sábado, 15 de agosto de 2009

88 – A minha demissão da chefia da 1.ª Brigada de Prospecção. Continuação 7.

Continuo a responder à primeira pergunta formulada no post 84, caracterizando os autores da exposição que originou a minha demissão, na sua qualidade de técnicos do SFM:

O Geólogo José Antómio Carvoeiras Goinhas
Natural da cidade de Beja, este Geólogo contactou-me, em 1961,quando terminou a sua licenciatura na Faculdade de Ciências de Lisboa, mostrando-se interessado em ingressar na DGMSG.
Acontecia que a Compagnie Royale Asturienne dés Mines (CRAM), que estava cumprindo um contrato de prospecção na região de Moura-Ficalho, na sequência de estudos anteriores do SFM (Ver post N.º 19), com o objectivo de aumentar as reservas de minérios de zinco, de modo a poder iniciar explorações em maior escala, também me havia contactado para que lhe indicasse um Engenheiro de Minas para o seu Quadro de Técnicos.
Informei a CRAM de que Engenheiros de Minas era uma espécie em extinção, perante a escassez de formandos nessa área, nos últimos tempos. Mas poderia indicar-lhe um Geólogo.
A CRAM aceitou a sugestão e eu aconselhei o Dr. José Goinhas a aproveitar a oportunidade que se lhe oferecia para se especializar na prospecção de jazigos de zinco, dada a elevada qualidade que reconhecia aos Geólogos franceses que actuavam na região de Moura-Ficalho.
Informei-o de que proporia o seu ingresso no SFM, para colaborar nos estudos que estavam em curso na Faixa Magnetítica e Zincífera Alentejana, quando tivesse adquirido a especialização desejada.
O Dr. José Goinhas, após 6 anos de permanência na CRAM, em Portugal, em França e no Norte de África, colaborando sobretudo em estudos de jazigos de zinco, contactou-me novamente em 1967, e eu fiz então a proposta de seu ingresso no SFM.
A proposta foi aceite e o Dr. José Goinhas foi admitido no SFM em Julho de 1967.
Encarreguei-o, como lhe tinha prometido, de dar apoio aos estudos que estavam em curso na faixa Magnetítica e Zincífera Alentejana.
Estes estudos incidiam, então, na região de Portel, onde campanhas de prospecção geofísica e geoquímica tinham tido grande sucesso (Ver post N.º44).
Tinham sido efectuadas já muitas sondagens, com resultados bastante animadores e a classificação dos respectivos testemunhos estivera a cargo do Agente Técnico de Engenharia José Coelho da Silva Gameiro.
Embora eu considerasse tal classificação bastante pormenorizada e reveladora de notáveis qualidades de observação, era evidente que estudo realizado por Geólogo especializado em jazigos de zinco deveria conduzir a importantes aperfeiçoamentos. Por isso, encarreguei o Dr. Goinhas de proceder a novos exames dos testemunhos das sondagens já efectuadas, ao mesmo tempo que o encarregava também de fazer os logs dos testemunhos das sondagens que estavam em curso na mesma região e de fazer a interpretação estrutural do jazigo.
A sua actividade não correspondeu, porém, ao que dele esperava, No que respeita às sondagens que tinham sido efectuadas antes do seu ingresso na Brigada, não introduziu quaisquer aperfeiçoamentos. A sua capacidade de trabalho esgotou-se no exame dos testemunhos das sondagens que estavam em curso.
A qualidade dos seus estudos foi satisfatória, mas a produtividade foi, em geral, baixa. Cheguei a perguntar-lhe se a sua capacidade de trabalho se esgotara na CRAM.
Em 1971-72, foi-lhe proporcionada a frequência de um Curso de Economia Mineira, em Universidade de Arizona, nos Estados Unidos, durante o qual tomou conhecimento directo de jazigos do tipo dos “porphyry coppers”.
Enquanto frequentava este Curso, mantive com ele correspondência assídua, salientando que mais importante que a obtenção de graus académicos era a aquisição de conhecimentos orientados para a resolução dos problemas da Brigada que lhe estavam confiados. A seu pedido, forneci-lhe dados circunstanciados, sobretudo acerca da legislação mineira de Portugal, para inserir nos trabalhos do Curso.
Se antes de ir para os Estados Unidos já se mostrara pouco diligente, após o seu regresso, menos diligente se mostrou. Mas, baseado no que lá aprendera, pretendeu assumir a direcção de um projecto de prospecção de “porphyry coppers”, desobedecendo a decisões que haviam sido tomadas nas habituais reuniões que eu tinha com todos os Engenheiros e Geólogos da Brigada.
A esta atitude do Dr. Goinhas, exposta no seu relatório de Julho de 1972, tive que reagir, enviando-lhe, com carácter oficial, o documento que a seguir transcrevo:

“Ao Geólogo Senhor António José Carvoeiras Goinhas:
O relatório mensal destina-se, como é óbvio, a dar conta da actividade durante o mês a que diz respeito, no sector a cargo do técnico que o subscreve.
Interessa sobretudo destacar resultados dessa actividade.
Não se vê utilidade em referir decisões tomadas em reuniões dirigidas pelo Chefe da Brigada, porquanto este está bem consciente das decisões que toma. Não se impede, todavia, que se citem, se o autor do relatório considerar necessário para definir a sua posição perante determinado problema, desde que se respeite escrupulosamente a verdade.
A análise do relatório de V. Ex.ª respeitante ao mês de Julho de 1972 sugere-me os seguintes comentários:
1.º – A actividade que se relata e que se contem totalmente no primeiro parágrafo não satisfaz.
Na presunção de que algo mais haja a mencionar, devolve-se o relatório, para ser completado, se for caso disso.
2.º - O estudo da grande mancha de “pórfiros e rochas afins de região de Beja” e das “rochas graníticas e tonalíticas da região de Évora” há muito tempo figura nos planos de trabalho do 1.º Serviço e até da antiga Brigada do Sul, com vista à descoberta de jazigos do tipo dos “porphyry coppers” ou outros.
Já muito trabalho foi efectuado com essa finalidade, grande parte muito anteriormente à existência de Geólogos no corpo de técnicos da 1.ª Brigada de Prospecção.
Na reunião a que V. Ex.ª alude, o problema das mineralizações associadas a estas grandes manchas de rochas ígneas foi abordado, a fim de definir se haveria bases mais consistentes para nova actuação, já que especialistas estrangeiros conceituados que, por nossa indicação visitaram a área, não manifestaram pareceres encorajantes quanto à existência de jazigos do tipo dos “porphyry coppers”.
Contou-se, evidentemente, com os conhecimentos adquiridos pelos Geólogos da 1,ª Brigada de Prospecção que estiveram em estágio nos Estados Unidos da América do Norte.
Entendeu-se, como sempre se admitira, que o problema é digno de atenção, mas não se lhe atribui carácter prioritário.
O Geólogo Senhor José António Carvoeiras Goinhas ficou encarregado do seguinte:
a) Apoio geológico aos trabalhos de prospecção, pesquisa e reconhecimento, em curso na Faixa Zincífera Alentejana, os quais se destinam essencialmente à inventariação das existências de minérios de zinco e chumbo (com carácter fortemente prioritário).
b) Estudos geológicos de pormenor na zona SE da grande mancha de “pórfiros e rochas afins da região de Beja” e nas manchas de “rochas graníticas e tonalíticas da região de Évora”, que abrangem, entre outras, as minas de cobre de Sobral, Feijoas, Monte do Trigo, e Castelos, nas quais o 1.º Serviço teve já importante actividade em matéria de prospecção. (A estes estudos não foi dado carácter prioritário, sobretudo por se considerar que os da Faixa Zincífera, dado o atraso em que se encontram, seriam já suficientes para absorver inteiramente o tempo de trabalho do Geólogo. Todavia, dado o interesse manifestado pelo Geólogo em actuar em região com estas características, julgou-se de aproveitar esse interesse. Frisou-se, no entanto, bem claramente, que, no momento presente, o assunto se não apresenta com carácter prioritário. Isto não significa que novos dados não possam modificar rapidamente a situação e fazer convergir para estas áreas a maior parte dos esforços da Brigada).

