães, a que me referi nos posts N.º 45 e 46. Nestes casos, a avaliação, pela carta gravimétrica, foi plenamente confirmada pelo cálculo feita através dos resultados das sondagens.
O mesmo tinha acontecido com as massas de sulfuretos complexos de Moinho e Feitais em Aljustrel e parece a estar a confirmar-se com o conjunto das massas de sulfuretos de Neves-Corvo.
sábado, 16 de maio de 2009
sexta-feira, 8 de maio de 2009
67 – O jazigo de ferro de Moncorvo
Foi em meados da década de 30 do século passado que tive conhecimento da existência deste importante jazigo de ferro.
Frequentava então o Liceu de Alexandre Herculano do Porto. Na disciplina de Ciências Naturais, era adoptado o livro de Mineralogia e Geologia de Celestino Maia e Filinto Costa e nele era referido o jazigo de Moncorvo com uma grandeza tal que um prestigiado técnico espanhol, (julgo ter sido citado Hernandez Sampelayo), o considerara como constituindo a reserva de ferro da Europa.
Não existiria, portanto, problema de reservas para sua exploração.
Quando, em 1964, assumi as funções de Chefe do Serviço de Prospecção do SFM, não estava nos programas do SFM definir, com exactidão, o montante das reservas.
A exploração, a um ritmo adequado às imensas reservas, estava sobretudo dependente da possibilidade de transportar o minério, em termos económicos para a Siderurgia Nacional, já instalada no Seixal desde 1960, ou para sua exportação.
Duas opções estavam em estudo: a via fluvial e marítima e a via férrea. A primeira parecia ter mais adeptos e, por isso, mas não só, se prepararam as eclusas no Rio Douro, para o tornar navegável a embarcações mineraleiras, que possibilitassem o transporte, nas quantidades previsíveis para um empreendimento rendível.
Parecia não haver preocupação quanto às características do minério. O seu baixo teor de ferro e o elevado teor de fósforo, que o tornavam de difícil comercialização nos mercados internacionais e impunham onerosos tratamentos para utilização na Siderurgias Nacional não estavam na primeira linha das preocupações.
Não se tentou aproveitar a capacidade do sector de Microscopia de Minérios do Laboratório do SFM na determinação dos seus constituintes.
O Geólogo Dr. Orlando da Cruz Gaspar, então Chefe do Departamento de Microscopia de Minérios, tinha efectuado prolongado estágio, nesta matéria, junto do Professor Ramdohr, que então era considerado o maior especialista mundial em microscopia de minérios.
Os trabalhos que vinha realizando neste domínio creditavam-no como especialista internacionalmente reconhecido.
Porém, em 1968, o SFM estava prestando colaboração em matéria de geologia, para melhor definição da estrutura do jazigo.
Segundo projecto dos Geólogos A. Ribeiro e J. Almeida Rebelo foram executadas sondagens.
Uma das suas importantes conclusões foi a seguinte: O jazigo mergulha para sul, indicando existir uma parte oculta que pode ser muito importante.
Procurando confirmar esta hipótese, foi pedida a intervenção do Serviço de Prospecção sob minha chefia, para aplicação de técnicas geofísicas.
Para avaliar da eficácia dos métodos gravimétrico e magnético, neste ambiente geológico, decidi que fossem aplicadas ambas as técnicas em 4 perfis com, extensões variáveis de 1 a 2 km, passando por zonas do jazigo onde tinham sido efectuadas sondagens.
Os perfis foram levantados em Dezembro de 1968 e revelaram um acentuado gradiente no mesmo sentido em que os estudos geológicos levavam a prever a continuidade do jazigo em profundidade.
Da apreciação deste gradiente, que se admite não ser de carácter regional, uma vez que tal não se torna evidente nas cartas gravimétricas publicadas, em 1965, pelo Instituto Geográfico e Cadastral, é legítimo formular a hipótese de estarmos em presença de um jazigo de minério magnetítico, de muito maiores dimensões do que poderiam sugerir os dados existentes à superfície.
O que à superfície se revela será apenas um resíduo do que ficou da erosão de uma espessa formação ferrífera que mergulha para sul, oculta sob os sedimentos suprajacentes
Afigurou-se-me legítimo formular a hipótese de que a sua grandeza possa equiparar-se à dos gigantescos jazigos suecos de Kiruna, Malmberget e Luasavaara.
Em relatórios vários, fui salientando estes resultados e, no respeitante ao 3.º trimestre de 1969, propus a realização de um furo de sonda para investigar tal hipótese.
Nas reuniões da Comissão de Fomento realizadas em Lisboa, em 29 e 30 de Setembro de 1969, de novo, chamei a atenção para a importância destes resultados e para a conveniência de fazer um furo de sonda para investigar a sua consistência.
Fui de parecer de que se não justificaria a imediata cobertura de vasta área, por aquelas técnicas, até porque isso iria atrasar outros programas que se encontravam em curso na Faixa Piritosa Alentejana, em fase muito encorajante, que iria dar lugar à descoberta do já famoso jazigo de Neves-Corvo. Também não considerava viável a criação de uma equipa de gravimetria na 2.ª Brigada de Prospecção, pelos motivos que expus nos parágrafos finais do post N.º 28.
O Director-Geral de Minas discordou da execução desta sondagem, considerando que o jazigo conhecido já era suficientemente grande, não se colocando, portanto, a necessidade de aumentar as suas reservas, cuja extracção iria exigir lavra subterrânea profunda.
Perdeu-se assim a oportunidade de conhecer uma provável parcela do jazigo que até poderia conter minério de melhor qualidade e poderia permitir projectos de maior vulto, susceptíveis de captar o interesse de grupos empresariais estrangeiros para “joint ventures”, que garantissem a comercialização do minério.
O centro mineiro de Moncorvo teve uma vida atribulada, com intervenções de técnicos nacionais e estrangeiros e com o empenhamento de sucessivos Governos que, ora aprovavam planos grandiosos, ora se mostravam reticentes em dar sequência a ambiciosos projectos.
Quando a Siderurgia Nacional ainda tinha em funcionamento um alto-forno, chegou a estar prevista a instalação de um segundo e até de um terceiro, com base na utilização do minério de Moncorvo. E esteve ainda prevista a instalação de uma siderurgia em Sines, inicialmente com um alto-forno e com um segundo, anos mais tarde.
Em resultado do mau uso das liberdades instituídas após a Revolução de Abril de 1974, a que me referirei em próximo post, deixei de ter conhecimento interno da evolução dos estudos no jazigo de Moncorvo.
Foi através do noticiário de jornais e revistas nacionais e estrangeiras que me mantive informado do que se passava em Moncorvo e na Siderurgia Nacional. Das muitas informações que fui colecionando, ao longo dos anos, vou aproveitar as que se me afiguram mais representativas da evolução do projecto de Moncorvo.
Em 27-6-1978, vi publicada no Jornal de Notícias do Porto a seguinte notícia:
Revelações sensacionais de Nuno Abecassis: Portugal vai ser o único país europeu auto-suficiente em minérios de ferro, e mais do que isso, exportador do referido minério, o que significa que entramos na era dos países donos do aço – anunciou o Secretário de Estado das Indústrias Extractiva e Transformadoras, eng.º Nuno Abecassis, no encerramento do 1.º Encontro Nacional de Quadros Socio-Profissionais do CDS. Reportava-se Abecassis ao minério de Moncorvo, com riquezas enormes ainda não exploradas, por se pensar que “os teores de fósforo não podiam ser reduzidos”. Todavia – disse – há cerca de 15 dias, foram obtidos resultados pré-industriais que nos mostram que esses teores podem ser reduzidos aos níveis convenientes.
Em 2-9-1978 o Expresso, acerca do “Projecto Mineiro de Moncorvo”, salientava, com o sub-título ”Viabilidade (ainda) em estudo até ao fim de 1979 não impede “esquema preliminar de trabalhos”, o empenhamento de três membros do II Governo Constitucional (Carlos Melancia, Ministro da Indústria e Tecnologia, Krus Abecassis, Secretário de Estado das Indústrias Extractivas e Transformadoras e Sousa Gomes Ministro da Habitação e das Obras Públicas) nos problemas de Moncorvo e da Siderurgia Nacional.
E em 28-10-1978 também o Expresso dava conhecimento de que um: Grupo sueco estava a estudar a viabilidade do projecto mineiro de Moncorvo. Salientava que a firma sueca que liderava o Grupo seleccionado (a Lkab-International) pertencia ao Grupo estatal Lkab, que desenvolvia múltiplas actividades no sector mineiro, nomeadamente nos domínios de “engineering”, da prospecção e desenvolvimento de actividades de investigação e industriais nas áreas de minérios metálicos e não metálicos. Lembrava que, através das suas unidades de exploração de Kiruna, Spavaraara e Malmberget, a Lkab produzia mais de 30 milhões de toneladas anuais de minério de ferro (sob a forma de “lumping”, finos e peletes), o que colocava o grupo no primeiro lugar entre os produtores europeus e entre os cinco primeiros a nível mundial. O grupo era, portanto, especialmente credenciado para a resolução de problemas de concentração devidos à ocorrência de fósforo e ao desenvolvimento do processo de peletização.
Em Abril de 1979, a conceituada Revista “Engineering and Mining Journal”, noticiava que o projecto, há longo tempo na situação de “pára-arranca”, para pôr em exploração o jazigo de minério de ferro de baixo teor de Moncorvo, foi arquivado até ao fim do ano, pelo menos. O problema do fósforo continuava em estudo. Considerava que, mesmo que resolvido, teria que haver uma produção da ordem dos 3 milhões de toneladas/ano, o que a indústria de aço nacional não absorve. O minério de Moncorvo, com um teor de 35-40% de ferro, teria dificuldade em ser colocado nos mercados internacionais.
Em 19-9-1980, o semanário “O Jornal” publicou a seguinte notícia: ”Governo da AD trava projecto de Moncorvo. A aprovação do projecto das Minas de ferro de Moncorvo e a indispensável garantia de financiamento parece ter caído num impasse. Meios ligados à indústria extractiva não acreditam que o projecto tenha sido abandonado, mas a verdade é que a respectiva aprovação por parte do Governo, embora há muito esperada, ainda não se verificou.
Em 31-10-1981, noticía o Expresso: Plano Siderúrgico Nacional. 70 milhões de contos ao rubro. O Expresso apurou, de fonte bem colocada no Ministério das Finanças e do Plano, que a Ferrominas vai parar. Nem Morais Leitão nem João Salgueiro assinaram o despacho autorizando a Ferrominas e a Siderurgia Nacional a movimentarem as dotações de capital previstas para estas duas empresas no OGE deste ano.
E em 7-11-1981, é o Jornal de Notícias do Porto a informar: Minério de Moncorvo vai ser “enterrado”? CT de Ferrominas mostra preocupação pelo futuro.
Em 1-6-1984 noticiava o Jornal de Notícias do Porto: Plano Siderúrgico congelado e corte na expansão da Quimigal. Após análise do Plano Siderúrgico Nacional, foi decidido não o aprovar, na sua forma original, adiando o aproveitamento dos minérios de Moncorvo e a construção de novas unidades industriais e concentrando todos os esforços na modernização da unidade do Seixal.
Esta foi a série de acontecimentos que culminram com o encerramento não só das Minas de Moncorvo, mas também da Siderurgia Nacional.
Este clamoroso insucesso, era previsível, perante a indisciplina verificada na sucessão das diferentes fases do projecto. De facto, não tinha havido o cuidado elementar de só passar a uma fase mais avançada, quando as conclusões dos estudos, na fase em curso, tal autorizassem.
Ocorre-me hoje perguntar:
Teria o projecto de aproveitamento do minério de ferro de Moncorvo tido concretização como grande pólo de desenvolvimento de uma região do interior do País, se se tivesse dado cumprimento ao projecto de sondagem, oportunamente apresentado?
Talvez tenha tido razão quem premonitoriamente classificou o jazigo de Moncorvo como “ a reserva de ferro da Europa”.
O SFM esteve preparado para se encarregar de dar cabal sequência a este projecto. Lamentável foi que, por total incompreensão da sua real dimensão, da parte de dirigentes que ascenderam aos seus cargos, não por competência, mas por considerações de ordem política ou por compadrio, se tivessem desperdiçado as capacidades deste Organismo de Estado, tanto do ponto de vista da prospecção mineira, como da caracterização do minério e do estudo das operações para o tornar comerciável.
Presentemente, com o enorme desenvolvimento que teve a tecnologia, já não constituirá problema insolúvel, em termos económicos, a lavra subterrânea, se tomarmos como exemplo o que está a ser feito na Mina de Malmetberg na Suécia, onde as operações, no fundo da Mina, são comandadas à distância, com emprego de um número reduzido de operários, bem protegidos da ambiente do interior.
Julgo oportuno reanalisar este candente tema, após conhecimento da consistência da hipótese de se estar em presença de um gigantesco jazigo de que se conhece apenas a “ponta do iceberg”.
Frequentava então o Liceu de Alexandre Herculano do Porto. Na disciplina de Ciências Naturais, era adoptado o livro de Mineralogia e Geologia de Celestino Maia e Filinto Costa e nele era referido o jazigo de Moncorvo com uma grandeza tal que um prestigiado técnico espanhol, (julgo ter sido citado Hernandez Sampelayo), o considerara como constituindo a reserva de ferro da Europa.
Não existiria, portanto, problema de reservas para sua exploração.
Quando, em 1964, assumi as funções de Chefe do Serviço de Prospecção do SFM, não estava nos programas do SFM definir, com exactidão, o montante das reservas.
A exploração, a um ritmo adequado às imensas reservas, estava sobretudo dependente da possibilidade de transportar o minério, em termos económicos para a Siderurgia Nacional, já instalada no Seixal desde 1960, ou para sua exportação.
Duas opções estavam em estudo: a via fluvial e marítima e a via férrea. A primeira parecia ter mais adeptos e, por isso, mas não só, se prepararam as eclusas no Rio Douro, para o tornar navegável a embarcações mineraleiras, que possibilitassem o transporte, nas quantidades previsíveis para um empreendimento rendível.
