domingo, 6 de fevereiro de 2011

157 – Análise da Ordem de Serviço referida no post anterior

Antes de iniciar a descrição das circunstâncias em que decorreu a elaboração de um relatório “circunstanciado” acerca dos estudos realizados, sob minha orientação, na Região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima, vale a pena analisar a Ordem de Serviço, em que me é exigido esse relatório.
Desta análise, resulta evidente a mediocridade e o carácter malévolo do seu autor, como demonstrarei, a seguir.

1 - Alcides Pereira, que se refugiava num comportamento essencialmente burocrático, face á sua inexperiência em matéria geológico-mineira, ignorava que despacho é, “ resposta escrita dada por autoridade a petição ou requerimento; toda a decisão que as autoridades competentes proferem sobre qualquer petição ou requerimento que lhes é feito, avulsamente ou no decurso de um processo” (Ver Enciclopédia Portuguesa e Brasileira).
No caso em análise, não há petição ou requerimento para “despacho”. Trata-se de uma Ordem de Serviço e não de um despacho.

2– Alcides, que se mostrara zeloso no cumprimento de formalidade tão inútil quão despropositada, como era a minha submissa apresentação ao Engenheiro Borralho, ao Engenheiro Costa, ou ao Dr. Ruy Rodrigues, na ausência do Director Daniel, afinal infringia um dos mais elementares requisitos essenciais à disciplina interna de qualquer organização e ao bom ambiente de trabalho, fundamental para garantir eficácia.
Estando eu directamente subordinado a Daniel, conforme ficara estabelecido na reunião de 9-9-93 (Ver post n.º 150), era dele que deveria ter emanado a Ordem, para não introduzir mais indisciplina, em Organismo já gravemente afectado por decisões arbitrárias de funcionários com currículos fraquíssimos ou mesmos negativos, que tinham tomado de “assalto” cargos directivos. (ver Resoluções de Conselhos de Ministros transcritas nos posts n.ºs 128 e 133)
Fernando Daniel, ao aceitar, sem reacção, que Director-Geral o tivesse ultrapassado, ao emitir tal Ordem, provavelmente nem se terá apercebido da afronta à dignidade do cargo que tinha obrigação de fazer respeitar.
De facto, ele até se vangloriava de se ter habituado a “engolir muita coisa”, na indústria privada!

3 – Alcides salienta a necessidade de “programar convenientemente as actividades da DGGM”.
Desta afirmação, lógico é deduzir que não considerava convenientemente programadas as investigações, sob minha orientação, há mais de 20 anos, na Região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima.
É lógico também deduzir que tal afirmação tivesse origem em informações de Daniel, o que não abona a favor do comportamento ético deste dirigente, que já tivera oportunidades para expor as suas divergências, se as tivesse, nos vários encontros já comigo havidos.
Ocorria-me, então, perguntar se Alcides e Daniel teriam lido os planos de trabalho que eu apresentava anualmente, os quais sempre tinham merecido aprovação e se tinham lido os relatórios e outros documentos em que eu realçava o facto de todas as explorações mineiras na Região se terem baseado em resultados de trabalhos anteriores do SFM, sob minha direcção.
E porque preferira Union Carbide a região de Caminha, em vez de outras que lhe foram apresentadas, para fazer os seus vultosos investimentos em prospecção mineira.
E porque teria esta Empresa solicitado a minha nomeação como representante do Estado, no cumprimento dos seus contratos, para eu poder acompanhar mais de perto a sua actividade e prestar colaboração, à semelhança do que sabia ter acontecido em contratos relativos à Faixa Piritosa Alentejana.

4 – Embora determinando que ficasse suspensa toda a minha actividade no campo, Alcides não suspendeu os trabalhos que, na Região, se encontravam em curso.
Confiou aos 4 funcionários da Secção de Caminha, a responsabilidade de darem continuidade às investigações por mim projectados, mas agora sem a minha presença, que consideraria dispensável, sabendo que eu havia recrutado esses funcionários apenas com a escolaridade obrigatória, localmente e no Alentejo, tendo-lhes dado formação adequada às tarefas que deles pretendia.
Admitia, provavelmente, que a actividade seria de simples rotina e que não haveria que adaptar constantemente os métodos e as suas modalidades de aplicação aos resultados que se fossem obtendo.
Alcides consideraria suficientes as minhas instruções, por via telefónica!
Não se concilia muito bem esta resolução, com a ambição de programar convenientemente!

5 – Ocorre perguntar porque foi seleccionada esta Região como um dos locais de maior interesse a visitar pelos participantes em excursão relacionada com a Reunião de Geólogos do Oeste Peninsular a que me referi no post 140.
E porque me foram feitos tão rasgados elogios, pelos participantes nesta excursão, a ponto de um deles ter proposto à empresa Cominco, sua empregadora, que se candidatasse a prospecção em área que o SFM tinha em início de estudo, em resultado de descoberta, que eu havia feito, de um nível de skarn mineralizado.

6 – Durante 20 anos, na minha qualidade de Chefe do Serviço de Prospecção Mineira, com área de actuação extensiva a todo o território metropolitano nacional, fui o responsável pela planificação e execução dos principais trabalhos de prospecção do SFM, com os resultados que são bem conhecidos. Agora, só me eram permitidas, e apenas, eventualmente, meras sugestões para o prosseguimento dos trabalhos!
Mas, curiosamente, o novo programador iria basear-se nos resultados de trabalhos, não convenientemente programados, que eu desenvolvia em Caminha, pois que me era ordenada a apresentação da respectiva documentação.
E quem viria a desempenhar o papel de novo programador?
Alcides não poderia ser, pois como informarei oportunamente, ele próprio declarou perante mim nada perceber do que eu fazia em Caminha.
Daniel também não poderia, pois já tinha declarado que não viera para o SFM para trabalhar e além disso, também acabou por afirmar, perante mim, como revelarei, em ocasião oportuna, que “nada percebia de prospecção geofísica e até tinha raiva a quem percebia”.
Tudo indicava, portanto, que seria, de facto, Reynaud o novo programador, pois este ambíguo personagem até já tinha iniciado a sua especialização em parasitismo, como revelei em posts anteriores, sendo certo que em matéria de prospecção mineira demonstrava grande ignorância.

7 – Muitas mais reflexões poderia fazer sobre a insensatez desta Ordem.
Ocorre-me, por exemplo, a minha nomeação, em 1961, como representante de Portugal num Grupo de Trabalho Internacional constituído, no âmbito da OCDE, para a adopção de métodos modernos de prospecção e a minha apresentação de um programa de prospecção aérea que mereceu tal aceitação que a OCDE resolveu torná-lo extensivo a Espanha (Ver post n.º 22).
Ocorre-me também citar a minha nomeação, em 1965, para representar a Metrópole em Jornadas de Engenharia realizadas em Moçambique e o sucesso da Comunicação que lá apresentei acerca de estudos por mim programados que tinham conduzido a notáveis êxitos (Ver post n.º 20)

domingo, 30 de janeiro de 2011

156 – Director-Geral de Minas proíbe-me de realizar trabalho de campo

Em 2 de Fevereiro de 1984, houve um acontecimento inédito na DGGM.
Alcides Pereira entregou-me, pessoalmente, Ordem de Serviço, proibindo-me de realizar trabalho de campo. E, oralmente, acrescentou: “E não faz ajudas de custo”!

Eu era nessa data, um dos mais antigos técnicos, em funções na DGGM.
Era, também, detentor do mais valioso currículo, sendo responsável pelos maiores êxitos do Serviço de Fomento Mineiro, com realce para a descoberta do jazigo de Neves-Corvo.

Esta decisão não tinha o objectivo de me libertar de esforço já incomportável aos meus 63 anos de idade, considerando que a área de actuação era muito acidentada e que as condições meteorológicas, na Região, eram frequentemente adversas.

Alcides conhecia a boa condição física que eu mantinha e sabia que, desde 1943, nunca descurara presença nos locais onde decorriam trabalhos, sob minha direcção, quer à superfície, quer no interior de minas.

Sabia também, do meu agrado pelo desempenho efectivo da profissão de Engenheiro de Minas e do estímulo que transmitia aos técnicos sob minha chefia para deixarem o conforto dos gabinetes e participarem, no terreno, na execução dos trabalhos, como era essencial para manter a sua qualidade.
Com tal atitude, até beneficiariam de exercício físico, útil ao seu equilíbrio psicológico.

Deveria também saber que eu havia recusado promoção a Director de Serviço, que me fora oferecida pelo ex-Director do SFM, Engenheiro Jorge Gouveia, porque tal oferta fora feita, com a incrível condição de eu não mais fazer trabalho de campo (Ver post n.º 139).

Não ignorava que muitos técnicos do SFM apresentavam, mensalmente, boletins itinerários fraudulentos, mencionando deslocações fictícias, para auferirem ajudas de custo e subsídios de marcha (ver post n.º 75).
E sabia que os meus boletins itinerários eram preenchidos, com escrupuloso respeito pela verdade.

Tinha ainda, pleno conhecimento de que, na qualidade de professor convidado de vários estabelecimentos de ensino superior do Porto e de Aveiro, tinha o hábito de dar aulas práticas no campo, fazendo os alunos colaborar nos estudos que tinha em curso e que, nessas aulas, os incentivava a não se apoiarem exclusivamente nos trabalhos de outros, na sua futura profissão.
A satisfação que demonstrava no trabalho de campo induzia-me até a comentar, jocosamente, perante os alunos, o facto de ainda ser remunerado por fazer aquilo de que gostava.
Finalmente, tinha obrigação de se lembrar dos seus propósitos, publicamente afirmados, de prestar toda a colaboração da DGGM às Universidades, para que produzissem bons técnicos (Ver post n.º 140).

A seguir, descrevo as circunstâncias em que surgiu tão aberrante Ordem de Serviço

No dia 1 de Fevereiro de 1984, Fernando Daniel telefona, convocando-me para ir a Lisboa “com papéis”, para “conversar sobre o projecto de Caminha”, referindo, de novo, o facto de Reynaud estar “meticulosamente” a tratar o caso das concessões. Despede-se com um abraço!

Continuando sem perceber a intromissão deste novo personagem, radicado em Lisboa, chamei-lhe, uma vez mais, a atenção para a necessidade de me serem entregues todos os documentos que Union Carbide apresentou, exclusivamente graças às minhas diligências, quando rescindiu os contratos de prospecção, para deles fazer uso, no programa em cumprimento na Região de Vila Nova de Cerveira – Caminha - Ponte de Lima.

