terça-feira, 22 de novembro de 2011

187 – Um novo Plano Mineiro Nacional. Continuação 11

Investigar a história da prospecção mineira em Portugal e, a partir dos seus ensinamentos, aperfeiçoar novos estudos, com vista ao correcto inventário dos nossos recursos minerais e ao racional aproveitamento destes, não é tarefa fácil.

O Geólogo José Goinhas, que já tinha evidenciado carácter desleal, no desempenho de funções, no âmbito da prospecção mineira, em sectores muito limitados do SFM (Ver post N.º 88), não era, obviamente, pessoa de quem pudesse esperar-se honestidade e capacidade para tão exigente tarefa.

Na vaga de assaltos a cargos de chefia, criados pelo Decreto-lei N.º 548/77, conseguira conquistar a posição de Director de Serviço e vira confirmada essa categoria, por despacho do Ministro da Indústria e da Energia de 26-1-1981, publicado no Diário da República de 1-4-1981.

À semelhança do que acontecera com outros assaltantes, a Goinhas também não correspondiam funções justificativas da sua nova categoria.

Constou ter-lhe sido atribuída, “clandestinamente” a Prospecção Mineira.
“Clandestinamente”, porque não foi divulgada a respectiva Ordem e porque eu não fui convidado a transmitir-lhe o departamento de Prospecção, que continuei a dirigir, cabendo-me, todavia, apenas a categoria de Assessor!!!

Talvez essa simbólica atribuição tenha motivado a incumbência de historiar a prospecção!

É certo que Jorge Gouveia, na sua nova e efémera passagem pelo SFM, agora na qualidade de seu dirigente máximo, a que surpreendentemente lograra alcandorar-se, chegou a fazer-me a afronta de despachar para Goinhas, documento em que o perverso Viegas, solicitava que pessoal da Secção de Talhadas, de mim dependente e que havia sido por mim preparado, fosse executar trabalhos para os quais não se sentia competente.

Viegas, no tsunami de assaltos, tinha conseguido o cargo de Chefe de Divisão, e já se havia apropriado da Secção fantasma de Coimbra, da qual se não conhecia actividade útil.
De facto, tinham já sido dados por terminados os trabalhos na antiga Mina de Barbadalhos, que tinham sido apresentados como justificativos da criação dessa Secção. (Ver post N.º 103).
Goinhas teve a ousadia de despachar favoravelmente a pretensão de Viegas!!!

É oportuno lembrar que Gouveia, quando exercia funções em Moçambique, tendo ficado impressionado com a Comunicação que eu apresentara, em 1965, naquela província ultramarina, sobre notáveis êxitos de várias técnicas de prospecção mineira, nas regiões de Portel e de Barrancos, se deslocara, propositadamente, à Metrópole, para me pedir auxílio na preparação de estágios de funcionários dos Serviços de Geologia e Minas de Moçambique, nas técnicas de prospecção que eu tinha introduzido no SFM. (Ver posts N.º 20 e N.º44)

Em ocasião, em que eu manifestava a Gouveia a minha profunda decepção pelo inconcebível comportamento que passou a adoptar para comigo, na qualidade de meu superior hierárquico, a justificação que apresentou foi apenas a seguinte: “Rocha Gomes, teve que ser assim!!!!
E disse mais: Goinhas estava indigitado para o cargo de Director-Geral, que se encontrava vago, devido à exoneração de Soares Carneiro!!!

Mas Goinhas não teve coragem de assinar o seu documento na qualidade de Director do Serviço de Prospecção.
Surpreendeu-me que o tivesse assinado com a categoria de Assessor.

Ao aceitar o encargo de historiador e conselheiro, demonstrou bom conhecimento do ambiente que dominava a DGGM, propício à irresponsabilidade e à desonestidade.
Não se preocupou em analisar com seriedade os temas de que se ocupou.
Tal atitude seria desnecessária e até poderia conduzir à divulgação de factos desprestigiantes sobretudo para o Director-Geral de Minas.

Em posts anteriores, já revelei algumas deficiências do documento.

Vou prosseguir na minha análise, sem pretender esgotar o manancial de erros, omissões e deturpações que contém.

Regressando à fase de aplicação de métodos geofísicos e geoquímicos, ocorrem-me ainda os seguintes comentários:

a) Sendo o objectivo historiar a prospecção mineira, seria natural que tivesse realçado a persistente luta que eu tive que travar, para que os “serviços oficiais” se encarregassem de aplicar os métodos geofísicos e geoquímicos, directamente, evitando o oneroso recurso a empresas especializadas estrangeiras.

Não é referido, por exemplo, que um Director do SFM que se manteve no cargo durante 15 anos, considerava injustificada a aquisição de um gravímetro, pois, em sua opinião, exigiria elevado dispêndio e não teria utilidade fora da Faixa Piritosa, além de não julgar fácil dominar esta nova técnica.
Quando finalmente, ao fim de 10 anos, se conseguiu começar a aplicar a gravimetria, a atitude modificou-se e o Director passou a considerar isso banal!
Confirmou-se, mais uma vez, que “Santos da casa não fazem milagres”.

É só quase a terminar o seu documento, que Goinhas apresenta quadro informativo dos equipamentos de prospecção adquiridos pelos “serviços oficiais”.

Tinha inserido, anteriormente, mapas das áreas do País, onde até à data do documento, - abrangendo, portanto um período muito mais amplo que o do quinquénio 1980-84 - tinham sido usados alguns desses equipamentos.
Não estabeleceu, porém, a correlação entre essa aplicação e os notabilíssimos êxitos alcançados pelo SFM.

Conforme já tive oportunidade de acentuar, Goinhas assumiu a incrível atitude de aceitar e até elogiar a usurpação, por empresas privadas, dos grandes sucessos do SFM, na Faixa Piritosa Sul-Alentejana.

Só encontro explicação, para tão indecorosa atitude, na dificuldade em conciliar a verdade dos factos com as afirmações contidas em documento, que subscreveu, reclamando a punição do principal responsável por esses êxitos.

Mas Goinhas não se contentou com a desvalorização da actividade do SFM na Faixa Piritosa.

Ignorou completamente a aplicação intensiva do método electromagnético Turam, em todas as Secções da Brigada do Sul do SFM (Montemor-o-Novo, Évora, Moura e Barrancos, Cercal - Odemira e Castro Verde – Almodôvar), na década de 50 do passado século, com resultados de muito interesse, sendo de realçar a espectacular definição do sistema filoniano de Aparis, em Barrancos.

Também optou por ignorar o extraordinário sucesso obtido pela aplicação de várias técnicas geofísicas e geoquímicas, na região de Portel, em área que abrange a antiga Mina de Algares.

Informação detalhada sobre estes e outros sucessos, como os dos jazigos de minérios de ferro de Moncorvo, Alagada (Elvas) e de Vale de Pães (Cuba-Vidigueira), encontraria nos chamados “relatórios internos”.

E relativamente aos casos de Algares de Portel e de Aparis, até encontraria ampla informação, em publicação da “Sociedade de Estudos” de Moçambique, pois este Organismo oficial publicou a comunicação que lá apresentei, quando fui encarregado de representar a Metrópole nas Jornadas de Engenharia que lá se realizaram em 1965.

b) Não realça, a fundamental importância da preparação académica dos engenheiros de minas e dos geólogos, nas técnicas da prospecção mineira (geológicas, geofísicas e geoquímicas) para o bom desempenho das tarefas de investigação neste domínio que lhes viriam a ser confiadas.

Não reconhece, portanto, a atitude louvável do Departamento de Geologia da Faculdade de Ciências do Porto, ao decidir, em 1970, colmatar a grave lacuna que existia, nesse âmbito, na preparação dos seus alunos, futuros geólogos.

Foi esse departamento que, por reconhecer a minha experiência em prospecção mineira, teve a iniciativa de me convidar, para o ensino teórico e prático da cadeira de Prospecção Mineira, que passou a fazer parte do curso de Geologia.

Não reconhece, também, o mérito do Departamento de Engenharia de Minas da Universidade do Porto, ao assumir idêntica atitude, nem o mérito da Universidade de Aveiro ao instituir o Curso de Engenheiros-Geólogos.

Não menciona, portanto, a colaboração de professores e alunos destas Universidades nos trabalhos do SFM.

Nem, obviamente, ousaria denunciar a flagrante contradição entre promessas de colaboração com as Universidades, que o Director-Geral de Minas, Alcides Pereira, fez publicamente e os obstáculos que, na realidade, criou para dificultar o ensino que nelas se praticava. (Ver post N.º 160)

c) Revela completa ignorância sobre a instituição do “Agrupamento Português de Prospecção Geofísica”, no qual participaram Organismos do Estado, onde se aplicavam métodos geofísicos, relacionados ou não com actividades mineiras.

Foi, através de reuniões deste Agrupamento, realizadas principalmente no LNEC (Laboratório Nacional de Engenharia Civil) que se tomou conhecimento da existência de cartas magnéticas e gravimétricas, à escala de 1:500 000, cobrindo todo o território metropolitano nacional, elaboradas pelos Serviços de Meteorologia e Geofísica e pelo Instituto Geográfico e Cadastral, as quais embora não tenham tido objectivos mineiros, forneciam guias não despiciendos para a selecção de áreas a prospectar prioritariamente.

d) Não refere a oferta de colaboração da OCDE, no uso de “Métodos modernos de prospecção” e a incapacidade de aproveitar esta oferta, dando sequência a um projecto de prospecção aérea que lhe foi apresentado e que merecera o melhor acolhimento. (Ver post N.º 22)

e) No seu longo texto e na sua extensa lista de livros, artigos de revistas, relatórios “internos”, que disse ter consultado, nem uma palavra consta acerca da aplicação de técnicas geofísicas ou geoquímicas à prospecção de petróleos.

É, de facto, mais uma grave lacuna, pois se trata de matérias-primas minerais, que apenas têm a peculiaridade de serem líquidas e não constituem excepção, pois também o mercúrio nativo é líquido.
Desnecessário é acentuar a importância que a prospecção de petróleo tem tido no País, desde recuados tempos.
A Revista “Estudos, Notas e Trabalhos do Serviço de Fomento Mineiro” contém artigos muito desenvolvidos sobre a história desta prospecção, que Goinhas poderia e deveria ter consultado.
Contém, além disso, nos relatórios anuais, quando eles ainda eram publicados, detalhada informação sobre o acompanhamento que o SFM fazia dos trabalhos que Empresas privadas realizavam, por contrato com o Estado.
Dentre os trabalhos por técnicas geofísicas, destaca-se a aplicação dos métodos sísmico e gravimétrico, cujos resultados revelam também a existência de outros minérios, de que é exemplo o grande jazigo de sal-gema de Loulé.

f) Na sua análise, não inclui os recursos aquíferos do sub-solo nacional.

É certo que a prospecção destes recursos nunca fez parte dos programas do SFM.

