No post n.º 116, registei a situação crítica a que o SFM chegara, no início da década de 80, para dar cabal cumprimento ao seu programa de inventariação dos recursos minerais do País.
A maior parte dos Engenheiros de Minas tinha-se refugiado no conforto dos gabinetes, ocupando-se em tarefas burocráticas, ou em actividades de rotina, sendo rara a sua presença no campo.
Confiavam excessivamente na capacidade de Agentes Técnicos de Engenharia e de trabalhadores com poucas habilitações escolares, que haviam sido instruídos na execução de levantamentos topográficos, piquetagens e observações por diversas técnicas geofísicas e geoquímicas.
Não se verificava o ingresso de novos Engenheiros de Minas, que viessem ajudar-me a revitalizar o Organismo criador de riqueza, que deveria ser o SFM.
O mesmo não acontecia, porém, com Geólogos.
Estes foram progressivamente entrando no SFM, tornando-se a classe dominante.
Mas se os Engenheiros vinham mal preparados das Universidades, os Geólogos formados antes da introdução da Prospecção Mineira no elenco de cadeiras do Curso, vinham, em geral, em situação ainda pior.
Tirando partido da anarquia que passou a vigorar, após a Revolução de Abril de 1974, arrogavam-se competências que estavam longe de possuir.
Alguns deles mostraram, além de grande incompetência, carácter muito duvidoso.
Cito alguns exemplos
Os cognominados “Scheeliteiros”, cuja ridícula actuação descrevi em vários posts, sendo de salientar os n.ºs 94 e 114, são bem representativos da ignorância arvorada em capacidade empreendedora.
Um Geólogo que tinha sido destacado para prestar apoio aos trabalhos de prospecção que decorriam na Secção de Caminha, apresentou relatório, sem o mínimo interesse.
Tinha-lhe sido pedido que implantasse, em mapas à escala de 1:5000, as formações ocorrentes na área do jazigo mineral que estava em investigação.
Apresentou mapa à escala 1:25000, apenas acrescentando ao mapa dos Serviços Geológicos de que já dispúnhamos, algumas falhas de muito duvidosa existência.
Argumentava que a topografia dos mapas à escala 1:5000 estava incorrecta, por ter sido obtida por ampliação de mapas à escala 1:25000 dos Serviços Cartográficos do Exército.
Aconteceu, porém, que o concessionário das Minas Cerdeirinha e Lapa Grande conseguira entrar em contacto com instituição da República checa, para possível associação, com vista a aperfeiçoar a exploração que se encontrava em curso, em ambas aquelas Minas.
Essa instituição fez deslocar a Portugal os Geólogos Yanecka e Strnad.
Quando com eles estabeleci contacto, apercebi-me da sua grande competência profissional e, por isso, logo procurei entrar em franca colaboração.
Dei-lhes informação dos estudos que tínhamos em curso e entreguei-lhes cópias dos mapas topográficos à escala de 1:5000, que usávamos para implantação dos resultados das técnicas que estávamos a aplicar.
Ficaram muito agradecidos por poderem dispor destes mapas, que logo passaram a usar, assim poupando o trabalho de planimetria, com bússola e fita métrica, que estavam a fazer.
Mas não ficou por aqui a colaboração com os Geólogos checos.
Ao Dr. António Ribeiro que, naquela época, se destacava dos seus colegas por uma real competência, sobretudo no âmbito da geologia estrutural, sugeri que me acompanhasse até ao Director e lhe fizesse ver a conveniência de aproveitar a presença dos geólogos checos para fazer estagiar, junto deles, um dos Geólogos recentemente admitidos no SFM.
Com o parecer concordante de António Ribeiro, consegui que fosse destacado para estagiar junto dos checos o Geólogo Vítor Manuel Correia Pereira.
Infelizmente, Vítor Pereira não soube aproveitar a oportunidade que lhe foi proporcionada. Pouco aprendeu, mas passou a apresentar-se, perante mim, com arrogância, pretendendo assumir a orientação dos estudos na região e recusando-se a conciliar o que teria aprendido, com os resultados das técnicas que eu estava a utilizar.
Como não havia Ordem superior que o colocasse no Serviço de Prospecção, nada se aproveitou da sua presença na zona.
Notei que a Empresa Geominas, que também actuava na região, tentou a sua colaboração, mas não detectei que dela tivesse resultado qualquer efeito prático.
Entretanto, prosseguia a colaboração que se tinha estabelecido entre mim e os geólogos checos.
Quando estes deram por terminado os estudos de que tinham sido encarregados, ofereceram-me uma cópia do seu relatório, na língua checa, portanto, para mim, indecifrável.
Esse relatório vinha, porém, acompanhado de mapas à escala de 1:5000, com implantação das formações geológicas ocorrentes na região.
Isto representava um considerável progresso, que Geólogos portugueses não tinham conseguido.
Vítor Manuel Correia Pereira, sabendo da existência deste relatório, esqueceu o seu insolente comportamento anterior para comigo e veio pedir-me cópia dos mapas geológicos elaborados pelos checos.
Inseriu-os, como seu autor (!), no Livro-Guia de excursão que iria realizar-se no âmbito do Congresso CHILAGE.
Mais tarde, viria mesmo a fazer figurar no seu currículo publicado em Diário da República a autoria deste levantamento geológico!!!
Como prémio destas vergonhosas atitudes, após um período em que esteve afastado do SFM, viria a ser promovido a categoria que lhe permitiria ter papel activo em procedimento disciplinar em que acabei por me ver envolvido, conforme oportunamente descreverei.
Quando o Engenheiro Pedroso de Lima foi contratado e entrou em contacto comigo (Ver novamente post n.º 116), apesar de não ter Ordem de Serviço que o colocasse no departamento de Prospecção que eu, com imensa dificuldade ainda conseguia manter, alimentei a esperança de que o pudesse vir a orientar no sentido de se tornar um elemento vitalizador do moribundo SFM.
Tais esperanças cedo se desvaneceram, porque Pedroso de Lima compreendeu ter entrado num Organismo com escassa perspectivas de futuro.
Acontecia, porém, que o funcionário do SFM, Laurentino Rodrigues, que tinha entrado como Ajudante do Laboratório de Química, estava matriculado no Instituto Superior de Engenharia e tinha a intenção de se licenciar em Engenharia de Minas.
Laurentino tomou a iniciativa de se me dirigir a manifestar o desejo de assistir aos trabalhos de prospecção que eu dirigia nas Secções de Caminha e de Talhadas.
Foi com todo o gosto que comecei por lhe proporcionar, em 21-9-77, visita aos trabalhos em curso na Faixa Metalífera da Beira Litoral.
Laurentino ficou impressionado com o que observou e solicitou-me, que autorizasse visita aos trabalhos da Secção de Caminha, não apenas a ele, mas também a 6 ou 7 dos seus colegas.
A visita efectuou-se em 8-6-78 e todos puderam observar a aplicação dos métodos eléctricos de polarização espontânea e de resistividade eléctrica (modalidades Sclumberger e Wenner) com a aparelhagem Terrameter, que obsequiosamente me tinha sido cedida pela Faculdade de Engenharia do Porto.
Na sequência desta visita, o Engenheiro Lisoarte, professor do Instituto Superior de Engenharia, manifestou interesse em que eu desse aulas de Prospecção Mineira, neste Instituto.
Não parecia fácil satisfazer a sua pretensão, pois eu não estava autorizado a acumular mais docências, mas dispunha-me a estudar maneira de prestar auxílio na matéria.
Ainda cheguei a enviar o meu currículo para análise pelo corpo docente do Instituto, mas o interesse inicial não teve sequência, perante os impedimentos legais e eu passei a concentrar-me na preparação do então ainda seu aluno, Laurentino Rodrigues, prevendo que ele pudesse vir a ser o continuador da minha obra, quando chegasse a hora de me aposentar.
Eu tinha, no meu programa, a realização de ensaios de orientação, numa área do concelho de Esposende onde ocorre mineralização tungstífera e onde as condições geológicas se me afiguravam semelhantes às da Região Mineira de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima.
Aproveitei o interesse que Laurentino Rodrigues demonstrara pelas técnicas de prospecção mineira, para, com a sua colaboração, dar início a estes ensaios.
Desde Outubro de 1978 até Julho de 1979, fiz várias deslocações a esta área de Esposende, acompanhado por Laurentino Rodrigues, essencialmente com o propósito de o industriar nas técnicas de prospecção, que me era possível aplicar, com os equipamentos de que dispunha (do SFM e da Faculdade de Engenharia).
Ensinei-o, depois, no gabinete, a fazer o tratamento dos dados colhidos no campo, com vista à sua interpretação.
Laurentino continuava os seus estudos.
Terminara o Curso no ISEP e apresentou-me cópia do seu relatório sobre o trabalho em que participara em Esposende, com o qual conseguiu melhorar a sua classificação final.
Passou, depois, a frequentar a Faculdade de Engenharia, continuando a procurar-me, no meu gabinete, para conversas sobre o seu curso, muito virado para os computadores e sobre a lamentável evolução que estava a verificar-se no SFM.
Terminado o seu Curso na Faculdade de Engenharia, não teve dificuldade em conseguir contrato com o SFM, na categoria a que agora tinha direito.
Em Janeiro de 1982, obteve autorização para um estágio na 1.ª Brigada de Prospecção, onde existiam equipamentos que no Norte não tivera oportunidade de usar.
Quando regressou, manifestou-me a sua grande decepção, por verificar a degradação daquela Brigada. Toda a sua actividade se restringia agora a trabalhos para Empresas que detinham contratos de prospecção com o Estado. Não recebera o apoio que esperava.
O Engenheiro Vítor Borralho já tinha saído para ocupar cargo de Administrador de Minas de Aljustrel, deixando o Laboratório de Geoquímica entregue a pessoal pouco qualificado.
E o Geólogo Goinhas estava a preparar-se para usar também a sua filiação partidária, para obter cargo em Lisboa, com melhor remuneração.
Confirmava-se o que Gouveia me havia dito: Andavam, desorientados, a inventar trabalho! (Ver post n.º 134).
Em 10-5-82, Laurentino, numa das suas habituais conversas, vem revelar-me que, para ele, tinham “empurrado” o pessoal da Secção de Talhadas, que tinha começado por ser deslocado, com carácter temporário para trabalhos dirigidos pelo Geólogo Viegas, mas que acabara por ficar subordinado a este Geólogo, após a suspensão dos estudos que eu tinha em curso na Faixa Metalífera da Beira Litoral (ver post n.º 138).
Já o tinham “empurrado”, anteriormente, para o Engenheiro Pedroso de Lima. Mas como este rescindira o seu contrato, “empurraram-no” agora para ele.
Comentava que andaram perdidos pela Região de Moncorvo e por outros locais e agora não sabiam em que ocupar o pessoal.
Laurentino passou, portanto, a ter que aplicar pessoal treinado em várias técnicas de prospecção, encontrando sérias dificuldades em que a suas ordens fossem respeitadas por funcionários, que se apercebiam da sua ainda pouca experiência.
Recomendei-lhe prudência, lembrando-lhe que situação idêntica ocorrera na 1.ª Brigada de Prospecção, quando nela foram integrados Engenheiros muito mal preparados, que encontraram pessoal, com poucas habilitações escolares, muito mais conhecedores das técnicas de prospecção mineira.
Chamei-lhe a atenção para a conveniência de não se deixar envolver em problemas que lhe diminuíssem o prestígio, pois havia séria probabilidade de vir a suceder-me na direcção dos futuros trabalhos de investigação mineira no País, já que não havia outros Engenheiros em condições de exercerem o cargo com dignidade.
Laurentino manifestava algum desânimo com esta sua entrada na profissão de Engenheiro e dizia-me que o que lhe dava alento eram os meus estímulos durante os seus desabafos para comigo.
Chegou a ponderar o abandono do FM, seguindo o exemplo de Pedroso de Lima.
Apesar destas manifestações de apreço, causava-me apreensão o facto de ele ter aceite, com naturalidade, a sua subordinação ao Geólogo Viegas, que era um dos mais perniciosos elementos do SFM.
O Director Gouveia permanecia alheio aos meus esforços de preparação de pessoal para as tarefas de prospecção mineira, quer interna, quer externamente.
Continua…
sexta-feira, 22 de outubro de 2010
terça-feira, 12 de outubro de 2010
142 - A minha colaboração com o Departamento de Geociências da Universidade de Aveiro.
Os meus contactos com a Universidade de Aveiro tiveram origem nas cordiais relações que eu mantinha, desde longa data, com o Professor Carlos Teixeira.
Nas minhas frequentes estadias em Lisboa, quando se me oferecia oportunidade, ia à Faculdade de Ciências, visitar este acérrimo defensor da Geologia, para cuja real importância sentia necessidade de chamar a atenção, pois nem sempre fora devidamente reconhecida pelos serviços oficiais.
Na visita que fiz em 17-11-74, Carlos Teixeira sugeriu-me que inserisse, no programa que ia cumprir no Alentejo, contactos com os Professores Britaldo Rodrigues e Herlânder Correia, e os auxiliasse na actividade do Departamento de Geologia, que estava em fase de instalação, na recém-instituída Universidade de Évora.
Era para mim óbvio que a colaboração com esta nova Universidade teria interesse mútuo, podendo ser de grande utilidade para os trabalhos de prospecção que eu dirigia no Sul do País.
Os Professores Britaldo e Herlânder ficaram muito reconhecidos pela minha atitude, manifestando até alguma surpresa pelo seu ineditismo.
Mas Britaldo Rodrigues não permaneceu muito tempo em Évora. Transferira-se para a Universidade de Aveiro, que também tinha sido recentemente instituída.
Em Janeiro de 1976, lembrando-se da minha disponibilidade para colaborar com estabelecimentos de ensino, veio ao meu gabinete em S. Mamede de Infesta, acompanhado do Professor Teixeira, para me convidar a participar em “Semana de Geoquímica” que a Universidade de Aveiro se propunha realizar. (Ver post n.º 76).
Na Semana, que se resumiu a dois dias (23 e 24 de Janeiro), estiveram presentes, além do Reitor e de docentes locais, representantes das Universidades de Lisboa, Porto, e Coimbra, do Serviço de Fomento Mineiro e da Direcção-Geral dos Serviços de Prospecção e Exploração Mineira da Junta de Energia Nuclear.
Ao Serviço de Fomento Mineiro coube a maior representação.
Eu e o Geólogo Dr. Orlando Gaspar, aproveitamos a presença de personalidades, com directa ou indirecta influência na nossa indústria mineira, para as estimular a desempenhar um papel activo na defesa do cumprimento, em bases científicas, do projecto de inventariação dos recursos minerais do País que consta do Decreto-lei n.º 29 725 de Junho 1939.
Eu manifestei a minha concordância quanto à grande utilidade da Geoquímica em prospecção mineira e, por isso, apoiava inteiramente o propósito da Universidade de Aveiro de dedicar especial atenção a esta matéria.
Exprimi, todavia, a opinião de que só de um conjunto diversificado de técnicas, criteriosamente aplicadas, seria possível dar cumprimento ao projecto referido.
Aproveitei o ensejo para chamar a atenção para desvios que estavam a ocorrer no cumprimento do projecto, com gravíssimas quebras da disciplina que sempre devia presidir a tão exigente programa.
Estava a verificar-se um escandaloso aproveitamento do Organismo para a satisfação de interesses pessoais, secundarizando ou esquecendo mesmo o interesse do País.
Advoguei a promoção do Serviço de Fomento Mineiro a Instituto Português de Investigação dos Recursos Minerais, sem subordinação ao Director-Geral de Minas, que estava a travar a sua capacidade de acção.
A este Instituto deveria atribuir-se mais amplo campo de actuação, que lhe permitisse chegar até à fase de exploração de jazigos minero-metalíferos, incluindo obviamente os de minérios radioactivos, pedreiras, águas mineralizadas ou não, carvões, petróleos, quando se não justificasse adjudicar a exploração a Empresa pública para o efeito constituída, ou a Empresa privada de comprovada idoneidade.
Embora tenha sido eu quem tomara a iniciativa de introduzir as técnicas geoquímicas no SFM (Ver post n.º 27), não me apresentei, neste Seminário, na qualidade, em que estava investido, de Chefe do Serviço de Prospecção Mineira do SFM, com área de actuação extensiva a todo o território nacional.
Por me ter sido retirada a chefia da 1.ª Brigada, com actuação a sul do Rio Tejo, apresentei-me apenas como Chefe da 2.ª Brigada, com área de actuação a Norte daquele rio.
Alguns dos professores universitários presentes, conhecedores do meu currículo, estranharam a minha atitude e procuraram saber as causas e eu não tive dúvidas em apontar para Goinhas, que tinha vindo representar a 1.ª Brigada de Prospecção, como um dos grandes responsáveis pela minha demissão da chefia dessa Brigada.
Em apoio de sugestões que eu apresentara, o Professor Portugal Ferreira, da Universidade de Coimbra manifestou surpresa por terem terminado os Trabalhos Mineiros no SFM, acentuando que “é neles que se vê a realidade mineira”.
No mesmo sentido, o Professor Aires de Barros observou que a criação de um “Gabinete para a Prospecção e Exploração de Petróleos”, liberto da subordinação a um Director-Geral de Minas, tinha permitido que empresas especializadas estivessem a efectuar sondagens, tanto na parte emersa, como na zona imersa do território nacional.
Na qualidade de Chefe da 2.ª Brigada, revelei a extensa aplicação da técnica geoquímica nas regiões de Moncorvo, Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima e na designada Faixa Metalífera da Beira Litoral, que abrange grande parte da área do distrito de Aveiro.
Salientei o facto de nesta Faixa estarem já cobertos pela técnica geoquímica, com amostragem sobretudo de sedimentos de linhas de água, cerca de 1800 km2.
Mostrei ampla abertura quanto à intervenção da Universidade de Aveiro, no estudo desta Faixa, não apenas em matéria de geoquímica, mas sobretudo no âmbito da geologia.
