sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

192 - Um novo Plano Mineiro Nacional. Continuação 16

Em 1984, o Conselho de Ministros mandou apresentar um novo Plano Mineiro Nacional, visando melhor aproveitamento dos nossos recursos minerais.

José Goinhas, pretendendo contribuir para a sua elaboração, assumiu o encargo de relatar a história da “Prospecção mineira em Portugal”.

Tenho vindo a analisar, desde o post N.º 178, o documento publicado no Boletim de Minas, da autoria daquele Geólogo.

Passei já em revista as fases, que deviam ter precedido e justificado a passagem à fase de sondagens.

Salientei não ter sido respeitada a regra elementar de utilizar criteriosamente as verbas disponíveis, mormente tratando-se de dinheiros públicos, obedecendo à velha recomendação:
“Always send the cheapest man first”

Revelei 8 casos, em que, relativamente a esta fase de sondagens, a contribuição de Goinhas foi francamente negativa.

Goinhas ou não consultou a abundante documentação disponível, principalmente nos designados “relatórios internos”, ou evitou denunciar os dirigentes dos denominados "serviços oficiais", que menosprezaram aquela norma elementar.

Vou continuar a citar casos de arbitrariedades e prepotências, com total impunidade dos responsáveis pelos prejuízos ocasionados à economia nacional.

9 - A retoma das sondagens na Região de Vila Nova de Cerveira –Caminha – Ponte de Lima

No N.º 2 do post N.º 190, revelei que o Director-Geral de Minas, Soares Carneiro, ordenou a suspensão da campanha de sondagens, na Região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima, quando estava projectado o furo N.º 69.

Dava-se, então, a feliz circunstância de este furo ser, dentre todos os projectados, na Região, talvez o que apresentava mais sólidos fundamentos (bom apoio geológico, geofísico e geoquímico).

Tais fundamentos vieram a ser plenamente confirmados por Union Carbide, quando esta Companhia americana, através de contrato que celebrou com o Estado, conseguiu estender a sua acção à área que abrangia o local seleccionado para a implantação desse furo.

Ficou amplamente demonstrada a despudorada falsidade dos argumentos que o Director-Geral apresentou, para justificar a sua arbitrária decisão.

O Engenheiro Soares Carneiro foi, entretanto, exonerado e substituído no cargo de Director-Geral, pelo Geólogo Alcides Pereira.

Já me referi a atitudes ainda mais prepotentes do novo Director-Geral, que o levaram à inacreditável ordem de proibição de eu realizar trabalho de campo!!!!

Uma vez mais se confirmava a famosa lei de Murphy!

Em relação com esta inconsciente ordem, foram, malevolamente, provocados incidentes, em consequência dos quais, o Geólogo Viegas teve finalmente o êxito que não conseguira, durante a permanência de Soares Carneiro e de Múrias de Queiroz, em cargos directivos.

Desta vez, o Geólogo Viegas, na qualidade de Chefe de Divisão, conquistada na vaga de assaltos a cargos de chefia a que me tenho referido, conseguiu, não só apropriar-se da Secção de Caminha, mas também aliciar o Engenheiro Laurentino Rodrigues, tornando-o cúmplice das suas disparatadas decisões.

Lembro a minha preocupação em preparar Laurentino para o exercício cabal da profissão, pensando que poderia substituir-me, quando me aposentasse (Ver posts N.ºs 116, 117, 143, 152, 155, 158, 188).
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Sou induzido a crer que o “relatório circunstanciado”, exigido por Alcides Pereira, para poder programar convenientemente as actividades da DGGM (sic) (Ver post N.º 156), tenha tido por objectivo facultar a Viegas, rápidos êxitos, que o creditassem como conceituado prospector.

Tal atitude, não seria, aliás, inédita. Os casos de Soares Carneiro e Delfim de Carvalho são disso bons exemplos. Também estes julgaram fácil obter sucessos, usurpando trabalhos que outros, metodicamente, vinham preparando.

Na posse do “relatório circunstanciado”, que fui compelido a entregar, com o texto ainda incompleto e só parcialmente dactilografado, Viegas logo se deslumbrou com as anomalias geofísicas e geoquímicas, representadas em muitas das 246 peças desenhadas.

Não tendo preparação nas técnicas aplicadas e sendo até muito inexperiente em matéria de Geologia, fez uma selecção errada das anomalias que deviam ser investigadas por sondagens.

Extasiou-se com anomalias magnéticas de grande intensidade, não percebendo que, dadas as suas características, facilmente seriam explicadas com simples sanjas.
Revelou, também, não saber distinguir estratificação de xistosidade e, por isso, acabou por mandar executar sondagem paralelamente à estrutura que pretendia investigar!!!!.

Foi Isto que constatei, em aula de campo aos meus alunos da Faculdade de Ciências do Porto, na qual tive a colaboração de alunos e professores da Universidade de Aveiro, que costumava convidar para estas aulas práticas.

Estando proibido de realizar trabalho de campo, usava, para poder dar aulas, autocarro contratado pela Faculdade de Ciências do Porto e equipamentos cedidos pela Faculdade de Engenharia do Porto e pelo Departamento de Geociências da Universidade de Aveiro!!!

Aproveito a oportunidade para revelar que nunca me foi possível dar aulas de campo de gravimetria, aos alunos das Universidades, por estes estabelecimentos de ensino superior não possuírem, então, gravímetros e por não me ter sido disponibilizado, embora por curtíssimo período, um dos dois aparelhos, que tinham sido adquiridos para o SFM, por minha exclusiva iniciativa, após árdua luta de mais de uma dezena de anos (Ver post N.º14)

Uma vez mais recordo a promessa pública de Alcides, despudoradamente desrespeitada, de prestar toda a colaboração às Universidades, para que estas produzissem bons técnicos (Ver post N.º 160)

Fiquei com curiosidade sobre se tinham sido feitas determinações de susceptibilidades magnéticas, nos testemunhos desta sondagem, para saber se a anomalia magnética foi explicada.
Laurentino tinha conhecimento de que era prática corrente no Serviço de Prospecção sob minha chefia, encontrar sempre explicação para as anomalias que se investigavam.
Tenho, porém, sérias dúvidas de que tais determinações tenham sido feitas.

A retoma da campanha, que tinha sido interrompida, quando estava projectado um dos mais prometedores furos, foi, pois, extremamente infeliz.
A sua primeira sondagem teve resultados nulos, como era fácil de prever, pois se apoiava em errada interpretação de anomalia magnética,

Deste novo fiasco de Viegas, a adicionar ao de Cravezes e a outros que se lhe seguiram, iria resultar a extinção da Secção de Caminha, sendo certo que muito ficou por investigar, dentro do programa que eu vinha dirigindo, com a participação de 4 a 5 funcionários, que haviam sido admitidos, nos locais de trabalho, apenas com a instrução primária!!”

Como comentários finais, ocorrem-me os seguintes:

a) É surpreendente que, ao aprovar a sondagem projectada por Viegas, tenha sido esquecida a urgente necessidade de programar convenientemente as actividades da DGGM.(Ver post N.º 156)

b) É também surpreendente que os estudos a que meticulosamente se dedicava Rui Reynaud sobre a documentação entregue por Union Carbide (Ver post N.º166), não tivessem sido aproveitados.

c) Mais surpreendente ainda, foi a imediata disponibilidade de uma sonda, que passou a verificar-se, quando me foi extorquida a Secção de Caminha, apenas para satisfazer ambição pessoal do perverso Viegas.

10- Sondagens na Mina de Fonte Santa (Lagoaça, Freixo de Espada à Cinta):

Embora não seja estudo em que me tenha envolvido, quero referir o meu conhecimento de terem sido efectuadas sondagens na Mina de Fonte Santa (Lagoaça), em cumprimento de projecto do prestigiado Geólogo António Ribeiro e sob a supervisão do Director-Geral.
A recuperação de testemunhos foi praticamente nula e o Geólogo optou por fazer avaliação das reservas globais da formação onde ocorria scheelite, partindo da hipótese de que este mineral se encontraria disperso, em grande espessura desta formação.
Chegou-se assim a um elevado valor global de reservas, com teor muito baixo, portanto, de exploração economicamente inviável.
Não tinha sido possível definir passagens economicamente exploráveis.
É um caso semelhante ao que acontecera com os carvões da Faixa Carbonífera do Douro, onde também se não obtivera suficiente recuperação de testemunhos.
Era esta lição que Goinhas deveria ter extraído.
Não se justificaria prosseguir campanha de sondagens, quando o seu objectivo, que era conhecer as formações em profundidade, não era cumprido.
A campanha da Fonte Santa deveria ter sido suspensa, logo que se verificou não produzir testemunhos e só deveria ser retomada quando este problema estivesse convenientemente resolvido.

Continua…

domingo, 15 de janeiro de 2012

191 - Um novo Plano Mineiro Nacional. Continuação 15

A História para ser Mestra da Vida, como se ensina nas Escolas, tem de ser escrita por personalidade idónea, que saiba seleccionar as fontes de informação, dignas de crédito.
Será prejudicial se não tiver havido esse elementar cuidado.

O Geólogo José Goinhas é exemplo de historiador, que não merece crédito.
A sua história da “Prospecção mineira em Portugal”, além de omitir os acontecimentos de maior relevância, distorce, intencionalmente, os que descreve.
É também elucidativo da extraordinária ignorância dos governantes, em matérias da indústria mineira, que esta história tenha sido elogiada pelo Secretário de Estado da tutela.
É, por outro lado, surpreendente que a Comissão Editorial, do Boletim de Minas, constituída por três Engenheiros de Minas, um Geólogo e um Economista, tenha decidido fazer a sua publicação, sem sequer ter utilizado a fórmula frequentemente adoptada: “As ideias expostas são da exclusiva responsabilidade do autor”, para não se comprometerem.
Tenho vindo a analisar, desde o post N.º 178, as descrições de José Goinhas, dispersas pelo seu documento, tentando enquadrá-las nas diferentes fases da prospecção mineira, no seu sentido lato.

Revistas as fases de Documentação, Investigação geológica com simultânea mineralometria, aplicação de técnicas geofísicas e geoquímicas, pequenos trabalhos de pesquisa suscitados pelas técnicas anteriores, cheguei, no post N.º 190, à fase de sondagens.
Tendo em consideração que o objectivo de José Goinhas, conforme sua declaração, era contribuir para a elaboração de novo Plano Mineiro Nacional, mais perfeito que anteriores planificações, era de esperar uma apreciação não só dos dados em que se basearam as sondagens, mas também dos procedimentos adoptados para se extrair o máximo de elementos sobre as formações que elas atravessaram.
Todavia, Goinhas apenas refere que foram executadas sondagens, quer pelos denominados “serviços oficiais”, quer pelas empresas privadas, sem adicionar quaisquer comentário, partindo, portanto, do princípio de que foram bem projectadas e bem conduzidas.

A realidade é, porém, bem diferente:
Houve graves deficiências, no que respeita, quer à fundamentação, quer à execução, tanto da parte dos “serviços oficiais”, como da parte das empresas privadas.
Já denunciei no post anterior três casos, em que dirigentes dos “serviços oficiais” adoptaram procedimentos escandalosos, de que resultaram desperdícios de dinheiros públicos e atrasos no cumprimento de programas racionalmente estruturados.
Vou agora citar mais exemplos, pouco edificantes, relativos a esta fase de sondagens.