Mas é também certo que, em 12-1-75, aproveitando oportunidade, que me foi dada, de apresentar sugestões para a reestruturação do Organismo encarregado de proceder ao inventário dos recursos minerais do País, propus a criação de um “Instituto Geológico e Mineiro”, cujo campo de acção abrangesse todas as substâncias minerais, nelas se incluindo os minerais metálicos e não metálicos, rochas, águas subterrâneas mineralizadas ou não, petróleos e gases naturais, situados nas áreas emersa e imersa do domínio nacional. (Ver post N.º 78)

A razão de ser desta proposta era o facto de, em todos os locais do Alentejo, onde o SFM efectuara trabalhos de prospecção por métodos eléctricos e electromagnéticos, terem sido detectadas indicações da presença de água, a escassa profundidade, a qual se tornara boa condutora da electricidade, devido aos sais contidos em solução.
Para este assunto, chamei a atenção, por cartas de Março de 2002, ao Presidente da Comissão Regional do Alentejo e ao Presidente do Instituto Geológico e Mineiro, quando ia ser realizado, em Évora um Congresso dedicado às águas subterrâneas. Não obtive qualquer resposta

Por outro lado, em trabalhos mineiros (sanjas, galerias, poços), cuja execução planeei e dirigi, no Alentejo, a presença de água foi uma constante, chegando a impedir, pelos seus elevados caudais, o prosseguimento dos estudos e até tornando impeditiva a exploração de um jazigo.
Foi o caso das Minas da Serra da Preguiça, em Moura, onde o SFM teve que suspender a sua actividade, por não dispor de equipamentos para vencer os caudais encontrados e, onde posteriormente a Compagnie Royale Asturienne des Mines (CRAM) teve que tomar idêntica atitude, apesar de ter usado meios muito mais poderosos.

Esta Companhia chegou a apresentar proposta de colaboração à Junta de Colonização Interna, para aproveitamento de tamanha riqueza, que para ela constituía óbice à futura exploração das reservas evidenciadas. Não obteve qualquer resposta, segundo me informou o Geólogo Michel Ansart da CRAM e esta Companhia não teve alternativa senão abandonar a Região, onde havia realizado trabalhos de elevada qualidade. (Ver post N.º 4)

A água, em zonas dela carecida, como era o Alentejo, antes da construção das grandes barragens, além de ser um valioso sub-produto da prospecção de outras substâncias, poderia e deveria ser objecto de investigação directa, por essas mesmas técnicas.

Continua …

terça-feira, 25 de outubro de 2011

67 A – Carta aberta ao Senhor Ministro da Economia, em 25-10-2011

Senhor Ministro da Economia

Acerca da notícia divulgada por diversos meios de comunicação social, relativamente à exploração do jazigo ferrífero de Moncorvo, tomo a liberdade de sugerir a V. Ex.ª a consulta do post N.º 67 do blog vivenciasmineiras.blogspot.com que iniciei em Agosto de 2008.

Acreditando que, desta vez, a exploração vai, de facto, arrancar, a sério, ouso perguntar se estão previstas instalações metalúrgicas, no País com dimensão adequada às reservas do jazigo (reveladas e a revelar) ou se vamos continuar a comportar-nos como País terceiro-mundista, que exporta minério, a preço baixo, e importa produtos dele derivados, a preços elevados.

Se foi possível instalar a siderurgia do Seixal e se esteve prevista a sua amplificação e até a instalação de dois novos altos-fornos, em Sines, o País espera que se siga o exemplo da iniciativa de Champalimaud, pois será, através do racional aproveitamento dos nossos recursos, que poderemos sair da crise que tanto nos afecta.

Lembro que este objectivo constou de diversos diplomas legais, de que são exemplos a Lei de Minas de 1930 e o Decreto-lei de criação do Serviço de Fomento Mineiro, com data de 1939.

Apresento a V. Ex.ª os meus cumprimentos

terça-feira, 27 de setembro de 2011

186 – O novo Plano Mineiro Nacional. Continuação 10, com reflexões sobre Neves – Corvo.

Para a elaboração de um “Plano Mineiro Nacional”, que o IX Governo Constitucional mandou apresentar, em 1984, a fim de serem resolvidos graves problemas, com que se debatia a nossa indústria mineira, foram nomeadas Comissões compostas por personalidades supostamente idóneas para tal missão.

Foram entregues 22 monografias sobre as substâncias minerais e sobre os grandes projectos mineiros e um estudo intitulado “perfil da indústria extractiva”.

O Secretário de Estado da Indústria e Energia elogiou os autores e até se mostrou agradecido (!), apesar de o Plano não ter sido concluído, durante a vigência do Governo em que participava.
Considerou que tudo tinha sido feito para que o Plano surgisse durante a vigência do Governo seguinte, o que, de facto, não viria a acontecer, pois foi caindo no esquecimento, porque afinal se revelava desnecessário e inoportuno.

Dentre todas as monografias, foi seleccionado para publicação, no Boletim de Minas, o documento subscrito pelo Geólogo José Goinhas, com o título “Prospecção Mineira em Portugal. Áreas potenciais para aplicação de projectos”.

Nos 8 posts anteriores (178 a 185), iniciei a análise deste audacioso documento.
Tive oportunidade de chamar a atenção para alguns dos escandalosos erros que dele constam, referentes a estudos, nos quais tive directa intervenção, durante os 30 anos de actividade em prospecção mineira no SFM, que eu contava, à data desta publicação.

Procurando dar alguma ordem a esse atabalhoado documento, analisei já as fases da prospecção, que precedem a aplicação de técnicas geofísicas e geoquímicas.

Relativamente a esta última fase, analisei no post anterior, com algum pormenor, o caso da descoberta do jazigo de Neves-Corvo, salientando a fundamental importância que nele teve a técnica gravimétrica.

Agora vou estabelecer o confronto dos “meus esforços" nos serviços oficiais (SFM), com os "esforços complementares" (assim classificados por Goinhas) de Xavier Leca, na Associação privada, em que estava integrado.

Analisarei, seguidamente, o que teria acontecido, sem a intervenção desta Associação.

Finalmente, confrontarei o mérito superiormente reconhecido a ambos estes esforços.


1 – Confronto de esforços

1.1 – Os meus esforços no SFM

Foram as seguintes as fases da prospecção cumpridas, com minha supervisão e activa participação:

1.1.1Em 1945-46:

No desempenho das funções de Chefe de uma Brigada instituída em Agosto de 1944, com o objectivo de descobrir novas concentrações de minério, na Faixa Piritosa Sul-Alentejana, propus que fossem efectuadas investigações geológicas, em toda a Faixa, para se localizarem e implantarem, em cartas à escala de 1:50 000, os afloramentos de rochas eruptivas idênticas às que habitualmente acompanham os jazigos de pirite, pois esta fundamental fase da prospecção estava por cumprir.

Tendo a minha proposta merecido bom acolhimento, foi organizada uma Brigada, e foi em resultado da sua actividade que se localizaram as grandes manchas de rochas vulcânicas da Região de Castro Verde – Almodôvar, anteriormente desconhecidas e, portanto, não incluídas na tradicional Faixa Piritosa Sul-Alentejana. (Ver Posts N.º 5 e 8)

1.1.2Em 1947:

Em Novembro de 1947, planeei a investigação da zona de Castro Verde - Panoias.
Eu próprio me encarreguei de iniciar a piquetagem preparatória das observações, que iriam ser feitas, usando o método electromagnético Turam.
Fiz passar o eixo dos xx (base 0) pelos vértices Monte do Serro 1.º e Tosquiado, distantes de 13 km entre si e o eixo dos yy (linha 0) pelo vértice Águia 2.º.

Foram iniciadas as observações, sob a minha supervisão, mas em Janeiro de 1948, fui nomeado Chefe da Brigada do Sul, que se dedicava essencialmente a trabalhos de pesquisa e reconhecimento em minas concedidas ou abandonadas. (Ver post N.º 5 e 6).

Por esse motivo transmiti a Brigada de Prospecção Eléctrica (BPE) ao Engenheiro Fernando Silva, que eu previamente tinha instruído na aplicação do método Turam.
Mantive, todavia, contactos regulares com esta Brigada.

1.1.3 Em 1951 – 1955:

Apesar dos meus frequentes contactos com a BPE, não consegui impedir que o Director do SFM, nomeado após o falecimento do dinâmico Engenheiro António Bernardo Ferreira, ordenasse o termo dos estudos na Faixa Piritosa, antes de terem sido prospectadas todas as zonas, que os levantamentos geológicos, referidos em 1.1.1, tinham revelado com potencialidade para a ocorrência de jazigos de pirite.

Não foi inteiramente prospectada a zona de Castro Verde – Almodôvar e ficaram por estudar as zonas de Alçaria Ruiva e Albernoa, nas quais os levantamentos geológicos tinham evidenciado a presença de rochas vulcânicas.
Ficou também por investigar a Bacia Terciária do Sado, onde o método electromagnético Turam se revelara ineficaz.

O Engenheiro Guimarães dos Santos, na qualidade de Director do SFM, em que fora investido, manifestava constante preocupação de dar por terminados estudos que se encontravam em curso, ainda longe de terem sido exploradas potencialidades, por vezes inicialmente imprevistas, que se iam evidenciando. (Ver post N.º 7)

Após a extinção da BPE, no cumprimento das minhas funções de chefia de uma Brigada de âmbito regional, que tinha a seu cargo a investigação das existências de jazigos minerais, no território metropolitano nacional, a sul do Rio Tejo, passei a incluir nos Planos de Trabalho, que anualmente submetia a apreciação superior, a continuação das investigações na Faixa Piritosa Sul-Alentejana.

Desde 1951, fui sistematicamente chamando a atenção, nesses Planos, quanto a premente necessidade de privilegiar, não só o aperfeiçoamento dos levantamentos geológicos mas também a aplicação de técnicas geofísicas e geoquímicas e sondagens, nas investigações a cargo da Brigada, embora não excluísse e até promovesse grande desenvolvimento dos trabalhos mineiros clássicos (sanjas, galerias, poços).
Com esta atitude, pretendia atingir, mais rapidamente e a menor custo, os objectivos previstos no Decreto-lei de criação do SFM.

Nesses Planos, figuravam novos estudos geológicos na região de Almodôvar.
O Director do SFM encarregou a 2.ª Brigada de Levantamentos Litológicos (2.ªBLL), que era chefiada por um funcionário com a categoria de Geólogo, de proceder à sua realização.
Todavia, os estudos desta 2.ªBLL foram de muito fraca qualidade, nada tendo contribuído para as fases seguintes.
Ocorriam-me palavras do prestigiado Professor Carlos Teixeira:
“Não basta, para ser Geólogo, ter um diploma, seja ele de licenciatura em Ciências Geológicas ou de Engenharia de Minas, ou qualquer outro. Muito menos, basta ter feito exame de umas tantas cadeiras respeitantes às Ciências Geológicas.
É necessário para merecer o nome de Geólogo, possuir não só amplos conhecimentos teóricos, mas também uma longa prática de trabalhos sobre o terreno”.

Procurei colmatar a lacuna, com novos levantamentos, muito mais pormenorizados, sobre base topográfica à escala 1:5 000, sob a directa orientação de dois Engenheiros da Brigada do Sul (eu e o Engenheiro que tinha chefiado a 1.ª BLL).

1.1.4Em 1955:

Em Abril de 1955, apresentei um relatório intitulado “Prospecção de Pirites no Baixo Alentejo”, no qual descrevia a campanha de prospecção pelo método electromagnético Turam, levada a cabo, pelo SFM, no período de 1944-49, na Faixa Piritosa Sul-Alentejana e seus resultados, acrescentando em capítulo final, um programa de trabalhos para dar continuidade aos estudos desta Faixa, que considerava apenas iniciados.