De facto, embora tivessem ingressado recentemente numerosos Geólogos no Quadro de Técnicos do SFM, nenhum fora destacado para colaborar no estudo desta Faixa, porque o Director-Geral de Minas “não sentia entusiasmo com filões”!
A Britaldo Rodrigues e a Edmundo Fonseca, recomendei que aproveitassem zonas de anomalias geoquímicas já evidenciadas pelo SFM, para prosseguirem na sua investigação, com vista a determinar a sua causa (possíveis jazigos minerais), quer por docentes quer por alunos da Universidade de Aveiro.
Em representação da 1.ª Brigada de Prospecção, eu esperava que comparecesse o Engenheiro Vítor Borralho, cujo ingresso no SFM tinha sido por mim proposto, para o encarregar de dirigir os trabalhos de prospecção geoquímica daquela Brigada.
Não foi, porém, isso que aconteceu.
Foi o Geólogo José Goinhas quem aceitou desempenhar esse papel, embora a sua actividade na Brigada pouco tivesse a ver com a matéria do Seminário.
A ausência de Vítor Borralho, foi justificava com súbita doença, mas a realidade era outra.
Vítor Borralho andava muito empenhado em actividades políticas.
Já que não tinha conseguido o cargo de Governador Civil de Beja, para que chegou a ser indigitado, procurava agora cargo de Administrador de Minas de Aljustrel, o que viria a alcançar.
Por outro lado, teria alguma dificuldade em me enfrentar, após o vergonhoso documento que subscreveu, o qual contribuiu para a minha demissão da chefia da 1.º Brigada.
José Goinhas, começou a sua intervenção por explicar a sua presença, não sendo o especialista da Brigada na matéria em análise, acentuando que a 1.ª Brigada de Prospecção, que vinha representar era também uma criação do Senhor Engenheiro Rocha Gomes. Neste elogio, ignorara a contradição com o documento que subscrevera em 1975!
A sua exposição esteve longe de dar o devido relevo à importância que eu tinha dedicado, na 1.ª Brigada de Prospecção às técnicas geoquímicas. Não foi acentuado que todo um andar de um edifício contíguo às principais instalações do SFM em Beja, foi dedicado à prospecção geoquímica, tendo nele sido instalado um laboratório para suprir a incapacidade do Laboratório de S. Mamede de Infesta para realizar, em tempo útil, as análises que lhe eram solicitadas.
Neste Laboratório de Beja, passaram a fazer-se análises, não só de amostras de áreas em estudo no Sul do País, mas também da Faixa Metalífera da Beira Litoral.
A convite dos organizadores do Seminário, assumi a presidência de uma das sessões.
Britaldo Rodrigues ainda tomou a iniciativa de convocar alguns dos intervenientes neste Seminário para organizar um Curso pós-graduação de Extensão Geoquímica, chegando a convidar-me a participar no respectivo corpo docente.
Todavia não foi, também, longa a sua presença na Universidade de Aveiro. Passou pela Universidade dos Açores, foi Director-Geral do Ensino Superior em 1980-81 e foi depois chamado a exercer cargo de Secretário de Estado.
O entusiasmo pela Geoquímica abrandou, após a saída do seu principal impulsionador.
Mas, em 1978, conforme tive oportunidade de referir no post n.º 138 , Edmundo Fonseca mostrou grande interesse na minha colaboração, da qual disse necessitar “como do pão para a boca”, em Seminário Internacional de Geoquímica que estava a organizar.
Foi com todo o gosto que acedi ao seu pedido e Edmundo Fonseca acabou por aproveitar a informação, que então divulguei, quanto ao êxito do SFM na redescoberta da antiga Mina de chumbo e zinco do Sanguinheiro, para usar área envolvente desta Mina como a principal matéria da sua tese de doutoramento.
Em Maio de 1982, o Departamento de Geociências voltou a manifestar um grande empenho na minha colaboração na preparação dos seus alunos do Curso de Engenharia Geológica.
Quiseram primeiramente, apreciar”in loco” as actividades que eu dirigia no campo.
Nesse sentido, proporcionei visita aos trabalhos que decorriam na região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima aos docentes Renato Araújo, Frederico Machado, Celso, Severo e Ernesto.
Revelei as potencialidades da área e os resultados já conseguidos pelo SFM, os quais estiveram na base de explorações lucrativas por empresa privada e de contratos de prospecção com outras empresas.
Eu tinha levado documentação respeitante à Faixa Metalífera da Beira litoral, para estimular a Universidade de Aveiro a colaborar no seu estudo, mas não houve tempo para a analisar.
Combinou-se novo encontro em Aveiro.
No encontro que se realizou, em Junho de 1982, participaram os docentes Renato Araújo, Frederico Machado, Edmundo Fonseca, Celso, Serrano Pinto, Severo, Luís Menezes e Fernando Ernesto.
Voltou a encarar-se a minha colaboração em prospecção e eu manifestei, então, a minha estupefacção por a Universidade ter aceite que o Geólogo Santos Oliveira também tivesse sido convidado a participar no seu corpo docente.
De facto, parecia-me uma atitude muito infeliz, que não contribuiria para o desejável prestígio do Departamento, pois eu considerava este Geólogo um dos grandes responsáveis por atrasos e erros graves no cumprimento dos programas do SFM. (a este respeito ver posts n.ºs 94, 114, 127 e 135).
Argumentaram que, Santos Oliveira lhes prometera disponibilizar equipamentos do Laboratório de S. Mamede de Infesta, de que fora designado Director, após a aposentação do Engenheiro Orlando Cardoso.
A minha estupefacção aumentou ainda, pois havia milhares de amostras que eu tinha enviado para análise cujos resultados não surgiam, sendo de meu conhecimento que se decidira não proceder a essas análises.
Tais amostras estiveram até a caminho de destruição, quando Orlando Cardoso as abandonara no seu gabinete. Consegui salvá-las por grande casualidade.
Mas não consegui salvar mais de uma centena de milhares da Faixa Metalífera da Beira Litoral, que tinham sido objecto apenas de análises expeditas, no Laboratório de Beja, para metais pesados, a frio, pelo método de Bloom e que aguardavam análises de Cu, Pb e Zn, por absorção atómica, nos excelentes Laboratórios de Química de S. Mamede de Infesta. Este foi um crime da inteira responsabilidade de Santos Oliveira.
Por todas estas razões, eu não me sentia disposto a participar num corpo docente que incluísse tal personagem.
Não tendo participado no corpo docente do Departamento de Geociências da Universidade de Aveiro, passei, porém, a partir do ano lectivo de 1981-92, a prestar contínua colaboração, nas variadas técnicas da prospecção mineira, não apenas nas geoquímicas.
Deu-se o caso de os Engenheiros Luís Fuentefria Menezes Pinheiro e Fernando Ernesto Rocha de Almeida, sendo já docentes deste Departamento, se aperceberam da lacuna na sua formação, no âmbito da prospecção mineira.
Ambos tinham concluído a licenciatura anteriormente ao ano em que eu dera as primeiras aulas na Faculdade de Engenharia, não tendo tido, por isso, oportunidade de frequentar a cadeira.
Vieram solicitar-me permissão para assistirem às minhas aulas, na Faculdade de Ciências.
O pedido foi obviamente satisfeito e foi com grande satisfação que observei o entusiasmo com que ambos acompanharam as lições teóricas e práticas de campo e de gabinete.
O seu entusiasmo foi ao ponto de conseguirem que a Universidade de Aveiro adquirisse alguns equipamentos que acabaram por ser de grande utilidade para o prosseguimento dois trabalhos na região de Vila Nova de Cerveira – Caminha - Ponte de Lima, assim atenuando os obstáculos que internamente me estavam a ser sistematicamente criados.
Mas os referidos Engenheiros não se limitaram a frequentar as aulas durante o ano de 1981-82. Voltaram no ano de 1982-83, tornando as aulas mais atractivas, pelas suas frequentes e oportunas intervenções.
Tornaram-se, além disso, óptimos companheiros, quando semanalmente me deslocava ao campo para ter acção directa nos trabalhos de prospecção que decorria na região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima.
Saindo a horas matutinas de Aveiro, surgiam pontualmente, às 8 horas, nas instalações do SFM em S. Mamede de Infesta, frequentemente acompanhados de outros docentes e de grupos mais ou menos numerosos de alunos e todos participavam nas observações pelas variadas técnicas que estavam a ser aplicadas.
Cheguei a ter que utilizar meios de transporte da Universidade de Aveiro, além dos seus equipamentos, para que os trabalhos pudessem prosseguir, com rendimento, pois no SFM até obstáculos me eram criados no uso de viaturas ou no fornecimento de senhas para abastecimento de combustível, para me deslocar ao campo.
Foram mais de 40 os dias em que estes colegas colaboraram nos estudos da região referida e, por vezes, foi-me difícil convencê-los a dar por terminado o trabalho, pelas 17 horas, pois eles não queriam sair, sem que anomalia que tinha surgido estivesse completamente definida!
Jorge Gouveia mantinha-se completamente alheio a este ambiente saudável de trabalho, que devia servir de exemplo da estreita colaboração que deveria existir entre o SFM e os estabelecimentos de ensino, tal como defendia o novo Director-Geral.
Nas minhas frequentes estadias em Lisboa, quando se me oferecia oportunidade, ia à Faculdade de Ciências, visitar este acérrimo defensor da Geologia, para cuja real importância sentia necessidade de chamar a atenção, pois nem sempre fora devidamente reconhecida pelos serviços oficiais.
Na visita que fiz em 17-11-74, Carlos Teixeira sugeriu-me que inserisse, no programa que ia cumprir no Alentejo, contactos com os Professores Britaldo Rodrigues e Herlânder Correia, e os auxiliasse na actividade do Departamento de Geologia, que estava em fase de instalação, na recém-instituída Universidade de Évora.
Era para mim óbvio que a colaboração com esta nova Universidade teria interesse mútuo, podendo ser de grande utilidade para os trabalhos de prospecção que eu dirigia no Sul do País.
Os Professores Britaldo e Herlânder ficaram muito reconhecidos pela minha atitude, manifestando até alguma surpresa pelo seu ineditismo.
Mas Britaldo Rodrigues não permaneceu muito tempo em Évora. Transferira-se para a Universidade de Aveiro, que também tinha sido recentemente instituída.
Em Janeiro de 1976, lembrando-se da minha disponibilidade para colaborar com estabelecimentos de ensino, veio ao meu gabinete em S. Mamede de Infesta, acompanhado do Professor Teixeira, para me convidar a participar em “Semana de Geoquímica” que a Universidade de Aveiro se propunha realizar. (Ver post n.º 76).
Na Semana, que se resumiu a dois dias (23 e 24 de Janeiro), estiveram presentes, além do Reitor e de docentes locais, representantes das Universidades de Lisboa, Porto, e Coimbra, do Serviço de Fomento Mineiro e da Direcção-Geral dos Serviços de Prospecção e Exploração Mineira da Junta de Energia Nuclear.
Ao Serviço de Fomento Mineiro coube a maior representação.
Eu e o Geólogo Dr. Orlando Gaspar, aproveitamos a presença de personalidades, com directa ou indirecta influência na nossa indústria mineira, para as estimular a desempenhar um papel activo na defesa do cumprimento, em bases científicas, do projecto de inventariação dos recursos minerais do País que consta do Decreto-lei n.º 29 725 de Junho 1939.
Eu manifestei a minha concordância quanto à grande utilidade da Geoquímica em prospecção mineira e, por isso, apoiava inteiramente o propósito da Universidade de Aveiro de dedicar especial atenção a esta matéria.
Exprimi, todavia, a opinião de que só de um conjunto diversificado de técnicas, criteriosamente aplicadas, seria possível dar cumprimento ao projecto referido.
Aproveitei o ensejo para chamar a atenção para desvios que estavam a ocorrer no cumprimento do projecto, com gravíssimas quebras da disciplina que sempre devia presidir a tão exigente programa.
Estava a verificar-se um escandaloso aproveitamento do Organismo para a satisfação de interesses pessoais, secundarizando ou esquecendo mesmo o interesse do País.
Advoguei a promoção do Serviço de Fomento Mineiro a Instituto Português de Investigação dos Recursos Minerais, sem subordinação ao Director-Geral de Minas, que estava a travar a sua capacidade de acção.
A este Instituto deveria atribuir-se mais amplo campo de actuação, que lhe permitisse chegar até à fase de exploração de jazigos minero-metalíferos, incluindo obviamente os de minérios radioactivos, pedreiras, águas mineralizadas ou não, carvões, petróleos, quando se não justificasse adjudicar a exploração a Empresa pública para o efeito constituída, ou a Empresa privada de comprovada idoneidade.
Embora tenha sido eu quem tomara a iniciativa de introduzir as técnicas geoquímicas no SFM (Ver post n.º 27), não me apresentei, neste Seminário, na qualidade, em que estava investido, de Chefe do Serviço de Prospecção Mineira do SFM, com área de actuação extensiva a todo o território nacional.
Por me ter sido retirada a chefia da 1.ª Brigada, com actuação a sul do Rio Tejo, apresentei-me apenas como Chefe da 2.ª Brigada, com área de actuação a Norte daquele rio.
Alguns dos professores universitários presentes, conhecedores do meu currículo, estranharam a minha atitude e procuraram saber as causas e eu não tive dúvidas em apontar para Goinhas, que tinha vindo representar a 1.ª Brigada de Prospecção, como um dos grandes responsáveis pela minha demissão da chefia dessa Brigada.
Em apoio de sugestões que eu apresentara, o Professor Portugal Ferreira, da Universidade de Coimbra manifestou surpresa por terem terminado os Trabalhos Mineiros no SFM, acentuando que “é neles que se vê a realidade mineira”.
No mesmo sentido, o Professor Aires de Barros observou que a criação de um “Gabinete para a Prospecção e Exploração de Petróleos”, liberto da subordinação a um Director-Geral de Minas, tinha permitido que empresas especializadas estivessem a efectuar sondagens, tanto na parte emersa, como na zona imersa do território nacional.
Na qualidade de Chefe da 2.ª Brigada, revelei a extensa aplicação da técnica geoquímica nas regiões de Moncorvo, Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima e na designada Faixa Metalífera da Beira Litoral, que abrange grande parte da área do distrito de Aveiro.
Salientei o facto de nesta Faixa estarem já cobertos pela técnica geoquímica, com amostragem sobretudo de sedimentos de linhas de água, cerca de 1800 km2.
Mostrei ampla abertura quanto à intervenção da Universidade de Aveiro, no estudo desta Faixa, não apenas em matéria de geoquímica, mas sobretudo no âmbito da geologia.
De facto, embora tivessem ingressado recentemente numerosos Geólogos no Quadro de Técnicos do SFM, nenhum fora destacado para colaborar no estudo desta Faixa, porque o Director-Geral de Minas “não sentia entusiasmo com filões”!
A Britaldo Rodrigues e a Edmundo Fonseca, recomendei que aproveitassem zonas de anomalias geoquímicas já evidenciadas pelo SFM, para prosseguirem na sua investigação, com vista a determinar a sua causa (possíveis jazigos minerais), quer por docentes quer por alunos da Universidade de Aveiro.
Em representação da 1.ª Brigada de Prospecção, eu esperava que comparecesse o Engenheiro Vítor Borralho, cujo ingresso no SFM tinha sido por mim proposto, para o encarregar de dirigir os trabalhos de prospecção geoquímica daquela Brigada.
Não foi, porém, isso que aconteceu.
Foi o Geólogo José Goinhas quem aceitou desempenhar esse papel, embora a sua actividade na Brigada pouco tivesse a ver com a matéria do Seminário.
A ausência de Vítor Borralho, foi justificava com súbita doença, mas a realidade era outra.
Vítor Borralho andava muito empenhado em actividades políticas.
Já que não tinha conseguido o cargo de Governador Civil de Beja, para que chegou a ser indigitado, procurava agora cargo de Administrador de Minas de Aljustrel, o que viria a alcançar.
Por outro lado, teria alguma dificuldade em me enfrentar, após o vergonhoso documento que subscreveu, o qual contribuiu para a minha demissão da chefia da 1.º Brigada.
José Goinhas, começou a sua intervenção por explicar a sua presença, não sendo o especialista da Brigada na matéria em análise, acentuando que a 1.ª Brigada de Prospecção, que vinha representar era também uma criação do Senhor Engenheiro Rocha Gomes. Neste elogio, ignorara a contradição com o documento que subscrevera em 1975!
A sua exposição esteve longe de dar o devido relevo à importância que eu tinha dedicado, na 1.ª Brigada de Prospecção às técnicas geoquímicas. Não foi acentuado que todo um andar de um edifício contíguo às principais instalações do SFM em Beja, foi dedicado à prospecção geoquímica, tendo nele sido instalado um laboratório para suprir a incapacidade do Laboratório de S. Mamede de Infesta para realizar, em tempo útil, as análises que lhe eram solicitadas.
Neste Laboratório de Beja, passaram a fazer-se análises, não só de amostras de áreas em estudo no Sul do País, mas também da Faixa Metalífera da Beira Litoral.
A convite dos organizadores do Seminário, assumi a presidência de uma das sessões.
Britaldo Rodrigues ainda tomou a iniciativa de convocar alguns dos intervenientes neste Seminário para organizar um Curso pós-graduação de Extensão Geoquímica, chegando a convidar-me a participar no respectivo corpo docente.
Todavia não foi, também, longa a sua presença na Universidade de Aveiro. Passou pela Universidade dos Açores, foi Director-Geral do Ensino Superior em 1980-81 e foi depois chamado a exercer cargo de Secretário de Estado.
O entusiasmo pela Geoquímica abrandou, após a saída do seu principal impulsionador.
Mas, em 1978, conforme tive oportunidade de referir no post n.º 138 , Edmundo Fonseca mostrou grande interesse na minha colaboração, da qual disse necessitar “como do pão para a boca”, em Seminário Internacional de Geoquímica que estava a organizar.