Chamei também a atenção para a necessidade de eu ser informado sobre as actividades de Cominco e Geomina, em relação com os seus contratos de prospecção, pois não estava observando, no terreno, a presença de técnicos destas Empresas.

Não me ocorreu sugerir que fosse ele a deslocar-se a S. Mamede de Infesta, onde dispunha de vasta documentação acumulada ao longo de quase 20 anos de permanentes estudos, a qual obviamente não poderia transportar. Teria que fazer uma selecção.

Convencera-me de que Daniel iria tentar perceber o que lhe mostrara, quando da sua visita de 6-12-83 (Ver post n.º 154).
Seleccionei alguns documentos e com eles me dirigi a Lisboa, no dia 6 de Fevereiro, conforme se combinara.
Cheguei às 11h 55m à Estação de Santa Apolónia e lá tinha à minha espera o motorista Patrício, com viatura Renault 4L.
Patrício conduziu-me a edifício, na Rua de Diogo Couto, herdado dos extintos Serviços de Prospecção da Junta de Energia Nuclear, onde passou a ser a sede do SFM, após a demissão de Múrias de Queiroz.

No 3.º andar, a secretária D. Izilda, dá-me a informação de que Daniel se sentira muito doente e tivera que regressar a casa, pedindo muita desculpa por não poder estar presente. Comenta o seu aspecto; até estava verde! Pensara avisar-me para não vir, mas eu já vinha a caminho.
Sugere-me que fale com Eng.º Borralho, na sua qualidade de substituto do Director, nas suas ausências. Explico nada querer com tal personagem, a cujo passado pouco recomendável me referi sucintamente.
Ainda me aconselha a falar com Eng. Costa e eu digo não o conhecer e ser pessoa fora dos problemas que me tinham trazido a Lisboa.
Vinha para falar com Eng.º Daniel, com mais ninguém.

Após alguma hesitação, decidi ficar para o dia seguinte, na esperança de que Daniel melhorasse e já pudesse comparecer ao combinado encontro.

Em 7 de Fevereiro, enquanto aguardava que Daniel pudesse comparecer, encontrei o Engenheiro Carlos Gonçalves, que tinha sido transferido da Junta de Energia Nuclear. Informou-me terem-lhe dito que iriam entregar-lhe, para estudo, um dos meus relatórios sobre a Região de Vila Nova de Cerveira – Caminha - Ponte de Lima, mas que afinal não entregaram.
Disse que estava a preparar a sua saída, para aposentação, por ter sido muito mal tratado! Tinham-no “desterrado” para um exíguo gabinete, sem luz natural, com total desprezo pelo seu passado de muitos anos dedicados à prospecção de minérios radioactivos.

Entretanto, aparece Reynaud e dirige-se a mim, declarando ignorar que Daniel me tinha convocado.
Comecei por lamentar a doença de Daniel, na qual acreditara, dizendo ter muitos assuntos a tratar com ele e não apenas sobre Caminha.

Reynaud aproveitou a oportunidade para falar de um relatório, que disse estar a elaborar, sobre as minas de Covas, com base nos dados de Union Carbide!!!!
Propunha-se racionalizar o aproveitamento do jazigo, promovendo a integração das concessões numa única entidade exploradora.
Apoiando-se num mapa da área de Covas, à escala de 1:5 000, velho e rasgado, que Union Carbide tinha entregado, foi fazendo referência aos blocos de reservas indicadas e inferidas, a que os americanos tinham chegado.
Criticou a separação das zonas de skarn aproveitáveis, aceitando as análises, pondo, porém, em dúvida, talvez por minha influência, a interpretação estrutural.
Mas, no essencial, disse aceitar os resultados de Union Carbide e procurar, através deles, planificar uma exploração racional de todo o jazigo.
Chama a atenção para blocos de reservas inferidas e considera necessárias mais sondagens e trabalhos mineiros, visando melhor reconhecimento do jazigo, para preparar a sua exploração.
Mostra preocupação com a baixa recuperação, que reputa da ordem dos 30%, lamentando não dispor dos relatórios dos ensaios mineralúrgicos.
Manifesta a intenção de ir ao Porto ver os dados que eu tenho, sobretudo os das sondagens do SFM que lhe estão faltando.

Parecia-me muito estranho que Reynaud nada revelasse sobre actividade própria, não parasitária, que estivesse a desempenhar, em cumprimento dos programas do SFM, sabendo-se quão atrasado se encontrava o estudo de muitas outras áreas do País, com grandes potencialidades para a ocorrência de minérios vários e estivesse a intrometer-se no projecto de Caminha, sem nunca lá ter efectuado qualquer trabalho e sem ter demonstrado sequer ter percebido o significado dos resultados das técnicas que lá se aplicavam.
Tomava a sua exposição como um exercício académico, procurando a aprovação do professor.
Nesta atitude, comentei que o seu conhecimento era muito incompleto, que não bastaria usar documentos de outros, que era necessário um conhecimento mais real, que só a presença nas minas, no terreno, facultaria.

Além disso, não era de técnico com a sua formação e mantendo a sua residência no Sul, que o projecto de Caminha estava necessitado. Até Daniel percebera ser no domínio da geologia estrutural que a maior carência se notava, apesar dos progressos conseguidos pelos cerca de 20 Geólogos que haviam passado pela Union Carbide.

Na exposição de Reynaud passou-se a manhã. Daniel não aparecia e as notícias sobre a sua “doença”, não permitiam contar com a sua presença, nesse dia, nem talvez no dia seguinte.
Resolvi, por isso, regressar ao Porto e, para tal, fui adquirir bilhete para o comboio das 17 horas, à Estação de Santa Apolónia.

Mas, na sede do SFM Reynaud, que continuava a entreter-me sem me informar qual a sua real actividade produtiva, transmite-me recado do Director-Geral para ir à sua presença, no edifício de António Enes, onde se encontrava.

O motorista Patrício, que só conheci no dia anterior, e que obedecendo a ordem de Alcides, me conduzia até António Enes, não resistiu a comentar a “casa de malucos” onde tinha “caído”.
Revelava desabafos de funcionários indignados com o ambiente desagradável, que se havia instalado na DGGM, quando acontecia transportá-los. Mostrava disposição de abandonar tal “casa de loucos” e regressar à sua antiga profissão de taxista.

Esta série de maus indícios não era bom prenúncio para o encontro que ia ter.
Quando entrei no edifício de António Enes, a secretária de Alcides disse-me para aguardar, na sala de espera, que ele pudesse receber-me e eu pedi que o informasse ter já adquirido bilhete para regressar ao Porto, no comboio das 17 horas.
Alcides manda dizer que me recebe já, mas o tempo passa e acabo por perder o comboio.

Quando finalmente decide receber-me, vejo-o sentado à cabeceira de uma mesa, tendo a seu lado o Engenheiro Vítor Borralho.
Manda que me sente, na outra cabeceira e, em tom grave, arregalando os olhos, começa a dissertar sobre o respeito pela hierarquia, para me perguntar se eu ignorava ser Borralho quem substituía Daniel, nas suas ausências e se me não tinham dito para a ele me dirigir.
Respondo que realmente D. Izilda me aconselhara a falar com Borralho, informando-me que era o substituto do Director, nas suas ausências.
Embora desconhecesse Ordem de Serviço que tal determinasse, eu tinha vindo para tratar de problemas a que Borralho era alheio, sendo, portanto, totalmente descabido tal contacto.

Seguidamente, pergunta se me não tinham dito que o Engenheiro Costa e o Dr. Rui Rodrigues estavam à minha espera. Respondo negativamente.

Revelando-se indivíduo grosseiro, sem o mínimo de educação, atreve-se a desmentir-me, afirmando que eu tinha, de facto, sido avisado.

Perguntando se estava a duvidar da minha palavra, responde evasivamente, dizendo-se disposto a instaurar processo disciplinar a D. Izilda, por tê-lo informado mal !!!!

Fez-me ainda observação acerca do uso que tinha feito de viatura oficial. com vista à minha instalação, durante a permanência em Lisboa, manifestando dúvidas quanto à sua legalidade !!

Perplexo com estas atitudes de Alcides, sabendo que, deslocado da minha residência oficial, tinha direito à apresentação de recibos de deslocações, em táxis se necessário, tal como tivera em comboio. E sabia também que se fosse feito inquérito ao uso de viaturas oficiais por funcionários da DGGM, sem exceptuar o núcleo de Lisboa, se chegaria a conclusões muito curiosas, tal como já tinha assinalado no meu post n.º 151.

Perplexo, ocorrem-me as reflexões de Patrício sobre o ambiente de terror que vigorava na sede da DGGM!
A DGGM parecia, de facto, entregue a um conjunto de indivíduos de duvidosa sanidade mental. O pequeno tiranete julgava ser com estas atitudes que resolvia os verdadeiros problemas com que a DGGM se debatia. Estes situavam-se a um nível que ele não alcançava.

Mas este pequeno tiranete não ficou por aqui, nas suas atitudes de autoritarismo.

Com indecoroso e ridículo gesto, empurra para mim a Ordem de Serviço que atribui a Borralho funções de substituição do Director, nas suas ausências e manda que nela escreva ter tomado conhecimento. Cumpri a ordem.

Com gesto idêntico, empurra, seguidamente, outro documento que teria preparado, durante a longa espera a que me submetera.

Era uma Ordem de Serviço impropriamente intitulada de despacho.
É o seguinte o seu teor:

“Despacho n.º 5/100/83
“A fim de programar convenientemente as actividades da DGGM, determino que o Sr. Eng.º Rocha Gomes elabore um relatório circunstanciado sobre os trabalhos que vem desenvolvendo em Caminha, expondo os resultados já obtidos e anexando a respectiva documentação e, eventualmente, apresentando sugestões para o prosseguimento de tais trabalhos.
Até à conclusão e despacho sobre tal relatório, ficará suspensa toda a sua actividade de campo.
Conhecimento ao Senhor Subdirector-Geral, Eng.º Fernando Daniel e Direcção de Serviços de Gestão.
Lisboa, 7 de Fevereiro de 1983
O Director-Geral
(/a) Alcides Pereira”
Tendo ido a Diogo Couto, para me encontrar com o Arquitecto Linhares, que comigo iria viajar até ao Porto, mostrei a Reynaud a Ordem de Serviço. Revelou-se surpreendido e até desolado, parecendo preocupado com tão lamentável atitude de Alcides.

Ingenuamente, eu não me tinha apercebido, então, de que um grupo de parasitas, nos quais se incluíam Alcides, Daniel e Reynaud tinha preparado armadilha, para se apropriar do meu trabalho, seguindo o exemplo da investida mal sucedida de Farinha Ramos, (Ver post n.º 114), ou talvez para me levar a tomar decisão idêntica à de Carlos Gonçalves.

