terça-feira, 20 de outubro de 2009

93 – As Comissões, os Grupos de Trabalho, os Sindicatos e seus Delegados no SFM

O Director do SFM, que tinha sido investido, em 1963, com carácter transitório, apenas com base no seu alinhamento com o regime ditatorial então vigente (Ver post N.º 25), após a Revolução de Abri de 1974, para tentar manter o cargo, passou a tomar decisões que o creditassem como acérrimo defensor da Democracia.
Já me referi, no post N.º 70, à sua desfaçatez ao invocar o “espírito do Movimento das Forças Armadas”, para justificar flagrante desrespeito das leis vigentes, que estava a ser cometido por altos responsáveis da DGMSG, cuja obrigação principal era fazer cumprir essas leis e não aumentar a indisciplina, que já grassava no SFM.
Sem capacidade para compreender os reais problemas do SFM, resolveu começar a demonstrar a sua verdadeira adesão ao espírito democrático.
Em Outubro de 1974, apresentou para apreciação geral, um documento com o qual pretendia criar, no SFM, um novo órgão a que chamaria “Comissão do Pessoal da Amieira”. Esclareço que a designação de Amieira tem origem na Rua de S. Mamede de Infesta onde se situa a entrada principal das instalações da sede do SFM.

Sobre este documento, de que não fiquei com cópia, enviei-lhe o parecer que, a seguir, transcrevo:

“O Senhor Director do Serviço de Fomento Mineiro distribuiu um documento, através do qual cria a COMISSÃO DO PESSOAL DA AMIEIRA.
Compõem a Comissão 10 pessoas, cada uma das quais deverá representar um grupo de funcionários e (ou) assalariados, variando de 5 a 14 unidades, de modo a ficar abrangida a totalidade dos indivíduos habitualmente presentes nas instalações do Serviço, em S. Mamede de Infesta, para desempenho de tarefas, directa ou indirectamente relacionadas com o fomento da indústria mineira.
Estão excluídos de participar na Comissão os Chefes de Serviço e os Chefes de Divisões com mais de 6 pessoas.
São objectivos da Comissão:
1 – Chamar a atenção do Director para “tudo o que o pessoal julgue não estar bem” e estudar com este, soluções para os casos expostos:
2 – Dar parecer sobre casos expostos pelo Director.

Sobre este assunto, ocorrem-me os seguintes comentários:

a) É de estranhar o súbito interesse do Director do Serviço de Fomento Mineiro em tomar conhecimento daquilo que o pessoal julgue não estar bem e em ter em consideração críticas ou sugestões, que lhe sejam apresentadas.
Posso, na verdade, citar numerosos casos comigo passados, de críticas por vezes bem severas e de sugestões bastante concretas, às quais o Senhor Director não deu qualquer atenção.
Destes casos tenho provas documentais.
Há exemplos bem recentes, alguns já posteriores à distribuição deste documento.
Bastará citar o que se passou com a Ordem de Serviço N.º 613. Foram-me pedidas críticas e sugestões que apresentei. Todavia, a Ordem foi distribuída 20 minutos após a minha entrega destas críticas e sugestões, sem tempo, portanto, para que elas pudessem sequer ter sido lidas.
Qual a garantia para que o procedimento passe a ser diferente?

b) Não é clara a redacção do documento no que respeita aos objectivos a atingir.
Tratando-se de uma Comissão de Pessoal e considerando a sua composição, pode-se ser induzido a supor, que os problemas a tratar se confinam aos directamente relacionados com o pessoal, isto é, admissões, acessos a Quadros de Contratados, valorizações e especializações, promoções, condições de trabalho, etc.
Todavia, a expressão “tudo aquilo que o pessoal julgue não estar bem e possa ser melhorado” é de um âmbito muito mais vasto.
Pretender-se-á que o “núcleo da Amieira” se pronuncie sobre todos os assuntos respeitantes à actividade do Serviço de Fomento Mineiro?
A ser assim, imediatamente pomos em dúvida a representatividade de qualquer Comissão saída desse núcleo, relativamente a todo o Serviço e, portanto, o peso e a utilidade das suas sugestões.
Do núcleo da Amieira, excluidos os Chefes de Serviços e os Chefes de Divisões com mais de 6 pessoas, quais as pessoas que podem considerar-se qualificadas para emitirem pareceres sobre os importantes problemas do Serviço de Fomento Mineiro?

c) Parece-me, pelo menos, inoportuna a criação de mais uma Comissão para resolver problemas que só surgem pelo facto de a Orgânica do Serviço de Fomento Mineiro ser defeituosa na sua estrutura e estar sendo deficientemente posta em prática.
Afigura-se-me que, antes de o Serviço de Fomento Mineiro se debruçar sobre problemas como os que levaram à criação da Comissão da Amieira, deverá procurar uma crítica interna ao modo como estão a ser perseguidos os objectivos que o Serviço de Fomento Mineiro visa atingir.
Daí concluiria, sem dúvida, que muito há a aperfeiçoar.
Uma reorganização geral do Serviço de Fomento Mineiro, com mais equilibrada distribuição de funções e correcto ajustamento das pessoas aos cargos, conforme a sua capacidade demonstrada através de curriculum, é essencial!
Não é de admitir o que actualmente se está passando.
Uma Orgânica em vigor, que o Director é o primeiro a não respeitar!
Uns departamentos muito sobrecarregados e outros mais ou menos inactivos!
Trabalhos no âmbito do 1.º Serviço, sob comando directo do Senhor Director-Geral ou a serem desempenhados pelo 2.º Serviço!
Actividades em trabalhos mineiros, de duvidosa utilidade ou em vias de extinção!
Sondagens em decadência!
Laboratórios com baixa produtividade!
Geólogos sem funções definidas, alguns sem saberem se pertencem ao Serviço de Fomento Mineiro ou aos Serviços Geológicos!
Estudos que deveriam estar em curso, havendo os meios materiais e humanos para que se fizessem e não estão!
Equipamentos de trabalhos mineiros a apodrecerem!
Problemas de viaturas permanentemente sem andamento!
Equipamentos de prospecção que se não adquirem, quando se propõem, sem motivo aparente!
Propostas de promoção que não têm andamento!
Propostas de admissão no Quadro de Contratados a que se não dá andamento!

Quando há todos estes problemas prioritários, porque atacar outros?
Uma vez ordenados estes, talvez aparecessem, na sua verdadeira dimensão, os que agora suscitam a criação da Comissão da Amieira!
É já de reprovar a existência de uma Comissão de Fomento, na Direcção-Geral de Minas, em Lisboa.
Esta Comissão nasceu apenas pela inoperância da Direcção do Serviço.
Uma Direcção de Serviço, verdadeiramente eficiente, representaria este condignamente, nas reuniões que houvesse que fazer ao nível da Direcção-Geral, com a presença de representantes dos outros departamentos da Direcção-Geral.
Constituiu, durante a sua vigência, para muitos funcionários, apenas uma duplicação de esforços, com muito pouco proveito!

d) Não é de aceitar qualquer Comissão de carácter restrito, dentro do Serviço de Fomento Mineiro, por iniciativa do Director.
O Director não deverá esquecer-se que dirige um Serviço de cobertura nacional.
Decisões parciais de sua iniciativa são de condenar.
Já bastam os privilégios de que tem beneficiado o pessoal da Amieira, alguns dos quais totalmente ilegais.
Quem autorizou a conceder os sábados, em semanas alternadas, ao pessoal da Amieira e privar dessa regalia o restante pessoal?
Como se consente que continue esta prática, quando a hora é de trabalho, como acentuou o 1.º Ministro ao sugerir, ainda bem recentemente, um domingo de trabalho e se impõe um aumento geral de produtividade?
Que se tem feito para aumentar a baixa produtividade do pessoal da Amieira?
Como se consentem as perdas de tempo no Bar, dentro das horas de serviço, sem a correspondente compendação fora de horas?

e) Qual o motivo da exclusão dos Chefes de Serviços e de Divisões com mais de 6 pessoas, da Comissão, quando a Orgânica ainda em vigor previa um Conselho Consultivo, com funções idênticas às da Comissão agora criada, constituída principalmente por aqueles funcionários?