Este relatório, totalmente por mim elaborado, foi publicado no Volume X da Revista do SFM, figurando como co-autor, a meu convite, o Engenheiro Fernando José da Silva, por serem da sua responsabilidade os levantamentos geológicos que conduziram à implantação das manchas de rochas vulcânicas inseridas numa das peças desenhadas e por ter sido ele quem ficou a chefiar a Brigada de Prospecção Eléctrica (BPE), quando eu fui indigitado para chefiar a Brigada do Sul. (BS) (Ver post N.º 11).

No programa de trabalhos, chamei a atenção para a importância da Região de Castro Verde – Almodôvar, nos seguintes termos:

“A área de Almodôvar a investigar não é, senão, a continuação para sudoeste da de Castro Verde - Panoias.
Não há, efectivamente, motivo ponderoso para não prosseguir a prospecção desta zona, antes de se abrangeram, na sua totalidade, as manchas de pórfiros e de se incluírem os filões de cobre que, em grande densidade aqui ocorrem, parecendo constituir uma região cuprífera digna de atenção. A sua litologia foi já sumariamente estudada pelo Serviço, com o objectivo primacial de demarcar as manchas de pórfiros.”

Considerei fundamental que esse programa fosse cumprido por técnicos portugueses que tivessem adquirido a necessária especialização em geologia aplicada e prospecção geofísica e geoquímica, conforme prevê o Decreto-lei de criação do Serviço, só aceitando a intervenção de técnicos estrangeiros, como consultores ou em execução de campanhas de curta duração, principalmente com o propósito de proporcionar instrução a pessoal português.

1.1.5Em 1955 -1962:

Nos Planos de trabalhos da BS que apresentei, durante este período, continuei a dar grande realce à gravimetria.
Não tendo tido sucesso as minhas insistentes propostas para que o SFM desse início à aplicação desta promissora técnica, pensei aproveitar a excelente oportunidade que se me ofereceu, quando a Empresa Lea Cross Geophysical Company que actuava, em 1961, na Mina de S. Domingos, utilizando variadas técnicas, entre as quais a gravimétrica, me solicitou a indicação de um Geólogo ou Engenheiro de Minas para colaborar nos seus trabalhos.

Logo contactei o recém-licenciado em Engenharia de Minas Marques Bengala, que acabara de ser destacado para a Brigada de Prospecção Geofísica (BPG), estimulando-o a ir colaborar com a Lea Cross, aprendendo as técnicas que a Companhia estava a usar.
Apesar de não ter demonstrado o mínimo entusiasmo, não teve coragem para rejeitar a oportunidade rara que eu lhe oferecia de se especializar em técnica de grande futuro (Ver post N.º 14).

De imediato, elaborei proposta, que apresentei ao Chefe da BPG, para que ele, se concordasse, a enviasse ao Director do SFM, como se tivesse sido de sua iniciativa.
O Director do SFM, certamente pensando que a proposta era, de facto, da iniciativa do Chefe da BPG, deu o seu acordo.

O estágio foi iniciado e teve o meu constante apoio.
Nas minhas frequentes deslocações à Secção de Moura e Barrancos, a cujo cargo decorriam na Mina de cobre de Aparis, sob minha supervisão, importantes trabalhos de reconhecimento, fazia o meu regresso a Beja com passagem pela Mina de S. Domingos, para avaliar da evolução deste estágio.

Terminado o estágio, o Director do SFM aceitou, finalmente que fosse adquirido um gravímetro!!
Tinham passado 10 anos sobre a data da minha primeira referência à necessidade de aquisição deste aparelho!!!

Iniciaram-se, então, campanhas de gravimetria, em áreas já seleccionadas para sua aplicação, muitas das quais exteriores à Faixa Piritosa Sul-Alentejana.

Ainda no âmbito da BPG, tive a surpresa de constatar que Marques Bengala tinha tirado insuficiente proveito do seu estágio.
Não sabia fazer nivelamentos geométrico e como também não havia na BPG quem se desembaraçasse nesse simples trabalho de topografia, tive que me encarregar de ensinar pessoal assalariado da BPG a fazer esta operação, essencial para as correcções a introduzir nas leituras feitas no gravímetro.

Como eu tinha identificado uma extensa Faixa, idêntica à Faixa Piritosa, a Norte desta, com ocorrências de sulfuretos sobretudo de zinco, coincidente com a Faixa de magnetites anteriormente conhecida, não resisti a verificar o seu interesse, começando por ela a aplicação da gravimetria.
Foi na Mina de pirite da Herdade da Caieira em Montemor-o-Novo, que mandei fazer a primeira aplicação, para procurar confirmação de intensa anomalia electromagnética que ali se havia registado. Não se obteve essa confirmação. A anomalia electromagnética era originada por xisto negros, carbonosos, com rara pirite disseminada.

1.1.6Em 1963-66:

Numa reorganização que se verificou no SFM, eu fui designado para chefiar um departamento designado por 1.º Serviço, com o encargo de proceder à prospecção do território metropolitano nacional.
Logo passei a desenvolver todas as técnicas geofísicas, dando especial relevo à gravimetria.
Foi adquirido um 2º gravímetro, o que permitiu atacar, simultaneamente, a Faixa Magnetítica e Zincífera e a Faixa Piritosa.
Na primeira, foi feita aplicação na área da antiga Mina de Algares de Portel, obtendo-se um espectacular resultado (Ver post N.º 44).
Também se aplicou nas Minas da Serra da Preguiça em Moura.

Na Faixa Piritosa Sul-Alentejana, além de definir, com muito mais clareza, as anomalias sobre os jazigos de Carrasco – Moinho e Feitais, a ponto de conseguir avaliar, com o seu apoio, as reservas destes jazigos, promovi as descobertas dos jazigos de Estação e Gavião, também em Aljustrel, às quais tenho feito frequentes referências (Ver posts N.º 35 e 36).

1.1.7Em 1966-71:

Em 1965, começaram a aparecer empresas e grupos empresariais a manifestar interesse em fazer investimentos em Portugal, com vista à futura exploração de jazigos minerais.

Embora o SFM se encontrasse já preparado para cumprir os programas de prospecção para que tinha sido criado, o Director-Geral, Fernando Soares Carneiro, então em exercício, acolheu bem este interesse.
Foi para a Faixa Piritosa Sul-Alentejana que se celebraram os principais contratos, por negociação directa com as entidades interessadas.

Em 1966, foi adjudicada a quase totalidade da Faixa. O SFM apenas manteve, para estudos nesta Faixa, uma pequena área envolvente das Minas de Aljustrel, onde tinha em curso campanha de prospecção com aplicação privilegiada da técnica gravimétrica.

Ao grupo empresarial “Mining Explorations (International) (MEI)” foi adjudicada uma vasta parcela de cerca de 4 000 km2, que abrangia a grande mancha de rochas vulcânicas de Castro Verde – Almodôvar (Ver post N.º32)

Na qualidade, em que fui investido, de representante do Estado junto de MEI, tive uma participação muito activa no planeamento dos seus trabalhos, justificado pela minha longa experiência no estudo desta Faixa.
Foi grande a minha insistência para que a Companhia desse preferência à aplicação da técnica gravimétrica, à execução de sondagens com escasso apoio geofísico e desse a devida atenção à região de Castro Verde – Almodôvar, considerando a elevada potencialidade desta região, para a ocorrência de minérios cupríferos.
Cheguei a elaborar um relatório chamando vigorosamente a atenção da Companhia para estas minhas recomendações.
Uma cópia de tal relatório está anexa ao meu relatório do mês de Março de 1968.

Todavia a MEI, pressionada pela escassez de tempo e dos meios que tinha consignado ao estudo de tão vasta área, não deu a devida atenção às minhas recomendações.
Deixou caducar, em 1971, o seu contrato, sem ter conseguido qualquer êxito.
Perdeu, assim, a oportunidade de descobrir Neves – Corvo.

Sobre a importância que sempre atribuí à gravimetria, é bem esclarecedor o que escrevi, em documento de 25 páginas dactilografadas, subordinado ao título “Prospecção de pirites no Baixo Alentejo. Breve história, com especial relevo para a região de Aljustrel. Minha posição neste problema” que, por motivos expostos no meu post N.º 35, enviei, em 1 de Março de 1968, ao Director-Geral de Minas.

Dele destaco as seguintes afirmações:
“No plano para 1952, apresentado em 8-6-1951, escrevemos, a página 6, a propósito da Bacia Terciária do Sado”:
Prováveis campanhas de prospecção sísmica e gravimétrica executadas separadamente ou em conjunto, com vista à detecção de massas de pirite”

“Nos planos de trabalho posteriores a 1955, em relatórios anuais e em informações, continuamos a insistir na necessidade da prospecção gravimétrica e de outros métodos, para a localização de jazigos de pirite.
Foi pregar no deserto, durante longos anos.

“Se tivesse dada sequência aos programas propostos pela Brigada do Sul, desde 1951,… provavelmente todas as descobertas em Aljustrel, nos últimos 20 anos, teriam sido obra do Serviço de Fomento Mineiro”

Premonitoriamente, chamei ainda a atenção para os êxitos que estariam para surgir.

Fui informado, pelo Engenheiro Adjunto do Director-Geral, que este não apreciou tal documento e, por isso, nem sequer lhe deu entrada!.
Todavia, eu inseri-o, como anexo, ao meu relatório do mês de Março de 1968 e ao anual de 1968.

1.1.8 - Em 1971 – 1972:

Conforme revelei, no post N.º 33, quando MEI abandonou a vasta área que lhe esteve adjudicada, o Serviço de Prospecção do SFM, sob minha direcção, deu imediatamente início a campanha de prospecção gravimétrica de uma área de cerca de 100 km2, abrangendo a Mina do Cerro do Algaré e várias outras ocorrências cupríferas que tinham originado pequenas explorações mineiras, em épocas anteriores.

Quando esta campanha se encontrava em curso e já estava revelada grande parte da anomalia que viria a dar origem
à descoberta do jazigo de Neves – Corvo, fui surpreendido pela adjudicação da totalidade da área anteriormente atribuída a MEI, a um Grupo empresarial, com forte participação de capitais franceses.

Nos termos contratuais, logo dei conhecimento dos resultados que estávamos a obter na área de 100 km2 onde então incidia a nossa actividade de prospecção.

O Grupo empresarial deu imediata continuidade à campanha gravimétrica, nessa parcela de 100 km2, definindo completamente a anomalia.

Passou, seguidamente, à fase de sondagens.

Deu por terminada a sondagem N.º 1, ao atingir a profundidade de 200 metros, por interpretar que já tinha sido ultrapassado o nível estratigráfico, onde se localizaria jazigo de pirite, se existisse.
Passou a investigar outras zonas da vasta área que lhe fora adjudicada.

Surpreendido com esta decisão ainda chamei a atenção dos técnicos do Grupo Empresarial, para a sua atitude precipitada, dizendo-lhes que deveriam ter continuado a perfuração, uma vez que não estava explicada a anomalia gravimétrica.

Tal como aconteceu, várias vezes com MEI, também este Grupo Empresarial se não mostrou impressionado com as minhas reflexões. Nele predominavam Geólogos, sem sensibilidade para dar a devida importância aos resultados gravimétricos.

1.1.9Em 1972 – 1978:

O Grupo Empresarial, que se auto-denominou de Sindicato, andou durante cerca de 5 anos “perdido” sobretudo na região de Mértola, sem quaisquer resultados encorajantes.

