terça-feira, 16 de novembro de 2010

147 – Como Jorge Gouveia interpretava as suas funções de Director do SFM. Continuação 1

No post anterior, revelei que Gouveia decidira ignorar a existência da Secção de Caminha, cuja actividade decorria sob minha orientação, e com a minha activa participação, porque não conseguira submeter-me aos Geólogos Goinhas e Viegas, que se tinham apoderado de cargos de chefia, na onda de “assaltos” originada pela criação desses cargos no Decreto-lei n.º 544/77.

Goinhas, já designado Director do Serviço de Prospecção, e Viegas, Chefe de Divisão, nomeado Chefe do Grupo de Trabalho do Tungsténio, também se não mostraram empenhados em comigo contactar, lembrando-se da tentativa mal sucedida do Geólogo Farinha Ramos (Ver post n.º 114).
Há muito que se tinham mostrado muito mais interessados nas compensações pecuniárias do que em demonstrações de carácter ou no desempenho eficaz de funções justificativas daquelas remunerações.
É elucidativo exemplo, a traição de Goinhas a quem o orientou na sua vida profissional (ver posts n.º s 83 e 88)

Em coerência com esta cómoda atitude, de que não ousara dar-me conhecimento, antes de ter surgido problema que não conseguiria resolver sem o meu auxílio, Gouveia não se considerou obrigado a respeitar os compromissos que tinha chegado a assumir para comigo.

Foi assim que jamais me foi cedido, um dos gravímetros distribuídos à 1ª Brigada de Prospecção, apesar das repetidas afirmações de que tal cedência estaria “para breve”!

Eu tinha realçado o facto de estar piquetado um perfil de alguns quilómetros de extensão, transversalmente às formações geológicas da Região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima, e pretender, através do seu levantamento gravimétrico, definir, com precisão, a verdadeira estrutura geológica regional, tirando partido da minha grande experiência nesta técnica, adquirida nos trabalhos que dirigi, durante muitos anos, no Alentejo.

Através de outros métodos geofísicos que já tinham sido aplicados, tornara-se muito consistente a hipótese de que a formação mineralizada em volframite e scheelite, aflorante nas Minas de Fervença, Fraga, Valdarcas, Cerdeirinha e Lapa Grande, encontrar-se-ia oculta, a profundidade acessível, em zonas próximas, por acção de dobramentos, ou outros acidentes tectónicos.
Era, pois, de fundamental importância para o progresso dos estudos, na região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima, procurar, para esta hipótese, o apoio gravimétrico.
A obter-se confirmação, as reservas de minérios de tungsténio da Região seriam consideravelmente acrescidas.

Admitia que este problema estrutural teria solução, através de minuciosos estudos geológicos. Todavia, como várias vezes tenho referido, jamais foi destacado, para a Região, Geólogo com competência para dele poder ser encarregado.

A piquetagem desse perfil, em terreno acidentado e, na sua maior parte revestido de denso mato, tinha sido difícil e dispendiosa.
Gouveia que tão cuidadoso se mostrou em defender a economia do País, ao vender documentos técnicos a candidatos a volumosos investimentos, através de contratos de prospecção, em áreas cativas para o Estado, desperdiçava agora todo o esforço e dispêndio havidos na preparação do perfil longo!

Também se não impressionava com o facto de ter sido por mim introduzida no SFM, a gravimetria, após uma luta de mais de 10 anos e de ter sido por minha iniciativa que um engenheiro, contra sua vontade, foi estagiar, nessa matéria, junto de Empresa inglesa Lea Cross Geophysical Company, quando esta Empresa se encontrava a cumprir contrato com Mason and Barry, que então explorava o jazigo de pirite de S. Domingos! (A este respeito, ver post n.º 14).

Não se preocupou também com o facto de a 1ª Brigada de Prospecção andar desorientada, a “inventar trabalho”, na sua própria expressão, e a actuar sobretudo como empreiteira de Empresas privadas, que não teriam dificuldade em contratar Companhias especializadas, nos seu países de origem, sem necessidade de prejudicar a actividade própria do SFM.

Em 3 anos, não foi possível distrair, durante apenas uma semana, de trabalhos que “estavam a ser inventados” um dos dois gravímetros existentes na 1.ª Brigada de Prospecção!!!!

Ficou, assim, por investigar o possível aumento significativo das reservas de minérios de tungsténio da Região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima.

Foi, também, pelo mesmo motivo, isto é, por não considerar a Secção de Caminha pertencente ao SFM, que Gouveia permitiu ao Laboratório de S. Mamede de Infesta deixar de fazer as análises geoquímicas por mim requisitadas.
Estas amostras, cuja colheita e preparação tinham sido dispendiosas, estiveram a caminho de destruição, só tal não acontecendo, por casualmente, eu as ter encontrado e recolhido, impedindo esse destino.
Conforme já revelei, foi Cominco que as aproveitou e mandou analisar nos seus Laboratórios do Canadá, quando conseguiu contrato com o Estado para a área onde tinham sido colhidas.

Continua…

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

146 – Como Jorge Gouveia continuava a interpretar as suas funções de Director do SFM

No post n.º 140, registei declaração do novo Director-Geral, em sessão pública, prometendo colaboração com as Universidades e o facto de Jorge Gouveia, presumivelmente por esse motivo, ter desistido de me subordinar aos Geólogos Goinhas e Viegas, que tinham conseguido cargos de chefia, na vaga de “assaltos” originada pela criação desses cargos, no Decreto n.º 544/77.

Gouveia passara, praticamente, a ignorar a minha existência.

Tornou-se, assim, possível que eu desse continuidade à prospecção mineira, na Região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima e mantivesse estreita colaboração, não só com diversos estabelecimentos de ensino superior e médio, mas também com empresas que actuavam naquela Região, conforme descrevi, nos posts anteriores.

Mas, em meados de 1981, não lhe foi possível continuar a ignorar-me.
Tinha recebido ordem para apresentar a classificação de todo o pessoal do SFM e até estava nomeado “notador” dos funcionários do núcleo de Caminha.
Gouveia, que desconhecia o pessoal deste núcleo, ao qual nunca tivera a consideração de se apresentar, não teve alternativa senão convocar-me, para poder cumprir a ordem.

A este respeito, escrevi, nas páginas 3 e 4 do “Relatório da Actividade do 1.º Serviço, durante o 2.º trimestre de 1981”, que enviei a Gouveia, o que, a seguir transcrevo:

“ 3 - Afirmações do Director do Serviço de Fomento Mineiro, relativamente à situação de Caminha, no esquema orgânico da Direcção-Geral de Geologia e Minas.

Por convocação do Director do Serviço, comparecemos, em 4 de Junho, no seu gabinete, em S. Mamede de Infesta, a fim de colaborarmos na classificação dos funcionários da Secção de Caminha, conforme preceituado no Decreto Regulamentar n.º 57/80, de 10 de Outubro.
A Ordem de Serviço n.º 14/81, de 19 de Maio, emitida pelo Director-Geral, havia designado os engenheiros Jorge Gouveia (Director do S.F.M) e A. Rocha Gomes (Chefe do 1.º Serviço) como notadores, na classificação do pessoal de Caminha.
O Director do Serviço pretendia, pois, dar cumprimento a esta Ordem, embora se não considerasse habilitado a dar parecer sobre pessoal que não conhece. Confiaria nas classificações que nós atribuíssemos.
Estavam também presentes os engenheiros António Neto, Adalberto Carvalho e Arouca Teixeira, o engenheiro técnico Pereira Viana e o arquitecto Linhares de Oliveira, por motivo idêntico, pois deles dependiam diversos funcionários a classificar.
No que respeita ao caso da Secção de Caminha, o Director afirmou estar apenas cumprindo a Ordem do Director-Geral, pois tal Secção não pertence ao Serviço de Fomento Mineiro.
Interrogado por nós sobre a natureza da actividade ali decorrente, reconheceu ser de Fomento Mineiro; porém, não se enquadra no seu esquema….
Não podemos, obviamente, tomar a sério estas surpreendentes afirmações.
A Secção de Caminha pertence muito mais ao Serviço de Fomento Mineiro do que o actual Director deste Serviço.
O eng.º Jorge Gouveia, tanto quanto nos temos apercebido, tem limitado a sua acção a meros actos administrativos, subordinados a uma orientação tendenciosa do ex-Director-Geral, eng.º Soares Carneiro, portanto, quase sempre pouco felizes.
A Secção de Caminha, com todas as dificuldades que lhe são artificialmente impostas, pratica verdadeiro fomento mineiro e vai chegando a resultados, embora exigindo cada vez mais esforço e pertinácia.
Os funcionários, embora tivessem ficado profundamente magoados pelo ostracismo a que foram votados, a ponto de agora até os considerarem excluídos do Organismo que sempre dedicadamente serviram, não se deixam desmoralizar.
Têm a consciência de que o seu trabalho é útil ao País, é criteriosamente planificado, correctamente executado, tem produzido os seus frutos, bem patentes nas actividades privadas que neles se têm apoiado e, sem dúvida, continuarão a contribuir para a valorização dos recursos minerais do País.
Manterão, pois, o mesmo interesse na sua actuação, na esperança de que não venha longe o dia em que se dê a inversão da marcha retrógrada, que tem caracterizado o Serviço de Fomento Mineiro, nos últimos anos.
Se a nós já não magoaram as afirmações do Director, por serem apenas mais algumas dentre muitas outras do mesmo jaez que temos ouvido, e não apenas a ele, não podemos deixar de lhe atribuir significado.
Na realidade, elas explicam as dificuldades constantemente criadas à actividade da Secção.
O Director não tem que se preocupar com uma Secção que não pertence ao Serviço que dirige !!!!
Deste modo simplório, o Director procura eliminar problemas originados pelas promoções a dirigentes de departamentos de prospecção, de indivíduos de mau carácter e sem competência técnica, que era necessário compensar pelo apoio prestado ao eng.º Soares Carneiro, para o manter no cargo de Director-Geral, apoio que afinal se revelou insuficiente, uma vez que o eng.º Soares Carneiro acabou por ser afastado, sem que ao País fossem explicadas as razões do seu súbito e inesperado afastamento.
Aceita nos não subordinarmos a esses indivíduos e, consequentemente, exclui-nos do Serviço de Fomento Mineiro e, connosco, todo o pessoal que connosco colabora na Secção de Caminha.
Esquece-se, porem, que a obra por nós realizada no Fomento Mineiro nos dá muito mais direito de permanecer neste Serviço do que a ele próprio e aos que o estão ajudando a destruir o Organismo que nós sempre procuramos defender e valorizar.
O assunto justificaria intervenção a nível mais elevado, sobretudo no momento em que constantemente se proclama a necessidade de conseguir a maior eficiência dos Serviços Oficiais.
A experiência, porém, de diligências anteriores, inteiramente frustradas, desaconselha seguir esta via. Examinaremos, oportunamente, a questão, na tentativa de encontrar uma saída mais prática que, por agora, se não vislumbra.”

Outras afirmações foram produzidas, na mesma data, que me abstive de introduzir em relatórios, mas que registei nos relatos das reuniões de serviço, que sempre fazia, para minha defesa futura, perante o clima de hostilidade que me tinha sido criado.