Porto, 9 de Outubro de 1974
O Engenheiro Chefe do 1.º Serviço de Fomento Mineiro
(a) Albertino Adélio Rocha Gomes”

O Director do SFM juntou a este documento, um outro que intitulou de “Lista do pessoal eleitor do SFM (Amieira)”.
Desta Lista constavam 104 pessoas, a maioria das quais (62) pertencente a pessoal auxiliar, com poucas habilitações, em grande parte recrutado no Bairro onde residia o Director.
Como nota final, acrescentava-se: “são elegíveis todos os trabalhadores com excepção do Director e Chefes de Serviço”

As minhas investigações no âmbito da prospecção mineira obrigavam-me a frequentes ausências da sede do SFM, em trabalho de campo.
Quando permanecia na sede, a estudar os dados colhidos no campo, pouco me ausentava do meu gabinete. O telefone interno permitia-me os contactos necessários, sobretudo com os Laboratórios, para esclarecimento das requisições de análises que para eles fazia, através do 2.º Serviço.
Não me tinha, pois, apercebido da existência de tantos “indivíduos habitualmente presentes nas instalações da sede do SFM em S, Mamede de Infesta”, sobretudo indivíduos com poucas habilitações.
De facto, parecia-me difícil encarregar de tarefas úteis tantas pessoas, sabendo-se que as actividades no campo, que as poderiam originar, tinham diminuído dramaticamente.
Os Trabalhos Mineiros tinham praticamente terminado com a adjudicação da mina de Aparis.
No Norte, a obstrução permanente do Director, não só não me permitira desenvolver as Secções de Caminha e de Talhadas do 1.º Serviço, a meu cargo, como me impedira de criar outras Secções.
O espírito que presidiu inicialmente á actividade do SFM tinha-se subvertido totalmente.
Quando o SFM foi criado, tinha a sua sede num palacete da Rua de Santos Pousada, ocupando apenas o seu 1.º andar, sendo o r/c ocupado pela Circunscrição Mineira do Norte.
Esta sede manteve-se durante 24 anos, isto é, durante o período de maior actividade no âmbito dos Trabalhos Mineiros de Pesquisa e Reconhecimento de Jazigos Minerais.
Uma das razões principais para a sua transferência para as instalações de S. Mamede de Infesta foi a necessidade de albergar o volumoso material recebido ao abrigo do Plano Marshall (ver Post N.º 15)
Esta transferência coincidiu com mudança de Director do SFM.
O novo Director pareceu ter a preocupação de se tornar um bom samaritano, dando emprego, à custa dos dinheiros do Estado, a indivíduos do Bairro de Paranhos, independentemente de serem ou não necessários, possivelmente com influência de seu irmão, pároco da mesma freguesia.
Assim confiaria ter o apoio de pessoas que lhe deviam estar gratas.
Com a criação desta Comissão da Amieira, de acordo com as premissas nela expostas, confirmaria o apoio de que necessitava, na zona Norte, para manter o cargo.
O apoio do Sul já ele conseguira através da sua “habilidade” com a Ordem de Serviço sobre ajudas de custo.
Em próximos posts, revelarei outras “habilidades” deste Director.

... Continua

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

92 – O agravamento da indisciplina no SFM, após a Revolução de 25 de Abril de 1974

Quando ocorreu a Revolução de 25 de Abril de 1974, grandes foram as esperanças de que terminassem as arbitrariedades do Director-Geral de Minas e as atitudes obstrucionistas do Director do SFM, que ostensiva e impunemente vinham sendo praticadas, com grave prejuízo para o cumprimento dos objectivos para que o SFM tinha sido criado.
Já me referi, no post N.º 72, aos primeiros efeitos negativos da Revolução, por errada interpretação das liberdades instituídas.
Os efeitos seguintes foram quase sempre muito mais negativos.
O autor da expressão “Deram voz activa a quem nem passiva devia ter” ainda foi muito condescendente.
Para se manterem nos cargos, que indevidamente ocupavam, o Director-Geral e o Director do SFM passaram a fazer cedências de toda a espécie.
Alteraram totalmente o seu anterior comportamento que se caracterizava por grande desrespeito pelos funcionários contratados ou assalariados, sobretudo por aqueles que mais se empenhavam em realizar trabalho válido.
Já me referi ao facto de não terem tido a mínima preocupação em oficializar os cargos de chefia, não lhes atribuindo as correspondentes remunerações, ao mesmo tempo que mantinham dependente do seu arbitrário critério a manutenção ou substituição dessas chefias. (Ver post N.º.71)
O meu caso pessoal pode considerar-se paradigmático, pois tendo sempre exercido funções de chefia, nunca me foi atribuída a correspondente compensação.
Mantive-me durante 29 anos (!) com a categoria de Engenheiro de 1.ª Classe, com a responsabilidade das mais importantes tarefas de toda a Direcção-Geral de Minas, e pude ser demitido, sem hipótese de recurso, da chefia de um departamento por mim organizado, que eu ambicionava viesse a ser o gérmen de um Organismo de Investigação Mineira, ao nível do Laboratório Nacional de Engenharia Civil.
Já me referi também ás enormes dificuldades em passar alguns assalariados à classe de contratados e em conseguir exíguos aumentos salariais para evitar a fuga de elementos fundamentais que tinham adquirido especialização nas Brigadas que chefiei, em muitos casos, sob minha directa orientação.
O Director-Geral de Minas, após a Revolução, não mais arriscou fazer convocatórias para reuniões da Comissão de Fomento.
Sentindo o seu cargo periclitante, face ao uso de bens do Estado em benefício pessoal que, sem pejo, ostensivamente fazia, e ao deficiente funcionamento de departamentos sob sua directa dependência, resolveu procurar apoios, contactando, ele próprio, funcionários dos mais importantes núcleos de actividade.
Nestes contactos, foi pródigo em promessas de promoções, compensações e outras regalias, que declarava só se terem tornado possíveis de concretização, nas circunstâncias criadas pela Revolução.
Foi com esta atitude determinada que se apresentou no meu gabinete, em S. Mamede de Infesta, em 15-7-1974.
Oficializava, então, a minha qualidade de representante da Direcção-Geral de Minas junto da Empresa canadiana "Intermine", para eu poder ser remunerado pelas funções que, efectivamente vinha desempenhando.
Dava, para o atraso que se verificara, a justificação “esfarrapada” da relutância do Secretário de Estado nesta nomeação, tendo ele tido até imensa dificuldade em convencer este membro do Governo a aceitar a sua proposta.
Já me referi, no post N.º 34, a tão descarada mentira. Eu tinha conhecimento, através do cognominado Ajax que a minha nomeação se não verificaria, como represália pelas divergências que vinha manifestando nas reuniões da Comissão de Fomento relativamente a decisões do Director-Geral, que considerava dificultarem os estudos a meu cargo.
No decurso da conversa, ficou claro que eu não apoiaria a permanência do Engenheiro FSC no cargo de Director-Geral.
Seguindo a sua estratégia, passou a visitar, com assiduidade a 1.ª Brigada de Prospecção, onde tinha introduzido o Geólogo, seu afilhado, Dr. Delfim de Carvalho. Aí exaltou os êxitos da equipa, desvalorizando o papel fundamental que eu neles tive.
Apesar da ligação afectiva ao Dr. Delfim de Carvalho, não ousaria pensar que lhe fosse tão fácil obter o apoio generalizado desta Brigada.
Relativamente aos Serviços Geológicos, que tão depreciados eram durante as reuniões da Comissão de Fomento, perante a fraca produção de cartas geológicas à escala de 1:50 000, com excessivo apoio no trabalho de Colectores, passou a mostrar-se admirador de Geólogos da nova geração recentemente admitidos, que usavam uma linguagem que lhe não era familiar.
Tectónica de placas, dobras de várias fases, cavalgamentos, carreamentos, etc… eram matérias de que pouco entendia, que o deixavam maravilhado com tanta sabedoria. O Ajax, na época em que tinha desabafos em conversas comigo, costumava salientar a cultura do Director-Geral, baseada nas Selecções do “Reader’s Digest”.
Estes elogios aos novos Geólogos eram obviamente acompanhados de promessas de justa retribuição, através da reestruturação que anunciava.
Dos geólogos novatos do chamado grupo dos scheeliteiros, também era de esperar todo o apoio, pela honra que lhes fora concedida de agirem sob sua directa orientação.
No que ao SFM dizia respeito, o seu Director, agora convertido ao espírito democrático introduzido pelo Movimento das Forças Armadas (Ver post N.º 70) também não poupou esforços para se manter no cargo.
Por sua iniciativa, ou com a sua anuência e até colaboração, foram criadas no SFM, Comissões com os mais variados pretextos.
Desrespeitando a “Orgânica” que tinha instituído em fins de 1963 (Ver post N.º 27), passou a colaborar na criação de novos Órgãos directivos, sem todavia extinguir os que se encontravam em actividade.
Instituiu, deste modo, um verdadeiro caos!
O 1.º Serviço, agora reduzido à 2.ª Brigada de Prospecção, com as suas Secções em Caminha e em Talhadas, após a amputação da 1.ª Brigada com sede em Beja, não se deixou afectar pela indisciplina que estava a ser introduzida
Mas teve que enfrentar numerosos obstáculos propositadamente criados pelo Director ou pelas Comissões em que participou.
O pessoal das Secções de Caminha e de Talhadas deu lições de disciplina, de lealdade e de civismo, recusando aceitar ordens que me retiravam a chefia destas Secções, emanadas de uma das Comissões de sua inspiração, declarando-as ilegais, com sólidos argumentos que apresentou.
Nas muitas reuniões que se realizaram, na sede do SFM, dentro e fora do horário normal de trabalho, muito tempo se desperdiçou em discussões absolutamente inúteis.
As intervenções do Director foram, em geral, de tal natureza que me fizeram duvidar da sua sanidade mental.
Em próximos posts, irei referir-me a alguns dos obstáculos incríveis criados pelo Director Geral e pelo Director do SFM para me impedir de realizar as tarefas de fomento mineiro em que teimosamente me mantive empenhado.
Irei também revelar as numerosas tentativas que fiz par evitar a extinção do SFM.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

91 - A minha demissão da chefia da 1.ª Brigada de Prospecção. Continuação 10

Passo a responder às restantes perguntas formuladas no post 84

Pergunta N.º 2 – Os assalariados, que constituíam a grande maioria do pessoal da 1.ª Brigada de Prospecção, muitos deles já com longa permanência no SFM e candidatos a futura contratação, ou não foram convidados a subscrever o documento acusatório, por não terem sido afectados pela Ordem de Serviço sobre as ajudas de custo, ou se o foram, recusaram subscrever esse documento por discordarem do seu texto.
Um elemento da Brigada do Sul, Francisco de Carvalho Bastos, que tinha participado, na sede do SFM em S. Mamede de Infesta, em reunião de uma das muitas comissões geradas no pós-25 de Abril, em representação dos assalariados de todas as Brigada do SFM existentes a Sul do Rio Tejo, abordou-me para revelar o repúdio dos seus representados, relativamente ao texto do documento acusatório.