Foi com todo o gosto que acedi ao seu pedido e Edmundo Fonseca acabou por aproveitar a informação, que então divulguei, quanto ao êxito do SFM na redescoberta da antiga Mina de chumbo e zinco do Sanguinheiro, para usar área envolvente desta Mina como a principal matéria da sua tese de doutoramento.
Em Maio de 1982, o Departamento de Geociências voltou a manifestar um grande empenho na minha colaboração na preparação dos seus alunos do Curso de Engenharia Geológica.
Quiseram primeiramente, apreciar”in loco” as actividades que eu dirigia no campo.
Nesse sentido, proporcionei visita aos trabalhos que decorriam na região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima aos docentes Renato Araújo, Frederico Machado, Celso, Severo e Ernesto.
Revelei as potencialidades da área e os resultados já conseguidos pelo SFM, os quais estiveram na base de explorações lucrativas por empresa privada e de contratos de prospecção com outras empresas.
Eu tinha levado documentação respeitante à Faixa Metalífera da Beira litoral, para estimular a Universidade de Aveiro a colaborar no seu estudo, mas não houve tempo para a analisar.
Combinou-se novo encontro em Aveiro.
No encontro que se realizou, em Junho de 1982, participaram os docentes Renato Araújo, Frederico Machado, Edmundo Fonseca, Celso, Serrano Pinto, Severo, Luís Menezes e Fernando Ernesto.
Voltou a encarar-se a minha colaboração em prospecção e eu manifestei, então, a minha estupefacção por a Universidade ter aceite que o Geólogo Santos Oliveira também tivesse sido convidado a participar no seu corpo docente.
De facto, parecia-me uma atitude muito infeliz, que não contribuiria para o desejável prestígio do Departamento, pois eu considerava este Geólogo um dos grandes responsáveis por atrasos e erros graves no cumprimento dos programas do SFM. (a este respeito ver posts n.ºs 94, 114, 127 e 135).
Argumentaram que, Santos Oliveira lhes prometera disponibilizar equipamentos do Laboratório de S. Mamede de Infesta, de que fora designado Director, após a aposentação do Engenheiro Orlando Cardoso.
A minha estupefacção aumentou ainda, pois havia milhares de amostras que eu tinha enviado para análise cujos resultados não surgiam, sendo de meu conhecimento que se decidira não proceder a essas análises.
Tais amostras estiveram até a caminho de destruição, quando Orlando Cardoso as abandonara no seu gabinete. Consegui salvá-las por grande casualidade.
Mas não consegui salvar mais de uma centena de milhares da Faixa Metalífera da Beira Litoral, que tinham sido objecto apenas de análises expeditas, no Laboratório de Beja, para metais pesados, a frio, pelo método de Bloom e que aguardavam análises de Cu, Pb e Zn, por absorção atómica, nos excelentes Laboratórios de Química de S. Mamede de Infesta. Este foi um crime da inteira responsabilidade de Santos Oliveira.
Por todas estas razões, eu não me sentia disposto a participar num corpo docente que incluísse tal personagem.
Não tendo participado no corpo docente do Departamento de Geociências da Universidade de Aveiro, passei, porém, a partir do ano lectivo de 1981-92, a prestar contínua colaboração, nas variadas técnicas da prospecção mineira, não apenas nas geoquímicas.
Deu-se o caso de os Engenheiros Luís Fuentefria Menezes Pinheiro e Fernando Ernesto Rocha de Almeida, sendo já docentes deste Departamento, se aperceberam da lacuna na sua formação, no âmbito da prospecção mineira.
Ambos tinham concluído a licenciatura anteriormente ao ano em que eu dera as primeiras aulas na Faculdade de Engenharia, não tendo tido, por isso, oportunidade de frequentar a cadeira.
Vieram solicitar-me permissão para assistirem às minhas aulas, na Faculdade de Ciências.
O pedido foi obviamente satisfeito e foi com grande satisfação que observei o entusiasmo com que ambos acompanharam as lições teóricas e práticas de campo e de gabinete.
O seu entusiasmo foi ao ponto de conseguirem que a Universidade de Aveiro adquirisse alguns equipamentos que acabaram por ser de grande utilidade para o prosseguimento dois trabalhos na região de Vila Nova de Cerveira – Caminha - Ponte de Lima, assim atenuando os obstáculos que internamente me estavam a ser sistematicamente criados.
Mas os referidos Engenheiros não se limitaram a frequentar as aulas durante o ano de 1981-82. Voltaram no ano de 1982-83, tornando as aulas mais atractivas, pelas suas frequentes e oportunas intervenções.
Tornaram-se, além disso, óptimos companheiros, quando semanalmente me deslocava ao campo para ter acção directa nos trabalhos de prospecção que decorria na região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima.
Saindo a horas matutinas de Aveiro, surgiam pontualmente, às 8 horas, nas instalações do SFM em S. Mamede de Infesta, frequentemente acompanhados de outros docentes e de grupos mais ou menos numerosos de alunos e todos participavam nas observações pelas variadas técnicas que estavam a ser aplicadas.
Cheguei a ter que utilizar meios de transporte da Universidade de Aveiro, além dos seus equipamentos, para que os trabalhos pudessem prosseguir, com rendimento, pois no SFM até obstáculos me eram criados no uso de viaturas ou no fornecimento de senhas para abastecimento de combustível, para me deslocar ao campo.
Foram mais de 40 os dias em que estes colegas colaboraram nos estudos da região referida e, por vezes, foi-me difícil convencê-los a dar por terminado o trabalho, pelas 17 horas, pois eles não queriam sair, sem que anomalia que tinha surgido estivesse completamente definida!
Jorge Gouveia mantinha-se completamente alheio a este ambiente saudável de trabalho, que devia servir de exemplo da estreita colaboração que deveria existir entre o SFM e os estabelecimentos de ensino, tal como defendia o novo Director-Geral.
segunda-feira, 4 de outubro de 2010
141 - A minha colaboração com a Faculdade de Engenharia do Porto
Em meados de 1978, eu havia proporcionado ao Engenheiro Miranda, docente da Faculdade de Engenharia e aos seus alunos, visita aos trabalhos da Secção de Caminha, para demonstrações da aplicação dos métodos magnético e de polarização espontânea à prospecção mineira.
Tomara, então, conhecimento de que, naquela Faculdade, existia um magnetómetro de compensação de fabrico da ABEM de Estocolmo, que não estava em uso.
Embora obsoleto, pois havia magnetómetros de mais simples manejo e de maior sensibilidade, com os quais o SFM já se havia equipado, o aparelho ainda poderia ser útil, não só para medições, que não exigissem muito rigor, mas também para mostrar os diferentes tipos de aparelhos disponíveis no mercado, aos alunos da disciplina de Prospecção Mineira que eu leccionava na Faculdade de Ciências.
O meu pedido de cedência, por curto período, encontrou franco e total acolhimento.
A Faculdade informou possuir, também, um equipamento Terrameter de resistividade eléctrica, recentemente adquirido, que poderia disponibilizar-me, se eu pretendesse.
Logo aproveitei a oferta, porquanto os dois núcleos, que eu ainda mantinha, em actividade, tinham amplos campos de aplicação para esse equipamento.
Em Maio de 1979, o Professor Miranda solicitou-me que ministrasse, aos seus alunos, alguns ensinamentos de gravimetria aplicada à prospecção mineira, pois não dominava tal matéria.
Durante os meses de Maio, Junho e Julho de 1979, foi com muito gosto que dei, a 10 alunos, na Sala das Sessões do SFM, em S. Mamede de Infesta, as aulas que Miranda me solicitara, ocupando um total de 16 horas.
Não me foi possível ministrar aulas no campo, porque o gravímetro que eu tinha solicitado, para utilização, por curto período, apesar de prometido, continuava indisponível!
O Engenheiro Miranda mostrara também interesse em que os seus alunos tomassem contacto com outras técnicas de prospecção.
Satisfazendo o seu pedido, comecei, em mais uma aula, na Sala das Sessões, por historiar a actividade mineira na região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima, justificando a intervenção do SFM, para que pudessem ser devidamente aproveitadas as ocorrências de minérios de tungsténio, que tinham dado origem a algumas concessões mineiras.
Fiz, depois, uma rápida descrição das técnicas que estavam a ser aplicadas, com pleno êxito.
Os alunos teriam, em dias seguintes, oportunidade de observar a aplicação dessas técnicas e até de efectuar trabalho que iria ser aproveitado.
Nos dias 5 de Maio e 20 de Junho de 1979, mostrei, a Miranda e seus alunos, afloramentos da formação mineralizada em volframite e scheelite e o seu enquadramento geológico.
Apresentei, seguidamente, o pequeno grupo de trabalhadores, na sua quase totalidade localmente recrutados, que estava procedendo a observações pelos métodos magnético, de polarização espontânea e de resistividade eléctrica.
Os alunos foram, então, convidados a realizar observações, utilizando não só aparelhos do SFM, mas também, os equipamentos, que a Faculdade de Engenharia me tinha emprestado.
Dei-lhes, ainda, oportunidade de usarem bateias, na produção de concentrados de materiais aluvionares. A Ribeira das Pombas foi o local escolhido, dada a facilidade de acesso e a certeza de se conseguirem rapidamente concentrados contendo sobretudo cassiterite, facilmente identificável através de um simples ensaio químico em Laboratório.
Das conversas havidas, Miranda apercebeu-se da grande lacuna existente no elenco de disciplinas para a formação dos futuros Engenheiros de Minas, e logo pensou aproveitar o bom relacionamento que comigo se tinha estabelecido para propor ao Professor Madureira, dirigente do Departamento de Engenharia de Minas, que fosse introduzida, no Curso, a disciplina de Prospecção Mineira, sugerindo que eu fosse encarregado da respectiva docência.
O Professor Madureira concordou e, em 27-7-1979, ambos vieram ao meu gabinete em S. Mamede de Infesta, fazer o convite.
Perante a impossibilidade legal de acumular essas funções com as que já exercia na Faculdade de Ciências e, em manifestação da minha maior boa-vontade em prestar um auxílio que considerava não dever recusar, propus dar aulas, juntando na mesma sala, os alunos de Ciências e de Engenharia, caso houvesse concordância do Departamento de Geologia.
Havia, porém, um assunto que os preocupava. Sabedores das relações de amizade de Professor Morais Cerveira, Catedrático da Faculdade de Engenharia, com Soares Carneiro, pareciam recear, da parte deste, alguma oposição à colaboração que me pediam.
Sosseguei-os a este respeito, revelando-lhes que as minhas relações profissionais com Morais Cerveira sempre foram as melhores.
Às Minas de Covas, de que ele era Director-Técnico, eu tinha prestado, em numerosas ocasiões, auxílio que se revelara fundamental para a localização das zonas de mineralização economicamente explorável.
Ainda recentemente, Morais Cerveira me havia contactado a inquirir da possível existência de jazigo idêntico aos de Aparis ou Miguel Vacas, em cuja exploração estivera empenhada a Empresa Minerália que, para o efeito fundara, em sociedade com o Professor Farinas de Almeida.
Realçara, então, a exactidão do meu cálculo de reservas, na Mina de Aparis, pois a exploração correspondera fielmente às previsões.
Quanto à Mina de Miguel Vacas, na região de Vila Viçosa, também tinham sido de inestimável utilidade os dados que lhe facultei, sobre trabalhos de Mining Explorations (International), nos quais tive directa intervenção.
Respondi-lhe que, infelizmente, me tinha sido retirada a possibilidade de continuar a fazer estudos da natureza dos que fizera em Aparis (Ver, a este respeito, parte final do post n.º 25).
Nessa ocasião, apelei aos deveres cívicos de Morais Cerveira, para que usasse a sua influência junto do seu amigo Soares Carneiro, para o fazer entrar no caminho correcto, em defesa dos interesses nacionais.
Lembrei o conselho que lhe dei, quando nos encontrávamos na Mina da Cerdeirinha: “Trave-me esse louco, antes que destrua completamente a Direcção-Geral de Minas!”.
Confiei que este meu conselho pudesse ter algum sucesso, mas foi pura ingenuidade.
Soares Carneiro já tinha ido longe demais, para poder retroceder.
Obtida a concordância do Director do Departamento de Mineralogia e Geologia da Faculdade de Ciências, passei, durante o ano lectivo de 1981-82, a dar as aulas teóricas e práticas de campo e de gabinete, de Prospecção Mineira, ao conjunto de alunos das duas Faculdades, sem qualquer remuneração adicional.
Baseado no bom relacionamento que se havia estabelecido, pretendi ajudar o Departamento a melhorar a preparação dos seus alunos, pois tinha verificado insuficiências inadmissíveis em Engenheiros que tinham ingressado no SFM.
Além de ignorância total em prospecção mineira, mostraram quase igual ignorância em topografia, colocando-se em grande inferioridade relativamente a pessoal recrutado apenas com a antiga 4.ª Classe de Instrução Primária, o qual eu tinha instruído nessa matéria.
Comentei o total abandono a que tinha sido votada a prospecção mineira, manifestando a minha surpresa por encontrar na Biblioteca do Departamento apenas os livros que já existiam quando eu frequentara a Faculdade, isto é, 30 anos antes!
Informado de que o Departamento não dispunha de verba para compra de livros e revistas, com conhecimentos actualizados, mandei preparar fotocópias dos principais livros que o Departamento de Geologia da Faculdade de Ciências tinha adquirido, por minha indicação, cuja consulta eu costumava aconselhar aos alunos.
Eu sentia-me no direito de esperar que a minha colaboração à Faculdade de Engenharia fosse reconhecida e agradecida.
Todavia, o que encontrei foram inesperadas atitudes de desconsideração, que muito me magoaram. Tive, por exemplo, dificuldade em contactar o Director do Departamento, quando pretendi fixar data para os exames finais dos alunos.
Ele chegou a faltar a encontro que se havia marcado, sem me dar justificação ou pedir desculpa.
Andava muito ocupado com computadores, que acabavam de surgir como grande novidade e quase ia transformando o Departamento de Minas em Departamento de Informática, esquecendo-se que os computadores iriam ser um extraordinário meio de trabalho e não um fim, tal era o seu deslumbramento, perante este progresso”.
Fui levado a concluir que Madureira se sentira melindrado, considerando que eu estaria a intrometer-me na vida do Departamento.
Não mostrou, por isso, interesse em que eu continuasse a leccionar a disciplina.
Acontecia, porém, que alguns alunos me procuraram para manifestar estranheza por, no ano lectivo de 1982-83, eu não estar a dar as aulas de Prospecção Mineira, que pretendiam frequentar, não tendo horário que lhes permitisse assistir às que eu dava na Faculdade de Ciências.
Expliquei-lhes que estava aguardando as diligências do Director do Departamento de Engenharia para que tal continuasse a ser possível.
Acontecia, também, que vários Engenheiros que se haviam licenciado anteriormente ao ano lectivo de 1981-82, não tendo tido, por isso, oportunidade de assistir às minhas aulas, me vieram pedir para frequentarem as que eu ministrava, na Faculdade de Ciências.
Foi com todo o gosto que acedi ao seu pedido. A este assunto me referirei, mais detalhadamente no post seguinte.
Antes do início do ano lectivo de 1983-84, por virtude de alterações ocorridas na direcção do Departamento de Minas, os Professores Morais Cerveira e Simões Cortês, decidiram contactar-me, no SFM, para que eu retomasse as aulas que tinha suspendido na Faculdade de Engenharia.
Manifestei-lhes, então, o meu grande desapontamento por ter sido mal compreendido o meu empenho em auxiliar a Faculdade a eliminar a grave lacuna de ter votado ao abandono tão importante ramo da industria mineira, sobretudo sabendo-se quão atrasado se encontrava o inventário da riqueza mineira do País.
Lamentei que não tivessem tido na devida consideração os meus comentários relativamente à deficiente preparação dos Engenheiros, em vários domínios, não apenas na Prospecção Mineira.
Perante as garantias que me foram dadas, aceitei retomar as aulas, com a condição de ser nomeado um Engenheiro dentre os que tinham sido meus alunos, em 1981-82, para ser meu assistente e se encarregar das aulas, nos anos seguintes, prometendo dar-lhe o meu auxílio.
Logo ficou indigitado o Engenheiro António dos Santos e Sousa, que aceitou o convite. Ainda lhe prestei o auxílio a que me comprometera, mas soube que acabou por abandonar o cargo.
Causou-me estranheza o elevado número de alunos inscritos em Prospecção Mineira, em acentuado contraste com o que ocorrera em 1981-82. De 6, em 1981-82, passara-se a 21, em 1983-84! Além disso, enquanto todos os 6 do Curso de 1981-82 revelaram muito empenho em apreender os conhecimentos que lhes transmitia, dos 21 do Curso de 1983-84, apenas 6 se mostraram verdadeiramente interessados, chegando um deles, Miguel Correia Pessoa, a ser classificado com 19 valores.
A minha explicação para este facto está na introdução do “numerus clausus” para ingresso nos diferentes Cursos. Muitos alunos, que não tinham conseguido nota para ingresso nos Cursos para que sentiam vocação, acabaram por se inscrever em Cursos onde havia vagas, mas para os quais não sentiam propensão.
Decepcionado com o comportamento que vieram a revelar nos exames, ainda inquiri a alguns deles a razão do seu pouco interesse. Responderam que não estavam habituados a um regime de tão intenso trabalho, com aulas iniciadas às 8 horas da manhã, terminando às 13, apenas com intervalo de 15 minutos, pelas 10 horas!.
O ainda Director do SFM, Jorge Gouveia, continuava totalmente desinteressado nestas colaborações, parecendo ignorar as recomendações do novo Director-Geral para que as Universidades produzissem bons técnicos e o compromisso que publicamente assumira de a DGGM prestar toda a colaboração para esse fim.
Em vez de facilitar a minha actividade, ia criando inacreditáveis obstáculos.
Alguns, eu conseguia vencer, com recurso aos equipamentos cedidos pelas Universidades e pelas Empresas que actuavam na Região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima. Outros, com destaque para o ensino do uso do gravímetro, no campo, tornaram-se impossíveis.