Só tardiamente, perante comportamentos mais claramente negativos, ostensivamente adoptados por aqueles três personagens, compreendi as suas reais intenções.

Eu já tinha decidido expor, ao Ministro da tutela, esta atitude de Alcides, atentatória da minha dignidade profissional, chamando a atenção para os malefícios que tão absurda ordem iria originar à produtividade de um Organismo, que já se encontrava em grande decadência, como o Ministro tivera ocasião de constatar, no magno encontro que descrevi no post 155.

Mas a minha reacção não se limitou a tal exposição.

Consegui que Veiga Simão me concedesse audiência. O que dela resultou, será descrito, em futuro post.

Por agora, quero apenas referir que, perante tamanha afronta, admiti ter chegado a oportunidade para me aposentar, já que contava 40 anos de serviço.

Porém, após alguma reflexão, considerei ser impossível que indivíduos, tão ignorantes e de tão baixo carácter, conseguissem manter-se em cargos directivos, durante muito mais tempo, a prejudicar o País, apesar de os Governos, que se iam sucedendo, também não justificarem grandes optimismos.

De facto, a DGGM não era propriedade de indivíduos que, por circunstâncias fortuitas, ocupavam os principais cargos directivos, nem eu estava trabalhando para eles.

Decidi, por isso, concentrar-me na preparação do relatório que me foi exigido e aguardar a atitude governamental, perante as minhas diligências.

Alcides e Daniel, na sua obsessiva atitude negativa, até esta preparação foram constantemente dificultando, como revelarei, em próximos posts.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

155 – Magno encontro para Alcides Pereira revelar seus altos desígnios para a DGGM

Alcides Pereira ascendera a Director-Geral de Minas, em 1-4-1980, nas estranhas circunstâncias que descrevi, no post n.º 139.

Ao fim de 4 anos, no cargo, sentiu que poderia afirmar-se, como dirigente à altura das suas grandes responsabilidades.

Decidiu seguir o exemplo de Soares Carneiro, quando no início do seu mandato convidou o Secretário de Estado da Indústria, Engenheiro Amaro da Costa, pai do malogrado Ministro da Defesa, que morreu no desastre de aviação que vitimou Sá Carneiro, a visitar centros mineiros que se encontravam em franca exploração, ou em fase avançada de investigação, com base em resultados de trabalhos de pesquisa e reconhecimento, antes efectuados pelo Serviço de Fomento Mineiro (Ver post n.º 47).

Mas não podia usar a actividade do SFM no terreno, porque ela estava extremamente diminuída, Múrias de Queiroz tinha deixado extinguir o departamento de Trabalhos Mineiros, e a prospecção estava confiada principalmente a empresas estrangeiras.

Ele ficara deslumbrado com os amplos gabinetes, laboratórios, oficinas, etc ... dos edifícios da sede do Serviço de Fomento Mineiro, em S. Mamede de Infesta, que tinham sido construídos para apoio das actividades que deviam decorrer, por todo o País, no cumprimento dos seus programas de inventariação da riqueza mineira nacional.

Habituado à modéstia das instalações dos Organismos por onde passara, em Lisboa, logo pensou transmitir essas impressões de grandeza aos membros do Governo que tutelavam a Geologia e as Minas, a docentes universitários e a empresários mineiros.

Resolveu, distribuir convites, para assistirem a sessão em que os informaria sobre os seus projectos de desenvolvimento da indústria mineira nacional, e para lhes mostrar os poderosos equipamentos de que o SFM dispunha para apoio dessa indústria.

Apesar dos esclarecimentos que eu lhe havia prestado, durante as duas únicas reuniões que com ele tivera, a primeira, ainda na qualidade de Assessor do Secretário de Estado Baião Horta, a segunda, já como Director-Geral, Alcides, não se apercebia da enorme decadência a que havia chegado o SFM.

Sem experiência, quer em geologia, quer na indústria mineira e sem passado na DGGM, não lhe era obviamente possível ter aumentado a eficácia deste Organismo, que tinha sido fortemente abalada, durante o mandato do seu antecessor.

Duvido que, durante os 4 anos que já levava de funcionário da DGGM, tivesse tomado contacto directo com os principais centros mineiros do País, devidamente preparado para perceber o que neles acontecia.
Tenho apenas conhecimento de que estivera nas Minas de ferro de Moncorvo, mas que se comportara tal como Daniel e Reynaud, quando lhes apresentei a Região mineira de Vila Nova de Cerveira – Caminha - Ponte de Lima. Tal como eles, entrara mudo e saíra calado.

Era, para mim, confrangedor ouvir os desabafos que alguns funcionários, mais dedicados, iam fazer ao meu gabinete, que já quase se transformara em “muro das lamentações”.
O caso do recém-licenciado em Engenharia de Minas, Laurentino Rodrigues, era paradigmático
Nessa data, Laurentino denunciava a sua frustração, por pouco conseguir produzir, na Secção de Coimbra, onde estava integrado sob a chefia do Geólogo Viegas. Acentuava que, sem o pessoal de Talhadas, nada faria!
E manifestava receio de eu vir a retirar-lhe esse pessoal, para o núcleo de Caminha ou para o fazer regressar à origem, retomando o estudo da Faixa Metalífera da Beira Litoral, interrompido por arbitrária decisão do anterior Director.
Laurentino estava encarregado de trabalhos de mineralometria, na área de Góis, sem apoio de técnico especialista, no exame laboratorial dos concentrados de bateia preparados no terreno. Era, assim, uma actividade quase inútil.
Tentando animá-lo, declarei que seria bem-vindo à equipa, sob minha direcção, se fossem retomadas as investigações na Faixa Metalífera da Beira Litoral e, que, a prazo, deveria até suceder-me na orientação do estudo dessa Faixa, visto me encontrar próximo da aposentação.

Alcides, recorrendo aos serviços técnicos e administrativos que herdara, fizera publicar no n.º 4 do Volume 19 do Boletim de Minas de Out./Dez. 1982, artigo intitulado “Indústria extractiva em Portugal”, essencialmente com dados estatísticos.
Para além desses dados, repetiu intenções exaustivamente manifestadas pelo seu antecessor, quer quanto á publicação de nova Lei de Minas, quer quanto a uma eficaz reestruturação da DGGM.
Salientou os equipamentos laboratoriais, de que a DGGM dispõe para caracterização das matérias-primas minerais e também o material para sondagens profundas;
Referiu a contratação de novos técnicos, “alguns de comprovada competência”, a ritmo superior ao verificado anteriormente.
Realçou 30 contratos do Estado com empresas, sobretudo estrangeiras, para prospecção e pesquisa de minérios vários, respeitantes a uma superfície total de cerca de 20 000 km2.
Proclamou ter tomado posição relativamente a concessionários inactivos, de modo a não mais constituírem obstáculo à valorização das áreas que detêm.

Não revelou, porém, as fontes utilizadas para as informações que prestou, afigurando-se-me muito duvidosa a credibilidade de algumas delas.
Por exemplo, causou-me grande estranheza a afirmação de estarem calculadas, na Faixa Carbonífera do Douro, reservas de 40 milhões de toneladas, tendo eu conhecimento de as Minas do Pejão, as últimas a manterem actividade, terem encerrado, por não se ter encontrado carvão, em novo piso que se instituíra para o explorar, com base em sondagens mal conduzidas, cujos resultados foram deficientemente interpretados (Ver post n.º 52).
Por outro lado, não destacou o importante papel atribuído ao Serviço de Fomento Mineiro, no inventário e na valorização do património mineiro nacional.
Ignorou a fundamental contribuição de equipa técnica por mim constituída, ao longo de muitos anos, anteriormente à Revolução de Abril de 1974, para a descoberta do jazigo de Neves – Corvo, já classificado como o maior jazigo de sulfuretos de cobre, zinco e chumbo da Europa.
Relativamente ao “pessoal contratado, a ritmo superior ao anteriormente verificado, algum com comprovada competência”, não explicitou em que se ocupava tão “competente” pessoal, que já atingia a assombrosa cifra de 590 funcionários (!!!), 29 dos quais com categorias de dirigentes, pois não se registavam resultados, que se aproximassem dos anteriormente obtidos, com muito menos funcionários (Ver post n.º 127).
O que se verificava era uma acentuada diminuição de eficácia, à medida que aumentava o número de contratados!!!

Este artigo constituiria o preâmbulo do espectáculo que Alcides concebera.

Na preparação desse espectáculo, não lhe ocorrera, porém, repetir o procedimento que foi adoptado, quando do Congresso Hispano – Luso – Americano de Geologia Económica, em que a oficina de concentração de minérios, de carácter semi-industrial, foi posta em funcionamento, pela sua primeira vez, apenas durante a presença dos congressistas, pois não reunia condições para um funcionamento contínuo, por não ter sido previsto espaço para depósito dos estéreis (Ver post n.º.15).

Foi pena que não tivesse também tentado pôr em funcionamento, os fornos eléctricos, com seu privativo posto de transformação, recebidos há mais de 20 anos, ao abrigo do Plano Marshall.
Teria sido uma excelente oportunidade para os dirigentes iniciarem o cumprimento de um objectivo já expressamente referido no início do preâmbulo do Decreto-Lei n.º 18713 de 1930, que ainda vigorava e que, com pequenas correcções, poderia manter-se, sem necessidade de nova lei.

Também esqueceu de colocar pessoal a simular a utilização dos dispendiosos equipamentos recentemente adquiridos, com realce para uma microsonda, para dar a ilusão de que estavam a ser úteis e que havia actividade no terreno a justificar a sua existência.

O espectáculo começou com sessão no Salão Nobre, já depois das 11 horas da manhã do dia 16 de Dezembro de 1983.

À mesa da presidência sentaram-se, da esquerda para a direita: Soares Carneiro (anterior Director-Geral que tinha sido exonerado em 22-3-80, um Vereador de Matosinhos, o Secretário de Estado Rocha Cabral, o Ministro Veiga Simão, o Director-Geral de Minas Alcides Pereira, o Director dos Serviços Geológicos Delfim de Carvalho, Sá Fernandes da Circunscrição Mineira do Norte e o Director do SFM Fernando Daniel.

O salão ficara repleto. Muitos convidados ouviam os palestrantes, na sala-museu contígua, através de altifalantes, expressamente adquiridos para este efeito.
Na assistência, destacavam-se funcionários da DGGM, muitos dos quais vindos de departamentos do Centro e do Sul do País.
Foram escassas as representações dos departamentos de Geologia e de Minas das Universidades do Porto, Coimbra, Aveiro e Lisboa.
Teve reduzida expressão a presença de concessionários mineiros

Alcides fez uma enfadonha exposição, repetindo quadros que já constavam do artigo publicado no Boletim de Minas a que me referi e dando uma imagem bastante distorcida do que era, de facto, a nossa indústria mineira.