Pergunta N.º 3 – Os enormes “prejuízos” que eu ocasionei ao País, no planeamento, execução e controle das vastas e delicadas tarefas da 1.ª Brigada de Prospecção, estão bem patentes nas maiores descobertas que o SFM fez em toda a sua existência.
Os posts seguintes são bem esclarecedores a este respeito:
N.º 9 – O primeiro grande êxito do SFM
N.º 11 – Prospecção de pirites no Baixo Alentejo
N.º 16 – A valorização da Região de Cercal – Odemira pelo SFM
N.º 17 – A descoberta do jazigo de chumbo, zinco e cobre do Torgal
N.º 18 – A descoberta de ouro na região de Montemor-o-Novo
N.º 19 – Minas de zinco da região de Moura
N.º 21 – O jazigo de cobre de Aparis
N.º 35 – A descoberta do jazigo de pirite complexa da Estação, em Aljustrel
N.º 36 – A descoberta do jazigo de pirite complexa do Gavião, em Aljustrel
N.ºs 37 a 43 – A descoberta do jazigo de pirite complexa de Neves-Corvo, na região de Castro Verde - Almodovar
N.º44 – O jazigo de zinco, chumbo e cobre de Algares de Portel
N.º 45 – A descoberta do jazigo de ferro de Vale de Pães, na região de Cuba - Vidigueira
N.º 46 – A descoberta do jazigo de ferro da Alagada, na região de Elvas
N.º 67 – O jazigo de ferro de Moncorvo

Pergunta N.º 4 – Na sua ânsia de encontrarem motivos de acusação, nem repararam na incoerência das suas afirmações! Era óbvio que o Director do SFM e o pessoal da 1.ª Brigada de Prospecção tinham plena consciência dos efeitos negativos, que iriam resultar do meu afastamento da orientação desta Brigada.

Pergunta N.º 5 - O Director mostrava-se muito mais preocupado em manter o cargo, que sentia ameaçado, perante a sua incompetência profissional, do que com a eficácia do Organismo que, só por influências político-religiosas lhe havia sido confiado.

Pergunta N.º 6 – Não me recordo de quaisquer “ideias novas“ que tenham sido apresentadas pelos subscritores do documento acusatório.
Lembro-me, sim, de lhes enviar fotocópias de artigos de revistas que eu regularmente consultava na sede do SFM, para eles tomarem conhecimento de aperfeiçoamentos que se iam conseguindo quer no uso de técnicas de prospecção, quer na interpretação dos resultados da aplicação destas técnicas.
Quando, em reuniões me referia a estes artigos, verificava que, as mais das vezes, não tinham sido lidos!

Pergunta N.º 7 – Nesta pergunta está já contida a resposta. Nunca foi meu hábito fazer promessas, sabendo quão difícil seria cumpri-las, no ambiente do SFM que só me não foi adverso durante a direcção do saudoso Engenheiro António Bernardo Ferreira.

Pergunta N.º 8 – Fui sempre eu o principal prejudicado na remuneração que me foi atribuída, pois nunca fui compensado pelas funções de chefia que exerci, nem pelas imensas horas extraordinárias que dediquei ao SFM, incluindo muitos sábados e domingos e prescindindo, em muitos anos, do gozo da licença graciosa a que tinha direito…
Além disso, os meus boletins itinerários traduziam fielmente as minhas deslocações e ausências da sede em Lisboa, que me tinha sido fixada. Tinha-se tornado rotineira a apresentação de uma despesa com deslocações a pé que realmente se não efectuavam. A essa rotina eu não aderi.
Todos os Engenheiros e Geólogos recebiam, por isso, importância líquida muito superior à que eu obtinha mensalmente e com muito menos trabalho, e responsabilidade.

Pergunta N.º 9 – Os Técnicos superiores da 1:ª Brigada de Prospecção residentes em Beja quiseram assumir, conjuntamente com os Serviços Geológicos, posição de destaque, demonstrativa de uma preocupação pelo aperfeiçoamento da eficácia da DGMSG, que, na realidade, se traduzia na criação de novas categorias com melhores remunerações, às quais esperavam candidatar-se.
Na sua atitude indisciplinada, sabiam ter o apoio do Director-Geral, padrinho de Delfim de Carvalho, a quem se deveu, sem dúvida, a iniciativa de se mostrar diligente na resolução de tão candente problema. Esquecera-se do velho provérbio: “Ne sutor ultra crepidam” – “Não vá o sapateiro além da chinela”.

Pergunta N.º 10 - Esta deslocação teve apenas por objectivo demonstrar ao Director-Geral o reconhecimento do pessoal contratado da 1.ª Brigada de Prospecção por ter resolvido o problema das ajudas de custo, artificialmente criada pelo Director do SFM, ao consentir que esses contratados preenchessem os seus boletins itinerários declarando saídas diárias ao campo – que não faziam – para continuarem a receber mensalmente quantitativo idêntico ao que auferiam antes da emissão da célebre Ordem de Serviço.

Pergunta N.º 11 – Aderiram à proposta de criação do Instituto, que abraçaram abertamente, tendo anteriormente ignorado a minha proposta precursora desse Instituto, como adeririam a qualquer outra proposta que pudessem aproveitar em proveito próprio. Mais uma demonstração da falta de carácter que, durante a minha chefia, eu não dera grandes oportunidades de se revelar.

Pergunta N.º 12 – Durante os 15 anos que decorreram desde o meu afastamento da chefia da 1.ª Brigada de Prospecção até à data da minha aposentação, nenhum êxito foi conseguido. Pretendeu apresentar-se como um grande sucesso a descoberta de mineralização cuprífera na área do Salgadinho da região de Cercal do Alentejo, mas além de não ter sido demonstrada a existência de jazigo, a descoberta da ocorrência é de minha exclusiva responsabilidade.
A descoberta do muito propagandeado jazigo da Lagoa Salgada será, oportunamente, objecto de post que lhe será especialmente dedicado.
Não quero, no entanto, deixar de revelar que a inclusão da região de Alcácer do Sal na Faixa Piritosa Alentejana é de minha autoria, e resultou de eu próprio ter encontrado na Mina de manganés do Penedo do Frade, os jaspes e as rochas vulcânicas porfíricas típicas desta Faixa.