No post n.º 146, descreverei estas atitudes negativas.
Tomara, então, conhecimento de que, naquela Faculdade, existia um magnetómetro de compensação de fabrico da ABEM de Estocolmo, que não estava em uso.
Embora obsoleto, pois havia magnetómetros de mais simples manejo e de maior sensibilidade, com os quais o SFM já se havia equipado, o aparelho ainda poderia ser útil, não só para medições, que não exigissem muito rigor, mas também para mostrar os diferentes tipos de aparelhos disponíveis no mercado, aos alunos da disciplina de Prospecção Mineira que eu leccionava na Faculdade de Ciências.
O meu pedido de cedência, por curto período, encontrou franco e total acolhimento.
A Faculdade informou possuir, também, um equipamento Terrameter de resistividade eléctrica, recentemente adquirido, que poderia disponibilizar-me, se eu pretendesse.
Logo aproveitei a oferta, porquanto os dois núcleos, que eu ainda mantinha, em actividade, tinham amplos campos de aplicação para esse equipamento.
Em Maio de 1979, o Professor Miranda solicitou-me que ministrasse, aos seus alunos, alguns ensinamentos de gravimetria aplicada à prospecção mineira, pois não dominava tal matéria.
Durante os meses de Maio, Junho e Julho de 1979, foi com muito gosto que dei, a 10 alunos, na Sala das Sessões do SFM, em S. Mamede de Infesta, as aulas que Miranda me solicitara, ocupando um total de 16 horas.
Não me foi possível ministrar aulas no campo, porque o gravímetro que eu tinha solicitado, para utilização, por curto período, apesar de prometido, continuava indisponível!
O Engenheiro Miranda mostrara também interesse em que os seus alunos tomassem contacto com outras técnicas de prospecção.
Satisfazendo o seu pedido, comecei, em mais uma aula, na Sala das Sessões, por historiar a actividade mineira na região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima, justificando a intervenção do SFM, para que pudessem ser devidamente aproveitadas as ocorrências de minérios de tungsténio, que tinham dado origem a algumas concessões mineiras.
Fiz, depois, uma rápida descrição das técnicas que estavam a ser aplicadas, com pleno êxito.
Os alunos teriam, em dias seguintes, oportunidade de observar a aplicação dessas técnicas e até de efectuar trabalho que iria ser aproveitado.
Nos dias 5 de Maio e 20 de Junho de 1979, mostrei, a Miranda e seus alunos, afloramentos da formação mineralizada em volframite e scheelite e o seu enquadramento geológico.
Apresentei, seguidamente, o pequeno grupo de trabalhadores, na sua quase totalidade localmente recrutados, que estava procedendo a observações pelos métodos magnético, de polarização espontânea e de resistividade eléctrica.
Os alunos foram, então, convidados a realizar observações, utilizando não só aparelhos do SFM, mas também, os equipamentos, que a Faculdade de Engenharia me tinha emprestado.
Dei-lhes, ainda, oportunidade de usarem bateias, na produção de concentrados de materiais aluvionares. A Ribeira das Pombas foi o local escolhido, dada a facilidade de acesso e a certeza de se conseguirem rapidamente concentrados contendo sobretudo cassiterite, facilmente identificável através de um simples ensaio químico em Laboratório.
Das conversas havidas, Miranda apercebeu-se da grande lacuna existente no elenco de disciplinas para a formação dos futuros Engenheiros de Minas, e logo pensou aproveitar o bom relacionamento que comigo se tinha estabelecido para propor ao Professor Madureira, dirigente do Departamento de Engenharia de Minas, que fosse introduzida, no Curso, a disciplina de Prospecção Mineira, sugerindo que eu fosse encarregado da respectiva docência.
O Professor Madureira concordou e, em 27-7-1979, ambos vieram ao meu gabinete em S. Mamede de Infesta, fazer o convite.
Perante a impossibilidade legal de acumular essas funções com as que já exercia na Faculdade de Ciências e, em manifestação da minha maior boa-vontade em prestar um auxílio que considerava não dever recusar, propus dar aulas, juntando na mesma sala, os alunos de Ciências e de Engenharia, caso houvesse concordância do Departamento de Geologia.
Havia, porém, um assunto que os preocupava. Sabedores das relações de amizade de Professor Morais Cerveira, Catedrático da Faculdade de Engenharia, com Soares Carneiro, pareciam recear, da parte deste, alguma oposição à colaboração que me pediam.
Sosseguei-os a este respeito, revelando-lhes que as minhas relações profissionais com Morais Cerveira sempre foram as melhores.
Às Minas de Covas, de que ele era Director-Técnico, eu tinha prestado, em numerosas ocasiões, auxílio que se revelara fundamental para a localização das zonas de mineralização economicamente explorável.
Ainda recentemente, Morais Cerveira me havia contactado a inquirir da possível existência de jazigo idêntico aos de Aparis ou Miguel Vacas, em cuja exploração estivera empenhada a Empresa Minerália que, para o efeito fundara, em sociedade com o Professor Farinas de Almeida.
Realçara, então, a exactidão do meu cálculo de reservas, na Mina de Aparis, pois a exploração correspondera fielmente às previsões.
Quanto à Mina de Miguel Vacas, na região de Vila Viçosa, também tinham sido de inestimável utilidade os dados que lhe facultei, sobre trabalhos de Mining Explorations (International), nos quais tive directa intervenção.
Respondi-lhe que, infelizmente, me tinha sido retirada a possibilidade de continuar a fazer estudos da natureza dos que fizera em Aparis (Ver, a este respeito, parte final do post n.º 25).
Nessa ocasião, apelei aos deveres cívicos de Morais Cerveira, para que usasse a sua influência junto do seu amigo Soares Carneiro, para o fazer entrar no caminho correcto, em defesa dos interesses nacionais.
Lembrei o conselho que lhe dei, quando nos encontrávamos na Mina da Cerdeirinha: “Trave-me esse louco, antes que destrua completamente a Direcção-Geral de Minas!”.
Confiei que este meu conselho pudesse ter algum sucesso, mas foi pura ingenuidade.
Soares Carneiro já tinha ido longe demais, para poder retroceder.
Obtida a concordância do Director do Departamento de Mineralogia e Geologia da Faculdade de Ciências, passei, durante o ano lectivo de 1981-82, a dar as aulas teóricas e práticas de campo e de gabinete, de Prospecção Mineira, ao conjunto de alunos das duas Faculdades, sem qualquer remuneração adicional.
Baseado no bom relacionamento que se havia estabelecido, pretendi ajudar o Departamento a melhorar a preparação dos seus alunos, pois tinha verificado insuficiências inadmissíveis em Engenheiros que tinham ingressado no SFM.
Além de ignorância total em prospecção mineira, mostraram quase igual ignorância em topografia, colocando-se em grande inferioridade relativamente a pessoal recrutado apenas com a antiga 4.ª Classe de Instrução Primária, o qual eu tinha instruído nessa matéria.
Comentei o total abandono a que tinha sido votada a prospecção mineira, manifestando a minha surpresa por encontrar na Biblioteca do Departamento apenas os livros que já existiam quando eu frequentara a Faculdade, isto é, 30 anos antes!
Informado de que o Departamento não dispunha de verba para compra de livros e revistas, com conhecimentos actualizados, mandei preparar fotocópias dos principais livros que o Departamento de Geologia da Faculdade de Ciências tinha adquirido, por minha indicação, cuja consulta eu costumava aconselhar aos alunos.
Eu sentia-me no direito de esperar que a minha colaboração à Faculdade de Engenharia fosse reconhecida e agradecida.
Todavia, o que encontrei foram inesperadas atitudes de desconsideração, que muito me magoaram. Tive, por exemplo, dificuldade em contactar o Director do Departamento, quando pretendi fixar data para os exames finais dos alunos.
Ele chegou a faltar a encontro que se havia marcado, sem me dar justificação ou pedir desculpa.
Andava muito ocupado com computadores, que acabavam de surgir como grande novidade e quase ia transformando o Departamento de Minas em Departamento de Informática, esquecendo-se que os computadores iriam ser um extraordinário meio de trabalho e não um fim, tal era o seu deslumbramento, perante este progresso”.
Fui levado a concluir que Madureira se sentira melindrado, considerando que eu estaria a intrometer-me na vida do Departamento.
Não mostrou, por isso, interesse em que eu continuasse a leccionar a disciplina.
Acontecia, porém, que alguns alunos me procuraram para manifestar estranheza por, no ano lectivo de 1982-83, eu não estar a dar as aulas de Prospecção Mineira, que pretendiam frequentar, não tendo horário que lhes permitisse assistir às que eu dava na Faculdade de Ciências.
Expliquei-lhes que estava aguardando as diligências do Director do Departamento de Engenharia para que tal continuasse a ser possível.
Acontecia, também, que vários Engenheiros que se haviam licenciado anteriormente ao ano lectivo de 1981-82, não tendo tido, por isso, oportunidade de assistir às minhas aulas, me vieram pedir para frequentarem as que eu ministrava, na Faculdade de Ciências.
Foi com todo o gosto que acedi ao seu pedido. A este assunto me referirei, mais detalhadamente no post seguinte.
Antes do início do ano lectivo de 1983-84, por virtude de alterações ocorridas na direcção do Departamento de Minas, os Professores Morais Cerveira e Simões Cortês, decidiram contactar-me, no SFM, para que eu retomasse as aulas que tinha suspendido na Faculdade de Engenharia.
Manifestei-lhes, então, o meu grande desapontamento por ter sido mal compreendido o meu empenho em auxiliar a Faculdade a eliminar a grave lacuna de ter votado ao abandono tão importante ramo da industria mineira, sobretudo sabendo-se quão atrasado se encontrava o inventário da riqueza mineira do País.
Lamentei que não tivessem tido na devida consideração os meus comentários relativamente à deficiente preparação dos Engenheiros, em vários domínios, não apenas na Prospecção Mineira.
Perante as garantias que me foram dadas, aceitei retomar as aulas, com a condição de ser nomeado um Engenheiro dentre os que tinham sido meus alunos, em 1981-82, para ser meu assistente e se encarregar das aulas, nos anos seguintes, prometendo dar-lhe o meu auxílio.
Logo ficou indigitado o Engenheiro António dos Santos e Sousa, que aceitou o convite. Ainda lhe prestei o auxílio a que me comprometera, mas soube que acabou por abandonar o cargo.
Causou-me estranheza o elevado número de alunos inscritos em Prospecção Mineira, em acentuado contraste com o que ocorrera em 1981-82. De 6, em 1981-82, passara-se a 21, em 1983-84! Além disso, enquanto todos os 6 do Curso de 1981-82 revelaram muito empenho em apreender os conhecimentos que lhes transmitia, dos 21 do Curso de 1983-84, apenas 6 se mostraram verdadeiramente interessados, chegando um deles, Miguel Correia Pessoa, a ser classificado com 19 valores.
A minha explicação para este facto está na introdução do “numerus clausus” para ingresso nos diferentes Cursos. Muitos alunos, que não tinham conseguido nota para ingresso nos Cursos para que sentiam vocação, acabaram por se inscrever em Cursos onde havia vagas, mas para os quais não sentiam propensão.
Decepcionado com o comportamento que vieram a revelar nos exames, ainda inquiri a alguns deles a razão do seu pouco interesse. Responderam que não estavam habituados a um regime de tão intenso trabalho, com aulas iniciadas às 8 horas da manhã, terminando às 13, apenas com intervalo de 15 minutos, pelas 10 horas!.
O ainda Director do SFM, Jorge Gouveia, continuava totalmente desinteressado nestas colaborações, parecendo ignorar as recomendações do novo Director-Geral para que as Universidades produzissem bons técnicos e o compromisso que publicamente assumira de a DGGM prestar toda a colaboração para esse fim.
Em vez de facilitar a minha actividade, ia criando inacreditáveis obstáculos.
Alguns, eu conseguia vencer, com recurso aos equipamentos cedidos pelas Universidades e pelas Empresas que actuavam na Região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima. Outros, com destaque para o ensino do uso do gravímetro, no campo, tornaram-se impossíveis.
No post n.º 146, descreverei estas atitudes negativas.
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
140 – A minha colaboração em Reunião de Geólogos do Oeste Peninsular
A exoneração de Soares Carneiro, em Março de 1980, do cargo de Director-Geral de Minas, fez vacilar Jorge Gouveia, na sua acção destrutiva do SFM.
Não obstante constar que outro dos “assaltantes” aos lugares de chefia, criados pelo famigerado Decreto 548/77, assumiria o cargo, era ainda uma incógnita a atitude que viria a adoptar para com o Serviço de Fomento Mineiro.
De facto, Alcides Pereira que, apesar do seu paupérrimo currículo, tinha conseguido ser investido, em 11-11-1980, no cargo de Director-Geral, por urgente conveniência de serviço (!!), dera discretos sinais positivos do modo como tencionava desempenhar as suas novas funções.
Em 15-12-1980, decidira participar em Semana de Geoquímica, que estava a decorrer no Porto e, então, em pequeno texto que leu, fez nascer ténue esperança de que alguma renovação poderia ocorrer na DGGM.
Recomendava às Universidades que produzissem bons técnicos, prometendo, para esse efeito, toda a colaboração do Organismo que lhe fora confiado.
Embora o seu passado não justificasse credibilidade em tais declarações, Jorge Gouveia mostrou-se algo mais prudente nas intervenções em estudos que eu dirigia na Secção de Caminha.
Passou a ignorar, praticamente, a existência deste núcleo de actividade.
Não mais insistiu em me colocar subordinado ao traidor Goinhas, que nomeara Director do Serviço de Prospecção Mineira, nem na dependência do arrivista Viegas, que estava designado Chefe do Grupo de Trabalho do Tungsténio.
Tornou-se assim possível que eu continuasse os trabalhos, mantendo estreita colaboração com diversos estabelecimentos de ensino superior e médio e com empresas privadas que actuavam na região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima.
Desta colaboração, começo por destacar a minha participação na organização de excursão integrada em Reunião de Geólogos do Oeste Peninsular.
Como referi, em anteriores posts, eu vinha exercendo, desde 1970, funções docentes na Faculdade de Ciências do Porto, na qualidade que me foi atribuída de Professor Auxiliar Convidado.
Aproveitando essa circunstância, os organizadores de uma Reunião de Geólogos do Oeste Peninsular consideraram que a Região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima, onde eu dirigia trabalhos de prospecção mineira, teria interesse para constar do programa das excursões, no âmbito dessa Reunião.
Por essa razão, contactaram-me para a concretização de tal objectivo.
De imediato, me disponibilizei para dar todo o apoio que me fosse possível.
Durante alguns dias, acompanhei os Professores Noronha e Frederico, aos locais a visitar, fiz-lhes a descrição dos resultados dos estudos que tinha realizado e forneci elementos para o Livro – Guia da excursão.
Conduzi-os, também, à presença dos dirigentes locais de Union Carbide, proporcionando a esta Companhia a oportunidade de participar na redacção do Livro – Guia, uma vez que a sua actividade se exercia principalmente no âmbito da Geologia, sendo numeroso o seu corpo de Geólogos, alguns dos quais portugueses.
Chamei a ambos, a atenção para possíveis dificuldades de acesso aos locais de maior interesse, aconselhando o uso de veículos de pequenas dimensões, para poderem inserir-se em curvas apertadas, que era necessário transpor, para chegar às Minas de tungsténio de Valdarcas, Lapa Grande e Cerdeirinha.
A excursão efectuou-se no dia 19 de Julho de 1979.
Aguardei, no Alto do Sopo, a chegada dos 80 congressistas, que vinham em dois autocarros.
Deste local privilegiado, descrevi o que se divisava, no horizonte: o anticlinal de Covas, com as explorações de Fervença, Valdarcas, Lapa Grande e Cerdeirinha, as zonas das sondagens na dobra periclinal, e na Costa das Vinhas e os afloramentos de Vilarinho.
Seguimos para a Mina da Fervença, onde o Geólogo Bronkhorst de Union Carbide, fez exposição sobre a estrutura geológica da região e eu mostrei os cortes geológicos e magnéticos anteriores à exploração que ali se realizara.
Assisti a calorosa discussão entre o Geólogo da DGGM, António Ribeiro e o Professor Vivaldi da Universidade de Oviedo, com a grande bonomia deste Professor, perante a fogosidade de Ribeiro, na defesa dos seus argumentos.
Os autocarros deveriam fazer a subida para Valdarcas, mas após uma primeira inspecção, feita por minha indicação, os motoristas concluíram que não conseguiriam inserir os seus veículos logo na primeira curva, muito menos nas seguintes.
Teve, pois que se desistir de visitar três das principais minas previstas na excursão: Valdarcas, Lapa Grande e Cerdeirinha.
Sugeri-lhes, então, visitar a zona do Serro (Argela) onde, pouco tempo antes, eu tinha descoberto afloramentos de skarn mineralizado, que facilmente poderiam ter passado despercebidos, por não ostentarem as suas típicas características.
Nessa época, eu concentrava aí os estudos, por ter sido adjudicada a Union Carbide, a área onde estivera a cumprir programa de sondagens, entre as quais se contava a n.º 69, que mencionei no post anterior.
Mostrei xistos grafitosos responsáveis por fortes anomalias de polarização espontânea, um filão aplítico com mineralização de cassiterite e skarn alterado e inalterado.
Exibi perfis magnéticos, de resistividade eléctrica, de polarização espontânea e fiz especial referência a concentrados de eluvião e à contagem de pontos de scheelite, para substituir as análises geoquímicas que o Laboratório do SFM tinha recusado efectuar.
O experiente Geólogo, Dr. Serpa Magalhães, que, nessa data, pertencia ao quadro técnico da Companhia canadiana Cominco, comentou ter sido o melhor que tinham visto em toda a excursão.
Entusiasmado com o que observou, propôs à Cominco que celebrasse contrato com o Estado Português, para esta área da Argela, o que viria a concretizar-se.
