O auto-proclamado pedagogo José Goinhas, na sua dissertação histórica sobre a “Prospecção Mineira em Portugal”, com a qual pretendia contribuir para que novo “Plano Mineiro Nacional”, exigido, pelo Governo, em 1984, tivesse capacidade para debelar grave crise, com que se debatia, então, a nossa indústria mineira, não teve o elementar discernimento de fazer o respectivo diagnóstico e de denunciar as reais causas dessa crise, para evitar a repetição dos erros cometidos.
Teve até a infeliz ideia de seleccionar, como representativo da prospecção mineira em Portugal, o período de 1980 a 1984, mas ocultou o facto de, nesse período, se estar consumando, em toda a plenitude, a desorganização originada por uso desregrado das liberdades conquistadas pela Revolução de 25 de Abril de 1974.
Resumindo, em diversos quadros, a prospecção mineira efectuada, nesse período, não só pelo Serviço de Fomento Mineiro (SFM), mas também por mais de 20 empresas privadas, atraídas a Portugal, pelo sucesso oferecido, “de mão beijada” ao grupo empresarial que finalizou a descoberta do jazigo de Neves – Corvo (Ver post N.º37), nem um único êxito apresentou!!!
Para evidenciar as reais potencialidades do País, em recursos minerais, teve que recorrer aos sucessos conseguidos em períodos anteriores ao simulacro de democracia instalado no País.
Conforme salientei, no post N.º 179, José Goinhas não esclareceu o seu entendimento quanto aos estudos que incluía no âmbito da prospecção.
Porém, das inúmeras referências a sondagens e da inserção, na bibliografia, de relatórios sobre pesquisa e reconhecimento de jazigos ou ocorrências minerais, deduzo que adoptava o conceito mais lato, Incluindo portanto, na prospecção mineira, todos os trabalhos, até à definição de reservas minerais.
Sou, assim, levado a concluir, que, em sua opinião, toda a actividade do SFM era dirigida para a prospecção mineira.
No seu rebuscado estilo, escreveu:
“A programação, elaboração e execução dos projectos de prospecção a cargo da Direcção-Geral de Geologia e Minas, particularmente do seu departamento especializado - Serviço de Fomento Mineiro, teve obviamente em conta toda a problemática relacionada com o enquadramento geoestrutural das mineralizações, com vista ao estabelecimento de modelos geológicos e metalogenéticos compatíveis entre si e susceptíveis de poder vir a configurar alvos com interesse mineiro.
Para testar e comprovar os modelos admitidos, os Serviços dispuseram de toda uma gama de meios de apoio especializados que se esquematizam mais adiante (Quadro XIII), e que permitiram a obtenção de informação essencial para a valorização das áreas prospectadas”.
É só quase a finalizar o seu documento que entende oportuno apresentar “Quadro síntese dos meios operacionais de prospecção disponíveis nos SFM e SGP”.
José Goinhas, que ingressou, por proposta minha, em Julho de 1967, no Serviço de Fomento Mineiro (Ver post N.º 88), para exercer funções bem definidas na Faixa Zincífera Alentejana e participou, durante quase 8 anos, nas reuniões periodicamente realizadas na sede da 1.ª Brigada de Prospecção, em Beja, sob minha presidência, estava obviamente informado acerca das circunstâncias em que se tinha desenvolvido o Serviço de Fomento Mineiro, desde a sua criação em 1939.
As passagens do documento, que acabei de transcrever, ignoram, deliberadamente, essas circunstâncias.
Em primeiro lugar, é oportuno registar que a Direcção-Geral de Geologia e Minas (DGGM), anteriormente designada por Direcção-Geral de Minas e Serviços Geológicos, era um Organismo, integrado, ora em Ministério da Indústria ou da Economia, ora em Secretaria de Estado de um desses Ministérios, que se compunha de vários departamentos: Conselho Superior de Minas, Circunscrições Mineiras (do Norte, no Porto e do Sul, em Lisboa), Repartição de Minas, Serviços Geológicos, Serviço de Fomento Mineiro.
Cada um destes departamentos tinha competências próprias.
Atribuir à DGGM a “programação, elaboração e execução dos projectos de prospecção", ainda que se registe, a seguir, a intervenção do “seu departamento especializado Serviço de Fomento Mineiro”, é modo sub-reptício de ocultar o activo envolvimento de José Goinhas em actos indignos, que tiveram reflexos muito negativos na prospecção mineira.
Até relativamente ao SFM, seria importantíssimo distinguir as actuações dos seus diferentes núcleos, para daí extrair as almejadas lições, que permitissem estabelecer uma indústria mineira próspera.
É impressionante que, em todo o seu documento, não haja uma única referência á formação profissional dos agentes da prospecção mineira e ao comportamento destes agentes, nas equipas em que foram integrados.
Conforme acentuava o primeiro Director-Geral de Minas que conheci, o Engenheiro Luís de Castro e Solla, pessoa caracterizada por elevada cultura e grande respeito por princípios éticos, os dirigentes, nos seus diversos escalões, não deveriam ser simples chancelas, querendo, com isso, significar que tinham de ser eles a assumir a responsabilidade dos actos praticados, no exercício das funções para que tinham sido nomeados. (Ver post N.º 194)
O SFM, na sua fase inicial, estava longe de poder ser classificado como departamento especializado, contrariamente ao afirmado por José Goinhas.
Nessa fase, que se prolongou por anos, o SFM não dispunha de pessoal técnico habilitado a realizar as mais importantes tarefas necessárias para dar cumprimento aos objectivos consignados no Decreto de sua criação.
Não dispunha, também, dos equipamentos essenciais para a aplicação das técnicas que deveriam conduzir à descoberta de novas concentrações minerais susceptíveis de exploração remuneradora.
O seu quadro de técnicos começou por ser composto por um reduzido número de Engenheiros e de Agentes Técnicos de Engenharia, destacados dos Serviços de Fiscalização.
Nenhum deles tinha experiência de trabalho no terreno, sendo, por isso, humoristicamente apelidados de “técnicos de papel selado”. (Ver post N.º 1)
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Não posso, no entanto, deixar de registar o papel decisivo do Engenheiro António Bernardo Ferreira, dos Agentes Técnicos de Engenharia Fernando Gonçalves Macieira e Luís de Albuquerque e Castro e do ex-estudante trabalhador António Linhares de Oliveira, em actividades positivas do SFM.
Ao Engenheiro António Bernardo Ferreira, que foi o primeiro dirigente do SFM, se ficou a dever o vigoroso impulso inicial dado a este Organismo, ao criar núcleos de investigação mineira, estrategicamente distribuídos pelo território nacional, que iriam facultar, no decurso do tempo, a formação profissional apropriada, dos técnicos, na sua maior parte, ainda a admitir e, deste modo, concretizar os objectivos enunciados no Decreto-lei de criação de SFM.
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Aos Agentes Técnicos de Engenharia Fernando Macieira e Luís de Albuquerque e Castro se ficou a dever colaboração dedicada, nesse período inicial, durante o qual demonstraram grandes qualidades organizativas.
Ao Arquitecto António Linhares de Oliveira, que ingressou na DGMSG com a categoria de desenhador e conseguiu, sem prejuízo dessas funções, que passou a exercer no SFM, concluir curso de Arquitectura, ficou a dever-se o projecto das excelentes instalações em S. Mamede de Infesta, inauguradas, em 1964, pelo Presidente da República (Ver post N.º 31).
O Engenheiro António Bernardo Ferreira procurou contratar, tanto quanto possível, os mais classificados Engenheiros que saiam das Universidades, facultando-lhes estágios remunerados, para os atrair, em época em que não era difícil encontrar emprego, pois se registava uma frenética corrida à exploração fortemente lucrativa de volfrâmio.
Também estes jovens Engenheiros não tinham obviamente a especialização exigida para a execução trabalhos necessários.
A carência de pessoal especializado e dos respectivos equipamentos foi suprida, nesse período inicial, com o recurso a empresas estrangeiras, para a execução de campanhas de prospecção geofísica e para a execução de sondagens.
Estas campanhas e outras realizadas em concessões mineiras, cujos detentores também contratavam empresas especializadas, foram uma verdadeira escola, que alguns diligentes técnicos do SFM souberam aproveitar.
Houve técnicos, sobretudo Geólogos, que beneficiaram de estágios remunerados, prolongando-se, por vezes, por mais de um ano, para aperfeiçoamento profissional, em adequadas instituições, tanto em Portugal, como no estrangeiro (Alemanha França Inglaterra, Estados Unidos).
E houve também a presença em Congressos em países estrangeiros.
Todavia, inesperados contratempos ocorreram, em consequência de alterações registadas nos mais altos cargos da DGGM e do SFM, após o falecimento, em 1948, do Engenheiro Bernardo Ferreira.
Sofreram indesculpáveis atrasos as campanhas de prospecção e as sondagens que o SFM deveria executar, com meios próprios e que ou não se cumpriam ou continuavam entregues a empresas especializadas privadas, com muito maior dispêndio e até com menos eficiência.
É bem elucidativo o caso da gravimetria, que só foi possível iniciar, após 10 anos de insistentes diligências (Ver post N.º 14), que esbarravam sistematicamente no argumento de se tratar de técnica complexa, só acessível a empresas especializadas, exigindo a aquisição de aparelhos muito dispendiosos, não se justificando o seu uso, por ter apenas aplicabilidade na Faixa Piritosa!!!.
A realidade foi que, quando finalmente se conseguiu passar a usar esta técnica, tendo até que se adquirir um segundo gravímetro, foi banalizada a sua aplicação. Cumpria-se o velho aforismo: “Santos da casa não fazem milagres”!
E foi através da técnica gravimétrica que se chegou à descoberta do já célebre jazigo de Neves – Corvo!!
Nem o Director-Geral de Minas nem o Director do SFM chamaram a si a programação da prospecção mineira.
A elaboração de projectos era tarefa trabalhosa e ambos aqueles dirigentes, por incrível que pareça, sempre consideraram não ser de sua responsabilidade, disso se ocuparem!!!
Antes de 1963, eram as Brigadas de campo convocadas, todos os anos, a apresentar, os seus projectos, para o ano seguinte, devidamente orçamentados, a fim de serem submetidos juntamente com projectos de outros departamentos (Laboratórios de análises Químicas, mineralógicas, etc.) a apreciação do Governo.
Depois de 1963, quando foram instituídos vários Serviços, dentro do SFM, foram estes convidados a assumir esse encargo.
Relativamente aos departamentos que dirigi, desde 1948, era minha preocupação permanente coligir dados, durante todo o ano, à medida que novas ideias iam surgindo, suscitadas pelos trabalhos, não apenas do SFM, mas também das empresas, e também pelas informações contidas em artigos publicados que sempre consultava, a fim de os utilizar, na elaboração dos projectos, quando surgia a data da sua apresentação.
José Goinhas até quis demonstrar conhecer bem o meu papel na programação da prospecção mineira, quando subscreveu insultuoso documento a solicitar a minha demissão da chefia da 1.ª Brigada de Prospecção.
Desse documento (Ver post N.º 83), consta passagem, bem esclarecedora do carácter de José Goinhas, a quem eu tinha proporcionado excepcionais condições para bem desempenhar o papel de Geólogo na Faixa Zincífera Alentejana.
A seguir transcrevo essa passagem, na qual sou eu a personagem visada:
"Em determinada fase da sua vida, aquele técnico foi viver para o Porto, sede do Serviço de Fomento Mineiro, não abdicando no entanto da chefia da Brigada que deixara em Beja. Este procedimento veio a causar enorme prejuízo ao Estado, não só pelos problemas de ordem burocrática e administrativa de vária ordem mas principalmente pelas deficiências no planeamento, execução e controle das vastas e delicadas tarefas a cargo desta Brigada”
Em matéria de planeamento e execução dos projectos, tanto o Director-Geral Soares Carneiro, como os Directores do SFM que se seguiram a António Bernardo Ferreira não ficaram, de modo algum, indiferentes.
Interpretaram os seus papéis, de um modo muito estranho.
Como tenho vindo a denunciar, ou tinham preocupações de ordem económica desajustadas dos propósitos do Governo, que sempre dotava generosamente o SFM de verbas para bem cumprir os seus objectivos, ou dificultavam, e até impediam, sem a mínima base científica, o estudo de determinadas áreas e investigações tendentes a descobrir determinados tipos de jazigos ou minérios.
Ao mesmo tempo que assumiam estas decisões, foram capazes de autorizar ou dirigir pessoalmente, trabalhos, por vezes muito dispendiosos, totalmente inúteis.
Citei já os exemplos do jazigo de ferro de Moncorvo, dos filões da Faixa Metalífera da Beira Litoral, dos filões de Cercal – Odemira, em que os projectos que apresentei ou não foram aprovados ou foram simplesmente ignorados pelo Director-Geral, que decidira chamar a si a competência nesta matéria, sem a reacção que seria expectável do Director do SFM.
Por outro lado, Soares Carneiro não teve dúvidas em autorizar as sondagens profundas, com muito precários fundamentos, projectadas para a zona do Salgadinho, pelo seu dilecto afilhado, Delfim de Carvalho!
Citei, também, a orientação de vários núcleos constituídos em Trás-os-Montes, para prospecção de scheelites, que o Director-Geral Soares Carneiro assumiu directamente, cujos resultados foram, como era de prever, totalmente negativos, devido à impreparação do pessoal destacado para os trabalhos.
O celebrado “jazigo de Cravezes” é bem representativo desse fiasco.
Relativamente aos meios operacionais de prospecção, disponíveis nos SFM e SGP que José Goinhas menciona, no Quadro síntese inserido, quase no fim do seu documento, são flagrantes enormes falhas.
Apesar de, nos Quadros que resumem os trabalhos de prospecção mineira efectuados pelo SFM e por empresas privadas, inserir sondagens, os respectivos equipamentos são simplesmente ignorados.
E trata-se, de equipamentos, dos mais importantes, em todo o processo de investigação da existência de recursos minerais.
José Goinhas, que, após o seu traiçoeiro acto, não teve pejo de se apresentar na Universidade de Aveiro, em Seminário de Geoquímica que se realizou, em Janeiro de 1976, declarando comparecer em representação da 1.ª Brigada de Prospecção, e acrescentando até que essa Brigada era também uma criação minha, omite todo o equipamento laboratorial que foi instalado na sede da Brigada em Beja e as análises geoquímicas, em número de muitos milhares que, lá tinham sido efectuadas.
Ignora ainda os equipamentos para trabalhos mineiros, para análises laboratoriais e inúmeros outros, fundamentais para a prospecção, que se adquiriram ao longo dos anos e que, nesse período de 1980-84, estavam subaproveitados ou mesmo inactivos, por se registar progressiva redução dos trabalhos no campo, ao mesmo tempo que se ampliava, escandalosamente, o pessoal da DGGM, retido em gabinetes, laboratórios, armazéns, oficinas, etc.(590 pessoas, na sua maior parte incluídas no SFM), sem se perceber como esse pessoal conseguia ocupar-se, havendo tão escassa presença no campo (Ver post N.º 122).
. Bem elucidativo da insólita atitude destrutiva que prevalecia na DGGM, foi a proibição, que me foi imposta pelo Director-Geral Alcides Pereira, de realizar trabalho de campo, facto que Goinhas bem conhecia (Ver post N.º 166).
Não posso deixar de lamentar que, a mim se devendo o maior desenvolvimento que tiveram os trabalhos de prospecção mineira, no terreno, tanto a partir da superfície, como em trabalhos subterrâneos, os quais estiveram na base dos maiores êxitos obtidos pelo Estado português, em investigação mineira, em todos os tempos, tivesse que assistir, já quase no fim da minha carreira profissional, à destruição de tudo quanto fui edificando, no SFM, com paciência, dedicação e muito entusiasmo.
É também deveras impressionante que, em País dito democrático, tenha sido o pequeno ditador, Alcides Pereira, autor do “despacho” a proibir-me de realizar trabalho de campo, quem sugeriu, ao Ministro Veiga Simão, novo Plano, para combater crise mineira, para a qual ele era, afinal, um dos principais contribuintes.
Na análise, que tenho vindo a fazer ao documento de José Goinhas, sobre as sucessivas fases a que deve obedecer a prospecção mineira, se racionalmente conduzida, cheguei, no post N.º 190, à fase de sondagens.
Até ao post anterior, mencionei 14 casos, em que foi escandalosamente desrespeitada a disciplina aconselhável.
Outros casos ocorreram, que poderiam ser objecto de idêntico desenvolvimento, tais como
a) a inesperada ordem de suspensão de campanha de sondagens que se encontrava em curso em área a cargo da Secção de Vila Viçosa, para investigação de extenso alinhamento de anomalias geoquímicas, apenas porque Delfim de Carvalho, esperando fazer brilharete com possíveis grandes descobertas na zona de Cercal – Odemira, onde outros tinham revelado potencialidades de que pretendia apresentar-se como principal autor, convenceu seu padrinho, Soares Carneiro a ordenar essa suspensão;
b) campanha de sondagens em Viana do Alentejo, da responsabilidade de José Goinhas, que tinha obtido a minha discordância, porque as sondagens propostas se situavam muito próximas da primeira que tinha obtido resultado positivo, não permitindo, ainda que viessem a ter também resultados positivos, definir reservas suficientes para serem de exploração economicamente viável.
c) sondagens da Empresa Mason and Barry, arrendatária da concessão de S. Domingos, em vastas áreas que lhe foram adjudicadas, as quais tinham precários ou nulos fundamentos, tendo a Empresa requerido que o SFM suportasse os respectivos custos, o que efectivamente não obteve aprovação, em virtude de informação que me foi pedida e que prestei em sentido negativo.
d) Sondagens das empresas canadianas Mining Exploration (International) e Intermine, com insuficiente apoio geofísico e com deficiente controlo das suas trajectórias.
e) sondagens, na região de Mértola, com precárias bases, pela Associação que perdeu 5 anos até se dar conta da importância da anomalia gravimétrica para a qual eu lhe chamara a atenção, que conduziu à descoberta de Neves-Corvo (a este tema me tenho referido exaustivamente, em vários posts)
Vou, porém, terminar a apresentação, mais desenvolvida, de casos de incorrecta, prematura ou inoportuna passagem à fase de sondagens, dos quais José Goinhas se não terá apercebido, na sua história da prospecção mineira, em Portugal, com um caso anedótico, idêntico ao da “sondagem do nevoeiro” citado no post N.º 190.
15 – Sondagem para agradar a Salazar
O Director-Geral de Minas, Soares Carneiro, recebera documento respeitante ao registo de um manifesto mineiro apresentado, no concelho de Grândola, por amigo de Salazar, no qual o Presidente de Conselho de Ministros exarara despacho a solicitar informações.
Soares Carneiro convocou-me para me dar a conhecer o curtíssimo despacho com assinatura de Salazar, de cujo conteúdo não me recordo, mas que era no sentido de ser informado da legislação aplicável.
Diz-me, de chofre: “Eu fazia já uma sondagem!”
O ex-comunista confesso, naquela época convertido à política do Estado Novo, considerou justificável ultrapassar as leis em vigor, para demonstrar o seu empenho em agradar a Salazar.
Estava, ainda, em vigor o Decreto-lei N.º 18 713 de 1935, que facultava a qualquer entidade candidatar-se à exploração de recurso mineral que descobrisse.
Embora os recursos do sub-solo fossem propriedade do Estado, era concedido o direito ao seu aproveitamento, por entidades privadas, mediante condições, expressas em alvarás e após o cumprimento de determinadas formalidades.
A primeira formalidade era a apresentação de manifesto na Câmara Municipal do concelho onde se situava a área onde se pretenda vir a efectuar exploração mineira, com dados concretos sobre a localização, e sobre os minérios cuja existência se descobrira ou se suspeitava.
O manifesto era registado e o manifestante ficava obrigado a realizar trabalhos continuados, durante o período máximo de dois anos, para demonstrar a real existência de jazigo mineral, isto é, de reservas minerais que permitissem exploração lucrativa.
Deveria, então requerer a concessão do direito à exploração desses recursos, a qual lhe seria outorgada, se o reconhecimento, da competência da DGGM, merecesse deferimento.
Os detentores de concessões mineiras tinham possibilidade de requerer auxílio técnico e (ou) financeiro, usando o clausulado do Decreto-lei 29 725 de criação do SFM. Esse requerimento seria analisado e teria provimento, se para tal tivesse mérito.
O amigo de Salazar tinha feito apenas a apresentação do manifesto mineiro e, na qualidade de manifestante não lhe assistia direito de ver o SFM substituir-se às obrigações que lhe competiam.
É óbvio que ao autor do manifesto competia demonstrar capacidade técnica e financeira para o empreendimento que pretendia executar.