Pergunta N.º 13 - A respeito das minhas incompatibilidades, devo declarar que não me conto entre as pessoas que se vangloriam de ter boas relações com toda a gente.
Não consigo bom relacionamento com pessoas desleais ou desonestas, quando descubro nelas tais características.
Ao contrário do que afirmam os subscritores do famigerado documento, na DGMSG, mantive sempre as melhores relações com a quase totalidade dos seus funcionários, independentemente da sua categoria.
Não haveria dentro de toda a Direcção-Geral de Minas, particularmente dentro do SFM, outro técnico superior que mantivesse melhores relações com tão grande número de pessoas.
Ocorre-me ainda referir as excelentes relações com concessionários mineiros radicados no Sul do País e com representantes de grandes empresas e grupos empresariais estrangeiros, que eram sistematicamente encaminhados para comigo contactarem, quando se mostravam interessados em fazer investimentos mineiros em Portugal.
Constituíram infelizes excepções até à data do documento acusatório, além do imprevisível caso do Agente Técnico de Engenharia que referi post N.º 89, as relações de trabalho com dois Directores do SFM, com um Director-Geral e com dois Engenheiros medíocres que estiveram destacados na Brigada do Sul, sob minha chefia.
Relativamente ao Director do SFM nomeado após o falecimento do Engenheiro António Bernardo Ferreira, ocorre-me a sua declaração, quando confrontado com o meu interesse em melhorar a qualidade dos estudos de que estava encarregado.
Disse ele: alguns técnicos têm de ser espicaçados para produzirem trabalho útil; outros têm de ser travados nas suas iniciativas! Não temos que ter a preocupação de tudo descobrir! Teremos que deixar algumas descobertas para as gerações vindouras!
O Director do SFM, que se seguiu, e que tinha sido meu colega de curso, sempre se mostrou invejoso das minhas capacidades e, em vez de as aproveitar para benefício do Organismo que lhe foi confiado, decidiu tomar atitude oposta, esquecendo-se de que seria ele um dos maiores beneficiários dos êxitos que se conseguissem.
Referir-me-ei, em post que oportunamente apresentarei, a reacção deste Director, em reunião que provoquei, na Secretaria de Estado da Indústria, em Lisboa, com presença do Director-Geral e de representante do Secretário de Estado Baião Horta.
Nesta reunião, eu iria contestar a continuação destes dois dirigentes nos cargos que ocupavam. Para dar peso às afirmações que ia fazer, comecei por dar informação sobre o meu currículo. O Director do SFM reage, então deste modo: Se ele fez tudo isso, foi porque eu deixei!
E desta insólita afirmação não resultaram as consequências imediatas, que seriam de esperar, para garantir a dignidade da função! Afinal o Director interpretava que uma das suas atribuições seria criar obstáculos aos funcionários que bem desempenhavam a sua actividade profissional!
No que diz respeito ao Director-Geral, que sucedeu ao Engenheiro Luís de Castro e Solla, o seu mandato até começou bem, e o facto de ser colega da minha geração (tinha concluído a sua licenciatura, um ou dois anos antes de mim) e o nosso amigável relacionamento, quando ele exercera o cargo de Chefe da Circunscrição Mineira do Norte, fizeram alimentar boas expectativas quanto ao evoluir dos trabalhos no SFM.
Já me referi, em posts anteriores, ao seu apoio inicial à minha actividade e à sua desvalorização da autoridade do Director do SFM, cuja incompetência reconhecia, mas que tivera que nomear por indicação de membro do Governo.
Dizia-me ele, perante os meus receios da actuação negativa deste novo Director, que abertamente lhe manifestei, que essa ocupação do cargo seria meramente transitória.
Mas, infelizmente, as expectativas tiveram curta duração e a permanência do novo Director do SFM no cargo, até se tornou favorável para o uso e abuso que fez, em proveito próprio, das possibilidades deste Organismo, que passou a dominar completamente.
O Director-Geral, entusiasmado com os êxitos que vinham sendo conseguidos nas Brigadas sob minha jurisdição, passou, como já disse, a orientar directamente algumas campanhas de prospecção e a prejudicar aquelas que eu mantinha a meu cargo.
Daí resultou quebra na boa harmonia antes existente, que acabou por me levar à denúncia, a nível do Governo, da indisciplina que estava a prejudicar fortemente a eficácia de importante Organismo de criação de riqueza.
Quanto a dois colegas que estiveram integrados na Brigada do Sul, cedo reconheci a sua mediocridade, tornando-se-me difícil ocultá-la aos Agentes Técnicos de Engenharia, que chefiavam Secções sob sua orientação.
Muitas vezes tive que corrigir os seus erros, apesar dos muitos ensinamentos que lhes transmiti.
Em vez de exprimirem gratidão, resolveram tomar atitudes que pudessem agradar ao Director do SFM, de modo a prejudicarem a minha imagem, com duvidosas intenções.
O caso do Agente Técnico de Engenharia, ao qual foi instaurado processo disciplinar foi bem revelador do carácter de um desses colegas, que conhecendo bem as razões do processo, testemunhou de modo ambíguo, quase favorável a esse desonesto indivíduo.
Era óbvio que, perante as circunstâncias que referi, o meu relacionamento com estes colegas não poderia manter-se amigável.
Por último, quero afirmar que, apesar de algumas características pouco abonatórias dos técnicos superiores residentes em Beja, às quais me referi em posts anteriores, sempre tive para com todos eles, grande tolerância, conseguindo, assim, um ambiente de boa camaradagem até à data do inesperado documento acusatório.
À preparação técnica que lhes proporcionei, à franqueza e a lealdade com que sempre os tratei, corresponderam com traição ao SFM e a mim próprio.
Premonitoriamente, em reunião que com eles tive, recordo-me de uma expressão que usei, confiante de que as minhas dúvidas se não justificavam “Eu estou a dar-vos as armas com que vocês poderão, um dia atacar-me!”. E, afinal, as dúvidas transformaram-se em certeza!

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

90 - A minha demissão da chefia da 1.ª Brigada de Prospecção. Continuação 9

Continuo a responder à primeira pergunta formulada no post 84, caracterizando os autores da exposição que originou a minha demissão, na sua qualidade de técnicos do SFM:

O pessoal auxiliar contratado

Quando, em 1944, iniciei a minha actividade profissional na Faixa Piritosa Alentejana, o Director do SFM destacou cinco Agentes Técnicos de Engenharia, da Brigada do Sul, para a Brigada de Prospecção Eléctrica (BPE), que eu ia chefiar, a fim de colaborarem nos trabalhos de campo e de gabinete respeitantes à aplicação do método electromagnético Turam.
Tornou-se ainda necessário recorrer a trabalhadores recrutados nas áreas a estudar, para dar cumprimento aos programas estabelecidos.
À medida que me fui familiarizando com o método, que estava a ser usado, por contrato com a Compania sueca ABEM, fui-me apercebendo de que quase todas as tarefas de que tinham sido encarregados os Agentes Técnicos de Engenharia, poderiam ser confiadas a trabalhadores locais, sem quebra de qualidade e com mais elevado rendimento.
Quatro Agentes Técnicos de Engenharia puderam assim ser reintegrados na Brigada do Sul, para colaborarem em estudos mais em conformidade com a sua formação profissional, ficando o corpo de técnicos superiores e médios da BPE limitado a dois Engenheiros suecos (os responsáveis pela aplicação da técnica electromagnética), um Engenheiro (eu) e um Agente Técnico de Engenharia portugueses.
A grande disponibilidade de mão-de-obra então existente na Mina de S. Domingos, permitiu-me fazer uma boa selecção do pessoal auxiliar para a BPE.
Consegui, deste modo, formar uma equipa altamente eficiente, da qual pude encarregar a execução da maior parte dos trabalhos de rotina, no campo e até no gabinete.
A piquetagem, com uso de taqueómetro, dos pontos de observação pelo método electromagnético, a planta topográfica (planimetria) à escala 1:10 000, com base no reticulado da piquetagem, as observações com o equipamento Turam, os cálculos simples sobre os dados de campo e até a implantação dos resultados em papel milimétrico e o traçado das curvas de variação dos quocientes reduzidos dos campos electromagnéticos e das diferenças de fase, estiveram a cargo deste pessoal assalariado.
Em meados de 1945, foram iniciadas as campanhas de prospecção na região de Aljustrel, transitando para esta região muitos dos elementos da equipa que tinha sido constituída na Mina de S. Domingos.
Em Aljustrel, considerando-me já suficientemente especializado no método Turam, propus que também um dos técnicos suecos fosse dispensado, encarregando-me eu de o substituir nas funções que desempenhava, cumulativamente com as minhas funções de Chefe da Brigada. A proposta foi aceite e daí resultou uma considerável redução de despesas e até aumento de eficácia das equipas, por se verificarem menos perdas de tempo em avarias dos equipamentos, pois a minha preparação teórica em assuntos de electricidade era muito superior à do técnico sueco que fora dispensado.
Quando, em 1948, tive que deixar a BPE, por ter sido nomeado Chefe da Brigada do Sul, o colega que ficou a substituir-me, depois de eu o ter instruído com os conhecimentos teóricos e práticos do método electromagnético, pôde beneficiar da organização que eu tinha instituído.
Mas não soube mantê-la e, em 1949, a BPE foi extinta, sem ter sido completamente investigada pela técnica que estava a ser usada toda a Faixa Piritosa Alentejana.
Em 1949 recebi na Brigada do Sul, uma Ordem de Serviço da Direcção do SFM, acompanhada de uma circular da Direcção-Geral da Contabilidade Pública que ordenava uma drástica redução de despesas.
Para cumprimento desta Ordem, foi com grande desalento que fui obrigado a dispensar muito pessoal, tanto da sede da Brigada como das Secções, com manifesto prejuízo para o cumprimento dos programas de prospecção e pesquisa.
A minha preocupação de manter no SFM os assalariados que melhores provas haviam dado, levou-me a convidar dois elementos da BPE, que tinha sido extinta, para colaborarem nos trabalhos mineiros da Secção de Cercal do Alentejo.
Esses elementos foram Francisco Elisiário Afonso e João Joaquim, que na BPE tinham chegado a capatazes, isto é, a máxima então possível para assalariados.
Ambos realizaram, ao longo de cerca de 30 anos, mercê da instrução técnica que lhes fui ministrando, tarefas diversificadas, sempre com qualidade e grande honestidade.
Foi, por isso, que aproveitei oportunidade, surgida, em 1968, para os fazer ingressar no Quadro de Contratados.
Quando o Director-Geral me sugeriu a contratação de João José Jardim, para dar seguimento a “cunha” de membro do Governo, fiz-lhe sentir que, para manter a disciplina da Brigada, esta contratação só se justificaria, se outros assalariados, muito mais qualificados, fossem abrangidos em tal promoção (Ver post N.º 50 – A minha mania da justiça).
Foi assim que Francisco Elisiário Afonso, João Joaquim e cinco outros assalariados recrutados nas áreas das diferentes Secções da 1.ª Brigada de Prospecção (Jerónimo de Jesus Salgueiro, José Manuel da Silva Ferreira, Luís Sebastião Luzia, António Francisco Peleja e João José Jardim) foram propostos para se integrarem como Colectores no Quadro de Contratados do SFM.
José Manuel da Silva Ferreira acabaria por rescindir o seu contrato com o SFM, tendo-se por isso libertado do vexame de subscrever o documento acusatório.
Já me referi, em posts anteriores, às grandes dificuldades em manter pessoal assalariado com elevado grau de preparação técnica, por insensibilidade dos Organismos governamentais perante as propostas apresentadas para aumentos insignificantes de salários, que evitassem a sua deserção.
Se esta era a atitude quanto a salários, fácil era perceber quão relutantes se mostravam os dirigentes do SFM e da DGMSG em contratações, perante o substancial acréscimo de despesas que ia ser originado.
O caso de Francisco Elisiário Afonso revelou-se até de difícil resolução, pelo facto de ele ter contraído silico-tuberculose, embora estivesse curado da tuberculose, em resultado da assistência médica que lhe foi proporcionada através do SFM.
Eu tive que solicitar ao Dr. Covas de Lima, radiologista de Beja, que fazia a sua vigilância médica, atestado confirmativo da cura da tuberculose. Só mediante a apresentação deste atestado, Elisiário pôde ser contratado, apesar de eu ter salientado o facto de a silicose ter sido contraída no SFM, que tardou em adoptar medidas que evitassem, com eficácia, a dispersão de poeiras no ambiente das minas subterrâneas.
Com Elisiário e com João Joaquim o meu relacionamento foi sempre muito cordial.
Em meados da década de 50 do século passado, o Agente Técnico de Engenharia que chefiava a Secção de Cercal do Alentejo foi requisitado pelo Ministério do Ultramar para colaborar em trabalhos de prospecção e pesquisa no território ultramarino, ainda português, de Goa. Esse Agente Técnico de Engenharia, consciente das qualidades de Elisiário, convidou-o para o acompanhar nesta missão. Elisiário recusou e disse-me, em reconhecimento do meu apreço pela sua valiosa colaboração, que não abandonaria o SFM, enquanto eu nele permanecesse.