A seguir, menciono algumas dessas afirmações:

1 – Perguntado sobre se pretendia acabar com os trabalhos na Região de Vila Nova de Cerveira – Caminha - Ponte de Lima, tal como já havia procedido relativamente à Faixa Metalífera da Beira Litoral, Gouveia respondeu que não sabia; isso saberia o Director-Geral !!!

2 – Gouveia gabava-se de ter vendido, a alemães, por 13 000 contos, cartas de prospecção, respeitantes à obra que eu fizera no Alentejo, da qual nem me tinha apercebido!
Era ele quem tivera a capacidade de aproveitar essa obra, em benefício do SFM, uma vez que, durante a minha chefia da 1.ª Brigada de Prospecção, tais cartas eram cedidas gratuitamente às entidades que se mostravam verdadeiramente interessadas em dar continuidade a essa obra.
Com pouco rejubilava este medíocre Director!
O objectivo da Organização, que introduzi, naquela Brigada, era muito mais ambicioso do que permitir tão insignificantes negócios!

3 - Gouveia teve o impudor de declarar que, se o núcleo de Caminha deixou de pertencer ao SFM, foi porque eu não aceitara a chefia da Prospecção; por isso, me excluíra do SFM, passando a considerar-me assessor do Director-Geral!!.
Perante tão intencional deturpação de conversa anterior, chamei-lhe a atenção para o facto de a oferta de um lugar de Director ter sido feita quando Goinhas já estava nomeado para dirigir a Prospecção Mineira. E tal oferta, fora condicionada, à minha renúncia à realização de trabalho no campo!
A minha aceitação corresponderia a ocupar, como vários outros chefes, um cargo simbólico, como se o meu objectivo no SFM visasse apenas a remuneração, não me preocupando em “ser arrumado na prateleira”, vendo afundar-se o Organismo de que fui sempre o principal dinamizador!!

4 - Após tão imprevista Introdução, Gouveia passou a enunciar as várias alíneas constantes das normas classificativas que trazia: qualidade de serviço, quantidade de trabalho, discernimento e responsabilidade, qualidades dirigentes, etc.

A minha primeira observação foi sobre a oportunidade e validade destas classificações.
Manifestei o parecer de que as classificações deveriam ter precedido as nomeações para os cargos de chefia criados pelo Decreto-lei n. 544/77, e de que as personalidades indigitadas para delas se encarregarem, deveriam ser dotadas de reconhecida idoneidade e isenção na apreciação dos currículos, o que, obviamente excluía, de imediato, todos os dirigentes da DGGM ainda em funções.

Se tivesse sido adoptado este lógico e elementar procedimento, ter-se-iam evitado os problemas que agora estavam a surgir e os que, seguramente, ainda iriam aparecer.

5 - Quanto à classificação do pessoal do núcleo de Caminha, para que tinha sido nomeado “notador”, já Gouveia havia declarado a sua incapacidade de se desempenhar da incumbência, apesar de a ter aceite.

6 -Relativamente ao pessoal da Secção de Talhadas, que deixara de me estar subordinado, após a suspensão da actividade na Faixa Metalífera da Beira Litoral, perguntei qual a competência de Goinhas e Viegas, para se desempenharem da função de “notadores”, que aceitaram, sendo certo que não possuíam preparação em técnicas geofísicas e até nem tinham tido tempo de conhecer esse pessoal.
Perguntei se seria tida em conta a deterioração de que este pessoal estava dando provas - segundo tinha chegado ao meu conhecimento - originada pela incapacidade de Viegas lhe confiar tarefas em conformidade com o nível técnico a que tinham chegado.
Salientei as dificuldades na formação disciplinada deste pessoal, ao longo de muitos anos e a facilidade com que agora estava a ser destruído.

7 - A propósito do item das qualidades dirigentes, perguntei se estas se exigiam aos dirigidos. E os dirigentes? Aproveitei, então, a oportunidade para lhe chamar a atenção para os novos chefes que nada dirigem e dos reais dirigentes que não têm essa categoria, como era o meu caso.

8 - Gouveia mostrava-se incapaz de explicar os procedimentos que estavam a ser adoptados.
Em vez disso, passou a divagar sobre o comportamento que os funcionários deveriam adoptar para com os seus chefes. Em seu entender, deveriam procurar agradar-lhes, para serem bem classificados.
Contestei, vigorosamente, este entendimento, que me fazia lembrar advertência que me fora feita, em 1963, por ter enviado ofício ao Director-Geral com o objectivo de ver corrigida Ordem do Director do SFM, que eu declarara ilegal e contrária aos interesses do SFM.
Essa advertência baseava-se no princípio de que “os Chefes têm sempre razão”. (Ver post n.º 23)
Estimular os funcionários a procurarem agradar aos Chefes, em vez de pugnarem pelo interesse do Serviço, era desenvolver as suas características negativas, e fazer, depois, promoções injustas.
Era isto, de facto, o que estava acontecendo, com os tristes resultados bem visíveis.
Chegou-se à incoerência de quase todos os funcionários serem classificados “muito bons”, num Organismo em plena decadência.
Era deste modo leviano que os actuais dirigentes escondiam a sua incapacidade de aproveitarem funcionários potencialmente muito bons, mas que não demonstravam essas qualidades, sabendo, pelo contrário, tirar partido das facilidades que a incompetência dos dirigentes lhes proporcionava.

9 - Sem que eu percebesse a intenção, Gouveia revelou a experiência que adquiriu, quando esteve no ex-Ultramar português, quanto a processos disciplinares, surpreendendo-se com o facto de na Metrópole tais processos serem pouco frequentes.
Talvez tivesse pretendido intimidar-me !!

10 - Entrando, então, na análise dos currículos do pessoal do núcleo de Caminha, que ainda me estava subordinado, comecei por salientar o elevado nível atingido pelo Senhor José Catarino, que transferi da Secção de Évora, quando ainda chefiava a 1.ª Brigada de Prospecção.
Tendo ingressado no SFM em 1957, apenas com a Instrução Primária, José Catarino foi, ao longo dos anos, adquirindo formação profissional nos variados métodos de prospecção mineira, tornando-se um dos técnicos que me ofereciam mais confiança na execução dos trabalhos de campo e em alguns trabalhos de gabinete.
Não passara da categoria de Colector, porque as disposições legais então em vigor, exigiam maior nível de escolaridade para poder ascender a categoria superior.

José Catarino já tinha ficado a chefiar, interinamente a Secção de Évora, quando o Agente Técnico de Engenharia José Gameiro se ausentara, durante dois anos, em comissão de serviço em Angola. E o seu desempenho foi muito satisfatório, só se tendo sentido a ausência de Gameiro, pelo ambiente mais calmo que passou a vigorara neste núcleo.

Com estupefacção, eu tinha tomado conhecimento, pelo Diário da República de um louvor de Gouveia a José Gameiro, realçando as suas qualidades de relacionamento humano. Não resisti a perguntar em que se baseou para tal louvor. É que Gameiro trabalhara, sob minha direcção, durante cerca de 30 anos e fora um dos técnicos que mais problemas me originaram, sobretudo pelos seus conflitos com o pessoal, chegando à agressão física.
Surpreendia-me que, o escasso tempo de contacto de Gouveia com Gameiro lhe tivesse permitido encontrar matéria para tão expressivo louvor.
Por esta amostra, poder-se-ia avaliar o mérito das suas classificações.

A minha decisão de o transferir José Catarino para Caminha foi motivada pela impossibilidade de prosseguir trabalhos nesta Região, com o rigor e a produtividade a que estava habituado, contando com a participação do pessoal técnico, que o Director destacara para a 2.ª Brigada de Prospecção.
De facto, os dois Agentes Técnicos, que tinham sido destacados para comigo colaborarem, estavam cheios de vícios (um deles, que reivindicava a chefia da Secção de Caminha, até chegou a apresentar-se embriagado ao trabalho, cometendo erros graves que Catarino tivera de corrigir). O trabalho de ambos não merecia confiança, apesar de serem considerados especialistas em topografia. Tive que os devolver ao Director de então.

Foi graças à capacidade do Senhor Catarino para interpretar as minhas instruções e as seguir rigorosamente, e ao seu fino trato, que foi possível obter os êxitos conhecidos neste núcleo de Caminha.

11 - O restante pessoal da Secção de Caminha teve as classificações de que realmente era merecedor. Eu conhecia bem todos estes funcionários, pois com eles participava na execução das tarefas que projectava, nas minhas frequentes visitas à Secção.
Com muitos deles criara até relações de amizade, tal como tinha sucedido com o pessoal da 1.ª Brigada de Prospecção, antes da traição que me fizeram, como Gouveia tivera ocasião de observar, quando viera de Moçambique aprender técnicas de prospecção mineira.
Classifiquei alguns funcionários de “muito bons”; outros, de “bons”, de harmonia com as provas que tinham dado.
Continua …

terça-feira, 2 de novembro de 2010

145 - Reunião com representante do Ministério da Reforma Administrativa

Em princípios de Fevereiro de 1982, fui convocado para participar em reunião com Dr.ª Graça Cristina, para análise de situações de injustiça, que tinham chegado ao conhecimento do Ministério da Reforma Administrativa, quanto a classificação de funcionários nas categorias correspondentes às funções que desempenhavam.

Pretendia-se introduzir as correcções que se impunham.

Tinham sido, também convocados o pessoal da Secção de Caminha, o Engenheiro Adalberto de Carvalho e os trabalhadores que deste Engenheiro dependiam.

Surpreendeu-me que a Dr. Graça tivesse, na sua agenda, apenas a análise de casos respeitantes a pessoal que, pela sua posição na hierarquia dos Serviços, pouca influência poderia ter na sua produtividade.

Mas era uma realidade que, se tinha havido flagrantes injustiças, durante a vigência do regime político de Salazar – Caetano, as soluções adoptadas, após a Revolução de 25 de Abril de 1974 vieram agravar a situação.
Antes, o pessoal auxiliar era, na sua maior parte, assalariado e era recrutado localmente, sendo dispensado quando deixava de ser necessário.
Algum deste pessoal, apesar das suas poucas habilitações escolares, demonstrava capacidades para desempenhar tarefas que, normalmente, eram confiadas a técnicos com cursos médios e até superiores.
Acontecia que, em numerosos casos, os estudos se prolongavam por anos e este pessoal permanecia na situação legal, com que tinha ingressado, isto é, praticamente sem direitos.
A agravar a situação, havia uma tabela de salários, imposta pelos Serviços de Contabilidade, que dificultava justa remuneração a esses trabalhadores, que iam progredindo na sua formação profissional.
O problema já não era só do trabalhador, que mercê da formação adquirida, não tinha dificuldade em encontrar trabalho fora da instituição que lhe dera essa formação.
O problema era do próprio Serviço, que, frequentemente se via desfalcado dos seus melhores elementos, com prejuízo da eficácia das suas investigações.
Insistentemente, abordei este tema, quer em documentos, quer em exposições orais, em reuniões da Comissão de Fomento, sem que lhe fosse dada solução.
Até para serem autorizados insignificantes aumentos salariais, dentro da tabela em vigor, surgiam dificuldades internas!