O Ministro e o Secretário de Estado, nas suas intervenções, incidiram sobretudo no estafado Plano Mineiro Nacional, que iria ser apresentado em 1984.
Seria mais um Plano a acrescentar a outros anunciados desde 1975, mas nunca postos em prática.
O Ministro da Indústria Veiga Simão, tendo observado as grandiosas instalações de S. Mamede de Infesta e consciente da pouca importância que os recursos minerais representavam, então, na economia do País, observou faltarem iniciativas para seu aproveitamento.
O Jornal de Notícias de 17-12-83 destacou, do seu discurso, as seguintes expressões:
“Costuma dizer-se que somos um País pobre de recursos. No entanto, depois da exposição que aqui foi feita, chego à conclusão que não somos tão pobres como dizem.
O que somos é pobres em tomar decisões e iniciativas rápidas. Nisso somos pobres ou quase nulos”.

A reunião terminou pelas 14 horas. Seguiu-se almoço oferecido pele DGGM, ao qual não estive presente, por não ter sido convidado.

Da parte da tarde, houve visita às instalações.
Muitos aparelhos, comentam várias pessoas, apercebendo-se de que não estavam a ser utilizados, e houve quem ousasse perguntar se a microsonda alguma vez tinha trabalhado.

Um verdadeiro “mons parturiens”. Nada de substancial foi apresentado que fizesse prever a nova era para a DGGM, que se pretendia anunciar.
Os convidados perceberam que o único objectivo deste encontro era a auto-promoção de Alcides.
Tinham, na sua generalidade, mais consciência que o Director-Geral do verdadeiro estado em que a DGGM se encontrava.
Alcides, que continuava a comportar-se como “corpo estranho” à DGGM, nem deve ter atingido o alcance do remoque do Ministro.

As conversas entre pessoas que há muito se não viam, foram talvez o que de mais útil aconteceu.
Pelo que me diz respeito, foi agradável ter trocado impressões com técnicos radicados no Sul do País sobre estudos em curso, nos quais participei, durante muitos anos.
Edgar Wahnon insistiu para que fosse visitar Neves-Corvo.
Tomás Oliveira, que procedia a nova fase de geologia no Alentejo, elogiou os levantamentos feitos sob minha direcção, salientando os realizados na Região de Cercal – Odemira.

Ao Engenheiro Técnico Costa Pereira, manifestei o meu natural interesse em conhecer o que se passava nas Minas ferro e manganés de Cercal do Alentejo, que tinham sido estudadas, durante muitos anos pelo SFM, principalmente sob minha orientação.
Fiquei algo desolado ao tomar conhecimento das dificuldades que a Siderurgia Nacional colocava para aceitar o minério, que estava sendo explorado, sobretudo pelo excessivo teor de enxofre, em alguns lotes, originado por contaminação com barita.
Também fiquei a saber que a Empresa não tinha capacidade financeira para investigar a hipótese de os enchimentos filonianos evoluírem, em profundidade, para uma mineralização de sulfuretos de cobre, chumbo e zinco, constituindo remobilizações originadas em massa de pirite complexa, idênticas às da tradicional Faixa Piritosa Alentejana (Ver post n.º 11).
Costa Pereira manifestava o seu desejo de receber novo auxílio do SFM, para análise desta hipótese, quando Daniel se aproximou e eu o apresentei, na qualidade de Director, com poder na matéria.
Rapidamente, Daniel passou às suas habituais fanfarronadas, aumentando as minhas dúvidas quanto à sua sanidade mental.
De facto, totalmente a despropósito, aproveitou o ensejo para referir, a sua grande experiência mineira.
Ele estivera na Suécia, na Finlândia, em Angola, em Miguel Vacas, nas Preguiças, em Aljustrel!
Ele, sim, sabia de minas, enquanto Rocha Gomes era apenas o homem da geofísica, que de minas pouco saberia!
Rocha Gomes fazia uns perfis que guardava!
Suponho terem sido essas as conclusões que extraíra da vista que lhe proporcionei à Região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima.
Prosseguindo na sua verborreia, afirma que, no Alentejo, está tudo praticamente feito.
Afirmação idêntica tinha sido feita, em 1948, pelo Engenheiro Costa Almeida, quando foi para Moçambique, deixando a Brigada do Sul. (Ver post n.º 6)
Os êxitos posteriormente conseguidos demonstraram quão errada estava tal afirmação.
Costa Pereira, perplexo com tão despropositada intervenção de Daniel, afinal nada ouviu acerca da ajuda que pretendia.

Conclusão: Muito tempo perdido, que deveria ser aproveitado em actividades produtivas que tão necessárias eram e tanta despesa inútil, apenas porque um incompetente e presunçoso Director-Geral julgou possível convencer uma assistência directa ou indirectamente ligada à industria mineira, muito mais esclarecida do que ele, de que a DGGM já estava a sair do pântano em que tinha mergulhado (para usar a expressão do Primeiro Ministro António Guterres, quando decidiu abandonar o cargo).

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

154 - A primeira visita de um Director do SFM à Região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima

Nem Múrias de Queiroz nem Jorge Gouveia, enquanto Directores do SFM, se interessaram em tomar contacto directo com os trabalhos na Região de Vila Nova de Cerveira – Caminha - Ponte de Lima, nem sequer demonstraram ter lido relatórios e outros documentos, a ela respeitantes, que, em cumprimento da disciplina normal dos Serviços, lhes eram enviados, com regularidade. .

Seria, portanto, a primeira vez que um Director se dispunha a visitar a Região.
Este facto inédito fez nascer esperanças de que, finalmente, um Director se apercebesse da real potencialidade da área para a ocorrência de jazigos minerais e viesse a facilitar o seu estudo.

Mas esta decisão não se revelou fácil.

Se Daniel exigia rápido termo dos estudos, não demonstrava idêntica urgência em conhecer directamente a actividade em curso, a qual, como já realcei, estava a meu cargo, apenas com o auxílio de 4 trabalhadores, dois dos quais recrutados localmente e os outros dois trazidos do Alentejo, para aproveitar a formação técnica que lhes tinha proporcionado, na 1.ª Brigada de Prospecção.

Foi em 27-10-83 que fez a sua primeira investida, com tal objectivo.
Pelas 19 horas, estava eu ainda a preparar trabalho que tencionava fazer, no dia seguinte, no campo, quando Daniel, que acabava de chegar, para pernoitar na Pousada do SFM anexa à Cantina, vendo meu gabinete iluminado, surge inesperadamente. .
Manifestei surpresa, por não terem ainda decorrido as 3 semanas que haviam sido combinadas, para a projectada visita. Corrigiu, dizendo que tinha combinado 15 dias a 3 semanas.
E acrescentou: Vamos falar!
Agora? perguntei. Não seria melhor deixar isso para oportunidade em que disponha de mais tempo? Analisaríamos primeiro, no gabinete, a situação em que se encontram os estudos e depois iríamos ao campo.
Não quis, porque seria muita coisa junta. Primeiro gabinete e depois campo!

Indaguei se já lera, como lhe recomendara, a Comunicação que eu apresentara ao Congresso Hispano – Luso – Americano de Geologia Económica e a minha Informação de 68 páginas, sobre a actividade de Union Carbide na Região.
Declarou não ter lido nem um nem outro destes documentos!
Confirmava-se o que havia prometido, no seu “comício” de 9-9-83: Não viera para o SFM, para trabalhar!

Forneci-lhe, então, cópia da Comunicação, para lhe poupar o penoso esforço de a procurar no Arquivo do SFM e salientei ter sido essa Comunicação a suscitar o interesse de Union Carbide em fazer contratos de prospecção e exploração mineiras com concessionários locais e com o Estado.

Vinha acompanhado do Engenheiro Vítor Borralho, para ambos irem, no dia seguinte, ver uma sonda, em Melres e tratarem do caso desta Secção.

Causou-me estranheza a presença de Borralho, em ligação com sondagens, lembrando-me de despacho que vira, a seu respeito, no Diário da República de 29-2-1980.
Borralho tinha sido exonerado do conselho de gerência da EMMA – Empresa Mineira e Metalúrgica do Alentejo.
Regressara à Direcção-Geral, e logo fora recompensado do vexame por que passara, com promoção a Director de Serviço, ocupando a vaga que Jorge Gouveia me oferecera e que eu recusara, por me ter sido imposta a inacreditável condição de não realizar trabalho de campo. (Ver post n.º 139)

Não perguntei porque se fizera acompanhar de Borralho, mas não resisti a inquirir da utilidade duma Secção tão próxima da sede do SFM, sem qualquer actividade local.
Declarou não saber, mas foi dizendo que o seu pessoal seria desmembrado: parte para Góis que “já estava a andar “ e parte para Caminha., se eu aceitasse.

Embora tenha concluído, de conversa anterior, ser sua intenção criar condições para que o projecto de Caminha pudesse mais rapidamente atingir os objectivos para que foi instituído, disse que realmente o núcleo de Caminha estava muito desfalcado de pessoal, mas era preciso falarmos primeiro sobre o que lá se iria fazer.
Logo exclamou que, se fosse necessário, pôr-se-iam todos os meios do Serviço em Caminha!
E voltou a dizer que queria tudo terminado em fins de 1984. As reservas minerais evidenciadas seriam objecto de exploração por Empresa pública ou privada, ficando o Fomento ligado a essa Empresa!
Não consegui evitar o riso, perante tão ridícula decisão, demonstrativa de ignorância da metodologia da prospecção mineira.
Fazia-me lembrar o segundo Director do SFM, que determinou o fim dos trabalhos mineiros, na Região de Cercal – Odemira, quando eu tinha definido potencialidades antes desconhecidas, que exigiriam novas fases de investigação.
A Secção de Cercal – Odemira foi extinta, mas algum tempo após, com novo Director, foram reiniciados estudos, com base nessas potencialidades.
Chamei, então, a sua atenção para o facto de Union Carbide ter estado 5 anos na Região e, com os seus poderosos meios técnicos e financeiros, não ter conseguido explorar todas as suas reais potencialidades .
Union Carbide nada fez, disse ele.
De novo, insisti para que procurasse informar-se, para evitar emitir pareceres, sem o mínimo fundamento. Ninguém mais do que eu gostaria de ver ali implantado um importante centro mineiro e, para isso, vinha trabalhando.