4 - Sondagens efectuadas por Union Carbide na zona de Covas da Região de Vila Nova de Cerveira – Caminha - Ponte de Lima
Quando Union Carbide decidiu rescindir os seus contratos, com o Estado e com empresas concessionárias, enviei, em 5-12-1979, ao Director do SFM, Jorge Gouveia, ofício a dar conhecimento de diligências que tinha feito junto do dirigente local daquela Companhia americana, no sentido de ser entregue à DGGM toda a documentação respeitante aos seus estudos na Região, nela se incluindo os testemunhos das numerosas sondagens efectuadas.
Informei ter encontrado a melhor receptividade.
Union Carbide prometera entregar toda a documentação e propunha-se colocar também, no Porto, em local que lhe fosse indicado, as 1650 caixas de testemunhos, com o peso aproximado de 50 toneladas, resultantes dos seus trabalhos de prospecção mineira, apenas com a condição de o transporte ser efectuado até 31-12-1980, pois encerraria, nessa data, todas as actividades no País.
Informei o Director do SFM ser minha intenção analisar todos estes elementos e reprogramar a campanha de prospecção que, desde 1968, tinha em curso na Região, tendo em consideração os resultados dessa análise.
O que veio a acontecer foi deveras surpreendente.
Antes de me ter apercebido do uso que se pretendia dar à documentação que me estava a ser sonegada, eu escrevi, no relatório do 2.º trimestre de 1980, o que, a seguir transcrevo:

Obstrução à consulta da documentação técnica entregue por Union Carbide:
Por termos estado ausentes, em gozo de licença graciosa, durante a segunda quinzena do mês de Dezembro de1979, só em 9 de Janeiro recebemos a resposta do Director do Serviço, com data de 20-12-1979, ao ofício que lhe havíamos endereçado em 5-12-1979, acerca da intenção de Union Carbide entregar à Direcção-Geral de Minas, diversos documentos respeitantes à sua actividade na região de Caminha e também os testemunhos das sondagens efectuadas, a expensas suas, na mesma região.
Verificamos, com estupefacção, que se não aproveitou a oferta de Union Carbide de custear o transporte de cerca de 1650 caixas de testemunhos, de Covas para S. Mamede de Infesta, quando é certo que constantemente se afirma haver falta de meios de transporte no Serviço e, por este motivo, se criam obstáculos a certos trabalhos. Surgem, além disso, ordens recomendando parcimónia no consumo de combustíveis já que as dotações são escassas.
Verificamos, ainda, com alguma surpresa (na realidade já nada nos deveria surpreender do que acontece na Direccão-Geral de Minas) que, tendo sido exclusivamente mercê das minhas diligências e não por obrigação imposta por qualquer disposição legal ou contratual, que Union Carbide consentiu em fazer entrega quer dos testemunhos, quer dos logs das sondagens e outros documentos, o Director do Serviço decidiu, em nova atitude prepotente e obstrucionista, dificultar ou impedir mesmo a minha consulta a este material.
A maneira mais eficaz de atingir o seu objectivo foi introduzir no assunto o seu representante no núcleo de S. Mamede de Infesta, para “assuntos de rotina”, encarregando-o de receber o material e elaborar um documento, a que chamou “relatório”, sobre essa recepção.
Apesar das deficientes relações pessoais, que há muito mantemos com esse funcionário, cuja actuação no Serviço não tem merecido o nosso apreço, não tivemos dúvida em nos deslocarmos, no dia 3 de Janeiro, à região de Caminha, por ele acompanhados, a fim de lhe mostrarmos a quantidade de testemunhos a transportar, agora a expensas do Serviço e o modo como estavam acondicionados nas instalações de Union Carbide e lhe fazermos perceber os cuidados a ter no transporte, para que nada se destruísse e esse valioso material pudesse ser inteiramente aproveitado para novos estudos, quer do Serviço, quer de qualquer outra entidade.
Nessa data e, em vários dias seguintes, insistimos vigorosamente na indispensabilidade de prévia consulta à documentação já entregue ou a entregar ainda, por Union Carbide, antes de se iniciar o transporte, para que a identificação e a arrumação dos testemunhos, em S Mamede de Infesta, obedecesse a um plano, evitando que, por falta de cuidados, viesse a tornar-se inaproveitável tão valioso material.
Apesar das nossas insistências e das repetidas promessas, do género “Estou a elaborar o relatório (?!) que o Director pediu; na próxima semana, a documentação estará à sua disposição”, feitas desde Janeiro, sempre foram surgindo evasivas e a realidade incrível é que nenhum documento nos foi entregue por tal representante, até ao fim do trimestre.
A partir de certa data, quando nos convencemos de que a atitude era superiormente estimulada e que se pretendia nitidamente sonegar-nos a documentação, deixamos mesmo de falar no assunto.
O Director do Serviço, a terminar o seu ofício de 20-12-79, escreve:
“Na medida em que V. conhece melhor do que ninguém a actividade da empresa, poderá actuar junto da empresa, no sentido de não ser olvidada qualquer espécie de documentação.”
Como poderíamos nós saber se foi ou não olvidado algum documento de interesse, se ainda nesta data, nos mantemos na ignorância do que realmente foi entregue?
Não deveria, para tal, ter-nos sido confiada, com tempo para estudo, toda a documentação, antes de Union Carbide ter abandonado a região?
Escrevemos também no relatório da actividade do 1.º Serviço, no trimestre anterior:
“Até ao fim do trimestre, não se nos tornou possível, mercê da sonegação mencionada, dar qualquer passo no sentido da reavaliação do projecto de Covas e sua integração no plano geral de prospecção mineira, na região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima.
Estamos convictos de que os documentos permanecem intactos, sem que alguém os tenha consultado, desde que Union Carbide os entregou.
Talvez seja mero capricho pueril ou talvez senil, a causa do obstrucionismo que está a ser praticado.
Entendemos ser já tempo de começar a responsabilizar aqueles que, além de não estimularem nem colaborarem seriamente, como é seu dever (para isso são remunerados), no inventário e na valorização da riqueza mineira nacional, pelo contrário, criam dificuldades à consecução deste objectivo
Afinal, conforme já revelei, em posts anteriores, havia um real objectivo a justificar a sonegação dos documentos de Union Carbide.
Era preciso distribuir algum trabalho ao Engenheiro Rui Reynaud, recentemente admitido, na DGGM, na vaga de assaltos, a que me tenho referido, com frequência.
Este “génio” estava a justificar a sua admissão directamente com a elevada categoria de Director de Serviço (!!!), entretendo-se com inúteis exercícios académicos, repetindo cálculo de reservas já apresentados por Union Carbide (Ver post N.º 156 ).
Relativamente aos testemunhos das sondagens, escrevi no meu relatório do 2.º trimestre de 1980, texto de que, transcrevo as seguintes passagens:

“Incúria no tratamento de valioso material de sondagens alienado por Union Carbide, a favor da Direcção-Geral de Minas"

Três meses e meio passaram sobre a data do ofício que endereçamos, em 5-12-1979, ao Director do Serviço, acerca dos testemunhos que Union Carbide pretendia alienar a favor da Direcção-Geral de Minas, até que o funcionário representante do Director, no núcleo de S. Mamede de Infesta, “para assuntos de rotina”, se decidisse a cumprir a ordem que recebera de promover o transporte desse material para as instalações de S. Mamede de Infesta.
Argumentou-se que o problema não fora resolvido, em Dezembro de 1979, aproveitando transporte gratuito oferecido por Union Carbide, porque nós estivéramos ausentes.
No entanto, os transportes foram efectuados com total desrespeito pelas recomendações a que aludimos no n.º anterior.
Não se procurou identificar os testemunhos, antes de os retirar do local onde se encontravam metodicamente acondicionados.
Não houve o elementar cuidado de levar caixas para substituir as que apresentassem indícios de má conservação.
Não se estabeleceu qualquer plano para as cargas e descargas.
Não se aproveitou a minha sugestão de utilizar pessoal da Secção de Caminha para as cargas em Covas, tendo-se preferido deslocar de S. Mamede de Infesta ou de mais longe ainda, diversos funcionários (talvez 4 ou 5), em percursos superiores a 200 km, durante vários dias, com uso de duas viaturas (1 jeep para pessoal, um pequeno camião para os testemunhos) !!!
Afinal, uma vez mais, se confirma que as dificuldades de meios de transporte e de combustíveis só existem em certos casos.
Em S. Mamede de Infesta, empilharam-se as caixas ao ar livre, junto a um muro, de modo muito pouco cuidadoso, tendo algumas já caído e prevendo-se que a outras, em breve aconteça o mesmo.
Há já testemunhos dispersos pelo terreno, sendo duvidoso que se possa reconstituir a sua origem.
Receamos que grande parte do material transportado esteja já inaproveitável, constituindo pouco mais que lixo.
Não nos tendo sido facultada a documentação entregue por Union Carbide, obviamente nos poderia ser interdito ou revestir-se-ia de um reduzido interesse, o exame dos testemunhos.
Este é mais um assunto, para o qual chamamos a atenção superior.
O País não pode mais permitir que tão inconscientemente se destruam valiosos elementos de estudo, que custaram muitas dezenas de milhar de contos a produzir.”

Estas passagens de relatórios trimestrais foram transcritas na Introdução ao “Relatório circunstanciado dos trabalhos de prospecção mineira efectuados na Região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima, até 29-2-1984”, sob a minha supervisão, o qual fui compelido a entregar ainda incompleto.
Neste relatório circunstanciado, acrescentei ainda:
Vão passados 4 anos e, apesar de ter havido mudanças nas principais chefias da Direcção-Geral de Minas, ainda não tive acesso aos documentos entregues por Union Carbide !!!
Quanto aos testemunhos das sondagens permanecem atabalhoadamente empilhados, junto ao mesmo muro, sujeitos à intempérie, nas instalações de S. Mamede de Infesta, sendo já muito duvidoso que tenham qualquer utilidade!!!
Somos realmente um País muito rico, que se permite desperdiçar tamanho valor. Assim se deitam fora dezenas de milhar de contos!!!
Não temos dúvida em classificar isto de um autêntico crime. E não seria muito difícil encontrar os responsáveis.”

Conforme já revelei, tive oportunidade de entregar, pessoalmente ao Ministro Veiga Simão um exemplar desta Introdução.

As referências vagas e incorrectas de Goinhas aos jazigos tungstíferos da Região de Vila Nova de Cerveira –Caminha – Ponte de Lima demonstram não ter consultado os “relatórios internos”, que cita na extensa bibliografia com que termina o seu documento.

5 – As sondagens efectuadas na Mina de ferro de Vila Cova do Marão

A respeito de sondagens, que tinham sido efectuadas pelo SFM, para investigação deste jazigo, escrevi no post N.º 30:
“Nas Minas de Vila Cova, o SFM tinha feito realizar, no princípio da década de 40, uma campanha de prospecção magnética, por contrato com a Companhia sueca ABEM.
Em anos mais recentes, tinha dado cumprimento a um projecto de sondagens.
Numa das reuniões, o Director afirmou haver divergências grandes entre resultados dos estudos do concessionário e os do SFM.
Impunha-se uma análise cuidada de toda a documentação respeitante a este jazigo, pois se considerava a hipótese de novas sondagens deverem ser projectadas.
O Director encarregou-se de encontrar, não só os relatórios, como os logs, plantas e perfis pelas sondagens e os testemunhos destas sondagens.
Em reuniões seguintes, este caso de Vila Cova voltou a ser por mim abordado. Todavia, o Director começou a ficar embaraçado, pois nem relatórios, nem desenhos nem testemunhos se encontravam.
Deste embaraço resultou que não mais se realizaram reuniões!