Quanto ao apoio geológico na Faixa Zincífera, espera-se que ele se traduza na produção de cartas geológicas à escala 1:5 000, não só de áreas já prospectadas por alguns métodos geofísicos e geoquímicos, cuja investigação não tem prosseguido por falta de apoio geológico, mas também de áreas ainda não prospectadas, cujas características geológicas (conhecidas através de anteriores levantamentos pouco pormenorizados) nos levam a atribuir-lhes potencialidade para jazigos de zinco e chumbo.
Não se tem, até ao presente, definido quais as cartas a levantar à escala 1:5 000, confiando-se que o Geólogo saberia estabelecer o programa que mais conviria, dentro da orientação superiormente fixada, tendo em vista a mais rápida resolução do problema.
Uma vez, porém, que não se tem apresentado tal programa, este será oportunamente enviado para cumprimento.
Ainda no que respeita à Faixa Zincífera, espera-se:
a) que se faça o estudo pormenorizado das sondagens N.ºs 1 a 25 da área de Algares de Portel, conforme foi, há longo tempo, determinado;
b) que se apresente o relatório dos estudos geológicos e das sondagens efectuadas na região de Vale do Vargo;
c) que se acompanhe a evolução dos estudos que Intermine Limited efectua na área da região de Portel que lhe foi adjudicada para trabalhos de prospecção, pesquisa e exploração de jazigos minerais.

No que respeita às manchas de “pórfiros e rochas afins da região de Beja” e de “rochas graníticas e tonalíticas da região de Évora”, não se esperam levantamentos às escalas de 1:100 000, 1:50 000 ou 1:25 000, que são da competência dos Serviços Geológicos.

Espera-se, sim, que sejam feitos itinerários atravessando toda a área, segundo esquema previamente estabelecido, para definir as zonas realmente potenciais para os jazigos que se procuram. Demarcadas estas zonas, haverá que fazer levantamentos pormenorizados, à escala 1:5 000 ou de menor denominador.

Repete-se que a este programa não foi dado ainda carácter prioritário.

Só se aceita a distracção do tempo do Geólogo para este programa, quando tenham entrado na normalidade os estudos na Faixa Zincífera

Porto, 5 de Agosto de 1972
O Engenheiro Chefe da 1.ª Brigada de Prospecção
(a) Albertino Adélio Rocha Gomes

O Dr. José Goinhas, após ter recebido este documento desfez-se em desculpas e eu dei o incidente por encerrado, mas a realidade é que o relatório sobre a região de Vale de Vargo, interpretativo da estrutura geológica, com base nas numerosas sondagens que ali tinham sido efectuadas, não surgiu até à data da minha demissão da chefia da 1.ª Brigada de Prospecção.
Também não se verificou o aperfeiçoamento esperado no exame dos testemunhos das sondagens N.ºs 1 a 25 da área de Algares de Portel, como lhe tinha sido determinado.
Quando, em 2-12-1974, o Dr. José Goinhas surgiu em S. Mamede de Infesta acompanhado de todos os outros técnicos superiores da 1.ª Brigada de Prospecção, já com o propósito de prestar apoio ao Director-Geral, que ia pôr à discussão a sua proposta de nova organização da DGMSG, estranhei as referências muito elogiosas que fez às minhas intervenções na sessão que ali se realizou.. (Ver post N.º 77)
Poucos dias depois, sentindo a protecção do Director-Geral, resolveu afrontar-me, insistindo na marcação de uma sondagem na área de Viana do Alentejo, em local de que eu discordava totalmente, por se prever que, dada a grande proximidade de outra já executada, nenhuma informação adicional iria trazer. Como referi no post N.º 80, aceitei que a proposta fosse superiormente apresentada, com as assinaturas de todos os Engenheiros e Geólogos que com ele concordavam e com a minha assinatura de discordância.
Mas as atitudes estranhas do Dr. José Goinhas não ficaram por aqui.
Em Seminário de Geoquímica que se realizou na Universidade de Aveiro, em Janeiro de 1976, para o qual fui convidado pelos Drs. Britaldo Rodrigues e Edmundo Fonseca, apresentei-me como Chefe da 2.ª Brigada de Prospecção do SFM e dei a conhecer a actividade que tinha em curso, sobretudo na Faixa Metalífera da Beira Litoral, com grande incidência no distrito de Aveiro.
O Dr. José Goinhas compareceu também e, com grande surpresa minha apresentou-se como representante da 1.ª Brigada de Prospecção, acrescentando que essa Brigada era também uma criação do Senhor Engenheiro Rocha Gomes!
Em primeiro lugar, não compreendi porque, havendo na 1.ª Brigada um Engenheiro encarregado da prospecção geoquímica e, não sendo o Dr. Goinhas especialista em tal matéria, foi ele indicado para representar a Brigada.
Em segundo lugar, a referência elogiosa não se concilia com a acusação de eu ter ocasionado “enorme prejuízo ao Estado pelas deficiências no planeamento, execução e controle das vastas e delicadas tarefas a cargo da 1.ª Brigada de Prospecção”
Por último, quero assinalar que o Dr. José Goinhas chegou a ser indigitado para Director-Geral, quando FSC foi exonerado.
Não foi investido em tal cargo, mas conseguiu ser nomeado Director-Geral do Gabinete para a Prospecção, Pesquisa e Exploração de Petróleos, quando o cargo ficou vago por falecimento do respectivo titular! Além da sua notória impreparação nos complexos problemas da prospecção de petróleos, é surpreendente que se não tenha preocupado com os prejuízos que seriam de prever na 1.ª Brigada com a sua deserção.

87 – A minha demissão da chefia da 1.ª Brigada de Prospecção. Continuação 6

Continuo a responder à primeira pergunta formulada no post 84, caracterizando os autores da exposição que originou a minha demissão, na sua qualidade de técnicos do SFM:

O Geólogo Vítor Manuel Jesus Oliveira
Ingressou na 1.ª Brigada de Prospecção em Setembro de 1966
Proporcionei-lhe também estágio, durante alguns meses, na zona de S. Domingos da Faixa Piritosa Alentejana, sob a orientação de dois experientes Geólogos ingleses que ali actuavam, integrados na Companhia Mining Explorations (International).
Em 1970-71, foi-lhe concedida bolsa para frequência de Curso de Geologia Aplicada (Opção de Jazigos Minerais) na Faculdade de Ciências de Paris.
Encarreguei-o, principalmente, de dar o apoio geológico aos estudos na Faixa Piritosa Alentejana e aos trabalhos de prospecção que estavam em curso em áreas atribuídas à Secção de Vila Viçosa.
Vítor Oliveira foi, dos três Geólogos que estavam integrados na 1.ª Brigada de Prospecção, à data do vergonhoso documento, aquele que maior presença teve em trabalhos no campo.
Embora modesta, foi positiva a actividade que exerceu, de modo discreto.
As minhas relações para com ele foram sempre muito cordiais, como pode ser demonstrado por correspondência não oficializada sobre temas de serviço, em datas próximas da do infame documento, que ainda retenho no meu arquivo pessoal. Foi, por isso, com a maior surpresa que vi a sua assinatura nesse documento, até porque tinha bem presente a sua recente declaração de que ele e os outros técnicos da Brigada “não me trairiam”! (Ver post N.º 72)
Em princípios de Julho de 1975, visitei com meus alunos da Faculdade de Ciências do Porto, as zonas do Alentejo onde tinham sido obtidos êxitos nos trabalhos de prospecção e pesquisa mineiras que eu lá tinha dirigido. Acompanhavam-me, também, três geólogos seniores da sede do SFM, que eu convidara para tomarem conhecimento local desses êxitos.
No dia 3, quando estava a tomar o pequeno almoço no Café Coelho contíguo ao Restaurante Alentejano, o Senhor Coelho, proprietário do Café, tendo visto chegar o Geólogo Vítor Oliveira e sabendo das nossas boas relações, chamou-lhe a atenção para a minha presença.
Vítor Oliveira, de imediato, se dirige para a mesa em que também se encontrava um dos Geólogos e cumprimenta-o primeiramente.
A seguir, estende a mão para mim e diz: Bom dia, Engenheiro Rocha Gomes! Obviamente que não correspondi ao seu gesto, deixando-o de mão estendida, até que decidiu retirar-se. A minha vontade era esbofeteá-lo como punição pelo infame documento que subscrevera.
Conhecedores dos antecedentes, todos se surpreenderam pela atitude incoerente de Vítor Oliveira, depois dos insultos com que me tinha brindado.
Também o Senhor Coelho ficou estupefacto e eu tive que o informar do mau comportamento para comigo dos engenheiros e dos Geólogos da Brigada, após a Revolução.
Quando foi criada a Carreira de Investigação, Vítor Oliveira conseguiu ser classificado como Investigador Auxiliar e foram-lhe atribuídas funções mais importantes que aquelas que eu desempenhava, apesar de eu ser Investigador Principal.
Numa das reuniões realizadas em Lisboa, presidida por Delfim de Carvalho, na sua qualidade de Investigador Coordenador e na ausência do Director-Geral, que costumava presidir, apesar de não ter obtido classificação de Investigador, um dos temas em análise foi a admissão de mais investigadores.
Nessa reunião, que oportunamente descreverei, manifestei-me no sentido de se definirem prioritariamente os programas a cumprir, para se detectarem as reais necessidades.
Aconselhava, porém, que se procurasse melhorar a preparação dos actuais Investigadores, para se evitarem os erros que vinham sendo cometidos, alguns dos quais estiveram bem patentes na exposição dos trabalhos em S. Mamede de Infesta, quando da comemoração dos 50 anos do SFM.
Declarara eu, também, não ser de aceitar a presença de Geólogo com uma visão limitada dos reais problemas do SFM numa Comissão de Investigadores como representante do SFM, no âmbito da investigação científica.
Quando, na reunião de 2-5-1990, se procedia à leitura da Acta da sessão anterior, o Dr. Vítor Oliveira reage abruptamente, dizendo que apesar do muito respeito que nutria por mim, dada a minha idade, o que estava registado na Acta era uma provocação, pois tal não tinha sido afirmado.
O Director-Geral, que presidia a esta reunião, perante a situação criada, consultou os Investigadores presentes e quase todos concordaram com o Dr. Vítor Oliveira. Dos que tinham ido de S. Mamede de Infesta, apenas um declarou que as palavras que acima registei não tinham sido ditas.
Aconteceu, porém que o Dr. Delfim de Carvalho, a quem a redacção final da Acta tinha sido apresentada, não teve outra alternativa senão confirmar o que eu dissera. Declarou que, a sua qualidade de Presidente o obrigava a estar atento ao que se dizia e por isso confirmava as minhas declarações.
Estes dois acontecimentos revelam bem, não só o carácter de Vitor Oliveira, mas também a atenção dos Investigadores ao que se dizia nas reuniões, ou uma solidariedade para com um colega levada ao extremo.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