Comentei que a introdução maciça de meios seria prejudicial. Qualidade e não quantidade, era o que se precisava. A evolução dos estudos deveria seguir a metodologia normal da prospecção e não atitude de “bombeiro” como defendia o ex-Director-Geral, Soares Carneiro, em situações parecidas. (Ver post n.º 2)

Vamos fazer geologia, que julgo não estar feita – disse ele. Você deve ter alguma coisa, mas deve faltar muito!

Informei haver levantamentos à escala de 1:25 000, dos Serviços Geológicos, incompletos, mas muito úteis; geologia a 1:5 000, da equipa checa e de Union Carbide; e haver ainda muito para fazer, neste domínio, mas não eram tarefas para qualquer Geólogo.
Citei os dois casos de total ineficácia de Geólogos do SFM, que na Região tinham sido destacados.

Referi-me, depois, ao Geólogo João Farinha, que ingressou no SFM após o abandono da Companhia Union Carbide, na qual estivera integrado e ao Geólogo Durão.
Ambos estavam já familiarizados com a Região e tinham beneficiado do convívio de competentes técnicos originários de vários países, que a Companhia americana contratava. De imediato, declarou que requisitaria ambos!!

Deu-me, então, conhecimento de que as áreas das concessões iriam ficar a cargo do Engenheiro Ruy Reynaud, que era o “homem da Indústria Extractiva”.
Não percebi o objectivo desta decisão, sem ter combinado comigo o papel destinado a tal personagem, no projecto de Caminha.

Reynaud tinha ingressado, em data recente, na DGGM.
No entanto, rapidamente conseguira cargo de Director de Serviço, conforme despacho de 26-1-81 do Ministro da Indústria e Energia, que vi publicado em Diário da República!
Foi autor de Comunicação apresentada ao Seminário Europeu de Tungsténio, realizado em Lisboa, cujo texto está publicado no N.º 2 do Volume 29 do Boletim de Minas.
Esta Comunicação, baseada em relatórios, a que Reynaud tivera acesso e não em actividade própria, seguia o exemplo parasitário, que outros técnicos da DGGM estavam dando, para fazerem currículo, sem necessidade de gastarem energia em trabalho no terreno.
No entanto, a sua consulta documental revelou-se incompleta e incorrecta. As suas alusões à Região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima estão muito distorcidas.
Refere que “Union Carbide Geotécnica Portuguesa desenvolveu, no período compreendido entre 1974 e 1979, na região de Covas, um vasto programa de prospecção e pesquisa, envolvendo levantamento geológico de pormenor, prospecção geofísica e geoquímica, sondagens, que permitiram evidenciar a existência de oito corpos mineralizados de interesse, ocorrendo nas áreas dos dois concessionários e também em parte da área envolvente, cativa para o Estado”.
A realidade era, porém muito diferente. O maior e mais ingrato esforço de valorização da Região sempre tinha sido exercido pelo SFM.
Union Carbide tivera a sua tarefa extremamente facilitada e quase se limitara a pormenorizar a definição dos corpos mineralizados antes evidenciados pelo SFM.
Pelo que directamente pude observar, no meu constante convívio com os técnicos da Companhia, a sua actividade, contrariamente ao que Reynaud afirma, concentrou-se, quase exclusivamente nos domínios da geologia, das sondagens e dos ensaios mineralúrgicos. Foi quase nula a sua aplicação de técnicas geofísicas e geoquímicas.

Era imperdoável que Reynaud tivesse ignorado, intencionalmente ou não, os documentos cuja consulta eu tinha recomendado a Daniel.

Não pude deixar de manifestar a minha estranheza pela intromissão, a partir de Lisboa, “por controlo remoto”, deste personagem, que já havia evidenciado características parasitárias.
Fiquei, então, a saber ser ele quem sub-repticiamente se apoderara há 4 anos, dos documentos que Union Carbide entregara, graças às minhas diligências, os quais eu insistentemente reclamava, para os integrar na documentação da Região, a fim de poder fazer a replanificação dos estudos, entrando em consideração com estes novos dados.
Daniel disse, também, em termos elogiosos, que Reynuad estava metodicamente a estudar esses documentos!!!!

Daniel explicou que a Reynaud competiria analisar se os concessionários estavam a dar cabal cumprimento às cláusulas dos alvarás de concessão.
Sendo esta função das atribuições das Delegações Regionais, que passaram a integrar as Circunscrições Mineiras, fora do âmbito da DGGM, Daniel argumentava que as Circunscrições não dispunham de pessoal competente para desempenharem eficazmente as funções de fiscalização.

Chamei, então, a sua atenção para dois factos recentes, que me haviam surpreendido:
O primeiro foi o contrato que vi publicado, em Junho de 1982, em Diário da República, adjudicando a Geomina, para trabalhos de prospecção mineira, uma parcela da área cativa para o Estado, sabendo-se que aquela concessionária local jamais demonstrara capacidade em tal matéria. Sempre recorrera ao SFM, para esses trabalhos e tinha sido através da minha intervenção que ficara a conhecer onde se localizavam as concentrações de minério tungstífero, para as explorar.
O segundo foi a provável atribuição de 4 novas concessões, também a Geominas, exclusivamente com base em resultados da actividade do SFM, sem que a Empresa tivesse realizado trabalho algum nas respectivas áreas.
Tudo isto, com o meu total desconhecimento!

Daniel pôs em dúvida que a Delegação Regional do Norte outorgasse as novas concessões e afirmou agir, com severidade, perante concessionários que não cumprissem as suas obrigações.
Usou a seguinte expressão:
Concessionários, se não querem trabalhar, matam-se!

De “corta-braços”, passava a “matador”!

Recomendei-lhe prudência e bom senso, pois não foi para matar empresários que o SFM foi criado.
Pelo contrário, uma das suas principais atribuições tem sido ajudar os concessionários a resolver problemas técnicos ou financeiros que ultrapassem as suas capacidades.
Se eles não quiserem ser ajudados, então sim, actue-se!

Voltando ao tema da visita ao campo, Daniel concordou que eu fosse, no dia seguinte, conforme tinha estado a planear. Falaríamos, quando regressasse, pensando que se tratasse de uma visita rápida.
Expliquei, que, quando ia a Caminha, passava lá todo o dia, em trabalho com a participação dos auxiliares, pois que todos não éramos demais!!

Combinamos, então encontro, no dia 28, às 9 horas.
Nesse dia, vi Daniel entrar, muito depois da 9 horas, mas só pelo meio-dia veio ao meu gabinete.
Perguntei se se tinha esquecido. Disse que não, mas que tivera muitos contactos. Além disso, apenas queria ter comigo um primeiro contacto! O próximo é que seria “mais a fundo”
Continuava a privilegiar os contactos com os principais responsáveis pela decadência do SFM.
Pedi-lhe, que me avisasse, para não ter que alterar os meus programas, informando que costumava fazer trabalho de campo às 3.ªs e 6.ªs, se as condições meteorológicas o permitissem e que às 5,ªs, de manhã, dava aulas de Prospecção, na Faculdade de Ciências.
Às 5.ªs, não queria faltar, pois a boa preparação dos alunos era até de interesse para o SFM. Não podia transferir aulas, porque juntava alunos dos Cursos de Geologia e de Engenharia.
Às 6.ªs, iam, muitas vezes, dois docentes da Universidade de Aveiro, que eu tenho ajudado e que até poderiam ingressar no SFM, se lhes fosse garantido que comigo trabalhariam.

Combinou, então, que viria no domingo, 6 de Novembro, conversaríamos na 2.ª e iríamos ao campo na 3.ª. Viria com Reynaud, o tal “homem da Indústria Extractiva”.

De novo, insisti que lesse atentamente os documentos de que lhe forneci cópias, para que a nova conversa fosse produtiva, evitando que viesse a fazer novas afirmações sem base, como as que estivera até agora produzindo, nem tomar decisões irreflectidas, as quais eu não poderia, obviamente, levar a sério.

Informei-o de ter enviado, em 1-9-79, ao Primeiro Ministro e ao Ministro da Indústria o meu “PARECER SOBRE A ACTIVIDADE DE UNION CARBIDE GEOTÉCNICA PORTUGUESA – ASSISTÊNCIA MINEIRA, L.DA, NA REGIÃO DE VILA NOVA DE CERVEIRA – CAMINHA – PONTE DE LIMA”, salientando tratar-se de um documento muito esclarecedor do que se estava a passar no Serviço de Fomento Mineiro, bem demonstrativo do modo irresponsável como estavam a acautelar-se os interesses nacionais e terminando por manifestar a esperança de que, finalmente, o Governo tomasse as providências que as circunstâncias impunham.

Porque Daniel já havia planeado ir a Melres, com os Engenheiros Adalberto de Carvalho e Vítor Borralho, não tive oportunidade de mostrar a documentação técnica essencial para a compreensão da actividade em curso na área que iríamos visitar.

Com estupefacção, observava que Daniel andava completamente desorientado, enredando-se em assuntos secundários, que o levavam a adiar constantemente os contactos comigo.

Estivera nas instalações do SFM em S. Mamede de Infesta, nos dias 7 e 17 de Novembro e, em ambas essas datas, faltou ao compromisso de ter reunião para análise da documentação técnica, preparatória da visita ao campo.
Marcou a ida ao campo no dia 30 de Novembro e também não cumpriu.

Finalmente, em 6-12-83, quando eu já me encontrava no meu gabinete, desde as 7:30h da manhã, apareceu Daniel, pelas 08:00h, conforme se combinara, em data anterior.
Vinha acompanhado de Reynaud.
Nenhum deles tinha lido os documentos que eu insistentemente lhes havia recomendado.
Tentei suprir esta deficiência, levando os mapas que considerei essenciais à compreensão dos trabalhos que iria mostrar.

Penetramos na Região pela área de Argela.
Aqui mostrei afloramentos de skarn incaracterísticos, descobertos pelo SFM, sobre os quais se tinham registado intensas anomalias magnéticas.
Em mapa, que levava, exibi as anomalias, não só sobre esses afloramentos, mas também em outros locais, onde o skarn estaria oculto.
A área tinha sido adjudicada à Companhia canadiana COMINCO, cuja actividade se mantinha na fase da investigação geológica, estando ainda por investigar se as anomalias magnéticas eram originadas por pirrotite e magnetite que, nesta Região acompanham frequentemente a mineralização tungstífera.

Mostrei também afloramento de filão aplítico mineralizado em cassiterite.