No post N.º 68, acrescentei:
"Em relatório com data de 1966, o Geólogo Dr. António Ribeiro, menciona estudos anteriores, mais ou menos desenvolvidos, de diversos outros Geólogos, entre os quais Cotelo Neiva e Carlos Teixeira, para definir a estrutura do jazigo e avaliar as suas reservas.
Conclui, no entanto, das suas próprias observações, que o jazigo de Vila Cova se mantém incompletamente reconhecido.
Agora, pretendo apenas chamar a atenção para as possibilidades que se abrem com a aplicação conjugada dos métodos gravimétrico e magnético, na vasta área considerada potencial.
A campanha de prospecção magnética do início da década de 40 do século passado fez uso de equipamentos de baixa sensibilidade e limitou-se à área que então era tida como potencial.
A gravimetria permitirá fazer a avaliação das reservas, tal como aconteceu em jazigos de ferro descobertos no Alentejo, nomeadamente nos da Alagada e Vale de Pães, a que me referi nos posts N.ºs 45 e 46. Nestes casos, a avaliação, pela carta gravimétrica, foi plenamente confirmada pelo cálculo feita através dos resultados das sondagens.
O mesmo tinha acontecido com as massas de sulfuretos complexos de Moinho e Feitais em Aljustrel e parece a estar a confirmar-se com o conjunto das massas de sulfuretos de Neves-Corvo.
A História de José Goinhas é totalmente omissa no que respeita à prospecção com vista à descoberta de reservas de minérios de ferro, apesar de ferro e ouro terem sido, no início da actividade do SFM, quase os únicos estudos constantes dos programas deste Organismo.

6 – Sondagem profunda em Moncorvo
O Director-Geral de Minas Soares Carneiro não aprovou sondagem profunda, projectada para investigar a provável existência de uma parte oculta do jazigo de ferro de Moncorvo, que poderia contribuir para aumentar significativamente o valor das suas reservas, quer em quantidade quer em qualidade do minério.
Esta sondagem fundamentava-se em excepcionais resultados da aplicação dos métodos magnético e gravimétrico, registados em ambiente geológico altamente favorável.
As invulgares características destas anomalias, sobretudo no que respeita à sua intensidade, levaram-me, então, a emitir a hipótese de estarmos em presença de um depósito de dimensões idênticas às do enorme jazigo de Kirunavara, na Suécia, sendo a parte conhecida, com reservas estimadas em 600 milhões de toneladas, apenas a sua manifestação superficial, isto é, o equivalente à ponta de um iceberg. (Ver post N.º 67).
A história de Goinhas ignora também os estudos do SFM neste jazigo.
Registo que o mesmo Director-Geral que não aprovou este projecto, autorizou sondagens profundas, em áreas do Alentejo, com muito precários fundamentos, convencido de que iria proporcionar ao seu afilhado Delfim de Carvalho, apresentar-se como autor de grande descoberta, embora através de procedimentos indignos (Ver post N.º 86).
Em próximo post, referir-me-ei, mais detalhadamente a estas sondagens.
É surpreendente que Goinhas nem sequer tenha reparado nas excepcionais anomalias, a que me referi, as quais foram obtidas, em resultado de trabalho efectuado pela 1.ª Brigada de Prospecção, quando nela esteve integrado, ainda sob a minha chefia!!
É extraordinário que tenham passado mais de 30 anos, sem que se tenha conseguido revitalizar o centro mineiro de Moncorvo e sem que se tenha aproveitado este recurso mineral, para a instalação de uma indústria siderúrgica, com dimensão compatível com as enormes reservas existentes e a revelar.
A este respeito, ocorre-me a anedota que Soares Carneiro contou, numa reunião da Comissão de Fomento:
“Quando Deus distribuía, pela Terra, as riquezas minerais, S. Pedro chamou a sua atenção para a abundância com que privilegiava Portugal, em detrimento dos outros países.
Deus, complacentemente, explicou: Verás a qualidade de gente que lá vou colocar!
Carneiro usou termo escatológico para qualificar a gente de Portugal, na qual, obviamente estava a incluir-se.”
Os meios de comunicação social têm vindo recentemente a anunciar projectos ambiciosos visando a revitalização das Minas.
Também o Ministro da Economia Álvaro Santos Pereira a eles se tem referido, embora não tenham sido de iniciativa governamental.
A este Ministro enderecei cartas directamente e através deste blogue (V. post N.º 67 A), às quais não recebi resposta, não obstante haver disposição legal que impõe aos dirigentes a obrigatoriedade de responder, em prazo determinado, às exposições que lhe são dirigidas.
Não chegou ao meu conhecimento o que de concreto tem sido realizado, no âmbito destes novos projectos.

7 – As sondagens nas Faixas Carboníferas do Douro e de Ourém
O que Goinhas escreve a respeito das Faixas Carboníferas do Douro e de Ourém está muito longe de corresponder à verdade das investigações efectuadas.
Conforme registei no post N.º 52, quando, em 1963, fui nomeado Chefe do Serviço de Prospecção do SFM, também tive a meu cargo os estudos com vista à definição de reservas de carvão no País.
Antes de terminar a licenciatura em Engenharia de Minas, eu tinha efectuado, em 1943, estágio sobre sondagens, na zona de Midões da Faixa Carbonífera do Douro.
Sabia que sondagens continuaram a ser realizadas, ao longo dos 20 anos decorridos desde então, nas diversas zonas do País, onde era conhecida a ocorrência de carvão.
Estava, porém, longe de suspeitar do estado em que se encontravam as investigações feitas na faixa carbonífera do Douro, e na faixa de Ourém.
A situação que se me deparou causou-me enorme surpresa.
Havia por estudar 40 sondagens longas que tinham sido efectuadas na Faixa Carbonífera do Douro e número semelhante na Bacia Carbonífera de Ourém.
Além disso, nem sequer estava feita a sua implantação em mapas geológicos.
A agravar a situação, decorriam sondagens na zona de Ourém, para investigar o prolongamento em profundidade de camadas de carvão de espessuras exíguas, sem hipótese de viabilidade de exploração económica, não fazendo, consequentemente, sentido, manter em curso tal projecto.
Encarreguei, então, o Agente Técnico de Engenharia Vitorino Correia de fazer a implantação em cartas geológicas, das sondagens e sanjas, efectuadas na Faixa Carbonífera do Douro, anteriormente à minha chefia do Serviço de Prospecção.
O Geólogo Silva Freire, a cujo cargo estivera o projecto de investigação desta Bacia passou largos meses a estudar os testemunhos das sondagens, apresentando os seus resultados em textos que anexava aos relatórios mensais.
Recusou-se a elaborar logs onde se registassem, sob a forma gráfica, ao longo dos furos, não só as formações atravessadas a percentagem de testemunhos, a orientação dos furos (direcção e inclinação), as análises químicas e outros dados de interesse que tivessem sido colhidos.
Tive, por isso, que encarregar o Agente Técnico Vitorino Correia de fazer esses logs e também de elaborar perfis geológicos longitudinais e transversais, pelas camadas de carvão, com base nos elementos que lhe foram disponibilizados.
Ao Geólogo competiria elaborar estes perfis, que iriam constituir a base para cálculo e identificação das reservas evidenciadas, para a planificação da futura exploração.
Mas o Geólogo, não só recusou fazer tal trabalho, como desvalorizou tudo quanto o Agente Técnico de Engenharia havia feito por ele.
Perante o ambiente que vigorava na sede do SFM, estimulado pelo Director e dado tratar-se de um dos funcionários mais antigos do SFM não me era possível impor a metodologia normal.
Quando ficaram concluídos os desenhos, entreguei, ao Geólogo, volumoso rolo em papel cenográfico que os continha para dele fazer adequado uso, apesar da sua relutância em o receber.
Registo a escassa ou nula representação por testemunhos inteiros das zonas onde se admitiu ter sido atravessado o carvão.
Por outro lado, não tinha havido o cuidado elementar de controlar devidamente as trajectórias dos furos.
Eu tinha dado instruções ao Geólogo no sentido de apresentar relatório sintetizando toda a actividade realizada na Faixa Carbonífera do Douro, para se poderem planificar as acções futuras.
Tal relatório teria obviamente que conter peças desenhadas, entre as quais os perfis longitudinais e transversais seriam fundamentais.
O relatório, que recebi, em Agosto de 1968, sem as peças desenhadas a que aludi, foi de pouca utilidade, não correspondendo ao que seria de esperar.
Aconteceu, então, que o Director do SFM, que em 1964 se mostrara incapaz de apresentar Plano que o Secretário de Estado lhe solicitara, sem me informar, chamou a si o problema dos carvões da Bacia Carbonífera do Douro, dando instruções directas ao Geólogo, resultantes de reuniões que realizou com um dos concessionários.
A continuação dos estudos na Bacia Carbonífera do Douro deixou, consequentemente de ser da minha responsabilidade.
A disciplina que eu pretendia introduzir nestes estudos foi destruída pelo Director do SFM.
Tive conhecimento de ter sido elaborado novo projecto de sondagens.
Constou-me também que as peças desenhadas preparadas pelo Agente Técnico de Engenharia, sob minha orientação, mas sem a indispensável revisão pelo autor do exame dos testemunhos das sondagens, acabaram por ter a utilidade que mereciam.
Em reunião da Comissão de Fomento, tomei conhecimento de que o concessionário da Minas do Pejão não tinha encontrado, em novo piso que instituíra, as camadas de carvão exploráveis, que o exame dos testemunhos das sondagens fizera prever.
As minas deram por finda a exploração, já quando eu estava aposentado. Disso tomei conhecimento pelos jornais. Pelo que me foi dado conhecer, quando o estudo dos carvões esteve sob a minha supervisão, sou levado a concluir que houve graves deficiências no reconhecimento desta importante faixa Carbonífera, que podem ser responsáveis pelo encerramento das Minas.

8 – Sondagens para prospecção de petróleo
No capítulo que Goinhas dedicou aos minérios energéticos, nada refere relativamente à prospecção de petróleos!!!
Nem sequer lhe ocorreu que o Governo tinha atribuído tal importância a este tema, que decidira criar um Organismo directamente dependente da Presidência do Conselho de Ministros, para que as investigações visando a descoberta deste precioso recurso, pudessem ter o impulso que não estava a ser conseguido, no âmbito da Direcção-Geral de Minas.
Foi assim criado o GPEP (Gabinete para a Prospecção e Pesquisa de Petróleo) (Ver post N.º 118).
Em resultado das sondagens realizadas por empresas privadas, antes e depois da criação do GPEP, acumulou-se enorme soma de dados de grande utilidade para o conhecimento geológico do território e para a prospecção de outros minérios.
Tenho conhecimento de que o Engenheiro Jorge Faria, que foi o primeiro Director deste Organismo, tomara a iniciativa de arquivar devidamente, em armazém localizado em Vila Franca de Xira, os materiais recolhidos nas sondagens, para eventuais futuros estudos.
Ignoro se esse armazém se mantém activo e se têm sido feitas consultas por empresas que continuam interessadas na procura de petróleo, tanto na área emersa, como nas vastas áreas imersas a zona exclusiva portuguesa.