86 – A minha demissão da chefia da 1.ª Brigada de Prospecção. Continuação 5

Continuo a responder à primeira pergunta formulada no post 84, caracterizando os autores da exposição que originou a minha demissão, na sua qualidade de técnicos do SFM:

O Geólogo Delfim de Carvalho
É actualmente Administrador da EDM, empresa pública a que mais adiante irei referir-me
Oriundo da família Carvalho, conhecida pelos seus negócios de volfrâmio, nos anos da 2.ª Guerra Mundial e nos que se lhe seguiram.
Esta família tinha afectuosa relação com o Director-Geral de Minas FSC, criada quando FSC chefiara a Circunscrição Mineira do Norte. Da tal relação, resultou o duplo apadrinhamento de Delfim de Carvalho (nascimento e casamento).
Delfim de Carvalho foi o personagem que viajou, em Maio de 1965, com o Director-Geral e comigo, de Lisboa à região de Portel, sem eu ter chegado a saber a sua identidade e em que qualidade nos acompanhava (Ver post N.º 34).
Só em Novembro de 1965, quando apareceu em Beja, para ingressar, como Geólogo, na 1.ª Brigada de Prospecção, fiquei a saber quem era e a sua relação com o Director-Geral.
Para o introduzir na geologia do Sul do País, comecei por lhe proporcionar estágio, na Faixa Piritosa Alentejana, na área da Mina de S. Domingos, sob a orientação de dois experientes Geólogos de Mining Explorations (International), que cumpriam contrato com o Estado, visando a descoberta de jazigos de pirite.
Alguns anos depois, foi-lhe também proporcionado um Curso pós-graduação em Universidade do Arizona, nos Estados Unidos.
Encarreguei-o, principalmente, de melhorar o conhecimento geológico da Região de Cercal-Odemira, com especial incidência nos aspectos estruturais, com o objectivo de conseguir bom apoio às campanhas de prospecção geofísica e geoquímica que iriam projectar-se para a detecção de jazigos de pirite idênticos aos da faixa Piritosa.
Levantamentos litológicos pormenorizados anteriores, à escala 1:5 000, cobrindo uma área de 399 km2, realizados sob minha directa orientação, haviam revelado ambiente geológico idêntico ao da Faixa Piritosa (Ver post N.º 11). Impunha-se aperfeiçoar estes levantamentos.
Dei-lhe instruções no sentido de analisar a possibilidade de as alterações, que eu notara à superfície, terem origem hidrotermal e de, a partir delas, se acrescentar mais um guia útil para a prospecção.
O que eu admitira como hipótese digna de investigação, Delfim de Carvalho tomou como certeza, sem ter feito, ou promovido que se fizessem, os exames laboratoriais que se impunham.
Seguindo um critério pessoal, inteiramente subjectivo, passou a fazer a separação de zonas com diferentes graus de alteração (forte, média, fraca).
Não era, obviamente, essa a separação que eu esperava, mas antes uma definição de halos com diferentes características mineralógicas que constituíssem verdadeiros guias, circundando possíveis jazigos, como consta da literatura sobre esta matéria.
Da sua original separação de zonas de alteração nenhuma contribuição útil resultou para a prospecção.
O Dr. Delfim de Carvalho não dedicou, como lhe competia, a sua maior actividade aos trabalhos de campo, durante os sete anos em que teve presença efectiva na 1.ª Brigada, sob minha chefia (descontados três anos de ausência, em serviço militar e em curso pós-graduação).
A sua actividade mais útil foi a classificação de testemunhos das sondagens que se realizavam quase exclusivamente com apoio em resultados das técnicas geofísicas e no conhecimento empírico dos locais favoráveis à ocorrência dos jazigos, deduzido dos levantamentos litológicos efectuados anteriormente ao seu ingresso na Brigada.
Confiante na especial preparação para prospecção de jazigos de pirite, que teria adquirido, após a sua pós-graduação nos Estados Unidos, aceitei a sua proposta para que se efectuasse uma sondagem na região de S. Luís, exclusivamente com apoio nos seus estudos geológicos.
Ele afirmava ter encontrado afloramentos de determinadas rochas vulcânicas que, segundo consagrado autor de artigo sobre esta matéria, seriam indicações seguras da existência de jazigos.
Esse autor, tão confiante se mostraria da correlação, que até previa moinhos a triturar minério, quando tais rochas eram encontradas. E eu fui nessa cantiga. O furo foi um tremendo fiasco!
Embora pretenda apresentar-se como experiente prospector, a realidade é que a Delfim de Carvalho pouco trabalho original pode ser atribuído.
Refugiou-se mais no gabinete tornando-se exímio em utilizar estudos de outros aos quais adicionava ideias próprias, muitas vezes de carácter fortemente especulativo, para publicações, figurando como autor.
Ainda, sob minha chefia, ele e três outros Geólogos, fizeram publicar no Volume XX – Fascículos 1 e 2 de “Estudos, Notas e Trabalhos do Serviço de Fomento Mineiro”, sem meu conhecimento prévio e sem meu consentimento, artigo intitulado “Observações sobre a geologia do Sul de Portugal e consequências metalogenéticas” com larga reprodução de resultados de trabalhos nos quais pouco ou nada tinham participado.
Julgo ter sido este o primeiro artigo em que são citados na bibliografia, os “relatórios internos”, sem menção dos seus autores. Tal procedimento viria, mais tarde, a ser adoptado em cópias descaradas de estudos de outros, muitos dos quais de minha autoria.
Após a minha demissão da chefia da 1ª Brigada de Prospecção, passou a publicar numerosos artigos, fazendo-se passar por autor de estudos nos quais tivera escassa ou nula intervenção.
São exemplos os artigos sobre a descoberta do jazigo de Neves-Corvo, aos quais me refiro nos posts N.ªs 38 e 41 a 43, com severas críticas aos erros grosseiros neles contidos.
O chamado “jazigo do Salgadinho” é um exemplo da apresentação apressada de um êxito que chegou a ser comparado a Neves-Corvo, mas que não passou de uma ocorrência de mineralização cuprífera descoberta com base em discreta anomalia gravimétrica registada ainda durante a minha chefia e que eu tinha planeado investigar pelo método de polarização induzida, estando porém aguardando a aquisição de aparelhagem adequada.
Pelo que chegou ao meu conhecimento, Delfim de Carvalho, ansioso por se creditar com um êxito cuja autoria reivindicava, projectou numerosas sondagens, desobedecendo às boas regras da prospecção e precipitando-se a promover a jazigo uma ocorrência, cujo valor industrial não ficou demonstrado.
Durante os 7 anos em que exerceu funções sob minha chefia, as nossas relações foram sempre cordiais e era de meu conhecimento que, poucos dias antes de ter subscrito o infame documento a recusar a continuidade da minha chefia da 1.ª Brigada de Prospecção, fizera as melhores referências a meu respeito a um seu Colega que sabia ser meu amigo.
Quanto às atitudes do Director-Geral, seu padrinho, que estavam a dificultar a obtenção de êxitos no SFM, mostrava-se também muito crítico, pretendendo demonstrar que as suas opiniões não eram influenciadas pelas relações entre eles existentes.
Como prémio pela sua traição para comigo, foi nomeado Sub-Director Geral, sendo-lhe confiada a direcção dos Serviços Geológicos de Portugal!
Quando foi criada na DGGM a Carreira de Investigação, à qual eu fui o único Engenheiro de Minas a concorrer, conseguiu ser classificado como Investigador Coordenador, por um júri externo, constituído sobretudo por Geólogos professores universitários.
Atribuo tal classificação à sua filiação politico-partidária oportunista, porquanto o seu currículo estava longe de se aproximar do meu e eu fui classificado em 3.º luigar!
Em conversa com um dos membros do júri que, como eu, participava em reunião de Engenheiros de Minas realizada em Espinho, falei-lhe neste Geólogo e ele mostrou não o conhecer.
Lembrei-lhe então a classificação em que interveio e revelei-lhe conhecê-lo eu suficientemente para considerar que não tinha características de investigador, não merecendo sequer ser aceite nessa carreira, não só pelo seu fraco currículo, mas sobretudo pela sua desonestidade científica.
Visivelmente perturbado, pois já teria outras razões para perceber o seu erro, afastou-se dizendo: Cometem-se muitas injustiças!
Delfim de Carvalho, depois de ter contribuído para a destruição do SFM, ao subscrever o vergonhoso documento a que tenho vindo a referi-me e ao desertar da 1.ª Brigada de Prospecção, sem se preocupar com os prejuízos que a sua saída poderia ocasionar às “vastas e delicadas tarefas” desta Brigada, conseguiu ser nomeado Administrador da EDM (Empresa de Desenvolvimento Mineiro), cargo que actualmente mantém.
Esta Empresa, derivada da Sociedade Mineira de Santiago, nacionalizada após a Revolução de Abril de 1974, não teria razão de existir se o Serviço de Fomento Mineiro tivesse tido a evolução que eu tinha proposto e que o Secretário de Estado da Indústria e da Energia, Torres Campos, em Dezembro de 1974, também defendia (Ver posts N.ºs 78 e 79)
Embora a sua designação seja de Desenvolvimento Mineiro, pelo que chega ao meu conhecimento, a sua actividade tem-se restringido à recuperação ambiental de zonas mineiras onde a ex-Direcção-Geral de Minas, por incapacidade de uma eficaz fiscalização, permitiu grandes atentados ao ambiente, que o Decreto-lei de 1930 já severamente condenava.
Para esta recuperação tem contratado empresas especializadas, não tendo, portanto, actividade própria no terreno.
O ex-SFM estaria apto a realizar tudo isto e muito mais, como ficou demonstrado pelo seu passado, sobretudo no Sul do País, se Delfim de Carvalho e os outros técnicos superiores da 1.ª Brigada de Prospecção não tivessem contribuído poderosamente para a sua destruição
É minha opinião, que a EDM não tem justificação, como não têm também justificação as instalações de Alfragide. Nos amplos edifícios de S. Mamede de Infesta e nos terrenos ainda disponíveis, poderia centralizar-se toda a actividade directiva e laboratorial de um verdadeiro Instituto de Investigação dos Recursos Minerais de Portugal.
Os autores de tão grandes desperdícios de dinheiros públicos deveriam ser responsabilizados pelos seus esbanjamentos, num país que se proclama de pobre, mas que, mais propriamente, se classificaria de empobrecido por gente medíocre que tem ascendido a cargos directivos sem a devida preparação. Não somos, afinal, um País rico em minas pobres. Somos um país rico em jazigos minerais, mas empobrecido por incompetência dos responsáveis pela administração dessas riquezas, que entregam, a troco de quase nada, a estrangeiros para delas se aproveitarem.
Pelo carácter ambicioso e pouco escrupuloso, que tem revelado e pelas suas ligações afectivas ao Director-Geral, cuja permanência no cargo eu tinha posto em causa, considero Delfim de Carvalho um dos principais autores do texto que levou à minha demissão da chefia da 1,ª Brigada de Prospecção.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