A execução de sondagem, nesta situação, ainda que se justificasse, era ilegal.
Mas nem justificação alguma se encontrava para tão disparatada decisão.
Isso fiz ver a Soares Carneiro, ao mesmo tempo que lhe sugeria uma sumária investigação geológica e geoquímica da área, que seria pouco dispendiosa e permitiria demonstrar a sua boa vontade.
Soares Carneiro concordou e eu designei Delfim de Carvalho e Vitor Borralho para se encarregarem destas simples tarefas, tendo ficado demonstrado o que era de esperar: o nulo interesse da ocorrência.
Foi feito o respectivo relatório e Soares Carneiro pôde satisfazer o seu desejo de mostrar a Salazar a simpatia que por ele nutria.
Continua …
quarta-feira, 2 de maio de 2012
sábado, 21 de abril de 2012
196 - Um novo Plano Mineiro Nacional. Continuação 20
A história da “Prospecção Mineira em Portugal”, com o subtítulo “Áreas potenciais para instalação de projectos”, da autoria de José Goinhas, destinava-se a constituir o principal alicerce de novo “Plano Mineiro Nacional”,que o Governo mandara apresentar, em 1984, com o objectivo de combater grave crise da nossa indústria mineira.
Tal objectivo não foi alcançado, no prazo fixado e caiu, depois, no esquecimento, porque, efectivamente, mais Planos eram supérfluos.
Imperativo era criar condições para poder cumprir, satisfatoriamente, os Planos anualmente submetidos pelo Serviço de Fomento Mineiro (SFM), à apreciação do Governo.
Tinham sido convidadas numerosas individualidades, supostamente idóneas, para darem a sua contribuição ao novo Plano. (Ver post N.º 176).
Distraídas das funções com fins produtivos, que deveriam exercer, dedicaram-se a elaborar documentos desnecessários e, nalguns casos, até prejudiciais.
Mas estas contribuições passaram a figurar nos respectivos currículos que, como era regra instituída, seriam apreciados, não pela qualidade, mas pela quantidade, por avaliadores, também eles beneficiários do método.
Confortavelmente sentados às secretárias entretinham-se a extrair, de “relatórios Internos”, em que outros descreviam o trabalho que realmente tinham efectuado, no terreno, matéria para publicação, sem geralmente mencionarem os verdadeiros autores desse trabalho.
Exemplo bem esclarecedor é o de Delfim de Carvalho, a que tenho feito frequente referência (Ver, entre outros, posts N.º 38, 41, 42 e 43).
O Plano não foi apresentado, mas o Secretário de Estado da tutela, que provavelmente nem terá lido os documentos produzidos, fez a triste figura de até os elogiar, sendo certo que não seria necessária grande competência na matéria, para detectar erros grosseiros, contradições e omissões, pelo menos, no documento da autoria de José Goinhas, que teve honras de inserção numa das principais publicações periódicas da DGGM.
É da análise deste documento de José Goinhas que tenho vindo a ocupar-me desde o post N.º 186.
Sendo a prospecção mineira actividade muito dispendiosa e de elevado risco, é essencial que decorra obedecendo a rigorosa disciplina, consagradamente traduzida na frase “Always send the cheapest man first!”
Infelizmente, esta disciplina foi constantemente quebrada, tanto pelo SFM, que Goinhas preferiu cognominar de “serviços oficiais”, como pelas empresas privadas.
A pressa de chegar a resultados levou a que se passasse à fase de sondagens, antes de se terem esgotado os meios muito menos dispendiosos das fases anteriores, que teriam permitido mais racional selecção dos alvos a sondar.
Por outro lado, registaram-se casos em que uma ou duas sondagens profundas teriam sido decisivas para definir o real mérito de hipóteses formuladas com base em consistentes considerações geológicas e (ou) resultados geofísicos e geoquímicos excepcionais.
Mas quem tinha o poder de autorizar a deslocação de sonda do SFM, para investigar tais hipóteses, ou não aprovou ou simplesmente ignorou projectos submetidos à sua apreciação.
Desde o post N.º 191, tenho vindo a concentrar-me na fase de sondagens.
Apresento, a seguir, um caso, em que não houve a compreensão superior quanto à possibilidade de aumentar significativamente o património mineiro nacional.
14 – Sondagens para investigação da existência de sulfuretos, em zonas profundas de filões da Região de Cercal – Odemira.
No que respeita à Região de Cercal – Odemira, a seguir, transcrevo o que escrevi no capítulo final do relatório de minha autoria “Prospecção de pirites no Baixo Alentejo”, publicado, em 1955, no Volume X de “Estudos, Notas e Trabalhos do Serviço de Fomento Mineiro”:
“A região de Odemira – Cercal, onde os recentes levantamentos litológicos do Serviço têm evidenciado extensas formações de pórfiros graníticos e felsíticos, felsitos e diabases, é recortada por numerosos jazigos filonianos, preenchidos, nos níveis superiores por óxidos de ferro e manganés e manifestando, nos inferiores, a presença de carbonatos dos mesmos metais. Embora apenas em minúsculas pontuações nos carbonatos, foram identificadas galena, blenda e pirite numa sondagem profunda levada a efeito no filão mais importante da região – o da Serra do Rosalgar.
Filões com enchimento característico do tipo BGPC, com ganga de carbonatos de ferro e manganés, parcialmente alterados para óxidos, foram também por nós encontrados, nas proximidades de Odemira, em aparente correlação com as formações porfíricas da região.
É nossa convicção que os jazigos de ferro e manganés de Odemira – Cercal poderão evoluir, em profundidade, para filões do tipo BGPC, com a ganga carbonatada que, nos níveis superiores, seria a sua constituinte exclusiva e, por meteoração, teria originado os óxidos. Com base nesta hipótese, propusemos, em 1953, uma sondagem orientada segundo a vertical, com cerca de 300 m de comprimento, a qual não chegou porém a ser executada, por não dispor, então, o Serviço, de material que lhe permitisse encarar afoitamente tal trabalho.
Cremos dever ainda admitir-se a possibilidade de ocorrência de massas de pirite, semelhantes às de S. Domingos, Aljustrel ou Louzal, porquanto o ambiente geológico da região é, de certo modo, análogo".
Em Setembro de 1973, isto é, 16 anos após a publicação deste relatório, tive oportunidade de participar em Congresso sobre o tema “Vulcanismo e metalogénese associada”, que se realizou na Roménia.
Uma vez que eu dirigia, então, intensa actividade de prospecção, visando a descoberta de mineralizações associadas a vulcanismo, o objectivo da minha inscrição em tal Congresso era obter novos dados que ajudassem a aperfeiçoar os estudos em curso, nas áreas onde ocorriam as rochas vulcânicas, como eram a Faixa Piritosa Sul-Alentejana e a Região de Cercal Odemira.
Saliento que, neste Congresso, participou também o Geólogo Delfim de Carvalho, que eu tinha encarregado, desde o seu ingresso no SFM, em Novembro de 1965, de dar continuidade aos estudos geológicos na Região de Cercal – Odemira, que já se encontravam em fase avançada, mas sem pormenorizada interpretação estrutural.
Do relatório de 9 páginas dactilografadas, que elaborei, a dar conta das minhas reflexões sobre as comunicações, a que assisti e sobre as visitas a zonas mineiras, são dignas de realce as passagens que, a seguir, transcrevo:
“Do ponto de vista mineiro, são de destacar as visitas aos trabalhos subterrâneos das minas de sulfuretos de cobre, chumbo e zinco, com ouro e prata associados, de Baia Sprie, Cavnic e Piriza, onde puderam observar-se os jazigos em exploração, no seu enquadramento geológico.”
…
“É de salientar que, nesta região mineira, as substâncias metalíferas são exploradas exclusivamente em filões, que ocorrem em número de cerca de uma centena.
Toda a região se encontra já bastante reconhecida, tanto do ponto de vista geológico como mineiro, tendo para isso contribuído as numerosas sondagens efectuadas e uma importante rede de trabalhos subterrâneos.
As sondagens, cujos objectivos foram, em muitos casos, essencialmente geológicos, atingiram grandes profundidades. As nove seleccionadas para mostrar a estrutura geológica da área, foram verticais e terminaram com comprimentos entre 575 m e 2 050 m.
No que respeita a trabalhos subterrâneos, sobressai a extensão das galerias em flanco de encosta, que chegam a ultrapassar 15 km. Tal é o caso da galeria designada com o N.º 2, no mapa geológico dos Montes Gutai, a qual atravessa vasto campo filoniano, onde se localizam as minas de Baia Sprie, Suior e Cavnic.
Nesta última mina a metragem total das galerias é superior a 150 km.
Digna de registo é ainda a profundidade a que já chegaram as explorações em filões, ainda sem indícios de esgotamento dos minerais úteis. Na mina de Baia Sprie, por exemplo, no piso mais profundo, o filão principal é já explorado a cerca de 900 m abaixo do seu afloramento.
Embora tivessem sido feitas referências a trabalhos de prospecção geofísica, que deduzimos terem sido importantes e concludentes, não vimos documentos concretizando os respectivos resultados.
Das visitas que fizemos às minas, poderíamos ser levados a concluir que os jazigos em exploração são excepcionalmente ricos, porquanto em todas as frentes em que estivemos, as possanças eram grandes e a mineralização abundante, nuns casos com predomínio de blenda e galena, noutros de calcopirite, reflectindo típica zonalidade vertical.
Todavia, das exposições feitas por dirigentes das minas, infere-se que, no conjunto, se trata de filões relativamente pobres, com teores médios que não conseguimos saber, mas que seguramente se situam abaixo dos que, nos países ocidentais, são susceptíveis de exploração económica.
Ficou-nos, porém, a convicção de que a exploração, tal como estava a ser praticada, seria rendível, mesmo numa economia competitiva.
São ainda de referir as visitas efectuadas a uma grande oficina de flutuação, onde convergem os minérios da maior parte das minas do distrito e o museu mineralógico das minas de Baia Mare, no qual estão representados em belos exemplares, os minerais que ocorrem na região”
…
“Os jazigos da Região de Baia Maré apresentam algumas características que consideramos muito semelhantes às dos jazigos ferro-manganíferos da Região de Cercal – Odemira.
Na verdade, em Baia Maré, observa-se uma zonalidade vertical da mineralização, ocorrendo, nos níveis superiores, sobretudo Au e Ag, a seguir Pb e Zn e, nos níveis mais profundos Cu.
Dentre as gangas acompanhantes dos sulfuretos metálicos, sobressai a rodocrosite.
Há muito se formulou a hipótese de que os jazigos ferro-manganíferos de Cercal – Odemira poderiam evoluir, em profundidade, para jazigos de sulfuretos de Pb, Zn e Cu.
Aliás, indícios bem evidentes de mineralizações deste tipo foram encontrados, nos filões do Torgal e em outros locais, sobretudo próximo de Odemira.
A hipótese surge agora reforçada pelas analogias verificadas, relativamente a Baia Mare”
Saliento o paralelismo que, nesta última passagem, estabeleço entre o modo de ocorrência das mineralizações em jazigos filonianos da Região de Baia Mare, no Norte da Roménia, e o modo de ocorrência de idênticas mineralizações nos filões de Cercal – Odemira.
Delfim de Carvalho também subscreveu este relatório, apesar de me ter manifestado, oralmente, pouca receptividade à hipótese, em que eu insistia, da existência de sulfuretos, em filões da Região de Cercal – Odemira.
Apesar de ter subscrito este relatório, estou convicto de que Delfim de Carvalho deve ter influenciado o seu padrinho, Soares Carneiro, que, então era o Director-Geral de Minas, no sentido de não aprovar sondagens profundas, para investigar a presença de sulfuretos nos principais filões da Região de Cercal – Odemira.
O que é certo é que tal hipótese manteve-se sem investigação, durante a minha chefia da 1.ª Brigada de Prospecção.
É, todavia, surpreendente que tenham sido aprovadas as sondagens profundas projectadas por Delfim de Carvalho para a zona do Salgadinho, com muito precários fundamentos, para as quais, à partida, era fácil prever o rotundo fracasso que se verificou.
Em 11 de Dezembro de 1983, após sessão realizada nas instalações do SFM em S. Mamede de Infesta, sob a presidência do Ministro Veiga Simão (Ver post N.º 155), tendo constatado, entre os numerosos convidados a presença do Engenheiro Técnico Costa Pereira, Director Técnico das Minas da Região de Cercal do Alentejo, perguntei-lhe se já tinham feito algum trabalho para investigar a hipótese de existência de sulfuretos, nos filões que estavam a explorar.
Respondeu-me que a sua empresa atravessava enormes dificuldades financeiras, não tendo possibilidade de desviar a sua atenção para estudos desta natureza.
Estando presente o Engenheiro Fernando da Silva Daniel, que detinha ainda o cargo de Director do SFM, sugeri que a empresa concessionária invocasse os artigos apropriados do Decreto-lei N.º 29 725, para obter nova ajuda técnica e (ou) financeira do SFM.
Surpreendentemente, Fernando da Silva Daniel, teve um comportamento arrogante, demonstrativo da sua ignorância daqueles artigos, que fez desanimar o diligente Costa Pereira de seguir o meu conselho.
Constou que foram firmados contratos de prospecção, com empresas privadas, entre as quais a Elf–Aquitaine, para continuar a investigar a possível existência de concentrações de sulfuretos de cobre, chumbo e zinco, susceptíveis de exploração económica na Região de Cercal – Odemira.
Não tenho, porém conhecimento de ter sido confirmada ou infirmada a hipótese que formulei.
Continua …
Tal objectivo não foi alcançado, no prazo fixado e caiu, depois, no esquecimento, porque, efectivamente, mais Planos eram supérfluos.
Imperativo era criar condições para poder cumprir, satisfatoriamente, os Planos anualmente submetidos pelo Serviço de Fomento Mineiro (SFM), à apreciação do Governo.
Tinham sido convidadas numerosas individualidades, supostamente idóneas, para darem a sua contribuição ao novo Plano. (Ver post N.º 176).
Distraídas das funções com fins produtivos, que deveriam exercer, dedicaram-se a elaborar documentos desnecessários e, nalguns casos, até prejudiciais.
Mas estas contribuições passaram a figurar nos respectivos currículos que, como era regra instituída, seriam apreciados, não pela qualidade, mas pela quantidade, por avaliadores, também eles beneficiários do método.
Confortavelmente sentados às secretárias entretinham-se a extrair, de “relatórios Internos”, em que outros descreviam o trabalho que realmente tinham efectuado, no terreno, matéria para publicação, sem geralmente mencionarem os verdadeiros autores desse trabalho.
Exemplo bem esclarecedor é o de Delfim de Carvalho, a que tenho feito frequente referência (Ver, entre outros, posts N.º 38, 41, 42 e 43).
O Plano não foi apresentado, mas o Secretário de Estado da tutela, que provavelmente nem terá lido os documentos produzidos, fez a triste figura de até os elogiar, sendo certo que não seria necessária grande competência na matéria, para detectar erros grosseiros, contradições e omissões, pelo menos, no documento da autoria de José Goinhas, que teve honras de inserção numa das principais publicações periódicas da DGGM.
É da análise deste documento de José Goinhas que tenho vindo a ocupar-me desde o post N.º 186.
Sendo a prospecção mineira actividade muito dispendiosa e de elevado risco, é essencial que decorra obedecendo a rigorosa disciplina, consagradamente traduzida na frase “Always send the cheapest man first!”
Infelizmente, esta disciplina foi constantemente quebrada, tanto pelo SFM, que Goinhas preferiu cognominar de “serviços oficiais”, como pelas empresas privadas.
A pressa de chegar a resultados levou a que se passasse à fase de sondagens, antes de se terem esgotado os meios muito menos dispendiosos das fases anteriores, que teriam permitido mais racional selecção dos alvos a sondar.
Por outro lado, registaram-se casos em que uma ou duas sondagens profundas teriam sido decisivas para definir o real mérito de hipóteses formuladas com base em consistentes considerações geológicas e (ou) resultados geofísicos e geoquímicos excepcionais.
Mas quem tinha o poder de autorizar a deslocação de sonda do SFM, para investigar tais hipóteses, ou não aprovou ou simplesmente ignorou projectos submetidos à sua apreciação.
Desde o post N.º 191, tenho vindo a concentrar-me na fase de sondagens.
Apresento, a seguir, um caso, em que não houve a compreensão superior quanto à possibilidade de aumentar significativamente o património mineiro nacional.
14 – Sondagens para investigação da existência de sulfuretos, em zonas profundas de filões da Região de Cercal – Odemira.
No que respeita à Região de Cercal – Odemira, a seguir, transcrevo o que escrevi no capítulo final do relatório de minha autoria “Prospecção de pirites no Baixo Alentejo”, publicado, em 1955, no Volume X de “Estudos, Notas e Trabalhos do Serviço de Fomento Mineiro”:
“A região de Odemira – Cercal, onde os recentes levantamentos litológicos do Serviço têm evidenciado extensas formações de pórfiros graníticos e felsíticos, felsitos e diabases, é recortada por numerosos jazigos filonianos, preenchidos, nos níveis superiores por óxidos de ferro e manganés e manifestando, nos inferiores, a presença de carbonatos dos mesmos metais. Embora apenas em minúsculas pontuações nos carbonatos, foram identificadas galena, blenda e pirite numa sondagem profunda levada a efeito no filão mais importante da região – o da Serra do Rosalgar.
Filões com enchimento característico do tipo BGPC, com ganga de carbonatos de ferro e manganés, parcialmente alterados para óxidos, foram também por nós encontrados, nas proximidades de Odemira, em aparente correlação com as formações porfíricas da região.
É nossa convicção que os jazigos de ferro e manganés de Odemira – Cercal poderão evoluir, em profundidade, para filões do tipo BGPC, com a ganga carbonatada que, nos níveis superiores, seria a sua constituinte exclusiva e, por meteoração, teria originado os óxidos. Com base nesta hipótese, propusemos, em 1953, uma sondagem orientada segundo a vertical, com cerca de 300 m de comprimento, a qual não chegou porém a ser executada, por não dispor, então, o Serviço, de material que lhe permitisse encarar afoitamente tal trabalho.
Cremos dever ainda admitir-se a possibilidade de ocorrência de massas de pirite, semelhantes às de S. Domingos, Aljustrel ou Louzal, porquanto o ambiente geológico da região é, de certo modo, análogo".
Em Setembro de 1973, isto é, 16 anos após a publicação deste relatório, tive oportunidade de participar em Congresso sobre o tema “Vulcanismo e metalogénese associada”, que se realizou na Roménia.
Uma vez que eu dirigia, então, intensa actividade de prospecção, visando a descoberta de mineralizações associadas a vulcanismo, o objectivo da minha inscrição em tal Congresso era obter novos dados que ajudassem a aperfeiçoar os estudos em curso, nas áreas onde ocorriam as rochas vulcânicas, como eram a Faixa Piritosa Sul-Alentejana e a Região de Cercal Odemira.
Saliento que, neste Congresso, participou também o Geólogo Delfim de Carvalho, que eu tinha encarregado, desde o seu ingresso no SFM, em Novembro de 1965, de dar continuidade aos estudos geológicos na Região de Cercal – Odemira, que já se encontravam em fase avançada, mas sem pormenorizada interpretação estrutural.
Do relatório de 9 páginas dactilografadas, que elaborei, a dar conta das minhas reflexões sobre as comunicações, a que assisti e sobre as visitas a zonas mineiras, são dignas de realce as passagens que, a seguir, transcrevo:
“Do ponto de vista mineiro, são de destacar as visitas aos trabalhos subterrâneos das minas de sulfuretos de cobre, chumbo e zinco, com ouro e prata associados, de Baia Sprie, Cavnic e Piriza, onde puderam observar-se os jazigos em exploração, no seu enquadramento geológico.”
…
“É de salientar que, nesta região mineira, as substâncias metalíferas são exploradas exclusivamente em filões, que ocorrem em número de cerca de uma centena.
Toda a região se encontra já bastante reconhecida, tanto do ponto de vista geológico como mineiro, tendo para isso contribuído as numerosas sondagens efectuadas e uma importante rede de trabalhos subterrâneos.
As sondagens, cujos objectivos foram, em muitos casos, essencialmente geológicos, atingiram grandes profundidades. As nove seleccionadas para mostrar a estrutura geológica da área, foram verticais e terminaram com comprimentos entre 575 m e 2 050 m.
No que respeita a trabalhos subterrâneos, sobressai a extensão das galerias em flanco de encosta, que chegam a ultrapassar 15 km. Tal é o caso da galeria designada com o N.º 2, no mapa geológico dos Montes Gutai, a qual atravessa vasto campo filoniano, onde se localizam as minas de Baia Sprie, Suior e Cavnic.