É, uma vez mais, revelador da desorientação dos governantes, em matérias da indústria mineira, que Goinhas, apesar de ter ignorado, no documento que tenho vindo a analisar, a prospecção de tão importante recurso mineral, tenha sido nomeado Director do GPEP, quando o cargo ficou vago, por falecimento do Eng.º Jorge Faria!!!!

Continua…

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

190 - Um novo Plano Mineiro Nacional. Continuação 14

Sendo a prospecção mineira actividade de elevado risco, envolvendo grandes investimentos, é essencial que se respeitem, escrupulosamente, as fases em que se deve processar.
Tenho vindo a revelar que esta metodologia, não está patente nas vagas informações contidas nos quadros que constam da história da “Prospecção Mineira em Portugal”, da autoria de José Goinhas, apesar do propósito manifestado de a investigação histórica ter sido feita, com a intenção de contribuir para novo Plano Mineiro Nacional, destinado a aumentar a eficácia da nossa indústria mineira, que se encontrava em acentuada decadência.
Exemplo bem elucidativo do desrespeito pela disciplina, fundamental em prospecção mineira, é a “atitude de bombeiro”, que Soares Carneiro frequentemente assumiu (ver post N.º 2), em ostensivo abuso dos poderes do seu cargo de Director-Geral de Minas, convencido de que “queimando etapas”, rapidamente conseguiria chegar a grandes descobertas. (ver post N.º 56)

Sem a mínima consideração pelas funções que competiam ao Director do SFM e aos Chefes de Serviços, decidiu orientar directamente alguns estudos.
Em vários casos, passou à fase de sondagens, prescindindo dos trabalhos em que elas se deveriam fundamentar.
Destas acções indisciplinadas, nem um único sucesso resultou. Além de mau uso de dinheiros públicos, por quem tinha obrigação de dar bons exemplos, atrasou-se o cumprimento dos programas racionalmente estruturados.

O SFM, no seu período inicial, teve, naturalmente, que recorrer a empresas estrangeiras, para trabalhos especializados.
Visando encontrar novas reservas de minérios de ferro e de pirites complexas, firmou contratos com a empresa sueca ABEM, para aplicação de técnicas de prospecção, por métodos geofísicos, que começavam, então, a ser introduzidas na indústria mineira. (ver post N.º 5)
Para reconhecimento da Faixa Carbonífera do Douro e do carvão do Moinho da Ordem (Santa Susana, Alcácer do Sal), contratou a empresa de sondagens “Société Anonyme Belge d’Entreprise de Forage & de Fonçage (Foraky). (ver post N:º 52)

Previdentemente, acompanhou, com grande empenho, os procedimentos técnicos de ambas as empresas, extraindo ensinamentos para poder vir a encarregar-se, futuramente, de realizar, com equipamentos próprios, trabalhos dessa natureza.
No decurso dos tempos, o SFM foi obtendo os equipamentos necessários para atingir os seus objectivos.
Foi também adquirindo experiência na respectiva utilização.
Ficou, portanto, apto a realizar, não apenas trabalhos mineiros tradicionais, mas também a aplicar técnicas de prospecção geofísica e a fazer sondagens.
De realçar, o valiosíssimo material recebido, ao abrigo do Plano Marshall. (ver post N.º 15)
A aplicação de técnicas geofísicas, directamente pelo SFM, de modo sistemático, só teve início na década de 50, por manifesto desinteresse do Engenheiro, a quem foi confiada a denominada Brigada de Prospecção Geofísica (BPG), com tolerância do Director. (ver post N.º 13)

Porém, já em 1947, o SFM fora capaz de efectuar a sua primeira sondagem.
Este acontecimento, notável para a época, ficou a dever-se à iniciativa dos Agentes Técnicos de Engenharia, Luís de Albuquerque e Castro e Fernando Gonçalves Macieira, oriundos da sede em Lisboa, os quais eram dotados de grande capacidade organizativa, lamentavelmente desperdiçada e até hostilizada, pelo Engenheiro Norberto Queiroz, quando ocupou o cargo de Director do SFM.
A sondagem foi implantada próximo da Mina de chumbo do Braçal e teve por objectivo investigar a causa de anomalia electromagnética, registada em campanha a cargo da ABEM de Estocolmo.
O SFM realizou, depois, outras sondagens, em diversas zonas da Faixa Piritosa Sul - Alentejana, com base em anomalias electromagnéticas, seguindo também recomendações da ABEM de Estocolmo, a cujo cargo decorrera a campanha de 1944-49. (ver post N.º 10)
Na Região de Cercal – Odemira, onde tinham decorrido, durante 14 anos, importantes trabalhos de pesquisa e reconhecimento de filões ferro-manganíferos, projectaram-se e executaram-se sondagens, para reconhecer os filões, a profundidade que os trabalhos mineiros não puderam alcançar, por dificuldades de esgoto dos abundantes caudais de água encontrados.
Pretendeu-se aproveitar a experiência que a Brigada com especialização em Sondagens ia evidenciando, para reconhecer a profundidade superior a 300 m, o principal filão ferro – manganífero (na Serra do Rosalgar), na expectativa de que viessem a encontrar-se sulfuretos do grupo BGPC (blenda, galena, pirite, calcopirite).
Em caso afirmativo, seria mais um bom indício a favor da hipótese de estarmos em presença de uma área de características idênticas às da Faixa Piritosa, podendo os filões ser atribuídos a remobilizações provenientes de massas mineralizadas de grandes dimensões.
Todavia, a sondagem não foi realizada, por não se possuir ainda material com capacidade para tal empreendimento e o Director do SFM não ter considerado oportuna a sua aquisição.
Chegou ainda ao meu conhecimento terem sido realizadas sondagens, na década de 50, com equipamentos do SFM, para investigação do jazigo de ferro de Vila Cova do Marão.
Todavia, nem relatórios, nem logs, nem os testemunhos destas sondagens se encontraram, quando, pretendi fazer a sua consulta, no desempenho de novas funções que, em 1963, me foram atribuídas. (ver post N.º 30)

Também na década de 50, a Brigada de Sondagens deu execução a um vasto programa, na região de Barrancos, envolvendo furos, não só no exterior, mas também a partir de trabalhos interiores da Mina de cobre de Aparis.
A maioria destas sondagens apoiou-se em resultados da aplicação do método electromagnético Turam, obtidos em campanha efectuada sob minha orientação, ainda na qualidade de Chefe da Brigada do Sul, com equipamento que o SFM tinha adquirido, o qual a BPG se tinha mostrado incapaz de pôr em funcionamento. (ver posts N.ºs 20 e 21)

É de assinalar que a campanha no exterior esteve em risco de ser suspensa, logo no seu início, por dificuldade de obtenção de testemunhos.
A Brigada de Sondagens teve, porém, o mérito de solucionar este problema.
Entretanto, prosseguiam também sondagens na Faixa Carbonífera do Douro, em sucessivas campanhas, por contrato com a empresa belga Foraky, enquanto o Director do SFM não se dispunha a aproveitar a capacidade técnica que a Brigada de Sondagens vinha demonstrando, para adquirir equipamento com possibilidade de realizar furos com comprimentos da ordem dos 800 m.

Após a minha nomeação para chefiar um Serviço de Prospecção Mineira, com âmbito de actuação extensivo a todo o território metropolitano nacional, rapidamente começaram a surgir alvos justificativos de investigação por sondagens, resultantes da aplicação de variados métodos geofísicos e geoquímicos, em áreas previamente seleccionadas, através estudos geológicos pormenorizados.
A Brigada de Sondagens do SFM foi encarregada de dar a natural sequência aos estudos do Serviço de Prospecção e foi desempenhando, na generalidade dos casos, muito satisfatoriamente esse encargo, em cumprimento de projectos devidamente fundamentados.
Foi assim que puderam concretizar-se os êxitos variados, a que já fiz pormenorizada referência.

O Director-Geral de Minas, Soares Carneiro que, no início do seu mandato, não só não interferia na actividade disciplinada que ia decorrendo, como fazia questão de a revelar ao Ministro da tutela para demonstrar a eficácia do Organismo que lhe estava confiado, passou, a partir de determinada data, a encarregar-se de orientar directamente alguns estudos e a criar obstáculos à investigação, por sondagens, dos alvos que o Serviço de Prospecção, a meu cargo, ia definindo.

No post anterior, antecipei que, em matéria de sondagens, tinham sido cometidos pelos “serviços oficiais”, isto é, pela Director-Geral de Minas e pelo Director do Serviço de Fomento Mineiro, actos escandalosos e, até criminosos.
Vou, agora, referir exemplos desses actos (nalguns casos verdadeiramente anedóticos), para os quais, em tempo oportuno, chamei a atenção, em relatórios e, também em exposições ao Governo.

1 - A sondagem do nevoeiro em Caminha.
A seguir, transcrevo o que consta da coluna de Observações da peça desenhada N.º 149 (Log da sondagem N-º 3 da Região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima) do “Relatório Circunstanciado”, a que tenho vindo a fazer frequente referência:

“Esta sondagem foi projectada por técnico do concessionário, com autorização do Director do Serviço de Fomento Mineiro, durante curta ausência, no Alentejo, do responsável pelos estudos na Região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima.
Tendo tomado conhecimento, após o meu regresso, de que esta sondagem se encontrava em curso, manifestei ao Director do Serviço a minha total discordância quanto à sua implantação, para a qual não encontrava qualquer justificação técnica ou científica e a minha estupefacção pela indisciplina que representava a sua autorização.
Como reacção recebi a informação de que “as coisas não se passavam como eu julgava”, que “o Director-Geral estava ao corrente”, que “o concessionário também conhecia o jazigo e tinha, portanto, o direito de projectar sondagens!!!!”
Tendo, mais tarde, encontrado casualmente, na mina da Cerdeirinha, o autor do projecto e tendo-lhe perguntado os fundamentos da implantação desta sondagem, foi-me respondido que o furo fora iniciado em local errado, porque, no dia da sua marcação, esteve denso nevoeiro e o alinhamento que traçou, para o efeito, saiu defeituoso".(!!!!!!!)


Esta autêntica anedota foi o primeiro sinal da indisciplina que progressivamente se instalaria, assumindo proporções escandalosas, de verdadeiros crimes.

2- Suspensão de campanha de sondagens na Região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima

Quando decorria, com normalidade, sob a minha direcção, a investigação, por sondagens, das existências de mineralizações tungstíferas, na Região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima, estando projectado o furo N.º 69, com base em pronunciada anomalia magnética, com apoio geológico e geoquímico, fui surpreendido com ordem superior no sentido de ser suspensa a campanha.
Na tentativa de justificar esta inesperada decisão, o Director-Geral Soares Carneiro, convocou-me para participar em reunião, em Lisboa, que teria por objectivo fazer a distribuição das poucas sondas que o SFM possuía, tendo em atenção as prioridades dos programas que as solicitavam.
Também participaram, nessa reunião, além do Engenheiro Múrias de Queiroz , Director do SFM, e do Engenheiro Fernando José da Silva, que pouco tempo antes, assumira a chefia da Brigada de Sondagens, o Geólogo José Goinhas, em representação da 1.ª Brigada de Prospecção, onde também decorriam sondagens e o Engenheiro Francisco Limpo de Faria.
O argumento apresentado para a decisão tomada foi a urgência em investigar um “muito promissor jazigo tungstífero”, que os denominados “scheeliteiros” tinham descoberto em Cravezes, na região de Mogadouro.
Encontrando-se em utilização todas as sondas de que o SFM dispunha, haveria que transferir uma delas, de programa com menor prioridade.
E o programa escolhido foi o que estava a decorrer, a meu cargo, na Região de Vila Nova de Cerveira – Caminha - Ponte de Lima!