Parecia não haver preocupação quanto às características do minério. O seu baixo teor de ferro e o elevado teor de fósforo, que o tornavam de difícil comercialização nos mercados internacionais e impunham onerosos tratamentos para utilização na Siderurgias Nacional não estavam na primeira linha das preocupações.
Não se tentou aproveitar a capacidade do sector de Microscopia de Minérios do Laboratório do SFM na determinação dos seus constituintes.
O Geólogo Dr. Orlando da Cruz Gaspar, então Chefe do Departamento de Microscopia de Minérios, tinha efectuado prolongado estágio, nesta matéria, junto do Professor Ramdohr, que então era considerado o maior especialista mundial em microscopia de minérios.
Os trabalhos que vinha realizando neste domínio creditavam-no como especialista internacionalmente reconhecido.
Porém, em 1968, o SFM estava prestando colaboração em matéria de geologia, para melhor definição da estrutura do jazigo.
Segundo projecto dos Geólogos A. Ribeiro e J. Almeida Rebelo foram executadas sondagens.
Uma das suas importantes conclusões foi a seguinte: O jazigo mergulha para sul, indicando existir uma parte oculta que pode ser muito importante.
Procurando confirmar esta hipótese, foi pedida a intervenção do Serviço de Prospecção sob minha chefia, para aplicação de técnicas geofísicas.
Para avaliar da eficácia dos métodos gravimétrico e magnético, neste ambiente geológico, decidi que fossem aplicadas ambas as técnicas em 4 perfis com, extensões variáveis de 1 a 2 km, passando por zonas do jazigo onde tinham sido efectuadas sondagens.
Os perfis foram levantados em Dezembro de 1968 e revelaram um acentuado gradiente no mesmo sentido em que os estudos geológicos levavam a prever a continuidade do jazigo em profundidade.
Da apreciação deste gradiente, que se admite não ser de carácter regional, uma vez que tal não se torna evidente nas cartas gravimétricas publicadas, em 1965, pelo Instituto Geográfico e Cadastral, é legítimo formular a hipótese de estarmos em presença de um jazigo de minério magnetítico, de muito maiores dimensões do que poderiam sugerir os dados existentes à superfície.
O que à superfície se revela será apenas um resíduo do que ficou da erosão de uma espessa formação ferrífera que mergulha para sul, oculta sob os sedimentos suprajacentes
Afigurou-se-me legítimo formular a hipótese de que a sua grandeza possa equiparar-se à dos gigantescos jazigos suecos de Kiruna, Malmberget e Luasavaara.
Em relatórios vários, fui salientando estes resultados e, no respeitante ao 3.º trimestre de 1969, propus a realização de um furo de sonda para investigar tal hipótese.
Nas reuniões da Comissão de Fomento realizadas em Lisboa, em 29 e 30 de Setembro de 1969, de novo, chamei a atenção para a importância destes resultados e para a conveniência de fazer um furo de sonda para investigar a sua consistência.
Fui de parecer de que se não justificaria a imediata cobertura de vasta área, por aquelas técnicas, até porque isso iria atrasar outros programas que se encontravam em curso na Faixa Piritosa Alentejana, em fase muito encorajante, que iria dar lugar à descoberta do já famoso jazigo de Neves-Corvo. Também não considerava viável a criação de uma equipa de gravimetria na 2.ª Brigada de Prospecção, pelos motivos que expus nos parágrafos finais do post N.º 28.
O Director-Geral de Minas discordou da execução desta sondagem, considerando que o jazigo conhecido já era suficientemente grande, não se colocando, portanto, a necessidade de aumentar as suas reservas, cuja extracção iria exigir lavra subterrânea profunda.
Perdeu-se assim a oportunidade de conhecer uma provável parcela do jazigo que até poderia conter minério de melhor qualidade e poderia permitir projectos de maior vulto, susceptíveis de captar o interesse de grupos empresariais estrangeiros para “joint ventures”, que garantissem a comercialização do minério.
O centro mineiro de Moncorvo teve uma vida atribulada, com intervenções de técnicos nacionais e estrangeiros e com o empenhamento de sucessivos Governos que, ora aprovavam planos grandiosos, ora se mostravam reticentes em dar sequência a ambiciosos projectos.
Quando a Siderurgia Nacional ainda tinha em funcionamento um alto-forno, chegou a estar prevista a instalação de um segundo e até de um terceiro, com base na utilização do minério de Moncorvo. E esteve ainda prevista a instalação de uma siderurgia em Sines, inicialmente com um alto-forno e com um segundo, anos mais tarde.
Em resultado do mau uso das liberdades instituídas após a Revolução de Abril de 1974, a que me referirei em próximo post, deixei de ter conhecimento interno da evolução dos estudos no jazigo de Moncorvo.
Foi através do noticiário de jornais e revistas nacionais e estrangeiras que me mantive informado do que se passava em Moncorvo e na Siderurgia Nacional. Das muitas informações que fui colecionando, ao longo dos anos, vou aproveitar as que se me afiguram mais representativas da evolução do projecto de Moncorvo.
Em 27-6-1978, vi publicada no Jornal de Notícias do Porto a seguinte notícia:
Revelações sensacionais de Nuno Abecassis: Portugal vai ser o único país europeu auto-suficiente em minérios de ferro, e mais do que isso, exportador do referido minério, o que significa que entramos na era dos países donos do aço – anunciou o Secretário de Estado das Indústrias Extractiva e Transformadoras, eng.º Nuno Abecassis, no encerramento do 1.º Encontro Nacional de Quadros Socio-Profissionais do CDS. Reportava-se Abecassis ao minério de Moncorvo, com riquezas enormes ainda não exploradas, por se pensar que “os teores de fósforo não podiam ser reduzidos”. Todavia – disse – há cerca de 15 dias, foram obtidos resultados pré-industriais que nos mostram que esses teores podem ser reduzidos aos níveis convenientes.
Em 2-9-1978 o Expresso, acerca do “Projecto Mineiro de Moncorvo”, salientava, com o sub-título ”Viabilidade (ainda) em estudo até ao fim de 1979 não impede “esquema preliminar de trabalhos”, o empenhamento de três membros do II Governo Constitucional (Carlos Melancia, Ministro da Indústria e Tecnologia, Krus Abecassis, Secretário de Estado das Indústrias Extractivas e Transformadoras e Sousa Gomes Ministro da Habitação e das Obras Públicas) nos problemas de Moncorvo e da Siderurgia Nacional.
E em 28-10-1978 também o Expresso dava conhecimento de que um: Grupo sueco estava a estudar a viabilidade do projecto mineiro de Moncorvo. Salientava que a firma sueca que liderava o Grupo seleccionado (a Lkab-International) pertencia ao Grupo estatal Lkab, que desenvolvia múltiplas actividades no sector mineiro, nomeadamente nos domínios de “engineering”, da prospecção e desenvolvimento de actividades de investigação e industriais nas áreas de minérios metálicos e não metálicos. Lembrava que, através das suas unidades de exploração de Kiruna, Spavaraara e Malmberget, a Lkab produzia mais de 30 milhões de toneladas anuais de minério de ferro (sob a forma de “lumping”, finos e peletes), o que colocava o grupo no primeiro lugar entre os produtores europeus e entre os cinco primeiros a nível mundial. O grupo era, portanto, especialmente credenciado para a resolução de problemas de concentração devidos à ocorrência de fósforo e ao desenvolvimento do processo de peletização.
Em Abril de 1979, a conceituada Revista “Engineering and Mining Journal”, noticiava que o projecto, há longo tempo na situação de “pára-arranca”, para pôr em exploração o jazigo de minério de ferro de baixo teor de Moncorvo, foi arquivado até ao fim do ano, pelo menos. O problema do fósforo continuava em estudo. Considerava que, mesmo que resolvido, teria que haver uma produção da ordem dos 3 milhões de toneladas/ano, o que a indústria de aço nacional não absorve. O minério de Moncorvo, com um teor de 35-40% de ferro, teria dificuldade em ser colocado nos mercados internacionais.
Em 19-9-1980, o semanário “O Jornal” publicou a seguinte notícia: ”Governo da AD trava projecto de Moncorvo. A aprovação do projecto das Minas de ferro de Moncorvo e a indispensável garantia de financiamento parece ter caído num impasse. Meios ligados à indústria extractiva não acreditam que o projecto tenha sido abandonado, mas a verdade é que a respectiva aprovação por parte do Governo, embora há muito esperada, ainda não se verificou.
Em 31-10-1981, noticía o Expresso: Plano Siderúrgico Nacional. 70 milhões de contos ao rubro. O Expresso apurou, de fonte bem colocada no Ministério das Finanças e do Plano, que a Ferrominas vai parar. Nem Morais Leitão nem João Salgueiro assinaram o despacho autorizando a Ferrominas e a Siderurgia Nacional a movimentarem as dotações de capital previstas para estas duas empresas no OGE deste ano.
E em 7-11-1981, é o Jornal de Notícias do Porto a informar: Minério de Moncorvo vai ser “enterrado”? CT de Ferrominas mostra preocupação pelo futuro.
Em 1-6-1984 noticiava o Jornal de Notícias do Porto: Plano Siderúrgico congelado e corte na expansão da Quimigal. Após análise do Plano Siderúrgico Nacional, foi decidido não o aprovar, na sua forma original, adiando o aproveitamento dos minérios de Moncorvo e a construção de novas unidades industriais e concentrando todos os esforços na modernização da unidade do Seixal.
Esta foi a série de acontecimentos que culminram com o encerramento não só das Minas de Moncorvo, mas também da Siderurgia Nacional.
Este clamoroso insucesso, era previsível, perante a indisciplina verificada na sucessão das diferentes fases do projecto. De facto, não tinha havido o cuidado elementar de só passar a uma fase mais avançada, quando as conclusões dos estudos, na fase em curso, tal autorizassem.
Ocorre-me hoje perguntar:
Teria o projecto de aproveitamento do minério de ferro de Moncorvo tido concretização como grande pólo de desenvolvimento de uma região do interior do País, se se tivesse dado cumprimento ao projecto de sondagem, oportunamente apresentado?
Talvez tenha tido razão quem premonitoriamente classificou o jazigo de Moncorvo como “ a reserva de ferro da Europa”.
O SFM esteve preparado para se encarregar de dar cabal sequência a este projecto. Lamentável foi que, por total incompreensão da sua real dimensão, da parte de dirigentes que ascenderam aos seus cargos, não por competência, mas por considerações de ordem política ou por compadrio, se tivessem desperdiçado as capacidades deste Organismo de Estado, tanto do ponto de vista da prospecção mineira, como da caracterização do minério e do estudo das operações para o tornar comerciável.
Presentemente, com o enorme desenvolvimento que teve a tecnologia, já não constituirá problema insolúvel, em termos económicos, a lavra subterrânea, se tomarmos como exemplo o que está a ser feito na Mina de Malmetberg na Suécia, onde as operações, no fundo da Mina, são comandadas à distância, com emprego de um número reduzido de operários, bem protegidos da ambiente do interior.
Julgo oportuno reanalisar este candente tema, após conhecimento da consistência da hipótese de se estar em presença de um gigantesco jazigo de que se conhece apenas a “ponta do iceberg”.
segunda-feira, 27 de abril de 2009
66 – A insensibilidade dos dirigentes da DGM e do SFM perante o aproveitamento das riquezas minerais da região de Braçal –Talhadas
Em 17-10-1974, conforme já tinha previsto na informação de 15-7-1974, a que se reporta o post anterior, apresentei projecto da sondagem N.º 1 do Cabeço do Telégrafo, para início de investigação de um alinhamento de pronunciadas anomalias geoquímicas de chumbo e zinco, que se desenvolve na direcção W-E, por extensão superior a 1 km, na imediata proximidade do jazigo filoniano do Braçal.
Este alinhamento é sugestivo de corresponder a novo jazigo filoniano com predomínio de mineralização plumbífera.
Não me foi dado conhecimento de despacho superior sobre este projecto, ao qual nunca foi dada execução pela Divisão de Sondagens do SFM.
No entanto, em reunião realizada em Lisboa, em 1976, com o objectivo de analisar a distribuição das sondas do SFM onde estiveram presentes o Director-Geral, os Chefes do 1.º e do 4.º Serviço, o Chefe da Divisão de Sondagens e um Agente Técnico da mesma Divisão e ainda um Geólogo da 1.ª Brigada de Prospecção, foi declarado pelo Chefe da Divisão de Sondagens que tivera sondas paradas e pessoal sondador ocupado em tarefas secundárias, porque não havia sondagens projectadas para executar!!!.
Ora o projecto da sondagem N.º 1 tem a data de 17-10-1974.
Então o Director-Geral, sem me informar qual o despacho dado ao projecto, informou, uma vez mais, o seu “pouco entusiasmo”pela região, porque, em sua opinião, os filões não têm interesse e, nas pirites do Alentejo, se contem todo o chumbo, zinco e cobre de que o País precisa, não só para prover às necessidades internas, mas também para exportar.
Sem contestar o interesse das pirites do Alentejo – em cujas importantes descobertas tive, aliás, uma boa quota-parte de contribuição, podendo-me até orgulhar de ter sido o primeiro funcionário dentro da Direcção-Geral de Minas a chamar a atenção para tão grande riqueza nacional e para a conveniência de se proceder a estudos, com vista ao seu tratamento metalúrgico no País, não pude deixar de discordar do abandono a que o Senhor Director-Geral pretendeu votar outras possíveis riquezas minerais, até porque a generalidade das pessoas não está convenientemente informada da viabilidade económica actual do tratamento previsto para o aproveitamento integral dos constituintes das pirites alentejanas.
Citei, então, exemplos de nações muito mais desenvolvidas que a nossa, que não desdenhavam aproveitar jazigos de pequenas dimensões, até para um desenvolvimento regional equilibrado, embora dispusessem de jazigos de grandes dimensões, à escala mundial.