Entretanto, ocorreu a Revolução de 25 Abril de 1974 e, como já revelei, alguns oportunistas interpretando no pior sentido as liberdades conquistadas, conseguiram afastar-me da direcção dos estudos no Sul do País (Ver post N.º 83).

Aconteceu que, em 5 de Abril de 1977, encontrei na Universidade de Aveiro, o Geólogo Xavier Leca do Sindicato que, tal como eu, tinha ido assistir a palestras sobre tectónica de placas. (Ver post N.º 37)

Ainda interessado sobre os problemas da Faixa Piritosa, perguntei-lhe que zona da vasta área que lhe estava adjudicada estavam a estudar.

À sua resposta de que tinham regressado à zona da grande anomalia gravimétrica onde tinham realizado a sondagem N.º 1, estando já em curso a sondagem N.º 2, tive a seguinte reacção textual: “Os meus parabéns! Se a área regressasse para estudo pelo SFM e eu ainda estivesse nas funções de Chefe da 1.ª Brigada de Prospecção, era para essa zona que eu voltaria imediatamente”. Noto que a validade do contrato do Sindicato, com o Estado, estava prestes a expirar.

Esta curta conversa, em intervalo das sessões, terminou por terem sido reiniciadas as palestras.

Em 20 de Maio de 1977, pelas 20 horas e 30 minutos, recebi telefonema do Geólogo Nabais Conde do Quadro de Técnicos do Sindicato, informando-me que a sondagem N.º 2 tinha começado a cortar jazigo de pirite, estando nessa data já com 20 metros em minério que se mostrava com boa percentagem de calcopirite.

Pretendia saber se tinham sido os Geólogos do SFM a escolher a área para ser prospectada por gravimetria.

Informei-o que não, que tinha sido sempre eu quem acreditara nos bons indícios representados pelas ocorrências cupríferas de Algaré, Barrigão, Brancanaes e Porteirinhos, e nas potencialidades de um ambiente geológico idêntico ao da tradicional Faixa Piritosa revelado pelo SFM na década de 40.

Na verdade, eu até tinha dúvidas de que o Geólogo destacado para apoiar os estudos do SFM na Faixa Piritosa, cumulativamente com estudos em áreas do Norte do Alentejo, alguma vez tivesse visitado a zona, antes de ela ter sido seleccionada para investigação por gravimetria.
O seu conhecimento da zona resultava das informações que eu prestava, durante as reuniões periódicas que tinha com os Engenheiros e com os Geólogos da 1.ª Brigada de Prospecção.

Os outros dois Geólogos da Brigada estavam encarregados de apoiar os estudos em curso na região de Cercal - Odemira e na Faixa Magnetítica e Zincífera Alentejana. Só acidentalmente prestavam colaboração na Faixa Piritosa.

Em 25 de Maio de 1977, foi o Geólogo Xavier Leca do BRGM a telefonar-me, pelas 16 horas e 55 minutos, de Beja, a informar-me de que a sondagem estava a cortar pirite na anomalia de Neves. Já tinham cortado 38 metros de pirite com bastante chumbo e algum cobre. Dei-lhe os meus parabéns e mostrei a minha satisfação por este êxito.

Reagiu ele dizendo que os parabéns eram para mim, por ter sido eu quem promovera a cobertura gravimétrica daquela área. Disse ainda que eu era o pai do jazigo! Salientou ter sido o seu Director em Paris, J. P. Prouhet a ordenar-lhe que me telefonasse a informar do êxito. Lembrou, a este respeito, a nossa conversa em Aveiro que fora interrompida pelo reinício das palestras sobre tectónica de placas.

1.2 – Os esforços de Leca

Leca era um dentre mais de 10 técnicos superiores do Sindicato.
Lembro-me, dos seguintes: Edgar Wahnon, Almeida Fernandes, Ferreira da Silva, Nabais Conde, Schermerhorn, Xavier Leca, L. Albouy, A. Morikis, F. Foglierini, Pedro Carvalho.

Todos participaram, obviamente, nas decisões tomadas.

Os glorificados esforços do Sindicato consistiram apenas em mandar implantar sondagens na zona da anomalia gravimétrica definida pelos trabalhos de minha iniciativa descritos em 1.1.

Todavia, estes “esforços” começaram por ser ineficazes, porque o Sindicato deu mais peso às suas interpretações (erradas) geológicas, que aos resultados da gravimetria, não procurando explicação para a intensa anomalia gravimétrica.
Abandonou a zona de Castro Verde – Almodôvar, talvez por a não considerar pertencente à Faixa Piritosa Sul - Alentejana.

Cinco anos depois, decepcionado com os insucessos em áreas dentro da tradicional Faixa Piritosa, preparava-se para dar por terminada as suas investigações na vasta área que lhe tinha sido adjudicada, tomando atitude semelhante à de MEI.

Porém, para “descargo de consciência”, decidiu implantar uma segunda sondagem na zona da anomalia detectada pelo SFM.
Também esta sondagem estava a decepcionar e, segundo afirmou Delfim de Carvalho, (Ver post N.º 41), Leca, já sem esperança alguma, mandou perfurar alguns metros mais, talvez influenciado pela conversa que comigo tinha tido em Aveiro.

Aconteceu, então, o que os Geólogos do Sindicato consideravam muito improvável. Tinham penetrado no enorme jazigo de Neves – Corvo!

Na euforia da descoberta, ninguém se lembrou de responsabilizar os técnicos do Sindicato pelo clamoroso erro, que fez atrasar 5 anos a descoberta.

Na mesma euforia, Leca apelidou-me de Pai do jazigo, mas rapidamente se arrependeu, para não desagradar ao Director-Geral de Minas e aos técnicos da 1.ª Brigada de Prospecção, pois apesar de estar ao corrente da sua infame traição, era com eles e não comigo que desejaria manter boas relações, pela aceitação que manifestavam na atribuição dos louros da vitória ao Sindicato, de que Leca se apresentava como o principal representante!

2 – O que teria acontecido, se o SFM não tivesse interrompido os seus trabalhos de prospecção, na região de Castro Verde - Almodovar

Se o SFM não tivesse sido forçado, por inesperada imposição superior, a interromper os estudos na região de Castro Verde – Almodôvar, teria continuado os seus trabalhos, respeitando escrupulosamente a metodologia que eu vinha aperfeiçoando, ao longo de 30 anos.
Teria terminado, muito mais rapidamente e com mais rigor e pormenor, a definição da anomalia gravimétrica, que estava a evidenciar-se vigorosamente, quando fui obrigado a suspender o estudo da área.
Teria tentado a confirmação desta anomalia por outros métodos geofísicos e pelo método geoquímico.
Teria, obviamente, passado à fase de sondagens e, como era procedimento corrente em todas as sondagens, teria feito a determinação sistemática das densidades dos testemunhos, com equipamento simples, que eu próprio concebera.
Não teria terminado sondagem alguma, sem que ficasse explicada a anomalia para que se procurava a causa. A este respeito, é esclarecedor o que aconteceu com sondagens baseadas em anomalias espúrias (cálculos errados!) ou mal implantadas (erros topográficos) (Ver post N.º 38).
Teria, portanto, encontrado o jazigo, em 1972, isto é, 5 anos antes do que acabou por acontecer.

E se o Director-Geral de Minas, que se permitiu alienar, em prol de potência estrangeira, tão importante parcela do património mineiro nacional, tivesse sido demitido, como se impunha (correram rumores de que a sua posterior demissão, nunca explicada à população, esteve relacionada com esta alienação), talvez tivesse sido possível cumprir as minhas recomendações de que fossem os portugueses a beneficiar exclusivamente deste valioso património, como aliás estava expresso no Decreto-lei N.º 18713 de 1930, que regulava a nossa indústria mineira.

Também não teria escapado a presença de cassiterite nos testemunhos, como aconteceu ao Sindicato. Não só a maior densidade deste mineral chamaria, de imediato, a atenção para conhecer, através da análise laboratorial de que mineral se tratava, mas também, era prática rotineira, fazer análises geoquímicas dos detritos da perfuração e fazer nos testemunhos das primeiras sondagens que detectavam jazigo, análises completas das zonas mineralizadas, por métodos físicos (Raios X, absorção atómica) e químicos tradicionais.

3- O reconhecimento superior

3.1 - O reconhecimento dos dirigentes da DGGM pelos meus esforços na concretização dos maiores êxitos do SFM, com destaque para a descoberta do jazigo de Neves - Corvo

O reconhecimento dos Directores-Gerais que sucederam a Luís de Castro e Solla e dos Directores do SFM que sucederam a António Bernardo Ferreira, pela minha fundamental contribuição para os maiores êxitos na nossa indústria mineira, nos tempos recentes, entre os quais se destaca a descoberta do jazigo de Neves – Corvo, traduziu-se em numerosos factos, relatados em posts anteriores, bem demonstrativos do apreço em que foram tidos todos os meus “esforços”.

Dentre esses factos, saliento os seguintes:

3.1.1 – A minha demissão da chefia da 1,ª Brigada de Prospecção, que eu pacientemente tinha organizado e que, em cumprimento de programas por mim instituídos, contando com a minha activa participação, fora a autora da maior parte daqueles êxitos.
Demissão motivada pela minha intransigente recusa em pactuar com procedimentos fraudulentos, aconselhados pelo Director-Geral. (Ver post N.º 75)

3.1.2 – A declaração de um Director do SFM, perante representante do Secretário de Estado, quando eu, ao apresentar o meu currículo, para dar peso às declarações que iria fazer, enumerava os êxitos que tinha conseguido, de que “se eu fizera tudo isso, fora porque ele deixara!”, isto é, porque o não tinha conseguido impedir! (Ver post N.º 112)

3.1.3 – Os relatórios de minha autoria que deliberadamente se não publicavam, para não ser conhecido externamente o meu invejável currículo (Ver post N.º 3).

3.1.4 – A ameaça de ”sanções” disciplinares, até às últimas consequências, por me recusar a cumprir ordens emitidas por Comissões ilegalmente constituídas.
Estas ameaças só não foram concretizadas porque Resoluções de Conselhos de Ministros condenaram asperamente a ilegalidade cometida com as nomeações de tais Comissões. (Ver posts N.º 105, 126, 127 e 128)

3.1.5 – A ameaça de expulsão da função pública, em reunião da Comissão de Trabalhadores, proferida por Delfim de Carvalho arvorado em membro de Comissão de Direcção do SFM, por eu ter procurado auxílio externo para travar a marcha do SFM para destruição que acabou por verificar-se (Ver post N.º 101)

3.1.6 – Os obstáculos à actividade que eu dirigia na Região de Vila Nova de Cerveira - Caminha – Ponte de Lima e na Faixa Metalífera da Beira Litoral (Ver posts N.º 116, 138)

3.1.7 – Os obstáculos às minhas funções docentes na Faculdade de Ciências do Porto, ao auxílio que prestava à Faculdade de Engenharia do Porto e ao Departamento de Geociências da Universidade de Aveiro. (Ver posts N.º 149, 158 e 160)

3.1.8 – A suspensão dos trabalhos na Faixa Metalífera da Beira Litoral, para que Geólogos inexperientes pudessem utilizar pessoal que eu tinha preparado para o estudo daquela Faixa, em trabalhos de duvidosa utilidade, que se mostraram incapazes de orientar. (Ver post N.º 138)

3.1.9 – A ordem para entregar a Secção de Caminha a um denominado Grupo de Trabalho do Tungsténio que, além de ilegal, era constituído por Geólogos inexperientes (Ver post N.º 114)

3.1.10 – As promoções a cargos de chefia, instituídos pelo Decreto-lei N.º 548/77, de indivíduos, com currículos fracos ou negativos, sem dignidade profissional, contrariando disposições legais que os sucessivos Governos insistiam em que fossem respeitadas.