Deveras surpreendentes foram declarações produzidas pelo Engenheiro Fernando Silva.

Começou por dizer que tinha sondas em armazém, em tarefas de manutenção, por não lhe terem sido apresentados projectos para pôr em execução!
Assim contradizia, sem disso se ter apercebido, a argumentação do Director-Geral para suspender a campanha a meu cargo. Penso que ignorava esta argumentação, pois não era de esperar que ousasse afrontar o Director-Geral.
De facto, havia projectos, e não só, para a Região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima. Também havia, para a Faixa Metalífera da Beira Litoral, há anos aguardando concretização.
Não se tinham apresentado projectos envolvendo muitos furos, porque se usava a boa prática de fazer depender cada novo furo dos resultados do anterior.
Mas era previsível a necessidade de executar campanhas mais ou menos longas, nas diversas áreas onde se registaram extensos alinhamentos de anomalias geofísicas e (ou) geoquímicas.
Quando chamei a atenção para a enorme disparidade entre o rendimento da sonda do SFM que tinha estado a actuar em Caminha, e o rendimento de sondas que actuavam para a Companhia americana Union Carbide, o Engenheiro Fernando Silva só encontrou um comentário: Os americanos eram super-homens! E ninguém contestou tão estranha afirmação!
Não teve o brio nem o zelo que manifestaram os Agentes Técnicos de Engenharia Fernando Macieira e Luís Albuquerque e Castro, que, na década de 40, se não tinham intimidado e conseguiram introduzir a técnica das sondagens no SFM, nem idêntico brio e zelo demonstrado por vários outros técnicos, que foram desenvolvendo o sector das sondagens.
Nem lhe ocorreu seguir o exemplo da minha persistente luta para introduzir as técnicas geofísicas e geoquímicas, cujo sucesso foi de tal ordem, que empresas privadas nacionais ou estrangeiras, passaram a solicitar a colaboração do SFM em trabalhos desta natureza, dando-lhes preferência relativamente às empresas especializadas estrangeiras, por lhes reconhecerem maior qualidade.
Seria natural que um chefe diligente, tivesse manifestado o propósito de providenciar no sentido de o SFM passar a agir com rendimento idêntico ou superior ao que demonstravam os sondadores contratados por Union Carbide.
Mas Fernando Silva, que se declarou ignorante em matéria de sondagens, porque a sua actividade anterior se passara em trabalhos diferentes, ao resignar-se a manter a Brigada que chefiava em tal situação de inferioridade, não se mostrou sequer disposto a aproveitar o mérito dos colaboradores que herdara dos seus antecessores.
Demonstrou, uma vez mais, a mediocridade, de que tinha dado abundantes provas, em vários cargos que ocupara.
A decisão de suspender a campanha de sondagens que decorria na Região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima foi referida, em relatórios trimestrais e anuais e em outros documentos, como mais uma dificuldade a acrescentar a muitas outras que deliberadamente vinham sendo provocadas ao desempenho das minhas funções, no SFM.

Transcrições parciais desses documentos, constam da “Introdução do Relatório Circunstanciado”, da qual dei directo conhecimento ao Ministro Veiga Simão, com as consequências descritas nos posts N.ºs 164 a 173.

A seguir, reproduzo curtas passagens desses documentos:

a) Na página 7 do Relatório da Actividade do 1.º Serviço durante o ano de 1976:

“Os levantamentos magnéticos e geoquímicos efectuados na zona da Costa das Vinhas, cobrindo o flanco NE da grande estrutura anticlinal, que temos vindo a investigar pormenorizadamente, revelaram diversas anomalias com interesse suficiente para justificarem sondagens.
Dentre estas, destaca-se, junto à Ribeira de S João, a cerca de 400 m a Norte da confluência da Ribeira de Arga com esta Ribeira, uma anomalia magnética de mediana intensidade, com bom apoio geoquímico, registada em ambiente geológico francamente favorável à ocorrência de mineralizações de tungsténio.
Esta anomalia foi seleccionada para implantação da sondagem N.º 69.
Tal sondagem não chegou, porém, a efectuar-se, por superiormente se ter decidido suspender a campanha de sondagens, na Região de Caminha, conforme já referimos.
...
Parece-nos ainda de interesse registar que, no mês de Dezembro, a Companhia americana Union Carbide Exploration Corporation requereu superiormente autorização para estender os seus trabalhos de prospecção e pesquisa a uma área envolvente das concessões de Geomina Limitada, que coincide com aquela onde tem ultimamente incidido a actuação do 1.º Serviço e da qual foi retirada a equipa sondadora, por haver outra zona com maior prioridade para execução de sondagens.

b) De páginas 15 e 16 do Relatório da Actividade do 1.º Serviço, no ano de 1977

"Não podemos ainda deixar de referir um importante êxito obtido pela Companhia americana Union Corporation Exploration Corporation, na área cativa para o Estado que, recentemente lhe foi adjudicada para trabalhos de prospecção, pesquisa e exploração mineira.
Esta Companhia não teve quaisquer dúvidas em transferir imediatamente, uma das sondas que, na região, tem em serviço, para investigar a zona de anomalias magnéticas e geoquímicas que havíamos seleccionado para a implantação da sondagem N.º 69.
Lembramos que, em Setembro de 1976, quando se deveria efectuar este furo, a chamada Comissão de Direcção do Serviço de Fomento Mineiro decidiu retirar a sonda que, há 8 anos, se encontrava em trabalho na região de Caminha, com argumentos inconsistentes, como oportunamente assinalamos, em diversos documentos.
Lembramos também que, num desses documentos, chamamos a atenção para o facto de poucas sondagens se terem efectuado, na Região de Caminha e até em todo o Serviço de Fomento Mineiro, com tão sólidos fundamentos, como a que se projectou com o N.º 69.
Conclui-se que a Comissão dita de Direcção do Serviço de Fomento Mineiro, está pouco interessada em obter êxitos.
Prefere que eles sejam preparados pelos sectores sãos do Serviço, para que outros os concretizem, com a maior das facilidades!
Foi o que aconteceu neste caso.
A Companhia americana, investigando as anomalias definidas pelo Serviço, sem necessidade de proceder a quaisquer outros estudos, intersectou, na sondagem que efectuou, à profundidade de cerca de 50 m, um nível de skarn, com espessura superior a 5 m e com um teor médio de WO3 de 1,5%!
A mineralização, muito semelhante à de Valdarcas, consta de pirrotite maciça, com volframite e scheelite. Nalgumas zonas, ocorre, ainda, a calcopirite, em relativa abundância.”


Este resultado, francamente positivo, encorajou Union Carbide a efectuar várias outras sondagens, com as quais definiu reservas justificativas de futura exploração. Requereu e obteve a respectiva concessão, a que deu o nome de Telheiras.
Com estas novas reservas, aproximou-se significativamente do total de 1 milhão de toneladas com o teor médio de 0,8%, disperso por várias parcelas, que considerava necessário para passar à fase de exploração.
Todavia, uma acentuada baixa de cotação do tungsténio, provocada pela China, tornou anti-económica a exploração de numerosas minas, a nível mundial.
Por esse motivo, Union Carbide decidiu abandonar o seu projecto de Covas. (ver posts N.ºs 148 e 149)

Por minha indicação e não porque tal formalidade constasse de contrato com o Estado, Union Carbide entregou vasta documentação, que eu tencionava usar para reprogramar os estudos na Região, tendo em consideração estes novos dados.

Foi, porém, grande a minha surpresa, ao verificar que esta documentação me foi deliberadamente ocultada e que se tinham intrometido nos estudos da Região, como se nada mais houvesse a fazer no SFM, o Engenheiro Reynaud, recém-admitido, com a categoria de Director de Serviço (!) e um Engenheiro de nome Gonzalez, que não cheguei a conhecer, mas que soube ter vindo, por diversas vezes, clandestinamente, retirar testemunhos das sondagens do SFM, sem que eu chegasse a saber o que deles fazia.
Quando, em 2-2-84, me desloquei a Lisboa, convocado pelo Director do SFM, para análise do projecto de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima, e este Director não pôde comparecer, por se ter declarado “doente”, enquanto se aguardava o seu restabelecimento, o Engenheiro Reynaud, quis demonstrar os seus talentos, explicando-me novo cálculo de reservas que fizera, para a zona de Telheiras, com o propósito de aperfeiçoar a avaliação feita por Union Carbide, com base nos resultados das sondagens que projectara e fizera executar.

Registo que Telheiras era a zona onde eu projectara a sondagem N.º 69.
Não atribuí, obviamente, qualquer mérito a esta reavaliação, que considerei despropositada e um simples trabalho académico.
Não compreendia que Reynaud tivesse aceite os locais de implantação das sondagens, o exame dos testemunhos, as amostragens e os resultados das análises e só pusesse em dúvida a avaliação das reservas feita por técnicos directamente envolvidos no projecto.
A decisão dos dirigentes de não executar esta sondagem marcou o fim da campanha de sondagens na Região, sob a minha orientação!!!
Lembro que, a este respeito, escrevi no post N.º 156.
Reynaud aproveitou a oportunidade para falar de um relatório, que disse estar a elaborar, sobre as minas de Covas, com base nos dados de Union Carbide!!!!
Propunha-se racionalizar o aproveitamento do jazigo, promovendo a integração das concessões numa única entidade exploradora.

Parecia-me muito estranho que Reynaud nada revelasse sobre actividade própria, não parasitária, que estivesse a desempenhar, em cumprimento dos programas do SFM, sabendo-se quão atrasado se encontrava o estudo de muitas outras áreas do País, com grandes potencialidades para a ocorrência de minérios vários, e estivesse a intrometer-se no projecto de Caminha, sem nunca lá ter efectuado qualquer trabalho e sem ter demonstrado sequer ter percebido o significado dos resultados das técnicas que lá se aplicavam.
Tomava a sua exposição como um exercício académico, procurando a aprovação do professor.
Nesta atitude, comentei que o seu conhecimento era muito incompleto, que não bastaria usar documentos de outros, que era necessário um conhecimento mais real, que só a presença nas minas, no terreno, facultaria.
Além disso, não era de técnico com a sua formação e mantendo a sua residência no Sul, que o projecto de Caminha estava necessitado. Até Daniel percebera ser no domínio da geologia estrutural que maior carência se notava, apesar dos progressos conseguidos pelos cerca de 20 Geólogos que haviam passado pela Union Carbide.