Nesta última mina a metragem total das galerias é superior a 150 km.
Digna de registo é ainda a profundidade a que já chegaram as explorações em filões, ainda sem indícios de esgotamento dos minerais úteis. Na mina de Baia Sprie, por exemplo, no piso mais profundo, o filão principal é já explorado a cerca de 900 m abaixo do seu afloramento.
Embora tivessem sido feitas referências a trabalhos de prospecção geofísica, que deduzimos terem sido importantes e concludentes, não vimos documentos concretizando os respectivos resultados.
Das visitas que fizemos às minas, poderíamos ser levados a concluir que os jazigos em exploração são excepcionalmente ricos, porquanto em todas as frentes em que estivemos, as possanças eram grandes e a mineralização abundante, nuns casos com predomínio de blenda e galena, noutros de calcopirite, reflectindo típica zonalidade vertical.
Todavia, das exposições feitas por dirigentes das minas, infere-se que, no conjunto, se trata de filões relativamente pobres, com teores médios que não conseguimos saber, mas que seguramente se situam abaixo dos que, nos países ocidentais, são susceptíveis de exploração económica.
Ficou-nos, porém, a convicção de que a exploração, tal como estava a ser praticada, seria rendível, mesmo numa economia competitiva.
São ainda de referir as visitas efectuadas a uma grande oficina de flutuação, onde convergem os minérios da maior parte das minas do distrito e o museu mineralógico das minas de Baia Mare, no qual estão representados em belos exemplares, os minerais que ocorrem na região”
…
“Os jazigos da Região de Baia Maré apresentam algumas características que consideramos muito semelhantes às dos jazigos ferro-manganíferos da Região de Cercal – Odemira.
Na verdade, em Baia Maré, observa-se uma zonalidade vertical da mineralização, ocorrendo, nos níveis superiores, sobretudo Au e Ag, a seguir Pb e Zn e, nos níveis mais profundos Cu.
Dentre as gangas acompanhantes dos sulfuretos metálicos, sobressai a rodocrosite.
Há muito se formulou a hipótese de que os jazigos ferro-manganíferos de Cercal – Odemira poderiam evoluir, em profundidade, para jazigos de sulfuretos de Pb, Zn e Cu.
Aliás, indícios bem evidentes de mineralizações deste tipo foram encontrados, nos filões do Torgal e em outros locais, sobretudo próximo de Odemira.
A hipótese surge agora reforçada pelas analogias verificadas, relativamente a Baia Mare”
Saliento o paralelismo que, nesta última passagem, estabeleço entre o modo de ocorrência das mineralizações em jazigos filonianos da Região de Baia Mare, no Norte da Roménia, e o modo de ocorrência de idênticas mineralizações nos filões de Cercal – Odemira.
Delfim de Carvalho também subscreveu este relatório, apesar de me ter manifestado, oralmente, pouca receptividade à hipótese, em que eu insistia, da existência de sulfuretos, em filões da Região de Cercal – Odemira.
Apesar de ter subscrito este relatório, estou convicto de que Delfim de Carvalho deve ter influenciado o seu padrinho, Soares Carneiro, que, então era o Director-Geral de Minas, no sentido de não aprovar sondagens profundas, para investigar a presença de sulfuretos nos principais filões da Região de Cercal – Odemira.
O que é certo é que tal hipótese manteve-se sem investigação, durante a minha chefia da 1.ª Brigada de Prospecção.
É, todavia, surpreendente que tenham sido aprovadas as sondagens profundas projectadas por Delfim de Carvalho para a zona do Salgadinho, com muito precários fundamentos, para as quais, à partida, era fácil prever o rotundo fracasso que se verificou.
Em 11 de Dezembro de 1983, após sessão realizada nas instalações do SFM em S. Mamede de Infesta, sob a presidência do Ministro Veiga Simão (Ver post N.º 155), tendo constatado, entre os numerosos convidados a presença do Engenheiro Técnico Costa Pereira, Director Técnico das Minas da Região de Cercal do Alentejo, perguntei-lhe se já tinham feito algum trabalho para investigar a hipótese de existência de sulfuretos, nos filões que estavam a explorar.
Respondeu-me que a sua empresa atravessava enormes dificuldades financeiras, não tendo possibilidade de desviar a sua atenção para estudos desta natureza.
Estando presente o Engenheiro Fernando da Silva Daniel, que detinha ainda o cargo de Director do SFM, sugeri que a empresa concessionária invocasse os artigos apropriados do Decreto-lei N.º 29 725, para obter nova ajuda técnica e (ou) financeira do SFM.
Surpreendentemente, Fernando da Silva Daniel, teve um comportamento arrogante, demonstrativo da sua ignorância daqueles artigos, que fez desanimar o diligente Costa Pereira de seguir o meu conselho.
Constou que foram firmados contratos de prospecção, com empresas privadas, entre as quais a Elf–Aquitaine, para continuar a investigar a possível existência de concentrações de sulfuretos de cobre, chumbo e zinco, susceptíveis de exploração económica na Região de Cercal – Odemira.
Não tenho, porém conhecimento de ter sido confirmada ou infirmada a hipótese que formulei.
Continua …
sexta-feira, 6 de abril de 2012
195 - Um novo Plano Mineiro Nacional. Continuação 19
Continuo a citar casos de sondagens deficientemente programadas e (ou) imperfeitamente executadas, que não foram explicitados por José Goinhas, na sua história da “Prospecção Mineira em Portugal”, com a qual pretendia, “pedagogicamente” contribuir para “novo Plano Mineiro Nacional".
13 – Campanha de sondagens, na zona do Salgadinho, da Região de Cercal – Odemira
Quando o Governo, em 1939, chamou a si a responsabilidade de promover o inventário dos recursos minerais do País, com vista ao seu racional aproveitamento, uma das primeiras iniciativas, que tomou, foi seleccionar, para investigação, a Região mineira de Cercal – Odemira.
A definição de reservas de minérios de ferro, que pudessem ser utilizadas em siderurgia a implantar no País, tinha prioridade, nos programas do Governo.
A Região de Cercal – Odemira era considerada com potencialidade para cumprir esse desiderato, pois nela eram conhecidos numerosos filões, em cujo enchimento ocorriam, em associação com óxidos de ferro, óxidos de manganés, que constituíam valioso contributo para o processo metalúrgico.
Tendo sido criado o Serviço de Fomento Mineiro (SFM), na dependência da Direcção – Geral de Minas e Serviços Geológicos, os estudos na Região de Cercal – Odemira tiveram início no princípio da década de 40 do passado século.
A qualidade inicial desses estudos reflectiu a inexperiência do pessoal técnico (Engenheiros, Geólogo, Agentes Técnicos de Engenharia recém-licenciados), que então, foi possível destacar, para sua realização.
Publicações da época são elucidativas dos erros grosseiros, que tinham passado despercebidos a dirigentes mais habituados a fiscalizar do que a produzir trabalho no terreno (os técnicos de papel selado, referidos por Castro e Solla). (Ver post N.º 1)
Acrescia ainda a circunstância de a Europa estar envolvida na 2.ª Guerra Mundial e daí advirem sérias dificuldades na aquisição dos equipamentos indispensáveis à execução dos trabalhos, que não estavam disponíveis no mercado nacional.
Apesar dos factos que acabo de referir, vários técnicos do SFM, que estiveram envolvidos em actividades mineiras, quer na Região de Cercal – Odemira quer em outras zonas do Sul do País, foram, em 1947, convidados, a prestar colaboração em estudos na província ultramarina de Moçambique, na convicção de que, nessa data, já tinham adquirido experiência para bem desempenharem as funções que lhes iam ser atribuídas.
Eu chefiava, então, a Brigada de Prospecção Eléctrica, que, aplicava sobretudo o método electromagnético Turam, visando descobrir concentrações de pirites complexas, idênticas às que se encontravam em exploração nas Minas de S. Domingos, Aljustrel e Louzal - Caveira.
Fui, nessa data, agradavelmente surpreendido, com dois honrosos convites.
O primeiro era para chefiar a Brigada do Sul do SFM, que tinha ficado seriamente desfalcada de pessoal técnico, superior e médio.
Esta Brigada dedicava-se, então, essencialmente a investigações por trabalhos mineiros tradicionais (sanjas, galerias e poços) em jazigos ou ocorrências minerais anteriormente descobertas.
O segundo era para chefiar uma Brigada em Angola, idêntica à que tinha originado a debandada dos técnicos para Moçambique.
Embora o segundo convite fosse deveras aliciante, pois lhe correspondia confortável remuneração, optei por recusá-lo, por não ter experiência em trabalhos mineiros clássicos, pois a minha actividade tinha-se desenvolvido exclusivamente à superfície.
Eu esperava adquirir essa experiência, na Brigada do Sul do SFM, que já tinha uma organização, na qual facilmente me integraria, instituída pelos técnicos que tinham ido, em comissão de serviço para a província ultramarina de Moçambique.
O Engenheiro Rogério Cavaca, autor do convite, quando a ele me dirigi, pessoalmente, a justificar a minha recusa, ficou altamente surpreendido, pois não era habitual alguém declarar-se incompetente para exercer funções sobretudo num caso de tão boa remuneração.
Quando passei a exercer o cargo que aceitara na Brigada do Sul, fui progressivamente constatando que teria de introduzir significativas correcções em procedimentos adoptados, em todas as Secções (Montemor-o-Novo, Alvito, Moura, Cercal do Alentejo e Odemira), os quais além de diminuírem a sua eficácia, punham em causa a qualidade dos resultados e, nalguns casos, afectavam a segurança dos trabalhadores.
No que respeita às Secções de Cercal do Alentejo e Odemira, onde estivera integrado um Geólogo, tudo quanto consta de relatórios publicados ou não, a respeito da geologia da Região, está totalmente errado.
Apesar de já existir um estudo do Geólogo alemão Heinrich Quiring (Ver post N.º12), que assinalava a ocorrência de rochas ígneas, este estudo não foi levado a sério, sendo considerada fantasiosa a interpretação apresentada para a estrutura geológica.
Mas, quando eu me ocupava a visitar antigas concessões mineiras, para avaliar da possível conveniência de nelas realizar estudos, deparei com afloramentos de rochas ígneas, com bem conspícuos fenocristais, no Cerro dos Cunqueiros, na Herdade, do Castelo, idênticas às que bem conhecia na Faixa Piritosa (Ver post N.º 17).
Perante esta descoberta, que vinha confirmar as minhas ideias, que progressivamente tomavam consistência, durante as minhas visitas aos trabalhos mineiros em curso, quanto ao real enquadramento geológico dos filões ferro – manganíferos da Região, estabeleci um programa de itinerários, para ajuizar da extensão em que afloravam estas rochas que, posteriormente, seriam interpretadas como originadas por vulcanismo fissural submarino.
Concluí tratar-se de mancha de rochas vulcânicas, com extensão e características comparáveis às das maiores manchas da Faixa Piritosa.
Decidi, então, destacar para fazer o seu levantamento, em cartas à escala de 1:5 000, o Auxiliar de Geologia João Joaquim, que tinha ingressado no SFM, em 1944, durante a minha chefia da Brigada de Prospecção Eléctrica e que eu tinha previamente instruído para o desempenho desta tarefa.
João Joaquim, com a minha permanente assistência, cumpriu perfeitamente o trabalho de que o encarreguei e foi-me ainda possível incluir esta mancha de rochas vulcânicas, em peça desenhada constante do relatório “Prospecção de Pirites no Baixo Alentejo”, que foi publicado em 1955, no Volume X de “Estudos, Notas e Trabalhos do Serviço de Fomento Mineiro”.
O “historiador” José Goinhas, apesar de citar, na sua extensa bibliografia, não só esta publicação, mas também o meu relatório não publicado, com data de 1957, “Jazigos ferro - manganíferos de Cercal – Odemira”, onde é apresentado o levantamento geológico da Região, com todo o pormenor, em mapas à escala de 1:25 000, apenas menciona artigo de Delfim de Carvalho, com data de 1976, quando se refere à potencialidade revelada para a ocorrência de jazigos de pirite complexas!!!!!!.
José Goinhas também opta por não dar relevo á aplicação da técnica gravimétrica, nesta Região, e à execução de sondagens no extremo sul da mancha de rochas vulcânicas, onde eu tinha descoberto filões com abundante mineralização de sulfuretos de cobre, chumbo e zinco, acompanhada de elevados teores de prata (caso da Mina Torgal, referido no post N.º 17)
Não ignorou, todavia, campanha de sondagens da responsabilidade de Delfim de Carvalho, que teria conduzido à descoberta do que passou a ser denominado “jazigo do Salgadinho”.
Mas a triste realidade foi que a campanha representou mais uma confirmação do carácter pouco escrupuloso de Delfim de Carvalho, que se auto-promovera a experiente prospector.
Delfim de Carvalho tinha conhecimento da decisão tomada, em reunião sob a minha presidência, quando eu ainda detinha a qualidade de Chefe da 1:ª Brigada de Prospecção, relativamente às investigações a realizar, na zona do Salgadinho, após a análise dos resultados da sondagem N.º1.
Esta sondagem, que se baseara em discreta anomalia gravimétrica, com escasso apoio geoquímico, em local de geologia favorável, definido anteriormente ao ingresso de Delfim de Carvalho no SFM, revelara mineralização cuprífera disseminada em rocha vulcânica, conduzindo à hipótese de se estar em presença de stockwork cuprífero.
Não era, nessa data (Maio de 1974) viável fazer extracção de anomalia gravimétrica residual, com suficiente rigor, que levasse a definir a extensão e a importância desta mineralização.
Teriam sido necessárias novas observações e mais perfeitos cálculos das correcções, ou mais elaborados tratamentos matemáticos (carta de segundas derivadas, por exemplo) que, ainda sem acesso a computadores, eram impraticáveis.
Não estavam previstas novas sondagens, antes de se conhecerem resultados da aplicação da técnica de polarização induzida, específica para este tipo de ocorrências minerais.
A aquisição de equipamento de polarização induzida constava já de requisição, que tinha merecido favorável acolhimento.
Havia a consciência de que, se novas sondagens viessem a justificar-se, elas teriam de ser profundas e portanto dispendiosas.
Mas, em 1975, o maquiavélico Soares Carneiro, (Director-Geral de Minas, que se assumia como real dirigente do SFM), ex-comunista confesso, convertido ao fascismo salazarento e, de novo, declarado democrata adepto das ideias proclamadas pela Revolução de Abril de 1974, entendeu oportuno dar concretização a plano que concebera de se apoderar da 1.ª Brigada de Prospecção, entregando-a ao seu afilhado de baptismo e casamento Delfim da Carvalho.
Para a concretização deste objectivo, usou subordinados tornados dóceis, em agradecimento por favoritismos recebidos, capazes de se encarregarem do trabalho sujo, de que não queria passar por autor (o seu adjunto Costa Almeida, vulgarmente designado por Ajax, o mais poderoso e Múrias de Queiroz, Director do SFM) e matéria (perda de ajudas de custo, que era uma espécie de bomba atómica, a utilizar como ameaça, concretizável em casos extremos, cuja aplicação já fora tentada, porém sem êxito, no mandato de Guimarães dos Santos) (Ver posts N.ºs 24 e 81 a 91).
O inexperiente Delfim de Carvalho, tendo conseguido apoderar-se da chefia da 1.ª Brigada de Prospecção, rapidamente projectou uma série de sondagens profundas, localizadas muito próximas de bom indício anteriormente encontrado, para poder apresentar sucessivos resultados com algum interesse, que lhe permitissem apresentar-se como grande descobridor de valioso jazigo mineral, não se preocupando com o avultado dispêndio de dinheiro do erário público, que iria originar, consciente da conivência do seu padrinho e da total ignorância de governantes em matérias da indústria mineira nacional.
Salgadinho passou a ser mencionado por Delfim de Carvalho, em paralelo com Neves – Corvo (Ver post N.º 86), mas não consta que tenham sido calculadas reservas nem apresentados teores do minério cubicado.
Goinhas, nos seus Quadros sobre “Projectos PIDDAC de prospecção desenvolvidos em 1980 e 1981”, dá conta do recomeço e da conclusão da campanha de sondagens na jazida de cobre do Salgadinho, classificando de sub - económicas as mineralizações detectadas.
Foi mais um “mons partiriens”, resultante da quebra da disciplina a que deve obedecer a prospecção, idêntico ao que Soares Carneiro concebera, quando se arvorou em dirigente dos estudos destinados a descobrir os grandes jazigos de scheelite (as Torres dos Clérigos, na sua curiosa expressão), que teriam passado despercebidos, devido á semelhança da scheelite com minerais sem valor comercial (Ver post N.º 56)!
Observação: Salgadinho é repetidamente mencionado por Goinhas, com localização na freguesia de S. Luís do concelho de Odemira, quando a real localização é na freguesia de Cercal do Alentejo do concelho de Santiago de Cacém.
É mais uma demonstração da falta de cuidado de Goinhas, na elaboração do seu pedagógico texto, sobre a “Prospecção Mineira em Portugal” baseado em documentos que consultou levianamente e não em conhecimento directo da matéria apresentada.
De realçar que se tratava de campanha de sondagens, que teria sido objecto de constante apreciação, durante dois anos, nas reuniões da Brigada em que estava integrado!
Continua…
13 – Campanha de sondagens, na zona do Salgadinho, da Região de Cercal – Odemira
Quando o Governo, em 1939, chamou a si a responsabilidade de promover o inventário dos recursos minerais do País, com vista ao seu racional aproveitamento, uma das primeiras iniciativas, que tomou, foi seleccionar, para investigação, a Região mineira de Cercal – Odemira.
A definição de reservas de minérios de ferro, que pudessem ser utilizadas em siderurgia a implantar no País, tinha prioridade, nos programas do Governo.
A Região de Cercal – Odemira era considerada com potencialidade para cumprir esse desiderato, pois nela eram conhecidos numerosos filões, em cujo enchimento ocorriam, em associação com óxidos de ferro, óxidos de manganés, que constituíam valioso contributo para o processo metalúrgico.
Tendo sido criado o Serviço de Fomento Mineiro (SFM), na dependência da Direcção – Geral de Minas e Serviços Geológicos, os estudos na Região de Cercal – Odemira tiveram início no princípio da década de 40 do passado século.
A qualidade inicial desses estudos reflectiu a inexperiência do pessoal técnico (Engenheiros, Geólogo, Agentes Técnicos de Engenharia recém-licenciados), que então, foi possível destacar, para sua realização.
Publicações da época são elucidativas dos erros grosseiros, que tinham passado despercebidos a dirigentes mais habituados a fiscalizar do que a produzir trabalho no terreno (os técnicos de papel selado, referidos por Castro e Solla). (Ver post N.º 1)
Acrescia ainda a circunstância de a Europa estar envolvida na 2.ª Guerra Mundial e daí advirem sérias dificuldades na aquisição dos equipamentos indispensáveis à execução dos trabalhos, que não estavam disponíveis no mercado nacional.
Apesar dos factos que acabo de referir, vários técnicos do SFM, que estiveram envolvidos em actividades mineiras, quer na Região de Cercal – Odemira quer em outras zonas do Sul do País, foram, em 1947, convidados, a prestar colaboração em estudos na província ultramarina de Moçambique, na convicção de que, nessa data, já tinham adquirido experiência para bem desempenharem as funções que lhes iam ser atribuídas.
Eu chefiava, então, a Brigada de Prospecção Eléctrica, que, aplicava sobretudo o método electromagnético Turam, visando descobrir concentrações de pirites complexas, idênticas às que se encontravam em exploração nas Minas de S. Domingos, Aljustrel e Louzal - Caveira.
Fui, nessa data, agradavelmente surpreendido, com dois honrosos convites.
O primeiro era para chefiar a Brigada do Sul do SFM, que tinha ficado seriamente desfalcada de pessoal técnico, superior e médio.
Esta Brigada dedicava-se, então, essencialmente a investigações por trabalhos mineiros tradicionais (sanjas, galerias e poços) em jazigos ou ocorrências minerais anteriormente descobertas.
O segundo era para chefiar uma Brigada em Angola, idêntica à que tinha originado a debandada dos técnicos para Moçambique.
Embora o segundo convite fosse deveras aliciante, pois lhe correspondia confortável remuneração, optei por recusá-lo, por não ter experiência em trabalhos mineiros clássicos, pois a minha actividade tinha-se desenvolvido exclusivamente à superfície.
Eu esperava adquirir essa experiência, na Brigada do Sul do SFM, que já tinha uma organização, na qual facilmente me integraria, instituída pelos técnicos que tinham ido, em comissão de serviço para a província ultramarina de Moçambique.