Referi o caso da Suécia, que, embora explorando os enormes jazigos de ferro do distrito de Kiruna – Malmberget, que contêm reservas certas de cerca de 3 000 milhões de toneladas de minério de ferro, a grande mina de cobre de Aitik, a mina de Laisvall, que é a maior reserva de minério de chumbo da Europa, não deixa de aproveitar jazigos pequenos e relativamente pobres, tais como os de ferro de Risbergsfaltet, Blottberget, Ragsberg, Vintjarn e Ramhall e o de chumbo de Falun (V. “Industrie Minérale” de Fevereiro de 1974).
Ainda em recente publicação, o Director-Geral tivera ocasião de manifestar o seu estranho parecer, ao escrever, a respeito dos minérios de chumbo:
“ Em nossa opinião, na actual conjuntura, são diminutas, para não dizer mesmo nulas, as possibilidades económicas da maior parte dos nossos jazigos de chumbo e zinco, do tipo filoniano, que integram a faixa de sulfuretos entre nós e durante muito tempo consideradas as mais representativas do potencial destes metais”.
Disse ao Senhor Director-Geral que ele deveria ter consciência de que as teorias negativistas são sempre muito perigosas,
Aliás esta sua recente opinião divergia totalmente da que manifestara no passado sobre os jazigos do Braçal (V. transcrição de seu artigo “A riqueza da indústria extractiva metropolitana” apresentada no post anterior)
A título de curiosidade, revelo que, tendo sido convidado, pela Universidade de Aveiro, para colaborar num Seminário Internacional de Geoquímica, que iria realizar-se em 30-6-1978, aceitei o convite e ali descrevi alguns dos principais resultados das prospecções realizadas na Faixa Metalífera da Beira Litoral, que abrange a região de Braçal – Talhadas.
Um dos casos que mais interesse suscitou foi o expressivo alinhamento de anomalias de chumbo na área do Cabeço do Telégrafo.
Um geólogo estrangeiro, que assistiu à palestra, interrogou-me sobre resultados de sondagens que julgava terem sido efectuadas para investigar estas anomalias e eu tive alguma dificuldade para lhe explicar a atitude negativista do Senhor Director-Geral, relativamente à importância dos filões, na indústria mineira.
Este alinhamento é sugestivo de corresponder a novo jazigo filoniano com predomínio de mineralização plumbífera.
Não me foi dado conhecimento de despacho superior sobre este projecto, ao qual nunca foi dada execução pela Divisão de Sondagens do SFM.
No entanto, em reunião realizada em Lisboa, em 1976, com o objectivo de analisar a distribuição das sondas do SFM onde estiveram presentes o Director-Geral, os Chefes do 1.º e do 4.º Serviço, o Chefe da Divisão de Sondagens e um Agente Técnico da mesma Divisão e ainda um Geólogo da 1.ª Brigada de Prospecção, foi declarado pelo Chefe da Divisão de Sondagens que tivera sondas paradas e pessoal sondador ocupado em tarefas secundárias, porque não havia sondagens projectadas para executar!!!.
Ora o projecto da sondagem N.º 1 tem a data de 17-10-1974.
Então o Director-Geral, sem me informar qual o despacho dado ao projecto, informou, uma vez mais, o seu “pouco entusiasmo”pela região, porque, em sua opinião, os filões não têm interesse e, nas pirites do Alentejo, se contem todo o chumbo, zinco e cobre de que o País precisa, não só para prover às necessidades internas, mas também para exportar.
Sem contestar o interesse das pirites do Alentejo – em cujas importantes descobertas tive, aliás, uma boa quota-parte de contribuição, podendo-me até orgulhar de ter sido o primeiro funcionário dentro da Direcção-Geral de Minas a chamar a atenção para tão grande riqueza nacional e para a conveniência de se proceder a estudos, com vista ao seu tratamento metalúrgico no País, não pude deixar de discordar do abandono a que o Senhor Director-Geral pretendeu votar outras possíveis riquezas minerais, até porque a generalidade das pessoas não está convenientemente informada da viabilidade económica actual do tratamento previsto para o aproveitamento integral dos constituintes das pirites alentejanas.
Citei, então, exemplos de nações muito mais desenvolvidas que a nossa, que não desdenhavam aproveitar jazigos de pequenas dimensões, até para um desenvolvimento regional equilibrado, embora dispusessem de jazigos de grandes dimensões, à escala mundial.
Referi o caso da Suécia, que, embora explorando os enormes jazigos de ferro do distrito de Kiruna – Malmberget, que contêm reservas certas de cerca de 3 000 milhões de toneladas de minério de ferro, a grande mina de cobre de Aitik, a mina de Laisvall, que é a maior reserva de minério de chumbo da Europa, não deixa de aproveitar jazigos pequenos e relativamente pobres, tais como os de ferro de Risbergsfaltet, Blottberget, Ragsberg, Vintjarn e Ramhall e o de chumbo de Falun (V. “Industrie Minérale” de Fevereiro de 1974).
Ainda em recente publicação, o Director-Geral tivera ocasião de manifestar o seu estranho parecer, ao escrever, a respeito dos minérios de chumbo:
“ Em nossa opinião, na actual conjuntura, são diminutas, para não dizer mesmo nulas, as possibilidades económicas da maior parte dos nossos jazigos de chumbo e zinco, do tipo filoniano, que integram a faixa de sulfuretos entre nós e durante muito tempo consideradas as mais representativas do potencial destes metais”.
Disse ao Senhor Director-Geral que ele deveria ter consciência de que as teorias negativistas são sempre muito perigosas,
Aliás esta sua recente opinião divergia totalmente da que manifestara no passado sobre os jazigos do Braçal (V. transcrição de seu artigo “A riqueza da indústria extractiva metropolitana” apresentada no post anterior)
A título de curiosidade, revelo que, tendo sido convidado, pela Universidade de Aveiro, para colaborar num Seminário Internacional de Geoquímica, que iria realizar-se em 30-6-1978, aceitei o convite e ali descrevi alguns dos principais resultados das prospecções realizadas na Faixa Metalífera da Beira Litoral, que abrange a região de Braçal – Talhadas.
Um dos casos que mais interesse suscitou foi o expressivo alinhamento de anomalias de chumbo na área do Cabeço do Telégrafo.
Um geólogo estrangeiro, que assistiu à palestra, interrogou-me sobre resultados de sondagens que julgava terem sido efectuadas para investigar estas anomalias e eu tive alguma dificuldade para lhe explicar a atitude negativista do Senhor Director-Geral, relativamente à importância dos filões, na indústria mineira.
domingo, 26 de abril de 2009
65 – A atitude do SFM perante o encerramento das Minas do Braçal. Continuação 3
Continuação da informação que prestei ao Director do SFM, em 15-7-1974, em cumprimento do seu despacho de 10-7-1974, a propósito de um documento sobre o encerramento das Minas de chumbo do Braçal, que poderia ter sido evitado.
“ 3.2.2 – Resultados obtidos
Da aplicação do método geoquímico, resultou já a definição de anomalias em numerosas áreas.
Destas, estão seleccionadas 9, para investigação por outras técnicas.
A primeira, a que já nos referimos, é a do Cabeço do Telégrafo e parece corresponder a um estrutura filoniana com mineralização plumbífera, de extensão superior a 1 km.
Prevê-se a apresentação de projectos de sondagens, para esta área.
As restantes dispersam-se por toda a região, desde S. João da Madeira até à Mealhada e não houve ainda possibilidade de, sobre elas, executar estudos de pormenor, para determinar o seu real interesse.
Há, porém, razões para esperar que algumas delas possam corresponder a concentrações minerais exploráveis.
Para um conhecimento mais concreto dos resultados, sugere-se a consulta do relatório “Região de Braçal – Talhadas. Sua potencialidade mineira”, no qual se sintetizam em 45 mapas, na sua maior parte à escala 1:25 000, os resultados até 31-12-1972.
A actividade posterior a esta data consta de outros mapas que ainda não figuram em relatórios, mas que poderão fornecer-se, se se julgar conveniente.
Os seus resultados são, igualmente, de muito interesse.
4 – O encerramento das Minas do Braçal. Suas causas
Sobre este tema, poderá pronunciar-se, com mais autoridade, a Circunscrição Mineira do Norte, como, aliás, sugere o Senhor Director do Serviço de Fomento Mineiro.
Afigura-se-nos, no entanto, pertinente, algo do que escreveu, em 1959, o Engenheiro Soares Carneiro, então Chefe daquela Circunscrição Mineira e actual Director-Geral de Minas e Serviços Geológicos, a propósito dos jazigos de chumbo metropolitanos, no capítulo 2.7.1 do seu estudo sobre “A riqueza da indústria extractiva metropolitana”:
“ …
Actualmente a situação é trágica, praticamente tudo está paralisado. As cotações desceram a zonas abissais, mergulhando em irremediável submarginalidade todas as nossas minas (noutro capítulo se verá como isto acontece, apesar do consumo mundial de chumbo aumentar incessantemente).
À semelhança do que se fez com as minas de volfrâmio, tentou-se uma política de subsídio, aqui falhada por tenaz oposição de importadores do metal, ansiosos de se aproveitarem da avassaladora crise mundial que o atingiu. Esta atitude absolutamente coerente com a ética comercial, correcta no exercício dos direitos de cada um, decorrentes de uma política de liberalismo, aqui pouco esclarecida, é um atitude tocada de uma certa infidelidade aos melhores interesses nacionais, até às directrizes da O.E.C.E.
Negando-se o bem pouco que se pedia (uma pequeníssima taxa fiscal sobre o chumbo importado era o suficiente para garantir as condições mínimas de rentabilidade das minas mais aptas) corre-se o risco de perder-se quase todo o nosso património mineiro de chumbo.
De resto, não seríamos os primeiros a tomar tais medidas de protecção, pois quase todos o fizeram, de modo escandaloso os E.U.A., que, em plena crise, mantiveram cotações internas para aguentar uma produção nacional empolada, caríssima.
Nós apenas pretendíamos salvar as minas mais aptas, as de maior vitalidade, as melhores unidades de um exíguo quadro de produção bem precisado de incentivo, tão necessário para tentarmos minorar esta triste situação de insuficiência.
Avaliando-se a diferença entre a baixa do custo do chumbo importado e o benefício dela resultante, distribuído ao público consumidor de produtos baseados no metal há-de forçosamente duvidar-se se houve algum mérito económico-social para a grei por tão rígida medida disciplinar, quase sentença de morte aplicada às minas de chumbo (adiante tocaremos novamente no assunto).”
No capítulo 3.7 da mesma publicação, escreve ainda Soares Carneiro, a propósito das perspectivas dos mercados dos minérios de chumbo e zinco:
“…
No que nos respeita, é nossa opinião ser de puro interesse nacional, enquanto a solução internacional não se impuser, aguentar algumas das nossas poucas minas de chumbo, as mais aptas, capazes de trabalharem com cotações normais.
As despesas seriam mínimas, talvez diluídas de modo insensível pelos mais fortes no comércio e indústria desses metais. Os benefícios, tanto económicos como sociais, seriam bem grandes, maiores, sem dúvida, que os sacrifícios (foram já realizados pormenorizados estudos sobre o assunto).
É nossa opinião que as nossas melhores minas de chumbo poderiam trabalhar a cotações da ordem dos 10$00/kg de metal. Por tão pouco, não valerá a pena ressuscitá-las?”
Conclui-se, pois, que o encerramento das Minas do Braçal não foi provocado por declarada escassez de reservas minerais, mas por baixa de cotação do chumbo, durante demasiados anos e ausência de protecção oficial, em épocas de crise.
5 – As possibilidades de serem retomadas as explorações mineiras na região de Braçal – Talhadas
O senhor Joel de Macedo Marques, provavelmente traduzindo o sentir da população de Sever do Vouga, manifesta o desejo de que as Minas do Braçal entrem, de novo, em actividade.
Crê que a exploração é possível porque, segundo afirma, os estudos do Serviço de Fomento Mineiro, confirmados pelo actual responsável técnico das Minas do Braçal, demonstraram que o filão destas Minas é dos mais ricos do País ou mesmo da Europa.
Não sabemos em que se apoia o Senhor Joel Marques para tirar tais conclusões dos estudos do Serviço de Fomento Mineiro.
A realidade é algo diferente.
Da documentação que conseguimos consultar sobre as Minas do Braçal, concluímos que o jazigo, sobre que incidiram os trabalhos de exploração, é ainda muito mal conhecido.
Não há plantas geológicas dos vários pisos, onde estejam figurados os filões, com indicação das respectivas possanças e teores de Pb e Ag, a intervalos regulares (por exemplo, metro a metro), os terrenos encaixantes, falhas, etc.
Não há perfis geológicos transversais.
E não conhecemos, também, perfis longitudinais, onde se demarquem os blocos considerados em cálculos de reservas certas e prováveis.
Deduzimos, pois, que o jazigo de Braçal – Malhada – Coval da Mó não está reconhecido.
Ignoram-se quais as suas reservas e respectivos teores.
Não é possível projectar, com seriedade, uma exploração mineira, sem conhecimento, tão exacto quanto possível, do que se pretende explorar.
O que há, portanto, a fazer, primeiramente, com vista ao aproveitamento das eventuais riquezas minerais da região de Braçal – Talhadas, é proceder ao seu reconhecimento.
Temos a considerar os casos seguintes:
a) Filões conhecidos, que foram objecto de exploração mais ou menos intensa e que podem ainda conter apreciáveis reservas, tais como Braçal, Malhada e Coval da Mó:
b) Filões de que se conhecem alguns indícios e que apenas foram objecto de rudimentares trabalhos de pesquisa;
c) Filões ainda desconhecidos, susceptíveis de detecção, pelos modernos métodos geofísicos e geoquímicos;
d) Possíveis formações estratóides contendo mineralizações disseminadas, de baixo teor.