Após a Revolução, os dirigentes que se mostravam tão severos na justa retribuição do trabalho dos assalariados, tornaram-se magnânimos.
Desconhecendo as realidades no terreno, onde não eram vistos, cederam às reivindicações das Comissões instituídas com base nas liberdades trazidas pela Revolução e, promoveram todos os assalariados à situação de contratados, atribuindo-lhes categorias, sem directa relação com o trabalho que executavam.
Muitos dos assalariados tinham currículo justificativo de promoção.
Mas a generalização demonstrou grande imprudência. Nem todos reuniam, as condições mínimas para que tal se justificasse.
Isto veio originar considerável aumento de despesa e, contrariamente ao que seria de esperar, resultou em significativa quebra de produtividade.
Perante esta nova situação, cheguei a ser incriminado por ter admitido demasiados assalariados sobretudo para a 1ª Brigada de Prospecção!
Só faltou atribuírem-me culpas por ter instruído este pessoal nos métodos de prospecção que permitiram a sua decisiva contribuição para os maiores êxitos do SFM, em toda a sua existência.

Isto que descrevi, era a consequência lógica da indisciplina que passara a reinar no SFM.
Os dirigentes, para não perderem os cargos que iam conseguindo manter, apesar da Revolução, iam fazendo cedências, sem reflectirem nas suas consequências.

Nas minhas diversas intervenções, manifestei o receio de que, com a Agenda que trazia Dr. Cristina, não viesse a conseguir-se qualquer progresso, na eficácia do SFM.

Era bem conhecido o mau funcionamento dos serviços públicos, em geral. Disso se faziam eco, os jornais.

Se o Ministério da Reforma Administrativa pretendia, de facto, reformar, deveria, em minha opinião, começar muito por cima. Doutro modo, corria-se o risco de esta reunião ser inútil.

Eu já tinha escrito, em relatórios, que “O fraco dirigente tornará fraca a forte gene”, parafraseando Camões, nos Lusíadas.

Dirigentes competentes saberiam classificar devidamente os seus funcionários.

Lembrei proposta antiga que fizera, no sentido de atribuir aos funcionários as categorias correspondentes às funções que eles realmente desempenham, sem as fazer depender das habilitações escolares com que tinham ingressado no SFM, como vinha acontecendo.

Esta proposta, na sua essência, assemelhava-se ao programa “Novas oportunidades” que o Governo recentemente aprovou.

Passei, depois a fazer a história do Fomento Mineiro, acentuando que sempre exerci funções de chefia, nunca tendo recebido a remuneração correspondente a tais funções.
Isso não me impediu de trabalhar com dedicação e obter assinaláveis êxitos.
Estes êxitos eram apresentados ao Governo como justificativos da existência do SFM, precisamente por aqueles que, ocupando cargos directivos apropriadamente remunerados, só dificultavam a minha actividade.

Nesses recuados tempos ainda foi possível realizar importantes trabalhos, em todas as fases da indústria mineira. A título de exemplo, citei os trabalhos mineiros da Mina da Aparis, onde se abriram quilómetros de galerias, em diversos pisos, até uma profundidade de 150 metros. Tudo isso acabou!

Referi as várias Resoluções de Conselhos de Ministros, chamando a atenção para a imperiosa necessidade de fazer o provimento dos cargos directivos por técnicos de competência comprovada e para o total desrespeito que se verificou no preenchimento dos lugares de chefia, quando estes foram criados pelo Decreto-lei n.º 548/77.

Para preenchimento destes cargos, verificou-se um verdadeiro assalto, sem preocupação em analisar os currículos dos seus candidatos.
A grande maioria dos novos chefes não tinha funções definidas, nem pessoal para chefiar, mas tinha a remuneração que pretendia!
Estamos hoje a sentir as nefastas consequências destes assaltos.

A actividade do SFM decresceu acentuadamente, restando, no terreno, pouco mais do que os trabalhos da 1.ª Brigada de Prospecção por mim criada no Alentejo mas retirada da minha real chefia, através de criminoso processo e os trabalhos que, com grande dificuldade, eu continuava a dirigir, na Região de Vila Nova de Cerveira – Caminha - Ponte de Lima.

Informei que o actual Director do SFM, na sua ânsia destrutiva, chegou a oferecer-me cargo de Director de Serviço, porém com a condição de não realizar trabalho de campo!
Rejeitei, obviamente esta proposta, pois me recusava a aumentar o número de engenheiros de papel selado.

Referi, a este propósito a anedota que consta de Plano de Trabalhos, da autoria do actual Director do SFM, enviado ao Governo, sem que tivesse originado a sua imediata demissão.

Diz-se, nesse documento, que eu poderia exibir, que a promoção de determinados funcionários a cargos de chefia fez diminuir o número de unidades de trabalho, pelo que se tornava necessária a admissão de mais pessoal.
No seu conceito, quem é chefe manda, não trabalha!

Prestei informação sobre as minhas numerosas exposições a membros do Governo, acerca da necessidade urgente de sindicância à DGMSG, com especial incidência no SFM, lamentando que delas não tivesse resultado qualquer acção correctiva.
Os dirigentes persistiam, em total impunidade, a fazer obstrução a quem desejava realizar trabalho útil.

“Será que desta reunião vai resultar alguma acção mais eficaz?”, perguntei eu.

Já no final da reunião, em reforço das minhas afirmações anteriores, um elemento da Secção de Caminha, que se sentia lesado por não lhe ter sido atribuída a categoria de prospector, sendo certo que prospecção, nos seus variados métodos, era o que efectivamente fazia, há mais de uma dezena de anos, chamou vigorosamente, a atenção de Dr.ª Graça, para o facto de ajudantes do Engenheiro Adalberto de Carvalho, que andam, no campo, simulando pesquisar ouro, não fazendo, de facto, verdadeira prospecção, terem essa categoria, pela qual auferem melhor remuneração.

Não chegou ao meu conhecimento Acta que tenha sido feita desta reunião. Também não me apercebi de qualquer aperfeiçoamento no SFM, dela resultante.
Mais uma decepção, a juntar a muitas outras, que, todavia, não iria fazer-me desistir de lutar pela revitalização do SFM, transformando-o num Instituto de Investigação dos Recursos Minerais do País, com independência da DGGM.

domingo, 31 de outubro de 2010

144 – Colaboração com Empresas, na Região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima

A todas as Empresas, que exerciam actividade na Região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima, ou nela pretendiam instalar-se, com vista à exploração de jazigos de tungsténio, prestei colaboração, a partir do ano de 1968.

Muitas foram as referências que fiz, em posts anteriores, a este respeito.

Agora, pretendo revelar alguns factos demonstrativos do meu empenhamento para o êxito de iniciativas que visassem o racional aproveitamento do património mineiro nacional.

1 – Colaboração a Geomina

Geomina, apesar de ter como Director Técnico o Professor Catedrático da Faculdade de Engenharia, Alberto Morais Cerveira, explorava os minérios existentes nas áreas das suas concessões, com insuficiente apoio geológico.

Não tinha havido a preocupação de definir o enquadramento das ocorrências de minerais úteis, através de estudos geológicos consistentes.
Esta era, aliás, a regra, na generalidade das minas portuguesas.
A este respeito, ocorre-me revelar que, numa reunião com o Director-Geral Soares Carneiro e o chamado Gabinete de Estudos, sugeri a obrigatoriedade de, pelo menos, as Minas de maior dimensão serem obrigadas a incluir no seu Quadro Técnico, um ou mais Geólogos, de modo a terem constantemente actualizado o levantamento geológico dos trabalhos interiores. A minha sugestão não foi aceite e ainda fui alvo fui alvo de chacota.
Não havia, então, a tradição de os Geólogos penetrarem no ambiente dos trabalhos subterrâneos das Minas, isto é, onde poderiam observar as formações inalteradas.
Impunha-se que esta tradição terminasse, para que pudessem fazer-se investigações de melhor qualidade.

A falta de estudos geológicos prévios, nas concessões de Geomina, originou que se tivessem classificado, como filões, jazidas interestratificadas, daí resultando erros, que poderiam ter sido evitados.
Por exemplo, tomei conhecimento, em conversa com o Senhor João, capataz de Valdarcas, que lhe havia causado grande perplexidade que uma galeria aberta, nesta Mina, sob possante afloramento mineralizado, apenas tivesse atravessado formações estéreis, não obstante a sua pequena distância desse afloramento.
Não houvera a percepção de que se estava perante uma dobra secundária da formação mineralizada e que a galeria passara sob a charneira dessa dobra, que era responsável pelo espessamento observado no afloramento.

Toda a exploração que Geomina efectuou nas Minas de Fervença e também na Cerdeirinha (após ter contratado com “Gaudêncio, Valente e Faria”, a transmissão da respectiva concessão), se baseou exclusivamente nos resultados de campanhas de prospecção magnética empreendidas sob minha direcção. Lamentável foi observar que se praticava “lavra ambiciosa”, com desrespeito por regras fundamentais da “arte de minas”, que os Serviços de fiscalização da DGMSG não deveriam ter consentido.

Na Mina de Valdarcas, a única em exploração, quando foi criada a Secção de Caminha, igualmente Morais Cerveira, recorreu ao meu auxílio quando perdera o contacto com o jazigo, no 4.º piso, que começara a instituir, através de poço inclinado interior, com origem em galeria do 3.º piso.

Usando um magnetómetro de compensação da ABEM, procedi a observações da variação da componente vertical do campo magnético terrestre, ao longo de uma galeria - travessa, conseguindo facilmente localizar a perdida formação mineralizada.
Os trabalhos de exploração puderam, então, prosseguir.
A título de curiosidade, revelo que me auxiliava, nas observações, uma filha minha estudante de Medicina, que eu convidara a acompanhar-me.
Era ela que me iluminava, com luz de gasómetro, a janela do magnetómetro, a fim de poder fazer as leituras.
Enquanto isto acontecia, o Geólogo Vítor Manuel Correia Pereira, ao qual fiz referência, no post anterior, conversava, animadamente, com Morais Cerveira.
A este Geólogo do SFM, que então prestava colaboração remunerada, a Geomina nem sequer passou pela cabeça que o problema teria fácil solução, através de levantamento geológico, no interior da mina.
Duvido, porém, que ele soubesse desempenhar-se de tal tarefa.

Geomina, que produzia concentrados de volframite, ferberite e scheelite, não usava a fluorescência da scheelite sob a acção de raios ultra-violetas de adequado comprimento de onda, para detectar a presença deste mineral.
Foi por meu intermédio que foi introduzido, na Empresa, o primeiro aparelho portátil de produção desses raios, satisfazendo pedido de Morais Cerveira, conhecedor das minhas boas relações com Geólogo argelino que trabalhava para o BRGM e se deslocava frequentemente a França, onde o poderia adquirir.