O Engenheiro Rogério Cavaca, autor do convite, quando a ele me dirigi, pessoalmente, a justificar a minha recusa, ficou altamente surpreendido, pois não era habitual alguém declarar-se incompetente para exercer funções sobretudo num caso de tão boa remuneração.
Quando passei a exercer o cargo que aceitara na Brigada do Sul, fui progressivamente constatando que teria de introduzir significativas correcções em procedimentos adoptados, em todas as Secções (Montemor-o-Novo, Alvito, Moura, Cercal do Alentejo e Odemira), os quais além de diminuírem a sua eficácia, punham em causa a qualidade dos resultados e, nalguns casos, afectavam a segurança dos trabalhadores.
No que respeita às Secções de Cercal do Alentejo e Odemira, onde estivera integrado um Geólogo, tudo quanto consta de relatórios publicados ou não, a respeito da geologia da Região, está totalmente errado.
Apesar de já existir um estudo do Geólogo alemão Heinrich Quiring (Ver post N.º12), que assinalava a ocorrência de rochas ígneas, este estudo não foi levado a sério, sendo considerada fantasiosa a interpretação apresentada para a estrutura geológica.
Mas, quando eu me ocupava a visitar antigas concessões mineiras, para avaliar da possível conveniência de nelas realizar estudos, deparei com afloramentos de rochas ígneas, com bem conspícuos fenocristais, no Cerro dos Cunqueiros, na Herdade, do Castelo, idênticas às que bem conhecia na Faixa Piritosa (Ver post N.º 17).
Perante esta descoberta, que vinha confirmar as minhas ideias, que progressivamente tomavam consistência, durante as minhas visitas aos trabalhos mineiros em curso, quanto ao real enquadramento geológico dos filões ferro – manganíferos da Região, estabeleci um programa de itinerários, para ajuizar da extensão em que afloravam estas rochas que, posteriormente, seriam interpretadas como originadas por vulcanismo fissural submarino.
Concluí tratar-se de mancha de rochas vulcânicas, com extensão e características comparáveis às das maiores manchas da Faixa Piritosa.
Decidi, então, destacar para fazer o seu levantamento, em cartas à escala de 1:5 000, o Auxiliar de Geologia João Joaquim, que tinha ingressado no SFM, em 1944, durante a minha chefia da Brigada de Prospecção Eléctrica e que eu tinha previamente instruído para o desempenho desta tarefa.
João Joaquim, com a minha permanente assistência, cumpriu perfeitamente o trabalho de que o encarreguei e foi-me ainda possível incluir esta mancha de rochas vulcânicas, em peça desenhada constante do relatório “Prospecção de Pirites no Baixo Alentejo”, que foi publicado em 1955, no Volume X de “Estudos, Notas e Trabalhos do Serviço de Fomento Mineiro”.
O “historiador” José Goinhas, apesar de citar, na sua extensa bibliografia, não só esta publicação, mas também o meu relatório não publicado, com data de 1957, “Jazigos ferro - manganíferos de Cercal – Odemira”, onde é apresentado o levantamento geológico da Região, com todo o pormenor, em mapas à escala de 1:25 000, apenas menciona artigo de Delfim de Carvalho, com data de 1976, quando se refere à potencialidade revelada para a ocorrência de jazigos de pirite complexas!!!!!!.
José Goinhas também opta por não dar relevo á aplicação da técnica gravimétrica, nesta Região, e à execução de sondagens no extremo sul da mancha de rochas vulcânicas, onde eu tinha descoberto filões com abundante mineralização de sulfuretos de cobre, chumbo e zinco, acompanhada de elevados teores de prata (caso da Mina Torgal, referido no post N.º 17)
Não ignorou, todavia, campanha de sondagens da responsabilidade de Delfim de Carvalho, que teria conduzido à descoberta do que passou a ser denominado “jazigo do Salgadinho”.
Mas a triste realidade foi que a campanha representou mais uma confirmação do carácter pouco escrupuloso de Delfim de Carvalho, que se auto-promovera a experiente prospector.
Delfim de Carvalho tinha conhecimento da decisão tomada, em reunião sob a minha presidência, quando eu ainda detinha a qualidade de Chefe da 1:ª Brigada de Prospecção, relativamente às investigações a realizar, na zona do Salgadinho, após a análise dos resultados da sondagem N.º1.
Esta sondagem, que se baseara em discreta anomalia gravimétrica, com escasso apoio geoquímico, em local de geologia favorável, definido anteriormente ao ingresso de Delfim de Carvalho no SFM, revelara mineralização cuprífera disseminada em rocha vulcânica, conduzindo à hipótese de se estar em presença de stockwork cuprífero.
Não era, nessa data (Maio de 1974) viável fazer extracção de anomalia gravimétrica residual, com suficiente rigor, que levasse a definir a extensão e a importância desta mineralização.
Teriam sido necessárias novas observações e mais perfeitos cálculos das correcções, ou mais elaborados tratamentos matemáticos (carta de segundas derivadas, por exemplo) que, ainda sem acesso a computadores, eram impraticáveis.
Não estavam previstas novas sondagens, antes de se conhecerem resultados da aplicação da técnica de polarização induzida, específica para este tipo de ocorrências minerais.
A aquisição de equipamento de polarização induzida constava já de requisição, que tinha merecido favorável acolhimento.
Havia a consciência de que, se novas sondagens viessem a justificar-se, elas teriam de ser profundas e portanto dispendiosas.
Mas, em 1975, o maquiavélico Soares Carneiro, (Director-Geral de Minas, que se assumia como real dirigente do SFM), ex-comunista confesso, convertido ao fascismo salazarento e, de novo, declarado democrata adepto das ideias proclamadas pela Revolução de Abril de 1974, entendeu oportuno dar concretização a plano que concebera de se apoderar da 1.ª Brigada de Prospecção, entregando-a ao seu afilhado de baptismo e casamento Delfim da Carvalho.
Para a concretização deste objectivo, usou subordinados tornados dóceis, em agradecimento por favoritismos recebidos, capazes de se encarregarem do trabalho sujo, de que não queria passar por autor (o seu adjunto Costa Almeida, vulgarmente designado por Ajax, o mais poderoso e Múrias de Queiroz, Director do SFM) e matéria (perda de ajudas de custo, que era uma espécie de bomba atómica, a utilizar como ameaça, concretizável em casos extremos, cuja aplicação já fora tentada, porém sem êxito, no mandato de Guimarães dos Santos) (Ver posts N.ºs 24 e 81 a 91).
O inexperiente Delfim de Carvalho, tendo conseguido apoderar-se da chefia da 1.ª Brigada de Prospecção, rapidamente projectou uma série de sondagens profundas, localizadas muito próximas de bom indício anteriormente encontrado, para poder apresentar sucessivos resultados com algum interesse, que lhe permitissem apresentar-se como grande descobridor de valioso jazigo mineral, não se preocupando com o avultado dispêndio de dinheiro do erário público, que iria originar, consciente da conivência do seu padrinho e da total ignorância de governantes em matérias da indústria mineira nacional.
Salgadinho passou a ser mencionado por Delfim de Carvalho, em paralelo com Neves – Corvo (Ver post N.º 86), mas não consta que tenham sido calculadas reservas nem apresentados teores do minério cubicado.
Goinhas, nos seus Quadros sobre “Projectos PIDDAC de prospecção desenvolvidos em 1980 e 1981”, dá conta do recomeço e da conclusão da campanha de sondagens na jazida de cobre do Salgadinho, classificando de sub - económicas as mineralizações detectadas.
Foi mais um “mons partiriens”, resultante da quebra da disciplina a que deve obedecer a prospecção, idêntico ao que Soares Carneiro concebera, quando se arvorou em dirigente dos estudos destinados a descobrir os grandes jazigos de scheelite (as Torres dos Clérigos, na sua curiosa expressão), que teriam passado despercebidos, devido á semelhança da scheelite com minerais sem valor comercial (Ver post N.º 56)!
Observação: Salgadinho é repetidamente mencionado por Goinhas, com localização na freguesia de S. Luís do concelho de Odemira, quando a real localização é na freguesia de Cercal do Alentejo do concelho de Santiago de Cacém.
É mais uma demonstração da falta de cuidado de Goinhas, na elaboração do seu pedagógico texto, sobre a “Prospecção Mineira em Portugal” baseado em documentos que consultou levianamente e não em conhecimento directo da matéria apresentada.
De realçar que se tratava de campanha de sondagens, que teria sido objecto de constante apreciação, durante dois anos, nas reuniões da Brigada em que estava integrado!
Continua…
quarta-feira, 14 de março de 2012
194- Um novo Plano Mineiro Nacional. Continuação 18
Continuo a narrativa de casos de sondagens indisciplinadamente programadas e (ou) incorrectamente executadas, que escaparam a José Goinhas, na sua “abordagem do problema das potencialidades do País, em recursos minerais, de forma integrada e sistematizada”, que consta da história da “Prospecção Mineira em Portugal”, apresentada com a declarada intenção de contribuir “pedagogicamente” para novo “Plano Mineiro Nacional".
Mais uma vez manifesto a minha perplexidade, por a este documento, pleno de erros e omissões, ter sido atribuída a honra de publicação no Boletim de Minas.
12 - A interrupção de campanha de sondagens em zona mineira do distrito de Évora:
No principio da década de 60 do século passado, o SFM, através da sua Brigada do Sul, tinha em curso estudos, em diversas áreas das Regiões de Montemor-o-Novo, Alcácer do Sal e Évora, visando investigar a existência de recursos minerais, com principal incidência na Região de Montemor-o-Novo.
Referi-me, no post N.º 18, a pormenorizado Relatório que tinha em preparação, idêntico aos que apresentara sobre as pirites do Baixo Alentejo, os jazigos ferro-manganíferos da Região de Cercal – Odemira, as ocorrências cupríferas da Região de Barrancos, as formações zincíferas da Serra da Preguiça e vários outras.
Embora em fase muito avançada, com mais de 100 peças desenhadas já elaboradas, elucidativas dos resultados conseguidos, não me foi possível concluir esse Relatório, porque, em 1963, em consequência de reorganização do SFM, fui investido em funções, de âmbito nacional, que absorveram totalmente as minhas horas normais de trabalho e muitas outras, fora desse horário, incluindo sábados e domingos.
Nas novas funções, a minha actividade de gabinete foi transferida para a sede do SFM, em S. Mamede de Infesta.
Seria natural que, nas amplas e modernas instalações desta sede (ver post N.º 31), dotadas de excelentes equipamentos e havendo total liberdade para recrutar pessoal auxiliar, me fosse facultado apoio, para que tão importante documento não ficasse faltando no arquivo do SFM, caso não se considerasse possível a sua publicação, como tinha acontecido com muitos outros relatórios de minha autoria ou co-autoria. (ver post N.º 3)
A sua apresentação deveria ser considerada indispensável, em Organismo racionalmente estruturado.
Todavia, o Director do SFM nem se terá apercebido da omissão e do consequente prejuízo para novos estudos nas mesmas Regiões.
Tenho até motivo para crer que talvez se interessasse mais em impedir o efeito valorizador que esse Relatório teria no meu currículo.
A realidade é que, não só passou a faltar-me o apoio de que dispunha na Brigada do Sul, porque lá tinha instituído organização para esse efeito, como vasta série de obstáculos me foi criada para deliberadamente dificultar o cumprimento das minhas novas funções.
Conforme revelei no post N.º 28, perante as inesperadas dificuldades com que deparei, para desenvolver a prospecção no Norte, decidi continuar a concentrar a minha maior atenção nos problemas do Sul, onde a interferência do Director menos se fazia sentir, embora mantivesse a esperança de que a situação viesse a modificar-se, de modo a tornar possível dar, também no Norte, cumprimento aos Planos de Trabalhos, que anualmente ia apresentando.
Conquanto competissem à Brigada do Sul, durante o período em que esteve sob minha chefia, essencialmente investigações por trabalhos mineiros tradicionais, estando os métodos geofísicos excluídos das suas atribuições normais, uma vez que tinha sido instituída uma Brigada de Prospecção Geofísica, com essas funções específicas, eu tive que me encarregar de pôr em uso um equipamento Turam de prospecção electromagnética, recentemente adquirido, que se mantinha em armazém, por não haver, na Brigada dita especializada, quem tivesse experiência na sua utilização, ou se dispusesse a aproveitar os ensinamentos que, de bom grado, eu começara a prestar.
De facto, eu não fui bem sucedido, na minha tentativa de transmitir a experiência nesta técnica, que tinha adquirido, durante cerca de 4 anos, em que exerci as funções de Chefe da Brigada de Prospecção Eléctrica (ver post N.º 7).
.
Em numerosos documentos, que periodicamente, submetia a apreciação superior, insistia, com vigor, na premente necessidade de ampla aplicação das variadas técnicas geofísicas e geoquímicas, antes de passar à fase de sondagens.
Todavia, a Brigada de Prospecção Geofísica, apesar de dispor, no seu Quadro de pessoal técnico, de dois Engenheiros e um Agente Técnico de Engenharia, persistia em manter em uso, durante sucessivos anos, apenas um magnetómetro, em investigações na Faixa Magnetítica Alentejana, cumprindo vagarosamente programa por mim proposto. (ver post N.º 13)
A Direcção do SFM era estranhamente tolerante, perante a reduzida eficácia desta Brigada, tornando-se cúmplice, pois persistia em ignorar os meus constantes apelos, para que aos métodos geofísicos fosse dado o impulso que era essencial ao racional cumprimento dos objectivos do SFM.
O dinamismo da Brigada do Sul era inadmissivelmente travado pela passividade consentida à Brigada de Prospecção Geofísica.
O Director do SFM, em “solenes e sábias” divagações sobre o modo como o SFM deveria orientar os seus estudos, até parecia mais preocupado em deixar trabalho para as futuras gerações, pois chegava a afirmar que não devíamos ter a preocupação de tudo descobrir, como se isso, algum dia, fosse possível, mesmo com técnicas progressivamente aperfeiçoadas.!!
A Brigada do Sul, na posse do equipamento Turam, fez aplicação exaustiva do método electromagnético, na maior parte das suas Secções (Moura e Barrancos, Montemor-o-Novo, Évora, Almodôvar, Cercal-Odemira).
Embora os resultados tivessem sido, na sua generalidade, de muito interesse, merecendo realce o caso do jazigo de Aparis, onde ficou perfeitamente definido o sistema filoniano, no qual se enquadrava o sector que se encontrava em estudo, por desenvolvidos trabalhos de reconhecimento atingindo profundidades de 150 m, havia a consciência de que, nalguns casos, deveriam ter-se aplicado outras técnicas geofísicas e (ou) geoquímicas, antes de passar à fase de sondagens.
Casos desses aconteceram em áreas das Regiões de Montemor-o-Novo e Évora.
O Relatório que não cheguei a apresentar daria conta de todos estes factos.
Dele constaria um acontecimento, até então inédito, directamente relacionado com a nomeação de Soares Carneiro como Director-Geral de Minas, em substituição do anterior titular, o Engenheiro Luís de Castro e Solla, que abdicara do cargo, em circunstâncias que descrevi no post N.º 25.
O Engenheiro Luís de Castro e Solla, só em situações extremas, intervinha na actividade do SFM.
Costumava até usar a expressão: Os dirigentes não são simples “chancelas”, para significar que tinham de ser eles a assumir a total responsabilidade dos actos praticados, no exercício das funções para que tinham sido nomeados.
Soares Carneiro adoptou para com o SFM comportamento totalmente oposto.
Assumiu abusivamente o comando deste Organismo, interferindo até em incríveis pormenores, no seu funcionamento.
A escolha do Engenheiro Norberto Múrias de Queiroz para o cargo de Director do SFM, apesar do seu medíocre currículo, baseara-se, não apenas em considerações de ordem política e religiosa (ver post N.º 25) mas também, na certeza de que ele acataria, servilmente, as decisões do novo Director-Geral, por mais arbitrárias que fossem.
Deu-se até a circunstância de Múrias de Queiroz, já indigitado para o cargo, se ter mantido longos meses na qualidade de Director interino, sem que Soares Carneiro se dispusesse a fazer a nomeação.
Soube-se que Múrias de Queiroz manifestou verbalmente a sua necessidade da remuneração de Director, para acorrer aos crescentes encargos com o seu agregado familiar e que Soares Carneiro teve a humilhante atitude de exigir que solicitasse, por escrito, esse favor!!!
E Múrias de Queiroz aceitou escrever a carta, não tendo a dignidade de reclamar o respeito devido ao alto cargo que se propunha exercer.
Esta seria a primeira manifestação do modo autoritário e arbitrário como Soares Carneiro iria exercer o seu mandato, com as trágicas consequências que viriam a acontecer, as quais tenho vindo a descrever.
Soares Carneiro não deixaria perder uma única oportunidade de exercer os seus caprichos voluntaristas.
Ele, que, na fase inicial da sua carreira profissional, tivera efémera passagem por núcleos do Sul e do Norte do SFM, sem deixar registo apreciável, para além da colaboração ao docente da Universidade de Coimbra João Manuel Cotelo Neiva, em levantamentos geológicos, na Região de Bragança - Vinhais para a sua tese de doutoramento (ver post N.º 72), tendo preferido transferir-se para cargo que vagara em departamento de fiscalização das actividades mineiras privadas, isto é, abdicando do real exercício da profissão, assumia-se agora, como real Director do SFM!!!
Como funcionário do SFM, ele não tivera oportunidade de fazer passagem por núcleos suficientemente desenvolvidos para criar a experiência mineira pretendida por Luís de Castro e Solla e António Bernardo Ferreira, de modo a acabar com “técnicos de papel selado”, que, no conforto dos seu gabinetes, ousavam tomar decisões em matérias que não dominavam, prejudicando em vez de estimular como lhes competia, a nossa indústria mineira.
Soares Carneiro não teve escrúpulos em introduzir grave indisciplina na actividade que tinha sido iniciada, ainda no âmbito da Brigada do Sul, na área de Alcalaínha - Montinho que abrangia estas antigas minas de cobre, localizadas na freguesia de S. Braz do Regedouro do distrito de Évora.
Decorria, nessa área, uma campanha de sondagens, com aprovação da anterior Direcção do SFM, que para elas fizera destacar os adequados equipamentos.
Quando estava em curso, em Fevereiro de 1963, com base em expressivos e extensos alinhamentos de anomalias electromagnéticas, a sondagem n.º 4, ainda consegui que a Companhia inglesa Lea Cross fizesse, nos seus Laboratórios, análises geoquímicas de Cu, sobre amostras de solos colhidas nesta área.
Os resultados confirmaram as expectativas e deles beneficiou a marcação de novas sondagens.
Mas tive que refrear o meu entusiasmo com este apoio, porque fui informado de que a campanha de sondagens ia ser interrompida.
No meu relatório de Fevereiro de 1963 acerca dos estudos que ainda dirigia na Brigada do Sul, registei o seguinte, a respeito desta interrupção:
“Em 4 do corrente, fomos informados pelo Engenheiro Chefe da Brigada de Sondagens de que a campanha de sondagens em curso na região de Montemor-o-Novo seria interrompida, após a conclusão do furo N.º 4 da Mina de Alcalaínha e que a sonda Craelius que aqui tem estado a ser utilizada passaria a aplicar-se no ataque do problema do ferro do Sul do País.
Como os estudos do ferro, embora de muito interesse e alguns até impondo urgente resolução (caso de Odivelas) se encontram ainda atrasados, no que respeita à interpretação dos resultados do emprego de métodos geofísicos, propusemos superiormente, em 5 do corrente, o prosseguimento da campanha na região de Montemor-o-Novo, até poderem planear-se furos, em outros locais, com sólidos fundamentos”.
A proposta não foi atendida.
Procurando explicação para facto, então ainda inédito, fiquei a saber que Soares Carneiro ordenara a interrupção da campanha, apenas com o argumento de pretender afastar de Montemor-o-Novo, o Agente Técnico de Engenharia Raul da Silva Dionísio que estava encarregado de dirigir as sondagens e tinha fixado a sua temporária residência naquela vila alentejana.
Pretendia afastá-lo porque ele tinha sido convidado para ensinar matéria de sua especialidade, em Escola Técnica de Montemor-o-Novo e Soares Carneiro não queria dar-lhe tamanha honra, não se importando com o eventual prejuízo que originaria na preparação dos alunos dessa Escola.!!!
Inacreditável, mas foi isto mesmo que o novo Director-Geral não teve pejo em me transmitir, pessoalmente, com a maior naturalidade.
Continua…
Mais uma vez manifesto a minha perplexidade, por a este documento, pleno de erros e omissões, ter sido atribuída a honra de publicação no Boletim de Minas.