Durante 29 anos, fui, com a categoria de Engenheiro de 1.ª Classe, o 2º funcionário na hierarquia do SFM.
Assisti, depois, com estupefacção, à rápida promoção a categorias com remuneração igual à que eu auferia, de técnicos recentemente admitidos, com muito deficiente preparação académica, sem experiência, alguns dos quais tinham sido beneficiados com ensinamentos que tive que lhes ministrar, pois manifestavam confrangedora ignorância nas técnicas de prospecção mineira.
Além disso, após a Revolução de Abril de 1974, muitos desses técnicos, através de práticas fraudulentas, aconselhadas pelo Director-Geral de Minas, conseguiam receber mensalmente quantias muito superiores às que eu auferia.

Em 1978, fui bafejado em conjunto com outros técnicos que haviam ingressado no SFM, muitos anos depois de mim, com promoção a uma categoria indefinida, à qual foi dada a designação de “Assessor”, com algum benefício pecuniário.

Mas, nesse mesmo ano de 1978, verificou-se o assalto aos cargos de chefia instituídos pelo Decreto-lei N.º 548/77.
Passaram então a ocupar cargos de hierarquia superior à minha (Subdirectores-gerais. Directores de Serviço, Chefes de Divisão), 28 (vinte e oito!!!) técnicos, alguns vindo de outros Organismos públicos ou de empresas privadas, (Ver post N.º 127).
Dentre esses, destaco alguns dos traidores da 1.ª Brigada de Prospecção, promovidos pelas atitudes que conduziram à destruição do SFM.

Mantendo-se em vigor a Orgânica instituída em 1964, para que os estudos pudessem prosseguir, geraram-se situações caricatas. Os novos Chefes, sem departamentos para chefiarem, apenas introduziram perturbações nos estudos que estavam em curso, ao tentarem, neles, ter intervenção.
Jorge Gouveia, na sua curta passagem como Director do SFM chegou a tentar colocar-me na dependência do traidor Goinhas e de Francisco Viegas, um dos mais perniciosos elementos que passaram pelo SFM!!!.

3.1.11 – O “despacho” do Director-Geral Alcides Pereira, proibindo-me de fazer trabalho de campo, com a alegação de que era necessário programar convenientemente as actividades da DGGM!!!! (Ver post 156).
Curiosa proibição, lembrando que eu havia recusado promoção a Director de Serviço, que me fora oferecida pelo ex-Director do SFM, Engenheiro Jorge Gouveia, porque tal oferta fora feita, com a incrível condição de eu não mais fazer trabalho de campo (Ver post n.º 139)
Só posso interpretar esta obsessão de vários dirigentes, como receio de que, com as minhas actividades, no campo, viesse a ocasionar novos “enormes prejuízos ao Estado”, descobrindo outros importantes jazigos minerais! (Ver post N.º 83)

3.1.12 – Quando foi instituída a classificação anual dos funcionários, os meus avaliadores totalmente ignorantes acerca das tarefas em que eu me ocupava, começaram por me atribuir classificação de “Muito Bom”.
Considerando ultrajante ser avaliado por ignorantes, denunciei sistematicamente tal farsa, para que o Governo passasse a dar um carácter digno a este procedimento, teoricamente fundamental para a promoção dos funcionários pelo seu mérito e não por filiação política ou qualquer outro favoritismo, como estava prescrito em Resoluções de Conselhos de Ministros e em outras disposições legais.
Aconteceu, então, que passei a ser mal classificado no item de “Relações humanas”, eu que logo no início da minha vida profissional (Ver post N.º 98), fui considerado “excelente condutor de homens”.
A má classificação deste item deu origem a um resultado final de “Bom”, contrastando com as classificações da quase totalidade dos funcionários, nos quais se incluíam os traidores da 1.ª Brigada de Prospecção e outros destruidores do SFM, que obtiveram “Muito Bom”

3.1.13 – O processo disciplinar que me foi instaurado, por me recusar a cumprir Ordem do Director do SFM Fernando Daniel, para apresentar um “plano de visitas ao campo”, estando proibido de realizar trabalho de campo, por despacho do Director-Geral de Minas Alcides Pereira.
Não sendo religioso e não precisando de acreditar em milagres para me deslumbrar com as maravilhas da Natureza, não posso deixar de assinalar que devo à visita do Papa João Paulo II não ter sido expulso da Função Pública, em consequência deste processo disciplinar e de mais alguns que me estavam prometidos, por declarações que fiz em minha defesa.
Foi o agnóstico Mário Soares que decretou amnistias para processos disciplinares idênticos ao meu, que estivessem em curso, como preito de homenagem a um Papa que nos tinha honrado com a sua visita.
Oportunamente desenvolverei este candente tema.

3.1.14 – Para se ter uma ideia das características da gente que passou a dominar a DGGM, após a Revolução de Abril de 1974, registo que, enquanto eu passei a ser votado ao ostracismo neste Organismo, ao qual dedicava a minha principal actividade, era alvo de especial consideração da parte de Organizações exteriores (Ver posts N.º 140 a 144).
Em futuro post, descreverei expressivas homenagens, quando atingi a idade de me aposentar da Função Pública.

3.2O reconhecimento pelos “esforços complementares” do Sindicato, na concretização da descoberta de Neves – Corvo

É fora de dúvida que aos Engenheiros Edgar Wahnon e Almeida Fernandes, da Sociedade Mineira de Santiago (SMS), se ficaram devendo as diligências para o Sindicato se apoderar da área onde tinha sido detectada a anomalia gravimétrica, que se revelou ser a assinatura do jazigo de Neves – Corvo.
Perante tal alienação, com dispensa do concurso público, que a lei exigia, é legítimo concluir que as compensações oferecidas foram muito atractivas.
Não constou que tenha havido a “merecida” recompensa por este fundamental “esforço” dos Engenheiros da SMS.

Foi o Geólogo Xavier Leca, do Organismo estatal francês BRGM (Bureau de Recherches Géologiques et Minières) a personalidade seleccionada para ser agraciada com condecoração, pelo notável “esforço complementar” exercido pelo Sindicato, ao mandar implantar sondagens na zona da anomalia gravimétrica detectada pelo SFM.
O Governo de França, fez deslocar a Portugal um seu representante, para presidir à cerimónia em que colaboraram autoridades portuguesas, com destaque para o Director-Geral de Minas, Alcides Pereira.

Leca não teve a dignidade de recusar tão grande manifestação de apreço, à qual não tinha o mínimo direito.
A participação do Sindicato na descoberta traduzira-se, como tenho salientado, num atraso de 5 anos, na concretização de um êxito que estava iminente quando o Sindicato se apoderou da área de Castro Verde – Almodôvar que o SFM estava a estudar.
Por este atraso havia responsáveis e Leca seria um deles.

Leca até se esquecera do telefonema que me fizera, cumprindo ordem do seu superior J.P. Prouhet, a dar-me conhecimento do êxito e a apelidar-me de Pai do Jazigo!!

Causou-me grande perplexidade um Editorial do Presidente do BRGM francês, Iean Audibert, com data de meados da década de 80, no qual é atribuída aos seus prospectores a descoberta de Neves – Corvo.
Não esperava de Organismo, pelo qual tinha grande consideração, pelo muito que aprendi na leitura das suas publicações, tão despudorado desrespeito pela verdade dos factos.

Continua …

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

185 - Nova discussão sobre Plano Mineiro Nacional. Continuação 9


Prossigo na análise do documento “Prospecção Mineira em Portugal. Áreas potenciais de aplicação de projectos”, produzido pelo Geólogo José Goinhas, com o intuito de contribuir para a elaboração de um “Plano Mineiro Nacional”, cuja apresentação tinha sido anunciada para 1984, pelo IX Governo Constitucional.

Ainda relativamente à descoberta do jazigo de Neves – Corvo, é deveras surpreendente o insignificante relevo que José Goinhas dá ao papel do SFM neste acontecimento, que iria tornar o País o maior produtor europeu de minério de cobre.

Apesar de manifestar o propósito de ajudar a resolver os graves problemas com que se debatia a nossa indústria mineira, não procurou aprofundar como se chegou àquela notabilíssima descoberta, para daí extrair directivas, para obter êxitos semelhantes.

Se tivesse feito cuidadosa análise e não estivesse comprometido com acções negativas, que estiveram na base da decadência dos “serviços oficiais”, oportunamente criados pelo Decreto-lei N.º 29725 de 1939, teria usado o “direito à indignação”, institucionalizado por Mário Soares, e manifestado profunda revolta pela despudorada apropriação da descoberta, pelos técnicos franceses.

É inegável que a Associação, em que participaram técnicos franceses, teve o mérito da mandar implantar, no máximo da anomalia gravinétrica detectada pelo SFM, a sondagem que revelou a existência do jazigo.

Mas se formos a interpretar os factos, à maneira francesa, então o real descobridor foi o operário que manobrava a sonda, quando surgiram testemunhos com o minério!

Os antecedentes de 30 anos de persistente e disciplinada preparação, até a descoberta se tornar iminente, só faltando sondar a anomalia definida pelo SFM, foram sorrateiramente ocultados!!

A acreditar nas afirmações de Delfim de Carvalho (Ver posts Nºs 37 e 41), sou até levado a pensar que terá sido ainda a minha conversa com Xavier Leca, em Aveiro, que levou este Geólogo a continuar a sondagem, na qual já não depositava esperança alguma, quando a Associação, desanimada com os seus insucessos, já se preparava para rescindir o contrato com o Estado!

De facto, na conversa em Aveiro, eu voltei a acentuar, com veemência, a importância da anomalia gravimétrica, afirmando-lhe ser para essa zona que eu faria incidir os trabalhos, se a 1.ª Brigada de Prospecção ainda estivesse a meu cargo!

Mas Goinhas não ficou indignado, nem revoltado com o facto de Jean Audibert, Presidente do BRGM ter publicado notícia, atribuindo a descoberta aos prospectores deste Organismo estatal francês, sem a mínima alusão, ao papel fundamental do SFM, e desconsiderando até os técnicos portugueses integrados na Associação.

Também não se mostrou indignado por saber que, estando a descoberta iminente, quando a Associação conseguiu apoderar-se da zona onde o jazigo ocorre, afinal o que aconteceu foi o protelamento do êxito, com forte responsabilidade do Geólogo francês Xavier Leca.

E terá considerado justificável que Xavier Leca, apesar de me ter cognominado pai do jazigo, tenha sido distinguido com condecoração, pelo Governo francês, em cerimónia solene realizada em Portugal, com presença das autoridades portuguesas, entre as quais se destacou o Director-Geral de Minas.

Se justiça fosse feita, Leca em vez de condecorado, deveria ter sido responsabilizado por não ter valorizado uma invulgar anomalia gravimétrica, para a qual não tivera o elementar cuidado de procurar explicação!