85 – A minha demissão da chefia da 1.ª Brigada de Prospecção. Continuação 4

A seguir, respondo à primeira pergunta formulada no post 84, caracterizando os autores da exposição que originou a minha demissão, na sua qualidade de técnicos do SFM:

1 - Engenheiros
~
1.1 - Eng. José Augusto Marques Bengala
Ingressou no SFM em Julho de 1959, tendo passado a colaborar nos levantamentos pelos métodos magnético, de polarização espontânea e de resistividade, que se encontravam em curso na Brigada de Prospecção Geofísica (BPG), segundo projectos por mim apresentados, na qualidade de Chefe da Brigada do Sul.
De Maio de 1960 a Maio de 1961, esteve, por minha indicação e com o meu constante apoio, estagiando na Companhia Lea Cross Geophysical Company, com o objectivo principal de se introduzir a técnica gravimétrica no SFM (Aconselho vivamente a consulta do post N.º 14 – A importância da prospecção gravimétrica no SFM – para se avaliar a “gratidão” do Eng.º Bengala por lhe ter dado a honra de o introduzir na técnica que mais êxitos havia de proporcionar ao SFM, em toda a sua existência).
Registo que, neste período de estágio, o Eng.º Marques Bengala não estava integrado na Brigada do Sul, que eu chefiava, dependendo do Chefe da BPG, que não tinha capacidade para lhe dar apoio.
Foi através de proposta por mim elaborada, mas assinada pelo Chefe da BPG, que o Director do SFM consentiu, finalmente, ao fim de 10 anos de insistência minha, na aquisição do primeiro gravímetro.
Quando o gravímetro chegou, foi grande a minha surpresa ao verificar que o Eng.º Bengala pouco tinha aprendido, durante o seu estágio.
Nem sequer sabia calibrar o aparelho para as latitudes em que iria ser usado!
Manifestou-me a intenção de se dirigir a Aljustrel, onde a Lea Cross estava então actuando, para lhe resolver esse “transcendente” problema.
Pedi-lhe o livro de instruções do gravímetro. Em poucos minutos e com auxílio de uma simples chave de fenda, calibrei o gravímetro para as latitudes das áreas do Alentejo, onde iria ser aplicado.
O Eng.º Bengala passou, então, a ter a seu cargo essencialmente a aplicação do método gravimétrico e, para isso, contou sempre com o meu incondicional apoio.
Verifiquei que, no respeitante a nivelamento, que é operação fundamental em gravimetria, ele nada sabia! Tive que ser eu a preparar as cadernetas para serem impressas nas oficinas do Diário do Alentejo, em Beja e a ensinar pessoal assalariado já possuidor de algum conhecimento de topografai, no nivelamento geométrico rigoroso.
Acompanhei, de perto, os levantamentos gravimétricos feitos no âmbito da BPG, mas sob projecto da Brigada do Sul, que eu chefiava, para assegurar a sua qualidade.
O Chefe da BPG, já fisicamente debilitado por acidente vascular de que estava recuperando, aceitava agora de bom grado a minha colaboração. Infelizmente, viria a falecer pouco tempo depois.
A chefia da BPG foi, então, atribuída ao Engenheiro da Brigada do Sul que estava, por anterior Ordem de Serviço do Director, encarregado do estudo dos jazigos de manganés.
Foi mais uma intervenção negativa do Director na actividade da Brigada do Sul, que me obrigou a fazer exposição ao Director-Geral, declarando tal nomeação, ilegal e contrária ao interesse do SFM
Foi, nessa altura, que me chegaram de Lisboa recados sobre a razão que os Chefes sempre têm (Ver post N.º 23)
A minha exposição ao Director-Geral, com cópia ao Director do SFM, não teve consequências. A actividade da BPG manteve o ritmo lento que a caracterizara, mas, felizmente, por pouco tempo.
Em princípios de 1964, houve profunda alteração na organização da DGMSG, que conduziu à criação de um novo departamento do SFM, denominado 1.º Serviço, encarregado da Geologia e da Prospecção Mineira, em todo o território metropolitano português.
Fui encarregado da chefia deste departamento.
O Eng.º Bengala foi integrado nesse novo Serviço ficando legalmente dependente da minha orientação técnica.
A sua fraca preparação, sobretudo no âmbito das Matemáticas e o pouco interesse que sempre manifestou em progredir na interpretação dos resultados da aplicação da gravimetria, levaram-me a assumir, eu próprio, esta tarefa.
A interpretação das cartas gravimétrica esteve sempre a meu cargo.
Registo que, a gravimetria, dada a sua enorme importância na descoberta de jazigos minerais, era a matéria que eu mais desenvolvia nas aulas de Prospecção Mineira que ministrei, durante 20 anos, aos alunos de Geologia da Faculdade de Ciências do Porto, também durante dois anos na Faculdade de Engenharia do Porto e ainda num Curso de Mestrado na Universidade de Braga.
Registo que as minhas relações pessoais com este colega foram sempre cordiais, sendo, com grande surpresa que vi a sua assinatura num documento de tão baixo nível.
Em post a apresentar oportunamente, revelarei como, após a minha demissão da chefia da 1.ª Brigada de Prospecção, foram possíveis erros grosseiros, na aplicação desta técnica, os quais estão bem patentes em artigos publicados

