terça-feira, 16 de outubro de 2012

206 – Os recentes contratos de prospecção mineira


Nesta data (Setembro - Outubro de 2012), em que aos portugueses são exigidos pesados sacrifícios, a adicionar a outros não menos pesados que já estão a suportar, cuja justificação é apresentada com a necessidade urgente de corrigir os graves erros de Governos anteriores, afigura-se-me da maior oportunidade, antes de prosseguir na análise dos casos em que o SFM, no cumprimento dos seus programas, executou desenvolvidos trabalhos mineiros, lembrar que, desde o post N.º 178, tenho vindo a comentar resolução do Conselho de Ministros de um desses incompetentes Governos, que impunha à DGGM a apresentação, em 1984, de novo “Plano Mineiro Nacional”.

O argumento para tal imposição era a profunda crise que a indústria mineira nacional estaria atravessando.

Já demonstrei quão falacioso era este argumento, porquanto seria precisamente nessa época, que iria ocorrer o mais sensacional acontecimento mineiro do século

Uma nova mina, na região de Castro Verde – Almodôvar, que se denominaria de Neves – Corvo, iria dar início à exploração de importante jazigo, cuja descoberta representava o corolário lógico dos persistentes e criteriosos estudos de um sector do Serviço de Fomento Mineiro, que conseguia manter-se produtivo.

Esse jazigo viria a revelar-se o maior e mais rico depósito europeu de minério de cobre, zinco e outros metais.

Demonstrei também que novo Plano Mineiro não só era supérfluo, como prejudicial, pois a sua preparação ocuparia funcionários, que teriam de ser distraídos das suas funções normais.
Custa a aceitar tamanha leviandade de um Governo, relativamente a matéria à qual declarara atribuir grande importância.

Aquela extraordinária descoberta não era acontecimento banal, para passar despercebido ao Governo, pois resultara do zeloso cumprimento de Planos do Serviço de Fomento Mineiro, que tinham sido submetidos à sua apreciação e …tinham merecido a sua aprovação!!,

Apesar disso, era inegável haver crise no sector mineiro.

Ela atingia, porém, exclusivamente a DGGM e tinha origem em desmandos de que os Governos se não apercebiam ou consentiam (Ver post N.º 127).

O desbragado uso das liberdades conquistadas, pela Revolução de Abril de 1974, estava a provocar a degradação progressiva do Serviço de Fomento Mineiro, que tinha granjeado justificado prestígio nacional e internacional.

Ocorre, então, perguntar porque exigiu, o Governo novo Plano Mineiro.

A resposta é simples:

O Director-Geral, que sucedeu a Soares Carneiro, na ânsia de querer evidenciar o seu propósito de inaugurar, na DGGM, uma nova era, caracterizada por real eficiência no aproveitamento dos nossos recursos minerais, prestou informações incorrectas ao Ministro da tutela, que ingenuamente nelas acreditou e as transmitiu ao Conselho de Ministros, que também lhes deu crédito.

Soares Carneiro tinha sido exonerado por razões nunca explicitadas, mas que se tinham tornado bem notórias, sobressaindo, em vasto leque, as fortes responsabilidades na degradação que passara a verificar-se no SFM.

Quando consegui falar directamente com o Ministro da tutela e lhe mostrei cópias dos ofícios que lhe tinha endereçado, contendo vigorosos apelos no sentido de corrigir o rumo calamitoso que seguia a DGGM, foi enorme a sua surpresa.

Disse-me, com a maior franqueza:

“Os ofícios sobre temas mineiros são enviados directamente para a DGGM, sem prévia análise!
Julgava que na DGGM tudo corria bem”
E prometeu investigar o que realmente se passava. (Ver post N.º 164)
O que é deveras preocupante é que actualmente, em 2012, a situação, em vez de corrigida, foi fortemente agravada!

Tenho assistido, perplexo, à euforia do Ministro da Economia, a comunicar ao País a celebração de mais de 70 (!) contratos de prospecção mineira.

Que contratos serão esses?