No caso da alínea a) – filões conhecidos que foram objecto de exploração mais ou menos intensa – o reconhecimento de novas reservas exigirá a execução de trabalhos mineiros (poços, galerias, etc.) sobretudo a profundidades maiores do que as já atingidas.
Ignoramos se ao Serviço de Fomento Mineiro foi apresentada a possibilidade de se encarregar, através do seu Departamento de Trabalhos Mineiros (2.º Serviço) deste reconhecimento, antes de consumado o encerramento das Minas do Braçal e de retirado todo o seu equipamento.
Agora, tudo será muito mais difícil e dispendioso.
Mas a hipótese é de considerar, com o peso que a região tiver no plano geral de actividades do Serviço de Fomento Mineiro.
Tratar-se-á de um empreendimento de vulto, que envolve importantes despesas e exige a participação activa de técnicos competentes.
Haverá, pois, que ponderar se, na actual conjuntura, ele terá justificação ou será sequer viável.
São bem conhecidas as actuais dificuldades de recrutamento de mão-de-obra, o seu mais elevado custo e a relutância crescente do pessoal mineiro em aceitar trabalhar em minas subterrâneas.
Temos sérias dúvidas de que os antigos mineiros, uma vez regressados dos países para onde emigraram, se disponham a trabalhar, de novo, nos poços e nas galerias das Minas do Braçal, como parece admitir o Senhor Joel Marques.
De qualquer modo, não seria empreendimento único no Serviço de Fomento Mineiro.
A Mina de Aparis, em Barrancos, é um caso semelhante, em que os estudos do Serviço de Fomento Mineiro permitiram definir reservas suficientes para que uma Companhia privada se interessasse pela sua exploração.
Esta mina está, presentemente, em actividade e supomos que a exploração é remuneradora.
É evidente que, se o Serviço de Fomento Mineiro quiser agora lançar-se no empreendimento do Braçal e em outros idênticos que venham a justificar-se, terá que considerar-se, muito seriamente, a revisão da sua Orgânica, porquanto a actual não se mostrou sequer capaz de manter o ritmo de actividade mineira que vigorava com a Orgânica anterior.
Há muito se fala na reforma das estruturas da Direcção-Geral de Minas, envolvendo, portanto, o Serviço de Fomento Mineiro.
Afigura-se-nos, porém, que se tem procurado diminuir a importância deste Serviço, para a economia do País.
Será através deste Serviço, quando devidamente estruturado, que poderão valorizar-se as riquezas minerais, que se crê poderem existir no território metropolitano português.
O que já se fez, nalguns sectores do Serviço de Fomento Mineiro, enfrentando dificuldades de vária ordem, pode considerar-se notável.
Mas muito mais poderá fazer-se, se se proceder à sua reorganização e se lhe facultarem meios materiais e humanos adequados aos objectivos em vista.
Um Serviço de Fomento Mineiro, apropriadamente desenvolvido, poderá ter até uma acção disciplinadora das actividades mineiras privadas, as quais, em muitos casos, decorrem em condições técnicas deficientes.
Os casos das alíneas b), c) e d) enquadram-se no âmbito das actividades do Departamento de Prospecção (1.º Serviço), a nosso cargo, desde Novembro de 1963.
Como já anteriormente referimos, temos vindo a cumprir, desde 1968, um programa de prospecção.
Dispomos, para tal, de uma reduzida equipa: um Colector e 4 a 5 assalariados, sob nossa directa orientação.
Os resultados desta actividade já foram descritos e constam, mais detalhadamente, do relatório “Região de Braçal – Talhadas. Sua potencialidade mineira”, elaborado em 31-12-1972, em cumprimento de despacho de 6-11-1972, do Senhor Director do Serviço de Fomento Mineiro, sobre ofício do Dr. Vale Guimarães, então Governador Civil de Aveiro.
Nesse despacho, havia sido levantada dúvida quanto à real potencialidade mineira da região de Braçal – Talhadas e mandado elaborar “relatório indicando o que se fez até agora, perspectivas e resultados, o que se projecta para o futuro, a fim de habilitar o Senhor Engenheiro Director do Serviço a propor ao Senhor Engenheiro Director-Geral a continuação ou paralisação dos trabalhos”.
O relatório procura demonstrar o interesse da região e termina pela apresentação de um programa que envolve levantamentos geológicos às escalas 1:5 000 e 1:25 000, investigações fotogeológicas, trabalhos diversos de prospecção geofísica e geoquímica, sondagens e outros trabalhos de pesquisa e reconhecimento, chamando a atenção para os meios materiais e humanos, que se tornarão necessários para seu cumprimento.
Tal programa não é, obviamente exequível, a curto prazo.
A sua duração será, no entanto, encurtada, se, por um lado, forem facultados ao 1.º Serviço mais e melhores meios de acção, sobretudo no que respeita a geologia e se, por outro lado, se aproveitar a iniciativa particular que mostre interesse em dar continuidade à actividade do Serviço de Fomento Mineiro, em áreas já por este Serviço valorizadas.
Deve informar-se que algumas Companhias estrangeiras manifestaram já interesse por esta região
Cito, por exemplo, o caso da Preussag, que tem explorado o bem conhecido jazigo de Rammelsberg, na Alemanha. Esta Companhia só não apresentou, em 1969, proposta concreta, por ter desanimado face às habituais demoras e incertezas que têm precedido a celebração de contratos com o Estado.
Posteriormente, outras Companhias estrangeiras, que também mostraram interesse pela área, abstiveram-se de apresentar propostas, em face do parecer de 22-2-1972 da Procuradoria Geral da República, interpretativo da Lei N.º 1994 de 13-4-1943 e do Decreto-Lei n.º 46 312 de 28-4-1965, segundo o qual ficou vedado outorgar a empresas estrangeiras, concessões para exploração de jazigos ou depósitos de substâncias úteis, a não ser que exista resolução em contrário do Conselho de Ministros, a qual só poderá ser dada para o sector.”
Nunca cheguei a conhecer os despachos que incidiram nesta minha informação, se é que ela mereceu alguma atenção dos dirigentes.
Os estudos na região prosseguiram, em circunstâncias que descreverei em futuros posts.
“ 3.2.2 – Resultados obtidos
Da aplicação do método geoquímico, resultou já a definição de anomalias em numerosas áreas.
Destas, estão seleccionadas 9, para investigação por outras técnicas.
A primeira, a que já nos referimos, é a do Cabeço do Telégrafo e parece corresponder a um estrutura filoniana com mineralização plumbífera, de extensão superior a 1 km.
Prevê-se a apresentação de projectos de sondagens, para esta área.
As restantes dispersam-se por toda a região, desde S. João da Madeira até à Mealhada e não houve ainda possibilidade de, sobre elas, executar estudos de pormenor, para determinar o seu real interesse.
Há, porém, razões para esperar que algumas delas possam corresponder a concentrações minerais exploráveis.
Para um conhecimento mais concreto dos resultados, sugere-se a consulta do relatório “Região de Braçal – Talhadas. Sua potencialidade mineira”, no qual se sintetizam em 45 mapas, na sua maior parte à escala 1:25 000, os resultados até 31-12-1972.
A actividade posterior a esta data consta de outros mapas que ainda não figuram em relatórios, mas que poderão fornecer-se, se se julgar conveniente.
Os seus resultados são, igualmente, de muito interesse.
4 – O encerramento das Minas do Braçal. Suas causas
Sobre este tema, poderá pronunciar-se, com mais autoridade, a Circunscrição Mineira do Norte, como, aliás, sugere o Senhor Director do Serviço de Fomento Mineiro.
Afigura-se-nos, no entanto, pertinente, algo do que escreveu, em 1959, o Engenheiro Soares Carneiro, então Chefe daquela Circunscrição Mineira e actual Director-Geral de Minas e Serviços Geológicos, a propósito dos jazigos de chumbo metropolitanos, no capítulo 2.7.1 do seu estudo sobre “A riqueza da indústria extractiva metropolitana”:
“ …
Actualmente a situação é trágica, praticamente tudo está paralisado. As cotações desceram a zonas abissais, mergulhando em irremediável submarginalidade todas as nossas minas (noutro capítulo se verá como isto acontece, apesar do consumo mundial de chumbo aumentar incessantemente).
À semelhança do que se fez com as minas de volfrâmio, tentou-se uma política de subsídio, aqui falhada por tenaz oposição de importadores do metal, ansiosos de se aproveitarem da avassaladora crise mundial que o atingiu. Esta atitude absolutamente coerente com a ética comercial, correcta no exercício dos direitos de cada um, decorrentes de uma política de liberalismo, aqui pouco esclarecida, é um atitude tocada de uma certa infidelidade aos melhores interesses nacionais, até às directrizes da O.E.C.E.
Negando-se o bem pouco que se pedia (uma pequeníssima taxa fiscal sobre o chumbo importado era o suficiente para garantir as condições mínimas de rentabilidade das minas mais aptas) corre-se o risco de perder-se quase todo o nosso património mineiro de chumbo.
De resto, não seríamos os primeiros a tomar tais medidas de protecção, pois quase todos o fizeram, de modo escandaloso os E.U.A., que, em plena crise, mantiveram cotações internas para aguentar uma produção nacional empolada, caríssima.
Nós apenas pretendíamos salvar as minas mais aptas, as de maior vitalidade, as melhores unidades de um exíguo quadro de produção bem precisado de incentivo, tão necessário para tentarmos minorar esta triste situação de insuficiência.
Avaliando-se a diferença entre a baixa do custo do chumbo importado e o benefício dela resultante, distribuído ao público consumidor de produtos baseados no metal há-de forçosamente duvidar-se se houve algum mérito económico-social para a grei por tão rígida medida disciplinar, quase sentença de morte aplicada às minas de chumbo (adiante tocaremos novamente no assunto).”
No capítulo 3.7 da mesma publicação, escreve ainda Soares Carneiro, a propósito das perspectivas dos mercados dos minérios de chumbo e zinco:
“…
No que nos respeita, é nossa opinião ser de puro interesse nacional, enquanto a solução internacional não se impuser, aguentar algumas das nossas poucas minas de chumbo, as mais aptas, capazes de trabalharem com cotações normais.
As despesas seriam mínimas, talvez diluídas de modo insensível pelos mais fortes no comércio e indústria desses metais. Os benefícios, tanto económicos como sociais, seriam bem grandes, maiores, sem dúvida, que os sacrifícios (foram já realizados pormenorizados estudos sobre o assunto).
É nossa opinião que as nossas melhores minas de chumbo poderiam trabalhar a cotações da ordem dos 10$00/kg de metal. Por tão pouco, não valerá a pena ressuscitá-las?”
Conclui-se, pois, que o encerramento das Minas do Braçal não foi provocado por declarada escassez de reservas minerais, mas por baixa de cotação do chumbo, durante demasiados anos e ausência de protecção oficial, em épocas de crise.
5 – As possibilidades de serem retomadas as explorações mineiras na região de Braçal – Talhadas
O senhor Joel de Macedo Marques, provavelmente traduzindo o sentir da população de Sever do Vouga, manifesta o desejo de que as Minas do Braçal entrem, de novo, em actividade.
Crê que a exploração é possível porque, segundo afirma, os estudos do Serviço de Fomento Mineiro, confirmados pelo actual responsável técnico das Minas do Braçal, demonstraram que o filão destas Minas é dos mais ricos do País ou mesmo da Europa.
Não sabemos em que se apoia o Senhor Joel Marques para tirar tais conclusões dos estudos do Serviço de Fomento Mineiro.
A realidade é algo diferente.
Da documentação que conseguimos consultar sobre as Minas do Braçal, concluímos que o jazigo, sobre que incidiram os trabalhos de exploração, é ainda muito mal conhecido.
Não há plantas geológicas dos vários pisos, onde estejam figurados os filões, com indicação das respectivas possanças e teores de Pb e Ag, a intervalos regulares (por exemplo, metro a metro), os terrenos encaixantes, falhas, etc.
Não há perfis geológicos transversais.
E não conhecemos, também, perfis longitudinais, onde se demarquem os blocos considerados em cálculos de reservas certas e prováveis.
Deduzimos, pois, que o jazigo de Braçal – Malhada – Coval da Mó não está reconhecido.
Ignoram-se quais as suas reservas e respectivos teores.
Não é possível projectar, com seriedade, uma exploração mineira, sem conhecimento, tão exacto quanto possível, do que se pretende explorar.
O que há, portanto, a fazer, primeiramente, com vista ao aproveitamento das eventuais riquezas minerais da região de Braçal – Talhadas, é proceder ao seu reconhecimento.
Temos a considerar os casos seguintes:
a) Filões conhecidos, que foram objecto de exploração mais ou menos intensa e que podem ainda conter apreciáveis reservas, tais como Braçal, Malhada e Coval da Mó:
b) Filões de que se conhecem alguns indícios e que apenas foram objecto de rudimentares trabalhos de pesquisa;
c) Filões ainda desconhecidos, susceptíveis de detecção, pelos modernos métodos geofísicos e geoquímicos;
d) Possíveis formações estratóides contendo mineralizações disseminadas, de baixo teor.
No caso da alínea a) – filões conhecidos que foram objecto de exploração mais ou menos intensa – o reconhecimento de novas reservas exigirá a execução de trabalhos mineiros (poços, galerias, etc.) sobretudo a profundidades maiores do que as já atingidas.
Ignoramos se ao Serviço de Fomento Mineiro foi apresentada a possibilidade de se encarregar, através do seu Departamento de Trabalhos Mineiros (2.º Serviço) deste reconhecimento, antes de consumado o encerramento das Minas do Braçal e de retirado todo o seu equipamento.
Agora, tudo será muito mais difícil e dispendioso.
Mas a hipótese é de considerar, com o peso que a região tiver no plano geral de actividades do Serviço de Fomento Mineiro.
Tratar-se-á de um empreendimento de vulto, que envolve importantes despesas e exige a participação activa de técnicos competentes.
Haverá, pois, que ponderar se, na actual conjuntura, ele terá justificação ou será sequer viável.