2 - Colaboração com “Gaudêncio, Valente e Faria”

”Gaudêncio, Valente e Faria” era uma Empresa que detinha, entre outras, as concessões mineiras de Lapa Grande e Cerdeirinha, quando, em 1968, iniciei as investigações na Região Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima, com vista a localizar concentrações de minérios de tungsténio.
Tinha, então, todas as suas concessões, na situação de lavra suspensa, ao abrigo de disposições legais que invocou e tinham merecido deferimento.
Os levantamentos magnéticos que, sob minha direcção, foram efectuados, revelaram anomalias suficientemente pronunciadas para justificarem a imediata execução de sondagens.
As duas primeiras que projectei revelaram concentrações de volframite e scheelite, próximas da superfície, com teores elevados, acima do mínimo para que a sua exploração fosse considerada lucrativa.
A sondagem n.º 2 ainda se encontrava em execução, quando, no exercício das minhas funções de Chefe do Serviço de Prospecção do SFM, fui realizar uma semana de trabalho no Alentejo.
Nessa época, o Geólogo que tinha sido indigitado para proceder aos estudos essenciais ao desenvolvimento do programa de prospecção, ao qual me referi no post n.º 143, a propósito da impreparação que demonstrou para as tarefas que dele eu esperava, estava encarregado da classificação dos testemunhos das sondagens em curso.
Quando regressei do Alentejo, foi grande a minha estupefacção, ao verificar que já estava em curso a sondagem n.º 3, implantada em local indicado pelo Agente Técnico de Engenharia, que era Director Técnico da Mina.
Procurei, junto do Director do SFM, encontrar explicação para tão insólito facto, e a resposta que obtive foi que aquele técnico conhecia bem o jazigo e, portanto, era-lhe concedido o direito de participar activamente nos trabalhos!!
Aconteceu, porém, o que era de esperar. O furo n.º 3, sem apoio magnético, revelou-se totalmente estéril.
Quando, casualmente, encontrei na Mina esse Director Técnico, procurei indagar em que se baseara para a marcação daquele furo.
A resposta que me deu ainda me deixou mais estupefacto. O furo tinha sido marcado, em dia de nevoeiro e por isso, saiu deslocado do local que ele pretendia!!
Passei a denominar, em documentos oficiais, este furo por ”sondagem do nevoeiro”,.

Como descrevi também no post n.º 143, este concessionário conseguiu trazer a Portugal dois categorizados Geólogos checos, que realizaram bom trabalho na região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima.
Com eles estabeleci boa colaboração, da qual muito beneficiou o concessionário.
Tirando partido da valorização conseguida na Mina da Cerdeirinha, através dos estudos do SFM e dos Geólogos checos, negociou com Geomina a transmissão desta Mina, em condições que considerou vantajosas.
Todavia, da intervenção checa não resultou que “Gaudêncio. Valente e Faria” passasse a exercer lavra activa, em qualquer das concessões que detinha.

Anos mais tarde, apresentou requerimento a solicitar que o SFM realizasse ensaios de beneficiação do minério que havia sido evidenciado em sondagens realizadas, na concessão da Lapa Grande.
Este concessionário manifestava, então, o propósito de “reiniciar os trabalhos mineiros, tão rápido quanto possível, com instalações completamente novas e, sob o ponto de vista técnico, mais aconselháveis.”

Sobre este requerimento incidiram vários despachos do Director-Geral de Minas e do Director do SFM, o último dos quais determinando que eu informasse da “viabilidade de localização dos testemunhos e sua utilização”!!!

Estes despachos, demonstrativos da ignorância das leis vigentes, por quem tinha a obrigação de as fazer cumprir, mereceu, da minha parte, uma informação de 8 páginas dactilografadas, nas quais registei o abandono a que tinham sido votados cerca de 20 000 metros de testemunhos das sondagens que a Union Carbide entregou, por minha exclusiva iniciativa, e apesar dos minhas constantes denúncias deste verdadeiro crime.
Oportunamente, voltarei a este tema.

3 – Colaboração com BRGM

O BRGM (Bureau de Recherches Géologiques et Minières) era o equivalente francês do SFM (Serviço de Fomento Mineiro).
BRGM já se havia apercebido de potencialidades de Portugal em recursos minerais, que não estavam sendo devidamente reconhecidas pelos Organismos oficiais.
Já tinha conseguido, para a Faixa Piritosa Alentejana, associar-se a Empresa Portuguesa, passando a dar continuidade aos estudos que eu ali dirigia, há mais de 20 anos, com vários importantes sucessos, os quais acabaram por conduzir à descoberta do famoso jazigo de Neves-Corvo.
Também no Norte do País, BRGM pretendeu instalar-se, para investigar existências de minérios de tungsténio.
O seu emissário, para os primeiros contactos, foi o Geólogo de origem argelina Jean Paul Bonnici.
Várias foram as visitas que proporcionei a este Geólogo para conhecer, na região de Vila Nova de Cerveira – Caminha - Ponte de Lima, as condições de ocorrência dos minérios que procurava.
Daí não resultou, porém, contrato do BRGM, quer com o Estado, quer com concessionários locais, mas a troca de conhecimentos foi de interesse mútuo.
Foi através de Jean Paul Bonnici, que consegui o “mineralight” para Geomina, ao qual acima aludi.

4 – Colaboração com Union Carbide Exporation Corporation

A Companhia americana Union Carbide surgiu, em Portugal, no ano de 1974, interessada em fazer investimentos em exploração mineira, a fim de garantir o abastecimento em minerais de tungsténio, de que necessitava para as suas indústrias químicas.

Contactou, então, diversos concessionários de minas de tungsténio e as instituições oficiais que regulavam a indústria mineira nacional.

Foi, naturalmente, encaminhada para me contactar, já que eu estava, há alguns anos, a orientar estudos no mesmo sentido dos que pretendia executar Union Carbide.

Nessa data, já eu tinha apresentado uma Comunicação ao CHILAGE (Congresso Hispano-Luso-Americano de Geologia Económica), que se realizou, em Portugal e Espanha, em Setembro – Outubro de 1970, expondo, com detalhe, o estado avançado em que se encontravam as investigações, na Região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima.
Na Comunicação, inseri, como peça desenhada fundamental, uma planta com as curvas de nível da formação mineralizada, indicando as zonas onde era possível a ocorrência dos minerais de tungstènio e onde, consequentemente, deveriam ser implantadas novas sondagens.

Union Carbide, perante a qualidade dos dados que lhe apresentei, em contraste com o estado menos evoluído, que notara nos estudos de outras áreas, que lhe foram apresentados, apenas se interessou em firmar contratos com concessionários instalados na Região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima e, mais tarde, com o próprio Estado, para áreas da mesma Região, também com potencialidade para jazigos tungstíferos, mas que não tinham sido objecto de concessões.

Sobre o clausulado do contrato com o Estado, já referi a incapacidade e impunidade de dirigentes que não souberam acautelar os interesses do Estado. Pelo contrário, os concessionários locais foram capazes de firmar vantajosos contratos, à custa dos êxitos do SFM, nas áreas das suas concessões.

Além de ter a sua actividade facilitada, pelo que já se continha na minha Comunicação ao CHILAGE e na vasta documentação que lhe forneci, Union Carbide teve a minha constante colaboração.

Union Carbide propunha-se definir reservas da ordem de 1 milhão de toneladas com um teor médio aproximado de 0,8% de WO3.
Para tal, concentrou a sua atenção essencialmente, na pormenorização dos levantamentos geológicos e na realização de sondagens.

Nas minhas frequentes passagens pelas suas instalações, na freguesia de Covas, tive profícuos diálogos com mais de uma dezena de Geólogos, que por lá foram passando.
Era normal a presença de, pelo menos, 5 Geólogos.
Lembro-me dos seguintes: Carlos Aguirre, Holingsworth, Mathias, Cahoon, Bronkhorst, David Graber, Gouin, Durão, João Farinha, Acúrcio Parra.

É digno de registo o contraste com a actividade da reduzida equipa de trabalhadores que eu dirigia, na sua maior parte localmente recrutados e por mim instruídos.
Dela, não constava Geólogo algum, sendo eu o único técnico com curso superior!!
Era eu, que não sou Geólogo, quem procedia aos estudos geológicos fundamentais para apoio das outras técnicas de prospecção que usava.
Não desdenhava, porém, o concurso de técnicos competentes, que na Região surgissem, como tinha sido o caso dos Geólogos checos, a que me referi no post n.º 143.
Também quis aproveitar a experiência que os Geólogos de Union Carbide vinham adquirindo e, nesse sentido, sugeri-lhes, no final do ano de 1977, que estudassem os testemunhos das sondagens realizadas pelo SFM, para os comparar com os constantes dos logs por mim elaborados.
Surpreendente foi a censura que recebi de uma Comissão ilegalmente constituída, com inacreditável suporte superior, a qual assumia, nessa época, funções dirigentes.
Em vez de me apoiar nas minhas diligências para aperfeiçoar os estudos, ameaçou-me com procedimento disciplinar, por ter autorizado Union Carbide a realizar novo exame dos testemunhos.
O procedimento disciplinar só não se concretizou, porque entidade jurídica consultada sobre o assunto, não encontrou justificação!

Com carácter episódico, Union Carbide procedia, também, a levantamentos pelo método magnético. Não dispondo, porém, de pessoal especializado nesta técnica, era frequente recorrer ao meu auxílio, não só para as piquetagens preparatórias e para outros trabalhos de topografia, mas também para a correcta execução das observações magnéticas e subsequentes correcções.
Acontecia, ainda que recorria à minha experiência para resolução de pequenas avarias que ocorriam no magnetómetro de precessão nuclear, que usava.

Reconhecendo a importância do meu auxílio, Union Carbide requereu, em 3-9-75, ao Director-Geral de Minas, a minha nomeação como representante do Estado junto da Empresa, a exemplo do que tinha acontecido com contratos firmados para a Faixa Piritosa.

Todavia, a este requerimento, jamais foi dada resposta, prejudicando-se, intencionalmente a acção que eu estava efectivamente desempenhando.

Tendo solicitado o meu auxílio para a execução de trabalhos mineiros, para os quais não dispunham de pessoal especializado, não pude aplicar a experiência que tinha adquirido, neste âmbito, durante os 15 anos, em que dirigi a Brigada do Sul.
De facto, foi nesta Brigada que se realizaram os mais importantes trabalhos desta natureza, em toda a vida do SFM (Ver, por exemplo post n.º 21, sobre o estudo do jazigo de cobre de Aparis).

Indiquei o Engenheiro Mourão recentemente licenciado pela Faculdade de Engenharia do Porto e que eu sabia ter dirigido trabalhos de exploração, na Mina da Fonte Santa, perto da Barca d’Alva.

A colaboração, que se estabeleceu com Union Carbide, não foi unilateral. Esta Empresa também prestou valioso auxílio aos trabalhos que decorriam sob minha direcção.

Mais de uma vez, nos emprestou o seu magnetómetro.
Em casos de anomalias de pequena amplitude, provavelmente originadas por massas mineralizadas profundas, em que a correcção da variação diurna deveria ser efectuada com mais rigor, tornava-se útil recorrer a leituras do campo magnético sempre no mesmo local a intervalos de tempo curtos usando um segundo aparelho.

Prestou, também como referi no post n.º 140, valiosa colaboração em programa de Reunião de Geólogos do Oeste Peninsular.

Chegou até a ceder-nos, por um período dilatado, um dos seus jipões, quando a Secção esteve privada de meio de transporte próprio, sem que o Director do SFM tomasse providências para resolver o problema.
Eu pude, então, observar pessoal do 2.º Serviço, deslocando-se em jeeps, na área onde eu actuava, a realizar trabalhos,simbólicos em Minas abandonadas, para investigar a existência de ouro, mas cujo real objectivo era justificar a atribuição de ajudas de custo e de subsídios de marcha a determinados funcionários.