Além destes contratados, cujo ingresso no SFM, como assalariados, data de meados da década de 40 do século passado, saliento dois outros que sempre estiveram sob minha chefia também desde meados da mesma década. São eles João Serra Magalhães e Francisco José Sobral Soares. Eram ainda muito jovens, quando o colega que me antecedeu na chefia da Brigada do Sul os admitiu, para trabalhos na sede da Brigada. Durante cerca de 30 anos mantiveram-se sempre sob minha chefia, primeiramente na Brigada do Sul e depois, na 1:ª Brigada de Prospecção. Foram progressivamente instruídos em trabalhos de diversa natureza.
João Serra Magalhães tornou-se um bom auxiliar de campo, com maior especialização em topografia e condução de viaturas.
Francisco José Sobral Soares tornou-se um bom desenhador.
O meu relacionamento com ambos foi sempre muito cordial.
O meu conceito a respeito das qualidades de João Serra Magalhães, levou-me a utilizar o seu bom senso para resolver incidentes com pessoal da Secção de Évora, originados pelo carácter impulsivo do Agente Técnico de Engenharia José Gameiro.
Não pude, pois, deixar de ficar estupefacto por também eles se terem sujeitado às pressões dos Geólogos e dos Engenheiros para subscreverem o infame documento.

Os restantes subscritores do documento acusatório (José Francisco Alves Albardeiro, Ilídio António Concórdia Riço, Manuel Eduardo Chagas, Jerónimo de Jesus Salgueiro, Joaquim José Nifrário Pires, Luís Sebastião Luzia e José Maria Monteiro), haviam sido recrutados como assalariados nas áreas das diversas Secções criadas no Sul do País, quer pela Brigada do Sul, quer pela Brigada de Prospecção Geofísica.
Nelas foram criando capacidades que justificaram propostas dos seus Chefes locais para ingressarem no Quadro de Contratados.
Concordando com tais propostas, por reconhecer a qualidade dos trabalhos das Secções, só possível com a colaboração desses elementos, fiz seguir essas propostas e elas tiveram o bom acolhimento que originou a contratação.
O meu relacionamento com grande parte destes contratados foi relativamente superficial, não compreendendo, consequentemente as graves acusações que aceitaram subscrever.
Estando já aposentado, isto é, mais de 15 anos após a minha demissão da chefia da 1.ª Brigada de Prospecção, recebi telefonema de José Maria Monteiro, o último dos subscritores do documento acusatório. Não percebi bem o motivo, mas pareceu-me que ele queria manifestar a sua satisfação pelo emprego de que desfrutava nas Minas de Neves-Corvo e o seu reconhecimento pela minha contribuição parta a descoberta do jazigo que se encontrava em franca exploração.
Não pude deixar de lhe lembrar que a sua assinatura constava do famigerado documento, o que ele negou.
Pedi-lhe que me informasse do seu endereço em Castro Verde e enviei-lhe cópia desse documento, ao mesmo tempo que o informava do meu perdão, pensando que tivesse sido o objectivo principal do seu telefonema e considerando as pressões e talvez ameaças a que ele e outros contratados terão sido submetidos, naquele fatídico dia, em que foram convocados para concordarem com decisão originada ao mais alto nível da DGMSG.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

89 – A minha demissão da chefia da 1.ª Brigada de Prospecção. Continuação 8

Continuo a responder à primeira pergunta formulada no post 84, caracterizando os autores da exposição que originou a minha demissão, na sua qualidade de técnicos do SFM.


Os Agentes Técnicos de Engenharia

Foram 14 os técnicos desta categoria que exerceram funções, no Sul do País, sob minha chefia, quer na Brigada de Prospecção Eléctrica, (entre 1944 e 1947), quer na Brigada do Sul (entre 1948 e 1964), quer na 1.ª Brigada de Prospecção (entre 1964 e 1975).
Com quase todos, mantive uma excelente relação de trabalho.

Houve apenas a excepção de um, que se revelou desonesto, durante a sua passagem pela Brigada do Sul. Falsificou dados e cometeu outras faltas, justificativas de processo disciplinar que me vi compelido a solicitar que lhe fosse instaurado.
O instrutor que, anos mais tarde, viria a ser Director do SFM, começou por declarar que o problema se resolveria com a não renovação do contrato, se tal indivíduo, não tivesse acabado de completar um ano de serviço.
Porém, no decurso da instrução, foi-se mostrando muito mais moderado, sendo patente a influência do Bispo de Beja e de Agostinho Lourenço, Chefe da PIDE, com os quais o indivíduo se ufanava de ter bom relacionamento.
Apesar disso, perante a gravidade dos factos ocorridos, não foi possível evitar propor superiormente o seu afastamento da Brigada do Sul (única sanção que eu tinha reclamado), com uma pena adicional de suspensão de funções durante 30 dias.
Mas o Secretário de Estado, Magalhães Ramalho, ao apreciar o processo, agravou a pena para 90 dias, com áspera censura à Direcção do SFM, pela tolerância demonstrada nas situações descritas, que afectavam severamente a eficácia do SFM.
Eu próprio fui incluído na censura, por excesso de benevolência, o que muito me surpreendeu, pois sabia ser, geralmente, classificado de rigoroso e exigente.
Este indivíduo, que foi transferido para a Brigada do Norte, ficando a chefiar uma Secção de Trabalhos Mineiros em Chaves, iria cometer aí idênticas faltas. Falsificou amostras de uma mina dita de ouro, em Tresmundes, para prolongar a sua permanência nesta cidade. Foi também, durante a sua chefia - que nunca lhe deveria ter sido confiada, por manifesta impreparação - que ocorreu, na Mina de ouro de “Três Minas”, uma súbita avalanche, em galeria que se encontrava em desobstrução, que ocasionou a morte de alguns operários.

Apesar da deficiente preparação de grande parte dos Agentes Técnicos de Engenharia, eles foram conseguindo adaptar-se bem aos trabalhos de todas as fases da prospecção, de que os encarreguei.
A alguns tive que corrigir enraizados vícios de trabalho, que estavam a prejudicar a qualidade dos estudos, ou mesmo dar instrução.
Posso afirmar que aí começou a minha actividade docente, que viria a oficializar-se de 1970 a 1990, nas Faculdades de Ciências e de Engenharia da Universidade do Porto.
Um dos Agentes Técnicos de Engenharia, que sempre se mostrou grato pelos meus ensinamentos e que coleccionava os cartões oficiosos em que lhe dava instruções de trabalho, costumava, simpaticamente tratar-me por Mestre.

A contribuição destes técnicos que, sem reservas, aceitaram a minha superior orientação, foi importante para os grandes êxitos que descrevi em posts anteriores.
Foram eles, com a colaboração de pessoal recrutado nos locais de trabalho, que estiveram presentes no terreno, a dar cumprimento aos programas que lhes eram apresentados.
A este pessoal auxiliar, tinham sido proporcionados conhecimentos de ordem prática, quer por mim próprio, quer pelos Agentes Técnicos de Engenharia, nas várias técnicas de prospecção.

A participação dos Agentes Técnicos de Engenharia e do pessoal auxiliar, na sua maior parte vinda de meados da década de 40 do século passado, foi muito mais valiosa do que a dos Engenheiros e dos Geólogos, ingressados na 1.ª Brigada de Prospecção apenas em meados da década de 60.

Os Geólogos, contrariando as grandes esperanças que neles depositei, pareceram mais interessados na promoção pessoal do que na perfeita integração na disciplina que vinha da minha chefia da Brigada de Prospecção Eléctrica e da Brigada do Sul.

Metodologias houve, que deixaram de se aplicar, com o ingresso dos técnicos ditos superiores. Por exemplo, não mais ficou a saber-se o custo discriminado dos trabalhos, prática que era rotineira, quando chefiei a Brigada do Sul.

Dos 14 Agentes Técnicos de Engenharia que exerceram funções sob minha chefia, só três estavam integrados na 1.ª Brigada de Prospecção, à data do documento que originou a minha demissão desta Brigada e não eram estes os que tinham adquirido maior qualificação.
Os mais experientes ou permaneceram na Brigada do Sul, ou abandonaram o SFM para obterem melhor remuneração em outros Organismos do Estado ou na indústria privada.
Os que permaneceram na Brigada do Sul foram mal aproveitados, acabando por se adaptar à inércia característica do 2.º Serviço, que culminou com a extinção total dos Trabalhos Mineiros convencionais no SFM (Ver posts N.ºs 21 e 25).