Nem os dirigentes (assaltantes) do SFM, recentemente nomeados, nem os designados “scheeliteiros” estiveram presentes nesta excursão !!!.
O Departamento de Mineralogia e Geologia da Faculdade de Ciências do Porto mostrou disponibilidade para proceder a estudos sobre testemunhos de sondagens efectuadas pelo SFM, na região, mas não houve receptividade, no SFM.
Todavia, o Professor João Coelho, meu ex-aluno que, por minha indicação, tinha estagiado na Companhia americana Union Carbide, conseguiu realizar estudos sobre skarns, em colaboração com Fonteilles, especialista francês na matéria, aproveitando facilidades proporcionadas por Union Carbide
Nos próximos posts, continuarei a revelar as minhas acções positivas.
Apesar das declarações públicas do novo Director-Geral, Jorge Gouveia mantinha-se alheio a estas acções, persistindo nas suas atitudes destruidoras do SFM.
A elas me referirei, no post n.º 146
Não obstante constar que outro dos “assaltantes” aos lugares de chefia, criados pelo famigerado Decreto 548/77, assumiria o cargo, era ainda uma incógnita a atitude que viria a adoptar para com o Serviço de Fomento Mineiro.
De facto, Alcides Pereira que, apesar do seu paupérrimo currículo, tinha conseguido ser investido, em 11-11-1980, no cargo de Director-Geral, por urgente conveniência de serviço (!!), dera discretos sinais positivos do modo como tencionava desempenhar as suas novas funções.
Em 15-12-1980, decidira participar em Semana de Geoquímica, que estava a decorrer no Porto e, então, em pequeno texto que leu, fez nascer ténue esperança de que alguma renovação poderia ocorrer na DGGM.
Recomendava às Universidades que produzissem bons técnicos, prometendo, para esse efeito, toda a colaboração do Organismo que lhe fora confiado.
Embora o seu passado não justificasse credibilidade em tais declarações, Jorge Gouveia mostrou-se algo mais prudente nas intervenções em estudos que eu dirigia na Secção de Caminha.
Passou a ignorar, praticamente, a existência deste núcleo de actividade.
Não mais insistiu em me colocar subordinado ao traidor Goinhas, que nomeara Director do Serviço de Prospecção Mineira, nem na dependência do arrivista Viegas, que estava designado Chefe do Grupo de Trabalho do Tungsténio.
Tornou-se assim possível que eu continuasse os trabalhos, mantendo estreita colaboração com diversos estabelecimentos de ensino superior e médio e com empresas privadas que actuavam na região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima.
Desta colaboração, começo por destacar a minha participação na organização de excursão integrada em Reunião de Geólogos do Oeste Peninsular.
Como referi, em anteriores posts, eu vinha exercendo, desde 1970, funções docentes na Faculdade de Ciências do Porto, na qualidade que me foi atribuída de Professor Auxiliar Convidado.
Aproveitando essa circunstância, os organizadores de uma Reunião de Geólogos do Oeste Peninsular consideraram que a Região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima, onde eu dirigia trabalhos de prospecção mineira, teria interesse para constar do programa das excursões, no âmbito dessa Reunião.
Por essa razão, contactaram-me para a concretização de tal objectivo.
De imediato, me disponibilizei para dar todo o apoio que me fosse possível.
Durante alguns dias, acompanhei os Professores Noronha e Frederico, aos locais a visitar, fiz-lhes a descrição dos resultados dos estudos que tinha realizado e forneci elementos para o Livro – Guia da excursão.
Conduzi-os, também, à presença dos dirigentes locais de Union Carbide, proporcionando a esta Companhia a oportunidade de participar na redacção do Livro – Guia, uma vez que a sua actividade se exercia principalmente no âmbito da Geologia, sendo numeroso o seu corpo de Geólogos, alguns dos quais portugueses.
Chamei a ambos, a atenção para possíveis dificuldades de acesso aos locais de maior interesse, aconselhando o uso de veículos de pequenas dimensões, para poderem inserir-se em curvas apertadas, que era necessário transpor, para chegar às Minas de tungsténio de Valdarcas, Lapa Grande e Cerdeirinha.
A excursão efectuou-se no dia 19 de Julho de 1979.
Aguardei, no Alto do Sopo, a chegada dos 80 congressistas, que vinham em dois autocarros.
Deste local privilegiado, descrevi o que se divisava, no horizonte: o anticlinal de Covas, com as explorações de Fervença, Valdarcas, Lapa Grande e Cerdeirinha, as zonas das sondagens na dobra periclinal, e na Costa das Vinhas e os afloramentos de Vilarinho.
Seguimos para a Mina da Fervença, onde o Geólogo Bronkhorst de Union Carbide, fez exposição sobre a estrutura geológica da região e eu mostrei os cortes geológicos e magnéticos anteriores à exploração que ali se realizara.
Assisti a calorosa discussão entre o Geólogo da DGGM, António Ribeiro e o Professor Vivaldi da Universidade de Oviedo, com a grande bonomia deste Professor, perante a fogosidade de Ribeiro, na defesa dos seus argumentos.
Os autocarros deveriam fazer a subida para Valdarcas, mas após uma primeira inspecção, feita por minha indicação, os motoristas concluíram que não conseguiriam inserir os seus veículos logo na primeira curva, muito menos nas seguintes.
Teve, pois que se desistir de visitar três das principais minas previstas na excursão: Valdarcas, Lapa Grande e Cerdeirinha.
Sugeri-lhes, então, visitar a zona do Serro (Argela) onde, pouco tempo antes, eu tinha descoberto afloramentos de skarn mineralizado, que facilmente poderiam ter passado despercebidos, por não ostentarem as suas típicas características.
Nessa época, eu concentrava aí os estudos, por ter sido adjudicada a Union Carbide, a área onde estivera a cumprir programa de sondagens, entre as quais se contava a n.º 69, que mencionei no post anterior.
Mostrei xistos grafitosos responsáveis por fortes anomalias de polarização espontânea, um filão aplítico com mineralização de cassiterite e skarn alterado e inalterado.
Exibi perfis magnéticos, de resistividade eléctrica, de polarização espontânea e fiz especial referência a concentrados de eluvião e à contagem de pontos de scheelite, para substituir as análises geoquímicas que o Laboratório do SFM tinha recusado efectuar.
O experiente Geólogo, Dr. Serpa Magalhães, que, nessa data, pertencia ao quadro técnico da Companhia canadiana Cominco, comentou ter sido o melhor que tinham visto em toda a excursão.
Entusiasmado com o que observou, propôs à Cominco que celebrasse contrato com o Estado Português, para esta área da Argela, o que viria a concretizar-se.
Nem os dirigentes (assaltantes) do SFM, recentemente nomeados, nem os designados “scheeliteiros” estiveram presentes nesta excursão !!!.
O Departamento de Mineralogia e Geologia da Faculdade de Ciências do Porto mostrou disponibilidade para proceder a estudos sobre testemunhos de sondagens efectuadas pelo SFM, na região, mas não houve receptividade, no SFM.
Todavia, o Professor João Coelho, meu ex-aluno que, por minha indicação, tinha estagiado na Companhia americana Union Carbide, conseguiu realizar estudos sobre skarns, em colaboração com Fonteilles, especialista francês na matéria, aproveitando facilidades proporcionadas por Union Carbide
Nos próximos posts, continuarei a revelar as minhas acções positivas.
Apesar das declarações públicas do novo Director-Geral, Jorge Gouveia mantinha-se alheio a estas acções, persistindo nas suas atitudes destruidoras do SFM.
A elas me referirei, no post n.º 146
domingo, 12 de setembro de 2010
139 – O procedimento adoptado para escolha do novo Director-Geral de Minas
O Ministro que fez publicar o despacho de exoneração do Engenheiro Soares Carneiro do cargo de Director-Geral de Minas, teve a coragem de resolver um problema que se arrastava de tempos anteriores à Revolução de Abril de 1974.
De facto, sabia-se que o Ministro Rogério Martins, do Governo de Marcelo Caetano, já se havia apercebido da necessidade de substituir Soares Carneiro. Não encontrava, porém, entre os possíveis candidatos ao cargo (os Engenheiros do chamado “Gabinete de Estudos” que se haviam instalado em Lisboa) quem oferecesse garantia de melhor desempenho. Apesar dos seus defeitos, Soares Carneiro era, nessa época, ainda “o menos mau”!
A decisão tornara-se tão premente, que resistira ao habitual favoritismo político. O Engenheiro Soares Carneiro era parente muito próximo do General Soares Carneiro que, então, tinha o apoio do malogrado Primeiro-Ministro Sá Carneiro, para Presidente da República.
Fora precisamente quando se dirigia, de avião, para o Porto, a fim de presidir a uma sessão de propaganda para a eleição do novo Presidente, que Sá Carneiro teve o acidente que o vitimou.
Era natural esperar que a escolha do novo dirigente obedecesse aos princípios repetidamente estabelecidos, no Decreto-lei n.º 548/77 de 31-12-1977 e em várias Resoluções do Conselho de Ministros.
Lembro que, no n.º 1 do artigo 33.º daquele diploma legal, se determina que “os lugares de director-geral, secretário-geral, director, subdirector-geral e subdirector serão providos por escolha do Ministro, em comissão de serviço por tempo indeterminado, de entre diplomados com curso superior adequado e de reconhecida competência” .
Recordo, também, a Resolução n.º 10/79, de 15-1-79 do Gabinete do Primeiro Ministro, da qual transcrevo a seguinte passagem:
“É sabido que alguma inoperância dos serviços públicos é devida a uma certa crise de autoridade e de competência que se instalou, nos últimos anos, nos diversos escalões dirigentes de muitos organismos.
Assiste-se ainda hoje, em alguns casos, à manutenção de situações de indisciplina individual.
Torna-se indispensável eliminar todos os factores de bloqueamento de tomada de decisão coerente e em tempo útil, repondo o sistema de autoridade - responsabilidade no seu funcionamento pleno”
Transcrevo, ainda, algumas disposições do Decreto-Lei n.º 191 – F /79, de 26 de Junho de 1979:
“A necessidade de modernizar a Administração Pública, adaptando-a à realidade do País actual, constitui um dos objectivos prioritários do Governo, aliás prosseguido na esteira de propósitos de Governos anteriores, que, apesar de programados, não chegaram, em muitos casos, a ter expressão em medidas concretas de carácter genérico.
É desnecessário realçar a importância dos quadros dirigentes numa mudança que se deseja orientada no sentido da eficácia, já que os mesmos são, por um lado, o elo de ligação entre o Governo e a máquina que deverá dar execução ao seu Programas, por outro, os verdadeiros motores do seu funcionamento.
…
A resolução do problema passa, porém, por medidas de mais largo alcance orientadas para a atribuição de maiores níveis de responsabilidade e por um maior rigor na selecção de dirigentes, que deverá basear-se no critério de competência.
…
O recrutamento do pessoal dirigente referido no artigo anterior far-se-á de entre indivíduos habilitados com licenciatura, mediante apreciação curricular e de acordo com as seguintes regras:
a) O cargo de director-geral ou equiparado é provido por despacho conjunto do Primeiro-Ministro e do Ministro competente, devendo a escolha recair em indivíduos de reconhecida competência e que possuam experiência válida para o exercício das funções” ...
O Governo tinha, na sua posse, elementos mais que suficientes para, facilmente, corrigir os desmandos que Soares Carneiro originara na DGGM
O Ministro que aceitara sobraçar a pasta da Indústria, tinha conhecimento, através da vasta documentação que eu enviara, da imperiosa necessidade de mandar proceder a rigoroso inquérito para punir, exemplarmente, os responsáveis pela situação caótica a que se havia chegado e promover que, para a eficiência da DGGM, em especial do SFM, fossem colocados, “os homens certos, nos lugares certos”.
O Ministro tinha obrigação de ter conhecimento de que, dentro da Direcção-Geral de Minas, sobretudo no SFM, havia técnicos com currículo valioso, que tinham sido marginalizados.
O Ministro, se tivesse verdadeira consciência da importância dos recursos minerais na economia do País, deveria ter apreciado devidamente o papel decisivo do SFM na preparação da descoberta da enorme riqueza contida no jazigo de Neves-Corvo.
E se aprofundasse o seu conhecimento acerca desta descoberta, poderia chegar a conclusões surpreendentes.
Poderia, por exemplo, aperceber-se da minha persistente luta, durante uma dezena de anos, para conseguir aplicar a técnica que conduziu a tão extraordinário êxito, a nível mundial (Ver posts n.º s 14 e 37)
Poderia ainda ficar a saber que a descoberta só não foi concretizada totalmente pelo SFM, porque Soares Carneiro, sem me consultar, decidiu adjudicar a Grupo empresarial privado, vasta área, que incluía a zona onde, sob minha direcção, estava, quase totalmente definida, a expressiva anomalia gravimétrica, que era a assinatura do jazigo (Ver posts n.ºs 37 a 43).
Poderia, também, conhecer muitos outros êxitos do SFM, pelos quais fui o principal responsável. E ficaria a saber o meu importante papel na preparação de futuros Engenheiros e Geólogos, através de aulas que ministrava nas Faculdades de Ciências e de Engenharia do Porto e de colaboração que prestava à Universidade de Aveiro.
Ocorre-me citar o parecer manifestado por unanimidade, pelos Engenheiros e Geólogos da 1.ª Brigada de Prospecção, que tinha sido por mim instituída e era, em 1974, o mais importante núcleo do SFM.
Pronunciaram-se, então, no sentido de eu dever assumir a direcção do SFM, indo ainda mais longe, ao afirmarem que era eu também a pessoa indicada para o cargo de Director-Geral de Minas (ver post nº 72)
Estes mesmos funcionários tornar-se-iam, mais tarde, por influência de Soares Carneiro, os principais responsáveis pela degradação que passou a verificar-se no SFM, como natural consequência do ignóbil e traiçoeiro documento que subscreveram, para me afastarem da chefia daquela Brigada.
Na posse de todos estes dados, era natural que ao Ministro ocorresse o meu nome para assumir o comando da DGGM
Embora eu não estivesse interessado no cargo, pois a aceitação implicaria o meu afastamento das actividades de investigação no campo, a hipótese deveria ter sido considerada.
E eu admito que, se o problema me tivesse sido apresentado, nos seus correctos termos, poderia ter revisto a minha atitude, considerando meu dever cívico a aceitação desse cargo.com todas as dificuldades que teria de enfrentar.
De facto, tinha sido já a consciência dos meus deveres cívicos que determinara a minha aceitação de funções docentes em vários estabelecimentos de ensino superior e médio, com deficiente remuneração, ou mesmo sem remuneração e até com despesas não reembolsadas.
Registo que Jorge Gouveia já me tinha oferecido um lugar de Director de Serviço, … com a condição de eu deixar de realizar trabalho de campo!!!, - oferta que eu obviamente rejeitei pelas razões que expus.
Constou, que o Ministro tentara encontrar exteriormente, pessoa idónea para o cargo de Director-Geral de Minas, mas não fora bem sucedido nas suas diligências
A triste realidade, a que se assistiu, foi que o Ministro, desprezando totalmente as disposições dos Decretos que fez publicar e as recomendações quanto à exigência de competência profissional, em vez de corrigir os monstruosos erros que tinha cometido, ao ter permitido o assalto aos lugares de chefia, por técnicos incompetentes e de duvidoso carácter, tomou a atitude simplista de aceitar como candidato ao cargo de Director-Geral de Minas, um dos 4 “assaltantes” que tinham conseguido instalar-se como subdirectores-gerais.
Acontecia, porém, que um destes promovidos a candidatos, o Engenheiro José Maria da Costa Almeida, tinha um passado de subserviência relativamente ao anterior detentor do cargo, que o não recomendava. A realidade era que ele já só se preocupava com diligências para se aposentar com a categoria de assessor da letra B, à semelhança do que outros funcionários tinham conseguido.
Dos outros três, o Geólogo Delfim de Carvalho e o Engenheiro Jorge Gouveia estavam ocupando cargos de Director dos Serviços Geológicos e Director do SFM;
Restava o Geólogo Alcides Pereira, que tinha magríssimo currículo (Ver post n.º 126) e era, de facto,"um corpo estranho" na DGGM.
Fora nomeado, em comissão de serviço, subdirector-geral, apenas por favoritismo político desconhecendo-se as funções que exercera, desde que, há dois anos fora investido no cargo que detinha.
Perante estes factos, o Ministro resolveu arriscar, nomeando Alcides Pereira,
que era, talvez, o detentor de pior currículo, dentre todos os técnicos superiores da DGGM, embora em interinidade, na esperança de que melhor solução viesse a surgir.
Foi assim que se sucederam despachos, com datas 1-4-1980 e 15-9-1980 para Alcides Pereira exercer o cargo, em regime de substituição, até que, em 11-11-1980, é feita a nomeação, por urgente conveniência de serviço.
Só, porém, em 2-1-1981 é emitido um despacho conjunto do Primeiro-Ministro e do Ministro da Indústria, nos seguintes termos:
Licenciado Alcides Rodrigues Pereira, técnico superior principal do quadro do Gabinete de, Pesquisa e Exploração de Petróleo, exercendo, em comissão de serviço, as funções de subdirector-geral de Geologia e Minas – nomeado para exercer, em comissão de serviço, o cargo de director-geral de Geologia e Minas, nos termos da alínea a) do n.º 1 do artigo 2.ºn.º 2 do artigo 4.ºdo Decreto-Lei n.º 191-F/79 de 26 de Junho. De acordo com o determinado naquele despacho conjunto (que anula o publicado no Diário da República, 2.ª série, n.º 261 de 11 de Novembro findo), o exercício destas funções teve início a partir da data do mesmo, em virtude de esta nomeação ter sido feita, por urgente conveniência de serviço, ao abrigo no disposto no n.º 2 do artigo 3.º do Decreto-Lei n.º 146-C/80 de 22 de Maio.
Com tais antecedentes, não era difícil prever que, mais uma vez, viria a ter plena confirmação a lei de Murphy, como revelarei em futuros posts.