Além disto, Union Carbide ainda proporcionou proveitosos estágios a dois dos meus ex-alunos.

Tendo iniciado a sua actividade em 1974, quando requerera, em meados de 1979, a prorrogação do seu contrato com o Estado, já tinha efectuado mais de 17 000 metros de sondagens a acrescentar aos 7 000 perfurados pelas sondas do SFM.

Tinha-se aproximado do objectivo que se tinha proposto alcançar, estimando as reservas indicadas e inferidas em cerca de 1 milhão de toneladas.
Não obstante, classificava o projecto, ainda com carácter marginal.
Tinham procedido a ensaios de beneficiação do minério, em Laboratório dos Estados Unidos, utilizando testemunhos de sondagens propositadamente efectuadas para esse efeito e tinham recebido resultados algo decepcionantes. As recuperações conseguidas foram inferiores às que Geomina obtinha na sua lavaria de Valdarcas.

Os denominados “Scheeliteiros” ainda pretenderam interessar Union Carbide numa área de Cravezes (Mogadouro), onde afirmavam ter descoberto jazigo tungstífero.
Cahoon, que então dirigia o departamento de Covas, aceitou o convite para uma visita a essa área. Confidenciou-me, depois, que o estéril da lavaria de Valdarcas tinha um teor de WO3 superior ao do minério bruto de Cravezes
Cravezes não poderia, pois, contribuir para o acréscimo de reservas, de modo a estimular a permanência de Union Carbide no País.

Apesar do moderado optimismo de Union Carbide, considerando a hipótese de a Empresa vir a abandonar a Região, procurei que todos os elementos dos seus estudos, incluindo os testemunhos das numerosas sondagens, fossem entregues ao SFM.
Se a área não tivesse interesse para uma grande multinacional, poderia ser atractiva para uma Empresa menos ambiciosa.

Contra todas as expectativas, Union Carbide tomou, em fins de Novembro de 1979, a decisão de rescindir os contratos que tinha firmado, quer com concessionários radicados na Região, quer com o Estado Português.

A razão principal para tão súbita decisão foi a oferta que passou a verificar-se, nos mercados internacionais, de produtos oriundos da China, a preços com os quais as minas europeias tinham dificuldade em competir. Até a excepcionalmente rica mina da Panasqueira atravessou períodos de grande dificuldade.

No post n.º 146, referirei atitudes surpreendentes do Director do SFM, no que respeita ao aproveitamento da documentação que Union Carbide entregou, por minha exclusiva iniciativa.

5 – Colaboração com COMINCO

Cominco era uma Companhia canadiana, já minha conhecida desde meados da década de 60 do século passado. Nessa época, havia-se associado à Union Corporation sul-africana e a um grande capitalista americano de nome Taylor, para formar a Companhia Mining Explorations (International), que se dedicava a prospecção mineira, em vários países, com realce para Portugal e Espanha.
Mining Explorations (International firmou vários contratos para áreas do Sul de Portugal, sendo os mais importantes os que estabeleceu com o Estado para a Faixa Piritosa Alentejana.
Com esta Companhia estabeleci franca colaboração, no cumprimento de uma cláusula que me conferia representação do Estado, para acompanhar e auxiliar a sua actividade.
Quando se realizou, em Portugal e Espanha, a reunião de Geólogos do Oeste Peninsular a que me referi no post n.º 140, o experiente Geólogo da Cominco, Dr. João Rafael Serpa Magalhães, bem impressionado com o que observou, durante a exposição que fiz sobre a actividade que eu dirigia, em prospecção na área do Serro (Argela) da Região de Vila Nova de Cerveira – Caminha - Ponte de Lima, sugeriu à Cominco que procurasse firmar contrato com o Estado para dar continuidade aos estudos nessa área, tendo em vista a futura exploração dos jazigos de tungsténio, que viessem a ser detectados.
A sugestão foi aceite e, em 1982, Cominco firmou contrato com o Estado e, logo deu início a estudos geológicos preparatórios, por intermédio dos Geólogos John Lowery e Gustavo Zazo, que fez deslocar para a Região.
Com ambos estabeleci boa colaboração, tendo observado, com satisfação, a sua total concordância com a interpretação da estrutura geológica que eu lhes tinha apresentado.
A sua actividade centrou-se, sobretudo na geoquímica, tendo começado por fazer analisar, nos seus Laboratórios do Canadá, alguns milhares de amostras que tinham sido colhidas pela equipa da Secção de Caminha e que o Laboratório de S. Mamede de Infesta decidira não analisar e até já tinha encaminhado para destruição!
As análises revelaram significativas anomalias, reforçando resultados de outras técnicas que o SFM tinha aplicado.
Infelizmente, a actividade da Cominco não teve a continuidade que se esperava.
Segundo me informou Serpa Magalhães, tinha havido grande reestruturação da Empresa, que a levara a dar preferência a outros ramos da sua diversificada actividade. Isso conduziu-a a suspender vários dos seus projectos mineiros.

O Director do SFM. Jorge Gouveia, mantinha-se completamente indiferente a mais estes meus esforços de valorização dos recursos minerais da Região de Vila Nova de Cerveira - Caminha – Ponte de Lima.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

143 – As minhas diligências para neutralizar a nefasta influência de alguns inexperientes Geólogos

No post n.º 116, registei a situação crítica a que o SFM chegara, no início da década de 80, para dar cabal cumprimento ao seu programa de inventariação dos recursos minerais do País.

A maior parte dos Engenheiros de Minas tinha-se refugiado no conforto dos gabinetes, ocupando-se em tarefas burocráticas, ou em actividades de rotina, sendo rara a sua presença no campo.
Confiavam excessivamente na capacidade de Agentes Técnicos de Engenharia e de trabalhadores com poucas habilitações escolares, que haviam sido instruídos na execução de levantamentos topográficos, piquetagens e observações por diversas técnicas geofísicas e geoquímicas.

Não se verificava o ingresso de novos Engenheiros de Minas, que viessem ajudar-me a revitalizar o Organismo criador de riqueza, que deveria ser o SFM.

O mesmo não acontecia, porém, com Geólogos.
Estes foram progressivamente entrando no SFM, tornando-se a classe dominante.

Mas se os Engenheiros vinham mal preparados das Universidades, os Geólogos formados antes da introdução da Prospecção Mineira no elenco de cadeiras do Curso, vinham, em geral, em situação ainda pior.

Tirando partido da anarquia que passou a vigorar, após a Revolução de Abril de 1974, arrogavam-se competências que estavam longe de possuir.
Alguns deles mostraram, além de grande incompetência, carácter muito duvidoso.

Cito alguns exemplos

Os cognominados “Scheeliteiros”, cuja ridícula actuação descrevi em vários posts, sendo de salientar os n.ºs 94 e 114, são bem representativos da ignorância arvorada em capacidade empreendedora.

Um Geólogo que tinha sido destacado para prestar apoio aos trabalhos de prospecção que decorriam na Secção de Caminha, apresentou relatório, sem o mínimo interesse.
Tinha-lhe sido pedido que implantasse, em mapas à escala de 1:5000, as formações ocorrentes na área do jazigo mineral que estava em investigação.
Apresentou mapa à escala 1:25000, apenas acrescentando ao mapa dos Serviços Geológicos de que já dispúnhamos, algumas falhas de muito duvidosa existência.
Argumentava que a topografia dos mapas à escala 1:5000 estava incorrecta, por ter sido obtida por ampliação de mapas à escala 1:25000 dos Serviços Cartográficos do Exército.

Aconteceu, porém, que o concessionário das Minas Cerdeirinha e Lapa Grande conseguira entrar em contacto com instituição da República checa, para possível associação, com vista a aperfeiçoar a exploração que se encontrava em curso, em ambas aquelas Minas.
Essa instituição fez deslocar a Portugal os Geólogos Yanecka e Strnad.
Quando com eles estabeleci contacto, apercebi-me da sua grande competência profissional e, por isso, logo procurei entrar em franca colaboração.
Dei-lhes informação dos estudos que tínhamos em curso e entreguei-lhes cópias dos mapas topográficos à escala de 1:5000, que usávamos para implantação dos resultados das técnicas que estávamos a aplicar.
Ficaram muito agradecidos por poderem dispor destes mapas, que logo passaram a usar, assim poupando o trabalho de planimetria, com bússola e fita métrica, que estavam a fazer.

Mas não ficou por aqui a colaboração com os Geólogos checos.
Ao Dr. António Ribeiro que, naquela época, se destacava dos seus colegas por uma real competência, sobretudo no âmbito da geologia estrutural, sugeri que me acompanhasse até ao Director e lhe fizesse ver a conveniência de aproveitar a presença dos geólogos checos para fazer estagiar, junto deles, um dos Geólogos recentemente admitidos no SFM.
Com o parecer concordante de António Ribeiro, consegui que fosse destacado para estagiar junto dos checos o Geólogo Vítor Manuel Correia Pereira.
Infelizmente, Vítor Pereira não soube aproveitar a oportunidade que lhe foi proporcionada. Pouco aprendeu, mas passou a apresentar-se, perante mim, com arrogância, pretendendo assumir a orientação dos estudos na região e recusando-se a conciliar o que teria aprendido, com os resultados das técnicas que eu estava a utilizar.
Como não havia Ordem superior que o colocasse no Serviço de Prospecção, nada se aproveitou da sua presença na zona.
Notei que a Empresa Geominas, que também actuava na região, tentou a sua colaboração, mas não detectei que dela tivesse resultado qualquer efeito prático.

Entretanto, prosseguia a colaboração que se tinha estabelecido entre mim e os geólogos checos.

Quando estes deram por terminado os estudos de que tinham sido encarregados, ofereceram-me uma cópia do seu relatório, na língua checa, portanto, para mim, indecifrável.
Esse relatório vinha, porém, acompanhado de mapas à escala de 1:5000, com implantação das formações geológicas ocorrentes na região.
Isto representava um considerável progresso, que Geólogos portugueses não tinham conseguido.

Vítor Manuel Correia Pereira, sabendo da existência deste relatório, esqueceu o seu insolente comportamento anterior para comigo e veio pedir-me cópia dos mapas geológicos elaborados pelos checos.
Inseriu-os, como seu autor (!), no Livro-Guia de excursão que iria realizar-se no âmbito do Congresso CHILAGE.

Mais tarde, viria mesmo a fazer figurar no seu currículo publicado em Diário da República a autoria deste levantamento geológico!!!

Como prémio destas vergonhosas atitudes, após um período em que esteve afastado do SFM, viria a ser promovido a categoria que lhe permitiria ter papel activo em procedimento disciplinar em que acabei por me ver envolvido, conforme oportunamente descreverei.

Quando o Engenheiro Pedroso de Lima foi contratado e entrou em contacto comigo (Ver novamente post n.º 116), apesar de não ter Ordem de Serviço que o colocasse no departamento de Prospecção que eu, com imensa dificuldade ainda conseguia manter, alimentei a esperança de que o pudesse vir a orientar no sentido de se tornar um elemento vitalizador do moribundo SFM.
Tais esperanças cedo se desvaneceram, porque Pedroso de Lima compreendeu ter entrado num Organismo com escassa perspectivas de futuro.