A deslocação da sonda, para a região de Mogadouro, redundou num dos maiores “fiascos” registados no SFM.
O Director-Geral de Minas, Soares Carneiro, que tinha passado 20 anos no Norte, principalmente em serviços de fiscalização de minas de estanho e volfrâmio, afinal ignorava a propriedade da scheelite, de se tornar fluorescente, quando sobre ela incide radiação de determinado comprimento de onda.
Ao aperceber-se de que eu vinha obtendo êxitos, ao fazer uso desta propriedade, no conjunto de técnicas visando a descoberta de novas ocorrências tungstíferas na Região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima, aplicando um velho “mineralight” que trouxera do Alentejo, logo pensou que também ele poderia chegar às grandes descobertas, se tirasse partido dessa propriedade.
A scheelite não se distingue facilmente, à simples observação visual, de um conjunto de minerais estéreis, entre os quais pode ocorrer disseminada.

Uma campanha de prospecção apoiada simplesmente no uso de um “mineralight”, sem necessidade de aplicação de outras técnicas mais sofisticadas, poderia conduzir a espectaculares descobertas, as “Torres dos Clérigos”, como gostava de as designar, em reuniões da Comissão de Fomento. (Ver post N.º 56)
Nestas reuniões, estava sempre presente o Director do SFM, Múrias de Queiroz, que apoiava, sem discussão, todas as decisões de Soares Carneiro.
Tão confiante se mostrara no êxito da campanha, que não hesitou, em destacar, para sua execução, 10 funcionários da sede do SFM, aos quais adicionaria trabalhadores localmente recrutados.
Da Ordem de Serviço N.º 18/75 (Ver post N.º 106), constam os seguintes, que constituíam o denominado “Grupo de Trabalho do Tungsténio”:
Três Geólogos (Santos Oliveira, Francisco Viegas e Farinha Ramos), um prospector, um auxiliar de prospecção, um ajudante de preparador, um ajudante de Laboratório, dois motoristas, um jornaleiro, diverso pessoal eventual a contratar nos locais de trabalho.
É elucidativa o confronto com o núcleo sediado em Caminha, constituído apenas por 4 a 5 funcionários, actuando sob a minha direcção e com a minha participação, os quais tinham sido admitidos nos locais de trabalho, apenas com a instrução primária e tinham adquirido, por meu intermédio, preparação nas técnicas que estavam a ser aplicadas.
À acção deste núcleo se ficou devendo a continuidade da exploração nas Minas de Valdarcas, Fervença e Cerdeirinha e a introdução de Union Carbide na Região.
O denominado “Grupo de Trabalho do Tungsténio” actuou, durante anos, sob a orientação do Director-Geral, em áreas de Mogadouro, Tarouca, Freixo de Numão e Lagoaça.

Foi em Cravezes, na região de Mogadouro, que declarou ter descoberto “ um muito promissor jazigo”, a exigir imediata investigação por sondagens, assumindo estas, tal prioridade, que se justificaria, para as efectuar, retirar a sonda que se encontrava a cumprir campanha na Região de Vila Nova de Cerveira – Caminha - Ponte de Lima.
Isto acontecia, quando estava projectado o furo N.º 69, que tinha óptimo apoio geológico, geofísico e geoquímico, como realcei anteriormente!
Esta descoberta de Cravezes começou por ser apresentada como um grande sucesso dos “scheeliteiros”, mas a realidade acabou por surgir, com toda a crueza. Os teores de WO3, quer em trabalhos à superfície, quer nas sondagens, eram insignificantes, muito longe de permitirem exploração remuneradora.
Não se estava, de facto, em presença de”jazigo”, mas de simples ocorrência de scheelite em rochas classificadas como calco-silicatadas, que deveria ter sido objecto de cuidadosa análise, por estudos de geologia estrutural, geofísicos e geoquímicos, a fim de serem seleccionados alvos realmente dignos de investigação por sondagens.

Os “sheeeliteiros” pretenderam despertar o interesse da Companhia americana Union Carbide que actuava na Região de Covas.
Todavia, o dirigente desta Companhia, Bobby Glenn Cahoon, falando comigo, a este respeito, comentou que o propagandeado minério de Cravezes tinha teor de WO3 inferior ao do estéril da lavaria que funcionava na Mina de Valdarcas.
Procurou também despertar o interesse da Companhia Billinton, que então se encontrava no País a realizar trabalhos de prospecção, em outras áreas.

Conforme revelei no post Nº 114, o scheeliteiro Luís Viegas, quando se propunha fazer a apresentação da Mina à Billinton, não foi capaz de informar a localização dos furos de sonda que tinham sido efectuados, limitando-se a dizer que se situavam junto a umas oliveiras, que eram as árvores que mais abundavam na região.
Também não pôde mostrar os logs das sondagens, por não terem sido feitos. Não soube indicar onde se encontravam os respectivos testemunhos.
E não existiam relatórios finais dos estudos que realizaram!!!
E eram estes “sábios prospectores” que se propunham tomar conta dos estudos na Região de Vila Nova de Cerveira – Ponte de Lima!! (ver post N.º 114)

É oportuno registar que todas as sondagens efectuadas na Região de Vila Nova de Cerveira - Caninha - Ponte de Lima se encontram pormenorizadas descritas em logs, dos quais consta, para cada uma:
a) No rosto
Coordenadas do furo, no sistema Hayford-Gauss, em relação ao Ponto Central, aproximadas ao centímetro, calculadas através de levantamento topográfico propositadamente efectuado; altitude da origem; direcção inicial; pendor inicial; sonda utilizada; data do início; data da conclusão; diâmetros dos testemunhos; legenda das formações atravessadas; principais resultados.
b) Ao longo de várias colunas do log, à escala de 1:100:
Percentagem de testemunhos; distâncias à origem; orientação do furo (rumo e pendor ao longo do furo); formações atravessadas (representação colorida e descrição pormenorizada); densidades; susceptibilidades magnéticas; análises químicas (WO3, Au e Ag); observações.
Estes logs e perfis geológicos passando pelas sondagens constituem as peças desenhadas N.ºs 146 a 246 do “Relatório circunstanciado”. (ver post N.º 158)

Continua …

domingo, 4 de dezembro de 2011

189 - Um novo Plano Mineiro Nacional. Continuação 13

Continuo a comentar documento, com o qual José Goinhas pretendeu contribuir para a elaboração de um novo Plano Mineiro Nacional, destinado a "aumentar a eficácia da nossa indústria mineira, que apresentava preocupante decadência".
Esperava-se que, neste documento, intitulado Prospecção Mineira em Portugal. Áreas potenciais de aplicação de projectos”, tivesse sido feita análise criteriosa da história da indústria mineira nacional, sobretudo desde que o Estado assumiu, em 1939, papel preponderante no inventário e no racional aproveitamento dos nossos recursos minerais.
Esperava-se, também, que Goinhas tivesse extraído ensinamentos, para que a sua contribuição resultasse útil.
Terá, porém, grande desilusão quem verdadeiramente interessado em conhecer a história da prospecção mineira em Portugal, se disponha a consultar este documento.
Já denunciei, nos 10 posts anteriores, muitos dos clamorosos erros de que enferma, não obstante quase só me ter concentrado em temas em que estive directamente envolvido, no desempenho das minhas funções no SFM.
Continuando na minha apreciação, vou denunciar mais algumas graves deficiências.

Goinhas ocupa 45 páginas, isto é, 50% do documento, com mapas e quadros onde repete dados pouco relevantes, reservando limitadíssimo espaço para a informação sobre resultados de estudos, quer do SFM, quer das empresas privadas.
Além disso, esta reduzida informação nem crédito merece, como revelei no post anterior. É expressivo exemplo o facto de estudos bem sucedidos, conduzidos sob a minha supervisão, ou não serem referidos ou serem mencionados de modo muito impreciso.
Mapas plurianuais, com criteriosa selecção da informação útil, cobrindo todo o quinquénio, em vez de mapas anuais, teriam sido muito mais elucidativos.
Os dados contidos nos quadros teriam sido, vantajosamente substituídos por descrições, no texto, concretas e objectivas, embora sucintas, relativamente a cada uma das áreas, onde incidiram estudos, quer do SFM, quer das empresas.
Para se ajuizar da qualidade da informação prestada, pretensamente representativa da prospecção mineira em Portugal, bastará referir, por exemplo, que mencionou, como actividade digna de realce, a abertura de roços para colheita de amostras, em filão aurífero ocorrente na Mina de Latadas (Mirandela) e em aluviões de Arganil.
Para o ridículo ser completo, só ficou faltando que citasse quantos roços foram abertos, qual a sua profundidade e largura, quais os equipamentos utilizados e informasse se a amostragem tinha sido feita por pessoal especializado, para não se incorrer no erro denunciado pelo Geólogo Farinha Ramos, em artigo publicado em Revista da Universidade de Coimbra, a propósito do “denominado” jazigo de Cravezes, em Mogadouro (Ver post N.º 56).
Não referiu resultados de análises e sua implicação na explorabilidade dos jazigos, mas considerou essencial informar que o Laboratório ainda não tinha emitido os respectivos boletins.
Inacreditável é que, tendo estes roços merecido honras de referência, nada tenha sido mencionado sobre mais de cem mil amostras de sedimentos de linhas de água, colhidas, por vezes, em difíceis circunstâncias, na Faixa Metalífera da Beira Litoral (Ver post N.º 29), nem sobre as análises geoquímicas expeditas, efectuadas no Laboratório do SFM instalado em Beja.
Goinhas também ignorou “deliberadamente”, pois foi assunto muito badalado, o criminoso acto do Geólogo Santos Oliveira, quando ocupou o cargo de Director do Laboratório do SFM em S. Mamede de Infesta, ao mandar destruir estas valiosas amostras (muitos milhares de contos, na moeda da época), que tinham sido arquivadas para serem objecto de futuras análises, mais completas, quando o Laboratório de S. Mamede de Infesta passasse a ter rendimento compatível com a suas reais possibilidades.
É digno de registo que tão indigno acto, a adicionar a outros pouco edificantes, não impediu promoção de Santos Oliveira à categoria de Investigador Coordenador!!

Da descrição das actividades no quinquénio deveria, obviamente, constar esclarecimento justificativo do seu generalizado insucesso, em contraste com que acontecera anteriormente, no SFM e nas empresas que conseguiram apropriar-se de áreas valorizadas pelo SFM.
Excluem-se, obviamente, os continuados sucessos, em Neves-Corvo, resultantes de estudos do SFM, anteriores ao quinquénio.

Retomando as fases da prospecção mineira, registo que, da escassa informação contida nos excessivos quadros, e de factos que tive oportunidade de observar directamente, não deduzo que tenha sido respeitado o velho princípio de “aplicar sempre, em primeiro lugar, a técnica menos dispendiosa”.
Não vejo alusões a pequenos trabalhos mineiros, sobretudo sanjas, para investigação de anomalias geofísicas e geoquímicas, interpretáveis como tendo origem superficial.
Noto que, em geral, terá sido dispensada esta fase de simples execução e se terá passado de imediato, à investigação por sondagens, muito mais onerosas e até menos informativas.
E o que aconteceu, nesta fase das sondagens, foi verdadeiramente escandaloso e até criminoso.
No próximo post citarei casos comprovativos desta afirmação.