São bem conhecidas as actuais dificuldades de recrutamento de mão-de-obra, o seu mais elevado custo e a relutância crescente do pessoal mineiro em aceitar trabalhar em minas subterrâneas.
Temos sérias dúvidas de que os antigos mineiros, uma vez regressados dos países para onde emigraram, se disponham a trabalhar, de novo, nos poços e nas galerias das Minas do Braçal, como parece admitir o Senhor Joel Marques.
De qualquer modo, não seria empreendimento único no Serviço de Fomento Mineiro.
A Mina de Aparis, em Barrancos, é um caso semelhante, em que os estudos do Serviço de Fomento Mineiro permitiram definir reservas suficientes para que uma Companhia privada se interessasse pela sua exploração.
Esta mina está, presentemente, em actividade e supomos que a exploração é remuneradora.
É evidente que, se o Serviço de Fomento Mineiro quiser agora lançar-se no empreendimento do Braçal e em outros idênticos que venham a justificar-se, terá que considerar-se, muito seriamente, a revisão da sua Orgânica, porquanto a actual não se mostrou sequer capaz de manter o ritmo de actividade mineira que vigorava com a Orgânica anterior.
Há muito se fala na reforma das estruturas da Direcção-Geral de Minas, envolvendo, portanto, o Serviço de Fomento Mineiro.
Afigura-se-nos, porém, que se tem procurado diminuir a importância deste Serviço, para a economia do País.
Será através deste Serviço, quando devidamente estruturado, que poderão valorizar-se as riquezas minerais, que se crê poderem existir no território metropolitano português.
O que já se fez, nalguns sectores do Serviço de Fomento Mineiro, enfrentando dificuldades de vária ordem, pode considerar-se notável.
Mas muito mais poderá fazer-se, se se proceder à sua reorganização e se lhe facultarem meios materiais e humanos adequados aos objectivos em vista.
Um Serviço de Fomento Mineiro, apropriadamente desenvolvido, poderá ter até uma acção disciplinadora das actividades mineiras privadas, as quais, em muitos casos, decorrem em condições técnicas deficientes.
Os casos das alíneas b), c) e d) enquadram-se no âmbito das actividades do Departamento de Prospecção (1.º Serviço), a nosso cargo, desde Novembro de 1963.
Como já anteriormente referimos, temos vindo a cumprir, desde 1968, um programa de prospecção.
Dispomos, para tal, de uma reduzida equipa: um Colector e 4 a 5 assalariados, sob nossa directa orientação.
Os resultados desta actividade já foram descritos e constam, mais detalhadamente, do relatório “Região de Braçal – Talhadas. Sua potencialidade mineira”, elaborado em 31-12-1972, em cumprimento de despacho de 6-11-1972, do Senhor Director do Serviço de Fomento Mineiro, sobre ofício do Dr. Vale Guimarães, então Governador Civil de Aveiro.
Nesse despacho, havia sido levantada dúvida quanto à real potencialidade mineira da região de Braçal – Talhadas e mandado elaborar “relatório indicando o que se fez até agora, perspectivas e resultados, o que se projecta para o futuro, a fim de habilitar o Senhor Engenheiro Director do Serviço a propor ao Senhor Engenheiro Director-Geral a continuação ou paralisação dos trabalhos”.
O relatório procura demonstrar o interesse da região e termina pela apresentação de um programa que envolve levantamentos geológicos às escalas 1:5 000 e 1:25 000, investigações fotogeológicas, trabalhos diversos de prospecção geofísica e geoquímica, sondagens e outros trabalhos de pesquisa e reconhecimento, chamando a atenção para os meios materiais e humanos, que se tornarão necessários para seu cumprimento.
Tal programa não é, obviamente exequível, a curto prazo.
A sua duração será, no entanto, encurtada, se, por um lado, forem facultados ao 1.º Serviço mais e melhores meios de acção, sobretudo no que respeita a geologia e se, por outro lado, se aproveitar a iniciativa particular que mostre interesse em dar continuidade à actividade do Serviço de Fomento Mineiro, em áreas já por este Serviço valorizadas.
Deve informar-se que algumas Companhias estrangeiras manifestaram já interesse por esta região
Cito, por exemplo, o caso da Preussag, que tem explorado o bem conhecido jazigo de Rammelsberg, na Alemanha. Esta Companhia só não apresentou, em 1969, proposta concreta, por ter desanimado face às habituais demoras e incertezas que têm precedido a celebração de contratos com o Estado.
Posteriormente, outras Companhias estrangeiras, que também mostraram interesse pela área, abstiveram-se de apresentar propostas, em face do parecer de 22-2-1972 da Procuradoria Geral da República, interpretativo da Lei N.º 1994 de 13-4-1943 e do Decreto-Lei n.º 46 312 de 28-4-1965, segundo o qual ficou vedado outorgar a empresas estrangeiras, concessões para exploração de jazigos ou depósitos de substâncias úteis, a não ser que exista resolução em contrário do Conselho de Ministros, a qual só poderá ser dada para o sector.”
Nunca cheguei a conhecer os despachos que incidiram nesta minha informação, se é que ela mereceu alguma atenção dos dirigentes.
Os estudos na região prosseguiram, em circunstâncias que descreverei em futuros posts.
sábado, 25 de abril de 2009
64 – A atitude do SFM perante o encerramento das Minas do Braçal. Continuação 2
A seguir, transcrevo o essencial da informação que me foi pedida sobre questões levantadas por um munícipe de Sever do Vouga, relacionadas com o encerramento das Minas do Braçal.
1 – Considerações preliminares
….
2 – As potencialidades minerais da região de Braçal – Talhadas
As potencialidades minerais de uma região definem-se, quer através do conhecimento da sua geologia, quer através de indícios de mineralizações.
No que respeita à região de Braçal – Talhadas, devemos reconhecer que é ainda muito imperfeito o conhecimento da sua geologia.
Faltam ainda os levantamentos de base, à escala 1:25 000, que são das atribuições dos Serviços Geológicos.
Conforme assinalámos, a pág. 6 do nosso relatório “Região de Braçal – Tachadas. Sua potencialidade mineira” apresentado em 31-12-1972, também o Serviço de Prospecção não tem podido destacar geólogos para esta área, porquanto os raros integrados na sua equipa técnica estão já suficientemente ocupados em programas de maior prioridade.
E julgámos, então, de interesse que se remediasse essa lacuna, destacando novos geólogos para o Serviço de Prospecção e proporcionando-lhes condições para poderem realizar trabalho adequado ao objectivo pretendido.
Infelizmente, porém, há muito tempo que não são destacados para o 1.º Serviço, quaisquer geólogos, o que se nos afigura estranho.
Apesar destas insuficiências, bastará o conhecimento da região de Braçal – Talhadas (e, por esta designação, temos entendido uma faixa de mais de 60 km de extensão norte – sul e largura variável, mas ultrapassando, por vezes 40 km, desde as proximidades de S. João da Madeira até perto da Mealhada), relativamente ao grande acidente tectónico, que marca, a sul de Albergaria-a-Velha, a separação entre as formações da Meseta e as da Orla Ceno-Mesozoica, e que é salientado a norte daquela vila, por uma formação a que o Engenheiro Carlos Ribeiro em meados do século passado, designou por “grande filão metalífero que passa ao nascente de Albergaria-a-Velha e de Oliveira de Azeméis”, para a dever considerar com potencialidade para jazigos minerais.
Tem-se verificado, em todo o mundo, que as proximidades de grandes acidentes tectónicos, sobretudo nas zonas de intersecção de falhas importantes, são situações preferenciais para a ocorrência de jazigos minerais.
Daí a razão de nos ter sido chamada a atenção para este acidente próximo das Minas do Braçal, quando da nossa participação em Congresso de Vulcanologia e Metalogenia associada, que teve lugar na Roménia, em Setembro de 1973.
Mas, se no que respeita a geologia, o conhecimento é imperfeito, abundam as indicações concretas de mineralizações.
Conhecem-se manifestações de minerais de cobre, chumbo, zinco, arsénio e tungsténio.
Regista-se, também, o aparecimento acidental de minerais de níquel e de cobalto.
Minérios de cobre, chumbo, arsénio e tungsténio foram extraídos do próprio “ filão metalífero da Beira”, em minas que nunca atingiram grande desenvolvimento, não obstante documentos antigos citarem um caso (Pindelo) de “prodigiosa acumulação de pirite” e teores de cobre estimados em 5%.
Os trabalhos não passaram, na maioria das minas de uma fase incipiente de exploração e, provavelmente, foram conduzidos com deficiente orientação técnica.
As explorações de maior importância tiveram lugar em filões estreitos (possanças muitas vezes inferiores a 1 m), podendo, contudo atingir 6 m e mesmo mais, que ocorrem em profusão na área de Sever do Vouga e Albergaria-a-Velha, segundo direcções variáveis, mas, em regra, vizinhas de E-W, isto é, transversais às formações xistentas encaixantes.
Estes filões têm, em muitos casos extensões superiores a 1 km e a mineralização útil encontra-se em colunas cuja lei de distribuição se desconhece ainda.
….
“Apesar da abundância de indícios minerais, só se localizaram até ao presente, concentrações de volume suficiente para justificarem explorações de importância nas Minas de “Telhadela”, "Palhal”, “Carvalhal”, “Braçal – Malhada – Coval da Mó”, “Talhadas” e “Pintor”.
As explorações atingiram no “Palhal” a profundidade de 400 m e, em “Braçal – Malhada”, “Telhadela” e “Pintor” ultrapassaram os 200 m.
Estão pois reunidas as condições para que a região de Braçal – Talhadas justifique criteriosos estudos com vista a procurar concretizar em explorações mineiras o que agora se apresenta apenas como potencialidades.
3 – A recente actividade mineira na região
3.1 – De empresas privadas
A Companhia Industrial e Agrícola do Braçal foi a última entidade privada que realizou trabalhos de exploração nas concessões de Braçal, Malhada e Coval da Mó.
O objectivo inicial da Companhia foi o aproveitamento do minério de chumbo existente em antigas escombreiras do campo de exploração da Malhada, com vista à produção, no local, de chumbo metálico.
Para isso, instalou, no Braçal, uma lavaria e, procedeu ao beneficiamento de antigas instalações metalúrgicas existentes na margem esquerda do Rio Mau.
Tendo, porém, verificado que o conteúdo de galena nessas escombreiras era diminuto, encarou a possibilidade de extrair minério dos próprios filões.
As minas encontravam-se, então, inundadas, no Braçal até ao nível de esgoto para o Rio Mau (20 m abaixo da boca do poço Matias); na Malhada e no Coval da Mó até ao nível da galeria de esgoto Henrique (cerca de 100 m a 120 m abaixo dos locais dos respectivos poços mestres.).
No Braçal, a Companhia procedeu ao esgoto das águas até ao último piso existente, reformou a rede de trabalhos antigos e efectuou trabalhos novos. Através de um poço interior, estabeleceu novos pisos, aprofundando a Mina de 105 m, para 145 m, relativamente à boca do Poço Matias.
Extraiu minério, não só em colunas mineralizadas dos filões, incompletamente exploradas pelos antigos, mas também em zonas de mineralização evidenciadas pelos seus próprios trabalhos de reconhecimento.
Na Malhada e no Coval da Mó, a Companhia limitou-se a reformar trabalhos antigos, acima do nível da galeria de esgoto, à abertura de raros trabalhos novos e ao rebusco de minério ainda deixado pelos anteriores exploradores.
A Companhia manteve, deste modo, as minas em produção, durante cerca de 17 anos, sendo a principal produtora de chumbo do País.
Em 1958, por motivo da baixa cotação do metal, suspendeu os trabalhos de exploração, mantendo, todavia, as operações de esgoto, ainda durante algum tempo, na esperança de que uma melhoria na cotação do chumbo ou um eventual auxílio oficial viessem permitir retomar a actividade mineira.
Mais tarde, foi autorizado o encerramento total das Minas e as concessões foram mesmo revogadas, encontrando-se presentemente a área cativa para o Estado.”
…
3.2 – Dos Serviços Oficiais
3.2.1 – Trabalhos realizados e em curso
Vem de data já distante o interesse do Serviço de Fomento Mineiro pela região de Braçal – Talhadas.
Em 1946-48, este Serviço, como o objectivo de descobrir novos jazigos minerais ou prolongamentos dos já conhecidos, levou a efeito campanhas de prospecção electromagnética pelo método Turam cobrindo áreas que envolvem, entre outras, as Minas do Braçal e das Talhadas, num total de 45 km2.
Este trabalho, que esteve a cargo da Companhia sueca ABEM, não conduziu a qualquer descoberta de valor económico, porque se não verificaram as características de condutibilidade eléctrica dos jazigos minerais, que haviam sido previstas
…
O Serviço de Fomento Mineiro, que, posteriormente as estas campanhas, adquirira equipamentos de prospecção para aplicação de variadas técnicas e se organizara para execução directa dos trabalhos, procedeu, na década de 60, a nova análise do problema da região de Braçal – Talhadas, com o objectivo de determinar se se justificaria retomar o estudo, com aplicação de outras técnicas.
Concluiu que o estudo deveria, na realidade, ser retomado, pelas razões que, a seguir, se expõem:
a) Os dados geológico-mineiros de que se dispõe levam a admitir a possibilidade de ocorrência de concentrações de minerais úteis, em dois tipos de formações:
I – Em possantes e extensas formações que aparecem alinhadas sensivelmente norte-sul e que poderão estar relacionadas com o grande acidente tectónico ou serão simplesmente camadas sedimentares metamorfisadas;
II – Em enchimentos filonianos transversais ao complexo xixtento em que se enquadram
…
b) O método electromagnético, que foi adoptado em 1946-48, não é o processo mais aconselhável para a cobertura de grandes áreas com características topográficas e geológicas como as que apresenta a de Braçal – Talhadas.
Além de poderem escapar-lhe jazigos com interesse, é de execução relativamente lenta.