12 - A interrupção de campanha de sondagens em zona mineira do distrito de Évora:
No principio da década de 60 do século passado, o SFM, através da sua Brigada do Sul, tinha em curso estudos, em diversas áreas das Regiões de Montemor-o-Novo, Alcácer do Sal e Évora, visando investigar a existência de recursos minerais, com principal incidência na Região de Montemor-o-Novo.
Referi-me, no post N.º 18, a pormenorizado Relatório que tinha em preparação, idêntico aos que apresentara sobre as pirites do Baixo Alentejo, os jazigos ferro-manganíferos da Região de Cercal – Odemira, as ocorrências cupríferas da Região de Barrancos, as formações zincíferas da Serra da Preguiça e vários outras.
Embora em fase muito avançada, com mais de 100 peças desenhadas já elaboradas, elucidativas dos resultados conseguidos, não me foi possível concluir esse Relatório, porque, em 1963, em consequência de reorganização do SFM, fui investido em funções, de âmbito nacional, que absorveram totalmente as minhas horas normais de trabalho e muitas outras, fora desse horário, incluindo sábados e domingos.
Nas novas funções, a minha actividade de gabinete foi transferida para a sede do SFM, em S. Mamede de Infesta.
Seria natural que, nas amplas e modernas instalações desta sede (ver post N.º 31), dotadas de excelentes equipamentos e havendo total liberdade para recrutar pessoal auxiliar, me fosse facultado apoio, para que tão importante documento não ficasse faltando no arquivo do SFM, caso não se considerasse possível a sua publicação, como tinha acontecido com muitos outros relatórios de minha autoria ou co-autoria. (ver post N.º 3)
A sua apresentação deveria ser considerada indispensável, em Organismo racionalmente estruturado.
Todavia, o Director do SFM nem se terá apercebido da omissão e do consequente prejuízo para novos estudos nas mesmas Regiões.
Tenho até motivo para crer que talvez se interessasse mais em impedir o efeito valorizador que esse Relatório teria no meu currículo.
A realidade é que, não só passou a faltar-me o apoio de que dispunha na Brigada do Sul, porque lá tinha instituído organização para esse efeito, como vasta série de obstáculos me foi criada para deliberadamente dificultar o cumprimento das minhas novas funções.
Conforme revelei no post N.º 28, perante as inesperadas dificuldades com que deparei, para desenvolver a prospecção no Norte, decidi continuar a concentrar a minha maior atenção nos problemas do Sul, onde a interferência do Director menos se fazia sentir, embora mantivesse a esperança de que a situação viesse a modificar-se, de modo a tornar possível dar, também no Norte, cumprimento aos Planos de Trabalhos, que anualmente ia apresentando.
Conquanto competissem à Brigada do Sul, durante o período em que esteve sob minha chefia, essencialmente investigações por trabalhos mineiros tradicionais, estando os métodos geofísicos excluídos das suas atribuições normais, uma vez que tinha sido instituída uma Brigada de Prospecção Geofísica, com essas funções específicas, eu tive que me encarregar de pôr em uso um equipamento Turam de prospecção electromagnética, recentemente adquirido, que se mantinha em armazém, por não haver, na Brigada dita especializada, quem tivesse experiência na sua utilização, ou se dispusesse a aproveitar os ensinamentos que, de bom grado, eu começara a prestar.
De facto, eu não fui bem sucedido, na minha tentativa de transmitir a experiência nesta técnica, que tinha adquirido, durante cerca de 4 anos, em que exerci as funções de Chefe da Brigada de Prospecção Eléctrica (ver post N.º 7).
.
Em numerosos documentos, que periodicamente, submetia a apreciação superior, insistia, com vigor, na premente necessidade de ampla aplicação das variadas técnicas geofísicas e geoquímicas, antes de passar à fase de sondagens.
Todavia, a Brigada de Prospecção Geofísica, apesar de dispor, no seu Quadro de pessoal técnico, de dois Engenheiros e um Agente Técnico de Engenharia, persistia em manter em uso, durante sucessivos anos, apenas um magnetómetro, em investigações na Faixa Magnetítica Alentejana, cumprindo vagarosamente programa por mim proposto. (ver post N.º 13)
A Direcção do SFM era estranhamente tolerante, perante a reduzida eficácia desta Brigada, tornando-se cúmplice, pois persistia em ignorar os meus constantes apelos, para que aos métodos geofísicos fosse dado o impulso que era essencial ao racional cumprimento dos objectivos do SFM.
O dinamismo da Brigada do Sul era inadmissivelmente travado pela passividade consentida à Brigada de Prospecção Geofísica.
O Director do SFM, em “solenes e sábias” divagações sobre o modo como o SFM deveria orientar os seus estudos, até parecia mais preocupado em deixar trabalho para as futuras gerações, pois chegava a afirmar que não devíamos ter a preocupação de tudo descobrir, como se isso, algum dia, fosse possível, mesmo com técnicas progressivamente aperfeiçoadas.!!
A Brigada do Sul, na posse do equipamento Turam, fez aplicação exaustiva do método electromagnético, na maior parte das suas Secções (Moura e Barrancos, Montemor-o-Novo, Évora, Almodôvar, Cercal-Odemira).
Embora os resultados tivessem sido, na sua generalidade, de muito interesse, merecendo realce o caso do jazigo de Aparis, onde ficou perfeitamente definido o sistema filoniano, no qual se enquadrava o sector que se encontrava em estudo, por desenvolvidos trabalhos de reconhecimento atingindo profundidades de 150 m, havia a consciência de que, nalguns casos, deveriam ter-se aplicado outras técnicas geofísicas e (ou) geoquímicas, antes de passar à fase de sondagens.
Casos desses aconteceram em áreas das Regiões de Montemor-o-Novo e Évora.
O Relatório que não cheguei a apresentar daria conta de todos estes factos.
Dele constaria um acontecimento, até então inédito, directamente relacionado com a nomeação de Soares Carneiro como Director-Geral de Minas, em substituição do anterior titular, o Engenheiro Luís de Castro e Solla, que abdicara do cargo, em circunstâncias que descrevi no post N.º 25.
O Engenheiro Luís de Castro e Solla, só em situações extremas, intervinha na actividade do SFM.
Costumava até usar a expressão: Os dirigentes não são simples “chancelas”, para significar que tinham de ser eles a assumir a total responsabilidade dos actos praticados, no exercício das funções para que tinham sido nomeados.
Soares Carneiro adoptou para com o SFM comportamento totalmente oposto.
Assumiu abusivamente o comando deste Organismo, interferindo até em incríveis pormenores, no seu funcionamento.
A escolha do Engenheiro Norberto Múrias de Queiroz para o cargo de Director do SFM, apesar do seu medíocre currículo, baseara-se, não apenas em considerações de ordem política e religiosa (ver post N.º 25) mas também, na certeza de que ele acataria, servilmente, as decisões do novo Director-Geral, por mais arbitrárias que fossem.
Deu-se até a circunstância de Múrias de Queiroz, já indigitado para o cargo, se ter mantido longos meses na qualidade de Director interino, sem que Soares Carneiro se dispusesse a fazer a nomeação.
Soube-se que Múrias de Queiroz manifestou verbalmente a sua necessidade da remuneração de Director, para acorrer aos crescentes encargos com o seu agregado familiar e que Soares Carneiro teve a humilhante atitude de exigir que solicitasse, por escrito, esse favor!!!
E Múrias de Queiroz aceitou escrever a carta, não tendo a dignidade de reclamar o respeito devido ao alto cargo que se propunha exercer.
Esta seria a primeira manifestação do modo autoritário e arbitrário como Soares Carneiro iria exercer o seu mandato, com as trágicas consequências que viriam a acontecer, as quais tenho vindo a descrever.
Soares Carneiro não deixaria perder uma única oportunidade de exercer os seus caprichos voluntaristas.
Ele, que, na fase inicial da sua carreira profissional, tivera efémera passagem por núcleos do Sul e do Norte do SFM, sem deixar registo apreciável, para além da colaboração ao docente da Universidade de Coimbra João Manuel Cotelo Neiva, em levantamentos geológicos, na Região de Bragança - Vinhais para a sua tese de doutoramento (ver post N.º 72), tendo preferido transferir-se para cargo que vagara em departamento de fiscalização das actividades mineiras privadas, isto é, abdicando do real exercício da profissão, assumia-se agora, como real Director do SFM!!!
Como funcionário do SFM, ele não tivera oportunidade de fazer passagem por núcleos suficientemente desenvolvidos para criar a experiência mineira pretendida por Luís de Castro e Solla e António Bernardo Ferreira, de modo a acabar com “técnicos de papel selado”, que, no conforto dos seu gabinetes, ousavam tomar decisões em matérias que não dominavam, prejudicando em vez de estimular como lhes competia, a nossa indústria mineira.
Soares Carneiro não teve escrúpulos em introduzir grave indisciplina na actividade que tinha sido iniciada, ainda no âmbito da Brigada do Sul, na área de Alcalaínha - Montinho que abrangia estas antigas minas de cobre, localizadas na freguesia de S. Braz do Regedouro do distrito de Évora.
Decorria, nessa área, uma campanha de sondagens, com aprovação da anterior Direcção do SFM, que para elas fizera destacar os adequados equipamentos.
Quando estava em curso, em Fevereiro de 1963, com base em expressivos e extensos alinhamentos de anomalias electromagnéticas, a sondagem n.º 4, ainda consegui que a Companhia inglesa Lea Cross fizesse, nos seus Laboratórios, análises geoquímicas de Cu, sobre amostras de solos colhidas nesta área.
Os resultados confirmaram as expectativas e deles beneficiou a marcação de novas sondagens.
Mas tive que refrear o meu entusiasmo com este apoio, porque fui informado de que a campanha de sondagens ia ser interrompida.
No meu relatório de Fevereiro de 1963 acerca dos estudos que ainda dirigia na Brigada do Sul, registei o seguinte, a respeito desta interrupção:
“Em 4 do corrente, fomos informados pelo Engenheiro Chefe da Brigada de Sondagens de que a campanha de sondagens em curso na região de Montemor-o-Novo seria interrompida, após a conclusão do furo N.º 4 da Mina de Alcalaínha e que a sonda Craelius que aqui tem estado a ser utilizada passaria a aplicar-se no ataque do problema do ferro do Sul do País.
Como os estudos do ferro, embora de muito interesse e alguns até impondo urgente resolução (caso de Odivelas) se encontram ainda atrasados, no que respeita à interpretação dos resultados do emprego de métodos geofísicos, propusemos superiormente, em 5 do corrente, o prosseguimento da campanha na região de Montemor-o-Novo, até poderem planear-se furos, em outros locais, com sólidos fundamentos”.
A proposta não foi atendida.
Procurando explicação para facto, então ainda inédito, fiquei a saber que Soares Carneiro ordenara a interrupção da campanha, apenas com o argumento de pretender afastar de Montemor-o-Novo, o Agente Técnico de Engenharia Raul da Silva Dionísio que estava encarregado de dirigir as sondagens e tinha fixado a sua temporária residência naquela vila alentejana.
Pretendia afastá-lo porque ele tinha sido convidado para ensinar matéria de sua especialidade, em Escola Técnica de Montemor-o-Novo e Soares Carneiro não queria dar-lhe tamanha honra, não se importando com o eventual prejuízo que originaria na preparação dos alunos dessa Escola.!!!
Inacreditável, mas foi isto mesmo que o novo Director-Geral não teve pejo em me transmitir, pessoalmente, com a maior naturalidade.
Continua…
quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
193 - Um novo Plano Mineiro Nacional. Continuação 17
Na ânsia de encontrar rapidamente reservas minerais, para prolongar a vida de minas em lavra activa, ou para iniciar novas explorações, é vulgar que empresas privadas e certos núcleos de “serviços oficiais” decidam passar à fase de sondagens, sem ter esgotado as capacidades de técnicas menos onerosas, que possibilitariam melhor selecção dos alvos a sondar.
É também vulgar serem algo secundarizados os reais objectivos das sondagens, ao descurar os procedimentos aconselháveis a uma boa recolha de testemunhos inteiros, de modo a obter a melhor representação possível das formações interceptadas.
É ainda corrente não se controlar, periodicamente, de modo eficaz, a trajectória dos furos, tanto em inclinação como em direcção, acontecendo ocorrerem enormes desvios dos alvos pretendidos, sobretudo em furos longos e (ou) com pequeno diâmetro inicial.
O uso de giroscópio torna-se essencial. O procedimento com bússola magnética não é rigoroso, porque as hastes ficam fortemente magnetizadas pelo atrito com as paredes dos furos e perturbam o campo magnético terrestre.
Também é frequente não se fazer a determinação sistemática das densidades e, em certos casos, a medição de susceptibilidades magnéticas dos testemunhos, análise geoquímica dos detritos, etc.
Seria de esperar recomendação de Goinhas no sentido de evitar a repetição de tais deficiências.
Todavia, tal não consta do documento intitulado "A Prospecção Mineira em Portugal. Áreas potenciais para implantação de projectos”, publicado no Boletim de Minas, que o autor classificou como pedagógica contribuição para o novo Plano Mineiro Nacional.
De facto, no parágrafo final desse documento, declara
“julgar ser a primeira vez que se aborda o problema das potencialidades dos recursos minerais do País, de forma integrada e sistematizada, que poderá conter, para além do simples interesse informativo, também um interesse pedagógico”.
A seguir, cito mais casos de actuação indisciplinada, relativamente à fase de sondagens.
11 –Na Faixa Metalífera da Beira Litoral.
A importância desta Faixa é bem evidenciada no “Catálogo Descritivo da Secção de Minas (Grupos I e II)" da Exposição Industrial das Indústrias Fabris, coordenada sob a direcção de José Augusto das Neves Cabral, por Severiano Monteiro e por João Augusto Barata, publicado pela Imprensa Nacional em 1889.
Nele são descritos trabalhos, em minas, que, nessa época, já atingiam profundidades de centenas de metros, chegando, num caso, aos 400 m.
São referidas, de Norte para Sul, as minas de Palhal, Telhadela, Braçal, Malhada, Coval da Mó e Barbadalhos, nas quais se exploravam minérios de cobre, chumbo, zinco, e secundariamente, prata, níquel e cobalto.
Já anteriormente, Carlos Ribeiro, na sua “Memória sobre o grande filão metalífero que passa a Nascente de Albergaria-a-Velha e Oliveira de Azeméis”, publicada em 1861, fizera pormenorizada descrição dessas e de outras minas, que considerava relacionadas com o acidente tectónico, onde se instalou aquele filão metalífero.
José Goinhas, apesar de considerar “de grande interesse prospectivo” esta banda blasto-milonítica, com zona de cisalhamento associada, onde ocorrem. mineralizações ainda metalogeneticamente pouco conhecidas”, de chumbo, cobre e antimónio, em particular na zona de Coimbra e na região entre Águeda e Oliveira de Azeméis, Braçal – Talhadas, Caima, etc...”, apenas lhe dedica meia dúzia de linhas, no seu extenso documento.
A tão “erudito” arrazoado, só faltou referir as “rochas flebociménicas", inspirando-se em nomenclatura usada por Vitorino Correia.
O leitor não se preocupe, pois ainda não encontrei Geólogo que conhecesse tal modo de designar filões.
Talvez venha a fazer post sobre esta manifestação de sabedoria, que não foi exclusiva de Vitorino.
É surpreendente a afirmação de se tratar de mineralizações metalogeneticamente pouco conhecidas, sabendo-se quão intensamente foram exploradas, desde o tempo dos romanos.
As mineralizações são, de facto, bem conhecidas, mas não tenho notícia da ocorrência de antimónio, que é citada por Goinhas.
Admito que Goinhas quisesse acentuar a insuficiente conhecimento geológico da zona, pois essa era uma notória realidade, mas longe de ser exclusiva da Faixa Metalífera.
Embora no período a que se reporta Goinhas, numerosos Geólogos tivessem ingressado no SFM, os minuciosos estudos de natureza estrutural, que se impunham, não eram realizados.
Inexperientes, na sua generalidade, esses Geólogos demonstravam pouca apetência para trabalhar no campo e, muito menos, no interior de minas.
Era mais fácil usurpar trabalho de outros, apresentando-se como seus autores.
O Geólogo Vítor Correia Pereira, chegou ao cúmulo de incluir, em currículo publicado em Diário da República, a autoria de levantamento geológico realizado pelos Geólogos checos Yanecka e Strnad, na região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima.
Os mapas contendo este levantamento geológico, que me foram oferecidos pelos seus autores, como retribuição pelos mapas magnéticos que eu lhes fornecera, foram por mim cedidos a Vítor Pereira, a seu pedido, com vista à inserção no Livro Guia de Excursão incluída no programa do CHILAGE, que teve lugar em 1970-71.
Os autores deste levantamento não são citados na bibliografia!
Contrastando com esta atitude, em comunicação que apresentei ao CHILAGE sobre os trabalhos de prospecção que dirigia na mesma Região, também incluí esse levantamento, mas tive o cuidado de mencionar os verdadeiros autores.
Delfim de Carvalho, Vítor Oliveira, Santos Oliveira e também José Goinhas tiveram procedimentos semelhantes.
Já tive oportunidade de referir alguns, deles.
Dentre todos, os mais escandalosos foram, sem dúvida, os artigos sobre a descoberta do jazigo de Neves - Corvo, da autoria de Delfim de Carvalho, publicados, no Boletim de Minas e na “Economic Geology”, sendo certo que Delfim de Carvalho, não tendo tido a mínima intervenção em tão extraordinário sucesso, até incorre em grosseiros erros. (Ver posts N.ºs 38 e 41 a 43)
Estes Geólogos foram, além disso, alguns dos principais responsáveis pela progressiva degradação do SFM, que haveria de conduzir à extinção deste Organismo.
Goinhas demonstrou não ter lido as desenvolvidas descrições dos jazigos minerais da Faixa Metalífera, constantes quer de documentos publicados, quer de numerosos “relatórios internos”, sendo deveras estranho que nem os cite, na sua extensa bibliografia.
Além das publicações já mencionadas, seriam de consulta obrigatória.
a) Relatório acerca das Minas do Braçal, Palhal, Carvalhal e Pena, do distrito Administrativo de Aveiro, elaborado por José Augusto César das Neves Cabral, publicado pela Imprensa Nacional, em 1859 (87 páginas e 12 peças desenhadas).
b) Relatório de minha autoria, apresentado em 31 de Dezembro de 1972, com o título “Região de Braçal - Talhadas. Sua potencialidade Mineira”. Volumes I e II (Texto dactilografado com 22 páginas e um Apêndice) e 23 peças desenhadas).
Declarando mal conhecidas as mineralizações desta Faixa, Goinhas não explica porque lhes atribui grande interesse prospectivo.
Deduz-se que incluiria a Faixa Metalífera da Beira Litoral nas “Áreas potenciais para aplicação de projectos”.
Tal atitude, discordante da assumida pelos Directores-Gerais que sucederam a Luís de Castro e Solla e pelos Directores do SFM que sucederam a Guimarães dos Santos, deixou-me surpreendido, sabendo da sua cumplicidade com estes dirigentes, gerada após os procedimentos irregulares, por eles aconselhados ou consentidos, com a minha veemente repulsa, que tinham originado o meu compulsivo afastamento da chefia da 1.ª Brigada de Prospecção (Ver posts N.ºs 77 e 81 a 91).
Esses dirigentes sempre exprimiram abertamente o seu desacordo pelo estudo desta Faixa, assim justificando os obstáculos que deliberadamente foram criando, os quais culminaram com a suspensão, em 1980, de todos os trabalhos que nela decorriam, com notável sucesso, desde 1968. (Ver post N.º 138).
A realidade é que Goinhas, embora, no seu documento atribua grande interesse prospectivo a esta Faixa, nenhumas diligências fez para que o seu estudo fosse facilitado, não obstante até lhe ter sido “clandestinamente” atribuída a Prospecção Mineira, quando conseguiu a categoria de Director de Serviço, na onda de assaltos aos cargos directivos. (Ver post Nº 187)
Vários factos evidenciaram, mais uma vez, as incoerências de Goinhas, tornando indesculpável o seu real “desinteresse” por uma Faixa que classifica de grande “interesse” prospectivo.
Vou citar alguns desses factos.
a) Goinhas, que até tinha elaborado um relatório sobre a Mina do Braçal, com data de 1-9-64, num período em que, por minha intervenção, esteve prestando serviço na Compagnie Royale Asturienne des Mines, sabia que a Mina tinha cessado a laboração, em 1959, não por carência de matéria-prima, mas apenas por conjuntural baixa de cotação do chumbo.
Sabia também, que, sem justificação alguma, tinha sido revogada a respectiva concessão, porquanto não era normal isto acontecer!