Refiro-me, seguidamente, à actividade dos Agentes Técnicos de Engenharia, que subscreveram o documento que conduziu à minha demissão da chefia da 1.ª Brigada :de Prospecção

1 - José Coelho da Silva Gameiro
Data de 1944 o meu conhecimento deste Agente Técnico de Engenharia, quando ele foi destacado, durante alguns meses, para exercer funções, sob minha chefia, na Brigada de Prospecção Eléctrica (BPE), que então actuava, nas Minas de S. Domingos da Faixa Piritosa Alentejana.
Tinha-se instituído na Brigada do Sul, da qual dependia a BPE, a regra de fazer passar, pela BPE, todos os Agentes Técnicos de Engenharia da Brigada do Sul, para tomarem contacto com uma nova técnica de prospecção e com métodos de trabalho mais exigentes.
Foram-lhe distribuídos trabalhos de fácil execução, dos quais se desempenhou satisfatoriamente.
Voltei a encontrá-lo, em 1948, quando passei a chefiar a Brigada do Sul
Até fim de 1961, chefiou a Secção de Montemor-o-Novo e depois de 1962, manteve a chefia da Secção de Évora.
Nestas Secções, teve oportunidade de colaborar, durante 25 anos (descontado tempo dos anos de 1966 a 1968, em que esteve em comissão de serviço em Angola), em variados trabalhos de prospecção e pesquisa, sob minha orientação, tendo-se desempenhado satisfatoriamente das missões de que esteve encarregado.
De todas as Secções das Brigadas que dirigi, foi na de Montemor-o-Novo que passei mais longos períodos, para realizar tarefas fora do alcance de Gameiro.
Não sendo dos mais competentes, mostrou-se sempre muito esforçado, revelando qualidades de observação, em levantamentos litológicos, na detecção de indícios de mineralizações e na classificação de testemunhos de sondagens, quando não existiam Geólogos na Brigada.
Já me referi à qualidade do seu trabalho nas sondagens de Algares de Portel, que considerei superior à do Geólogo Carvoeiras Goinhas.
Sendo pessoa de trato difícil, sempre mantive com ele as melhores relações de trabalho. Este bom relacionamento era bem conhecido dentro do SFM e, por isso, foi grande a surpresa geral quando se soube que também a sua assinatura constava do documento acusatório.

2 - Alfredo Ferreira
Conheci este Agente Técnico de Engenharia também em meados de 1944, quando foi integrado na Brigada de Prospecção Eléctrica (BPE), que iniciava, sob minha chefia, a actividade na área da Mina de S. Domingos da Faixa Piritosa Alentejana.
Alfredo Ferreira foi, então, encarregado principalmente das observações com o equipamento Turam de prospecção electromagnética, tarefa fácil que cumpriu de modo satisfatório, durante alguns meses.
Voltei a encontrá-lo, quando fui nomeado Chefe da Brigada do Sul. Ele tinha acabado de ser designado Chefe da Secção de Alvito, que tinha a seu cargo investigações por trabalhos mineiros de um jazigo de magnetite. Foi substituir o Agente Técnico Manuel Camarinhas, que tinha sido requisitado pelo Ministério do Ultramar, para missão em Moçambique.
Durante a sua permanência na chefia da Secção de Alvito, que se verificou até 1952, desempenhou satisfatoriamente as tarefas de que foi encarregado.
Em 1959, foi transferido para Almodôvar, para dar colaboração ao Geólogo que chefiava a 2.ª Brigada de Levantamentos Litológicos (2.ªBLL), em novos levantamentos que viessem servir de base às campanhas de prospecção que se projectavam para localizar jazigos de cobre, dos quais se conheciam bom indícios.
O trabalho que realizou foi de mérito nulo, sobretudo por deficiente orientação do Geólogo que dirigia a 2.ª BLL.
Foi posteriormente transferido para a Brigada de Prospecção Geofísica, ficando a chefiar os trabalhos de campo, quando se deu início às campanhas de prospecção magnética, para detecção de jazigos de ferro magnético.
Em 1964, em resultado da reorganização do SFM, foi integrado na 1.ª Brigada de Prospecção, sob minha chefia. Até à data da minha demissão desta Brigada, em Janeiro de 1975, cumpriu com zelo as tarefas de que foi incumbido.
Foi sempre normal o meu relacionamento com este técnico. Um caso ocorrido, quando chefiou a Secção de Alvito, que me levou à instauração de inquérito para avaliar a veracidade de denúncia sobre a utilização de operário pago pelo SFM como seu servente, não afectou significativamente o meu relacionamento, perante as conclusões praticamente negativas desse inquérito, que me pareceu afectado por alguma benevolência

3 - Manuel Virgínio Ferreira Camarinhas
Também este Agente Técnico de Engenharia passou alguns meses na Brigada de Prospecção Eléctrica, sob minha chefia, durante o ano de 1944. O desempenho das tarefas que lhe foram confiadas foi satisfatório.
Voltei a encontrá-lo, em Fevereiro de 1948, quando comecei a exercer, interinamente, as funções de Chefe da Brigada do Sul.
Camarinhas tinha então a seu cargo a Secção de Alvito, onde decorriam, de modo artesanal, trabalhos de pesquisa de magnetites, com base em resultados de prospecção magnética efectuada pela empresa sueca ABEM.
Este tipo de trabalhos não permitia, obviamente, a valorização de um técnico em princípio de carreira.
No entanto, o Ministério do Ultramar, confiante de que Camarinhas já teria experiência de trabalhos de prospecção e pesquisa mineiras, requisitou-o, em Junho de 1948, para uma missão em Moçambique, com o objectivo de contribuir para um melhor aproveitamento das riquezas minerais deste território ultramarino.
Camarinhas, regressou, em meados de 1951, ao SFM, sendo então integrado na 2.ª BLL, para colaborar em levantamentos litológicos na região de Vila Viçosa – Alandroal, preparatórios de campanhas de prospecção geofísica e geoquímica que se projectava empreender, para investigação das existências de minérios de cobre, das quais se conheciam numerosos indícios.
Nem Camarinhas nem o Geólogo seu Chefe mostravam pressa em dar por terminada esta fase inicial da prospecção, com a total condescendência da Direcção do SFM, perante o excessivo prolongamento desta fase.
Quando em 1964, foi criada a 1.ª Brigada de Prospecção, Camarinhas voltou a ficar na minha dependência hierárquica, passando a ficar encarregado de dar apoio no terreno a campanhas de prospecção geofísica e geoquímica.
Não foi fácil a sua integração na 1.ª BP, não só porque tinha perdido qualidades de trabalho durante a sua longa permanência na 2.ª BLL, mas também pela sua inexperiência nas técnicas de prospecção. Houve, então, que transferir de outras Secções da Brigada, pessoal auxiliar já experiente nessas técnicas.
Com o decurso do tempo, Camarinhas foi adquirindo a experiência que lhe faltava, conseguindo tornar a sua Secção altamente eficiente.
O meu relacionamento com Camarinhas foi sempre muito cordial.
A melhor prova do que afirmo, está no texto que, a seguir, transcrevo de um cartão de carácter oficioso, que dele recebi, datado de 20-9-1974, isto é, 3,5 meses antes de ter subscrito o insultuoso documento que levou à Mina demissão da 1ª BP:
“… Quanto ao “resto”, o trabalho apresenta-se dia-a-dia mais desgastante para quem tem a ingrata missão de chefiar, pois o pessoal interpretou a liberdade do 25 de Abril como um “Pai Natal” bem carregado de benesses só com prendas para dar. Esquecem-se que não há saco nenhum tão grande em que se consigam meter tantas prendas.
Em contraste, nós funcionários do SFM estamos em vias de ver reduzidas, ou mesmo desaparecidas, as regalias de que se serviram para captar o pessoal técnico para a Província.
Colaborei e estou completamente de acordo com as sugestões e críticas apresentadas pelo pessoal técnico da 1.ª B. Prospecção.
Esperemos que, ao fim e ao cabo, acabemos por ser compreendidos.
Não quero terminar sem manifestar a esperança que o bom senso acabe por vencer este período tão tempestuoso.
Aproveito para o felicitar pelo casamento de um dos seus filhos a que junto os melhores votos de muitas felicidades.
Um abraço de muita amizade do
M. Camarinhas”.

As sugestões e críticas referidas nesse cartão oficioso são as que constam do documento subscrito pelo Engenheiro José Augusto Marques Bengala, em nome da Brigada, no qual se declara que a cumprir-se o teor da Ordem de Serviço sobre ajudas de custo, que foi posta em vigor, os funcionários veriam os seus proventos mensais reduzidos de 30% (Ver parte final do post N.º. 73), facto que não se verificou, por procedimentos fraudulentos cometidas pelos contratados da 1.ª BP, a conselho do Director-Geral.

sábado, 15 de agosto de 2009

88 – A minha demissão da chefia da 1.ª Brigada de Prospecção. Continuação 7.