Impressiona a preocupação de José Goinhas em evitar mencionar o Serviço de Fomento Mineiro, quando se refere às descobertas, preferindo citar os “serviços oficiais” ou a Direcção-Geral de Geologia e Minas, que era, então dirigida por um Geólogo, apesar de saber ter sido nulo ou mesmo negativo o contributo do Director-Geral.

Tal preocupação tem implícita a atitude de um aguerrido grupo de jovens e presunçosos Geólogos, no qual ele se incluía, que em vez de se preparar para fazer a Geologia de qualidade, que deles se esperava, e que era essencial para o correcto cumprimento dos programas de prospecção mineira, se ocupava sobretudo numa luta pouco dignificante pela conquista dos cargos directivos da DGMSG, tradicionalmente ocupados por Engenheiros de Minas.

Deveras lamentei o apoio que o Geólogo António Ribeiro, detentor de valioso currículo, adquirido em real trabalho de campo, o que constituía honrosa excepção, deu a esse grupo que, na realidade, se mostrara incapaz de seguir o seu exemplo, acabando por desprestigiar a Geologia, cuja importância insistentemente exaltava, como se isso fosse necessário!!!

A Geologia sempre tinha sido um elo fraco na dinâmica do SFM e o que de melhor se fez, no âmbito dos levantamentos, no Sul do País, não ficou a dever-se a Geólogos dos “serviços oficiais”, como tenho assinalado, frequentemente.

A triste realidade, foi que o SFM teve a infelicidade de recrutar, para a zona Sul do País, Geólogos, que não tinham preparação mineira e não demonstraram significativo empenho em melhorar os estudos feitos anteriormente ao seu ingresso.

A grave lacuna inicial, que se fez sentir, nesta matéria, foi resolvida por mim próprio e por pessoal que instruí, dentro das minhas possibilidades.

Quando me foi proporcionada a oportunidade, passei até a melhorar a preparação de futuros Geólogos, encarregando-me de reger cadeiras de Prospecção Mineira, no departamento de Geologia da Faculdade de Ciências do Porto e tive a satisfação de saber que os Geólogos formados por essa Faculdade eram preferidos pelas empresas privadas que realizavam trabalhos de prospecção, no País.

Na sua renhida luta pela conquista dos cargos directivos, os Geólogos tiveram pleno sucesso, mas o resultado foi a enorme decadência a que chegou a DGGM, sobretudo no seu SFM.

Eu aceitaria, com naturalidade, que Geólogos ocupassem lugares cimeiros, na DGMSG, desde que tivessem competência para deles se desempenharem cabalmente, até porque reconhecia, no caso do SFM, serem pouco qualificados os Engenheiros de Minas do seu Quadro.

Aliás, as minhas melhores relações sempre foram com Geólogos que se dedicavam honestamente a estudos laboratoriais, ou exerciam funções em Universidades ou Empresas privadas.
Ainda hoje é com eles e com meus ex-alunos que tenho o prazer de confraternizar, com alguma regularidade.

Uma das explicações para o reduzido realce que Goinhas dá ao papel do SFM na descoberta de Neves – Corvo, encontrar-se-á no facto de ele não ter participado em qualquer das fases que conduziram a tão importante sucesso.
Mas tendo estado presente nas reuniões periódicas, que decorriam sob minha direcção, na sede da 1.ª Brigada de Prospecção em Beja, onde todos os problemas, originados pelos trabalhos em curso, eram analisados abertamente, tinha obrigação de conhecer bem a metodologia que conduziu à descoberta.

Goinhas, se tivesse estado atento às verdadeiras lições que eu prodigalizava, nessas reuniões, com a ilusão de que poderia transformar os técnicos nelas presentes, em verdadeiros especialistas, teria percebido que a prospecção mineira se faz por fases, disciplinadamente e obedecendo a critérios científicos.

Teria, portanto concluído, que quando a investigação da área de 4000 km2 passou a ficar a cargo da Associação constituída pela Sociedade Mineira de Santiago, o BRGM francês e a Sociedade Mineira e Metalúrgica de Penarroya Portuguesa L.da, aquela disciplina deixou de ser respeitada, com a inevitável consequência de ser consideravelmente protelada a descoberta, que estava iminente.

Goinhas nem sequer se mostrou desgostoso com a total passividade do pessoal da 1.ª Brigada de Prospecção que esteve envolvido nos trabalhos que conduziram à descoberta.

Mas a principal explicação para a sua atitude está na premente necessidade de ocultar que tinham sido as minhas "deficiências no planeamento, execução e controle das vastas e delicadas tarefas a cargo da 1.ª Brigada de Prospecção", causadoras de "enorme prejuízo ao Estado" durante 30 anos, conforme documento que subscreveu (Ver post N.º 83), que estiveram na base dessa descoberta.

O facto de, durante o quinquénio que Goinhas escolheu para amostragem do que era a “Prospecção Mineira em Portugal”, não ter acontecido êxito algum, demonstra que não foi extraída a lição de Neves – Corvo.

A disciplina que vigorava na 1.ª Brigada de Prospecção tinha sido severamente desrespeitada.

Um elucidativo exemplo é o comportamento do Geólogo Delfim de Carvalho, que se assumiu como principal dirigente desta Brigada, quando conseguiu afastar-me da sua chefia.

Na ânsia de apresentar êxitos, demonstrativos de que a minha orientação superior se tinha tornado desnecessária e até prejudicial, não hesitou em despender avultadas verbas do erário público em sondagens profundas, na zona do Salgadinho da Região de Cercal – Odemira, sem base científica, para se arvorar em descobridor de jazigo que teve a ousadia de comparar a Neves – Corvo.

Não foram publicadas reservas, nem teores médios desta ocorrência, para cuja descoberta ele nada tinha contribuído (Ver post N.º 86), mas é óbvio que a promoção a jazigo é atitude desonesta, confiante na ignorância de dirigentes que tinham obrigação de ter adequada preparação nestas matérias, impedindo tais desvarios.

É também digno de registo o total insucesso das mais de 20 Empresas privadas, na sua maior parte estrangeiras, que tinham adquirido direitos de prospecção em parcelas do território nacional.
Tinha curiosidade em saber quais os técnicos do SFM - se é que foi designado algum - encarregados de acompanhar os estudos destas Empresas e quais as suas diligências para deles resultar real benefício para o País.

Como já tive ocasião de salientar, nem sempre as actividades destas Empresas é disciplinada, em grande parte por motivo dos curtos prazos concedidos para as investigações.
Quando fui o representante do Estado junto de uma importante Companhia canadiana, tive um papel muito activo, na orientação dos seus estudos e deveras lamentei que nem sempre os meus conselhos tivessem sido tidos na devida consideração. Desse facto resultou, entre outros erros, a perda de Neves – Corvo (Ver post N.º 37)!

Continua…

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

184 - Nova discussão sobre Plano Mineiro Nacional. Continuação 8


Nos últimos posts, tenho vindo a analisar um documento que o Geólogo José Goinhas apresentou, com a intenção de contribuir para a elaboração de um “Plano Mineiro Nacional” anunciado pelo Governo, para solucionar graves problemas com que se debatia a nossa indústria mineira.

Este documento, a que Goinhas deu o título de “A prospecção mineira em Portugal - Áreas potenciais de aplicação de projectos” teve honras de ser seleccionado para publicação no Boletim de Minas.

Todavia, como venho demonstrando, a sua versão da história que se propôs narrar, está eivada de lapsos, que desvalorizam as actividades dos sectores produtivos do Serviço de Fomento Mineiro, responsáveis pelos maiores sucessos na indústria mineira do País.

Goinhas, que não teve participação alguma, na maior parte das matérias constantes das suas descrições, também não teve o elementar cuidado de usar apenas fontes de informação credíveis, rejeitando as fontes tendenciosas, que tinha obrigação de saber caracterizar.
Nem se deu ao trabalho de consultar a documentação adequada, que facilmente encontraria nos arquivos da Brigada do Sul e do 1.º Serviço de Prospecção, alguma até publicada!

Sobre a descoberta de Neves – Corvo, cujos antecedentes, referidos no post anterior, foram ignorados na narrativa de Goinhas, intencionalmente ou não, vou agora descrever os factos ocorridos, durante a vigência do contrato com a Associação, repetindo algo do que já consta dos posts N.º 37 a 43.
Nos termos contratuais, foi facultada à Associação constituída pela Sociedade Mineira de Santiago, pelo BRGM (Bureau de Recherches Géologiques et Minières, o equivalente francês do SFM) e pela Sociedade Mineira e Metalúrgica de Peñarroya Portuguesa Limitada, toda a vasta documentação, respeitante à área de 4 000 km2 que lhe tinha sido outorgada, constante dos arquivos do SFM e resultante não só e sobretudo das investigações do SFM, mas também dos estudos de empresas privadas.

Embora tenha chamado a atenção da Associação para a anomalia gravimétrica que estava a evidenciar-se vigorosamente, em zona que eu havia classificado como especialmente favorável à ocorrência de mineralizações cupríferas (Ver post anterior), na realidade isso era perfeitamente dispensável.
De facto, além de não fazermos segredo dos resultados que íamos conseguindo, era com satisfação que os dávamos a conhecer aos técnicos de qualquer das empresas envolvidas em estudos da mesma natureza.
Considerávamos benéficas, para ambas as partes, as discussões técnicas que daí advinham.
O facto de todas as nossas áreas de actuação estarem, nos termos legais, devidamente protegidas, através da sua prévia cativação para o Estado, era garantia de que tais resultados não seriam alvo de ilegítima apropriação.

A Associação estava, pois, bem ao corrente da revelação dessa anomalia e terá sido tal conhecimento que desencadeou as suas diligências para obter os direitos de prospecção, com a provável conivência do representante da DGGM junto da Sociedade Mineira de Santiago.

O facto de participar, na composição da Associação, um Organismo estatal francês altamente prestigiado (o BRGM, equivalente ao SFM português) fez-me esperar que daí adviriam consideráveis progressos nos estudos da Faixa Piritosa Alentejana.

A Associação, na posse da documentação a que acima aludi, passou, de imediato, á aplicação da técnica gravimétrica, usando os seus próprios meios e rapidamente acabou a definição da anomalia, que o SFM tinha evidenciado, já em grande parte da sua extensão.

Sem perda de tempo, deu início à sondagem N.º 1, que seria a primeira de uma série destinada a definir as dimensões e demais características do jazigo que era suposto ser a causa da anomalia.

Todavia, aconteceu o inesperado! A sondagem atingira a profundidade de 200 m e tinha já ultrapassando, na série estratigráfica, o nível onde o jazigo deveria ser encontrado.

Surpreendentemente, a Associação desistiu de continuar a investigar a causa de tão extraordinária e bem saliente anomalia, que atingia a amplitude de 1,4 mgal !!!

Era sabido que anomalias podem ser originadas por causas diferentes de jazigos minerais. Rochas básicas têm densidades suficientemente contrastantes com outras rochas ocorrentes no mesmo ambiente geológico, para provocarem anomalias semelhantes às ocasionadas por jazigos de minérios densos.

Todavia, teria sido elementar detectar contraste que explicasse a anomalia que começara a ser investigada pela sondagem N.º 1.
Mas isso não foi feito!

Eu ainda perguntei se a Associação considerava explicada a anomalia. Foi-me respondido que, efectivamente, não tinha sido detectada a sua causa ... mas que, tendo sido ultrapassado o horizonte onde o jazigo poderia ter sido encontrado, a anomalia teria outra origem!!!