Não consta que as adjudicações tenham sido precedidas de concurso público, como seria normal, quando está em causa a alienação, em prol de entidades privadas, sobretudo estrangeiras, de recursos que são propriedade do Estado, isto é, de todos nós.
Com maior estupefacção, ouvi o Ministro declarar, respondendo a pergunta de jornalista, “que não fala de negócios antes de estarem encerrados, que são questões que são feitas nos bastidores”

O País tem o direito de conhecer os exactos termos desses contratos (localização das áreas adjudicadas, compensações por informações técnicas fornecidas, prazos de validade, estudos previstos, relatórios e outros elementos das investigações efectuadas, nomeadamente testemunhos de sondagens a apresentar, eventuais obrigações relativamente a instalação de estabelecimentos metalúrgicos, respeito pelo ambiente, royalties sobre lucros de futuras explorações, etc.)

A minha mente, surgem as seguintes reflexões:

1: Qual o papel que aos portugueses, compete desempenhar, no aproveitamento dos seus próprios recursos?
Na lei de minas, com data de 1935, que vigorou durante 55 anos, já se anunciava o tratamento metalúrgico dos minérios, no País, como legítimo e normal objectivo a ter sempre presente.
E em Junho de 1939, quando havia fortes prenúncios de que a 2.ª Guerra Mundial estava iminente (foi declarada em Setembro desse ano), isso não constituiu impedimento, antes pelo contrário, para que o Governo decidisse tomar a ousada decisão de atribuir ao Estado um papel fundamental no inventário dos nossos recursos minerais, visando o seu racional aproveitamento, em prol da economia nacional.
Foi um Organismo de Estado, o Serviço de Fomento Mineiro, que ficou com o encargo de fazer a prospecção mineira do País.
Conquanto não se excluísse a participação de empresas privadas, nacionais ou estrangeiras, tal era admitido, essencialmente para projectos que envolvessem técnicas não dominadas por nacionais, sendo porém, dada preferência à especialização de portugueses, nessas técnicas, em adequados centros estrangeiros.

A este respeito, nunca será demais lembrar o que consta na pág.71 do Volume X (Fasc. 1 - 2) de “Estudos Notas e Trabalhos do Serviço de Fomento Mineiro”, publicado em 1955, no capítulo final do relatório de minha autoria “Prospecção de pirites no Baixo Alentejo”:

“Todos os estudos a que nos vimos referindo podem e devem, em nosso entender, estar a cargo de técnicos portugueses que hajam, para o efeito, adquirido a necessária especialização, conforme prevê o Decreto-lei de criação do Serviço.

Só aceitamos a intervenção de técnicos de outras nacionalidades, como consultores ou em execução de campanhas de curta duração, principalmente com o propósito de proporcionar instrução a pessoal português.

A favor deste modo de proceder falam, não só a economia como o próprio interesse no assunto, que não poderá esperar-se de outros superior ao dos nacionais.

Ainda que fosse inviável, ou desaconselhada por demasiado especializada, a execução directa pelo Serviço, de determinados estudos, o que não cremos possa vir a acontecer, porquanto o Ultramar é vasto campo onde a especialização adquirida teria sempre ocasião de frutificar, é indispensável para uma eficiente fiscalização, um amplo conhecimento das matérias a fiscalizar”.

Consegui manter esta metodologia, generalizando-a a todos os minérios, nos estudos a meu cargo, durante os 23 anos iniciais do SFM.

A ela se ficaram devendo os maiores êxitos mineiros, de todos os tempos.

Conforme registei, no post anterior, nenhum êxito ficou a dever-se aos contratos com Empresas, que não tivesse por base estudos muito avançados do SFM.

Não posso deixar de lamentar que “técnicos de papel selado”, como sarcasticamente os apelidava Castro e Solla, confortavelmente instalados nos seus gabinetes em Lisboa, tenham ignorado os interesses nacionais, desprezando ostensivamente as recomendações de quem, por viver, directamente no terreno, os verdadeiros problemas mineiros, adquiriu real autoridade na matéria.