Continuo a responder à primeira pergunta formulada no post 84, caracterizando os autores da exposição que originou a minha demissão, na sua qualidade de técnicos do SFM:

O Geólogo José Antómio Carvoeiras Goinhas
Natural da cidade de Beja, este Geólogo contactou-me, em 1961,quando terminou a sua licenciatura na Faculdade de Ciências de Lisboa, mostrando-se interessado em ingressar na DGMSG.
Acontecia que a Compagnie Royale Asturienne dés Mines (CRAM), que estava cumprindo um contrato de prospecção na região de Moura-Ficalho, na sequência de estudos anteriores do SFM (Ver post N.º 19), com o objectivo de aumentar as reservas de minérios de zinco, de modo a poder iniciar explorações em maior escala, também me havia contactado para que lhe indicasse um Engenheiro de Minas para o seu Quadro de Técnicos.
Informei a CRAM de que Engenheiros de Minas era uma espécie em extinção, perante a escassez de formandos nessa área, nos últimos tempos. Mas poderia indicar-lhe um Geólogo.
A CRAM aceitou a sugestão e eu aconselhei o Dr. José Goinhas a aproveitar a oportunidade que se lhe oferecia para se especializar na prospecção de jazigos de zinco, dada a elevada qualidade que reconhecia aos Geólogos franceses que actuavam na região de Moura-Ficalho.
Informei-o de que proporia o seu ingresso no SFM, para colaborar nos estudos que estavam em curso na Faixa Magnetítica e Zincífera Alentejana, quando tivesse adquirido a especialização desejada.
O Dr. José Goinhas, após 6 anos de permanência na CRAM, em Portugal, em França e no Norte de África, colaborando sobretudo em estudos de jazigos de zinco, contactou-me novamente em 1967, e eu fiz então a proposta de seu ingresso no SFM.
A proposta foi aceite e o Dr. José Goinhas foi admitido no SFM em Julho de 1967.
Encarreguei-o, como lhe tinha prometido, de dar apoio aos estudos que estavam em curso na faixa Magnetítica e Zincífera Alentejana.
Estes estudos incidiam, então, na região de Portel, onde campanhas de prospecção geofísica e geoquímica tinham tido grande sucesso (Ver post N.º44).
Tinham sido efectuadas já muitas sondagens, com resultados bastante animadores e a classificação dos respectivos testemunhos estivera a cargo do Agente Técnico de Engenharia José Coelho da Silva Gameiro.
Embora eu considerasse tal classificação bastante pormenorizada e reveladora de notáveis qualidades de observação, era evidente que estudo realizado por Geólogo especializado em jazigos de zinco deveria conduzir a importantes aperfeiçoamentos. Por isso, encarreguei o Dr. Goinhas de proceder a novos exames dos testemunhos das sondagens já efectuadas, ao mesmo tempo que o encarregava também de fazer os logs dos testemunhos das sondagens que estavam em curso na mesma região e de fazer a interpretação estrutural do jazigo.
A sua actividade não correspondeu, porém, ao que dele esperava, No que respeita às sondagens que tinham sido efectuadas antes do seu ingresso na Brigada, não introduziu quaisquer aperfeiçoamentos. A sua capacidade de trabalho esgotou-se no exame dos testemunhos das sondagens que estavam em curso.
A qualidade dos seus estudos foi satisfatória, mas a produtividade foi, em geral, baixa. Cheguei a perguntar-lhe se a sua capacidade de trabalho se esgotara na CRAM.
Em 1971-72, foi-lhe proporcionada a frequência de um Curso de Economia Mineira, em Universidade de Arizona, nos Estados Unidos, durante o qual tomou conhecimento directo de jazigos do tipo dos “porphyry coppers”.
Enquanto frequentava este Curso, mantive com ele correspondência assídua, salientando que mais importante que a obtenção de graus académicos era a aquisição de conhecimentos orientados para a resolução dos problemas da Brigada que lhe estavam confiados. A seu pedido, forneci-lhe dados circunstanciados, sobretudo acerca da legislação mineira de Portugal, para inserir nos trabalhos do Curso.
Se antes de ir para os Estados Unidos já se mostrara pouco diligente, após o seu regresso, menos diligente se mostrou. Mas, baseado no que lá aprendera, pretendeu assumir a direcção de um projecto de prospecção de “porphyry coppers”, desobedecendo a decisões que haviam sido tomadas nas habituais reuniões que eu tinha com todos os Engenheiros e Geólogos da Brigada.
A esta atitude do Dr. Goinhas, exposta no seu relatório de Julho de 1972, tive que reagir, enviando-lhe, com carácter oficial, o documento que a seguir transcrevo:

“Ao Geólogo Senhor António José Carvoeiras Goinhas:
O relatório mensal destina-se, como é óbvio, a dar conta da actividade durante o mês a que diz respeito, no sector a cargo do técnico que o subscreve.
Interessa sobretudo destacar resultados dessa actividade.
Não se vê utilidade em referir decisões tomadas em reuniões dirigidas pelo Chefe da Brigada, porquanto este está bem consciente das decisões que toma. Não se impede, todavia, que se citem, se o autor do relatório considerar necessário para definir a sua posição perante determinado problema, desde que se respeite escrupulosamente a verdade.
A análise do relatório de V. Ex.ª respeitante ao mês de Julho de 1972 sugere-me os seguintes comentários:
1.º – A actividade que se relata e que se contem totalmente no primeiro parágrafo não satisfaz.
Na presunção de que algo mais haja a mencionar, devolve-se o relatório, para ser completado, se for caso disso.
2.º - O estudo da grande mancha de “pórfiros e rochas afins de região de Beja” e das “rochas graníticas e tonalíticas da região de Évora” há muito tempo figura nos planos de trabalho do 1.º Serviço e até da antiga Brigada do Sul, com vista à descoberta de jazigos do tipo dos “porphyry coppers” ou outros.
Já muito trabalho foi efectuado com essa finalidade, grande parte muito anteriormente à existência de Geólogos no corpo de técnicos da 1.ª Brigada de Prospecção.
Na reunião a que V. Ex.ª alude, o problema das mineralizações associadas a estas grandes manchas de rochas ígneas foi abordado, a fim de definir se haveria bases mais consistentes para nova actuação, já que especialistas estrangeiros conceituados que, por nossa indicação visitaram a área, não manifestaram pareceres encorajantes quanto à existência de jazigos do tipo dos “porphyry coppers”.
Contou-se, evidentemente, com os conhecimentos adquiridos pelos Geólogos da 1,ª Brigada de Prospecção que estiveram em estágio nos Estados Unidos da América do Norte.
Entendeu-se, como sempre se admitira, que o problema é digno de atenção, mas não se lhe atribui carácter prioritário.
O Geólogo Senhor José António Carvoeiras Goinhas ficou encarregado do seguinte:
a) Apoio geológico aos trabalhos de prospecção, pesquisa e reconhecimento, em curso na Faixa Zincífera Alentejana, os quais se destinam essencialmente à inventariação das existências de minérios de zinco e chumbo (com carácter fortemente prioritário).
b) Estudos geológicos de pormenor na zona SE da grande mancha de “pórfiros e rochas afins da região de Beja” e nas manchas de “rochas graníticas e tonalíticas da região de Évora”, que abrangem, entre outras, as minas de cobre de Sobral, Feijoas, Monte do Trigo, e Castelos, nas quais o 1.º Serviço teve já importante actividade em matéria de prospecção. (A estes estudos não foi dado carácter prioritário, sobretudo por se considerar que os da Faixa Zincífera, dado o atraso em que se encontram, seriam já suficientes para absorver inteiramente o tempo de trabalho do Geólogo. Todavia, dado o interesse manifestado pelo Geólogo em actuar em região com estas características, julgou-se de aproveitar esse interesse. Frisou-se, no entanto, bem claramente, que, no momento presente, o assunto se não apresenta com carácter prioritário. Isto não significa que novos dados não possam modificar rapidamente a situação e fazer convergir para estas áreas a maior parte dos esforços da Brigada).

Quanto ao apoio geológico na Faixa Zincífera, espera-se que ele se traduza na produção de cartas geológicas à escala 1:5 000, não só de áreas já prospectadas por alguns métodos geofísicos e geoquímicos, cuja investigação não tem prosseguido por falta de apoio geológico, mas também de áreas ainda não prospectadas, cujas características geológicas (conhecidas através de anteriores levantamentos pouco pormenorizados) nos levam a atribuir-lhes potencialidade para jazigos de zinco e chumbo.
Não se tem, até ao presente, definido quais as cartas a levantar à escala 1:5 000, confiando-se que o Geólogo saberia estabelecer o programa que mais conviria, dentro da orientação superiormente fixada, tendo em vista a mais rápida resolução do problema.
Uma vez, porém, que não se tem apresentado tal programa, este será oportunamente enviado para cumprimento.
Ainda no que respeita à Faixa Zincífera, espera-se:
a) que se faça o estudo pormenorizado das sondagens N.ºs 1 a 25 da área de Algares de Portel, conforme foi, há longo tempo, determinado;
b) que se apresente o relatório dos estudos geológicos e das sondagens efectuadas na região de Vale do Vargo;
c) que se acompanhe a evolução dos estudos que Intermine Limited efectua na área da região de Portel que lhe foi adjudicada para trabalhos de prospecção, pesquisa e exploração de jazigos minerais.

No que respeita às manchas de “pórfiros e rochas afins da região de Beja” e de “rochas graníticas e tonalíticas da região de Évora”, não se esperam levantamentos às escalas de 1:100 000, 1:50 000 ou 1:25 000, que são da competência dos Serviços Geológicos.