Em casos como este, em que o concessionário abdicava dos seus direitos de exploração, a concessão passava à situação de abandonada, podendo ser novamente adjudicada, se não estivesse incluída em área cativa para o Estado.
O conhecimento da Legislação Mineira do País é um óbvio dever dos funcionários da DGGM, sobretudo dos que ocupam os escalões hierárquicos mais elevados.
Mas, nesta matéria, Goinhas tem maiores responsabilidades, não só pela categoria de Director de Serviço que conseguiu conquistar, mas porque, quando, em 1971-72, à custa do erário público, frequentou Curso de Economia Mineira, em Universidade de Arizona, teve o meu permanente apoio, através de correspondência assídua, que com ele mantive, constando dessa correspondência, a seu pedido, dados circunstanciados, acerca da legislação mineira de Portugal, para inserir nos trabalhos do Curso. (Ver post N.º 88)
O facto de se ter revogado esta concessão, que era a mais antiga do País, impedindo que fosse novamente adjudicada, não podia deixar de ser referido numa história da prospecção mineira em Portugal, à qual se pretendia atribuir um efeito pedagógico.
Mas a referência não deveria aí confinar-se, porquanto, erro muito mais grave foi o facto de o Serviço de Fomento Mineiro não ter usado as disposições do Decreto-lei N.º 29 725, para se substituir ao concessionário.
Era do mais elementar bom senso evitar a perda da valiosíssimo capital humano, experiente nas variadas profissões que se tinham desenvolvido, para manter, não apenas a Mina em laboração, mas também o estabelecimento metalúrgico localmente instalado, no qual se produzia chumbo metálico e seus derivados, para consumo no mercado nacional.
Teria sido muito mais útil ao País dar continuidade ao estudo desta Mina, do que iniciar estudos nas Minas de Talhadas, que, há longos anos, se encontravam inactivas.
A Mina do Braçal, apesar de, nos tempos recentes, se manter em exploração, durante mais de uma década, sendo até a mais importante produtora de minério de chumbo e seus derivados, estava longe de poder considerar-se reconhecida, de modo a ficarem definidas as suas reais reservas.
Impunham-se estudos idênticos aos que estavam, então, em curso na Mina de cobre de Aparis, em Barrancos, para que a exploração pudesse realizar-se segundo as boas regras da “arte de minas” e não de modo artesanal, como era vulgar acontecer, comprometendo o bom aproveitamento dos jazigos.
A Mina do Braçal reunia até condições excepcionais para ser utilizada como Mina-Escola, à semelhança do que eu tinha advogado para a Mina de Aparis, quando esta se encontrava ainda em estudo pelo SFM (Ver post N.º 21).
Na Mina do Braçal, nem sequer faltavam instalações para alojamento dos estagiários, que ali fossem completar a sua formação.
´´
Mas os dirigentes, nessa época, optaram, irresponsavelmente, pelo estudo das Minas de Talhadas, para manter activo o sector de Trabalhos Mineiros do Norte, até se esquecendo da fobia do Director-Geral de Minas pelos filões.
É certo que também se tinham esquecido desta fobia, quando consentiram que o 2.º Serviço continuasse a reconhecer um pequeno filão cuprífero, na Mina do Barrigão, localizada no Sul do País, no concelho de Almodôvar, apesar de se situar no interior de área que tinha sido adjudicada a Companhia canadiana para prospecção mineira!!!
Para esta decisão, pode ter contribuído uma real dependência técnica, que Engenheiros classificáveis como “de papel selado”, arvorados em dirigentes, que se refugiavam no conforto do9s seus gabinetes, manifestavam relativamente a um Agente Técnico de Engenharia, que se insinuara junto deles, por aliar a alguma experiência mineira, muito servilismo.
Este Agente Técnico de Engenharia tinha, aliás, adquirido a sua experiência, na Brigada do Sul, mas estava longe da capacidade desenvolvida pelos seus colegas que permaneceram no Sul.
Aconteceu até que os estudos a seu cargo, que incidiram na Mina do Cabeço de Macieira, enfermando de deficiente apoio geológico, tiveram que ser dados por concluídos, sem terem conseguido resultados com interesse económico.
Estando em reconhecimento um filão, em piso iniciado pelos anteriores exploradores, deparou-se com uma falha, não se tendo conseguido localizar a parte rejeitada.
Galerias abertas, em várias direcções, revelaram bem a desorientação do responsável pelos estudos.
É ainda digno de registo que os mesmos dirigentes que não aprovaram a investigação por sondagens, das espectaculares anomalias geoquímicas do Cabeço do Telégrafo, autorizaram a realização de várias sondagens, na Mina do Cabeço de Macieira, a partir de uma galeria, para reconhecer, a maior profundidade, um filão que não revelara características especialmente animadoras, em pisos superiores!
Eu que, nessa época, dirigia trabalhos na Mina de Aparis, em Barrancos, cuja importância não era inferior aos que decorreram na Mina do Braçal, poderia facilmente encarregar-me de dirigir também os trabalhos nesta Mina, orientando devidamente a actividade do Agente Técnico de Engenharia João de Oliveira Vidal, que lá residia, e tinha demonstrado grande motivação, que supria insuficiente preparação técnica, tal como eu tinha procedido com os Agentes Técnicos de Engenharia Oliveira Barros e Carlos de Araújo, no caso da Mina de Aparis.
b) Goinhas participara, em representação da 1.ª Brigada de Prospecção, no “Seminário em Geoquímica da Universidade de Aveiro”, realizado em 23 e 24 de Janeiro de 1976, por iniciativa dos docentes Britaldo Rodrigues e Edmundo Fonseca. (Ver post N.º88)
Tomara, então, conhecimento da minha comunicação, na qual informava terem sido colhidas, até àquela data, cerca de 130 000 amostras de sedimentos de linhas de água, cobrindo uma superfície aproximada de 1 800 km2.
Sabia, também, até porque se considerara apto a representar a 1.ª Brigada de Prospecção, no âmbito da Geoquímica, que, a maior parte das amostras, tinha sido analisada, no Laboratório daquela Brigada, em Beja, pelo método da ditizona, para determinação dos metais pesados solúveis, a frio, no citrato de amónio (MPef).
Obteve, então, a informação de que, se tinha definido, no Cabeço do Telégrafo, próximo da antiga Mina do Braçal, em resultado de análises efectuadas, por espectrofotometria de absorção atómica, no Laboratório de S. Mamede de Infesta, sobre amostras colhidas em perfis piquetados em áreas de fortes anomalias de MPef, um alinhamento de anomalias de Cu, Pb e Zn, que justificava a imediata execução de sondagens, tendo sido apresentado em 17-10-1974, o projecto da sondagem n.º 1.
Sabia, obviamente, que, à data do seu documento, a este projecto ainda não tinha sido dado cumprimento, pela Brigada de Sondagens.
Estava também consciente da descarada mentira do Director-Geral, quando mandou retirar a sonda da Região de Caminha, com o pretexto de não haver sondas disponíveis para todos os projectos, havendo, por isso, que estabelecer prioridades, porque estivera presente, em reunião em Lisboa, em 18-4-1975, acerca da distribuição das sondas do SFM (Ver post N.º 90).
Nessa reunião, o Eng.º Fernando Silva, na sua qualidade de Chefe da Brigada de Sondagens, desmentiu o Director-Geral, afirmando ter sondas paradas por falta de projectos, sendo certo que o projecto do Cabeço do Telégrafo, estava, há mais de um ano, por cumprir!!!!
Seria pedagógico que Goinhas explicasse, na sua história da “Prospecção Mineira em Portugal”, porque factos destes aconteciam!!!
c) Goinhas tivera conhecimento de que a Universidade de Aveiro iria realizar de 28 a 30 de Junho de 1978, um Seminário Internacional de Geoquímica, porque aquela Universidade enviara circular informativa. a todas as entidades públicas ou privadas do País, às quais o tema pudesse interessar.
Pelo teor da circular, ficara a saber que eu iria apresentar comunicação sobre “Casos concretos de prospecção integrada em Portugal”.
De facto, eu tinha sido, de modo amigável, praticamente “intimado”, pelo Dr. Edmundo Fonseca, organizador do Seminário, a colaborar, com comunicação, a que ele próprio se encarregou de dar título, sabendo das minhas actividades de prospecção, em diversas zonas do País.
Conforme me declarou, contava com ela, como “pão para a boca”.
Na comunicação que apresentei, descrevi os principais resultados da campanha de prospecção, por variados métodos (geoquímico com análises de MPef, Cu, Pb, Zn; magnético; resistividade eléctrica e electromagnético), que, então, se encontrava em curso, na Faixa Metalífera da Beira Litoral, apoiando-me nos mapas de anomalias.
Numerosas eram os casos, onde já se justificava a passagem à fase de sondagens. Dentre elas, salientei as seguintes:
Cabeço do Telégrafo
Alto da Serra (antiga mina de Vale do Vau),
Bertufo,
Boa Aldeia,
Cabeço Santo,
Sanguinheiro,
Bostelim,
Agrelo,
Boi
Um dos casos que mais interesse suscitou foi o do Cabeço do Telégrafo.
Os conferentes estrangeiros, que Edmundo Fonseca tinha convidado (Barbier do BRGM francês, B. Bolviken de Universidade norueguesa, Clifford James e H. Roesler de outras Universidades), interpelaram-me sobre os resultados de sondagens que acreditavam ter sido executadas para investigar tão espectacular alinhamento de anomalias geoquímicas, sobretudo de Pb.
Tive dificuldade em explicar porque tais anomalias se mantinham por investigar.
De facto, não era compreensível mais uma atitude negativista e prepotente do Director-Geral de Minas, não aprovando a sondagem do Cabeço do Telégrafo, apenas com o argumento esfarrapado de não gostar de filões!
Escusado será dizer que o Dirtector do SFM e a quase totalidade dos 22 (!!) novos Chefes primaram pela ausência neste Seminário.
Não lhes interessava saber o que realmente se passava nos poucos núcleos do SFM, onde havia actividade útil e disciplinada e os ensinamentos que os professores estrangeiros poderiam trazer
Só me lembro de ter visto o Chefe de Divisão Viegas, que chegou atrasado e o Director de Serviço, Santos Oliveira, que apresentou fraca comunicação sobre prospecção de scheelites.
Curiosa foi a intervenção do Geólogo Luís Gaspar, que tendo ingressado nos Serviços Geológicos, em data recente, ainda não tinha sido contaminado pelo mau ambiente que estava a dominar a DGGM, com os interesses de algumas pessoas a sobreporem-se aos interesses do País.
Manifestou estranheza com a fase incipiente de trabalhos, ainda em curso, apesar de a campanha ter sido iniciada há 10 anos e com o facto de se não ter decidido estudar a Mina do Braçal, após o seu abandono pela Empresa que detivera a concessão.
Concordei com as suas objecções, repetindo a minha explicação inicial sobre a falta de apoio, a nível superior, porque o Director-Geral entendia que filões não têm interesse e que todo o Pb e Zn de que o País precisa se contem nas pirites do Alentejo.
Salientei, no entanto, as contradições desse dirigente, a tal respeito, em publicações de sua autoria.
Quanto à retoma da actividade na Mina do Braçal, exprimi o parecer de que, para o actual SFM, tal retoma seria muito difícil, senão impossível, uma vez que já tinha sido extinto o sector de Trabalhos Mineiros.
d) Era, também, do conhecimento de Goinhas um acontecimento revelador, não só da correcta metodologia que estava a ser adoptada na investigação da Faixa Metalífera da Beira Litoral, mas também de muito significativas consequências dos resultados que estavam a ser obtidos.
De facto, após a comunicação referida na alínea anterior, o Geólogo Edmundo Fonseca da Universidade de Aveiro, solicitou-me autorização para utilizar o sucesso da prospecção geoquímica na redescoberta do jazigo de chumbo do Sanguinheiro, como tema principal da sua tese de doutoramento. (Ver post N.º 138)
Tendo obtido a minha concordância, Edmundo Fonseca fez deslocar, à área desta Mina, o orientador da sua tese, Professor H. Martin, de Universidade belga, e o Professor da Universidade de Aveiro, Renato Araújo.
Passou, depois a prestar colaboração, nos trabalhos que ali decorriam.
Uma sonda da Universidade e pessoal que tinha adestrado foram utilizados para colheita de dados sobre a formação mineralizada.
A Edmundo Fonseca, facultei também, acesso aos dados de estudos que eu tinha dirigido no Sul do País, na área de Algares de Portel, a fim de ele poder estabelecer o confronto de mineralizações de chumbo e zinco, em diferentes ambientes litológicos.
Foi Goinhas que, ainda na minha qualidade de Chefe da 1.ª Brigada de Prospecção, eu introduzira no estudo da área de Algares de Portel, quando esta já se encontrava em fase muito avançada, quem prestou a colaboração nesta matéria, a Edmundo Fonseca.
e) A suspensão dos trabalhos na Faixa Metalífera da Beira Litoral.
Quando deteve o cargo de Director-Geral de Minas, Soares Carneiro insistia em declarar, em reuniões da chamada Comissão de Fomento, não ter entusiasmo pela vasta área que eu denominara Faixa Metalífera da Beira Litoral.
Jorge Gouveia, quando lhe foi atribuído o encargo de dirigir o SFM, não teve o elementar cuidado de se informar sobre o real mérito desta Faixa.
Com total desprezo pelo longo passado do SFM, na Faixa e sem consideração pelo prejuízo que iria ocasionar à Universidade de Aveiro, na formação dos seus alunos e professores, passou a tomar decisões com vista a extinguir a Secção de Talhadas.
Começou por emitir ordens directas à Secção de Talhadas, para que cerca de 50% do seu pessoal fosse prestar serviço na Secção de Coimbra dirigida pelo Geólogo Viegas.
Esta deslocação de pessoal, apresentada com carácter temporário, foi-me, depois justificada, porque “o sector de Coimbra não tem estruturas à altura dos projectos que lhe estão cometidos, nem é oportuno desenvolvê-las, no momento presente" (!!!!!).
Nesta sua decisão, até teve o apoio de José Goinhas,” na fase em que “clandestinamente” esteve designado para dirigir a Prospecção!! apesar de considerar a Faixa “com grande interesse prospectivo”!!!
Pelo Colector Silvestre Vilar fui informado de que Viegas, dispondo de uma aparelhagem de resistividade eléctrica Askania, de elevada qualidade, herdada dos extintos Serviços de Prospecção de Junta de Energia Nuclear, pretendia efectuar 49 sondagens eléctricas, para investigação de ocorrências de argila.
Soube que tais sondagens não chegaram a ser efectuadas, por terem avariado a aparelhagem, visto ninguém se ter preparado, para seu uso e muito menos para a interpretação dos resultados que viessem a obter.
Apesar deste revés, Jorge Gouveia acabou por dar cumprimento ao seu propósito inicial.
Deu ordem para suspender a actividade na Faixa Metalífera da Beira Litoral, passando a utilizar todo o seu pessoal, em trabalhos de duvidosa qualidade e utilidade.
Foi do seguinte teor o ofício que me dirigiu em14-1-1980:
“Não tendo sido incluído no Programa Min - de Inventário e Valorização dos Recursos Minerais de País” do PIDDAC para 1980, o sub-projecto, relativo à área de Talhadas deverão os respectivos trabalhos ser suspensos”.
Continuando a usar os escassos recursos de que dispunha, registei, em relatórios, as arbitrariedades dos dirigentes, que estavam a reduzir a eficácia do SFM, conduzindo à sua previsível extinção. (Ver post N.º 136)
Não resisto a transcrever, de novo, o que deixei registado em “relatório interno”, que Goinhas tinha obrigação de ter consultado, na sua pesquisa para contribuir pedagogicamente para um novo Plano Mineiro Nacional.
“Não fora a falta de tempo e o desejo de não alongar demasiado este documento, gostaríamos de fazer mais profunda incursão no Programa para 1980.
Trata-se, de facto, de um documento exótico, que quase nos provocaria hilaridade, não fora o que de trágico está nele subjacente.
Na verdade, justificar o atraso ou não cumprimento de programas com argumentos tais como:
“Uma parte do corpo de técnicos licenciados do SFM do SFM foi chamada, no âmbito da reestruturação da DGGM, a desempenhar funções no quadro dirigente. Este facto veio agravar, ainda mais a situação, que já era carente nesses técnicos. Assim só o recrutamento de pessoal, de acordo com o novo quadro orgânico, poderá repor a capacidade de resposta do sector Norte, para levar a cabo as tarefas aqui programadas”é, pelo menos, um ultraje à inteligência de quem tiver que apreciar o aludido programa.
A nós, não restavam quaisquer dúvidas de que a reestruturação que paulatinamente se tem vindo a processar na Direcção-Geral de Minas só tem tido efeitos nefastos para o País.
Os interesses de alguns oportunistas têm sido satisfeitos, mas os Serviços têm-se degradado, como repetidamente temos denunciado.
No entanto, poderíamos esperar tudo, menos que os responsáveis por esta degradação viessem declará-lo, em documento de tamanha importância.
E não podemos deixar de manifestar a nossa surpresa por não termos notado reacções superiores a tão surpreendentes afirmações.
Pelo que nos diz respeito, queremos deixar aqui registado que, desde 1944, sempre temos exercido, efectivamente, dentro do Serviço de Fomento Mineiro, funções de chefia, sem que, por tal facto, tivéssemos recebido qualquer remuneração adicional.
Nunca abdicamos, porém, das funções técnicas e, a atestá-lo, está a obra que podemos apresentar, de que não nos envergonhamos, da qual outros se têm aproveitado e continuam a aproveitar…
Não podemos, por isso, deixar sem reparo que os agora alcandorados a cargos de chefia, quase sempre sem base em competência profissional ou qualquer outra e, em muitos casos, sem efectivamente exercerem o cargo … argumentem agora que não trabalham, porque já são chefes e os chefes só mandam…
Consequentemente, a suspensão dos trabalhos nesta Faixa constitui grave erro, que consideramos intencional, apenas com o propósito de retirar ao signatário a possibilidade de concretizar os êxitos que, com persistente labor e entusiasmo, vai preparando.”
Continua…
É também vulgar serem algo secundarizados os reais objectivos das sondagens, ao descurar os procedimentos aconselháveis a uma boa recolha de testemunhos inteiros, de modo a obter a melhor representação possível das formações interceptadas.
É ainda corrente não se controlar, periodicamente, de modo eficaz, a trajectória dos furos, tanto em inclinação como em direcção, acontecendo ocorrerem enormes desvios dos alvos pretendidos, sobretudo em furos longos e (ou) com pequeno diâmetro inicial.
O uso de giroscópio torna-se essencial. O procedimento com bússola magnética não é rigoroso, porque as hastes ficam fortemente magnetizadas pelo atrito com as paredes dos furos e perturbam o campo magnético terrestre.
Também é frequente não se fazer a determinação sistemática das densidades e, em certos casos, a medição de susceptibilidades magnéticas dos testemunhos, análise geoquímica dos detritos, etc.
Seria de esperar recomendação de Goinhas no sentido de evitar a repetição de tais deficiências.
Todavia, tal não consta do documento intitulado "A Prospecção Mineira em Portugal. Áreas potenciais para implantação de projectos”, publicado no Boletim de Minas, que o autor classificou como pedagógica contribuição para o novo Plano Mineiro Nacional.
De facto, no parágrafo final desse documento, declara
“julgar ser a primeira vez que se aborda o problema das potencialidades dos recursos minerais do País, de forma integrada e sistematizada, que poderá conter, para além do simples interesse informativo, também um interesse pedagógico”.
A seguir, cito mais casos de actuação indisciplinada, relativamente à fase de sondagens.
11 –Na Faixa Metalífera da Beira Litoral.
A importância desta Faixa é bem evidenciada no “Catálogo Descritivo da Secção de Minas (Grupos I e II)" da Exposição Industrial das Indústrias Fabris, coordenada sob a direcção de José Augusto das Neves Cabral, por Severiano Monteiro e por João Augusto Barata, publicado pela Imprensa Nacional em 1889.
Nele são descritos trabalhos, em minas, que, nessa época, já atingiam profundidades de centenas de metros, chegando, num caso, aos 400 m.
São referidas, de Norte para Sul, as minas de Palhal, Telhadela, Braçal, Malhada, Coval da Mó e Barbadalhos, nas quais se exploravam minérios de cobre, chumbo, zinco, e secundariamente, prata, níquel e cobalto.
Já anteriormente, Carlos Ribeiro, na sua “Memória sobre o grande filão metalífero que passa a Nascente de Albergaria-a-Velha e Oliveira de Azeméis”, publicada em 1861, fizera pormenorizada descrição dessas e de outras minas, que considerava relacionadas com o acidente tectónico, onde se instalou aquele filão metalífero.