De facto, sabia-se que o Ministro Rogério Martins, do Governo de Marcelo Caetano, já se havia apercebido da necessidade de substituir Soares Carneiro. Não encontrava, porém, entre os possíveis candidatos ao cargo (os Engenheiros do chamado “Gabinete de Estudos” que se haviam instalado em Lisboa) quem oferecesse garantia de melhor desempenho. Apesar dos seus defeitos, Soares Carneiro era, nessa época, ainda “o menos mau”!
A decisão tornara-se tão premente, que resistira ao habitual favoritismo político. O Engenheiro Soares Carneiro era parente muito próximo do General Soares Carneiro que, então, tinha o apoio do malogrado Primeiro-Ministro Sá Carneiro, para Presidente da República.
Fora precisamente quando se dirigia, de avião, para o Porto, a fim de presidir a uma sessão de propaganda para a eleição do novo Presidente, que Sá Carneiro teve o acidente que o vitimou.
Era natural esperar que a escolha do novo dirigente obedecesse aos princípios repetidamente estabelecidos, no Decreto-lei n.º 548/77 de 31-12-1977 e em várias Resoluções do Conselho de Ministros.
Lembro que, no n.º 1 do artigo 33.º daquele diploma legal, se determina que “os lugares de director-geral, secretário-geral, director, subdirector-geral e subdirector serão providos por escolha do Ministro, em comissão de serviço por tempo indeterminado, de entre diplomados com curso superior adequado e de reconhecida competência” .
Recordo, também, a Resolução n.º 10/79, de 15-1-79 do Gabinete do Primeiro Ministro, da qual transcrevo a seguinte passagem:
“É sabido que alguma inoperância dos serviços públicos é devida a uma certa crise de autoridade e de competência que se instalou, nos últimos anos, nos diversos escalões dirigentes de muitos organismos.
Assiste-se ainda hoje, em alguns casos, à manutenção de situações de indisciplina individual.
Torna-se indispensável eliminar todos os factores de bloqueamento de tomada de decisão coerente e em tempo útil, repondo o sistema de autoridade - responsabilidade no seu funcionamento pleno”
Transcrevo, ainda, algumas disposições do Decreto-Lei n.º 191 – F /79, de 26 de Junho de 1979:
“A necessidade de modernizar a Administração Pública, adaptando-a à realidade do País actual, constitui um dos objectivos prioritários do Governo, aliás prosseguido na esteira de propósitos de Governos anteriores, que, apesar de programados, não chegaram, em muitos casos, a ter expressão em medidas concretas de carácter genérico.
É desnecessário realçar a importância dos quadros dirigentes numa mudança que se deseja orientada no sentido da eficácia, já que os mesmos são, por um lado, o elo de ligação entre o Governo e a máquina que deverá dar execução ao seu Programas, por outro, os verdadeiros motores do seu funcionamento.
…
A resolução do problema passa, porém, por medidas de mais largo alcance orientadas para a atribuição de maiores níveis de responsabilidade e por um maior rigor na selecção de dirigentes, que deverá basear-se no critério de competência.
…
O recrutamento do pessoal dirigente referido no artigo anterior far-se-á de entre indivíduos habilitados com licenciatura, mediante apreciação curricular e de acordo com as seguintes regras:
a) O cargo de director-geral ou equiparado é provido por despacho conjunto do Primeiro-Ministro e do Ministro competente, devendo a escolha recair em indivíduos de reconhecida competência e que possuam experiência válida para o exercício das funções” ...
O Governo tinha, na sua posse, elementos mais que suficientes para, facilmente, corrigir os desmandos que Soares Carneiro originara na DGGM
O Ministro que aceitara sobraçar a pasta da Indústria, tinha conhecimento, através da vasta documentação que eu enviara, da imperiosa necessidade de mandar proceder a rigoroso inquérito para punir, exemplarmente, os responsáveis pela situação caótica a que se havia chegado e promover que, para a eficiência da DGGM, em especial do SFM, fossem colocados, “os homens certos, nos lugares certos”.
O Ministro tinha obrigação de ter conhecimento de que, dentro da Direcção-Geral de Minas, sobretudo no SFM, havia técnicos com currículo valioso, que tinham sido marginalizados.
O Ministro, se tivesse verdadeira consciência da importância dos recursos minerais na economia do País, deveria ter apreciado devidamente o papel decisivo do SFM na preparação da descoberta da enorme riqueza contida no jazigo de Neves-Corvo.
E se aprofundasse o seu conhecimento acerca desta descoberta, poderia chegar a conclusões surpreendentes.
Poderia, por exemplo, aperceber-se da minha persistente luta, durante uma dezena de anos, para conseguir aplicar a técnica que conduziu a tão extraordinário êxito, a nível mundial (Ver posts n.º s 14 e 37)
Poderia ainda ficar a saber que a descoberta só não foi concretizada totalmente pelo SFM, porque Soares Carneiro, sem me consultar, decidiu adjudicar a Grupo empresarial privado, vasta área, que incluía a zona onde, sob minha direcção, estava, quase totalmente definida, a expressiva anomalia gravimétrica, que era a assinatura do jazigo (Ver posts n.ºs 37 a 43).
Poderia, também, conhecer muitos outros êxitos do SFM, pelos quais fui o principal responsável. E ficaria a saber o meu importante papel na preparação de futuros Engenheiros e Geólogos, através de aulas que ministrava nas Faculdades de Ciências e de Engenharia do Porto e de colaboração que prestava à Universidade de Aveiro.
Ocorre-me citar o parecer manifestado por unanimidade, pelos Engenheiros e Geólogos da 1.ª Brigada de Prospecção, que tinha sido por mim instituída e era, em 1974, o mais importante núcleo do SFM.
Pronunciaram-se, então, no sentido de eu dever assumir a direcção do SFM, indo ainda mais longe, ao afirmarem que era eu também a pessoa indicada para o cargo de Director-Geral de Minas (ver post nº 72)
Estes mesmos funcionários tornar-se-iam, mais tarde, por influência de Soares Carneiro, os principais responsáveis pela degradação que passou a verificar-se no SFM, como natural consequência do ignóbil e traiçoeiro documento que subscreveram, para me afastarem da chefia daquela Brigada.
Na posse de todos estes dados, era natural que ao Ministro ocorresse o meu nome para assumir o comando da DGGM
Embora eu não estivesse interessado no cargo, pois a aceitação implicaria o meu afastamento das actividades de investigação no campo, a hipótese deveria ter sido considerada.
E eu admito que, se o problema me tivesse sido apresentado, nos seus correctos termos, poderia ter revisto a minha atitude, considerando meu dever cívico a aceitação desse cargo.com todas as dificuldades que teria de enfrentar.
De facto, tinha sido já a consciência dos meus deveres cívicos que determinara a minha aceitação de funções docentes em vários estabelecimentos de ensino superior e médio, com deficiente remuneração, ou mesmo sem remuneração e até com despesas não reembolsadas.
Registo que Jorge Gouveia já me tinha oferecido um lugar de Director de Serviço, … com a condição de eu deixar de realizar trabalho de campo!!!, - oferta que eu obviamente rejeitei pelas razões que expus.
Constou, que o Ministro tentara encontrar exteriormente, pessoa idónea para o cargo de Director-Geral de Minas, mas não fora bem sucedido nas suas diligências
A triste realidade, a que se assistiu, foi que o Ministro, desprezando totalmente as disposições dos Decretos que fez publicar e as recomendações quanto à exigência de competência profissional, em vez de corrigir os monstruosos erros que tinha cometido, ao ter permitido o assalto aos lugares de chefia, por técnicos incompetentes e de duvidoso carácter, tomou a atitude simplista de aceitar como candidato ao cargo de Director-Geral de Minas, um dos 4 “assaltantes” que tinham conseguido instalar-se como subdirectores-gerais.
Acontecia, porém, que um destes promovidos a candidatos, o Engenheiro José Maria da Costa Almeida, tinha um passado de subserviência relativamente ao anterior detentor do cargo, que o não recomendava. A realidade era que ele já só se preocupava com diligências para se aposentar com a categoria de assessor da letra B, à semelhança do que outros funcionários tinham conseguido.
Dos outros três, o Geólogo Delfim de Carvalho e o Engenheiro Jorge Gouveia estavam ocupando cargos de Director dos Serviços Geológicos e Director do SFM;
Restava o Geólogo Alcides Pereira, que tinha magríssimo currículo (Ver post n.º 126) e era, de facto,"um corpo estranho" na DGGM.
Fora nomeado, em comissão de serviço, subdirector-geral, apenas por favoritismo político desconhecendo-se as funções que exercera, desde que, há dois anos fora investido no cargo que detinha.
Perante estes factos, o Ministro resolveu arriscar, nomeando Alcides Pereira,
que era, talvez, o detentor de pior currículo, dentre todos os técnicos superiores da DGGM, embora em interinidade, na esperança de que melhor solução viesse a surgir.
Foi assim que se sucederam despachos, com datas 1-4-1980 e 15-9-1980 para Alcides Pereira exercer o cargo, em regime de substituição, até que, em 11-11-1980, é feita a nomeação, por urgente conveniência de serviço.
Só, porém, em 2-1-1981 é emitido um despacho conjunto do Primeiro-Ministro e do Ministro da Indústria, nos seguintes termos:
Licenciado Alcides Rodrigues Pereira, técnico superior principal do quadro do Gabinete de, Pesquisa e Exploração de Petróleo, exercendo, em comissão de serviço, as funções de subdirector-geral de Geologia e Minas – nomeado para exercer, em comissão de serviço, o cargo de director-geral de Geologia e Minas, nos termos da alínea a) do n.º 1 do artigo 2.ºn.º 2 do artigo 4.ºdo Decreto-Lei n.º 191-F/79 de 26 de Junho. De acordo com o determinado naquele despacho conjunto (que anula o publicado no Diário da República, 2.ª série, n.º 261 de 11 de Novembro findo), o exercício destas funções teve início a partir da data do mesmo, em virtude de esta nomeação ter sido feita, por urgente conveniência de serviço, ao abrigo no disposto no n.º 2 do artigo 3.º do Decreto-Lei n.º 146-C/80 de 22 de Maio.
Com tais antecedentes, não era difícil prever que, mais uma vez, viria a ter plena confirmação a lei de Murphy, como revelarei em futuros posts.
sábado, 4 de setembro de 2010
138 – A obstinação do 4.º Director do SFM em destruir o Organismo que lhe foi confiado
Em fins de 1979, eu ainda conseguia manter dois núcleos de actividade em prospecção mineira (Secções de Caminha e de Talhadas), apesar das várias investidas dos “assaltantes” dos novos cargos directivos, para deles se apropriarem e dos constantes obstáculos à minha actuação.
Conforme revelei no meu post n.º 61, a Secção de Talhadas estivera prestes a ser extinta, em Novembro de 1972, porque, na curiosa expressão do Director do SFM de então, “não estava a dar nada”!
Também o Director-Geral declarava, em reuniões da chamada Comissão de Fomento, não ter entusiasmo pela vasta área que eu denominara Faixa Metalífera da Beira Litoral, seguindo a designação do eminente Geólogo Carlos Ribeiro, na sua “Memória sobre o grande filão metalífero que passa ao nascente de Albergaria-a-Velha e Oliveira de Azeméis”, publicada em1861, na qual revela a grande importância desta Região mineira.
Porém, os resultados dos estudos sob minha orientação, os quais eu descrevia, em pormenor, em diversos relatórios e em exposições orais, não só desmentiam aquelas opiniões negativistas, como eram muito apreciados por entidades científicas externas à DGGM.
Por exemplo, o Professor Edmundo Fonseca, do Departamento de Geociências da Universidade de Aveiro, tendo tomado conhecimento das investigações em curso na Faixa Metalífera, convidou-me, em 2 de Junho de 1978, a participar em Seminário Internacional de Geoquímica que a Universidade ia realizar, de 27 a 30 desse mês de Junho.
Seriam também conferentes J. Barbier do BRGM francês, B. Bolviken de Universidade norueguesa, Clifford James e H. Roesler de outras Universidades estrangeiras, Lopes Nunes da Universidade de Braga e Santos Oliveira do SFM
Insistiu, então, que contava com a minha colaboração como do “pão para a boca”, já que pouco esperava da colaboração de Santos Oliveira.
Manifestei-lhe a minha disposição de apresentar sobretudo resultados obtidos na Faixa Metalífera, pela Secção de Talhadas, durante os últimos 10 anos, aplicando técnicas geoquímicas e geofísicas, com ênfase para o método geoquímico, com amostragem de sedimentos de linhas de água.
Salientei os resultados, nas seguintes áreas
Braçal - Cabeço do Telégrafo
Alto da Serra (antiga mina de Vale do Vau).
Bertufo
Boa Aldeia
Cabeço Santo
Sanguinheiro
Bostelim
Agrelo
Boi
Edmundo Fonseca imediatamente deu o seu acordo e logo incluiu o meu nome, como conferente, em prospecto que fez distribuir por entidades possivelmente interessadas, intitulando a comunicação que eu iria apresentar como “Casos concretos de prospecção integrada em Portugal”
Em 30-6-78, ocupei quase toda a manhã com a minha exposição, socorrendo-me de numerosos mapas, que previamente tinha afixado.
Apresentei, também, alguns resultados da actividade na Região de Vila Nova de Cerveira - Caminha – Ponte de Lima.
Senti necessidade de acentuar que as investigações na Faixa Metalífera da Beira Litoral não tinham grande apoio, a nível superior, com os argumentos de que filões não têm interesse e que todo o chumbo e zinco, de que o País necessita, se contem nas pirites alentejanas.
Chamei, por isso, especial atenção para um extenso alinhamento de anomalias geoquímicas de Pb, na área do Cabeço do Telégrafo, situada nas proximidades da antiga Mina do Braçal, para cuja investigação apresentara, em 1974, projecto de sondagens que aguardava ainda aprovação.
Relativamente à actividade na Região de Vila Nova de Cerveira - Ponte de Lima, mostrei os excepcionais resultados de sondagem efectuada na Costa das Vinhas, pela Empresa americana Union Carbide, exclusivamente com base em pronunciadas anomalias magnéticas e geoquímicas de tungsténio, anteriormente detectadas pelos trabalhos do SFM.
A sondagem de Union Carbide fora implantada em local próximo de furo, por mim projectado, com o n.º 69, o qual a Direcção do SFM decidiu não efectuar, para dar preferência à outros furos na Região de Mogadouro, com o fundamento de se tornar imperioso investigar o jazigo (?) de scheelite de Cravezes, a que Geólogos inexperientes davam muita importância, mas que, na realidade, não passava de ocorrência pouco significativa.
Escusado será dizer que Gouveia e a quase totalidade dos 22 (!!) novos Chefes primaram pela ausência neste seminário. Não lhes interessava saber o que realmente se passava nos poucos núcleos do SFM onde havia actividade útil e disciplinada e os ensinamentos que os professores estrangeiros poderiam trazer.
Só me lembro de ter visto o Chefe de Divisão Viegas, que chegou atrasado e o Director de Serviço, Santos Oliveira, que apresentou fraca comunicação sobre prospecção de scheelites.
Dentre as intervenções, após a minha apresentação, destaco as seguintes:
1 - Barbier, surpreendido por se não ter sondado a série de anomalias de Pb no Cabeço do Telégrafo. Expandira-se, depois, com Edmundo Fonseca, usando a expressão: “Aqui há substância!” para contrastar com o que ouvira, no dia anterior a Santos Oliveira.
2 – Viegas, elogiando (!) e aproveitando a oportunidade para perguntar se dados de trabalhos por mim dirigidos em Carviçais (Moncorvo), nos quais estava interessado, lhe poderiam ser cedidos. A minha resposta foi que tais dados pertenciam ao SFM e seriam facultados a quem tivesse o direito de os reclamar.
3 – Luís Gaspar, dos Serviços Geológicos, a manifestar estranheza com a fase incipiente de trabalhos, ainda em curso, apesar de a campanha ter sido iniciada há 10 anos e com o facto de se não ter decidido estudar a Mina do Braçal, após o seu abandono pela Empresa que detivera a concessão. Concordei com as suas objecções, repetindo a minha explicação inicial sobre a falta de apoio, a nível superior, porque o Director-Geral entendia que filões não têm interesse e que todo o Pb e Zn de que o País precisa se contem nas pirites do Alentejo. Salientei, no entanto, as contradições desse dirigente, a tal respeito, em publicações de sua autoria. Quanto à retoma da actividade nas Minas do Braçal, exprimi o parecer de que, para o actual SFM, tal retoma seria muito difícil, senão impossível, uma vez que já tinha sido extinto o sector de Trabalhos Mineiros.
Impressionado com o sucesso da prospecção geoquímica na redescoberta da antiga Mina de chumbo do Sanguinheiro, Edmundo Fonseca manifestou o desejo de fazer a sua tese de doutoramento com base nesta Mina.
A Mina do Sanguinheiro não constava da documentação que eu tinha consultado nos arquivos da Circunscrição Mineira do Norte. Apesar de se situar no distrito de Coimbra, os documentos a seu respeito estavam arquivados na Circunscrição Mineira do Sul. Os trabalhos, desta Mina, totalmente ocultos por densa vegetação, foram encontrados, através dos resultados das análises geoquímicas de Pb.
Tendo obtido a minha concordância, Edmundo Fonseca fez deslocar, à área desta Mina, o orientador da sua tese, Professor H. Martin, de Universidade belga, e o Professor da Universidade de Aveiro, Renato Araújo.
Passou, depois a prestar colaboração, nos trabalhos que ali decorriam.
Uma sonda da Universidade e pessoal que tinha adestrado foram utilizados para colheita de dados sobre a formação mineralizada.
Ao Professor Edmundo Fonseca, facultei também, acesso aos dados de estudos que eu tinha dirigido no Sul do País, na área de Algares de Portel, a fim de ele poder estabelecer o confronto de mineralizações de chumbo e zinco, em diferentes ambientes litológicos.