1.2 - Eng. Vítor Alvoeiro de Almeida
Ingressou na DGMSG em Janeiro de 1960.
Até Novembro de 1962, exerceu funções na Repartição de Minas.
Em Novembro de 1962, foi destacado para o Serviço de Fomento Mineiro, tendo começado por ficar integrado na Brigada do Sul, sob minha chefia.
Considerando que a BPG, por falecimento do Engenheiro que a chefiava, estava desfalcada de técnicos no domínio da prospecção magnética, propus que este Engenheiro fosse destacado para a BPG, para se tornar um especialista em tal matéria.
A sugestão não foi aceite, mas na esperança de que a razão viesse a prevalecer, fui industriando o Engenheiro Alvoeiro na teoria da prospecção magnética, fornecendo-lhe literatura apropriada.
Comecei por lhe facultar uma tradução do livro elementar da autoria de A. Nippoldt, editado em 1930, “Verwertung magnetischer Messungen zur Mutung “, cuja tradução tinha sido efectuada por meu irmão licenciado em Germânicas, com a minha colaboração.
Em meados de 1963, deu-se a alteração na Organização do SFM, a que me referi no post N.º.25, ficando a meu cargo toda a actividade de prospecção mineira do SFM, no território metropolitano português.
O Engenheiro Alvoeiro, então já com alguma preparação no método magnético, foi encarregado de dar continuidade aos trabalhos que desde a década de 50 se encontravam em curso sobretudo no Alentejo.
Tal como acontecera com o Engenheiro Bengala, não lhe reconheci qualidades de investigador. A sua preparação técnica pouco ultrapassou as fases iniciais do método, tendo eu suprido as suas insuficiências, através dos estudos aprofundados que fiz, como pode ser comprovado pelos meus ex-alunos da cadeira de Prospecção Mineira que regi em Universidades.
Lamentavelmente, também este Engenheiro fez publicar, após a minha demissão da 1.ª Brigada de Prospecção uma carta magnética, à escala 1:25 000 (uma das várias que se preparavam por minha iniciativa e sob minha orientação), com uma Nota Explicativa, contendo erros grosseiros inadmissíveis. Esta Nota Explicativa constou de um ponto de exame aos meus alunos para que detectassem os seus erros.
Devo realçar as boas relações que sempre mantive com este Colega e consequentemente o meu enorme desapontamento ao ver a sua assinatura no vergonhoso documento.

1.3 - Eng. Manuel de Campos Nolasco da Silva
Ingressou na DGMSG em Junho de 1960.
Começou por exercer funções na Repartição de Minas,
Em Março de 1963, foi destacado para o SFM, passando a ficar integrado na 1.ª Brigada de Prospecção.
Confiei-lhe os métodos eléctricos e electromagnéticos de prospecção geofísica.
Transmiti-lhe a minha experiência nestas técnicas, sobretudo no método Turam, que sob minha orientação já tinha sido aplicado em vastas áreas, quer da Faixa Piritosa Alentejana, quer de outras áreas do Sul e do Norte do País.
Não sendo brilhante, foi satisfatória a sua actuação.
O meu relacionamento com este Colega foi, também, sempre cordial, embora mais distanciado do que o que se verificava com os Colegas antecedentes, dadas as divergências com as suas práticas politico-religiosas, que me pareciam hipócritas. Por isso, não deixei de estranhar também a sua ingratidão e o comportamento hostil para comigo.
Como prémio da sua vergonhosa atitude para comigo, este Colega, em “reestruturações” que ocorreram posteriormente, viria a ser nomeado Chefe de Divisão, atingindo, portanto, categoria superior à minha!

1.4 - Eng. Vítor Velez Pereira Borralho
Conheci este Colega, no início da década de 60 do século passado, quando ele estagiava na Lea Cross Geophysical Company que, actuava na zona mineira de S. Domingos, com vista à descoberta de concentrações de pirite que permitissem resolver o angustiante problema de falta de reservas com que se debatia a empresa exploradora do jazigo.
Em 1964, fiz-lhe convite para se integrar na 1.ª Brigada de Prospecção, para aproveitar a experiência, que ele teria adquirido durante os anos de permanência na Companhia inglesa, em Portugal e na Inglaterra, sobretudo na técnica geoquímica, que eu pretendia introduzir na Brigada.
O convite foi aceite e a proposta que apresentei ao Director do SFM teve bom acolhimento.
O Engenheiro Borralho começou por prestar colaboração em métodos geofísicos, enquanto se faziam os preparativos para a instalação de um pequeno Laboratório em edifício contíguo ao ocupado pela Brigada, o qual estava devoluto e fora possível alugar.
O Engenheiro Borralho encarregou-se dessa instalação e da preparação do pessoal, tanto na colheita de amostras de solos e de sedimentos de linhas de água, como nas análises geoquímicas, geralmente para metais pesados, a frio, pelo método da ditizona.
Este pequeno Laboratório revelou-se de tal eficiência que eu o aproveitei para análises de amostras colhidas em áreas do Norte do País, principalmente na Faixa Metalífera da Beira Litoral.
Em 1970-71, foi-lhe proporcionada a frequência de um Curso de “Mineral Chemistry” na Universidade de Birmingham.
Eu considerava o Engenheiro Borralho o mais eficaz de todos os técnicos superiores da 1.ª Brigada e cheguei a pensar nomeá-lo chefe desta Brigada.
Não concretizei a ideia, perante a insistência de todos os técnicos superiores para que eu mantivesse essa chefia, e também perante as informações que me chegavam sobre o seu mau carácter.
A Revolução de 25 de Abril de 1974 deu-lhe oportunidade de tirar proveito da qualidade de político de esquerda com que se apresentou.
Chegou a ser proposto para Governador Civil de Beja e, caso conseguisse o cargo, nomearia o Geólogo José Goinhas - vice-Governador
Eu tinha combinado encontro, no dia 21-8-1974, em Vila Praia de Âncora, onde ele gozava férias, para lhe dar a conhecer os trabalhos em curso na região de Caminha, embora o método geoquímico não tivesse aqui a sua participação.
Tal visita não pôde, porém, realizar-se, por motivo da sua deslocação a Lisboa, para entrevista com Ministro, relacionada com a possível nomeação como Governador Civil de Beja.
Não foi, na realidade, investido nessas funções, mas teve outra compensação pela sua militância. Foi designado Administrador de Minas de Aljustrel, assim abandonando a Brigada, sem se preocupar com o prejuízo que a sua deserção poderia ocasionar às “vastas e delicadas tarefas” desta Brigada.
O cariz, marcadamente politico, do vergonhoso documento acusatório que subscreveu e determinou a minha demissão da chefia da Brigada, levou-me a atribuir –lhe o principal papel na redacção desse documento.
Anos mais tarde, durante o “regabofe” que se instalou na DGMSG, com reestruturações que visaram apenas resolver situações pessoais, sem atender a currículos (houve promoções por currículo negativo!) ou o real interesse do SFM, o Eng.º Borralho viria a ser nomeado Director de Serviço.
A vaga que ocupou tinha-me sido oferecida por um novo Director do SFM, retornado de Moçambique, que se encontrava sem emprego (o Colega que, em 1965, viera propositadamente à Metrópole, para no Serviço por mim chefiado, aprender prospecção. Ver post N.º 44).
Recusei esta promoção por ela ter sido condicionada (quase inacreditável!) à minha renúncia na realização de trabalho de campo!
Eu viria, anos mais tarde, a sofrer as consequências desta recusa.
Instalado em categoria superior à minha, o Engenheiro Borralho viria a revelar o seu verdadeiro carácter, em circunstâncias que oportunamente descreverei...
Confirmou-se o ditado: Se queres ver o vilão põe-lhe a varinha na mão!