Dirigi-me, em seguida, às minas de Cerdeirinha e Lapa Grande, apresentando mapas de resultados da aplicação de métodos magnético, de polarização espontânea, de resistividade eléctrica, que conduziram à detecção de concentrações de minérios tungstíferos, algumas das quais já tinham sido objecto de exploração lucrativa.
Após almoço, em Covas, fui mostrar a Mina de Fervença, onde tinham sido feitas explorações de minério com elevado teor de tungsténio, exclusivamente com base em anomalias magnéticas detectadas pelo SFM.
Subimos à Mina de Valdarcas, que se encontrava em exploração.
Acompanhados pelo capataz, visitamos a corta no piso 0 e os trabalhos do 3.º piso, realçando a contribuição fundamental dos levantamentos magnéticos, tanto no exterior como no interior da Mina, para orientar as explorações.
Referi-me às muitas sondagens que tinham sido efectuadas quer pelo SFM, quer por Union Carbide, com resultados positivos, ao longo do grande anticlinório que contem os níveis de skarn, onde ocorre a mineralização.
A visita terminou com passagem pelas oficinas, construídas segundo projecto do Professor Morais Cerveira, onde o minério era submetido a diversos tratamentos para o tornar vendável.

Durante esta visita, fui naturalmente comentando as dificuldades que me têm sido criadas para dar cabal cumprimento ao projecto, às quais me tenho abundantemente referido em posts anteriores.
Referi-me, também, às dificuldades que enfrentei quando dirigi trabalhos no Sul do País, os quais, todavia, não me impediram de conseguir os maiores êxitos do SFM, em toda a sua existência.

Ambos ouviam as minhas explicações e comentários, permanecendo silenciosos ou fazendo observações que não demonstravam apreço pelo que lhes tinha sido apresentado.

Apenas Reynaud, perante o entusiasmo que eu manifestava pelos trabalhos que dirigia, chegou a apelidar-me de D. Quixote, esclarecendo, porém que este epíteto não era depreciativo; tivera a intenção de salientar o meu idealismo incompreendido.

“Pullus ad margaritam”. Ignorantes em prospecção mineira, não tinham preparação para avaliar o que lhes foi apresentado.

Em contraste com estas atitudes, lembrava-me dos elogios, que não me foram regateados, durante a Reunião de Geólogos do Oeste Peninsular, a que me referi no post n.º 140.

Lembrava-me, também, do entusiasmo do Engenheiro Miranda, docente da Faculdade de Engenharia, quando, com seus alunos, pôde verificar a eficácia do método magnético e do método de polarização espontânea, na detecção das zonas mineralizadas na área de Argela, a ponto de ter afixado, em quadro exposto na sala de aula o perfil desenhado em papel milimétrico, que eu lhe tinha entregue.

Como Daniel nada disse sobre as impressões da visita, mantive-me na ignorância sobre o futuro da Secção de Caminha.

Conclusão: Profunda decepção.
Nenhuma decisão foi tomada para melhorar a eficácia da Secção.
Nada foi referido sobre Geólogos a destacar para a Região; nada sobre o gravímetro; nada sobre as análises das amostras de solos.
E, máximo dos máximos, continuavam a ocultar-me os documentos de Union Carbide.
E Reynaud que, de modo abusivo e desleal, há 4 anos, retinha em seu poder esses documentos, impedindo a consulta que eu insistentemente reclamava, mostrava também interesse nos logs das sondagens efectuadas pelo SFM, continuando eu sem perceber o papel que lhe estava destinado no projecto de Caminha.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

153 -A minha primeira reunião com o 5.º Director do SFM

Apesar da imagem negativa que Daniel transmitiu, em 11-10-83, com insólitas fanfarronadas, durante o seu “comício”, no átrio de entrada do edifício de S. Mamede de Infesta, eu ainda acalentava a esperança de que contivesse os seus impulsos, na primeira reunião que com ele iria ter e que, em ambiente de seriedade e serenidade, pudesse fazer-se uma análise global dos problemas que o SFM enfrentava, começando obviamente pelos da 1.ª Brigada de Prospecção e passando depois aos da 2.ª Brigada, onde sobressaia a arbitrária suspensão do estudo da Faixa Metalífera da Beira Litoral.

Mas não foi isso que aconteceu.

Daniel nem manifestava intenção de revitalizar a 1.ª Brigada de Prospecção, não obstante ter reconhecido estar necessitada de orientação superior, nem demonstrava interesse no restabelecimento do estudo da Faixa Metalífera da Beira Litoral.

De chofre, faz-me a seguinte pergunta:

Quando termina o trabalho de Caminha?

Tão despropositada pergunta era prova evidente de continuar fortemente contaminado pelos seus antecessores, parecendo disposto a prosseguir na senda destrutivas em que eles se empenharam.

Se não tivesse sido demitido, Jorge Gouveia, que tivera a ousadia de suspender os trabalhos na Faixa Metalífera da Beira Litoral, acabaria por tomar idêntica decisão, relativamente à Região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima, pois até considerara o estudo desta Região fora dos programas do SFM (Ver post n.º 149).

A minha resposta tranquila, a tão insensata pergunta, foi no sentido de ele se informar sobre a actividade em curso naquela Região, e sobre as condições em que decorria, antes de assumir posição sobre datas previsíveis para o seu termo.

Surpreendentemente, pensando honrar-me com a direcção de um novo e ambicioso projecto, Daniel diz-me ser eu a pessoa indicada para chefiar o projecto de Gois, com a colaboração do Engenheiro Reynaud e do Geólogo Goinhas!
Outra hipótese, que lhe ocorria, seria eu ter, para o projecto de Góis, a participação do Geólogo Vítor Pereira, que havia regressado ao SFM, após um período em que esteve em actividade privada, e do Geólogo Vítor Oliveira!

Procurei esclarecê-lo de ter sido eu a introduzir o projecto de Gois no programa do 1.º Serviço, salientando porém, a fase incipiente em que se encontrava, a exigir sobretudo geologia de boa qualidade.
Informei-o de ter visitado os trabalhos mineiros em Góis, quando ali havia explorações em curso, a pedido do Director Técnico, que era um Engenheiro filho de Farinas de Almeida, ex-Professor da Faculdade de Engenharia.
O concessionário da Mina pretendia o auxílio do SFM, na revelação das estruturas filonianas e das zonas de maior concentração de minerais tungstíferos.
Então, o meu conselho, perante o que me tinha sido possível observar, foi no sentido de ser feito um levantamento geológico, tão pormenorizado quanto possível, da área de ocorrência das mineralizações já conhecidas, para tentar desvendar o seu enquadramento na estrutura geológica local, que pudesse constituir um primeiro guia da prospecção.

Não considerava útil a intervenção do SFM, uma vez que a geologia era um dos pontos mais fracos deste Organismo. Sugeri-lhe que tentasse a colaboração do Professor do Instituto Superior Técnico, Engenheiro Décio Thadeu, para aproveitar a experiência que ele tinha adquirido quando esteve integrado no Quadro técnico da Mina da Panasqueira, próxima de Góis, admitindo semelhanças no estilo das mineralizações de ambas as minas.
O meu conselho foi seguido, mas o problema não se revelou fácil e, apesar da competência do Professor Décio em Geologia (tinha tido o privilégio de beneficiar das lições do ilustre Professor Fleury), não se verificaram progressos significativos na actividade mineira em Góis, e a lavra acabou por suspensa, sendo essa situação em que se encontrava.
Não me parecia oportuno dar início ao estudo desta Região, no estado de decadência em que o SFM se encontrava.

Lembrei-lhe, então, o que tinha ficado decidido, na reunião de 9-9-83, com o Director-Geral, de que devia ter conhecimento.
Eu continuaria a dirigir a campanha de prospecção na Região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima, na sua directa dependência, se o projecto fosse considerado com interesse.
Era, para mim, evidente que o projecto tinha muito interesse, pois se não tivesse, já dele me teria desligado, sendo injustificadas e até ofensivas as duvidas do Director-Geral.

Pretendendo demonstrar capacidade de decisão, diz em tom autoritário:

Então, vamos atacar! Quero tudo terminado em 1984!

Para que tal objectivo fosse atingido, passa a dar-me a sua lição de prospecção:

Professoralmente, vai escrevendo as fases a que a prospecção deve obedecer: Geologia regional; geologia local a 1:5000, geoquímica, geofísica, etc...

A título de curiosidade, registo que conservo, como recordação desta preciosa lição, as duas folhas de papel que o “grande prospector” Daniel deixou escritas, para eu não esquecer como proceder em futuros projectos de prospecção.

Com calma, perante tão ridículas e insultuosas atitudes, pergunto-lhe se conhece o meu currículo.

Embora não demonstrasse grande interesse, talvez porque só o futuro o preocupasse, como já havia declarado, fui descrevendo o que tinha sido a minha actividade, em todas as fases da prospecção, durante os 40 anos que já levava de intenso labor e de constante luta para vencer mais os obstáculos criados por dirigentes incompetentes do que as dificuldades normais da prospecção.
Salientei os maiores êxitos do Fomento Mineiro, em toda a sua existência, de que fui o principal responsável, com realce para a descoberta do jazigo de Neves-Corvo, pelo uso da gravimetria, por mim introduzida no SFM.

Realcei, também, a minha colaboração às Faculdades de Ciências e de Engenharia da Universidade do Porto e ao Departamento de Geociências da Universidade de Aveiro, encarregando-me da regência da cadeira de Prospecção Mineira, para a preparação dos seus alunos, possíveis futuros técnicos do SFM.

Chamei a sua atenção para o facto de vários Engenheiros e Geólogos que, como ele, não tinham tido a cadeira de Prospecção Mineira, por não constar do elenco do Curso, me terem pedido para frequentarem as aulas que eu ministrava na Faculdade de Ciências do Porto e o facto de dois deles, já professores na Universidade de Aveiro terem frequentado essas aulas durante dois anos.

Referi, também, o ensino a Engenheiros, Geólogos e Agentes Técnicos de Engenharia, que ingressavam nos departamentos sob minha chefia, com muito deficiente preparação académica.
Aludi, ainda, à formação que proporcionei a numerosos funcionários admitidos no SFM, apenas com a 4.ª Classe de Instrução Primária, que se tornaram competente topógrafos, auxiliares de Geologia e prospectores nas suas variadas técnicas.

Nada disto parecia impressioná-lo. Eram trabalhos de secundária importância comparados com aqueles em que se ocupara na sua actividade profissional!

Gabava-se de ter tido emprego, em Angola, na Mineira do Lobito e de, na Metrópole, ter trabalhado nas Minas da Serra da Preguiça em Moura, na Mina de Miguel Vacas em Vila Viçosa e nas Minas de Aljustrel!
A sua experiência mineira era, pois, muito superior à que eu lhe tinha exposto.