2: Quais os benefícios que têm sido obtidos com estes novos contratos.

3: Quais os técnicos dos actuais serviços oficiais com capacidade para fiscalizarem o cumprimento de tantos contratos celebrados, relativamente a variados recursos minerais, e a petróleo ou gás natural.

4: Porque se não aproveita, do antigo Fomento Mineiro, o que conseguiu resistir, em S. Mamede de Infesta e em Beja, aos desmandos de maléficos dirigentes, para organizar um verdadeiro Instituto de investigação dos Recursos Minerais, com posição, na hierarquia do Estado, compatível com os seus elevados desígnios? (Ver post N.º 78)

É de louvar a criação, na cidade de Beja, de um Centro de Estudos Geológicos e Mineiros (CEGMA), que vejo anunciada na Internet, mas em minha opinião este Centro deveria ficar integrado na Instituição, a que acabo de me referir.

Tenho assistido à obsessiva secundarização das minas na estrutura do Organismo de Estado que tem por missão zelar pelo bom aproveitamento dos recursos minerais do País.

Agora já não se fala em “recursos minerais”. Prefere-se a expressão “recursos geológicos”!

Ocorre-me, perguntar se aos recursos vegetais, se passa a chamar recursos botânicos e aos recursos animais, recursos zoológicos.
E quando começarem a explorar-se os recursos minerais da Lua, como por exemplo o hélio 3, de que muito se tem falado, também este recurso será classificado de geológico, ou será lunológico ou selenológico?.

No actual LNEG (Laboratório Nacional de Energia e Geologia), que me atrevo a classificar como nova demonstração da ignorância atrevida característica dos tais técnicos de papel selado, já não figura palavra que aluda a minas ou recursos minerais!!
Alguns Geólogos, tão presunçosos como ignorantes, que conseguiram alcandorar-se a postos de comando, julgaram, deste modo simplório, estar agindo em defesa da Geologia, mas teria sido muito mais útil ao País que se tivessem dedicado à sua verdadeira missão, que, em demasiados casos, muito mal desempenharam, como tenho vindo a pôr em evidência.

A designação de indústria extractiva, em substituição de indústria mineira é também curiosa. De facto, extractivas são igualmente as indústrias agrícola, e piscatória, e possivelmente outras.

5: Era a oportunidade natural para extinguir a artificial EDM (Empresa de Desenvolvimento Mineiro), cuja existência nunca se justificou (Ver post N.º 86).

Toda a actividade da EDM teria sido mais eficientemente executada pelo antigo SFM e a muito menor custo.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

205 – As investigações mineiras na Região de Cercal – Odemira. Continuação 3


A ocorrência de minérios de ferro e manganés, na Região de Cercal – Odemira é conhecida, desde remota antiguidade.
A “Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira” menciona explorações atribuídas aos romanos, na Herdade do Raco de Baixo, próxima do Cercal do Alentejo,

Mas o interesse mineiro da Região não se limita aos óxidos de ferro e manganés contidos nos extensos filões, que afloram exuberantemente, nos cumes das suas principais serras, uma das quais até tem o nome de Serra da Mina.
O ferro e o manganés são provável manifestação superficial de jazigos de metais mais valiosos, existentes em profundidade.

Desnecessário é acentuar a importância da revelação de ambiente geológico semelhante ao da Faixa Piritosa Sul-Alentejana.

Passou a justificar-se prospecção para detectar concentrações de pirites complexas, idênticas às que deram origem às importantes minas daquela Faixa.

A reforçar esta hipótese, há mineralizações de cobre, zinco e chumbo em diversos locais da Região, bem expressivas num pequeno jazigo excepcionalmente rico em calcopirite, blenda e galena, com elevado teor de prata, descoberto, por mim próprio, num afluente da Ribeira do Torgal, perto de Odemira, (Ver post N.º 17).
Este jazigo, que passei a designar por Torgal, foi, objecto de pesquisas, á cota de 32 m e a cotas superiores, por carência de material de esgoto, que seria necessário, para poder fazer trabalhos, abaixo do nível hidrostático
Era essencial investigar a maior profundidade, até porque se havia observado um notável enriquecimento, nos níveis inferiores
Esteve prevista uma ligação, por galeria, ao jazigo de ferro e manganés dos Pendões, começando à cota de 32m, para conhecer a composição do minério deste jazigo, em profundidade, que se não tornara possível, com sondagens ali realizadas.