Acontecia, porém, que o funcionário do SFM, Laurentino Rodrigues, que tinha entrado como Ajudante do Laboratório de Química, estava matriculado no Instituto Superior de Engenharia e tinha a intenção de se licenciar em Engenharia de Minas.

Laurentino tomou a iniciativa de se me dirigir a manifestar o desejo de assistir aos trabalhos de prospecção que eu dirigia nas Secções de Caminha e de Talhadas.

Foi com todo o gosto que comecei por lhe proporcionar, em 21-9-77, visita aos trabalhos em curso na Faixa Metalífera da Beira Litoral.

Laurentino ficou impressionado com o que observou e solicitou-me, que autorizasse visita aos trabalhos da Secção de Caminha, não apenas a ele, mas também a 6 ou 7 dos seus colegas.

A visita efectuou-se em 8-6-78 e todos puderam observar a aplicação dos métodos eléctricos de polarização espontânea e de resistividade eléctrica (modalidades Sclumberger e Wenner) com a aparelhagem Terrameter, que obsequiosamente me tinha sido cedida pela Faculdade de Engenharia do Porto.

Na sequência desta visita, o Engenheiro Lisoarte, professor do Instituto Superior de Engenharia, manifestou interesse em que eu desse aulas de Prospecção Mineira, neste Instituto.
Não parecia fácil satisfazer a sua pretensão, pois eu não estava autorizado a acumular mais docências, mas dispunha-me a estudar maneira de prestar auxílio na matéria.

Ainda cheguei a enviar o meu currículo para análise pelo corpo docente do Instituto, mas o interesse inicial não teve sequência, perante os impedimentos legais e eu passei a concentrar-me na preparação do então ainda seu aluno, Laurentino Rodrigues, prevendo que ele pudesse vir a ser o continuador da minha obra, quando chegasse a hora de me aposentar.

Eu tinha, no meu programa, a realização de ensaios de orientação, numa área do concelho de Esposende onde ocorre mineralização tungstífera e onde as condições geológicas se me afiguravam semelhantes às da Região Mineira de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima.

Aproveitei o interesse que Laurentino Rodrigues demonstrara pelas técnicas de prospecção mineira, para, com a sua colaboração, dar início a estes ensaios.

Desde Outubro de 1978 até Julho de 1979, fiz várias deslocações a esta área de Esposende, acompanhado por Laurentino Rodrigues, essencialmente com o propósito de o industriar nas técnicas de prospecção, que me era possível aplicar, com os equipamentos de que dispunha (do SFM e da Faculdade de Engenharia).
Ensinei-o, depois, no gabinete, a fazer o tratamento dos dados colhidos no campo, com vista à sua interpretação.

Laurentino continuava os seus estudos.
Terminara o Curso no ISEP e apresentou-me cópia do seu relatório sobre o trabalho em que participara em Esposende, com o qual conseguiu melhorar a sua classificação final.

Passou, depois, a frequentar a Faculdade de Engenharia, continuando a procurar-me, no meu gabinete, para conversas sobre o seu curso, muito virado para os computadores e sobre a lamentável evolução que estava a verificar-se no SFM.
Terminado o seu Curso na Faculdade de Engenharia, não teve dificuldade em conseguir contrato com o SFM, na categoria a que agora tinha direito.

Em Janeiro de 1982, obteve autorização para um estágio na 1.ª Brigada de Prospecção, onde existiam equipamentos que no Norte não tivera oportunidade de usar.

Quando regressou, manifestou-me a sua grande decepção, por verificar a degradação daquela Brigada. Toda a sua actividade se restringia agora a trabalhos para Empresas que detinham contratos de prospecção com o Estado. Não recebera o apoio que esperava.

O Engenheiro Vítor Borralho já tinha saído para ocupar cargo de Administrador de Minas de Aljustrel, deixando o Laboratório de Geoquímica entregue a pessoal pouco qualificado.
E o Geólogo Goinhas estava a preparar-se para usar também a sua filiação partidária, para obter cargo em Lisboa, com melhor remuneração.

Confirmava-se o que Gouveia me havia dito: Andavam, desorientados, a inventar trabalho! (Ver post n.º 134).

Em 10-5-82, Laurentino, numa das suas habituais conversas, vem revelar-me que, para ele, tinham “empurrado” o pessoal da Secção de Talhadas, que tinha começado por ser deslocado, com carácter temporário para trabalhos dirigidos pelo Geólogo Viegas, mas que acabara por ficar subordinado a este Geólogo, após a suspensão dos estudos que eu tinha em curso na Faixa Metalífera da Beira Litoral (ver post n.º 138).

Já o tinham “empurrado”, anteriormente, para o Engenheiro Pedroso de Lima. Mas como este rescindira o seu contrato, “empurraram-no” agora para ele.
Comentava que andaram perdidos pela Região de Moncorvo e por outros locais e agora não sabiam em que ocupar o pessoal.

Laurentino passou, portanto, a ter que aplicar pessoal treinado em várias técnicas de prospecção, encontrando sérias dificuldades em que a suas ordens fossem respeitadas por funcionários, que se apercebiam da sua ainda pouca experiência.

Recomendei-lhe prudência, lembrando-lhe que situação idêntica ocorrera na 1.ª Brigada de Prospecção, quando nela foram integrados Engenheiros muito mal preparados, que encontraram pessoal, com poucas habilitações escolares, muito mais conhecedores das técnicas de prospecção mineira.

Chamei-lhe a atenção para a conveniência de não se deixar envolver em problemas que lhe diminuíssem o prestígio, pois havia séria probabilidade de vir a suceder-me na direcção dos futuros trabalhos de investigação mineira no País, já que não havia outros Engenheiros em condições de exercerem o cargo com dignidade.

Laurentino manifestava algum desânimo com esta sua entrada na profissão de Engenheiro e dizia-me que o que lhe dava alento eram os meus estímulos durante os seus desabafos para comigo.
Chegou a ponderar o abandono do FM, seguindo o exemplo de Pedroso de Lima.

Apesar destas manifestações de apreço, causava-me apreensão o facto de ele ter aceite, com naturalidade, a sua subordinação ao Geólogo Viegas, que era um dos mais perniciosos elementos do SFM.

O Director Gouveia permanecia alheio aos meus esforços de preparação de pessoal para as tarefas de prospecção mineira, quer interna, quer externamente.

Continua…

terça-feira, 12 de outubro de 2010

142 - A minha colaboração com o Departamento de Geociências da Universidade de Aveiro.

Os meus contactos com a Universidade de Aveiro tiveram origem nas cordiais relações que eu mantinha, desde longa data, com o Professor Carlos Teixeira.
Nas minhas frequentes estadias em Lisboa, quando se me oferecia oportunidade, ia à Faculdade de Ciências, visitar este acérrimo defensor da Geologia, para cuja real importância sentia necessidade de chamar a atenção, pois nem sempre fora devidamente reconhecida pelos serviços oficiais.
Na visita que fiz em 17-11-74, Carlos Teixeira sugeriu-me que inserisse, no programa que ia cumprir no Alentejo, contactos com os Professores Britaldo Rodrigues e Herlânder Correia, e os auxiliasse na actividade do Departamento de Geologia, que estava em fase de instalação, na recém-instituída Universidade de Évora.
Era para mim óbvio que a colaboração com esta nova Universidade teria interesse mútuo, podendo ser de grande utilidade para os trabalhos de prospecção que eu dirigia no Sul do País.
Os Professores Britaldo e Herlânder ficaram muito reconhecidos pela minha atitude, manifestando até alguma surpresa pelo seu ineditismo.

Mas Britaldo Rodrigues não permaneceu muito tempo em Évora. Transferira-se para a Universidade de Aveiro, que também tinha sido recentemente instituída.
Em Janeiro de 1976, lembrando-se da minha disponibilidade para colaborar com estabelecimentos de ensino, veio ao meu gabinete em S. Mamede de Infesta, acompanhado do Professor Teixeira, para me convidar a participar em “Semana de Geoquímica” que a Universidade de Aveiro se propunha realizar. (Ver post n.º 76).

Na Semana, que se resumiu a dois dias (23 e 24 de Janeiro), estiveram presentes, além do Reitor e de docentes locais, representantes das Universidades de Lisboa, Porto, e Coimbra, do Serviço de Fomento Mineiro e da Direcção-Geral dos Serviços de Prospecção e Exploração Mineira da Junta de Energia Nuclear.

Ao Serviço de Fomento Mineiro coube a maior representação.
Eu e o Geólogo Dr. Orlando Gaspar, aproveitamos a presença de personalidades, com directa ou indirecta influência na nossa indústria mineira, para as estimular a desempenhar um papel activo na defesa do cumprimento, em bases científicas, do projecto de inventariação dos recursos minerais do País que consta do Decreto-lei n.º 29 725 de Junho 1939.
Eu manifestei a minha concordância quanto à grande utilidade da Geoquímica em prospecção mineira e, por isso, apoiava inteiramente o propósito da Universidade de Aveiro de dedicar especial atenção a esta matéria.
Exprimi, todavia, a opinião de que só de um conjunto diversificado de técnicas, criteriosamente aplicadas, seria possível dar cumprimento ao projecto referido.
Aproveitei o ensejo para chamar a atenção para desvios que estavam a ocorrer no cumprimento do projecto, com gravíssimas quebras da disciplina que sempre devia presidir a tão exigente programa.
Estava a verificar-se um escandaloso aproveitamento do Organismo para a satisfação de interesses pessoais, secundarizando ou esquecendo mesmo o interesse do País.
Advoguei a promoção do Serviço de Fomento Mineiro a Instituto Português de Investigação dos Recursos Minerais, sem subordinação ao Director-Geral de Minas, que estava a travar a sua capacidade de acção.
A este Instituto deveria atribuir-se mais amplo campo de actuação, que lhe permitisse chegar até à fase de exploração de jazigos minero-metalíferos, incluindo obviamente os de minérios radioactivos, pedreiras, águas mineralizadas ou não, carvões, petróleos, quando se não justificasse adjudicar a exploração a Empresa pública para o efeito constituída, ou a Empresa privada de comprovada idoneidade.

Embora tenha sido eu quem tomara a iniciativa de introduzir as técnicas geoquímicas no SFM (Ver post n.º 27), não me apresentei, neste Seminário, na qualidade, em que estava investido, de Chefe do Serviço de Prospecção Mineira do SFM, com área de actuação extensiva a todo o território nacional.
Por me ter sido retirada a chefia da 1.ª Brigada, com actuação a sul do Rio Tejo, apresentei-me apenas como Chefe da 2.ª Brigada, com área de actuação a Norte daquele rio.
Alguns dos professores universitários presentes, conhecedores do meu currículo, estranharam a minha atitude e procuraram saber as causas e eu não tive dúvidas em apontar para Goinhas, que tinha vindo representar a 1.ª Brigada de Prospecção, como um dos grandes responsáveis pela minha demissão da chefia dessa Brigada.
Em apoio de sugestões que eu apresentara, o Professor Portugal Ferreira, da Universidade de Coimbra manifestou surpresa por terem terminado os Trabalhos Mineiros no SFM, acentuando que “é neles que se vê a realidade mineira”.
No mesmo sentido, o Professor Aires de Barros observou que a criação de um “Gabinete para a Prospecção e Exploração de Petróleos”, liberto da subordinação a um Director-Geral de Minas, tinha permitido que empresas especializadas estivessem a efectuar sondagens, tanto na parte emersa, como na zona imersa do território nacional.