Espera-se, sim, que sejam feitos itinerários atravessando toda a área, segundo esquema previamente estabelecido, para definir as zonas realmente potenciais para os jazigos que se procuram. Demarcadas estas zonas, haverá que fazer levantamentos pormenorizados, à escala 1:5 000 ou de menor denominador.

Repete-se que a este programa não foi dado ainda carácter prioritário.

Só se aceita a distracção do tempo do Geólogo para este programa, quando tenham entrado na normalidade os estudos na Faixa Zincífera

Porto, 5 de Agosto de 1972
O Engenheiro Chefe da 1.ª Brigada de Prospecção
(a) Albertino Adélio Rocha Gomes

O Dr. José Goinhas, após ter recebido este documento desfez-se em desculpas e eu dei o incidente por encerrado, mas a realidade é que o relatório sobre a região de Vale de Vargo, interpretativo da estrutura geológica, com base nas numerosas sondagens que ali tinham sido efectuadas, não surgiu até à data da minha demissão da chefia da 1.ª Brigada de Prospecção.
Também não se verificou o aperfeiçoamento esperado no exame dos testemunhos das sondagens N.ºs 1 a 25 da área de Algares de Portel, como lhe tinha sido determinado.
Quando, em 2-12-1974, o Dr. José Goinhas surgiu em S. Mamede de Infesta acompanhado de todos os outros técnicos superiores da 1.ª Brigada de Prospecção, já com o propósito de prestar apoio ao Director-Geral, que ia pôr à discussão a sua proposta de nova organização da DGMSG, estranhei as referências muito elogiosas que fez às minhas intervenções na sessão que ali se realizou.. (Ver post N.º 77)
Poucos dias depois, sentindo a protecção do Director-Geral, resolveu afrontar-me, insistindo na marcação de uma sondagem na área de Viana do Alentejo, em local de que eu discordava totalmente, por se prever que, dada a grande proximidade de outra já executada, nenhuma informação adicional iria trazer. Como referi no post N.º 80, aceitei que a proposta fosse superiormente apresentada, com as assinaturas de todos os Engenheiros e Geólogos que com ele concordavam e com a minha assinatura de discordância.
Mas as atitudes estranhas do Dr. José Goinhas não ficaram por aqui.
Em Seminário de Geoquímica que se realizou na Universidade de Aveiro, em Janeiro de 1976, para o qual fui convidado pelos Drs. Britaldo Rodrigues e Edmundo Fonseca, apresentei-me como Chefe da 2.ª Brigada de Prospecção do SFM e dei a conhecer a actividade que tinha em curso, sobretudo na Faixa Metalífera da Beira Litoral, com grande incidência no distrito de Aveiro.
O Dr. José Goinhas compareceu também e, com grande surpresa minha apresentou-se como representante da 1.ª Brigada de Prospecção, acrescentando que essa Brigada era também uma criação do Senhor Engenheiro Rocha Gomes!
Em primeiro lugar, não compreendi porque, havendo na 1.ª Brigada um Engenheiro encarregado da prospecção geoquímica e, não sendo o Dr. Goinhas especialista em tal matéria, foi ele indicado para representar a Brigada.
Em segundo lugar, a referência elogiosa não se concilia com a acusação de eu ter ocasionado “enorme prejuízo ao Estado pelas deficiências no planeamento, execução e controle das vastas e delicadas tarefas a cargo da 1.ª Brigada de Prospecção”
Por último, quero assinalar que o Dr. José Goinhas chegou a ser indigitado para Director-Geral, quando FSC foi exonerado.
Não foi investido em tal cargo, mas conseguiu ser nomeado Director-Geral do Gabinete para a Prospecção, Pesquisa e Exploração de Petróleos, quando o cargo ficou vago por falecimento do respectivo titular! Além da sua notória impreparação nos complexos problemas da prospecção de petróleos, é surpreendente que se não tenha preocupado com os prejuízos que seriam de prever na 1.ª Brigada com a sua deserção.

87 – A minha demissão da chefia da 1.ª Brigada de Prospecção. Continuação 6

Continuo a responder à primeira pergunta formulada no post 84, caracterizando os autores da exposição que originou a minha demissão, na sua qualidade de técnicos do SFM:

O Geólogo Vítor Manuel Jesus Oliveira
Ingressou na 1.ª Brigada de Prospecção em Setembro de 1966
Proporcionei-lhe também estágio, durante alguns meses, na zona de S. Domingos da Faixa Piritosa Alentejana, sob a orientação de dois experientes Geólogos ingleses que ali actuavam, integrados na Companhia Mining Explorations (International).
Em 1970-71, foi-lhe concedida bolsa para frequência de Curso de Geologia Aplicada (Opção de Jazigos Minerais) na Faculdade de Ciências de Paris.
Encarreguei-o, principalmente, de dar o apoio geológico aos estudos na Faixa Piritosa Alentejana e aos trabalhos de prospecção que estavam em curso em áreas atribuídas à Secção de Vila Viçosa.
Vítor Oliveira foi, dos três Geólogos que estavam integrados na 1.ª Brigada de Prospecção, à data do vergonhoso documento, aquele que maior presença teve em trabalhos no campo.
Embora modesta, foi positiva a actividade que exerceu, de modo discreto.
As minhas relações para com ele foram sempre muito cordiais, como pode ser demonstrado por correspondência não oficializada sobre temas de serviço, em datas próximas da do infame documento, que ainda retenho no meu arquivo pessoal. Foi, por isso, com a maior surpresa que vi a sua assinatura nesse documento, até porque tinha bem presente a sua recente declaração de que ele e os outros técnicos da Brigada “não me trairiam”! (Ver post N.º 72)
Em princípios de Julho de 1975, visitei com meus alunos da Faculdade de Ciências do Porto, as zonas do Alentejo onde tinham sido obtidos êxitos nos trabalhos de prospecção e pesquisa mineiras que eu lá tinha dirigido. Acompanhavam-me, também, três geólogos seniores da sede do SFM, que eu convidara para tomarem conhecimento local desses êxitos.
No dia 3, quando estava a tomar o pequeno almoço no Café Coelho contíguo ao Restaurante Alentejano, o Senhor Coelho, proprietário do Café, tendo visto chegar o Geólogo Vítor Oliveira e sabendo das nossas boas relações, chamou-lhe a atenção para a minha presença.
Vítor Oliveira, de imediato, se dirige para a mesa em que também se encontrava um dos Geólogos e cumprimenta-o primeiramente.
A seguir, estende a mão para mim e diz: Bom dia, Engenheiro Rocha Gomes! Obviamente que não correspondi ao seu gesto, deixando-o de mão estendida, até que decidiu retirar-se. A minha vontade era esbofeteá-lo como punição pelo infame documento que subscrevera.
Conhecedores dos antecedentes, todos se surpreenderam pela atitude incoerente de Vítor Oliveira, depois dos insultos com que me tinha brindado.
Também o Senhor Coelho ficou estupefacto e eu tive que o informar do mau comportamento para comigo dos engenheiros e dos Geólogos da Brigada, após a Revolução.
Quando foi criada a Carreira de Investigação, Vítor Oliveira conseguiu ser classificado como Investigador Auxiliar e foram-lhe atribuídas funções mais importantes que aquelas que eu desempenhava, apesar de eu ser Investigador Principal.
Numa das reuniões realizadas em Lisboa, presidida por Delfim de Carvalho, na sua qualidade de Investigador Coordenador e na ausência do Director-Geral, que costumava presidir, apesar de não ter obtido classificação de Investigador, um dos temas em análise foi a admissão de mais investigadores.
Nessa reunião, que oportunamente descreverei, manifestei-me no sentido de se definirem prioritariamente os programas a cumprir, para se detectarem as reais necessidades.
Aconselhava, porém, que se procurasse melhorar a preparação dos actuais Investigadores, para se evitarem os erros que vinham sendo cometidos, alguns dos quais estiveram bem patentes na exposição dos trabalhos em S. Mamede de Infesta, quando da comemoração dos 50 anos do SFM.
Declarara eu, também, não ser de aceitar a presença de Geólogo com uma visão limitada dos reais problemas do SFM numa Comissão de Investigadores como representante do SFM, no âmbito da investigação científica.
Quando, na reunião de 2-5-1990, se procedia à leitura da Acta da sessão anterior, o Dr. Vítor Oliveira reage abruptamente, dizendo que apesar do muito respeito que nutria por mim, dada a minha idade, o que estava registado na Acta era uma provocação, pois tal não tinha sido afirmado.
O Director-Geral, que presidia a esta reunião, perante a situação criada, consultou os Investigadores presentes e quase todos concordaram com o Dr. Vítor Oliveira. Dos que tinham ido de S. Mamede de Infesta, apenas um declarou que as palavras que acima registei não tinham sido ditas.
Aconteceu, porém que o Dr. Delfim de Carvalho, a quem a redacção final da Acta tinha sido apresentada, não teve outra alternativa senão confirmar o que eu dissera. Declarou que, a sua qualidade de Presidente o obrigava a estar atento ao que se dizia e por isso confirmava as minhas declarações.
Estes dois acontecimentos revelam bem, não só o carácter de Vitor Oliveira, mas também a atenção dos Investigadores ao que se dizia nas reuniões, ou uma solidariedade para com um colega levada ao extremo.