Aos Engenheiros Bengala, Alvoeiro e Nolasco, autorizei que apresentassem comunicações ao CHILAGE (Congresso Hispano-Luso-Americano de Geologia Económica) que, em 1971, se realizou em Espanha e em Portugal, sobre a aplicação em Portugal das técnicas geofísicas que ficaram a seu cargo, independentemente de terem sido eles os autores dessa aplicação. Embora não figurasse como co-autor, a mim se deveu o principal papel na aplicação de todas essas técnicas.
Também participei na redacção de alguns textos.
Por outro lado, na minha comunicação ao CHILAGE, sobre a aplicação do método magnético na prospecção de jazigos de tungsténio na região de Caminha, fiz figurar como co-autor o Engenheiro Alvoeiro de Almeida, apesar da sua nula contribuição, apenas por ter sido ele a instalar a Secção de Caminha e a dirigir os seus trabalhos numa fase inicial.

Continua…

sábado, 25 de julho de 2009

84 – A minha demissão da chefia da 1.Brigada de Prospecção. Continuação 3

Em coerência com os princípios democráticos, de que tão repetidamente se mostraram fervorosos adeptos, os signatários da exposição que originou a minha demissão da chefia da 1.ª Brigada de Prospecção deveriam ter solicitado inquérito aos meus actos, e o Director, que tão bom acolhimento deu à exposição, de imediato, deveria ter mandado instaurar rigoroso inquérito, de preferência por entidade estranha à DGMSG, que desse garantias de isenção.
Isso poderia ter conduzido à exclusão da chamada Comissão de Saneamento, uma vez que nela participava um ex-Director do SFM que não tivera bom relacionamento comigo.

A leitura atenta da exposição suscitou-me as seguintes perguntas, que eu teria formulado, se tivesse sido instaurado o inquérito em que, obviamente, me deveria ser concedido direito de defesa:

1 - Quem são (ou eram) os signatários da exposição e qual a sua participação nas “vastas e delicadas tarefas” a que se referem?

2 – Porque não constam da exposição as assinaturas dos trabalhadores assalariados, sendo estes a grande maioria do pessoal da Brigada, com funções não menos importantes que as de muitos dos contratados?
Não repararam os contratados, agora travestidos de democratas, que a sua actividade muito dependia do trabalho destes assalariados?
Não repararam estes recém-convertidos à democracia, que estavam a usar procedimento típico do regime que sempre apoiaram, e do qual agora pretendiam mostrar-se opositores?

3 - Quais “os enormes prejuízos que eu ocasionei ao País, no planeamento, execução e controlo dessas vastas e delicadas tarefas”?

4 - Se sentiam tanto a falta da minha chefia, censurando uma ausência que tive da sede da Brigada durante 6 meses, porque pedem o meu afastamento definitivo?
Porque, tendo o Director dado plena satisfação a “birras de meninos malcriados” sentiu necessidade de determinar que eles continuassem a enviar-me relatórios, para que eu “com a minha experiência e conhecimentos” o pudesse auxiliar na condução dos estudos da 1.ª Brigada de Prospecção?

5 – Tendo previsto “naturais consequências” da minha demissão da chefia da 1.ª Brigada de Prospecção, porque não assumiu o Director do SFM toda a responsabilidade envolvida, procurando o apoio do Director-Geral?
Se as consequências a esperar seriam benéficas para o SFM como insinuavam os subscritores da exposição, uma vez que se propunham acabar com as deficiências de planeamento, execução e controlo das vastas e delicadas tarefas a cargo da 1.ª Brigada de Prospecção, porque manifestou o Director do SFM preocupação com essas consequências?

6 - Quais as ideias novas que apresentaram nas reuniões em Beja, que eu não tive na devida consideração?

7 - Quais as promessas que não cumpri? Que mérito atribuíram às minhas insistentes propostas de revisão salarial, para evitar a deserção de pessoal fundamental aos trabalhos, em muitos casos por mim directamente preparado, ao longo de muitos anos?
Esqueceram a informação que lhes prestei de ter mostrado ao Director-Geral o meu grande desalento, por não terem seguimento as minhas propostas de aumentos de salários, tendo chegado, em desabafo, perante as dificuldades que enfrentava, a apresentar a hipótese de abandonar o SFM?
Esqueceram que o Director-Geral reagira, como se fosse dono da DGMSG, dizendo que se eu quisesse ir embora, fosse, demonstrando assim um total desinteresse pela eficácia do SFM (Ver parte final do post N.º 24, sobre a importância da formação profissional)?
8 - Quem foi sempre o principal prejudicado na remuneração?
9 – Tendo tido conhecimento (Geólogos e Engenheiros da 1.ª Brigada de Prospecção residentes em Beja) da Resolução do Conselho de Ministros sobre a indispensabilidade de assegurar o normal funcionamento dos Serviços, e estando nela proibidas, reuniões rotuladas de contribuições para a reestruturação dos Serviços, durante o tempo de trabalho, porque decidiu esse reduzido grupo de funcionários, sem autorização do seu Chefe e sem que lhes fosse reconhecida idoneidade para iniciativas sérias em tal matéria, assumir atitude indisciplinada como representante da Brigada, em reunião conjunta com os Serviços Geológicos de Portugal?

10 – O que é que justificou a sua deslocação a S. Mamede de Infesta, em 2-12-1974, onde ia realizar-se uma reunião sobre reestruturação, presidida pelo Director-Geral, portanto, dentro de toda a legalidade, quando já se tinham antecipado com a sua a proposta de 16-12-1974, que desprezara as disposições da Resolução do Conselho de Ministros?

11 – Porque, apresentaram a proposta de 16-12-1974 e declarado que, eu jamais dera contribuição para a reestruturação da DGMSG, e depois aderiram tão abertamente a uma proposta completamente diferente da sua, que havia sido (mal) copiada da minha de 12-1-1975, onde eu propusera a criação de um Instituto Geológico e Mineiro, com autonomia administrativa e financeira que englobaria o Serviço de Fomento Mineiro e os Serviços Geológicos - proposta que não tivera a mínima aceitação, quando foi apresentada. E porque é que o Dr. Delfim de Carvalho, aceitou fazer parte da Comissão Instaladora de um Instituto denominado de Geologia e Minas?

12 - Quais os sucessos que se obtiveram na Brigada, após o meu afastamento da sua chefia?

13 – Como explicam “as minhas incompatibilidades com a maioria do pessoal da DGMSG” com a grande homenagem que me foi feita por professores universitários, meus ex-alunos propositadamente vindos de todo o País e alguns destacados funcionários técnicos do SFM, quando me aposentei, uma vez que me caracterizavam como “incapaz das mais elementares regras de convivência humana”?
Como explicam que, passados 19 anos da minha aposentação, a incapacidade que terei demonstrado “para as mais elementares regras de convivência humana” se concilie com a maneira afectuosa como sou recebido, nas minhas frequentes visitas ao Laboratório de S. Mamede de Infesta, quer pelo Director, quer pela grande maioria dos funcionários do meu tempo que ainda lá permanecem, quer ainda por novos técnicos que ingressaram no SFM?
Como explicam também os convívios regulares que mantenho com eles, em almoços de confraternização e noutros encontros em datas festivas?

Em próximos darei respostas a estas perguntas.

sábado, 18 de julho de 2009

83 – A minha demissão da chefia da 1.ª Brigada de Prospecção. Continuação 2

A seguir, transcrevo a exposição do pessoal contratado da 1.ª Brigada de Prospecção, à qual me referi, em posts anteriores:

“Ex.mo Senhor Director do Serviço de Fomento Mineiro

A culminar a deterioração progressiva das relações entre o Sr. Engenheiro Chefe do 1.º Serviço, que acumula a chefia da 1.ª Brigada de Prospecção, e os engenheiros e geólogos desta Brigada, foi recebido por cada um destes técnicos um ofício, datado do dia 2-1-75, cuja fotocópia se anexa.
Este ofício é mais uma demonstração do carácter autocrático do Sr. Eng.º Chefe do 1.º Serviço que o levou, ao longo do tempo, a incompatibilizar-se com a quase totalidade dos técnicos da D.G.M.S.G. e com a maioria do restante pessoal. É também prova evidente de um espírito antidemocrático que se manifesta por uma incapacidade total de se adaptar às mais elementares regras de convivência humana.
Acusam-se os técnicos desta Brigada da utilização “ilícita e abusiva” do nome da Brigada na sua participação para a proposta de alteração ao organigrama da D.G.M.S.G., usando uma linguagem imprópria que este pessoal não merece. Esta acusação é infundada, profundamente injusta e representa uma deturpação mal intencionada do espírito que norteou a tomada de posição da Brigada, que foi o de efectivamente participar construtivamente na reestruturação de um Serviço que é o de todos nós. O Sr. Eng.º Chefe do 1.º Serviço é que nunca esteve interessado em participar em qualquer discussão, e nunca concretamente apresentou qualquer alternativa para o projecto de reestruturação proposto pelo Sr. Director-Geral.
O que efectivamente se passou foi a realização em Beja de uma reunião de delegados de todo o pessoal desta Brigada, no dia 16-12-1974, onde foi discutida e aprovada a proposta deste núcleo que mais tarde foi aceite pelos Serviços Geológicos de Portugal, tendo-se por esta via chegado a uma proposta comum. Contestar este processo, usando meios de intimidação para obter uma submissão total do pessoal sob as suas ordens ao seu ponto de vista é que nos parece ser uma abusiva coarctação das liberdades fundamentais, e um flagrante atentado às regras democráticas instituídas no nosso país.
O Sr. Eng.º Chefe do 1º Serviço, aliás, desde há muito tempo se tornou notado pelas suas atitudes que culminaram com a presente tomada de posição
.
Escudado numa discutível dedicação à causa do seu Serviço, usou das maiores prepotências, evitando o contacto dos seus subordinados com os chefes hierárquicos, não se preocupando com a promoção dos técnicos dele dependentes, antes alimentando falsas esperanças ao pessoal não técnico quanto à melhoria da sua situação, estando muitos a sofrer as consequências nefastas das suas promessas.
Em determinada fase da sua vida, aquele técnico foi viver para o Porto, sede do Serviço de Fomento Mineiro, não abdicando no entanto da chefia da Brigada que deixara em Beja. Este procedimento veio a causar enorme prejuízo ao Estado, não só pelos problemas de ordem burocrática e administrativa de vária ordem, mas principalmente pelas deficiências no planeamento, execução e controle das vastas e delicadas tarefas a cargo desta Brigada.
A Brigada tem pois sido, nos últimos anos, telecomandada do Porto em cadência monocórdica, interrompida esporadicamente por vindas irregulares a Beja onde se realizaram reuniões cada vez mais espaçadas: casos houve, em que o espaçamento chegou a 6 meses. Precisamente nestas reuniões evidencia-se o espírito ditatorial do Sr. Eng.º Chefe do 1.º Serviço que impõe as suas ideias, cerceando qualquer tentativa de discussão dos problemas pelo uso de um voto de qualidade, por ele mesmo instituído. Sempre que se pretende lançar ideias novas, elas encontram, quase sistematicamente oposição, ou não são pura e simplesmente tomadas em linha de conta, resultando quebra de entusiasmo com consequências nefastas evidentes no rendimento do Serviço.
Ultimamente chegou-se ao ponto de as ordens serem dadas por ofício, evitando, portanto, o contacto com os seus técnicos.
A sua recusa em participar na reestruturação e ao mesmo tempo a tentativa de impedir que o pessoal sob as suas ordens se interessasse por tal, é atitude particularmente grave que tem que ser encarada como manobra reaccionária que severamente repudiamos.
Conscientes dos perigos que podem resultar da manutenção de uma pessoa com espírito tão profundamente antidemocrático na chefia de um departamento de grande responsabilidade, o pessoal contratado da 1.ª Brigada de Prospecção sente, por este motivo e pelos atrás expostos, que não mais poderá continuar a trabalhar sob as suas ordens e pede, por decisão unânime, a sua substituição imediata do cargo de Chefe da 1.ª Brigada e que seja revista superiormente a sua qualidade de Chefe do 1.º serviço. Só assim será assegurada a participação plena e confiante de todo o pessoal no desempenho das tarefas que lhe forem confiadas.”
Beja, 8 de Janeiro de 1975
A seguir, indico as assinaturas que figuram no documento, pela ordem em que lá se encontram
:

José Augusto Marques Bengala
Vítor Alvoeiro de Almeida
Manuel de Campos Nolasco da Silva
Vítor Velez Pereira Borralho
João Serra Magalhães
Francisco José Sobral Soares
Vítor Manuel Jesus Oliveira
José Goinhas
Delfim de Carvalho
Manuel Virgínio Ferreira Camarinhas
Alfredo Ferreira
José Coelho da Silva Gameiro
José Francisco Alves Albardeiro
Ilídio António Concórdia Riço
Manuel Eduardo Chagas
José António Janeiro
Jerónimo de Jesus Salgueiro
João Joaquim
António Francisco Peleja
Luís Augusto Alves Albardeiro
João José Jardim
Joaquim José Nifrário Pires
Luís Sebastião Luzia
Francisco Elisiário Afonso
José Maria Monteiro

É o seguinte o teor do meu ofício a que alude esta exposição:

“Aos Senhores Engenheiros e Geólogos da 1.ª Brigada de Prospecção residentes em Beja:
Tenho notado, ultimamente, que alguns de V. Ex.ªs vêm efectuando deslocações para fora da sua zona de trabalho, em funções que não se relacionam directamente com o trabalho que lhes está distribuído, com manifesto prejuízo da actividade da Brigada, sem que me tenha sido pedida autorização ou sequer me tenha sido prestada informação, ainda que “a posteriori”.
Acabo também de tomar conhecimento de uma “Proposta de alteração do Organigrama da Direcção-Geral de Minas e Serviços Geológicos, datada de 16-12-1974,não assinada, mas apresentada como tendo sido elaborada pelos “Serviços Geológicos de Portugal” e pela “1.ª Brigada de Prospecção do Serviço de Fomento Mineiro”.
Cumpre-me informar:
a) Toda a ausência fora da área normal de trabalho, verificada sem meu prévio conhecimento e sem que, para ela, me seja apresentada, em tempo oportuno, justificação aceitável, será anotada como falta injustificada;
b) A utilização de meios de transporte pagos pelo Estado, em deslocações para fora da área normal de trabalho, não por mim autorizadas, será considerada irregular;
c) Não autorizei V. Ex.ªs a apresentarem-se, para a elaboração de qualquer proposta de alteração do Organigrama da Direcção-Geral de Minas e Serviços Geológicos, em nome da 1.ª Brigada de Prospecção do 1.º Serviço, cuja chefia acumulo, considerando, portanto, ilícita e abusiva a qualificação desta Brigada como co-autora da proposta acima referida.
S. Mamede de Infesta, 2 de Janeiro de 1975
O Engenheiro Chefe do 1.º Serviço de Fomento Mineiro
Albertino Adélio Rocha Gomes


O cariz vincadamente político deste documento levou-me a não lhe atribuir grande importância, na convicção de que, se da sua análise na Comissão de Saneamento nada resultasse, noutros departamentos governamentais seria feita justiça.
O Director do SFM já havia tentado comprometer-me perante o MFA (Movimento das Forças Armadas responsável pela Revolução de 25 de Abril) no caso do “Ouro de Vila Velha de Ródão” (ver post N.º 70).
Ele, que devera a nomeação para o cargo, não a competência, mas exclusivamente ao seu alinhamento político-religioso com o regime ditatorial de Salazar-Caetano, mostrava-se agora grande democrata, confundindo, porém, indisciplina.com democracia
Os Geólogos e os Engenheiros residentes em Beja, que em todas as eleições, durante o regime de Salazar-Caetano, nunca falharam, com o seu voto, o apoio ao regime vigente, quiseram seguir o exemplo do Director, mostrando-se igualmente grandes defensores da democracia, mas confundindo também indisciplina com democracia.
Todos eles sabiam da minha discordância com esse regime e que, coerentemente, embora correndo grave risco, nunca nele votei. Posso até acrescentar que me chegaram recados de que informadores da PIDE procuraram saber porque, sendo eu, na cidade, um dirigente de importante Organismo do Estado, não tinha ido apoiar com o meu voto o regime em vigor.
Lembro, a esse respeito, a conversa com o Director-Geral em 1965, em viagem para o Alentejo, na qual ele se fez acompanhar do afilhado Delfim de Carvalho, ainda na qualidade de finalista do Curso de Geologia (Ver post N.º 34).

Com desalento, veio à minha memória, o célebre verso, nos Lusíadas de Camões: "Entre os portugueses, traidores houve algumas vezes”.

Os Engenheiros e os Geólogos da 1.ª Brigada de Prospecção tinham esquecido a sua insistência para que eu mantivesse a chefia desta Brigada, por não aceitarem que um deles fosse eleito Chefe, como eu tinha sugerido, visto não se entenderem bem uns com os outros. (Ver post N-º 72)
Esqueceram também o parecer que, por unanimidade emitiram, em Maio de 1974, de eu ser o técnico indicado para dirigir o Serviço de Fomento Mineiro e até a Direcção-Geral de Minas. (Ver também post 72).
E o Geólogo Dr. Vítor Oliveira também se não recordaria da afirmação que fizera em Vila Viçosa, em fins de Novembro de 1974. Então, mostrando-se indignado, quando o confrontei com a minha suspeita de que estaria a apoiar o Director-Geral, que passara a efectuar frequentes visitas à Brigada, reagiu dizendo que ele não me trairia!