Na qualidade de Chefe da 2.ª Brigada, revelei a extensa aplicação da técnica geoquímica nas regiões de Moncorvo, Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima e na designada Faixa Metalífera da Beira Litoral, que abrange grande parte da área do distrito de Aveiro.
Salientei o facto de nesta Faixa estarem já cobertos pela técnica geoquímica, com amostragem sobretudo de sedimentos de linhas de água, cerca de 1800 km2.
Mostrei ampla abertura quanto à intervenção da Universidade de Aveiro, no estudo desta Faixa, não apenas em matéria de geoquímica, mas sobretudo no âmbito da geologia.

De facto, embora tivessem ingressado recentemente numerosos Geólogos no Quadro de Técnicos do SFM, nenhum fora destacado para colaborar no estudo desta Faixa, porque o Director-Geral de Minas “não sentia entusiasmo com filões”!
A Britaldo Rodrigues e a Edmundo Fonseca, recomendei que aproveitassem zonas de anomalias geoquímicas já evidenciadas pelo SFM, para prosseguirem na sua investigação, com vista a determinar a sua causa (possíveis jazigos minerais), quer por docentes quer por alunos da Universidade de Aveiro.

Em representação da 1.ª Brigada de Prospecção, eu esperava que comparecesse o Engenheiro Vítor Borralho, cujo ingresso no SFM tinha sido por mim proposto, para o encarregar de dirigir os trabalhos de prospecção geoquímica daquela Brigada.
Não foi, porém, isso que aconteceu.
Foi o Geólogo José Goinhas quem aceitou desempenhar esse papel, embora a sua actividade na Brigada pouco tivesse a ver com a matéria do Seminário.
A ausência de Vítor Borralho, foi justificava com súbita doença, mas a realidade era outra.
Vítor Borralho andava muito empenhado em actividades políticas.
Já que não tinha conseguido o cargo de Governador Civil de Beja, para que chegou a ser indigitado, procurava agora cargo de Administrador de Minas de Aljustrel, o que viria a alcançar.
Por outro lado, teria alguma dificuldade em me enfrentar, após o vergonhoso documento que subscreveu, o qual contribuiu para a minha demissão da chefia da 1.º Brigada.

José Goinhas, começou a sua intervenção por explicar a sua presença, não sendo o especialista da Brigada na matéria em análise, acentuando que a 1.ª Brigada de Prospecção, que vinha representar era também uma criação do Senhor Engenheiro Rocha Gomes. Neste elogio, ignorara a contradição com o documento que subscrevera em 1975!
A sua exposição esteve longe de dar o devido relevo à importância que eu tinha dedicado, na 1.ª Brigada de Prospecção às técnicas geoquímicas. Não foi acentuado que todo um andar de um edifício contíguo às principais instalações do SFM em Beja, foi dedicado à prospecção geoquímica, tendo nele sido instalado um laboratório para suprir a incapacidade do Laboratório de S. Mamede de Infesta para realizar, em tempo útil, as análises que lhe eram solicitadas.
Neste Laboratório de Beja, passaram a fazer-se análises, não só de amostras de áreas em estudo no Sul do País, mas também da Faixa Metalífera da Beira Litoral.

A convite dos organizadores do Seminário, assumi a presidência de uma das sessões.

Britaldo Rodrigues ainda tomou a iniciativa de convocar alguns dos intervenientes neste Seminário para organizar um Curso pós-graduação de Extensão Geoquímica, chegando a convidar-me a participar no respectivo corpo docente.
Todavia não foi, também, longa a sua presença na Universidade de Aveiro. Passou pela Universidade dos Açores, foi Director-Geral do Ensino Superior em 1980-81 e foi depois chamado a exercer cargo de Secretário de Estado.

O entusiasmo pela Geoquímica abrandou, após a saída do seu principal impulsionador.

Mas, em 1978, conforme tive oportunidade de referir no post n.º 138 , Edmundo Fonseca mostrou grande interesse na minha colaboração, da qual disse necessitar “como do pão para a boca”, em Seminário Internacional de Geoquímica que estava a organizar.
Foi com todo o gosto que acedi ao seu pedido e Edmundo Fonseca acabou por aproveitar a informação, que então divulguei, quanto ao êxito do SFM na redescoberta da antiga Mina de chumbo e zinco do Sanguinheiro, para usar área envolvente desta Mina como a principal matéria da sua tese de doutoramento.

Em Maio de 1982, o Departamento de Geociências voltou a manifestar um grande empenho na minha colaboração na preparação dos seus alunos do Curso de Engenharia Geológica.
Quiseram primeiramente, apreciar”in loco” as actividades que eu dirigia no campo.
Nesse sentido, proporcionei visita aos trabalhos que decorriam na região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima aos docentes Renato Araújo, Frederico Machado, Celso, Severo e Ernesto.
Revelei as potencialidades da área e os resultados já conseguidos pelo SFM, os quais estiveram na base de explorações lucrativas por empresa privada e de contratos de prospecção com outras empresas.
Eu tinha levado documentação respeitante à Faixa Metalífera da Beira litoral, para estimular a Universidade de Aveiro a colaborar no seu estudo, mas não houve tempo para a analisar.
Combinou-se novo encontro em Aveiro.

No encontro que se realizou, em Junho de 1982, participaram os docentes Renato Araújo, Frederico Machado, Edmundo Fonseca, Celso, Serrano Pinto, Severo, Luís Menezes e Fernando Ernesto.
Voltou a encarar-se a minha colaboração em prospecção e eu manifestei, então, a minha estupefacção por a Universidade ter aceite que o Geólogo Santos Oliveira também tivesse sido convidado a participar no seu corpo docente.
De facto, parecia-me uma atitude muito infeliz, que não contribuiria para o desejável prestígio do Departamento, pois eu considerava este Geólogo um dos grandes responsáveis por atrasos e erros graves no cumprimento dos programas do SFM. (a este respeito ver posts n.ºs 94, 114, 127 e 135).
Argumentaram que, Santos Oliveira lhes prometera disponibilizar equipamentos do Laboratório de S. Mamede de Infesta, de que fora designado Director, após a aposentação do Engenheiro Orlando Cardoso.
A minha estupefacção aumentou ainda, pois havia milhares de amostras que eu tinha enviado para análise cujos resultados não surgiam, sendo de meu conhecimento que se decidira não proceder a essas análises.
Tais amostras estiveram até a caminho de destruição, quando Orlando Cardoso as abandonara no seu gabinete. Consegui salvá-las por grande casualidade.
Mas não consegui salvar mais de uma centena de milhares da Faixa Metalífera da Beira Litoral, que tinham sido objecto apenas de análises expeditas, no Laboratório de Beja, para metais pesados, a frio, pelo método de Bloom e que aguardavam análises de Cu, Pb e Zn, por absorção atómica, nos excelentes Laboratórios de Química de S. Mamede de Infesta. Este foi um crime da inteira responsabilidade de Santos Oliveira.
Por todas estas razões, eu não me sentia disposto a participar num corpo docente que incluísse tal personagem.

Não tendo participado no corpo docente do Departamento de Geociências da Universidade de Aveiro, passei, porém, a partir do ano lectivo de 1981-92, a prestar contínua colaboração, nas variadas técnicas da prospecção mineira, não apenas nas geoquímicas.

Deu-se o caso de os Engenheiros Luís Fuentefria Menezes Pinheiro e Fernando Ernesto Rocha de Almeida, sendo já docentes deste Departamento, se aperceberam da lacuna na sua formação, no âmbito da prospecção mineira.
Ambos tinham concluído a licenciatura anteriormente ao ano em que eu dera as primeiras aulas na Faculdade de Engenharia, não tendo tido, por isso, oportunidade de frequentar a cadeira.
Vieram solicitar-me permissão para assistirem às minhas aulas, na Faculdade de Ciências.
O pedido foi obviamente satisfeito e foi com grande satisfação que observei o entusiasmo com que ambos acompanharam as lições teóricas e práticas de campo e de gabinete.
O seu entusiasmo foi ao ponto de conseguirem que a Universidade de Aveiro adquirisse alguns equipamentos que acabaram por ser de grande utilidade para o prosseguimento dois trabalhos na região de Vila Nova de Cerveira – Caminha - Ponte de Lima, assim atenuando os obstáculos que internamente me estavam a ser sistematicamente criados.
Mas os referidos Engenheiros não se limitaram a frequentar as aulas durante o ano de 1981-82. Voltaram no ano de 1982-83, tornando as aulas mais atractivas, pelas suas frequentes e oportunas intervenções.
Tornaram-se, além disso, óptimos companheiros, quando semanalmente me deslocava ao campo para ter acção directa nos trabalhos de prospecção que decorria na região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima.
Saindo a horas matutinas de Aveiro, surgiam pontualmente, às 8 horas, nas instalações do SFM em S. Mamede de Infesta, frequentemente acompanhados de outros docentes e de grupos mais ou menos numerosos de alunos e todos participavam nas observações pelas variadas técnicas que estavam a ser aplicadas.
Cheguei a ter que utilizar meios de transporte da Universidade de Aveiro, além dos seus equipamentos, para que os trabalhos pudessem prosseguir, com rendimento, pois no SFM até obstáculos me eram criados no uso de viaturas ou no fornecimento de senhas para abastecimento de combustível, para me deslocar ao campo.
Foram mais de 40 os dias em que estes colegas colaboraram nos estudos da região referida e, por vezes, foi-me difícil convencê-los a dar por terminado o trabalho, pelas 17 horas, pois eles não queriam sair, sem que anomalia que tinha surgido estivesse completamente definida!

Jorge Gouveia mantinha-se completamente alheio a este ambiente saudável de trabalho, que devia servir de exemplo da estreita colaboração que deveria existir entre o SFM e os estabelecimentos de ensino, tal como defendia o novo Director-Geral.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

141 - A minha colaboração com a Faculdade de Engenharia do Porto

Em meados de 1978, eu havia proporcionado ao Engenheiro Miranda, docente da Faculdade de Engenharia e aos seus alunos, visita aos trabalhos da Secção de Caminha, para demonstrações da aplicação dos métodos magnético e de polarização espontânea à prospecção mineira.

Tomara, então, conhecimento de que, naquela Faculdade, existia um magnetómetro de compensação de fabrico da ABEM de Estocolmo, que não estava em uso.
Embora obsoleto, pois havia magnetómetros de mais simples manejo e de maior sensibilidade, com os quais o SFM já se havia equipado, o aparelho ainda poderia ser útil, não só para medições, que não exigissem muito rigor, mas também para mostrar os diferentes tipos de aparelhos disponíveis no mercado, aos alunos da disciplina de Prospecção Mineira que eu leccionava na Faculdade de Ciências.
O meu pedido de cedência, por curto período, encontrou franco e total acolhimento.
A Faculdade informou possuir, também, um equipamento Terrameter de resistividade eléctrica, recentemente adquirido, que poderia disponibilizar-me, se eu pretendesse.
Logo aproveitei a oferta, porquanto os dois núcleos, que eu ainda mantinha, em actividade, tinham amplos campos de aplicação para esse equipamento.