Continua …

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

188 - Um novo Plano Mineiro Nacional. Continuação 12

Prossigo a análise de artigo de José Goinhas, produzido com a intenção de contribuir para um novo Plano Mineiro Nacional.
Conforme acentuei, tal Plano não chegou a ser apresentado. Caiu no esquecimento, porque, afinal, era desnecessário.
Planos eram, de facto, anualmente submetidos a aprovação do Governo, no âmbito da política de fomento mineiro instituída pelo Decreto-lei N.º 29725 de Agosto de 1939 e tinha sido em seu cumprimento que se registaram notáveis sucessos na nossa indústria mineira.
O declínio, que se tornou mais patente, a partir de meados da década de 70, resultou, não da falta de planos, mas da incapacidade, que passou a verificar-se, de os executar cabalmente, devido à grande indisciplina originada pelo mau uso das liberdades conquistadas pela Revolução de Abril de 1974.
É verdade do Senhor de La Palice que, em qualquer actividade, são essenciais competência e diligência, para se obterem os resultados pretendidos.
E o que aconteceu, na Direcção-Geral de Minas, particularmente no Serviço de Fomento Mineiro (SFM), durante o mandato de Soares Carneiro, a partir de determinada data, e depois, persistentemente, no mandato de Alcides Pereira, foi o total desrespeito por estes elementares preceitos.
O documento de Goinhas, com o ambicioso título de “Prospecção Mineira em Portugal. Áreas potenciais de aplicação de projectos”, publicado no Boletim de Minas, é um expressivo exemplo da incompetência e da falta de diligência que passaram a dominar, sobretudo no SFM.
Pode considerar-se, também, uma amostra representativa da preferência pela filiação partidária, no recrutamento e na promoção de funcionários (os denominados “boys”), que passou a adoptar-se, na generalidade dos Organismos públicos, secundarizando e até hostilizando a competência profissional.
A grave crise por que estamos a passar, actualmente, na qual acabam por “pagar os justos, pelos pecadores”, tem aí as suas raízes profundas.
Nos 9 posts anteriores (N.ºs 179 a 187), assinalei já muitos dos erros, de que enferma este documento da autoria de Goinhas.
Não posso deixar de manifestar, mais uma vez, a minha surpresa por Goinhas pouco ter aprendido, durante as reuniões em que participou, sob a minha presidência, na 1-ª Brigada de Prospecção, na qual esteve integrado.
Essas reuniões eram verdadeiras lições, que eu prodigalizava a Geólogos e a Engenheiros de Minas, com nula preparação em prospecção mineira, quando ingressaram no SFM.
Nelas, eu procurava transmitir a experiência de 20 anos, que já contava, no exercício efectivo e diversificado da profissão.
Se Goinhas tivesse estado atento, teria evitado apresentar, sob a forma de mapas eivados de erros de nomenclatura e muito pouco elucidativos, as actividades dos “serviços oficiais” e das empresas privadas, no quinquénio de 1980-1984, considerado representativo da prospecção mineira em Portugal.
Confunde tipos da prospecção com as suas fases! Prospecção regional e prospecção específica são tipos de prospecção; não são fases, como Goinhas regista.
Apenas o SFM fez, nalguns casos, prospecção regional, isto é, investigações com a finalidade de descobrir as substâncias minerais ocorrentes em determinada região, susceptíveis de exploração lucrativa, independentemente da sua natureza.
Na maior parte dos casos, porém, o SFM praticava prospecção específica, orientada para a descoberta de concentrações de um determinado minério ou de uma classe de minérios bem definida.
Em conformidade com a lei vigente, as empresas privadas só poderiam efectuar prospecção específica, uma vez que nas concessões que lhes viessem a ser outorgadas deveria constar a natureza dos minérios que estariam autorizadas a explorar.
Se outros minérios viessem a encontrar, só poderiam explorá-los, após autorização que teriam de requerer.
Esclareço que Goinhas, quando beneficiou de bolsa de estudo, para aperfeiçoar a sua preparação profissional, nos EUA, manteve comigo correspondência – de que conservo cópias – para bem desempenhar a sua missão.
Do que consta nessa correspondência, destaco informações que prestei, a seu pedido, sobre a legislação mineira portuguesa. Goinhas demonstrou ter esquecido estas informações !
As fases da prospecção são caracterizadas pelos meios utilizados, seguindo o velho princípio “Always send the cheapest man first”.
Sendo a prospecção mineira, actividade de altíssimo risco, há que projectar os trabalhos, criteriosamente, evitando dispêndios injustificados, sobretudo quando estão em causa dinheiros públicos.
Da análise dos 5 quadros e dos 5 mapas (um quadro e um mapa para cada ano, de 1980 até 1984!), não se conclui que isto tenha sido respeitado, nem pelos denominados “serviços oficiais”, nem sequer pelas empresas privadas.
A informação contida em tão excessivo número de quadros e mapas é vaga e carece de credibilidade.
Pouco mais ficou a saber-se além de terem sido realizados trabalhos pelos “serviços oficiais” e pelas empresas privadas, em numerosas áreas do País.
Poderia até inferir-se, extrapolando para os 45 anos já decorridos, desde que o Estado chamou a si a responsabilidade de promover o inventário da riqueza mineira nacional, que os resultados de todos os trabalhos de prospecção mineira foram praticamente nulos.
Porém a actividade no quinquénio de 1980-84, não foi, de modo algum, representativa da prospecção mineira em Portugal, mas sim do seu acelerado declínio.
Já referi, em posts anteriores, os notabilíssimos sucessos obtidos em áreas do Sul do País, sobretudo na Faixa Piritosa Sul-Alentejana, em resultado de estudos conduzidos sob minha orientação e com a minha activa participação.
Mas não foi apenas no Sul do País que se obtiveram importantes êxitos. Também nas regiões do Norte e do Centro eles aconteceram.
Goinhas nem se deu ao trabalho de consultar os meus relatórios sobre os estudos que dirigi, na Região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima e na Faixa Metalífera da Beira Litoral.
Também não tinha lido a comunicação que apresentei ao CHILAGE, sobre êxitos da aplicação do método magnético nesta Região. Nem sequer a citara, na sua extensa lista bibliográfica!
Goinhas sabia, porém, que o Director-Geral Alcides Pereira atribuíra tal importância aos resultados que eu vinha obtendo, na Região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima, que deles quis apropriar-se, com o falacioso argumento de se tornar necessário reprogramar os estudos ali em curso.
Ordenara, então que eu apresentasse um “Relatório circunstanciado” desses estudos.
Esta apropriação, que se consumou, sem me ter sido consentido terminar o texto, mas já com as 246 peças desenhadas concluídas, visava, sem dúvida, compensar os insucessos em áreas que estavam a ser investigadas por técnicos inexperientes, aos quais era inútil fazer idênticas exigências.
Apoiando-se nos dados que apresentei, outros técnicos (Geólogo Francisco Viegas, na qualidade de Chefe de Divisão e Engenheiro Laurentino Rodrigues, colocado na sua dependência hierárquica) foram encarregados de dar sequência aos estudos na Região, sendo eu deles desligado.
Impreparados, esses técnicos, com pressa em obter resultados, logo passaram à fase de sondagens, com base em anomalias geofísicas, que interpretaram erradamente.
Não conseguindo explorar a enorme soma de dados dos trabalhos realizados sob a minha direcção, extinguiram o núcleo que tinha sede em Caminha, defraudando as expectativas de Alcides Pereira.
Houve, porém quem se mostrasse muito interessado na utilização desses dados.
Foi o caso de um professor do departamento de Geologia da Faculdade de Ciências do Porto, que tendo conseguido, por meu intermédio, acesso às 246 peças desenhadas do Relatório, que lhe foram facultadas (não foi facultado o texto!), fez cópia de todas elas, para proceder a novas investigações na mesma Região.
Tive, há poucos dias, conhecimento de que também docente da Universidade do Minho, que está preparando tese de doutoramento, sobre geologia e mineralizações na Região, teve acesso a essas peças desenhadas e as considerou com tal interesse que resolveu fazer a sua digitalização, para fácil consulta.
E no que respeita à Faixa Metalífera da Beira Litoral, Goinhas não só se dispensou de consultar os denominados “relatórios internos” (mensais e anuais) de minha autoria, como ignorou o meu relatório intitulado “Região de Braçal – Talhadas. Sua potencialidade mineira”., que não mencionou na sua longa lista bibliográfica.
Também não fez referência à palestra que proferi, na Universidade de Aveiro, num “Seminário Internacional de Geoquímica”, com o título “Casos de prospecção mineira integrada”, a convite do Professor Edmundo Fonseca, a qual mereceu elogios de cientistas estrangeiros que também tinham sido palestrantes. (Ver post N.º 117)
É digna de registo a surpresa destes cientistas, por não terem sido investigadas por sondagens, algumas zonas onde se haviam registado significativos alinhamentos de anomalias, sobretudo pela aplicação do método geoquímico.
Nestes casos, incluíam-se as anomalias geoquímicas de chumbo, no Cabeço do Telégrafo, próximo das antigas Minas do Braçal, definindo claramente, na extensão de mais de 1 km, jazigo com provável interesse económico.
A surpresa destes indivíduos aumentou quando informei que o Director-Geral não aprovou projecto de sondagens por mim apresentado, há alguns anos, com o argumento de que filões não têm interesse, para exploração. Em sua opinião, só massas estratificadas como as da Faixa Piritosa Sul - Alentejana, deviam merecer investigação!!

Continua …

terça-feira, 22 de novembro de 2011

187 – Um novo Plano Mineiro Nacional. Continuação 11

Investigar a história da prospecção mineira em Portugal e, a partir dos seus ensinamentos, aperfeiçoar novos estudos, com vista ao correcto inventário dos nossos recursos minerais e ao racional aproveitamento destes, não é tarefa fácil.

O Geólogo José Goinhas, que já tinha evidenciado carácter desleal, no desempenho de funções, no âmbito da prospecção mineira, em sectores muito limitados do SFM (Ver post N.º 88), não era, obviamente, pessoa de quem pudesse esperar-se honestidade e capacidade para tão exigente tarefa.

Na vaga de assaltos a cargos de chefia, criados pelo Decreto-lei N.º 548/77, conseguira conquistar a posição de Director de Serviço e vira confirmada essa categoria, por despacho do Ministro da Indústria e da Energia de 26-1-1981, publicado no Diário da República de 1-4-1981.

À semelhança do que acontecera com outros assaltantes, a Goinhas também não correspondiam funções justificativas da sua nova categoria.

Constou ter-lhe sido atribuída, “clandestinamente” a Prospecção Mineira.
“Clandestinamente”, porque não foi divulgada a respectiva Ordem e porque eu não fui convidado a transmitir-lhe o departamento de Prospecção, que continuei a dirigir, cabendo-me, todavia, apenas a categoria de Assessor!!!

Talvez essa simbólica atribuição tenha motivado a incumbência de historiar a prospecção!

É certo que Jorge Gouveia, na sua nova e efémera passagem pelo SFM, agora na qualidade de seu dirigente máximo, a que surpreendentemente lograra alcandorar-se, chegou a fazer-me a afronta de despachar para Goinhas, documento em que o perverso Viegas, solicitava que pessoal da Secção de Talhadas, de mim dependente e que havia sido por mim preparado, fosse executar trabalhos para os quais não se sentia competente.