Ignorava, porém, que se tivera emprego, em todas aquelas Minas, com excepção da Mineira do Lobito, fora porque anteriormente, quando essas Minas estavam com laboração reduzida, com lavra suspensa ou inactivas, eu tinha dirigido estudos, preparando-as para poderem entrar em franca exploração.

Daniel não disse em que consistiu a sua actividade nas Minas pelas quais passou, mas pelo que, mais tarde, chegou ao meu conhecimento, a sua presença não foi muito apreciada em quase todas elas. Ele próprio se gabou, perante mim, de estar habituado a “engolir” muita coisa!

Regressando ao tema da reunião, após esta dispensável divagação, explique-lhe que, na sua lição de Prospecção esquecera a importantíssima fase de Documentação, que é frequentemente negligenciada, conduzindo à repetição escusada de onerosos trabalhos.

Pergunto-lhe, então, se a respeito da actividade sob minha direcção, na Região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima, leu os meus recentes relatórios trimestrais e anuais, a minha Comunicação ao CHILAGE (Congresso Hispano – Luso – Americano de Geologia Económica), a minha Informação sobre a actividade de Union Carbide, em relação com contrato celebrado com o Estado.

Chamei-lhe a atenção para o meu parecer expresso em alguns desses documentos, de que: “com os meios disponíveis, jamais se chegaria aos resultados a que a campanha de prospecção em curso deverá ambicionar, isto é, à descoberta de jazigos minerais.”

Informei-o de estar aguardando, desde Dezembro de 1979, que me fosse disponibilizada a documentação técnica que Union Carbide entregou, para a integrar na Documentação respeitante à Região e com base em todos os dados existentes, elaborar novo plano de ataque do problema de valorização mineira da Região.

Mais uma vez esclareci que Ubion Carbide, durante a vigência dos seus contratos com o Estado e com concessionários locais, sempre deu cabal cumprimento às cláusulas desses contratos.
Se, quando decidiu abandonar a Região, fez entrega de novos documentos e de testemunhos de sondagens, sem a tal ser obrigada, foi apenas porque eu, tendo acompanhado, de perto, e até auxiliado, toda a sua actividade, e apercebendo-me da existência dessa preciosa fonte de informação, manifestei grande interesse na sua posse, caso a Empresa desistisse de explorar as reservas minerais que conseguiu definir.

Era para mim incompreensível que tais documentos continuavam a ser-me negados.

Por outro lado, não só o Laboratório continuava a não realizar as análises geoquímicas das numerosas amostras de solos que lhe eram enviadas (já atingiam alguns milhares), mas também não me era disponibilizado o gravímetro que estava prometido, há anos, por curto prazo, para auxiliar a definir a estrutura geológica regional.

Ao mesmo tempo que se pretendia uma rápida conclusão dos estudos, dificultava-se, ostensivamente, a sua realização.

Pergunto qual a razão da urgência em terminar o estudo da Região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima, sendo este um dos estudos mais criteriosamente conduzidos pelo SFM, no País, em vez de criar as condições para poderem iniciar-se estudos em outras importantes zonas dotadas de grande potencialidade mineira, tais como Jales – Três Minas, Moncorvo, sem falar na óbvia necessidade de restabelecer o estúdio da Faixa Metalífera da Beira Litoral, onde há projectos de sondagens, há longos anos aguardando, execução.

Chamei a sua atenção para o facto notável de toda a actividade de campo (condução de viaturas, trabalhos de topografia, mineralometria, prospecção geofísica, por técnicas diversas, colheita de amostras de solos para análises geoquímicas) e de gabinete (serviços administrativos, tratamento e implantação dos dados colhidos no campo, preparação das amostras para envio ao Laboratório), na Região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima, está a meu cargo e de apenas 4 auxiliares, sem qualquer grau académico, tendo somente a escolaridade obrigatória.
Estes auxiliares, mercê da sua elevada capacidade de aprendizagem e grande sentido de responsabilidade, conseguiram suprir as suas insuficiências básicas, revelando-se, em geral, excelentes colaboradores.

Como não obtive esclarecimentos capazes a todas as minhas observações, aconselhei-o, vigorosamente, a ler os documentos que lhe citei, antes de voltar a falar comigo.

A reunião terminou, sem que me fosse dada a oportunidade de exibir, para sua apreciação, a vasta documentação técnica originada pela actividade que desde 1968, eu vinha dirigindo, na Região de Vila Nova de Cerveira – Caminha - Ponte de Lima.

Ficou, no entanto, planeada uma visita a esta Região, que teria o mérito de ser a primeira de um Director do SFM. Foi marcada para 30 de Novembro, mas só viria a concretizar-se em 6 de Dezembro.

A esta visita me referirei no próximo post.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

152 – O 5.º Director do SFM. Continuação

Fernando da Silva Daniel, quando me foi apresentado pelo Director-Geral, na qualidade de novo Director do SFM, não mostrou pressa em ter reunião comigo.

Conforme revelei no post anterior, na sua primeira conversa, já denunciava influência dos funcionários que tiveram maiores responsabilidades na decadência a que tinha chegado o SFM.

Era com eles que tinha privilegiado os seus primeiros contactos.

De facto, em 22-9-83, Laurentino Rodrigues dá-me conhecimento de que Daniel fizera, nesse dia, a sua primeira aparição nas instalações de S. Mamede de Infesta, acompanhado do seu antecessor, Jorge Gouveia.

Jorge Gouveia, afinal, não se tinha aposentado, como eu ingenuamente presumira.
Ele que tinha, desde 27-9-79, a categoria de Assessor da letra B, equivalente à do Director-Geral, aceitara cargo de Chefe de Serviços Gerais, isto é, Chefe das Oficinas de Serralharia, Carpintaria, etc., que exerceria a partir de Lisboa, onde residia!!!

Constou que tentaram atribuir-lhe o pelouro da Documentação, não obstante ser bem conhecida a sua acção negativa neste sector, pois foi durante o seu mandato que deixaram de se receber muitas Revistas essenciais à permanente actualização dos técnicos do SFM.

Nesta primeira aparição, Daniel não teve a elementar atitude de se apresentar ao numeroso pessoal que exercia funções, com base nas instalações de S. Mamede de Infesta, para dar a conhecer as suas ideias sobre o modo como iria desempenhar o importante cargo em que fora investido.
Ignorou, deliberadamente, a minha existência, ausentando-se sem passar pelo meu gabinete.

Foi em 11 de Outubro, isto é, mais de um mês após o encontro de Lisboa, que se dispôs a ter comigo a reunião que havia sido combinada.
Mas não manifestava grande empenho em iniciá-la.
Informado da sua presença nas instalações de S. Mamede de Infesta e admirado por não me convocar, perguntei à telefonista D. Flávia se o tinha visto. Fiquei a saber que conversava com vários funcionários., no átrio, à entrada do edifício.

Indo ao seu encontro, vi-o exuberante, dissertando sobre temas vários, perante um grupo constituído pelo Ex-Director do SFM, Múrias de Queiroz, pelo Geólogo Dr. Orlando Gaspar, pelo Arquitecto Linhares de Oliveira, pelo Engenheiro Rui Reynaud, que com ele viera de Lisboa e pelo Engenheiro Bento recentemente admitido para se encarregar das viaturas.

Causou-me surpresa a presença de Múrias de Queiroz, que julgava também já aposentado, pois tinha visto em Diário da República, a sua nomeação para Inspector Superior de Organismo que já tinha sido extinto (Ver post n.º 127), e depois, em 23-3-80 a promoção à categoria de Assessor da letra B.
Tinha interpretado estas curiosas nomeações como procedimento para o afastar de um Organismo em cuja direcção não tinha sido feliz (para dizer o menos), sem lhe causar prejuízo na remuneração e beneficiando-o até.
Soube, mais tarde, que aceitara encarregar-se da Documentação, apesar de ser bem conhecido o seu carácter desorganizado.
Múrias de Queiroz, quando Director do SFM, muito prejudicara este departamento, ao fazer regressar à sua sede, em Lisboa, o diligente Agente Técnico de Engenharia Fernando Macieira, que fora o seu organizador.
Desde que Fernando Macieira deixou o SFM, não mais se publicou o relatório anual do SFM, que era um importante documento de consulta, sobretudo por entidades privadas. Era Macieira quem se encarregava de compilar os relatórios de todos os departamentos, e elaborar depois o relatório anual do SFM, que o Director subscrevia.

Demonstrando inconsciência das responsabilidades que assumia ao aceitar o cargo de dirigente de Organismo em situação caótica, onde a indisciplina se tornou regra, não se mostrava interessado no combate às causas dessa situação, alegando que, nela não tinha responsabilidades.
Fez a revelação de que iria trabalhar por projectos que entregaria a “responsáveis”, ficando ele “de fora!”.
Só teria de apreciar os projectos e controlar!
E acrescentou: “Não vim aqui para trabalhar. Isso compete aos mais novos!”!
Eu e Gaspar observamos que o difícil era encontrar no SFM “responsáveis” com competência, sabido como se tinha desprezado, nos últimos tempos, a experiência dos técnicos mais competentes, ao retirar-lhes a chefia de projectos e se não tinha estimulado a formação científica de novos técnicos.

Em tom ameaçador, declara ter carta branca de Alcides para agir com dureza, perante os que não entrarem no esquema.
Dirigindo-se a Bento, pergunta o que faria se tivesse um parafuso a estragar o movimento da caixa de velocidades. Tirava o parafuso, não era?!
Referiu-se, então, ao corte de um braço, com machado, se esse braço perturbasse!
Daqui a alcunha do “corta braços” com que logo foi baptizado

Bento, falava de viaturas e Daniel corrige, informando que o Fomento não tem viaturas. Estas pertencem agora ao Serviço de Apoio. Será este novo Serviço a distribuí-las, quando solicitadas! E Bento, que delas estava encarregado, ainda não sabia!

O grupo desintegra-se acabando por ficar reduzido a Daniel, Dr. Gaspar e eu.

Dr. Gaspar, que fora seu colega na Universidade e não estava na sua dependência, aconselha-lhe prudência nas suas atitudes, pois nota já haver muita gente assustada.
Pergunta se vai ser mais um engenheiro de papel selado.
Daniel responde que não, que é técnico e, como tal, se irá comportar.
Chama-lhe a atenção para as responsabilidades dos Engenheiros que, com a minha excepção, não trabalharam; só davam ordens, ocupando as posições de chefia.
Dr. Gaspar que é técnico laboratorial, especializado em microscopia de minérios, faz-lhe ver a necessidade de reintegrar os Laboratórios no Fomento e de combater a sua actual ineficácia, uma vez que praticamente não produzem análises.
Daniel, em atitude fanfarrona, diz que vai mesmo obter análises, mas não parece preocupado com a falta de credibilidade para que Dr. Gaspar e eu lhe chamamos a atenção...