Isto justifica que apenas se tenham prospectado, em 1946-48, cerca de 45 km2, sendo certo que a região com potencialidade mineira é muito mais vasta.
O método geoquímico, além de ser muito mais eficaz, nas condições topográficas e geológicas da região, permite, numa das suas modalidades (amostragem de sedimentos de linhas de água e análise de metais pesados pela ditizona, na fracção extraível a frio) uma cobertura relativamente rápida denunciando claramente ocorrências minerais aflorantes ou sub-aflorantes, mascaradas por solo arável ou revestimento vegetal.
…
Com estas bases, o 1.º Serviço de Fomento Mineiro deu início, em Maio de 1968, a nova fase de estudo da região de Braçal – Talhadas.
Começou por realizar, sobre jazigos conhecidos, ensaios preliminares da técnica de prospecção geoquímica que consiste na colheita de amostras de sedimentos da rede de drenagem da região e na análise expedita, pela ditizona, da fracção extraível, a frio, pelo citrato de amónio.
Verificado o pleno êxito de tais ensaios, passou à cobertura sistemática das áreas com potencialidade mineira.
Presentemente, está coberta uma superfície total de 1 620 km2, na qual se colheram 115 255 amostras de sedimentos de linhas de água e 4 030 amostras de solos.
As amostras têm sido analisadas para metais pesados e, nalguns casos, também para cobre, chumbo ou zinco ou para os três metais.
Estima-se em cerca de 170 000 o número total de amostras analisadas até à data.
Os resultados são implantados em cartas à escala 1:5 000 obtidas por ampliação fotográfica de cartas, à escala 1:25 000, dos Serviços Cartográficos do Exército.
Estão preparadas, actualmente, mais de 5 centenas destas cartas, cobrindo, cada uma, uma área de 4 km2.
Estão igualmente preparados mapas à escala 1:25 000, para uma visão de conjunto, de modo a salientar anomalias que se desenvolvem por uma extensão correspondente a várias cartas.
Os trabalhos prosseguem, pelo método geoquímico, para selecção de áreas de maior interesse.
Na área do Cabeço do Telégrafo, perto das Minas do Braçal, onde se registaram anomalias geoquímicas muito significativas, estão em curso estudos de pormenor, por métodos geofísicos e geoquímicos.
Além dos trabalhos de prospecção, o Serviço de Fomento Mineiro, através de outro Departamento (2.º Serviço) realizou, também, durante anos, trabalhos mineiros de pesquisa, nas antigas minas de Talhadas.
É da competência do 2.º Serviço prestar informação sobre esses trabalhos e respectivos resultados.
Sabemos, no entanto, que não tiveram êxito, como, aliás, refere o Senhor Joel de Macedo Marques.
1 – Considerações preliminares
….
2 – As potencialidades minerais da região de Braçal – Talhadas
As potencialidades minerais de uma região definem-se, quer através do conhecimento da sua geologia, quer através de indícios de mineralizações.
No que respeita à região de Braçal – Talhadas, devemos reconhecer que é ainda muito imperfeito o conhecimento da sua geologia.
Faltam ainda os levantamentos de base, à escala 1:25 000, que são das atribuições dos Serviços Geológicos.
Conforme assinalámos, a pág. 6 do nosso relatório “Região de Braçal – Tachadas. Sua potencialidade mineira” apresentado em 31-12-1972, também o Serviço de Prospecção não tem podido destacar geólogos para esta área, porquanto os raros integrados na sua equipa técnica estão já suficientemente ocupados em programas de maior prioridade.
E julgámos, então, de interesse que se remediasse essa lacuna, destacando novos geólogos para o Serviço de Prospecção e proporcionando-lhes condições para poderem realizar trabalho adequado ao objectivo pretendido.
Infelizmente, porém, há muito tempo que não são destacados para o 1.º Serviço, quaisquer geólogos, o que se nos afigura estranho.
Apesar destas insuficiências, bastará o conhecimento da região de Braçal – Talhadas (e, por esta designação, temos entendido uma faixa de mais de 60 km de extensão norte – sul e largura variável, mas ultrapassando, por vezes 40 km, desde as proximidades de S. João da Madeira até perto da Mealhada), relativamente ao grande acidente tectónico, que marca, a sul de Albergaria-a-Velha, a separação entre as formações da Meseta e as da Orla Ceno-Mesozoica, e que é salientado a norte daquela vila, por uma formação a que o Engenheiro Carlos Ribeiro em meados do século passado, designou por “grande filão metalífero que passa ao nascente de Albergaria-a-Velha e de Oliveira de Azeméis”, para a dever considerar com potencialidade para jazigos minerais.
Tem-se verificado, em todo o mundo, que as proximidades de grandes acidentes tectónicos, sobretudo nas zonas de intersecção de falhas importantes, são situações preferenciais para a ocorrência de jazigos minerais.
Daí a razão de nos ter sido chamada a atenção para este acidente próximo das Minas do Braçal, quando da nossa participação em Congresso de Vulcanologia e Metalogenia associada, que teve lugar na Roménia, em Setembro de 1973.
Mas, se no que respeita a geologia, o conhecimento é imperfeito, abundam as indicações concretas de mineralizações.
Conhecem-se manifestações de minerais de cobre, chumbo, zinco, arsénio e tungsténio.
Regista-se, também, o aparecimento acidental de minerais de níquel e de cobalto.
Minérios de cobre, chumbo, arsénio e tungsténio foram extraídos do próprio “ filão metalífero da Beira”, em minas que nunca atingiram grande desenvolvimento, não obstante documentos antigos citarem um caso (Pindelo) de “prodigiosa acumulação de pirite” e teores de cobre estimados em 5%.
Os trabalhos não passaram, na maioria das minas de uma fase incipiente de exploração e, provavelmente, foram conduzidos com deficiente orientação técnica.
As explorações de maior importância tiveram lugar em filões estreitos (possanças muitas vezes inferiores a 1 m), podendo, contudo atingir 6 m e mesmo mais, que ocorrem em profusão na área de Sever do Vouga e Albergaria-a-Velha, segundo direcções variáveis, mas, em regra, vizinhas de E-W, isto é, transversais às formações xistentas encaixantes.
Estes filões têm, em muitos casos extensões superiores a 1 km e a mineralização útil encontra-se em colunas cuja lei de distribuição se desconhece ainda.
….
“Apesar da abundância de indícios minerais, só se localizaram até ao presente, concentrações de volume suficiente para justificarem explorações de importância nas Minas de “Telhadela”, "Palhal”, “Carvalhal”, “Braçal – Malhada – Coval da Mó”, “Talhadas” e “Pintor”.
As explorações atingiram no “Palhal” a profundidade de 400 m e, em “Braçal – Malhada”, “Telhadela” e “Pintor” ultrapassaram os 200 m.
Estão pois reunidas as condições para que a região de Braçal – Talhadas justifique criteriosos estudos com vista a procurar concretizar em explorações mineiras o que agora se apresenta apenas como potencialidades.
3 – A recente actividade mineira na região
3.1 – De empresas privadas
A Companhia Industrial e Agrícola do Braçal foi a última entidade privada que realizou trabalhos de exploração nas concessões de Braçal, Malhada e Coval da Mó.
O objectivo inicial da Companhia foi o aproveitamento do minério de chumbo existente em antigas escombreiras do campo de exploração da Malhada, com vista à produção, no local, de chumbo metálico.
Para isso, instalou, no Braçal, uma lavaria e, procedeu ao beneficiamento de antigas instalações metalúrgicas existentes na margem esquerda do Rio Mau.
Tendo, porém, verificado que o conteúdo de galena nessas escombreiras era diminuto, encarou a possibilidade de extrair minério dos próprios filões.
As minas encontravam-se, então, inundadas, no Braçal até ao nível de esgoto para o Rio Mau (20 m abaixo da boca do poço Matias); na Malhada e no Coval da Mó até ao nível da galeria de esgoto Henrique (cerca de 100 m a 120 m abaixo dos locais dos respectivos poços mestres.).
No Braçal, a Companhia procedeu ao esgoto das águas até ao último piso existente, reformou a rede de trabalhos antigos e efectuou trabalhos novos. Através de um poço interior, estabeleceu novos pisos, aprofundando a Mina de 105 m, para 145 m, relativamente à boca do Poço Matias.
Extraiu minério, não só em colunas mineralizadas dos filões, incompletamente exploradas pelos antigos, mas também em zonas de mineralização evidenciadas pelos seus próprios trabalhos de reconhecimento.
Na Malhada e no Coval da Mó, a Companhia limitou-se a reformar trabalhos antigos, acima do nível da galeria de esgoto, à abertura de raros trabalhos novos e ao rebusco de minério ainda deixado pelos anteriores exploradores.
A Companhia manteve, deste modo, as minas em produção, durante cerca de 17 anos, sendo a principal produtora de chumbo do País.
Em 1958, por motivo da baixa cotação do metal, suspendeu os trabalhos de exploração, mantendo, todavia, as operações de esgoto, ainda durante algum tempo, na esperança de que uma melhoria na cotação do chumbo ou um eventual auxílio oficial viessem permitir retomar a actividade mineira.
Mais tarde, foi autorizado o encerramento total das Minas e as concessões foram mesmo revogadas, encontrando-se presentemente a área cativa para o Estado.”
…
3.2 – Dos Serviços Oficiais
3.2.1 – Trabalhos realizados e em curso
Vem de data já distante o interesse do Serviço de Fomento Mineiro pela região de Braçal – Talhadas.
Em 1946-48, este Serviço, como o objectivo de descobrir novos jazigos minerais ou prolongamentos dos já conhecidos, levou a efeito campanhas de prospecção electromagnética pelo método Turam cobrindo áreas que envolvem, entre outras, as Minas do Braçal e das Talhadas, num total de 45 km2.
Este trabalho, que esteve a cargo da Companhia sueca ABEM, não conduziu a qualquer descoberta de valor económico, porque se não verificaram as características de condutibilidade eléctrica dos jazigos minerais, que haviam sido previstas
…
O Serviço de Fomento Mineiro, que, posteriormente as estas campanhas, adquirira equipamentos de prospecção para aplicação de variadas técnicas e se organizara para execução directa dos trabalhos, procedeu, na década de 60, a nova análise do problema da região de Braçal – Talhadas, com o objectivo de determinar se se justificaria retomar o estudo, com aplicação de outras técnicas.
Concluiu que o estudo deveria, na realidade, ser retomado, pelas razões que, a seguir, se expõem:
a) Os dados geológico-mineiros de que se dispõe levam a admitir a possibilidade de ocorrência de concentrações de minerais úteis, em dois tipos de formações:
I – Em possantes e extensas formações que aparecem alinhadas sensivelmente norte-sul e que poderão estar relacionadas com o grande acidente tectónico ou serão simplesmente camadas sedimentares metamorfisadas;
II – Em enchimentos filonianos transversais ao complexo xixtento em que se enquadram
…
b) O método electromagnético, que foi adoptado em 1946-48, não é o processo mais aconselhável para a cobertura de grandes áreas com características topográficas e geológicas como as que apresenta a de Braçal – Talhadas.
Além de poderem escapar-lhe jazigos com interesse, é de execução relativamente lenta.
Isto justifica que apenas se tenham prospectado, em 1946-48, cerca de 45 km2, sendo certo que a região com potencialidade mineira é muito mais vasta.
O método geoquímico, além de ser muito mais eficaz, nas condições topográficas e geológicas da região, permite, numa das suas modalidades (amostragem de sedimentos de linhas de água e análise de metais pesados pela ditizona, na fracção extraível a frio) uma cobertura relativamente rápida denunciando claramente ocorrências minerais aflorantes ou sub-aflorantes, mascaradas por solo arável ou revestimento vegetal.
…
Com estas bases, o 1.º Serviço de Fomento Mineiro deu início, em Maio de 1968, a nova fase de estudo da região de Braçal – Talhadas.
Começou por realizar, sobre jazigos conhecidos, ensaios preliminares da técnica de prospecção geoquímica que consiste na colheita de amostras de sedimentos da rede de drenagem da região e na análise expedita, pela ditizona, da fracção extraível, a frio, pelo citrato de amónio.
Verificado o pleno êxito de tais ensaios, passou à cobertura sistemática das áreas com potencialidade mineira.
Presentemente, está coberta uma superfície total de 1 620 km2, na qual se colheram 115 255 amostras de sedimentos de linhas de água e 4 030 amostras de solos.
As amostras têm sido analisadas para metais pesados e, nalguns casos, também para cobre, chumbo ou zinco ou para os três metais.
Estima-se em cerca de 170 000 o número total de amostras analisadas até à data.
Os resultados são implantados em cartas à escala 1:5 000 obtidas por ampliação fotográfica de cartas, à escala 1:25 000, dos Serviços Cartográficos do Exército.
Estão preparadas, actualmente, mais de 5 centenas destas cartas, cobrindo, cada uma, uma área de 4 km2.
Estão igualmente preparados mapas à escala 1:25 000, para uma visão de conjunto, de modo a salientar anomalias que se desenvolvem por uma extensão correspondente a várias cartas.
Os trabalhos prosseguem, pelo método geoquímico, para selecção de áreas de maior interesse.
Na área do Cabeço do Telégrafo, perto das Minas do Braçal, onde se registaram anomalias geoquímicas muito significativas, estão em curso estudos de pormenor, por métodos geofísicos e geoquímicos.
Além dos trabalhos de prospecção, o Serviço de Fomento Mineiro, através de outro Departamento (2.º Serviço) realizou, também, durante anos, trabalhos mineiros de pesquisa, nas antigas minas de Talhadas.
É da competência do 2.º Serviço prestar informação sobre esses trabalhos e respectivos resultados.
Sabemos, no entanto, que não tiveram êxito, como, aliás, refere o Senhor Joel de Macedo Marques.
sexta-feira, 24 de abril de 2009
63 – A atitude do SFM perante o encerramento das Minas do Braçal. Continuação
A seguir, transcrevo os três documentos a que fiz referência no post anterior:
1- Carta do munícipe de Sever do Vouga, Joel Macedo Marques, com data de 22 de Maio de 1974, dirigida ao Senhor Presidente da Câmara Municipal de Sever do Vouga:
“Junto remeto a V. Ex.ª uma fotocópia de notícia do Diário de Lisboa de 15/12/1959, em que se dava conhecimento ao País do encerramento das Minas do Braçal.