Em Maio de 1979, o Professor Miranda solicitou-me que ministrasse, aos seus alunos, alguns ensinamentos de gravimetria aplicada à prospecção mineira, pois não dominava tal matéria.
Durante os meses de Maio, Junho e Julho de 1979, foi com muito gosto que dei, a 10 alunos, na Sala das Sessões do SFM, em S. Mamede de Infesta, as aulas que Miranda me solicitara, ocupando um total de 16 horas.
Não me foi possível ministrar aulas no campo, porque o gravímetro que eu tinha solicitado, para utilização, por curto período, apesar de prometido, continuava indisponível!

O Engenheiro Miranda mostrara também interesse em que os seus alunos tomassem contacto com outras técnicas de prospecção.
Satisfazendo o seu pedido, comecei, em mais uma aula, na Sala das Sessões, por historiar a actividade mineira na região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima, justificando a intervenção do SFM, para que pudessem ser devidamente aproveitadas as ocorrências de minérios de tungsténio, que tinham dado origem a algumas concessões mineiras.
Fiz, depois, uma rápida descrição das técnicas que estavam a ser aplicadas, com pleno êxito.
Os alunos teriam, em dias seguintes, oportunidade de observar a aplicação dessas técnicas e até de efectuar trabalho que iria ser aproveitado.
Nos dias 5 de Maio e 20 de Junho de 1979, mostrei, a Miranda e seus alunos, afloramentos da formação mineralizada em volframite e scheelite e o seu enquadramento geológico.
Apresentei, seguidamente, o pequeno grupo de trabalhadores, na sua quase totalidade localmente recrutados, que estava procedendo a observações pelos métodos magnético, de polarização espontânea e de resistividade eléctrica.
Os alunos foram, então, convidados a realizar observações, utilizando não só aparelhos do SFM, mas também, os equipamentos, que a Faculdade de Engenharia me tinha emprestado.
Dei-lhes, ainda, oportunidade de usarem bateias, na produção de concentrados de materiais aluvionares. A Ribeira das Pombas foi o local escolhido, dada a facilidade de acesso e a certeza de se conseguirem rapidamente concentrados contendo sobretudo cassiterite, facilmente identificável através de um simples ensaio químico em Laboratório.

Das conversas havidas, Miranda apercebeu-se da grande lacuna existente no elenco de disciplinas para a formação dos futuros Engenheiros de Minas, e logo pensou aproveitar o bom relacionamento que comigo se tinha estabelecido para propor ao Professor Madureira, dirigente do Departamento de Engenharia de Minas, que fosse introduzida, no Curso, a disciplina de Prospecção Mineira, sugerindo que eu fosse encarregado da respectiva docência.
O Professor Madureira concordou e, em 27-7-1979, ambos vieram ao meu gabinete em S. Mamede de Infesta, fazer o convite.
Perante a impossibilidade legal de acumular essas funções com as que já exercia na Faculdade de Ciências e, em manifestação da minha maior boa-vontade em prestar um auxílio que considerava não dever recusar, propus dar aulas, juntando na mesma sala, os alunos de Ciências e de Engenharia, caso houvesse concordância do Departamento de Geologia.
Havia, porém, um assunto que os preocupava. Sabedores das relações de amizade de Professor Morais Cerveira, Catedrático da Faculdade de Engenharia, com Soares Carneiro, pareciam recear, da parte deste, alguma oposição à colaboração que me pediam.
Sosseguei-os a este respeito, revelando-lhes que as minhas relações profissionais com Morais Cerveira sempre foram as melhores.
Às Minas de Covas, de que ele era Director-Técnico, eu tinha prestado, em numerosas ocasiões, auxílio que se revelara fundamental para a localização das zonas de mineralização economicamente explorável.
Ainda recentemente, Morais Cerveira me havia contactado a inquirir da possível existência de jazigo idêntico aos de Aparis ou Miguel Vacas, em cuja exploração estivera empenhada a Empresa Minerália que, para o efeito fundara, em sociedade com o Professor Farinas de Almeida.
Realçara, então, a exactidão do meu cálculo de reservas, na Mina de Aparis, pois a exploração correspondera fielmente às previsões.
Quanto à Mina de Miguel Vacas, na região de Vila Viçosa, também tinham sido de inestimável utilidade os dados que lhe facultei, sobre trabalhos de Mining Explorations (International), nos quais tive directa intervenção.
Respondi-lhe que, infelizmente, me tinha sido retirada a possibilidade de continuar a fazer estudos da natureza dos que fizera em Aparis (Ver, a este respeito, parte final do post n.º 25).
Nessa ocasião, apelei aos deveres cívicos de Morais Cerveira, para que usasse a sua influência junto do seu amigo Soares Carneiro, para o fazer entrar no caminho correcto, em defesa dos interesses nacionais.
Lembrei o conselho que lhe dei, quando nos encontrávamos na Mina da Cerdeirinha: “Trave-me esse louco, antes que destrua completamente a Direcção-Geral de Minas!”.
Confiei que este meu conselho pudesse ter algum sucesso, mas foi pura ingenuidade.
Soares Carneiro já tinha ido longe demais, para poder retroceder.

Obtida a concordância do Director do Departamento de Mineralogia e Geologia da Faculdade de Ciências, passei, durante o ano lectivo de 1981-82, a dar as aulas teóricas e práticas de campo e de gabinete, de Prospecção Mineira, ao conjunto de alunos das duas Faculdades, sem qualquer remuneração adicional.

Baseado no bom relacionamento que se havia estabelecido, pretendi ajudar o Departamento a melhorar a preparação dos seus alunos, pois tinha verificado insuficiências inadmissíveis em Engenheiros que tinham ingressado no SFM.

Além de ignorância total em prospecção mineira, mostraram quase igual ignorância em topografia, colocando-se em grande inferioridade relativamente a pessoal recrutado apenas com a antiga 4.ª Classe de Instrução Primária, o qual eu tinha instruído nessa matéria.
Comentei o total abandono a que tinha sido votada a prospecção mineira, manifestando a minha surpresa por encontrar na Biblioteca do Departamento apenas os livros que já existiam quando eu frequentara a Faculdade, isto é, 30 anos antes!

Informado de que o Departamento não dispunha de verba para compra de livros e revistas, com conhecimentos actualizados, mandei preparar fotocópias dos principais livros que o Departamento de Geologia da Faculdade de Ciências tinha adquirido, por minha indicação, cuja consulta eu costumava aconselhar aos alunos.

Eu sentia-me no direito de esperar que a minha colaboração à Faculdade de Engenharia fosse reconhecida e agradecida.
Todavia, o que encontrei foram inesperadas atitudes de desconsideração, que muito me magoaram. Tive, por exemplo, dificuldade em contactar o Director do Departamento, quando pretendi fixar data para os exames finais dos alunos.
Ele chegou a faltar a encontro que se havia marcado, sem me dar justificação ou pedir desculpa.
Andava muito ocupado com computadores, que acabavam de surgir como grande novidade e quase ia transformando o Departamento de Minas em Departamento de Informática, esquecendo-se que os computadores iriam ser um extraordinário meio de trabalho e não um fim, tal era o seu deslumbramento, perante este progresso”.
Fui levado a concluir que Madureira se sentira melindrado, considerando que eu estaria a intrometer-me na vida do Departamento.
Não mostrou, por isso, interesse em que eu continuasse a leccionar a disciplina.

Acontecia, porém, que alguns alunos me procuraram para manifestar estranheza por, no ano lectivo de 1982-83, eu não estar a dar as aulas de Prospecção Mineira, que pretendiam frequentar, não tendo horário que lhes permitisse assistir às que eu dava na Faculdade de Ciências.
Expliquei-lhes que estava aguardando as diligências do Director do Departamento de Engenharia para que tal continuasse a ser possível.

Acontecia, também, que vários Engenheiros que se haviam licenciado anteriormente ao ano lectivo de 1981-82, não tendo tido, por isso, oportunidade de assistir às minhas aulas, me vieram pedir para frequentarem as que eu ministrava, na Faculdade de Ciências.
Foi com todo o gosto que acedi ao seu pedido. A este assunto me referirei, mais detalhadamente no post seguinte.

Antes do início do ano lectivo de 1983-84, por virtude de alterações ocorridas na direcção do Departamento de Minas, os Professores Morais Cerveira e Simões Cortês, decidiram contactar-me, no SFM, para que eu retomasse as aulas que tinha suspendido na Faculdade de Engenharia.

Manifestei-lhes, então, o meu grande desapontamento por ter sido mal compreendido o meu empenho em auxiliar a Faculdade a eliminar a grave lacuna de ter votado ao abandono tão importante ramo da industria mineira, sobretudo sabendo-se quão atrasado se encontrava o inventário da riqueza mineira do País.

Lamentei que não tivessem tido na devida consideração os meus comentários relativamente à deficiente preparação dos Engenheiros, em vários domínios, não apenas na Prospecção Mineira.

Perante as garantias que me foram dadas, aceitei retomar as aulas, com a condição de ser nomeado um Engenheiro dentre os que tinham sido meus alunos, em 1981-82, para ser meu assistente e se encarregar das aulas, nos anos seguintes, prometendo dar-lhe o meu auxílio.

Logo ficou indigitado o Engenheiro António dos Santos e Sousa, que aceitou o convite. Ainda lhe prestei o auxílio a que me comprometera, mas soube que acabou por abandonar o cargo.

Causou-me estranheza o elevado número de alunos inscritos em Prospecção Mineira, em acentuado contraste com o que ocorrera em 1981-82. De 6, em 1981-82, passara-se a 21, em 1983-84! Além disso, enquanto todos os 6 do Curso de 1981-82 revelaram muito empenho em apreender os conhecimentos que lhes transmitia, dos 21 do Curso de 1983-84, apenas 6 se mostraram verdadeiramente interessados, chegando um deles, Miguel Correia Pessoa, a ser classificado com 19 valores.
A minha explicação para este facto está na introdução do “numerus clausus” para ingresso nos diferentes Cursos. Muitos alunos, que não tinham conseguido nota para ingresso nos Cursos para que sentiam vocação, acabaram por se inscrever em Cursos onde havia vagas, mas para os quais não sentiam propensão.
Decepcionado com o comportamento que vieram a revelar nos exames, ainda inquiri a alguns deles a razão do seu pouco interesse. Responderam que não estavam habituados a um regime de tão intenso trabalho, com aulas iniciadas às 8 horas da manhã, terminando às 13, apenas com intervalo de 15 minutos, pelas 10 horas!.

O ainda Director do SFM, Jorge Gouveia, continuava totalmente desinteressado nestas colaborações, parecendo ignorar as recomendações do novo Director-Geral para que as Universidades produzissem bons técnicos e o compromisso que publicamente assumira de a DGGM prestar toda a colaboração para esse fim.
Em vez de facilitar a minha actividade, ia criando inacreditáveis obstáculos.
Alguns, eu conseguia vencer, com recurso aos equipamentos cedidos pelas Universidades e pelas Empresas que actuavam na Região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima. Outros, com destaque para o ensino do uso do gravímetro, no campo, tornaram-se impossíveis.
No post n.º 146, descreverei estas atitudes negativas.