Na sua desconexa divagação, refere sondagens projectadas, cuja finalidade lhe pareceu mal justificada e muitas sondas paradas em Vila Franca de Xira, por falta de projectos.

Comentando a situação que encontrou no Sul, Daniel diz que pôs o problema da chefia aos 3 engenheiros. (Alvoeiro, Bengala e Nolasco) e todos recusaram.
Então, na impossibilidade de ser Goinhas a dirigi-los, encarou nomear um contínuo para os chefiar!!
Ainda que proferida em tom chocarreiro, era desprestigiante tal expressão!

Fiquei, assim, a saber que não estava nos seus propósitos imediatos fazer regressar esta Brigada à normalidade, que tinha sido destruída com a minha demissão da sua chefia, provocada pelo infame documento, de que lhe tinha dado conhecimento.
Gaspar revela-lhe que esses Engenheiros estavam habituados a que eu, Rocha Gomes, lhes resolvesse os problemas, salientando que eu tinha a Brigada organizada e eles, apesar da sua mediocridade, ainda tiveram o bom senso de manter a estrutura que herdaram.

Quando se decide a ter a projectada reunião comigo, dirigimo-nos para um pequeno gabinete, que era anteriormente ocupado pelo Chefe do MOVIC, o qual o Director do Laboratório, Santos Oliveira, lhe cede para seu uso.
Santos Oliveira não tivera a deferência de convidar Daniel a usar o salão que originalmente tinha sido instituído para as reuniões do SFM.

Continua no próximo post

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

151 – O 5.º Director do SFM

Conforme referi, no post anterior, o Engenheiro Fernando da Silva Daniel, oriundo da indústria privada, esteve, durante três horas, em sala contígua ao gabinete do Director-Geral de Minas, aguardando que este o chamasse para lhe dar conhecimento do que tinha sido acordado na reunião que acabava de ter comigo.

Causou-me estranheza mais este acto de indelicadeza e desrespeito por princípios éticos elementares.

O cargo de Director do Serviço de Fomento Mineiro exigia que lhe fosse conferida dignidade correspondente às suas elevadas funções.

Em meu entender, Fernando Daniel também deveria ter sido convocado para a reunião, e deveria ter participado na análise da situação decadente em que se encontrava o SFM.
Seria de esperar que, dessa análise, resultasse uma clara definição dos projectos a cumprir e das regras a respeitar para uma eficaz execução.

Até para funcionário subalterno seria censurável tratamento igual ao que foi dispensado ao Engenheiro Daniel.
A um futuro dirigente do departamento mais importante de toda a DGGM, era inadmissível semelhante humilhação.

Perante o que descrevi no post anterior, fiquei convencido de que a decisão final de nomear o Engenheiro Daniel, para o cargo de Director do SFM, estaria dependente da minha aprovação, e Daniel disso estaria consciente.

Durante a sua curta presença no gabinete do Director-Geral, Daniel, que já se sujeitara àquele desprestigiante tratamento inicial, depressa demonstrou que talvez dele fosse merecedor.
De facto, rapidamente revelou carácter muito diferente do que eu tinha o direito de esperar, não só por ter sido escolhido para o cargo, mas também pelas boas referências que Nabais Conde me fizera a seu respeito.

Não foi um encontro franco e cordial de técnicos que encarassem, com entusiasmo, a resolução dos aliciantes problemas suscitados pela prospecção mineira.
Mais uma vez, parecia começar a confirmar-se a famosa lei de Murphy.

Como era inevitável, o tema em que eu mais insistia, na conversa a três, era a decadência, em que o SFM mergulhara, a qual tinha conduzido à demissão de Jorge Gouveia da respectiva chefia.

Grande foi a minha decepção, quando Fernando Daniel, em vez de mostrar interesse em analisar as causas de tal decadência e em introduzir as correcções que se impunham, fez o seguinte infeliz comentário, quando eu me propunha auxiliá-lo no correcto desempenho das suas futuras funções “Vemos nos outros aquilo que nós somos!”.
Interpretei que já estava negativamente influenciado por elementos nocivos da DGGM, com os quais teria contactado.

Avisei-o de que tinha que conhecer com quem iria trabalhar, salientando que, com os actuais chefes, não iria a lado algum!
Como exemplo típico, citei o caso do Geólogo de recente contratação, Luís Francisco Viegas, que apesar da sua comprovada incompetência e da indisciplina que acrescentou ao SFM, conseguiu, talvez por considerações de ordem política (gabava-se da sua militância na LCI – Liga Comunista Internacionalista) ascender a Chefe de Divisão.
Daniel reage, dizendo acreditar nos que dele faziam boas referências.
Deduzo que os seus informadores pertenceriam ao grupo de ignorantes no qual Viegas se incluía.

Num discurso desconexo, pretendeu mostrar desinteresse pelo passado do SFM, dando a entender que só o futuro o preocupava.
Idêntica atitude tinha assumido Jorge Gouveia, quando fora nomeado para o cargo, o que constituía mais um mau prenúncio.
Procurei esclarecê-lo de que o futuro teria, obviamente que ser alicerçado na experiência válida acumulada ao longo dos 40 anos que o SFM já contava. Insistiu em discordar.

Acompanhei-o até à porta do edifício de António Enes, onde me aguardava nova surpresa.
Já lhe tinha sido distribuída uma viatura Renault 4L, para seu uso pessoal, e era nela que iria regressar à sua residência em Oeiras! Privilégio sem base legal!

Na curta conversa que tivemos, antes de entrar na viatura, começou por me revelar a sua tentativa de ingressar na DGGM, na década de 70, à qual Soares Carneiro se opôs. Comentou que, nessa época, só entravam Geólogos.

Demonstrou, em seguida, que, afinal, contrariamente ao que afirmara, se interessara pelo passado do SFM, pois estava bem informado de comportamentos reprováveis de vários funcionários.

Referiu-se, por exemplo, à Secção de Vila Viçosa, onde o seu Chefe, Manuel Camarinhas, se dedicava essencialmente a trabalhos particulares, em pedreiras.
Informei o que conhecia do passado de Camarinhas, desde a longa permanência em levantamentos geológicos de deficiente qualidade, integrado na 2.ª Brigada de Levantamentos Litológicos, até ao início da actividade de prospecção mineira, integrado no 1.º Serviço, sob minha direcção, na qual mostrou dificuldade de adaptação, pois estava habituado a um regime de trabalho muito pouco exigente, acabando, porém, por constituir uma Secção verdadeiramente eficaz.

Pergunto-lhe se sabe o que fazem as Secções de Melres, Mirandela, S. João da Madeira, Aveiro e Coimbra e se tem conhecimento de passeatas de funcionários, a colher amostras com o único objectivo de justificar deslocações com direito a ajudas de custo.
Declarou conhecer bem o estado em que o SFM se encontrava, o que, de novo, me surpreendeu.
Não pude deixar de manifestar as minhas sérias dúvidas. Disse-lhe mesmo: “Você não sabe no que se meteu!”

As suas referências a técnicos superiores da DGGM eram essencialmente de ordem política, nos seus aspectos mais negativos.
Goinhas, dirigente do PSD em Beja, estava mais envolvido nos problemas do partido, que no desempenho das suas funções no SFM.
Borralho também se tinha politizado, mas em partido de esquerda, por isso, previa choques entre ambos.
De Delfim de Carvalho, realçava a pressa em se filiar no Partido Socialista.
Só muito mais tarde, tomei conhecimento de que, afinal, também a nomeação de Daniel obedecera a favorecimento político. Teria sido Mota Pinto, que chegara a exercer o cargo de Primeiro-Ministro, quem o recomendara para Director do SFM.

Comentou, ironicamente, que a Direcção-Geral de Minas actuava em benefício de Soares Carneiro, fazendo “uns trabalhos de prospecção”.
Conseguindo manter-me calmo, perante tão insensata depreciação da principal actividade do SFM, expliquei-lhe que os trabalhos de prospecção por mim dirigidos faziam a admiração de estrangeiros, e nunca tinham sido orientados para proveito de Soares Carneiro; mas sim em defesa dos reais interesses do País.
Por ser notório que nunca trabalhei para agradar a dirigentes; tive permanentes dificuldades na Direcção-Geral.

Falando-se da exposição dos 25 funcionários contratados da 1.ª Brigada de Prospecção que conduziu à minha demissão da chefia desta Brigada, atribuiu o principal papel ao Geólogo Goinhas, mas não manifestou repulsa pelo acto, nem disposição para corrigir a situação que me foi criada pelo calunioso documento.
Para que se tornasse possível a realização de trabalho útil, no SFM, era essencial sanear o ambiente, enfrentando corajosamente os problemas suscitados por aquela sórdida exposição.
E não parecia que Daniel tivesse tal disposição.
Ele colocava-se numa posição subalterna, de ex-infeliz companheiro de trabalho de Goinhas e, daquele grupo de 25 funcionários, só este Geólogo o preocupava.
Tinha tido, com ele, sérios problemas, quando ambos estiveram contratados pela Compagnie Royale Asturienne des Mines, durante as investigações desta Companhia nas Minas das Preguiças em Moura e parecia agora disposto a retaliar.

Abordando o tema de Neves – Corvo, diz que Soares Carneiro apresentava Delfim – o seu delfim – como o autor da descoberta, mas ele atribuía-a ao Geólogo Nabais Conde, assim demonstrando total ignorância, quanto ao fundamental papel do SFM neste sucesso.
Informei-o da entrega da área, sem eu ter sido consultado, a uma Associação privada, quando a anomalia gravimétrica, que era a assinatura do jazigo, estava quase totalmente definida. Não pareceu, porém, acreditar tratar-se de um êxito essencialmente do SFM.

Não notei, em Daniel, capacidade para exercer, com eficácia e dignidade, as funções em que iria ser investido.

Apesar desta desagradável apresentação, mantive a esperança de poder esclarecê-lo, quanto às medidas indispensáveis para fazer sair o SFM da deplorável situação em que se encontrava.
Ficou combinado um encontro, talvez em S. Mamede de Infesta, dentro de 2 a 3 semanas, para mais ampla análise da situação do SFM e para definir o papel que eu deveria desempenhar, nesta fase da minha carreira profissional,
Não mostrava pressa, o que continuava a não ser de bom augúrio.

Continua …