Ficaram sem trabalho cerca de 600 mineiros, trabalhadores do nosso Concelho, quase todos chefes de família. Como é do conhecimento de V. Ex.ª, houve, nessa altura, uma determinação do Governo para que fosse dada prioridade aos nossos conterrâneos desempregados, para que emigrassem para França. E foi assim que se permitiu o encerramento de uma exploração mineira, com indústria transformadora anexa, a coberto de uma melhoria de vida às pessoas em questão, com grave prejuízo para a nossa região.
Vários factores contribuíram para estes acontecimentos, que estamos à altura de fornecer, porém a Administração Concelhia em exercício nessa altura, foi culpada por não ter actuado. Se tivesse havido uma imposição perante a Direcção-Geral de Minas, para que a exploração de galena não fosse interditada, obstar-se-ia a que os Poços não fossem inundados e posteriormente as instalações fabris vendidas como sucata.
A firma proprietária, sem o auxílio oficial, não tinha rendibilidade na referida exploração. O Fomento Mineiro andou no nosso Concelho, nas Minas das Talhadas sem resultado.
Segundo os estudos dos mesmos Serviços e a confirmação do actual responsável Técnico das Minas do Braçal, o filão de minérios de Chumbo é dos mais ricos do País ou mesmo da Europa.
É altura de se solicitar ao Governo Provisório, através da nossa Câmara Municipal Renovada, de que o Ministério respectivo se debruce sobre o nosso problema, que seja aberto um inquérito ao proteccionismo das importações, com total desprezo pela economia nacional.
Queremos as nossas antiquíssimas Minas a funcionar. Queremos trazer para a nossa Terra todos os nossos conterrâneos que tiveram que deixar o nosso País na busca de trabalho.
Queremos defender um Concelho Rico, da ideia errada de que somos Pobres. Aliado às potencialidades mineiras, temos uma floresta das mais ricas do distrito. Estamos numa zona turística por excelência chamada a “Suíça Portuguesa”.
Queremos defender o futuro dos nossos Filhos criando-lhes estruturas, onde mais tarde se possam empregar.
Rogamos a V. Ex.ª que seja exarado em acta da primeira sessão camarária, da memorável Comissão Administrativa Democrática, parecer favorável a esta exposição.
A bem da Nação
Um Munícipe
(a) Joel de Macedo Marques
2 – Notícia do “Diário de Lisboa” de 15-12-1979 sobre o encerramento das Minas do Braçal:
O encerramento das minas de chumbo do Braçal cria um grave problema para a região de Sever do Vouga.
SEVER DO VOUGA, 6 - Nesta linda região do Vale do Voga, de incomparável cenografia e deslumbrante paisagem, existem os únicos filões de chumbo do País – as minas do Braçal, situadas neste concelho.
São as mais antigas da Península e há notícia de que a sua primitiva exploração foi empreendida pelos Romanos, os quais abriram o primeiro poço, o mais antigo, que, encoberto por espessos matagais, se manteve ignorado até há coisa de um século. Acrescente-se que a primeira concessão mineira em Portugal foi a dos jazigos saturninos.
A exploração, nos tempos modernos, tem tido períodos de prosperidade alternando com outros de decadência, como o que atravessa agora, de bem negras e angustiosas perspectivas. Um desses períodos calamitosos decorreu entre os anos de 1930 e 1942 quando a antiga empresa concessionária, decidiu encerrar as minas e alienar o seu apetrechamento. Foi a paralisação completa e quase se perdeu a esperança de reiniciar o seu labor. Veio, porém, a Guerra Mundial, operando-se uma acentuada revalorização do metal, e, adquiridas as minas do Braçal pela firma Francisco José Simões, de Lisboa, reentraram em pleno labor, a todo o rendimento, possibilitado pelo seu completo equipamento para extracção e transformação da galena.
As antigas instalações, em âmbito reduzido, foram montadas pela Companhia de Minas e Metalurgia, a qual, por escritura lavrada em 23 de Junho de 1943, na Secção Notarial desta vila, se transferiu para a posse da Companhia Industrial e Agrícola do Braçal, com sede em Lisboa, que empreendeu a grande obra renovadora, incluindo o seu apetrechamento técnico ao nível moderno.
Seiscentos mineiros sem trabalho
Surgiu, porém, a grave crise que afecta profundamente este ramo da exploração mineira, originada pela concorrência, a preço mais baixo, do chumbo produzido no estrangeiro e à sua fraca cotação no mercado internacional.
Viu-se a empresa concessionária dos jazigos do Braçal compelida a reduzir consideravelmente a exploração, o que provocou ter sido dispensada, há cerca de um ano, metade dos trabalhadores, seguindo-se outros, no fim do ano e ficando o pessoal reduzido ao indispensável para a conservação dos maquinismos e guarda das instalações e matas anexas.
Desnecessário se torna acentuar a gravidade do caso, pois o encerramento das minas priva do seu ganha-pão seis centenas de trabalhadores que exerciam ali a sua actividade, atirando para a miséria milhares de pessoas das suas famílias. Além deste caso fundamental, nos seus aspectos humanos e sociais, há a considerar os graves prejuízos que resultam para a economia do concelho de Sever do Vouga.
3 – Carta do Governo Civil de Aveiro, com data de 6-5-1974, dirigida ao Senhor Ministro da Coordenação Económica
Excelência:
A pedido da Câmara Municipal de Sever do Vouga, tenho a honra de remeter a Vossa Excelência, para convenientes efeitos, a inclusa fotocópia de uma exposição dirigida ao referido Corpo Administrativo por Joel de Macedo Marques, a propósito de uma notícia publicada acerca do encerramento das Minas do Braçal.
Apresento a Vossa Excelência os meus melhores cumprimentos de elevada consideração.
A BEM DA NAÇÃO
O SECRETÁRIO SERVINDO DE GOVERNADOR CIVIL
Assinatura ilegível.
Sobre esta carta incidiu despacho do Director-Geral de Minas com data de 21-6-1974, pedindo informação ao SFM.
No próximo post, apresentarei excertos da informação de 20 páginas manuscritas que prestei em 15-7-1974, ao Director do SFM, em cumprimento dos seus despacho em documentos a que fiz referência
1- Carta do munícipe de Sever do Vouga, Joel Macedo Marques, com data de 22 de Maio de 1974, dirigida ao Senhor Presidente da Câmara Municipal de Sever do Vouga:
“Junto remeto a V. Ex.ª uma fotocópia de notícia do Diário de Lisboa de 15/12/1959, em que se dava conhecimento ao País do encerramento das Minas do Braçal.
Ficaram sem trabalho cerca de 600 mineiros, trabalhadores do nosso Concelho, quase todos chefes de família. Como é do conhecimento de V. Ex.ª, houve, nessa altura, uma determinação do Governo para que fosse dada prioridade aos nossos conterrâneos desempregados, para que emigrassem para França. E foi assim que se permitiu o encerramento de uma exploração mineira, com indústria transformadora anexa, a coberto de uma melhoria de vida às pessoas em questão, com grave prejuízo para a nossa região.
Vários factores contribuíram para estes acontecimentos, que estamos à altura de fornecer, porém a Administração Concelhia em exercício nessa altura, foi culpada por não ter actuado. Se tivesse havido uma imposição perante a Direcção-Geral de Minas, para que a exploração de galena não fosse interditada, obstar-se-ia a que os Poços não fossem inundados e posteriormente as instalações fabris vendidas como sucata.
A firma proprietária, sem o auxílio oficial, não tinha rendibilidade na referida exploração. O Fomento Mineiro andou no nosso Concelho, nas Minas das Talhadas sem resultado.
Segundo os estudos dos mesmos Serviços e a confirmação do actual responsável Técnico das Minas do Braçal, o filão de minérios de Chumbo é dos mais ricos do País ou mesmo da Europa.
É altura de se solicitar ao Governo Provisório, através da nossa Câmara Municipal Renovada, de que o Ministério respectivo se debruce sobre o nosso problema, que seja aberto um inquérito ao proteccionismo das importações, com total desprezo pela economia nacional.
Queremos as nossas antiquíssimas Minas a funcionar. Queremos trazer para a nossa Terra todos os nossos conterrâneos que tiveram que deixar o nosso País na busca de trabalho.
Queremos defender um Concelho Rico, da ideia errada de que somos Pobres. Aliado às potencialidades mineiras, temos uma floresta das mais ricas do distrito. Estamos numa zona turística por excelência chamada a “Suíça Portuguesa”.
Queremos defender o futuro dos nossos Filhos criando-lhes estruturas, onde mais tarde se possam empregar.
Rogamos a V. Ex.ª que seja exarado em acta da primeira sessão camarária, da memorável Comissão Administrativa Democrática, parecer favorável a esta exposição.
A bem da Nação
Um Munícipe
(a) Joel de Macedo Marques
2 – Notícia do “Diário de Lisboa” de 15-12-1979 sobre o encerramento das Minas do Braçal:
O encerramento das minas de chumbo do Braçal cria um grave problema para a região de Sever do Vouga.
SEVER DO VOUGA, 6 - Nesta linda região do Vale do Voga, de incomparável cenografia e deslumbrante paisagem, existem os únicos filões de chumbo do País – as minas do Braçal, situadas neste concelho.
São as mais antigas da Península e há notícia de que a sua primitiva exploração foi empreendida pelos Romanos, os quais abriram o primeiro poço, o mais antigo, que, encoberto por espessos matagais, se manteve ignorado até há coisa de um século. Acrescente-se que a primeira concessão mineira em Portugal foi a dos jazigos saturninos.
A exploração, nos tempos modernos, tem tido períodos de prosperidade alternando com outros de decadência, como o que atravessa agora, de bem negras e angustiosas perspectivas. Um desses períodos calamitosos decorreu entre os anos de 1930 e 1942 quando a antiga empresa concessionária, decidiu encerrar as minas e alienar o seu apetrechamento. Foi a paralisação completa e quase se perdeu a esperança de reiniciar o seu labor. Veio, porém, a Guerra Mundial, operando-se uma acentuada revalorização do metal, e, adquiridas as minas do Braçal pela firma Francisco José Simões, de Lisboa, reentraram em pleno labor, a todo o rendimento, possibilitado pelo seu completo equipamento para extracção e transformação da galena.
As antigas instalações, em âmbito reduzido, foram montadas pela Companhia de Minas e Metalurgia, a qual, por escritura lavrada em 23 de Junho de 1943, na Secção Notarial desta vila, se transferiu para a posse da Companhia Industrial e Agrícola do Braçal, com sede em Lisboa, que empreendeu a grande obra renovadora, incluindo o seu apetrechamento técnico ao nível moderno.
Seiscentos mineiros sem trabalho
Surgiu, porém, a grave crise que afecta profundamente este ramo da exploração mineira, originada pela concorrência, a preço mais baixo, do chumbo produzido no estrangeiro e à sua fraca cotação no mercado internacional.
Viu-se a empresa concessionária dos jazigos do Braçal compelida a reduzir consideravelmente a exploração, o que provocou ter sido dispensada, há cerca de um ano, metade dos trabalhadores, seguindo-se outros, no fim do ano e ficando o pessoal reduzido ao indispensável para a conservação dos maquinismos e guarda das instalações e matas anexas.
Desnecessário se torna acentuar a gravidade do caso, pois o encerramento das minas priva do seu ganha-pão seis centenas de trabalhadores que exerciam ali a sua actividade, atirando para a miséria milhares de pessoas das suas famílias. Além deste caso fundamental, nos seus aspectos humanos e sociais, há a considerar os graves prejuízos que resultam para a economia do concelho de Sever do Vouga.
3 – Carta do Governo Civil de Aveiro, com data de 6-5-1974, dirigida ao Senhor Ministro da Coordenação Económica
Excelência:
A pedido da Câmara Municipal de Sever do Vouga, tenho a honra de remeter a Vossa Excelência, para convenientes efeitos, a inclusa fotocópia de uma exposição dirigida ao referido Corpo Administrativo por Joel de Macedo Marques, a propósito de uma notícia publicada acerca do encerramento das Minas do Braçal.
Apresento a Vossa Excelência os meus melhores cumprimentos de elevada consideração.
A BEM DA NAÇÃO
O SECRETÁRIO SERVINDO DE GOVERNADOR CIVIL
Assinatura ilegível.
Sobre esta carta incidiu despacho do Director-Geral de Minas com data de 21-6-1974, pedindo informação ao SFM.
No próximo post, apresentarei excertos da informação de 20 páginas manuscritas que prestei em 15-7-1974, ao Director do SFM, em cumprimento dos seus despacho em documentos a que fiz referência
quarta-feira, 22 de abril de 2009
62 – A atitude do SFM perante o encerramento das Minas de chumbo do Braçal.
Em 1959, quando exercia s funções de Chefe da Brigada do Sul do SFM, que tinha a seu cargo as investigações, por trabalhos mineiros convencionais, das existências de jazigos minerais na região do País a Sul do Rio Tejo, foi com grande surpresa e algum desalento que soube do encerramento das Minas de chumbo do Braçal, as quais tinha conhecido em 1946, nas circunstâncias que referi no post N.º 59.
Afigurava-se-me que o SFM, em cumprimento dos objectivos para que tinha sido instituído, deveria ter evitado que viesse a acontecer a situação trágica que se verificou. Mas reconhecia que, no Norte do País, apesar de lá se situar a sua sede, o SFM, nos seus 20 anos de existência, não tinha conseguido criar estruturas idênticas às que vigoravam no Sul, que lhe permitissem tomar a seu cargo tal empreendimento.