Confiante de que justiça seria feita, tão óbvia era a falsidade das afirmações contidas no hediondo documento, a minha preocupação consistia na reconstituição da 1:ª Brigada de Prospecção, com exclusão dos cabecilhas da rebelião, que facilmente seriam identificados, em inquérito que se promovesse.
As minhas suspeitas incidiam sobre todos os Geólogos, sobretudo sobre o afilhado do Director-Geral e sobre um ou dois dos Engenheiros.
Quanto ao restante pessoal, admiti sempre que se terá deixado intimidar pelas fortes pressões e ameaças a que terá sido submetido.
Fiz exposições circunstanciadas para membros do Governo, para o Provedor de Justiça, para as Comissões de Trabalhadores que se foram constituindo, acentuando a óbvia correlação do documento com a fraude no preenchimento dos boletins itinerários superiormente aconselhada e questionando se a perda de 30% nos proventos dos funcionários contratados, estava a verificar-se, como tinha previsto um desses funcionários, caso se desse cumprimento à Ordem de Serviço que foi posta em vigor.
Os resultados foram decepcionantes! Os membros do Governo e a Provedoria da Justiça pareciam não perceber a importância do assunto em causa.
As Comissões de Trabalhadores andavam mais preocupadas em conseguir melhores salários e outras regalias do que em evitar a destruição que estava a iniciar-se de um Organismo de criação de riqueza, que era a razão dos seus empregos.
Sem o perceberem, estavam a matar a galinha dos ovos de ouro!
Ainda tentei colocar o assunto em tribunal, baseado no crime de atentado à minha honra, mas o advogado experiente, que consultei, dissuadiu-me de avançar, perante a anarquia que reinava no País, naquele período revolucionário que se prestava a todas as arbitrariedades.
Além disso, o facto de eu ter sido prejudicado durante 11 anos, por não ter sido oficializada a minha qualidade de Chefe de Serviço, que efectivamente desempenhava, resultava em vantagem para o Director!
Para efeitos legais eu, com 31 anos de serviço, era um simples Engenheiro de categoria igual à de todos os outros Engenheiros, incluindo os recém-contratados, que no exercício das suas funções estiveram ou estavam ainda dependentes dos ensinamentos que eu lhes prestava, face à sua geral impreparação.
A minha reflexão final sobre este lamentável caso, foi de surpresa pelos extraordinários êxitos conseguidos sob minha directa orientação, na 1.ª Brigada de Prospecção, apesar da mediocridade e baixo carácter agora posto em evidência, sobretudo pelos Geólogos e pelos Engenheiros residentes em Beja.
É que, nesses êxitos, a participação dos Engenheiros e dos Geólogos residentes em Beja, contrariamente ao que deles se esperava, foi relativamente diminuta.
Este infame documento, marcaria o início da progressiva degradação do SFM até se consumar a sua extinção.

Continua ...

sexta-feira, 17 de julho de 2009

82 . A minha demissão da chefia da 1.ª Brigada de Prospecção. Continuação 1

Na sequência do despacho que constitui a matéria do post anterior, enviei ao Director do SFM o ofício que, a seguir transcrevo:

“Recebi, às 12 h 10m de hoje, o ofício de V. Ex.ª registado sob o N.º 38/Exp. e com data de hoje, bem como cópia do despacho a que o mesmo alude.
Este despacho, segundo informa V. Ex.ª, está na sequência de uma exposição e de um aditamento enviados pelo pessoal contratado da 1.ª Brigada de Prospecção.
Sendo já do conhecimento geral, entre os funcionários do Serviço que se encontram em S. Mamede de Infesta, a existência de tal exposição, tenho vindo a aguardar que V. Ex.ª tomasse as providências convenientes para se apurar a veracidade das acusações que nela me são feitas.
Embora a análise do passado de V. Ex.ª, como funcionário deste Serviço, me não autorize a esperar de V. Ex.ª, normalmente, decisões acertadas e justas, que não só visem os reais interesses do País, mas também criem e mantenham a natural e indispensável disciplina interna, sobretudo tratando-se de casos em que pessoalmente me encontre envolvido, nunca ousei pensar que V. Ex.ª se permitiria, com desrespeito dos mais elementares princípios de justiça, condenar sem ouvir o acusado.
Ainda na ignorância do conteúdo total do documento acusatório (só conheço dele o que consta do despacho), consta-me que V. Ex.ª, não obstante o seu partidário critério pessoal, não pôde deixar de reconhecer imediatamente a falsidade de algumas acusações que me são feitas.
Verificando, porém, que o tempo ia decorrendo e que funcionários da 1.ª Brigada de Prospecção têm vindo, nos últimos tempos, a adoptar procedimentos indisciplinados, com o incentivo do Senhor Director-Geral de Minas e Serviços Geológicos e a condescendência cúmplice de V. Ex.ª, os quais me levaram a deduzir algo estar a preparar-se em apoio das suas pretensões, requeri a V. Ex.ª, em documento que lhe foi presente pelas 9h 30m de hoje, que me fossem fornecidas urgentemente, 3 cópias da exposição feita por pessoal contratado da 1.ª Brigada de Prospecção, a fim de este assunto ser apreciado pela Comissão de Saneamento e Reclassificação de Funcionários do Ministério da Economia.
Alguns minutos bastariam para dar satisfação a este meu pedido.
No entanto, passadas cerca de 3 horas, V. Ex.ª envia-me um despacho na sequência da exposição do pessoal contratado da 1.ª Brigada de Prospecção e não me dá conhecimento desta exposição. Concluo que V. Ex.ª tem a intenção de me manter na ignorância do seu conteúdo e de dificultar a acção da Comissão de Saneamento e Reclassificação de Funcionários do Ministério da Economia.
Quanto ao despacho, alguns reparos poderia fazer imediatamente, mas como V. Ex.ª já teve tempo mais que suficiente para reflectir nas consequências de o ter emitido, considero descabida a sua apresentação neste ofício.
O despacho deixa-me, porém, uma dúvida importante, que passo a apresentar:
Tem o despacho carácter deliberativo ou destina-se exclusivamente a dar-me conhecimento de um projecto de Ordem de Serviço, cuja emissão e divulgação estão ainda dependentes da apreciação que vier a ser feita pelo Senhor Director-Geral de Minas e Serviços Geológicos?
Como o último parágrafo de despacho me leva a pensar estar no espírito de V. Ex.ª a segunda hipótese e como se trata de assunto sobre o a qual não pode haver duas interpretações, requeiro que me seja prestado, urgentemente, o devido esclarecimento.
S. Mamede de Infesta, 25 de Janeiro de 1975
O Engenheiro Chefe do 1.ºSserviço de Fomento Mineiro
(a) Albertino Adélio Rocha Gomes


Foi só em 27 de Janeiro que surgiu a resposta, nos seguintes termos: “O meu despacho tem evidentemente carácter deliberativo e efeitos imediatos”.
Em 30 de Janeiro, surgiu a Ordem de Serviço, por mim sugerida, a qual deveria ter sido emitida, quando a Orgânica em vigor foi alterada, por aquele despacho.
São os seguintes os termos desta Ordem de Serviço:

“Por se julgar mais conveniente para o prosseguimento dos trabalhos em curso é a 1.ª Brigada de Prospecção desligada do 1.º Serviço, ficando na dependência directa do Director do Serviço de Fomento Mineiro.
Esta resolução considera-se em vigor a partir de 24-1-75, data do meu despacho que a efectivou.”


Para já, registo o carácter “democrático” desta Ordem, na qual não são dadas explicações quanto aos motivos que determinaram a decisão tomada.

Só em 30 de Janeiro, me foram enviadas as 3 cópias da exposição do pessoal contratado da 1.ª Brigada de Prospecção, que eu tinha solicitado.
No ofício que as acompanhava é salientado o envio com base no “fim a que se destinam”.
Deduzi da demora, que o Director do SFM estivera aguardando que o Director-Geral lhe assegurasse que do envio da exposição à Comissão de Saneamento nada iria resultar, com base nas boas relações do Director-Geral com o membro da Comissão que fora Director do SFM e, nesta qualidade, tivera deficiente desempenho, como já referi.
Ambos estariam conscientes de que o novo documento viria a ter tratamento idêntico ao que estava a ser dado aos outros por mim ingenuamente apresentados.
De facto, a Comissão não tinha dado qualquer seguimento às várias queixas que recebera. Mas notaram-se consequências para os queixosos!
No próximo post, revelarei o teor da exposição do pessoal contratado da 1.ª Brigada de Prospecção.

Continua ...