José Goinhas, apesar de considerar “de grande interesse prospectivo” esta banda blasto-milonítica, com zona de cisalhamento associada, onde ocorrem. mineralizações ainda metalogeneticamente pouco conhecidas”, de chumbo, cobre e antimónio, em particular na zona de Coimbra e na região entre Águeda e Oliveira de Azeméis, Braçal – Talhadas, Caima, etc...”, apenas lhe dedica meia dúzia de linhas, no seu extenso documento.
A tão “erudito” arrazoado, só faltou referir as “rochas flebociménicas", inspirando-se em nomenclatura usada por Vitorino Correia.
O leitor não se preocupe, pois ainda não encontrei Geólogo que conhecesse tal modo de designar filões.
Talvez venha a fazer post sobre esta manifestação de sabedoria, que não foi exclusiva de Vitorino.
É surpreendente a afirmação de se tratar de mineralizações metalogeneticamente pouco conhecidas, sabendo-se quão intensamente foram exploradas, desde o tempo dos romanos.
As mineralizações são, de facto, bem conhecidas, mas não tenho notícia da ocorrência de antimónio, que é citada por Goinhas.
Admito que Goinhas quisesse acentuar a insuficiente conhecimento geológico da zona, pois essa era uma notória realidade, mas longe de ser exclusiva da Faixa Metalífera.
Embora no período a que se reporta Goinhas, numerosos Geólogos tivessem ingressado no SFM, os minuciosos estudos de natureza estrutural, que se impunham, não eram realizados.
Inexperientes, na sua generalidade, esses Geólogos demonstravam pouca apetência para trabalhar no campo e, muito menos, no interior de minas.
Era mais fácil usurpar trabalho de outros, apresentando-se como seus autores.
O Geólogo Vítor Correia Pereira, chegou ao cúmulo de incluir, em currículo publicado em Diário da República, a autoria de levantamento geológico realizado pelos Geólogos checos Yanecka e Strnad, na região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima.
Os mapas contendo este levantamento geológico, que me foram oferecidos pelos seus autores, como retribuição pelos mapas magnéticos que eu lhes fornecera, foram por mim cedidos a Vítor Pereira, a seu pedido, com vista à inserção no Livro Guia de Excursão incluída no programa do CHILAGE, que teve lugar em 1970-71.
Os autores deste levantamento não são citados na bibliografia!
Contrastando com esta atitude, em comunicação que apresentei ao CHILAGE sobre os trabalhos de prospecção que dirigia na mesma Região, também incluí esse levantamento, mas tive o cuidado de mencionar os verdadeiros autores.
Delfim de Carvalho, Vítor Oliveira, Santos Oliveira e também José Goinhas tiveram procedimentos semelhantes.
Já tive oportunidade de referir alguns, deles.
Dentre todos, os mais escandalosos foram, sem dúvida, os artigos sobre a descoberta do jazigo de Neves - Corvo, da autoria de Delfim de Carvalho, publicados, no Boletim de Minas e na “Economic Geology”, sendo certo que Delfim de Carvalho, não tendo tido a mínima intervenção em tão extraordinário sucesso, até incorre em grosseiros erros. (Ver posts N.ºs 38 e 41 a 43)
Estes Geólogos foram, além disso, alguns dos principais responsáveis pela progressiva degradação do SFM, que haveria de conduzir à extinção deste Organismo.
Goinhas demonstrou não ter lido as desenvolvidas descrições dos jazigos minerais da Faixa Metalífera, constantes quer de documentos publicados, quer de numerosos “relatórios internos”, sendo deveras estranho que nem os cite, na sua extensa bibliografia.
Além das publicações já mencionadas, seriam de consulta obrigatória.
a) Relatório acerca das Minas do Braçal, Palhal, Carvalhal e Pena, do distrito Administrativo de Aveiro, elaborado por José Augusto César das Neves Cabral, publicado pela Imprensa Nacional, em 1859 (87 páginas e 12 peças desenhadas).
b) Relatório de minha autoria, apresentado em 31 de Dezembro de 1972, com o título “Região de Braçal - Talhadas. Sua potencialidade Mineira”. Volumes I e II (Texto dactilografado com 22 páginas e um Apêndice) e 23 peças desenhadas).
Declarando mal conhecidas as mineralizações desta Faixa, Goinhas não explica porque lhes atribui grande interesse prospectivo.
Deduz-se que incluiria a Faixa Metalífera da Beira Litoral nas “Áreas potenciais para aplicação de projectos”.
Tal atitude, discordante da assumida pelos Directores-Gerais que sucederam a Luís de Castro e Solla e pelos Directores do SFM que sucederam a Guimarães dos Santos, deixou-me surpreendido, sabendo da sua cumplicidade com estes dirigentes, gerada após os procedimentos irregulares, por eles aconselhados ou consentidos, com a minha veemente repulsa, que tinham originado o meu compulsivo afastamento da chefia da 1.ª Brigada de Prospecção (Ver posts N.ºs 77 e 81 a 91).
Esses dirigentes sempre exprimiram abertamente o seu desacordo pelo estudo desta Faixa, assim justificando os obstáculos que deliberadamente foram criando, os quais culminaram com a suspensão, em 1980, de todos os trabalhos que nela decorriam, com notável sucesso, desde 1968. (Ver post N.º 138).
A realidade é que Goinhas, embora, no seu documento atribua grande interesse prospectivo a esta Faixa, nenhumas diligências fez para que o seu estudo fosse facilitado, não obstante até lhe ter sido “clandestinamente” atribuída a Prospecção Mineira, quando conseguiu a categoria de Director de Serviço, na onda de assaltos aos cargos directivos. (Ver post Nº 187)
Vários factos evidenciaram, mais uma vez, as incoerências de Goinhas, tornando indesculpável o seu real “desinteresse” por uma Faixa que classifica de grande “interesse” prospectivo.
Vou citar alguns desses factos.
a) Goinhas, que até tinha elaborado um relatório sobre a Mina do Braçal, com data de 1-9-64, num período em que, por minha intervenção, esteve prestando serviço na Compagnie Royale Asturienne des Mines, sabia que a Mina tinha cessado a laboração, em 1959, não por carência de matéria-prima, mas apenas por conjuntural baixa de cotação do chumbo.
Sabia também, que, sem justificação alguma, tinha sido revogada a respectiva concessão, porquanto não era normal isto acontecer!
Em casos como este, em que o concessionário abdicava dos seus direitos de exploração, a concessão passava à situação de abandonada, podendo ser novamente adjudicada, se não estivesse incluída em área cativa para o Estado.
O conhecimento da Legislação Mineira do País é um óbvio dever dos funcionários da DGGM, sobretudo dos que ocupam os escalões hierárquicos mais elevados.
Mas, nesta matéria, Goinhas tem maiores responsabilidades, não só pela categoria de Director de Serviço que conseguiu conquistar, mas porque, quando, em 1971-72, à custa do erário público, frequentou Curso de Economia Mineira, em Universidade de Arizona, teve o meu permanente apoio, através de correspondência assídua, que com ele mantive, constando dessa correspondência, a seu pedido, dados circunstanciados, acerca da legislação mineira de Portugal, para inserir nos trabalhos do Curso. (Ver post N.º 88)
O facto de se ter revogado esta concessão, que era a mais antiga do País, impedindo que fosse novamente adjudicada, não podia deixar de ser referido numa história da prospecção mineira em Portugal, à qual se pretendia atribuir um efeito pedagógico.
Mas a referência não deveria aí confinar-se, porquanto, erro muito mais grave foi o facto de o Serviço de Fomento Mineiro não ter usado as disposições do Decreto-lei N.º 29 725, para se substituir ao concessionário.
Era do mais elementar bom senso evitar a perda da valiosíssimo capital humano, experiente nas variadas profissões que se tinham desenvolvido, para manter, não apenas a Mina em laboração, mas também o estabelecimento metalúrgico localmente instalado, no qual se produzia chumbo metálico e seus derivados, para consumo no mercado nacional.
Teria sido muito mais útil ao País dar continuidade ao estudo desta Mina, do que iniciar estudos nas Minas de Talhadas, que, há longos anos, se encontravam inactivas.
A Mina do Braçal, apesar de, nos tempos recentes, se manter em exploração, durante mais de uma década, sendo até a mais importante produtora de minério de chumbo e seus derivados, estava longe de poder considerar-se reconhecida, de modo a ficarem definidas as suas reais reservas.
Impunham-se estudos idênticos aos que estavam, então, em curso na Mina de cobre de Aparis, em Barrancos, para que a exploração pudesse realizar-se segundo as boas regras da “arte de minas” e não de modo artesanal, como era vulgar acontecer, comprometendo o bom aproveitamento dos jazigos.
A Mina do Braçal reunia até condições excepcionais para ser utilizada como Mina-Escola, à semelhança do que eu tinha advogado para a Mina de Aparis, quando esta se encontrava ainda em estudo pelo SFM (Ver post N.º 21).
Na Mina do Braçal, nem sequer faltavam instalações para alojamento dos estagiários, que ali fossem completar a sua formação.
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Mas os dirigentes, nessa época, optaram, irresponsavelmente, pelo estudo das Minas de Talhadas, para manter activo o sector de Trabalhos Mineiros do Norte, até se esquecendo da fobia do Director-Geral de Minas pelos filões.
É certo que também se tinham esquecido desta fobia, quando consentiram que o 2.º Serviço continuasse a reconhecer um pequeno filão cuprífero, na Mina do Barrigão, localizada no Sul do País, no concelho de Almodôvar, apesar de se situar no interior de área que tinha sido adjudicada a Companhia canadiana para prospecção mineira!!!
Para esta decisão, pode ter contribuído uma real dependência técnica, que Engenheiros classificáveis como “de papel selado”, arvorados em dirigentes, que se refugiavam no conforto do9s seus gabinetes, manifestavam relativamente a um Agente Técnico de Engenharia, que se insinuara junto deles, por aliar a alguma experiência mineira, muito servilismo.
Este Agente Técnico de Engenharia tinha, aliás, adquirido a sua experiência, na Brigada do Sul, mas estava longe da capacidade desenvolvida pelos seus colegas que permaneceram no Sul.
Aconteceu até que os estudos a seu cargo, que incidiram na Mina do Cabeço de Macieira, enfermando de deficiente apoio geológico, tiveram que ser dados por concluídos, sem terem conseguido resultados com interesse económico.
Estando em reconhecimento um filão, em piso iniciado pelos anteriores exploradores, deparou-se com uma falha, não se tendo conseguido localizar a parte rejeitada.
Galerias abertas, em várias direcções, revelaram bem a desorientação do responsável pelos estudos.
É ainda digno de registo que os mesmos dirigentes que não aprovaram a investigação por sondagens, das espectaculares anomalias geoquímicas do Cabeço do Telégrafo, autorizaram a realização de várias sondagens, na Mina do Cabeço de Macieira, a partir de uma galeria, para reconhecer, a maior profundidade, um filão que não revelara características especialmente animadoras, em pisos superiores!
Eu que, nessa época, dirigia trabalhos na Mina de Aparis, em Barrancos, cuja importância não era inferior aos que decorreram na Mina do Braçal, poderia facilmente encarregar-me de dirigir também os trabalhos nesta Mina, orientando devidamente a actividade do Agente Técnico de Engenharia João de Oliveira Vidal, que lá residia, e tinha demonstrado grande motivação, que supria insuficiente preparação técnica, tal como eu tinha procedido com os Agentes Técnicos de Engenharia Oliveira Barros e Carlos de Araújo, no caso da Mina de Aparis.
b) Goinhas participara, em representação da 1.ª Brigada de Prospecção, no “Seminário em Geoquímica da Universidade de Aveiro”, realizado em 23 e 24 de Janeiro de 1976, por iniciativa dos docentes Britaldo Rodrigues e Edmundo Fonseca. (Ver post N.º88)
Tomara, então, conhecimento da minha comunicação, na qual informava terem sido colhidas, até àquela data, cerca de 130 000 amostras de sedimentos de linhas de água, cobrindo uma superfície aproximada de 1 800 km2.
Sabia, também, até porque se considerara apto a representar a 1.ª Brigada de Prospecção, no âmbito da Geoquímica, que, a maior parte das amostras, tinha sido analisada, no Laboratório daquela Brigada, em Beja, pelo método da ditizona, para determinação dos metais pesados solúveis, a frio, no citrato de amónio (MPef).
Obteve, então, a informação de que, se tinha definido, no Cabeço do Telégrafo, próximo da antiga Mina do Braçal, em resultado de análises efectuadas, por espectrofotometria de absorção atómica, no Laboratório de S. Mamede de Infesta, sobre amostras colhidas em perfis piquetados em áreas de fortes anomalias de MPef, um alinhamento de anomalias de Cu, Pb e Zn, que justificava a imediata execução de sondagens, tendo sido apresentado em 17-10-1974, o projecto da sondagem n.º 1.
Sabia, obviamente, que, à data do seu documento, a este projecto ainda não tinha sido dado cumprimento, pela Brigada de Sondagens.
Estava também consciente da descarada mentira do Director-Geral, quando mandou retirar a sonda da Região de Caminha, com o pretexto de não haver sondas disponíveis para todos os projectos, havendo, por isso, que estabelecer prioridades, porque estivera presente, em reunião em Lisboa, em 18-4-1975, acerca da distribuição das sondas do SFM (Ver post N.º 90).
Nessa reunião, o Eng.º Fernando Silva, na sua qualidade de Chefe da Brigada de Sondagens, desmentiu o Director-Geral, afirmando ter sondas paradas por falta de projectos, sendo certo que o projecto do Cabeço do Telégrafo, estava, há mais de um ano, por cumprir!!!!
Seria pedagógico que Goinhas explicasse, na sua história da “Prospecção Mineira em Portugal”, porque factos destes aconteciam!!!
c) Goinhas tivera conhecimento de que a Universidade de Aveiro iria realizar de 28 a 30 de Junho de 1978, um Seminário Internacional de Geoquímica, porque aquela Universidade enviara circular informativa. a todas as entidades públicas ou privadas do País, às quais o tema pudesse interessar.
Pelo teor da circular, ficara a saber que eu iria apresentar comunicação sobre “Casos concretos de prospecção integrada em Portugal”.
De facto, eu tinha sido, de modo amigável, praticamente “intimado”, pelo Dr. Edmundo Fonseca, organizador do Seminário, a colaborar, com comunicação, a que ele próprio se encarregou de dar título, sabendo das minhas actividades de prospecção, em diversas zonas do País.
Conforme me declarou, contava com ela, como “pão para a boca”.
Na comunicação que apresentei, descrevi os principais resultados da campanha de prospecção, por variados métodos (geoquímico com análises de MPef, Cu, Pb, Zn; magnético; resistividade eléctrica e electromagnético), que, então, se encontrava em curso, na Faixa Metalífera da Beira Litoral, apoiando-me nos mapas de anomalias.
Numerosas eram os casos, onde já se justificava a passagem à fase de sondagens. Dentre elas, salientei as seguintes:
Cabeço do Telégrafo
Alto da Serra (antiga mina de Vale do Vau),
Bertufo,
Boa Aldeia,
Cabeço Santo,
Sanguinheiro,
Bostelim,
Agrelo,
Boi
Um dos casos que mais interesse suscitou foi o do Cabeço do Telégrafo.
Os conferentes estrangeiros, que Edmundo Fonseca tinha convidado (Barbier do BRGM francês, B. Bolviken de Universidade norueguesa, Clifford James e H. Roesler de outras Universidades), interpelaram-me sobre os resultados de sondagens que acreditavam ter sido executadas para investigar tão espectacular alinhamento de anomalias geoquímicas, sobretudo de Pb.
Tive dificuldade em explicar porque tais anomalias se mantinham por investigar.
De facto, não era compreensível mais uma atitude negativista e prepotente do Director-Geral de Minas, não aprovando a sondagem do Cabeço do Telégrafo, apenas com o argumento esfarrapado de não gostar de filões!
Escusado será dizer que o Dirtector do SFM e a quase totalidade dos 22 (!!) novos Chefes primaram pela ausência neste Seminário.
Não lhes interessava saber o que realmente se passava nos poucos núcleos do SFM, onde havia actividade útil e disciplinada e os ensinamentos que os professores estrangeiros poderiam trazer
Só me lembro de ter visto o Chefe de Divisão Viegas, que chegou atrasado e o Director de Serviço, Santos Oliveira, que apresentou fraca comunicação sobre prospecção de scheelites.
Curiosa foi a intervenção do Geólogo Luís Gaspar, que tendo ingressado nos Serviços Geológicos, em data recente, ainda não tinha sido contaminado pelo mau ambiente que estava a dominar a DGGM, com os interesses de algumas pessoas a sobreporem-se aos interesses do País.
Manifestou estranheza com a fase incipiente de trabalhos, ainda em curso, apesar de a campanha ter sido iniciada há 10 anos e com o facto de se não ter decidido estudar a Mina do Braçal, após o seu abandono pela Empresa que detivera a concessão.
Concordei com as suas objecções, repetindo a minha explicação inicial sobre a falta de apoio, a nível superior, porque o Director-Geral entendia que filões não têm interesse e que todo o Pb e Zn de que o País precisa se contem nas pirites do Alentejo.
Salientei, no entanto, as contradições desse dirigente, a tal respeito, em publicações de sua autoria.
Quanto à retoma da actividade na Mina do Braçal, exprimi o parecer de que, para o actual SFM, tal retoma seria muito difícil, senão impossível, uma vez que já tinha sido extinto o sector de Trabalhos Mineiros.
d) Era, também, do conhecimento de Goinhas um acontecimento revelador, não só da correcta metodologia que estava a ser adoptada na investigação da Faixa Metalífera da Beira Litoral, mas também de muito significativas consequências dos resultados que estavam a ser obtidos.
De facto, após a comunicação referida na alínea anterior, o Geólogo Edmundo Fonseca da Universidade de Aveiro, solicitou-me autorização para utilizar o sucesso da prospecção geoquímica na redescoberta do jazigo de chumbo do Sanguinheiro, como tema principal da sua tese de doutoramento. (Ver post N.º 138)
Tendo obtido a minha concordância, Edmundo Fonseca fez deslocar, à área desta Mina, o orientador da sua tese, Professor H. Martin, de Universidade belga, e o Professor da Universidade de Aveiro, Renato Araújo.
Passou, depois a prestar colaboração, nos trabalhos que ali decorriam.
Uma sonda da Universidade e pessoal que tinha adestrado foram utilizados para colheita de dados sobre a formação mineralizada.
A Edmundo Fonseca, facultei também, acesso aos dados de estudos que eu tinha dirigido no Sul do País, na área de Algares de Portel, a fim de ele poder estabelecer o confronto de mineralizações de chumbo e zinco, em diferentes ambientes litológicos.
Foi Goinhas que, ainda na minha qualidade de Chefe da 1.ª Brigada de Prospecção, eu introduzira no estudo da área de Algares de Portel, quando esta já se encontrava em fase muito avançada, quem prestou a colaboração nesta matéria, a Edmundo Fonseca.
e) A suspensão dos trabalhos na Faixa Metalífera da Beira Litoral.
Quando deteve o cargo de Director-Geral de Minas, Soares Carneiro insistia em declarar, em reuniões da chamada Comissão de Fomento, não ter entusiasmo pela vasta área que eu denominara Faixa Metalífera da Beira Litoral.
Jorge Gouveia, quando lhe foi atribuído o encargo de dirigir o SFM, não teve o elementar cuidado de se informar sobre o real mérito desta Faixa.
Com total desprezo pelo longo passado do SFM, na Faixa e sem consideração pelo prejuízo que iria ocasionar à Universidade de Aveiro, na formação dos seus alunos e professores, passou a tomar decisões com vista a extinguir a Secção de Talhadas.
Começou por emitir ordens directas à Secção de Talhadas, para que cerca de 50% do seu pessoal fosse prestar serviço na Secção de Coimbra dirigida pelo Geólogo Viegas.
Esta deslocação de pessoal, apresentada com carácter temporário, foi-me, depois justificada, porque “o sector de Coimbra não tem estruturas à altura dos projectos que lhe estão cometidos, nem é oportuno desenvolvê-las, no momento presente" (!!!!!).
Nesta sua decisão, até teve o apoio de José Goinhas,” na fase em que “clandestinamente” esteve designado para dirigir a Prospecção!! apesar de considerar a Faixa “com grande interesse prospectivo”!!!
Pelo Colector Silvestre Vilar fui informado de que Viegas, dispondo de uma aparelhagem de resistividade eléctrica Askania, de elevada qualidade, herdada dos extintos Serviços de Prospecção de Junta de Energia Nuclear, pretendia efectuar 49 sondagens eléctricas, para investigação de ocorrências de argila.