Viegas, no tsunami de assaltos, tinha conseguido o cargo de Chefe de Divisão, e já se havia apropriado da Secção fantasma de Coimbra, da qual se não conhecia actividade útil.
De facto, tinham já sido dados por terminados os trabalhos na antiga Mina de Barbadalhos, que tinham sido apresentados como justificativos da criação dessa Secção. (Ver post N.º 103).
Goinhas teve a ousadia de despachar favoravelmente a pretensão de Viegas!!!

É oportuno lembrar que Gouveia, quando exercia funções em Moçambique, tendo ficado impressionado com a Comunicação que eu apresentara, em 1965, naquela província ultramarina, sobre notáveis êxitos de várias técnicas de prospecção mineira, nas regiões de Portel e de Barrancos, se deslocara, propositadamente, à Metrópole, para me pedir auxílio na preparação de estágios de funcionários dos Serviços de Geologia e Minas de Moçambique, nas técnicas de prospecção que eu tinha introduzido no SFM. (Ver posts N.º 20 e N.º44)

Em ocasião, em que eu manifestava a Gouveia a minha profunda decepção pelo inconcebível comportamento que passou a adoptar para comigo, na qualidade de meu superior hierárquico, a justificação que apresentou foi apenas a seguinte: “Rocha Gomes, teve que ser assim!!!!
E disse mais: Goinhas estava indigitado para o cargo de Director-Geral, que se encontrava vago, devido à exoneração de Soares Carneiro!!!

Mas Goinhas não teve coragem de assinar o seu documento na qualidade de Director do Serviço de Prospecção.
Surpreendeu-me que o tivesse assinado com a categoria de Assessor.

Ao aceitar o encargo de historiador e conselheiro, demonstrou bom conhecimento do ambiente que dominava a DGGM, propício à irresponsabilidade e à desonestidade.
Não se preocupou em analisar com seriedade os temas de que se ocupou.
Tal atitude seria desnecessária e até poderia conduzir à divulgação de factos desprestigiantes sobretudo para o Director-Geral de Minas.

Em posts anteriores, já revelei algumas deficiências do documento.

Vou prosseguir na minha análise, sem pretender esgotar o manancial de erros, omissões e deturpações que contém.

Regressando à fase de aplicação de métodos geofísicos e geoquímicos, ocorrem-me ainda os seguintes comentários:

a) Sendo o objectivo historiar a prospecção mineira, seria natural que tivesse realçado a persistente luta que eu tive que travar, para que os “serviços oficiais” se encarregassem de aplicar os métodos geofísicos e geoquímicos, directamente, evitando o oneroso recurso a empresas especializadas estrangeiras.

Não é referido, por exemplo, que um Director do SFM que se manteve no cargo durante 15 anos, considerava injustificada a aquisição de um gravímetro, pois, em sua opinião, exigiria elevado dispêndio e não teria utilidade fora da Faixa Piritosa, além de não julgar fácil dominar esta nova técnica.
Quando finalmente, ao fim de 10 anos, se conseguiu começar a aplicar a gravimetria, a atitude modificou-se e o Director passou a considerar isso banal!
Confirmou-se, mais uma vez, que “Santos da casa não fazem milagres”.

É só quase a terminar o seu documento, que Goinhas apresenta quadro informativo dos equipamentos de prospecção adquiridos pelos “serviços oficiais”.

Tinha inserido, anteriormente, mapas das áreas do País, onde até à data do documento, - abrangendo, portanto um período muito mais amplo que o do quinquénio 1980-84 - tinham sido usados alguns desses equipamentos.
Não estabeleceu, porém, a correlação entre essa aplicação e os notabilíssimos êxitos alcançados pelo SFM.

Conforme já tive oportunidade de acentuar, Goinhas assumiu a incrível atitude de aceitar e até elogiar a usurpação, por empresas privadas, dos grandes sucessos do SFM, na Faixa Piritosa Sul-Alentejana.

Só encontro explicação, para tão indecorosa atitude, na dificuldade em conciliar a verdade dos factos com as afirmações contidas em documento, que subscreveu, reclamando a punição do principal responsável por esses êxitos.

Mas Goinhas não se contentou com a desvalorização da actividade do SFM na Faixa Piritosa.

Ignorou completamente a aplicação intensiva do método electromagnético Turam, em todas as Secções da Brigada do Sul do SFM (Montemor-o-Novo, Évora, Moura e Barrancos, Cercal - Odemira e Castro Verde – Almodôvar), na década de 50 do passado século, com resultados de muito interesse, sendo de realçar a espectacular definição do sistema filoniano de Aparis, em Barrancos.

Também optou por ignorar o extraordinário sucesso obtido pela aplicação de várias técnicas geofísicas e geoquímicas, na região de Portel, em área que abrange a antiga Mina de Algares.

Informação detalhada sobre estes e outros sucessos, como os dos jazigos de minérios de ferro de Moncorvo, Alagada (Elvas) e de Vale de Pães (Cuba-Vidigueira), encontraria nos chamados “relatórios internos”.

E relativamente aos casos de Algares de Portel e de Aparis, até encontraria ampla informação, em publicação da “Sociedade de Estudos” de Moçambique, pois este Organismo oficial publicou a comunicação que lá apresentei, quando fui encarregado de representar a Metrópole nas Jornadas de Engenharia que lá se realizaram em 1965.

b) Não realça, a fundamental importância da preparação académica dos engenheiros de minas e dos geólogos, nas técnicas da prospecção mineira (geológicas, geofísicas e geoquímicas) para o bom desempenho das tarefas de investigação neste domínio que lhes viriam a ser confiadas.

Não reconhece, portanto, a atitude louvável do Departamento de Geologia da Faculdade de Ciências do Porto, ao decidir, em 1970, colmatar a grave lacuna que existia, nesse âmbito, na preparação dos seus alunos, futuros geólogos.

Foi esse departamento que, por reconhecer a minha experiência em prospecção mineira, teve a iniciativa de me convidar, para o ensino teórico e prático da cadeira de Prospecção Mineira, que passou a fazer parte do curso de Geologia.

Não reconhece, também, o mérito do Departamento de Engenharia de Minas da Universidade do Porto, ao assumir idêntica atitude, nem o mérito da Universidade de Aveiro ao instituir o Curso de Engenheiros-Geólogos.

Não menciona, portanto, a colaboração de professores e alunos destas Universidades nos trabalhos do SFM.

Nem, obviamente, ousaria denunciar a flagrante contradição entre promessas de colaboração com as Universidades, que o Director-Geral de Minas, Alcides Pereira, fez publicamente e os obstáculos que, na realidade, criou para dificultar o ensino que nelas se praticava. (Ver post N.º 160)

c) Revela completa ignorância sobre a instituição do “Agrupamento Português de Prospecção Geofísica”, no qual participaram Organismos do Estado, onde se aplicavam métodos geofísicos, relacionados ou não com actividades mineiras.

Foi, através de reuniões deste Agrupamento, realizadas principalmente no LNEC (Laboratório Nacional de Engenharia Civil) que se tomou conhecimento da existência de cartas magnéticas e gravimétricas, à escala de 1:500 000, cobrindo todo o território metropolitano nacional, elaboradas pelos Serviços de Meteorologia e Geofísica e pelo Instituto Geográfico e Cadastral, as quais embora não tenham tido objectivos mineiros, forneciam guias não despiciendos para a selecção de áreas a prospectar prioritariamente.

d) Não refere a oferta de colaboração da OCDE, no uso de “Métodos modernos de prospecção” e a incapacidade de aproveitar esta oferta, dando sequência a um projecto de prospecção aérea que lhe foi apresentado e que merecera o melhor acolhimento. (Ver post N.º 22)

e) No seu longo texto e na sua extensa lista de livros, artigos de revistas, relatórios “internos”, que disse ter consultado, nem uma palavra consta acerca da aplicação de técnicas geofísicas ou geoquímicas à prospecção de petróleos.

É, de facto, mais uma grave lacuna, pois se trata de matérias-primas minerais, que apenas têm a peculiaridade de serem líquidas e não constituem excepção, pois também o mercúrio nativo é líquido.
Desnecessário é acentuar a importância que a prospecção de petróleo tem tido no País, desde recuados tempos.
A Revista “Estudos, Notas e Trabalhos do Serviço de Fomento Mineiro” contém artigos muito desenvolvidos sobre a história desta prospecção, que Goinhas poderia e deveria ter consultado.
Contém, além disso, nos relatórios anuais, quando eles ainda eram publicados, detalhada informação sobre o acompanhamento que o SFM fazia dos trabalhos que Empresas privadas realizavam, por contrato com o Estado.
Dentre os trabalhos por técnicas geofísicas, destaca-se a aplicação dos métodos sísmico e gravimétrico, cujos resultados revelam também a existência de outros minérios, de que é exemplo o grande jazigo de sal-gema de Loulé.

f) Na sua análise, não inclui os recursos aquíferos do sub-solo nacional.

É certo que a prospecção destes recursos nunca fez parte dos programas do SFM.

Mas é também certo que, em 12-1-75, aproveitando oportunidade, que me foi dada, de apresentar sugestões para a reestruturação do Organismo encarregado de proceder ao inventário dos recursos minerais do País, propus a criação de um “Instituto Geológico e Mineiro”, cujo campo de acção abrangesse todas as substâncias minerais, nelas se incluindo os minerais metálicos e não metálicos, rochas, águas subterrâneas mineralizadas ou não, petróleos e gases naturais, situados nas áreas emersa e imersa do domínio nacional. (Ver post N.º 78)

A razão de ser desta proposta era o facto de, em todos os locais do Alentejo, onde o SFM efectuara trabalhos de prospecção por métodos eléctricos e electromagnéticos, terem sido detectadas indicações da presença de água, a escassa profundidade, a qual se tornara boa condutora da electricidade, devido aos sais contidos em solução.
Para este assunto, chamei a atenção, por cartas de Março de 2002, ao Presidente da Comissão Regional do Alentejo e ao Presidente do Instituto Geológico e Mineiro, quando ia ser realizado, em Évora um Congresso dedicado às águas subterrâneas. Não obtive qualquer resposta

Por outro lado, em trabalhos mineiros (sanjas, galerias, poços), cuja execução planeei e dirigi, no Alentejo, a presença de água foi uma constante, chegando a impedir, pelos seus elevados caudais, o prosseguimento dos estudos e até tornando impeditiva a exploração de um jazigo.
Foi o caso das Minas da Serra da Preguiça, em Moura, onde o SFM teve que suspender a sua actividade, por não dispor de equipamentos para vencer os caudais encontrados e, onde posteriormente a Compagnie Royale Asturienne des Mines (CRAM) teve que tomar idêntica atitude, apesar de ter usado meios muito mais poderosos.

Esta Companhia chegou a apresentar proposta de colaboração à Junta de Colonização Interna, para aproveitamento de tamanha riqueza, que para ela constituía óbice à futura exploração das reservas evidenciadas. Não obteve qualquer resposta, segundo me informou o Geólogo Michel Ansart da CRAM e esta Companhia não teve alternativa senão abandonar a Região, onde havia realizado trabalhos de elevada qualidade. (Ver post N.º 4)

A água, em zonas dela carecida, como era o Alentejo, antes da construção das grandes barragens, além de ser um valioso sub-produto da prospecção de outras substâncias, poderia e deveria ser objecto de investigação directa, por essas mesmas técnicas.

Continua …