Em 1-7-1974, já na minha qualidade de Chefe do Serviço de Prospecção do SFM, cujo âmbito se estendia a todo o território metropolitano nacional, recebi do Director do SFM um documento manuscrito, sem indicação de ter sido registado na Secretaria, como seria normal, do seguinte teor:
“Ao 1.º Serviço:
Numa exposição dirigida ao Presidente da Câmara Municipal de Sever do Vouga e pelo Governo Civil de Aveiro remetido a Sua Ex.ª o Ministro da Coordenação Económica escreve-se (referindo-se ao encerramento das minas do Braçal):
“A firma proprietária, sem o auxílio oficial, não tinha rendibilidade na sua exploração. O Fomento Mineiro actuou no nosso concelho, nas Minas das Talhadas sem resultado.
Segundo os estudos dos mesmos Serviços e a confirmação do actual responsável Técnico das Minas do Braçal, o filão de Minérios de Chumbo é dos mais ricos do País ou mesmo da Europa.”
O 1.º Serviço deverá informar, com urgência:
1) Quais os trabalhos de prospecção realizados na área do Braçal.
2) Resultados obtidos.
3) Trabalhos em curso noutras áreas da região e resultados até agora obtidos.”
A minha primeira reacção a esta ordem foi a seguinte, com data de 2-7-1974:
“Ex.mo Senhor Engenheiro Director do Serviço de Fomento Mineiro:
Cita V. Ex.ª uma exposição, que alguém dirigiu ao Senhor Presidente da Câmara Municipal de Sever do Vouga, chamando a atenção para as potencialidades minerais da região de Braçal – Talhadas.
Refere que esta exposição transitou, através do Governador Civil de Aveiro, até Sua Ex.ª o Ministro da Coordenação Económica.
Não menciona V. Ex.ª os departamentos pelos quais passou, seguidamente, a exposição, nem os despachos que sobre ela incidiram.
Se foram respeitadas as normas correntes, é de crer que ela se encontre nas mãos de V. Ex.ª, após passagem pelo Secretário de Estado da Indústria e da Energia e Director-Geral de Minas.
A ser assim, uma vez mais um documento, que vinha seguindo as vias normais, com o objectivo de atingir o departamento competente para prestar informação sobre o assunto nele versado, é retido nas mãos de V. Ex.ª.
Em casos anteriores, V. Ex.ª, quando não se considerou apto a dar cumprimento aos despachos superiores, mandou preparar xerocópias dos documentos recebidos e sobre elas exarou os seus despachos, para que as minhas informações não acompanhassem os documentos originais e não ultrapassassem, portanto, o âmbito do Serviço de Fomento Mineiro ou da Direcção-Geral de Minas.
De tais informações, aproveitou V. Ex.ª aquilo que, segundo o seu critério pessoal, lhe pareceu de interesse.
Manifestei, por diversas vezes a V. Ex.ª o meu desacordo relativamente a esse procedimento que não considerei regular e, em 12-3-1974, solicitei que ele fosse objecto de apreciação por entidade jurídica competente.
Até à data, não me foi comunicado o parecer dessa entidade jurídica e ignoro até se ela chegou a ser consultada.
No caso presente, também V. Ex.ª se não considerou apto a dar cumprimento a despachos superiores.
Porém, em vez de enviar o documento original para informação, como seria normal, limitou-se a transcrever duas frases da exposição nele contida e a formular algumas perguntas sobre a actividade do 1.º Serviço na região de Braçal – Talhadas, determinando que as respostas fossem dadas com urgência.
Causa estranheza que, apresentando o 1.º Serviço, com regularidade, os seus relatórios trimestrais e anuais e tendo ainda na reunião de 24 de Abril passado, da Comissão de Fomento, feito exposição circunstanciada sobre a actividade desse Serviço no País e dos resultados que vem obtendo, a Direcção do Serviço de Fomento Mineiro se não encontre apta a prestar as informações que lhe foram solicitadas.
Devo lembrar ainda que, em 31-12-1972, apresentei um relatório subordinado ao título “Região de Braçal – Talhadas. Sua potencialidade mineira”, em satisfação de um despacho de V, Ex.ª exarado sobre um ofício do Dr. Vale Guimarães, então Governador Civil de Aveiro, no qual era posta em dúvida a utilidade dos trabalhos que, naquela região, decorriam a cargo do 1.º Serviço.
V. Ex.ª certamente estará recordado de que ordenou até a paragem desses trabalhos, para cumprimento de instruções que me disse ter recebido do Senhor Director-Geral de Minas.
O carácter singular desta ordem levou-me a solicitar a V. Ex.ª a sua confirmação por escrito e, como este pedido não foi atendido, tenho aguardado o despacho de V. Ex.ª sobre o meu relatório e, entretanto, os trabalhos têm prosseguido.
O teor do documento que estou analisando, leva-me a supor que V. Ex.ª ainda não teve oportunidade de ler tal relatório.
Porque a exposição a que se refere esse documento levanta, de novo, um tema de grande importância, que não tem sido devidamente avaliado em sectores da Direcção-Geral de Minas estranhos ao 1.º Serviço, afigura-se-me que a minha informação a seu respeito deve chegar, na íntegra, ao conhecimento de Sua Ex.ª, o Senhor Ministro da Coordenação Económica."
Em 10-7-1974, o Director do SFM escreveu, na sequência desta minha informação sobre o seu documento manuscrito, o seguinte:
“Não se ignora, como é evidente, a existência de relatórios trimestrais e anuais, nem tão pouco o que tem por título “Região de Braçal – Talhadas. Sua potencialidade mineira”. No entanto, pretendem-se agora informações muito concretas e sucintas sobre os pontos que se indicaram atrás.
O Engenheiro Chefe do 1.º Serviço de Fomento Mineiro é a pessoa que considero indicada para prestar a informação pedida. Insisto em que seja dada.
Para elaborar a informação em referência, não tem o Engenheiro Chefe do 1.º Serviço necessidade de consultar a “exposição” do Senhor Joel de Macedo Marques e por isso esta lhe não foi enviada. Não se vê, no entanto, qualquer inconveniente em que dela tome conhecimento. Junta-se.
Os outros assuntos abordados pelo Engenheiro Chefe do 1.º Serviço serão oportunamente levados ao conhecimento do Senhor Director-Geral de Minas que sobre eles tomará a decisão que julgar conveniente.”
Recebi, na mesma data, os seguintes documentos:
a) Carta do Presidente da Câmara de Sever do Vouga sobre notícia publicada no jornal “Diário de Lisboa” acerca do encerramento das Minas do Braçal.
b) Carta do Governo Civil de Aveiro, sobre o mesmo assunto
c) Fotocópia de artigo publicado no “Diário de Lisboa” de 15-12-1959, com o título seguinte: “O encerramento das minas de chumbo do Braçal cria um grave problema para a região de Sever do Vouga”.
No próximo post, farei a transcrição destes três documentos.
Afigurava-se-me que o SFM, em cumprimento dos objectivos para que tinha sido instituído, deveria ter evitado que viesse a acontecer a situação trágica que se verificou. Mas reconhecia que, no Norte do País, apesar de lá se situar a sua sede, o SFM, nos seus 20 anos de existência, não tinha conseguido criar estruturas idênticas às que vigoravam no Sul, que lhe permitissem tomar a seu cargo tal empreendimento.
Em 1-7-1974, já na minha qualidade de Chefe do Serviço de Prospecção do SFM, cujo âmbito se estendia a todo o território metropolitano nacional, recebi do Director do SFM um documento manuscrito, sem indicação de ter sido registado na Secretaria, como seria normal, do seguinte teor:
“Ao 1.º Serviço:
Numa exposição dirigida ao Presidente da Câmara Municipal de Sever do Vouga e pelo Governo Civil de Aveiro remetido a Sua Ex.ª o Ministro da Coordenação Económica escreve-se (referindo-se ao encerramento das minas do Braçal):
“A firma proprietária, sem o auxílio oficial, não tinha rendibilidade na sua exploração. O Fomento Mineiro actuou no nosso concelho, nas Minas das Talhadas sem resultado.
Segundo os estudos dos mesmos Serviços e a confirmação do actual responsável Técnico das Minas do Braçal, o filão de Minérios de Chumbo é dos mais ricos do País ou mesmo da Europa.”
O 1.º Serviço deverá informar, com urgência:
1) Quais os trabalhos de prospecção realizados na área do Braçal.
2) Resultados obtidos.
3) Trabalhos em curso noutras áreas da região e resultados até agora obtidos.”
A minha primeira reacção a esta ordem foi a seguinte, com data de 2-7-1974:
“Ex.mo Senhor Engenheiro Director do Serviço de Fomento Mineiro:
Cita V. Ex.ª uma exposição, que alguém dirigiu ao Senhor Presidente da Câmara Municipal de Sever do Vouga, chamando a atenção para as potencialidades minerais da região de Braçal – Talhadas.
Refere que esta exposição transitou, através do Governador Civil de Aveiro, até Sua Ex.ª o Ministro da Coordenação Económica.
Não menciona V. Ex.ª os departamentos pelos quais passou, seguidamente, a exposição, nem os despachos que sobre ela incidiram.
Se foram respeitadas as normas correntes, é de crer que ela se encontre nas mãos de V. Ex.ª, após passagem pelo Secretário de Estado da Indústria e da Energia e Director-Geral de Minas.
A ser assim, uma vez mais um documento, que vinha seguindo as vias normais, com o objectivo de atingir o departamento competente para prestar informação sobre o assunto nele versado, é retido nas mãos de V. Ex.ª.
Em casos anteriores, V. Ex.ª, quando não se considerou apto a dar cumprimento aos despachos superiores, mandou preparar xerocópias dos documentos recebidos e sobre elas exarou os seus despachos, para que as minhas informações não acompanhassem os documentos originais e não ultrapassassem, portanto, o âmbito do Serviço de Fomento Mineiro ou da Direcção-Geral de Minas.
De tais informações, aproveitou V. Ex.ª aquilo que, segundo o seu critério pessoal, lhe pareceu de interesse.
Manifestei, por diversas vezes a V. Ex.ª o meu desacordo relativamente a esse procedimento que não considerei regular e, em 12-3-1974, solicitei que ele fosse objecto de apreciação por entidade jurídica competente.
Até à data, não me foi comunicado o parecer dessa entidade jurídica e ignoro até se ela chegou a ser consultada.
No caso presente, também V. Ex.ª se não considerou apto a dar cumprimento a despachos superiores.
Porém, em vez de enviar o documento original para informação, como seria normal, limitou-se a transcrever duas frases da exposição nele contida e a formular algumas perguntas sobre a actividade do 1.º Serviço na região de Braçal – Talhadas, determinando que as respostas fossem dadas com urgência.
Causa estranheza que, apresentando o 1.º Serviço, com regularidade, os seus relatórios trimestrais e anuais e tendo ainda na reunião de 24 de Abril passado, da Comissão de Fomento, feito exposição circunstanciada sobre a actividade desse Serviço no País e dos resultados que vem obtendo, a Direcção do Serviço de Fomento Mineiro se não encontre apta a prestar as informações que lhe foram solicitadas.
Devo lembrar ainda que, em 31-12-1972, apresentei um relatório subordinado ao título “Região de Braçal – Talhadas. Sua potencialidade mineira”, em satisfação de um despacho de V, Ex.ª exarado sobre um ofício do Dr. Vale Guimarães, então Governador Civil de Aveiro, no qual era posta em dúvida a utilidade dos trabalhos que, naquela região, decorriam a cargo do 1.º Serviço.
V. Ex.ª certamente estará recordado de que ordenou até a paragem desses trabalhos, para cumprimento de instruções que me disse ter recebido do Senhor Director-Geral de Minas.
O carácter singular desta ordem levou-me a solicitar a V. Ex.ª a sua confirmação por escrito e, como este pedido não foi atendido, tenho aguardado o despacho de V. Ex.ª sobre o meu relatório e, entretanto, os trabalhos têm prosseguido.
O teor do documento que estou analisando, leva-me a supor que V. Ex.ª ainda não teve oportunidade de ler tal relatório.
Porque a exposição a que se refere esse documento levanta, de novo, um tema de grande importância, que não tem sido devidamente avaliado em sectores da Direcção-Geral de Minas estranhos ao 1.º Serviço, afigura-se-me que a minha informação a seu respeito deve chegar, na íntegra, ao conhecimento de Sua Ex.ª, o Senhor Ministro da Coordenação Económica."
Em 10-7-1974, o Director do SFM escreveu, na sequência desta minha informação sobre o seu documento manuscrito, o seguinte:
“Não se ignora, como é evidente, a existência de relatórios trimestrais e anuais, nem tão pouco o que tem por título “Região de Braçal – Talhadas. Sua potencialidade mineira”. No entanto, pretendem-se agora informações muito concretas e sucintas sobre os pontos que se indicaram atrás.
O Engenheiro Chefe do 1.º Serviço de Fomento Mineiro é a pessoa que considero indicada para prestar a informação pedida. Insisto em que seja dada.
Para elaborar a informação em referência, não tem o Engenheiro Chefe do 1.º Serviço necessidade de consultar a “exposição” do Senhor Joel de Macedo Marques e por isso esta lhe não foi enviada. Não se vê, no entanto, qualquer inconveniente em que dela tome conhecimento. Junta-se.
Os outros assuntos abordados pelo Engenheiro Chefe do 1.º Serviço serão oportunamente levados ao conhecimento do Senhor Director-Geral de Minas que sobre eles tomará a decisão que julgar conveniente.”
Recebi, na mesma data, os seguintes documentos:
a) Carta do Presidente da Câmara de Sever do Vouga sobre notícia publicada no jornal “Diário de Lisboa” acerca do encerramento das Minas do Braçal.
b) Carta do Governo Civil de Aveiro, sobre o mesmo assunto
c) Fotocópia de artigo publicado no “Diário de Lisboa” de 15-12-1959, com o título seguinte: “O encerramento das minas de chumbo do Braçal cria um grave problema para a região de Sever do Vouga”.
No próximo post, farei a transcrição destes três documentos.
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