Jorge Gouveia, com total desprezo por este longo passado do SFM, na Faixa Metalífera da Beira Litoral e sem consideração pelo prejuízo que iria ocasionar à Universidade de Aveiro, na formação dos seus alunos e professores, passou a tomar decisões com vista a extinguir a Secção de Talhadas.
Começou por emitir ordens directas à Secção de Talhadas, para que cerca de 50% do seu pessoal fosse prestar serviço na Secção de Coimbra dirigida pelo Geólogo Viegas.
Esta deslocação de pessoal, apresentada com carácter temporário, foi-me, depois justificada, porque “o sector de Coimbra não tem estruturas à altura dos projectos que lhe estão cometidos, nem é oportuno desenvolvê-las, no momento presente (!!!!!)
Pelo Colector Silvestre Vilar fui informado de que Viegas, dispondo de uma aparelhagem de resistividade eléctrica Askania, de elevada qualidade, herdada dos extintos Serviços de Prospecção de Junta de Energia Nuclear, pretendia efectuara 49 sondagens eléctricas, para investigação de ocorrências de argila.
Soube que tais sondagens não chegaram a ser efectuadas, por terem avariado a aparelhagem, visto ninguém se ter preparado, para seu uso e muito menos para a interpretação dos resultados que viessem a obter.
Apesar deste revés, Jorge Gouveia acabou por dar cumprimento ao seu propósito inicial. Deu ordem para suspender a actividade na Faixa Metalífera da Beira Litoral, passando a utilizar todo o seu pessoal, em trabalhos de duvidosa qualidade e utilidade.
Foi do seguinte teor o ofício que me dirigiu em14-1-1980:
“ Não tendo sido incluído no Programa Min - de Inventário e Valorização dos Recursos Minerais de País” do PIDDAC para 1980, o sub-projecto, relativo à área de Talhadas deverão os respectivos trabalhos ser suspensos”
Continuando a usar os escassos recursos de que dispunha, registei, em relatórios, as arbitrariedades dos dirigentes, que estavam a reduzir a eficácia do SFM, conduzindo à sua previsível extinção.
A seguir, transcrevo algumas passagens do relatório, respeitante à actividade do 1.º Serviço durante o 1.º trimestre de 1980:
“Provavelmente o Director nem terá lido os nossos relatórios trimestrais, nos quais salientamos os excepcionais resultados de prospecção, ainda sem investigação por sondagens, os quais surpreenderam especialistas estrangeiros, que estiveram presentes, na Universidade de Aveiro, em palestra que ali proferimos essencialmente sobre prospecção mineira na Faixa Metalífera da Beira Litoral.
Provavelmente também, o Geólogo Viegas, por si promovido a Chefe de Divisão de Prospecção de Substâncias Metalíferas das Províncias Metalogénicas Setentrionais” terá modificado a opinião elogiosa que pública e espontaneamente exprimiu a respeito do trabalho que apresentamos em Aveiro….
Aliás, tal mudança de opinião não constituiria já caso inédito.
Alem disso, o Director do SFM jamais nos convidou a expor, de viva voz, a actividade em curso na Faixa Metalífera da Beira Litoral, nem tão pouco manifestou o menor interesse em apreciar os trabalhos no campo.
Concluímos que a exclusão da Faixa Metalífera de Beira Litoral, dos programas para 1980 não tem qualquer fundamento.
Consequentemente, a suspensão dos trabalhos nesta Faixa constitui grave erro, que consideramos intencional, apenas com o propósito de retirar ao signatário a possibilidade de concretizar os êxitos que, com persistente labor e entusiasmo, vai preparando.
É tempo de chamar à responsabilidade quem comete deliberadamente tão graves erros, com total desprezo pelos interesses do País.
O ofício do Director do SFM, suspendendo a actividade da Secção de Talhadas, remete-nos para o Programa “Min - Inventário e Valorização dos Recursos Minerais do País “ do PIDDAC para 1980.
….
Não fora a falta de tempo e o desejo de não alongar demasiado este documento, gostaríamos de fazer mais profunda incursão no Programa para 1980.
Trata-se, de facto, de um documento exótico, que quase nos provocaria hilaridade, não fora o que de trágico está nele subjacente.
Na verdade, justificar o atraso ou não cumprimento de programas com argumentos tais como:
“Uma parte do corpo de técnicos licenciados do SFM do SFM foi chamada, no âmbito da reestruturação da DGGM, a desempenhar funções no quadro dirigente. Este facto veio agravar, ainda mais a situação, que já era carente nesses técnicos. Assim só o recrutamento de pessoal, de acordo com o novo quadro orgânico, poderá repor a capacidade de resposta do sector Norte, para levar a cabo as tarefas aqui programadas”. É, pelo menos, um ultraje à inteligência de quem tiver que apreciar o aludido programa.
A nós, não restavam quaisquer dúvidas de que a reestruturação que paulatinamente se tem vindo a processar na Direcção-Geral de Minas só tem tido efeitos nefastos para o País.
Os interesses de alguns oportunistas têm sido satisfeitos, mas os Serviços têm-se degradado, como repetidamente temos denunciado.
No entanto, poderíamos esperar tudo, menos que os responsáveis por esta degradação viessem declará-lo, em documento de tamanha importância.
E não podemos deixar de manifestar a nossa surpresa por não termos notado reacções superiores a tão surpreendentes afirmações
Pelo que nos diz respeito, queremos deixar aqui registado que, desde 1944, sempre temos exercido, efectivamente, dentro do Serviço de Fomento Mineiro, funções de chefia, sem que, por tal facto, tivéssemos recebido qualquer remuneração adicional.
Nunca abdicamos, porém, das funções técnicas e, a atestá-lo, está a obra que podemos apresentar, de que não nos envergonhamos, da qual outros se têm aproveitado e continuam a aproveitar…
Não podemos, por isso, deixar sem reparo que os agora alcandorados a cargos de chefia, quase sempre sem base em competência profissional ou qualquer outra e, em muitos casos, sem efectivamente exercerem o cargo … argumentem agora que não trabalham, porque já são chefes e os chefes só mandam…
……..
Conforme revelei no meu post n.º 61, a Secção de Talhadas estivera prestes a ser extinta, em Novembro de 1972, porque, na curiosa expressão do Director do SFM de então, “não estava a dar nada”!
Também o Director-Geral declarava, em reuniões da chamada Comissão de Fomento, não ter entusiasmo pela vasta área que eu denominara Faixa Metalífera da Beira Litoral, seguindo a designação do eminente Geólogo Carlos Ribeiro, na sua “Memória sobre o grande filão metalífero que passa ao nascente de Albergaria-a-Velha e Oliveira de Azeméis”, publicada em1861, na qual revela a grande importância desta Região mineira.
Porém, os resultados dos estudos sob minha orientação, os quais eu descrevia, em pormenor, em diversos relatórios e em exposições orais, não só desmentiam aquelas opiniões negativistas, como eram muito apreciados por entidades científicas externas à DGGM.
Por exemplo, o Professor Edmundo Fonseca, do Departamento de Geociências da Universidade de Aveiro, tendo tomado conhecimento das investigações em curso na Faixa Metalífera, convidou-me, em 2 de Junho de 1978, a participar em Seminário Internacional de Geoquímica que a Universidade ia realizar, de 27 a 30 desse mês de Junho.
Seriam também conferentes J. Barbier do BRGM francês, B. Bolviken de Universidade norueguesa, Clifford James e H. Roesler de outras Universidades estrangeiras, Lopes Nunes da Universidade de Braga e Santos Oliveira do SFM
Insistiu, então, que contava com a minha colaboração como do “pão para a boca”, já que pouco esperava da colaboração de Santos Oliveira.
Manifestei-lhe a minha disposição de apresentar sobretudo resultados obtidos na Faixa Metalífera, pela Secção de Talhadas, durante os últimos 10 anos, aplicando técnicas geoquímicas e geofísicas, com ênfase para o método geoquímico, com amostragem de sedimentos de linhas de água.
Salientei os resultados, nas seguintes áreas
Braçal - Cabeço do Telégrafo
Alto da Serra (antiga mina de Vale do Vau).
Bertufo
Boa Aldeia
Cabeço Santo
Sanguinheiro
Bostelim
Agrelo
Boi
Edmundo Fonseca imediatamente deu o seu acordo e logo incluiu o meu nome, como conferente, em prospecto que fez distribuir por entidades possivelmente interessadas, intitulando a comunicação que eu iria apresentar como “Casos concretos de prospecção integrada em Portugal”
Em 30-6-78, ocupei quase toda a manhã com a minha exposição, socorrendo-me de numerosos mapas, que previamente tinha afixado.
Apresentei, também, alguns resultados da actividade na Região de Vila Nova de Cerveira - Caminha – Ponte de Lima.
Senti necessidade de acentuar que as investigações na Faixa Metalífera da Beira Litoral não tinham grande apoio, a nível superior, com os argumentos de que filões não têm interesse e que todo o chumbo e zinco, de que o País necessita, se contem nas pirites alentejanas.
Chamei, por isso, especial atenção para um extenso alinhamento de anomalias geoquímicas de Pb, na área do Cabeço do Telégrafo, situada nas proximidades da antiga Mina do Braçal, para cuja investigação apresentara, em 1974, projecto de sondagens que aguardava ainda aprovação.
Relativamente à actividade na Região de Vila Nova de Cerveira - Ponte de Lima, mostrei os excepcionais resultados de sondagem efectuada na Costa das Vinhas, pela Empresa americana Union Carbide, exclusivamente com base em pronunciadas anomalias magnéticas e geoquímicas de tungsténio, anteriormente detectadas pelos trabalhos do SFM.
A sondagem de Union Carbide fora implantada em local próximo de furo, por mim projectado, com o n.º 69, o qual a Direcção do SFM decidiu não efectuar, para dar preferência à outros furos na Região de Mogadouro, com o fundamento de se tornar imperioso investigar o jazigo (?) de scheelite de Cravezes, a que Geólogos inexperientes davam muita importância, mas que, na realidade, não passava de ocorrência pouco significativa.
Escusado será dizer que Gouveia e a quase totalidade dos 22 (!!) novos Chefes primaram pela ausência neste seminário. Não lhes interessava saber o que realmente se passava nos poucos núcleos do SFM onde havia actividade útil e disciplinada e os ensinamentos que os professores estrangeiros poderiam trazer.
Só me lembro de ter visto o Chefe de Divisão Viegas, que chegou atrasado e o Director de Serviço, Santos Oliveira, que apresentou fraca comunicação sobre prospecção de scheelites.
Dentre as intervenções, após a minha apresentação, destaco as seguintes:
1 - Barbier, surpreendido por se não ter sondado a série de anomalias de Pb no Cabeço do Telégrafo. Expandira-se, depois, com Edmundo Fonseca, usando a expressão: “Aqui há substância!” para contrastar com o que ouvira, no dia anterior a Santos Oliveira.
2 – Viegas, elogiando (!) e aproveitando a oportunidade para perguntar se dados de trabalhos por mim dirigidos em Carviçais (Moncorvo), nos quais estava interessado, lhe poderiam ser cedidos. A minha resposta foi que tais dados pertenciam ao SFM e seriam facultados a quem tivesse o direito de os reclamar.
3 – Luís Gaspar, dos Serviços Geológicos, a manifestar estranheza com a fase incipiente de trabalhos, ainda em curso, apesar de a campanha ter sido iniciada há 10 anos e com o facto de se não ter decidido estudar a Mina do Braçal, após o seu abandono pela Empresa que detivera a concessão. Concordei com as suas objecções, repetindo a minha explicação inicial sobre a falta de apoio, a nível superior, porque o Director-Geral entendia que filões não têm interesse e que todo o Pb e Zn de que o País precisa se contem nas pirites do Alentejo. Salientei, no entanto, as contradições desse dirigente, a tal respeito, em publicações de sua autoria. Quanto à retoma da actividade nas Minas do Braçal, exprimi o parecer de que, para o actual SFM, tal retoma seria muito difícil, senão impossível, uma vez que já tinha sido extinto o sector de Trabalhos Mineiros.
Impressionado com o sucesso da prospecção geoquímica na redescoberta da antiga Mina de chumbo do Sanguinheiro, Edmundo Fonseca manifestou o desejo de fazer a sua tese de doutoramento com base nesta Mina.
A Mina do Sanguinheiro não constava da documentação que eu tinha consultado nos arquivos da Circunscrição Mineira do Norte. Apesar de se situar no distrito de Coimbra, os documentos a seu respeito estavam arquivados na Circunscrição Mineira do Sul. Os trabalhos, desta Mina, totalmente ocultos por densa vegetação, foram encontrados, através dos resultados das análises geoquímicas de Pb.
Tendo obtido a minha concordância, Edmundo Fonseca fez deslocar, à área desta Mina, o orientador da sua tese, Professor H. Martin, de Universidade belga, e o Professor da Universidade de Aveiro, Renato Araújo.
Passou, depois a prestar colaboração, nos trabalhos que ali decorriam.
Uma sonda da Universidade e pessoal que tinha adestrado foram utilizados para colheita de dados sobre a formação mineralizada.
Ao Professor Edmundo Fonseca, facultei também, acesso aos dados de estudos que eu tinha dirigido no Sul do País, na área de Algares de Portel, a fim de ele poder estabelecer o confronto de mineralizações de chumbo e zinco, em diferentes ambientes litológicos.
Jorge Gouveia, com total desprezo por este longo passado do SFM, na Faixa Metalífera da Beira Litoral e sem consideração pelo prejuízo que iria ocasionar à Universidade de Aveiro, na formação dos seus alunos e professores, passou a tomar decisões com vista a extinguir a Secção de Talhadas.
Começou por emitir ordens directas à Secção de Talhadas, para que cerca de 50% do seu pessoal fosse prestar serviço na Secção de Coimbra dirigida pelo Geólogo Viegas.
Esta deslocação de pessoal, apresentada com carácter temporário, foi-me, depois justificada, porque “o sector de Coimbra não tem estruturas à altura dos projectos que lhe estão cometidos, nem é oportuno desenvolvê-las, no momento presente (!!!!!)
Pelo Colector Silvestre Vilar fui informado de que Viegas, dispondo de uma aparelhagem de resistividade eléctrica Askania, de elevada qualidade, herdada dos extintos Serviços de Prospecção de Junta de Energia Nuclear, pretendia efectuara 49 sondagens eléctricas, para investigação de ocorrências de argila.
Soube que tais sondagens não chegaram a ser efectuadas, por terem avariado a aparelhagem, visto ninguém se ter preparado, para seu uso e muito menos para a interpretação dos resultados que viessem a obter.
Apesar deste revés, Jorge Gouveia acabou por dar cumprimento ao seu propósito inicial. Deu ordem para suspender a actividade na Faixa Metalífera da Beira Litoral, passando a utilizar todo o seu pessoal, em trabalhos de duvidosa qualidade e utilidade.
Foi do seguinte teor o ofício que me dirigiu em14-1-1980:
“ Não tendo sido incluído no Programa Min - de Inventário e Valorização dos Recursos Minerais de País” do PIDDAC para 1980, o sub-projecto, relativo à área de Talhadas deverão os respectivos trabalhos ser suspensos”
Continuando a usar os escassos recursos de que dispunha, registei, em relatórios, as arbitrariedades dos dirigentes, que estavam a reduzir a eficácia do SFM, conduzindo à sua previsível extinção.
A seguir, transcrevo algumas passagens do relatório, respeitante à actividade do 1.º Serviço durante o 1.º trimestre de 1980:
“Provavelmente o Director nem terá lido os nossos relatórios trimestrais, nos quais salientamos os excepcionais resultados de prospecção, ainda sem investigação por sondagens, os quais surpreenderam especialistas estrangeiros, que estiveram presentes, na Universidade de Aveiro, em palestra que ali proferimos essencialmente sobre prospecção mineira na Faixa Metalífera da Beira Litoral.
Provavelmente também, o Geólogo Viegas, por si promovido a Chefe de Divisão de Prospecção de Substâncias Metalíferas das Províncias Metalogénicas Setentrionais” terá modificado a opinião elogiosa que pública e espontaneamente exprimiu a respeito do trabalho que apresentamos em Aveiro….
Aliás, tal mudança de opinião não constituiria já caso inédito.
Alem disso, o Director do SFM jamais nos convidou a expor, de viva voz, a actividade em curso na Faixa Metalífera da Beira Litoral, nem tão pouco manifestou o menor interesse em apreciar os trabalhos no campo.
Concluímos que a exclusão da Faixa Metalífera de Beira Litoral, dos programas para 1980 não tem qualquer fundamento.
Consequentemente, a suspensão dos trabalhos nesta Faixa constitui grave erro, que consideramos intencional, apenas com o propósito de retirar ao signatário a possibilidade de concretizar os êxitos que, com persistente labor e entusiasmo, vai preparando.
É tempo de chamar à responsabilidade quem comete deliberadamente tão graves erros, com total desprezo pelos interesses do País.
O ofício do Director do SFM, suspendendo a actividade da Secção de Talhadas, remete-nos para o Programa “Min - Inventário e Valorização dos Recursos Minerais do País “ do PIDDAC para 1980.
….
Não fora a falta de tempo e o desejo de não alongar demasiado este documento, gostaríamos de fazer mais profunda incursão no Programa para 1980.
Trata-se, de facto, de um documento exótico, que quase nos provocaria hilaridade, não fora o que de trágico está nele subjacente.
Na verdade, justificar o atraso ou não cumprimento de programas com argumentos tais como:
“Uma parte do corpo de técnicos licenciados do SFM do SFM foi chamada, no âmbito da reestruturação da DGGM, a desempenhar funções no quadro dirigente. Este facto veio agravar, ainda mais a situação, que já era carente nesses técnicos. Assim só o recrutamento de pessoal, de acordo com o novo quadro orgânico, poderá repor a capacidade de resposta do sector Norte, para levar a cabo as tarefas aqui programadas”. É, pelo menos, um ultraje à inteligência de quem tiver que apreciar o aludido programa.