É oportuno aqui registar que, se a área não tivesse sido adjudicada, continuando portanto em investigação pelo SFM, os procedimentos teriam sido diferentes.

Encontrar explicação para a anomalia teria sido considerado fundamental.

Desde a data em que me foi confiada a direcção do departamento de Prospecção Mineira do SFM, era rotina estabelecida a determinação sistemática das densidades dos testemunhos das sondagens, quando estas se baseavam em dados da gravimetria ou das susceptibilidades magnéticas, quando se baseavam em anomalias magnéticas.

Os testemunhos teriam, obrigatoriamente, que revelar contrastes daqueles parâmetros, suficientemente expressivos para justificarem as anomalias em investigação.
No caso de não revelarem tal contraste, seriam reanalisados todos os trabalhos que haviam conduzido à definição dessas anomalias, a fim de se detectar onde se tinham cometido erros.

Posso citar 4 casos, em que houve que proceder a tais reanálises.

O primeiro aconteceu, quando a sondagem N.º 14, na zona de Algares de Portel, baseada em anomalia gravimétrica, não atravessou formação geológica com densidade que justificasse a anomalia. Reanalisadas as correcções às observações no terreno, foram detectados erros que mostraram ser espúria a anomalia.

O segundo ocorreu, quando se investigava ténue anomalia gravimétrica, que acabou por se revelar como a assinatura do jazigo da Estação, em Aljustrel.
Sondagem prevista para encontrar, à profundidade de 350 metros, a massa de pirite responsável pela anomalia, deparou com grandes dificuldades no seu avanço, talvez devido a alguma inexperiência do pessoal sondador, acontecendo que, tendo atingido, a profundidade de 328 metros, em vez de avançar, ia recuando, durante sucessivos meses, devido a constantes desmoronamentos.
Do Director-Geral, por intermédio do seu adjunto, recebi fortes pressões no sentido de dar o furo por terminado, perante as despesas que estava a ocasionar, as quais classificava de injustificadas, pois punha em dúvida a existência de jazigo, a tão grande profundidade.
A minha reacção foi no sentido de confiar a execução do furo a entidade que conseguisse cumprir o projecto, caso a Brigada de Sondagens do SFM não fosse capaz de superar a dificuldade, uma vez que ainda não tinha sido detectada a causa da anomalia gravimétrica.
As densidades dos testemunhos, que sistematicamente íamos determinando, com uso de equipamento que concebi para esse efeito, não permitiam explicar a anomalia.
Felizmente a minha posição nesta matéria foi respeitada e a Brigada de Sondagens conseguiu finalmente fazer avançar o furo.
Após três meses de avanços e recuos, a sondagem penetrou em massa de pirite complexa aos 350,3 m e nela continuou, na extensão de 75 m.

O terceiro caso aconteceu na região de Cuba – Vidigueira. Uma sondagem baseada em forte anomalia magnética não atravessou, até à profundidade calculada, formação que justificasse tal anomalia. Neste caso, tinha havido erro de implantação da sondagem!

O quarto caso aconteceu na Região de Cercal – Odemira, onde uma sondagem baseada em discreta anomalia gravimétrica, assinalada em local considerado favorável à ocorrência de concentrações de sulfuretos idênticas as da Faixa Piritosa, atingiu a profundidade de 573 m, que era o limite da capacidade da sonda disponível, sem ter encontrado formação densa que justificasse a anomalia.
Este caso continua, portanto, por esclarecer.
Mineralização cuprífera disseminada, que foi encontrada a grande profundidade, não contribui suficientemente para o contraste densitário necessário para explicar a anomalia.

Era, pois, evidente que, se a campanha de prospecção do SFM, na zona de 100 km2 seleccionada para investigação, na Região de Castro Verde – Panóias, não tivesse sido interrompida, por arbitrária decisão do Director – Geral, contrariando disposições repetidamente inseridas em diplomas legais, a descoberta do jazigo de Neves – Corvo teria ocorrido, no ano de 1972, como consequência natural da metodologia adoptada pelo SFM.

A Associação, adoptando metodologia diferente, em que as suas interpretações geológicas constituíam o principal suporte para a passagem à fase de sondagens e os dados fornecidos pelas técnicas geofísicas eram pouco valorizados, andou, durante cerca de 5 anos “perdida” sobretudo na região de Mértola, sem quaisquer resultados positivos.

Entretanto, tinha ocorrido a Revolução de 25 Abril de 1974 e, como já revelei, alguns oportunistas, entre os quais se destacava o Geólogo Goinhas, usando no pior sentido as liberdades conquistadas, conseguiram afastar-me da direcção dos estudos no Sul do País.

Deixei, portanto, de poder acompanhar, de perto, as actividades da Associação.

Mas tive, casualmente conhecimento, em 5 de Abril de 1977, por curta conversa com o Geólogo Xavier Leca do BRGM, que encontrara na Universidade de Aveiro, quando ambos ali nos deslocamos para assistir a palestras sobre tectónica de placas, que a Associação decidira regressar à zona da anomalia gravimétrica, tendo já em curso a sondagem N.º 2.
De imediato lhe dei os parabéns, acrescentando que, se a área regressasse para estudo pelo SFM, uma vez que a validade do contrato estava prestes a expirar, e eu ainda estivesse nas funções de Chefe da 1.ª Brigada de Prospecção, era para essa zona que eu voltaria imediatamente”.

Em fins de Maio de 1977, recebi telefonemas dos Geólogos Nabais Conde e Xavier Leca, do Quadro de Técnicos da Associação, informando que a sondagem N.º 2 tinha penetrado em jazigo de pirite complexa, estando nessa data já com 20 metros em minério rico em calcopirite.

Às felicitações que a ambos dirigi, correspondeu Leca realçando o mérito da minha contribuição e lembrando a conversa havida em Aveiro. Classificou-me, então como “pai do jazigo”.

Nabais Conde mostrava particular interesse em conhecer qual a intervenção dos Geólogos do SFM na selecção da zona de 100 km2, para investigação por gravimetria, fazendo-me suspeitar de que eles (Delfim de Carvalho, José Goinhas e Vítor Oliveira) estariam a apresentar-se como os grandes decisores em tal matéria, quando a triste realidade era não só não terem tido aí a mínima intervenção, mas terem-se até tornado os principais responsáveis pela grande decadência por que o SFM então passava.

Conclusão: Os “ESFORÇOS” da Associação, que Goinhas tanto realça, por “complementarem” os que o SFM foi obrigado a suspender, eram bem dispensáveis, porque afinal eles se traduziram em atraso de 5 anos na concretização da descoberta!!

Continua …


sexta-feira, 12 de agosto de 2011

183 - Nova discussão sobre Plano Mineiro Nacional. Continuação 7


Continuo a analisar a grotesca versão da história da “Prospecção Mineira em Portugal” apresentada pelo Geólogo José Goinhas, com a qual pretendia contribuir para um ambicioso “Plano Mineiro Nacional” anunciado pelo IX Governo Constitucional.

Ainda a respeito do tema 5, sobre a aplicação de técnicas geofísicas e geoquímicas à prospecção mineira, impõe-se completo esclarecimento das circunstâncias em que ocorreu a descoberta do jazigo de Neves – Corvo.

Goinhas, referindo-se a esta descoberta, começa por apresentá-la como exemplo da “complementaridade de esforços, no domínio da prospecção mineira, entre os serviços oficiais e as empresas”, mas acaba por considerá-la um êxito conseguido em 1977, pela Associação, que se constituíra, em 1972, entre a Sociedade Mineira de Santiago e as instituições francesas, “Bureau de Recherches Géologiques et Minières” e “Société Minière et Métalurgique de Penarroya”.

Algumas das circunstâncias, em que a descoberta ocorreu, estão descritas nos posts N.º 37 a 43.

Agora, quero chamar a atenção para a flagrante semelhança dos acontecimentos que culminaram com as descobertas dos jazigos de Gavião e Neves – Corvo, a qual não é assinalada pelo “historiador”.

Se Goinhas não fosse personagem ingrato e traiçoeiro, teria concluído, ao chegar a este ponto da sua narrativa, que o Plano Mineiro anunciado pelo Governo, além de injustificado, representava grave desconsideração pelos técnicos do SFM, aos quais o País ficou devendo um notabilíssimo sucesso científico, que causou admiração, nas instâncias mineiras nacionais e internacionais.

Goinhas que, por minha proposta, conseguira ingressar no SFM, tinha funções bem definidas, enquadradas em Planos de Trabalhos, anualmente submetidos, a apreciação do Governo, que sempre tinham merecido aprovação.

Se, naquela época, se notava declínio na indústria mineira nacional, Goinhas ao fazer a sua investigação histórica, teria obviamente que chegar à conclusão de que tamanho declínio não tinha origem na falta de Plano, pois, com os Planos normais do SFM, se tinha obtido uma das maiores descobertas, de todos os tempos, na nossa indústria mineira.

Goinhas, que tinha começado por restringir a sua história ao quinquénio 1980-84, acabou por dar maior relevo aos progressos em períodos anteriores, para atenuar a apreciação negativa originada pelos insucessos naquele quinquénio.

Mas não aprofundou as investigações sobre as causas de tais progressos, para não ter que reconhecer as suas grandes responsabilidades no declínio nos períodos seguintes, que levara o Governo a tentar combatê-lo, através de novo Plano.

As suas curtas referências a Neves – Corvo só como puro eufemismo podem ser interpretadas.

De facto, a “complementaridade de esforços” entre os “serviços oficiais” e as empresas privadas é uma ultrajante maneira de desvalorizar o “esforço” de um serviço oficial que tinha nome e se chamava SERVIÇO DE FOMENTO MINEIRO.

Da parte das empresas privadas, não só não houve “esforço”, pois a descoberta estava praticamente concretizada pelo SFM, como houve muito deficiente continuidade do real “esforço” do SFM, com o consequente atraso de 5 anos (!) na descoberta.

A ser verdade o que o “cronista” Delfim de Carvalho descreve, no seu artigo publicado pela “Economic Geology”, terá sido até por um golpe de sorte que a Associação encontrou o jazigo!!!

De facto, conforme ficou registado no meu post N.º 41, escreveu Delfim de Carvalho:
“On the evening before the mineralisation was encountered, the geologist at the drill site, in despair, nearly decided to terminate the drill hole”.

E, no comentário que enviei para a “Economic Geology”, que não chegou a ser publicado, escrevi eu:

“From the history narrated by Delfim de Carvalho, one could thus arrive at the conclusion that the discovery of Neves – Corvo deposit was accidental, and that if the Association had not achieved it, the deposit would still remain untouched”

A adjudicação de vasta área à Associação a que acima me referi, para prospecção mineira, na qual veio a ser encontrado o jazigo de Neves – Corvo, resultou de factos ainda mais graves do que aqueles que descrevi, relativamente à descoberta do jazigo do Gavião.

Naquela área, de cerca de 4 000 km2, que abrangia as grandes manchas de rochas vulcânicas de Castro Verde – Almodôvar, anteriormente evidenciadas pelos levantamentos geológicos do SFM (Ver post N.º 7), a Companhia canadiana “Mining Explorations (International)” (MEI) tinha realizado, por contrato com o Estado, celebrado em 1966, diversos trabalhos, visando a descoberta de jazigos de pirites complexas.