Soube que tais sondagens não chegaram a ser efectuadas, por terem avariado a aparelhagem, visto ninguém se ter preparado, para seu uso e muito menos para a interpretação dos resultados que viessem a obter.
Apesar deste revés, Jorge Gouveia acabou por dar cumprimento ao seu propósito inicial.
Deu ordem para suspender a actividade na Faixa Metalífera da Beira Litoral, passando a utilizar todo o seu pessoal, em trabalhos de duvidosa qualidade e utilidade.
Foi do seguinte teor o ofício que me dirigiu em14-1-1980:
“Não tendo sido incluído no Programa Min - de Inventário e Valorização dos Recursos Minerais de País” do PIDDAC para 1980, o sub-projecto, relativo à área de Talhadas deverão os respectivos trabalhos ser suspensos”.
Continuando a usar os escassos recursos de que dispunha, registei, em relatórios, as arbitrariedades dos dirigentes, que estavam a reduzir a eficácia do SFM, conduzindo à sua previsível extinção. (Ver post N.º 136)
Não resisto a transcrever, de novo, o que deixei registado em “relatório interno”, que Goinhas tinha obrigação de ter consultado, na sua pesquisa para contribuir pedagogicamente para um novo Plano Mineiro Nacional.
“Não fora a falta de tempo e o desejo de não alongar demasiado este documento, gostaríamos de fazer mais profunda incursão no Programa para 1980.
Trata-se, de facto, de um documento exótico, que quase nos provocaria hilaridade, não fora o que de trágico está nele subjacente.
Na verdade, justificar o atraso ou não cumprimento de programas com argumentos tais como:
“Uma parte do corpo de técnicos licenciados do SFM do SFM foi chamada, no âmbito da reestruturação da DGGM, a desempenhar funções no quadro dirigente. Este facto veio agravar, ainda mais a situação, que já era carente nesses técnicos. Assim só o recrutamento de pessoal, de acordo com o novo quadro orgânico, poderá repor a capacidade de resposta do sector Norte, para levar a cabo as tarefas aqui programadas”é, pelo menos, um ultraje à inteligência de quem tiver que apreciar o aludido programa.
A nós, não restavam quaisquer dúvidas de que a reestruturação que paulatinamente se tem vindo a processar na Direcção-Geral de Minas só tem tido efeitos nefastos para o País.
Os interesses de alguns oportunistas têm sido satisfeitos, mas os Serviços têm-se degradado, como repetidamente temos denunciado.
No entanto, poderíamos esperar tudo, menos que os responsáveis por esta degradação viessem declará-lo, em documento de tamanha importância.
E não podemos deixar de manifestar a nossa surpresa por não termos notado reacções superiores a tão surpreendentes afirmações.
Pelo que nos diz respeito, queremos deixar aqui registado que, desde 1944, sempre temos exercido, efectivamente, dentro do Serviço de Fomento Mineiro, funções de chefia, sem que, por tal facto, tivéssemos recebido qualquer remuneração adicional.
Nunca abdicamos, porém, das funções técnicas e, a atestá-lo, está a obra que podemos apresentar, de que não nos envergonhamos, da qual outros se têm aproveitado e continuam a aproveitar…
Não podemos, por isso, deixar sem reparo que os agora alcandorados a cargos de chefia, quase sempre sem base em competência profissional ou qualquer outra e, em muitos casos, sem efectivamente exercerem o cargo … argumentem agora que não trabalham, porque já são chefes e os chefes só mandam…
Consequentemente, a suspensão dos trabalhos nesta Faixa constitui grave erro, que consideramos intencional, apenas com o propósito de retirar ao signatário a possibilidade de concretizar os êxitos que, com persistente labor e entusiasmo, vai preparando.”
Continua…
sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
192 - Um novo Plano Mineiro Nacional. Continuação 16
Em 1984, o Conselho de Ministros mandou apresentar um novo Plano Mineiro Nacional, visando melhor aproveitamento dos nossos recursos minerais.
José Goinhas, pretendendo contribuir para a sua elaboração, assumiu o encargo de relatar a história da “Prospecção mineira em Portugal”.
Tenho vindo a analisar, desde o post N.º 178, o documento publicado no Boletim de Minas, da autoria daquele Geólogo.
Passei já em revista as fases, que deviam ter precedido e justificado a passagem à fase de sondagens.
Salientei não ter sido respeitada a regra elementar de utilizar criteriosamente as verbas disponíveis, mormente tratando-se de dinheiros públicos, obedecendo à velha recomendação:
“Always send the cheapest man first”
Revelei 8 casos, em que, relativamente a esta fase de sondagens, a contribuição de Goinhas foi francamente negativa.
Goinhas ou não consultou a abundante documentação disponível, principalmente nos designados “relatórios internos”, ou evitou denunciar os dirigentes dos denominados "serviços oficiais", que menosprezaram aquela norma elementar.
Vou continuar a citar casos de arbitrariedades e prepotências, com total impunidade dos responsáveis pelos prejuízos ocasionados à economia nacional.
9 - A retoma das sondagens na Região de Vila Nova de Cerveira –Caminha – Ponte de Lima
No N.º 2 do post N.º 190, revelei que o Director-Geral de Minas, Soares Carneiro, ordenou a suspensão da campanha de sondagens, na Região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima, quando estava projectado o furo N.º 69.
Dava-se, então, a feliz circunstância de este furo ser, dentre todos os projectados, na Região, talvez o que apresentava mais sólidos fundamentos (bom apoio geológico, geofísico e geoquímico).
Tais fundamentos vieram a ser plenamente confirmados por Union Carbide, quando esta Companhia americana, através de contrato que celebrou com o Estado, conseguiu estender a sua acção à área que abrangia o local seleccionado para a implantação desse furo.
Ficou amplamente demonstrada a despudorada falsidade dos argumentos que o Director-Geral apresentou, para justificar a sua arbitrária decisão.
O Engenheiro Soares Carneiro foi, entretanto, exonerado e substituído no cargo de Director-Geral, pelo Geólogo Alcides Pereira.
Já me referi a atitudes ainda mais prepotentes do novo Director-Geral, que o levaram à inacreditável ordem de proibição de eu realizar trabalho de campo!!!!
Uma vez mais se confirmava a famosa lei de Murphy!
Em relação com esta inconsciente ordem, foram, malevolamente, provocados incidentes, em consequência dos quais, o Geólogo Viegas teve finalmente o êxito que não conseguira, durante a permanência de Soares Carneiro e de Múrias de Queiroz, em cargos directivos.
Desta vez, o Geólogo Viegas, na qualidade de Chefe de Divisão, conquistada na vaga de assaltos a cargos de chefia a que me tenho referido, conseguiu, não só apropriar-se da Secção de Caminha, mas também aliciar o Engenheiro Laurentino Rodrigues, tornando-o cúmplice das suas disparatadas decisões.
Lembro a minha preocupação em preparar Laurentino para o exercício cabal da profissão, pensando que poderia substituir-me, quando me aposentasse (Ver posts N.ºs 116, 117, 143, 152, 155, 158, 188).
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Sou induzido a crer que o “relatório circunstanciado”, exigido por Alcides Pereira, para poder programar convenientemente as actividades da DGGM (sic) (Ver post N.º 156), tenha tido por objectivo facultar a Viegas, rápidos êxitos, que o creditassem como conceituado prospector.
Tal atitude, não seria, aliás, inédita. Os casos de Soares Carneiro e Delfim de Carvalho são disso bons exemplos. Também estes julgaram fácil obter sucessos, usurpando trabalhos que outros, metodicamente, vinham preparando.
Na posse do “relatório circunstanciado”, que fui compelido a entregar, com o texto ainda incompleto e só parcialmente dactilografado, Viegas logo se deslumbrou com as anomalias geofísicas e geoquímicas, representadas em muitas das 246 peças desenhadas.
Não tendo preparação nas técnicas aplicadas e sendo até muito inexperiente em matéria de Geologia, fez uma selecção errada das anomalias que deviam ser investigadas por sondagens.
Extasiou-se com anomalias magnéticas de grande intensidade, não percebendo que, dadas as suas características, facilmente seriam explicadas com simples sanjas.
Revelou, também, não saber distinguir estratificação de xistosidade e, por isso, acabou por mandar executar sondagem paralelamente à estrutura que pretendia investigar!!!!.
Foi Isto que constatei, em aula de campo aos meus alunos da Faculdade de Ciências do Porto, na qual tive a colaboração de alunos e professores da Universidade de Aveiro, que costumava convidar para estas aulas práticas.
Estando proibido de realizar trabalho de campo, usava, para poder dar aulas, autocarro contratado pela Faculdade de Ciências do Porto e equipamentos cedidos pela Faculdade de Engenharia do Porto e pelo Departamento de Geociências da Universidade de Aveiro!!!
Aproveito a oportunidade para revelar que nunca me foi possível dar aulas de campo de gravimetria, aos alunos das Universidades, por estes estabelecimentos de ensino superior não possuírem, então, gravímetros e por não me ter sido disponibilizado, embora por curtíssimo período, um dos dois aparelhos, que tinham sido adquiridos para o SFM, por minha exclusiva iniciativa, após árdua luta de mais de uma dezena de anos (Ver post N.º14)
Uma vez mais recordo a promessa pública de Alcides, despudoradamente desrespeitada, de prestar toda a colaboração às Universidades, para que estas produzissem bons técnicos (Ver post N.º 160)
Fiquei com curiosidade sobre se tinham sido feitas determinações de susceptibilidades magnéticas, nos testemunhos desta sondagem, para saber se a anomalia magnética foi explicada.
Laurentino tinha conhecimento de que era prática corrente no Serviço de Prospecção sob minha chefia, encontrar sempre explicação para as anomalias que se investigavam.
Tenho, porém, sérias dúvidas de que tais determinações tenham sido feitas.
A retoma da campanha, que tinha sido interrompida, quando estava projectado um dos mais prometedores furos, foi, pois, extremamente infeliz.
A sua primeira sondagem teve resultados nulos, como era fácil de prever, pois se apoiava em errada interpretação de anomalia magnética,
Deste novo fiasco de Viegas, a adicionar ao de Cravezes e a outros que se lhe seguiram, iria resultar a extinção da Secção de Caminha, sendo certo que muito ficou por investigar, dentro do programa que eu vinha dirigindo, com a participação de 4 a 5 funcionários, que haviam sido admitidos, nos locais de trabalho, apenas com a instrução primária!!”
Como comentários finais, ocorrem-me os seguintes:
a) É surpreendente que, ao aprovar a sondagem projectada por Viegas, tenha sido esquecida a urgente necessidade de programar convenientemente as actividades da DGGM.(Ver post N.º 156)
b) É também surpreendente que os estudos a que meticulosamente se dedicava Rui Reynaud sobre a documentação entregue por Union Carbide (Ver post N.º166), não tivessem sido aproveitados.
c) Mais surpreendente ainda, foi a imediata disponibilidade de uma sonda, que passou a verificar-se, quando me foi extorquida a Secção de Caminha, apenas para satisfazer ambição pessoal do perverso Viegas.
10- Sondagens na Mina de Fonte Santa (Lagoaça, Freixo de Espada à Cinta):
Embora não seja estudo em que me tenha envolvido, quero referir o meu conhecimento de terem sido efectuadas sondagens na Mina de Fonte Santa (Lagoaça), em cumprimento de projecto do prestigiado Geólogo António Ribeiro e sob a supervisão do Director-Geral.
A recuperação de testemunhos foi praticamente nula e o Geólogo optou por fazer avaliação das reservas globais da formação onde ocorria scheelite, partindo da hipótese de que este mineral se encontraria disperso, em grande espessura desta formação.
Chegou-se assim a um elevado valor global de reservas, com teor muito baixo, portanto, de exploração economicamente inviável.
Não tinha sido possível definir passagens economicamente exploráveis.
É um caso semelhante ao que acontecera com os carvões da Faixa Carbonífera do Douro, onde também se não obtivera suficiente recuperação de testemunhos.
Era esta lição que Goinhas deveria ter extraído.
Não se justificaria prosseguir campanha de sondagens, quando o seu objectivo, que era conhecer as formações em profundidade, não era cumprido.
A campanha da Fonte Santa deveria ter sido suspensa, logo que se verificou não produzir testemunhos e só deveria ser retomada quando este problema estivesse convenientemente resolvido.
Continua…
José Goinhas, pretendendo contribuir para a sua elaboração, assumiu o encargo de relatar a história da “Prospecção mineira em Portugal”.
Tenho vindo a analisar, desde o post N.º 178, o documento publicado no Boletim de Minas, da autoria daquele Geólogo.
Passei já em revista as fases, que deviam ter precedido e justificado a passagem à fase de sondagens.
Salientei não ter sido respeitada a regra elementar de utilizar criteriosamente as verbas disponíveis, mormente tratando-se de dinheiros públicos, obedecendo à velha recomendação:
“Always send the cheapest man first”
Revelei 8 casos, em que, relativamente a esta fase de sondagens, a contribuição de Goinhas foi francamente negativa.
Goinhas ou não consultou a abundante documentação disponível, principalmente nos designados “relatórios internos”, ou evitou denunciar os dirigentes dos denominados "serviços oficiais", que menosprezaram aquela norma elementar.
Vou continuar a citar casos de arbitrariedades e prepotências, com total impunidade dos responsáveis pelos prejuízos ocasionados à economia nacional.
9 - A retoma das sondagens na Região de Vila Nova de Cerveira –Caminha – Ponte de Lima
No N.º 2 do post N.º 190, revelei que o Director-Geral de Minas, Soares Carneiro, ordenou a suspensão da campanha de sondagens, na Região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima, quando estava projectado o furo N.º 69.
Dava-se, então, a feliz circunstância de este furo ser, dentre todos os projectados, na Região, talvez o que apresentava mais sólidos fundamentos (bom apoio geológico, geofísico e geoquímico).
Tais fundamentos vieram a ser plenamente confirmados por Union Carbide, quando esta Companhia americana, através de contrato que celebrou com o Estado, conseguiu estender a sua acção à área que abrangia o local seleccionado para a implantação desse furo.
Ficou amplamente demonstrada a despudorada falsidade dos argumentos que o Director-Geral apresentou, para justificar a sua arbitrária decisão.
O Engenheiro Soares Carneiro foi, entretanto, exonerado e substituído no cargo de Director-Geral, pelo Geólogo Alcides Pereira.
Já me referi a atitudes ainda mais prepotentes do novo Director-Geral, que o levaram à inacreditável ordem de proibição de eu realizar trabalho de campo!!!!
Uma vez mais se confirmava a famosa lei de Murphy!
Em relação com esta inconsciente ordem, foram, malevolamente, provocados incidentes, em consequência dos quais, o Geólogo Viegas teve finalmente o êxito que não conseguira, durante a permanência de Soares Carneiro e de Múrias de Queiroz, em cargos directivos.
Desta vez, o Geólogo Viegas, na qualidade de Chefe de Divisão, conquistada na vaga de assaltos a cargos de chefia a que me tenho referido, conseguiu, não só apropriar-se da Secção de Caminha, mas também aliciar o Engenheiro Laurentino Rodrigues, tornando-o cúmplice das suas disparatadas decisões.
Lembro a minha preocupação em preparar Laurentino para o exercício cabal da profissão, pensando que poderia substituir-me, quando me aposentasse (Ver posts N.ºs 116, 117, 143, 152, 155, 158, 188).
´
Sou induzido a crer que o “relatório circunstanciado”, exigido por Alcides Pereira, para poder programar convenientemente as actividades da DGGM (sic) (Ver post N.º 156), tenha tido por objectivo facultar a Viegas, rápidos êxitos, que o creditassem como conceituado prospector.
Tal atitude, não seria, aliás, inédita. Os casos de Soares Carneiro e Delfim de Carvalho são disso bons exemplos. Também estes julgaram fácil obter sucessos, usurpando trabalhos que outros, metodicamente, vinham preparando.
Na posse do “relatório circunstanciado”, que fui compelido a entregar, com o texto ainda incompleto e só parcialmente dactilografado, Viegas logo se deslumbrou com as anomalias geofísicas e geoquímicas, representadas em muitas das 246 peças desenhadas.
Não tendo preparação nas técnicas aplicadas e sendo até muito inexperiente em matéria de Geologia, fez uma selecção errada das anomalias que deviam ser investigadas por sondagens.
Extasiou-se com anomalias magnéticas de grande intensidade, não percebendo que, dadas as suas características, facilmente seriam explicadas com simples sanjas.
Revelou, também, não saber distinguir estratificação de xistosidade e, por isso, acabou por mandar executar sondagem paralelamente à estrutura que pretendia investigar!!!!.
Foi Isto que constatei, em aula de campo aos meus alunos da Faculdade de Ciências do Porto, na qual tive a colaboração de alunos e professores da Universidade de Aveiro, que costumava convidar para estas aulas práticas.
Estando proibido de realizar trabalho de campo, usava, para poder dar aulas, autocarro contratado pela Faculdade de Ciências do Porto e equipamentos cedidos pela Faculdade de Engenharia do Porto e pelo Departamento de Geociências da Universidade de Aveiro!!!
Aproveito a oportunidade para revelar que nunca me foi possível dar aulas de campo de gravimetria, aos alunos das Universidades, por estes estabelecimentos de ensino superior não possuírem, então, gravímetros e por não me ter sido disponibilizado, embora por curtíssimo período, um dos dois aparelhos, que tinham sido adquiridos para o SFM, por minha exclusiva iniciativa, após árdua luta de mais de uma dezena de anos (Ver post N.º14)
Uma vez mais recordo a promessa pública de Alcides, despudoradamente desrespeitada, de prestar toda a colaboração às Universidades, para que estas produzissem bons técnicos (Ver post N.º 160)
Fiquei com curiosidade sobre se tinham sido feitas determinações de susceptibilidades magnéticas, nos testemunhos desta sondagem, para saber se a anomalia magnética foi explicada.
Laurentino tinha conhecimento de que era prática corrente no Serviço de Prospecção sob minha chefia, encontrar sempre explicação para as anomalias que se investigavam.
Tenho, porém, sérias dúvidas de que tais determinações tenham sido feitas.
A retoma da campanha, que tinha sido interrompida, quando estava projectado um dos mais prometedores furos, foi, pois, extremamente infeliz.
A sua primeira sondagem teve resultados nulos, como era fácil de prever, pois se apoiava em errada interpretação de anomalia magnética,
Deste novo fiasco de Viegas, a adicionar ao de Cravezes e a outros que se lhe seguiram, iria resultar a extinção da Secção de Caminha, sendo certo que muito ficou por investigar, dentro do programa que eu vinha dirigindo, com a participação de 4 a 5 funcionários, que haviam sido admitidos, nos locais de trabalho, apenas com a instrução primária!!”
Como comentários finais, ocorrem-me os seguintes:
a) É surpreendente que, ao aprovar a sondagem projectada por Viegas, tenha sido esquecida a urgente necessidade de programar convenientemente as actividades da DGGM.(Ver post N.º 156)
b) É também surpreendente que os estudos a que meticulosamente se dedicava Rui Reynaud sobre a documentação entregue por Union Carbide (Ver post N.º166), não tivessem sido aproveitados.
c) Mais surpreendente ainda, foi a imediata disponibilidade de uma sonda, que passou a verificar-se, quando me foi extorquida a Secção de Caminha, apenas para satisfazer ambição pessoal do perverso Viegas.
10- Sondagens na Mina de Fonte Santa (Lagoaça, Freixo de Espada à Cinta):
Embora não seja estudo em que me tenha envolvido, quero referir o meu conhecimento de terem sido efectuadas sondagens na Mina de Fonte Santa (Lagoaça), em cumprimento de projecto do prestigiado Geólogo António Ribeiro e sob a supervisão do Director-Geral.
A recuperação de testemunhos foi praticamente nula e o Geólogo optou por fazer avaliação das reservas globais da formação onde ocorria scheelite, partindo da hipótese de que este mineral se encontraria disperso, em grande espessura desta formação.
Chegou-se assim a um elevado valor global de reservas, com teor muito baixo, portanto, de exploração economicamente inviável.
Não tinha sido possível definir passagens economicamente exploráveis.
É um caso semelhante ao que acontecera com os carvões da Faixa Carbonífera do Douro, onde também se não obtivera suficiente recuperação de testemunhos.
Era esta lição que Goinhas deveria ter extraído.
Não se justificaria prosseguir campanha de sondagens, quando o seu objectivo, que era conhecer as formações em profundidade, não era cumprido.
A campanha da Fonte Santa deveria ter sido suspensa, logo que se verificou não produzir testemunhos e só deveria ser retomada quando este problema estivesse convenientemente resolvido.
Continua…
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