A nós, não restavam quaisquer dúvidas de que a reestruturação que paulatinamente se tem vindo a processar na Direcção-Geral de Minas só tem tido efeitos nefastos para o País.
Os interesses de alguns oportunistas têm sido satisfeitos, mas os Serviços têm-se degradado, como repetidamente temos denunciado.
No entanto, poderíamos esperar tudo, menos que os responsáveis por esta degradação viessem declará-lo, em documento de tamanha importância.
E não podemos deixar de manifestar a nossa surpresa por não termos notado reacções superiores a tão surpreendentes afirmações
Pelo que nos diz respeito, queremos deixar aqui registado que, desde 1944, sempre temos exercido, efectivamente, dentro do Serviço de Fomento Mineiro, funções de chefia, sem que, por tal facto, tivéssemos recebido qualquer remuneração adicional.
Nunca abdicamos, porém, das funções técnicas e, a atestá-lo, está a obra que podemos apresentar, de que não nos envergonhamos, da qual outros se têm aproveitado e continuam a aproveitar…
Não podemos, por isso, deixar sem reparo que os agora alcandorados a cargos de chefia, quase sempre sem base em competência profissional ou qualquer outra e, em muitos casos, sem efectivamente exercerem o cargo … argumentem agora que não trabalham, porque já são chefes e os chefes só mandam…
……..
terça-feira, 31 de agosto de 2010
137 – O 4.º Director do SFM. Continuação 3
Em 27-7-1979, ao entrar no meu gabinete, nas instalações do SFM em S. Mamede de Infesta, encontrei, na minha secretária, um ofício de Jorge Gouveia, acompanhado de um requerimento de Union Carbide Geotécnica Portuguesa – Assistência Mineira L.da, com despachos do Director Geral de Minas e do Director do SFM, solicitando o meu parecer sobre a prorrogação de contrato daquela Companhia com o Estado Português.
Fiquei naturalmente surpreendido com tais despachos, exarados em total incoerência com sistemáticas atitudes que vinham sendo assumidas para comigo, no sentido de me expulsarem da direcção dos estudos na Região de Vila Nova de Cerveira - Caminha – Ponte de Lima.
A seguir, reproduzo o resumo da minha informação de 68 páginas dactilografadas a um espaço, com data de 28 de Agosto de 1979, que remeti para o Director do SFM:
“Na Região de Vila Nova de Cerveira - Caminha - Ponte de Lima, ocorrem minerais de tungsténio formando concentrações que, por vezes, atingem a superfície.
Tais concentrações deram origem a pequenas explorações mineiras por empresas concessionárias nacionais.
O Serviço de Fomento Mineiro, solicitado a intervir em auxílio de um destes concessionários, além de resolver o problema apresentado, permitindo a sobrevivência da Empresa, concluiu que as potencialidades da Região para jazigos minerais, sobretudo de tungsténio, eram tais que justificavam uma acção sistemática, no sentido de descobrir novas concentrações, aflorantes ou não, quer no interior de áreas concedidas, quer no seu exterior.
Esta acção sistemática, iniciada em 1968, prossegue ainda.
Em 1974, a Empresa americana “Union Carbide Exploration Corporation”, tendo tomado conhecimento dos resultados dos trabalhos do Serviço de Fomento Mineiro, na Região, considerou-os de suficiente interesse, para justificarem um contrato de prospecção, pesquisa e exploração mineiras, com um dos concessionários locais.
Tendo conseguido negociar este contrato, a Empresa americana imediatamente se lançou em campanhas de prospecção e pesquisa, no prosseguimento das iniciadas pelo Serviço de Fomento Mineiro, mas com mais intenso ritmo.
Estendeu, posteriormente, a sua acção à área de outro concessionário e a uma parcela da área cativa para o Estado, mediante contratos que, para o efeito, celebrou.
Dos trabalhos que Union Carbide realizou, desde 1974 até ao presente, sobressaem as sondagens.
A Empresa promoveu a execução de mais de 17 000 metros de furos, a adicionar a um pouco mais de 7 000 metros que o Serviço de Fomento Mineiro antes tinha efectuado.
Avaliamos os seus dispêndios na Região em cerca de 120 000 contos.
Em resultado dos seus trabalhos e dos anteriormente realizados pelo Serviço de Fomento Mineiro, a Empresa tem calculadas reservas que se aproximam bastante do valor mínimo que se propõe atingir, isto é, 1 milhão de toneladas de minério com cerca de 0,8% de WO3.
À cotação actual, admitindo perdas elevadas na sua preparação – da ordem dos 60% - uma tonelada deste minério teria o valor aproximado de 2 000$00.
As reservas já reveladas aproximar-se-iam, portanto, do valor de 2 milhões de contos.
No entanto, Union Carbide considera marginal o projecto em que está envolvida e pretende prosseguir estudos, com vista a torná-lo economicamente viável, quer através do aumento de reservas, quer através de melhor recuperação.
Os seus contratos com os concessionários foram já renegociados; o contrato com o Estado caducou em 20-7-79.
Union Carbide, ao abrigo de uma das cláusulas deste último contrato, requereu a prorrogação da validade para nova área de actuação, que representa cerca de 50% da área inicial.
Sobre este requerimento incidiu despacho do Director-Geral de Geologia e Minas, determinando que o Serviço de Fomento Mineiro se pronuncie sobre o mérito dos trabalhos de Union Carbide, em relação ao contrato.
O Director do Serviço de Fomento Mineiro endossou para nós o cumprimento deste despacho.
Todavia, a nós, que desde 1965 dirigimos os trabalhos do Serviço de Fomento Mineiro na Região, neles participando activamente, não foi fornecida cópia do contrato com o Estado, contrato para cuja redacção também não fora pedida a nossa intervenção.
Além disso, tudo se tem feito para nos afastar da Região, dificultando-nos a apreciação que agora nos é pedido.
Bastará referir que, em Julho de 1977, foi emitida uma Ordem de Serviço demitindo-nos da chefia da Secção de Caminha e ordenando a entrega de toda a documentação respeitante aos estudos que, na Região, temos dirigido, a um grupo de geólogos que se designou por “Grupo de Trabalho do Tungsténio”.
Recusamo-nos a cumprir tal Ordem, por a considerarmos ilegal e prejudicial ao País e, nessa atitude, fomos acompanhados por todos os funcionários da Secção.
Continuamos, pois, a dirigir os estudos, embora com as dificuldades originadas por autênticas sabotagens cometidas pelo Director do Serviço e vários seus colaboradores, “democraticamente” escolhidos, em assembleias de trabalhadores “convenientemente esclarecidos”.
Mantivemo-nos, também, nas suas linhas gerais, ao corrente da actividade de Union Carbide, na Região, tendo estabelecido com esta Companhia uma colaboração de que têm resultado benefícios mútuos.
Na falta do contrato e de relatórios de Union Carbide (só os dois mais recentes nos foram entregues ou passaram a ser enviados), procuramos obter esta documentação, quer na Circunscrição Mineira do Norte, quer na própria Union Carbide.
Consideramo-nos, pois, já suficientemente informados para dar um parecer favorável à prorrogação pedida.
Cremos, no entanto, que deveríamos estar documentados para poder prosseguir os estudos, na hipótese de Union Carbide decidir abandonar a Região, por não considerar o seu projecto economicamente viável.
Chamamos a atenção para a necessidade de um acompanhamento permanente da actividade da Empresa, o qual não poderá fazer-se apenas através de relatórios, mas exigirá a designação de um representante do Estado junto da Empresa, legal e tecnicamente qualificado.
Fazemos considerações várias obre as dificuldades que nos têm sido criadas e sobre o nosso afastamento da Região, que já quase está concretizado, através de incríveis Ordens de Serviço que transferem para técnicos incompetentes as nossas funções e chamamos a atenção para a necessidade de se proceder a uma sindicância à Direcção-Geral de Minas, em especial ao Serviço de Fomento Mineiro, se se quiser obstar à completa destruição deste Organismo de criação de riqueza, essencial ao desenvolvimento económico do País.
Defendemos a promoção do actual Serviço de Fomento Mineiro a Instituto Geológico e Mineiro, dotado de autonomia administrativa e financeira e com mais amplas atribuições, que lhe permitam entrar no campo da exploração de jazigos minerais.
Só um tal Instituto teria condições para dar adequado seguimento aos trabalhos na Região de Vila Nova de Cerveira - Caminha – Ponte de Lima, na hipótese de Union Carbide abandonar a Região.
Julgamos indispensável uma ampla colaboração com estabelecimentos de ensino superior, na formação de técnicos competentes e no seu posterior aproveitamento.
A Região de Vila Nova de Cerveira – Caminha - Ponte de Lima teria óptimas condições para facilitar a preparação desses técnicos.
Na hipótese de Union Carbide permanecer na Região e passar à fase de exploração – hipótese que nos parece a mais verosímil – concluímos que do contrato com o Estado apenas resultará, se as reservas actuais não forem acrescentadas, uma receita de 16 200 contos, em pouco mais de 13 anos, isto é, uma importância que mal cobrirá as despesas do Serviço de Fomento Mineiro, se é que as cobre.
Concluímos, também, que uma das Empresas locais, que viu as suas concessões valorizadas pelo Serviço de Fomento Mineiro, além de algumas dezenas de milhar de contos que já deve ter recebido, virá a receber ainda, mais cerca de 48 000 contos.
Vê-se, pois, quão irreflectida e irresponsavelmente foi elaborado o contrato com o Estado!
E é caso para perguntar porque sendo nós o técnico que melhor conhece a Região, não fomos chamados a colaborar na redacção do contrato.
Chama-se a atenção para as disposições legais que obrigam os concessionários a compensar o Estado das despesas feitas nas áreas das suas concessões, tidas em com conta as riquezas nelas evidenciadas, em resultado dos trabalhos do Serviço de Fomento Mineiro.”
Comuniquei ao Director do SFM que esta informação fora também enviada, para apreciação, em escalões hierárquicos mais elevados (Primeiro Ministro e Ministro da Indústria).
Fiquei naturalmente surpreendido com tais despachos, exarados em total incoerência com sistemáticas atitudes que vinham sendo assumidas para comigo, no sentido de me expulsarem da direcção dos estudos na Região de Vila Nova de Cerveira - Caminha – Ponte de Lima.
A seguir, reproduzo o resumo da minha informação de 68 páginas dactilografadas a um espaço, com data de 28 de Agosto de 1979, que remeti para o Director do SFM:
“Na Região de Vila Nova de Cerveira - Caminha - Ponte de Lima, ocorrem minerais de tungsténio formando concentrações que, por vezes, atingem a superfície.
Tais concentrações deram origem a pequenas explorações mineiras por empresas concessionárias nacionais.
O Serviço de Fomento Mineiro, solicitado a intervir em auxílio de um destes concessionários, além de resolver o problema apresentado, permitindo a sobrevivência da Empresa, concluiu que as potencialidades da Região para jazigos minerais, sobretudo de tungsténio, eram tais que justificavam uma acção sistemática, no sentido de descobrir novas concentrações, aflorantes ou não, quer no interior de áreas concedidas, quer no seu exterior.
Esta acção sistemática, iniciada em 1968, prossegue ainda.
Em 1974, a Empresa americana “Union Carbide Exploration Corporation”, tendo tomado conhecimento dos resultados dos trabalhos do Serviço de Fomento Mineiro, na Região, considerou-os de suficiente interesse, para justificarem um contrato de prospecção, pesquisa e exploração mineiras, com um dos concessionários locais.
Tendo conseguido negociar este contrato, a Empresa americana imediatamente se lançou em campanhas de prospecção e pesquisa, no prosseguimento das iniciadas pelo Serviço de Fomento Mineiro, mas com mais intenso ritmo.
Estendeu, posteriormente, a sua acção à área de outro concessionário e a uma parcela da área cativa para o Estado, mediante contratos que, para o efeito, celebrou.
Dos trabalhos que Union Carbide realizou, desde 1974 até ao presente, sobressaem as sondagens.
A Empresa promoveu a execução de mais de 17 000 metros de furos, a adicionar a um pouco mais de 7 000 metros que o Serviço de Fomento Mineiro antes tinha efectuado.
Avaliamos os seus dispêndios na Região em cerca de 120 000 contos.
Em resultado dos seus trabalhos e dos anteriormente realizados pelo Serviço de Fomento Mineiro, a Empresa tem calculadas reservas que se aproximam bastante do valor mínimo que se propõe atingir, isto é, 1 milhão de toneladas de minério com cerca de 0,8% de WO3.
À cotação actual, admitindo perdas elevadas na sua preparação – da ordem dos 60% - uma tonelada deste minério teria o valor aproximado de 2 000$00.
As reservas já reveladas aproximar-se-iam, portanto, do valor de 2 milhões de contos.
No entanto, Union Carbide considera marginal o projecto em que está envolvida e pretende prosseguir estudos, com vista a torná-lo economicamente viável, quer através do aumento de reservas, quer através de melhor recuperação.
Os seus contratos com os concessionários foram já renegociados; o contrato com o Estado caducou em 20-7-79.
Union Carbide, ao abrigo de uma das cláusulas deste último contrato, requereu a prorrogação da validade para nova área de actuação, que representa cerca de 50% da área inicial.
Sobre este requerimento incidiu despacho do Director-Geral de Geologia e Minas, determinando que o Serviço de Fomento Mineiro se pronuncie sobre o mérito dos trabalhos de Union Carbide, em relação ao contrato.
O Director do Serviço de Fomento Mineiro endossou para nós o cumprimento deste despacho.
Todavia, a nós, que desde 1965 dirigimos os trabalhos do Serviço de Fomento Mineiro na Região, neles participando activamente, não foi fornecida cópia do contrato com o Estado, contrato para cuja redacção também não fora pedida a nossa intervenção.
Além disso, tudo se tem feito para nos afastar da Região, dificultando-nos a apreciação que agora nos é pedido.
Bastará referir que, em Julho de 1977, foi emitida uma Ordem de Serviço demitindo-nos da chefia da Secção de Caminha e ordenando a entrega de toda a documentação respeitante aos estudos que, na Região, temos dirigido, a um grupo de geólogos que se designou por “Grupo de Trabalho do Tungsténio”.
Recusamo-nos a cumprir tal Ordem, por a considerarmos ilegal e prejudicial ao País e, nessa atitude, fomos acompanhados por todos os funcionários da Secção.
Continuamos, pois, a dirigir os estudos, embora com as dificuldades originadas por autênticas sabotagens cometidas pelo Director do Serviço e vários seus colaboradores, “democraticamente” escolhidos, em assembleias de trabalhadores “convenientemente esclarecidos”.
Mantivemo-nos, também, nas suas linhas gerais, ao corrente da actividade de Union Carbide, na Região, tendo estabelecido com esta Companhia uma colaboração de que têm resultado benefícios mútuos.
Na falta do contrato e de relatórios de Union Carbide (só os dois mais recentes nos foram entregues ou passaram a ser enviados), procuramos obter esta documentação, quer na Circunscrição Mineira do Norte, quer na própria Union Carbide.
Consideramo-nos, pois, já suficientemente informados para dar um parecer favorável à prorrogação pedida.
Cremos, no entanto, que deveríamos estar documentados para poder prosseguir os estudos, na hipótese de Union Carbide decidir abandonar a Região, por não considerar o seu projecto economicamente viável.
Chamamos a atenção para a necessidade de um acompanhamento permanente da actividade da Empresa, o qual não poderá fazer-se apenas através de relatórios, mas exigirá a designação de um representante do Estado junto da Empresa, legal e tecnicamente qualificado.
Fazemos considerações várias obre as dificuldades que nos têm sido criadas e sobre o nosso afastamento da Região, que já quase está concretizado, através de incríveis Ordens de Serviço que transferem para técnicos incompetentes as nossas funções e chamamos a atenção para a necessidade de se proceder a uma sindicância à Direcção-Geral de Minas, em especial ao Serviço de Fomento Mineiro, se se quiser obstar à completa destruição deste Organismo de criação de riqueza, essencial ao desenvolvimento económico do País.
Defendemos a promoção do actual Serviço de Fomento Mineiro a Instituto Geológico e Mineiro, dotado de autonomia administrativa e financeira e com mais amplas atribuições, que lhe permitam entrar no campo da exploração de jazigos minerais.
Só um tal Instituto teria condições para dar adequado seguimento aos trabalhos na Região de Vila Nova de Cerveira - Caminha – Ponte de Lima, na hipótese de Union Carbide abandonar a Região.
Julgamos indispensável uma ampla colaboração com estabelecimentos de ensino superior, na formação de técnicos competentes e no seu posterior aproveitamento.
A Região de Vila Nova de Cerveira – Caminha - Ponte de Lima teria óptimas condições para facilitar a preparação desses técnicos.
Na hipótese de Union Carbide permanecer na Região e passar à fase de exploração – hipótese que nos parece a mais verosímil – concluímos que do contrato com o Estado apenas resultará, se as reservas actuais não forem acrescentadas, uma receita de 16 200 contos, em pouco mais de 13 anos, isto é, uma importância que mal cobrirá as despesas do Serviço de Fomento Mineiro, se é que as cobre.
Concluímos, também, que uma das Empresas locais, que viu as suas concessões valorizadas pelo Serviço de Fomento Mineiro, além de algumas dezenas de milhar de contos que já deve ter recebido, virá a receber ainda, mais cerca de 48 000 contos.
Vê-se, pois, quão irreflectida e irresponsavelmente foi elaborado o contrato com o Estado!
E é caso para perguntar porque sendo nós o técnico que melhor conhece a Região, não fomos chamados a colaborar na redacção do contrato.
Chama-se a atenção para as disposições legais que obrigam os concessionários a compensar o Estado das despesas feitas nas áreas das suas concessões, tidas em com conta as riquezas nelas evidenciadas, em resultado dos trabalhos do Serviço de Fomento Mineiro.”
Comuniquei ao Director do SFM que esta informação fora também enviada, para apreciação, em escalões hierárquicos mais elevados (Primeiro Ministro e Ministro da Indústria).
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