MEI privilegiava a investigação por sondagens, com base nos seus estudos geológicos e em alguma gravimetria.
Muitas vezes aconselhei a Companhia, a fazer mais amplo uso da gravimetria, antes de passar à execução de sondagens (Ver post N.º 32).
Chamei, por exemplo, a atenção para a escassa aplicação desta promissora técnica, naquela vasta mancha de rochas vulcânicas de Castro Verde – Panoias, que tem uma extensão superior a 30 km e uma largura que atinge 10 km.
A Companhia não se mostrou, porém, sensível aos meus conselhos e lamentavelmente, deixou terminar, em 1971, o prazo de validade do contrato, sem ter conseguido qualquer êxito.

No post N.º 33, revelei que, após MEI ter abandonado a área que lhe esteve adjudicada, o Serviço de Prospecção do SFM, sob minha direcção, deu início a prospecção gravimétrica de uma parcela de cerca de 100 km2, abrangendo a Mina do Cerro do Algaré e outras ocorrências cupríferas que tinham originado pequenas explorações mineiras, em épocas passadas.

Quando esta campanha se encontrava em curso e já estava revelada grande parte da anomalia que viria a dar origem à descoberta do jazigo de Neves – Corvo, fui novamente surpreendido pela celebração de contrato adjudicando a totalidade da área anteriormente atribuída a MEI, à Associação a que acima me referi.

De facto, afigurou-se-me muito estranho que, dispondo a Sociedade Mineira de Santiago de duas áreas, uma das quais já com os jazigos de Estação e Gavião a exigirem trabalhos para definição de reservas, a Sociedade pretendesse aumentar a sua área de estudo.
Também muito estranho me parecia que fosse procurar colaboração de entidades estrangeiras, para a realização de estudos perfeitamente ao alcance dos seus técnicos e dos técnicos do SFM, aos quais habitualmente recorria, quando pretendia a aplicação de métodos geofísicos, com realce para a gravimetria, aproveitando a grande experiência que o SFM tinha já adquirido em tal matéria.

Neste caso, o Director-Geral, que costumava ridicularizar os “vectores” com que eu me entretinha, nem esperou pela completa definição da anomalia que estava a evidenciar-se vigorosamente, na zona que eu já tinha assinalado no meu relatório “Prospecção de pirites no Baixo Alentejo”, publicado em 1955, como parecendo constituir uma região cuprífera digna de atenção. (Ver post N.º 11).

Uma vez que o SFM já se tinha desenvolvido na aplicação de variadas técnicas de prospecção, considerava muito insensato continuar a entregar a estrangeiros as nossas riquezas minerais.

Estranhava que o Director-Geral não desse a mínima atenção às minhas recomendações na publicação do SFM a que acima fiz referência, as quais julgo oportuno aqui reproduzir:

“Somos de opinião que o prosseguimento da campanha de prospecção de pirites, para ter a eficácia pretendida, deverá contar com a cooperação efectiva de especialistas em geologia aplicada e prospecção geofísica, integrados na equipa de estudo”

“Todos os estudos a que nos vimos referindo podem e devem, em nosso entender, estar a cargo de técnicos portugueses que hajam, para o efeito, adquirido a necessária especialização, conforme prevê o Decreto-lei de criação do Serviço”.

“A favor deste modo de proceder falam, não só a economia como o próprio interesse no assunto, que não poderá esperar-se de outros superior ao dos nacionais”

Conforme escrevi no post N.º 124, vinham à minha memória os versos de Camões, na última estância do Canto X dos Lusíadas, dirigindo-se ao Rei, a quem dedicava o poema:

“Fazei, Senhor, que nunca os admirados
Alemães, Galos, Ítalos e Ingleses
Possam dizer que são para mandados
Mais que para mandar os Portugueses”


Pareceu-me, pois, muito estranha a precipitação na entrega desta enorme parcela a uma Associação com forte participação de entidades estrangeiras.

A orientação da minha actividade sempre teve em vista respeitar os preceitos consignados nas disposições do Decreto-lei de criação do SFM.

Os técnicos portugueses deveriam, pois, vir progressivamente a encarregar-se, não apenas da prospecção, mas também da exploração dos novos jazigos que viessem a ser revelados e dos procedimentos para o aproveitamento integral dos seus minérios.

A Escola de Aparis seria o local apropriado para a preparação desses técnicos. (Ver post N.º 124)

Continua…

terça-feira, 2 de agosto de 2011

182 - Nova discussão sobre Plano Mineiro Nacional. Continuação 6

Continuo a denunciar os clamorosos erros do Geólogo José Goinhas, na sua narrativa histórica, a que deu a designação de “A prospecção mineira em Portugal. Áreas potenciais de aplicação de projectos” e que apresentou com o objectivo de contribuir para um ambicioso Plano Mineiro Nacional, mas que se revelou não só inútil, como até prejudicial.
Inútil, porque tal Plano, que se não justificava, como já demonstrei, nunca chegou a ser concluído; prejudicial, por ter sido publicada e induzir em erro os leitores do Boletim de Minas

Retomando o tema 5, respeitante á aplicação de métodos geofísicos e geoquímicos à prospecção mineira, vou corrigir a história da descoberta do jazigo do Gavião, que Goinhas atribui à Sociedade Mineira de Santiago.

No post N. 36, tive já oportunidade de revelar que, contrariamente ao afirmado por Goinhas, esta descoberta foi mais um importante êxito do SFM.
A este êxito, me tinha referido, em relatório datado de Março de 1968, nos seguintes termos:

“Na região de Aljustrel, a sul de Rio de Moinhos, já dentro da Bacia Terciária do Sado, registaram-se anomalias gravimétricas que, embora pouco pronunciadas, se revestem de bastante interesse, pelo facto de se localizarem exactamente no prolongamento dos horizontes mineralizados de Feitais - Estação e Moinho – S. João, após a rejeição pela falha de Messejana.”

Recuando no tempo, é justo reconhecer que os técnicos da empresa concessionária das Minas de Aljustrel estavam plenamente conscientes da existência de uma importante falha, de encontro à qual terminava a massa de S, João do Deserto e admitiam, com forte probabilidade, a existência de uma parte rejeitada do jazigo, e que esta hipótese deveria ser investigada, se se tornasse necessário aumentar reservas.

Quando o SFM, surgiu, na região, em 1944, com o seu programa de investigação de toda a Faixa Piritosa Alentejana, a empresa ignorava ainda a grandeza da rejeição horizontal e vertical desta falha, pois a parte rejeitada estava oculta pelos terrenos da denominada Bacia Terciária do Sado.

Foi ao SFM que ficou a dever-se a definição da exacta grandeza da componente horizontal da rejeição provocada por esta falha, cuja real importância foi também evidenciada, em consequência da sua actividade de prospecção.
Quero, no entanto, assinalar que foi em resultado da colaboração dos Serviços Geológicos, por mim solicitada, para estudo dos terrenos da Bacia Terciária do Sado, tendo em vista determinar a profundidade da bacia, que se identificou, pela primeira vez, o filão dolerítico, instalado na grande fractura.
Foi a equipa constituída pelo Geólogo Georges Zbyszewski e Veiga Ferreira que fez esta identificação.
A hipótese de este filão dolerítico se identificar com formação que deu origem a blocos arredondados ocorrentes em Portel e em Odemira foi-me sugerida pelo Professor Mariano Feio que, sendo Engenheiro Geógrafo, era investigador de vasta e diversificada cultura.
A este ilustre Professor, com quem tive frequentes e muito úteis conversas, se ficaram devendo valiosas contribuições para o conhecimento da geologia do Sul do País.
A identificação da falha, na região de Vila Viçosa, onde se manifesta pela rejeição do Silúrico em Ciladas e em Ferreira do Alentejo, onde é assinalada pela rejeição do Devónico em Mombeja, é de minha exclusiva autoria.
A tudo isto é feita referência, no meu artigo sobre “Prospecção de pirites no Baixo Alentejo” publicado em 1955, na Revista do SFM.
Constou-me ter havido quem, posteriormente, tenha reivindicado esta descoberta, ignorando o artigo que citei.

No post N.º 36, mencionei diversos factos muito estranhos, relacionados com a anomalia gravimétrica que é a assinatura do jazigo do Gavião.

O primeiro foi o rápido desaparecimento da parede da Sala das Sessões da DGGM, do mapa que eu lá tinha colocado, durante a sessão da Comissão de Fomento realizada em 27 de Maio de 1968, para pôr em evidência, perante um público seleccionado, um êxito que devia ser considerado muito honroso para a DGGM, na qual o SFM continuava integrado.
Nesse mapa, à escala 1:5000, eu tinha colocado, no alinhamento dos jazigos conhecidos em Aljustrel a anomalia gravimétrica, tendo para esse efeito, cortado com uma tesoura o mapa segundo a falha, com um deslocamento de 3 km, que era exactamente a rejeição confirmada pela gravimetria.

O segundo foi a adjudicação à Sociedade Mineira de Santiago, em 2 de Outubro de 1969, de área envolvente das Minas de Aljustrel que incluía a anomalia do Gavião, a qual se mantinha reservada, para estudo pelo SFM.
Esta adjudicação feita apressadamente, sem meu prévio conhecimento e sem concurso público, como a lei exigia, foi deveras surpreendente, sobretudo tendo em consideração a provável intervenção do Engenheiro adjunto do Director-Geral, J. Costa Almeida, que era o representante da DGGM, nomeado para acompanhar os estudos daquela Sociedade, na Bacia Terciária do Sado e prestar eventualmente colaboração técnica.
Mas, mais estranho ainda, foi o indecoroso comportamento dos técnicos superiores da Sociedade Mineira de Santiago, que corresponderam de modo insultuoso ao honroso convite que lhes foi feito de participarem na redacção de Livro-Guia de Excursão integrada no CHILAGE (Congresso Hispano – Luso Americano de Geologia Económica), que teve lugar em 1971, em Portugal e Espanha.

Neste Livro-Guia, de que só tomei conhecimento após a sua publicação, tive a surpresa de ler que os levantamentos gravimétricos e magnéticos executados pelo Serviço de Fomento Mineiro não trouxeram grande achega para o conhecimento do rejeito dos jazigos de Aljustrel.
O despudor destes técnicos, com os quais, aliás, sempre tinha mantido as melhores relações, foi ao ponto de declararem improvável a descoberta do jazigo do Gavião pela aplicação de métodos geofísicos e geoquímicos.
Custa a acreditar que técnicos, de reconhecida competência, tenham perdido a dignidade, ao afirmarem que, somente a aplicação dos conhecimentos de estratigrafia e da estrutura geológica de Aljustrel poderia ter conduzido à descoberta do jazigo do Gavião, julgando, com esta traiçoeira atitude, aumentar o seu prestigio.
Não cheguei a perguntar-lhes porque localizaram as sondagens que efectuaram, precisamente no local da anomalia gravimétrica, até porque as relações pessoais, que eram francas e cordiais, passaram ser formais e apenas as indispensáveis.
O Eng.º Costa Almeida ainda tentou falar comigo a este respeito, parecendo-me ter reconhecido a deslealdade dos técnicos da Sociedade Mineira de Santiago.
Mas eu, que já não estava a apreciar comportamentos pouco recomendáveis, que passou a adoptar este colega, de quem fora amigo durante mais de 30 anos, desde os bancos do Liceu, e não lhe dei essa oportunidade.

Continua …