Todas as ocorrências cupríferas, plumbíferas ou zincíferas conhecidas nesta zona sul da Região de Cercal - Odemira derivaram provavelmente de remobilização de sulfuretos existentes, em volumosas massas, a maior profundidade, tal como acontece em Castro Verde – Almodôvar, onde as minas de Algaré, Barrigão, Brancanes e Porteirinhos foram preciosos guias, para a descoberta do jazigo de Neves-Corvo.

Perante a relevância que assumia a geologia na Região de Cercal – Odemira, eu próprio dei início a levantamentos geológicos, sobre base topográfica à escala de 1:5.000, em longas estadas, no Cercal do Alentejo e em Odemira; para avaliar a extensão das manchas de rochas vulcânicas, que tinha descoberto, bem identificáveis, pelos seus grandes fenocristais, no Cerro dos Cunqueiros, na Herdade do Castelo (Ver post N.º 17)
Apercebendo-me da vastidão destas manchas, encarreguei o assalariado João Joaquim, que anteriormente tinha instruído nas funções de Colector, para dar continuidade ao levantamento, sob a minha directa supervisão.
Foi assim levantada uma área de cerca de 399 km2.
A classificação das rochas foi feita, quase exclusivamente, por simples exame macroscópico,
Tal levantamento era, portanto, uma fase preliminar da investigação da geologia da Região.
Muito raras foram as amostras estudadas em Laboratório e nem todos os resultados dos exames, feitos por Colaborador supostamente especializado, foram fidedignos, conforme revelei no post N.º 198.

Em mapa geológico, à escala de 1:250.000, inserido no relatório “Prospecção de Pirites no Baixo Alentejo”, que foi publicado em 1955, fiz constar as manchas de rochas genericamente classificadas como pórfiros, que este levantamento geológico revelou.
No mesmo relatório fiz considerações sobre a potencialidade da Região de Cercal – Odemira para jazigos de pirite idênticos aos da Faixa Piritosa.

Apesar das potencialidades evidenciadas justificarem o prosseguimento dos estudos (até com intensificação de meios), o Director do SFM, Eng.º Guimarães dos Santos, uma vez mais manifestou a sua incapacidade de compreender os riscos inerentes à prospecção mineira, os quais são bem enfatizados no Decreto-lei de criação do SFM.
Insensível aos meus apelos, ordenou o encerramento da Secção de Cercal e Odemira, apenas condescendendo em deixar concluir a fase preliminar de levantamento geológico e os trabalhos de pesquisa que estavam em curso na Mina do Torgal.
Deu ordens terminantes para que eu apresentasse o relatório final do que tinha sido realizado para investigação das existências de minérios ferro-manganíferos na Região.
Não permitiu sequer que se concluísse a campanha de sondagens, que se encontrava em curso, ordenando a retirada da sonda, quando havia ainda vários furos por executar.

Era óbvio que teria de voltar a esta Região, criando ou não um núcleo local, para dar continuidade aos estudos.

A mente de Guimarães dos Santos era perturbada pela permanência de um núcleo do SFM, durante 14 anos, no mesmo local!!.
Mas não era perturbada pelo facto de as tarefas a cumprir pela Secção jamais terem obtido, da sua parte, o apoio ou o estímulo que seriam de esperar de um dirigente.
Fora essa mentalidade que, em 1949, dera por terminada, a investigação da Faixa Piritosa, quando o estudo estava apenas numa fase muito primitiva, conforme demonstrei no relatório publicado sobre “Prospecção de Pirites no Baixo Alentejo”.

Este dirigente chegou ao cúmulo de declarar, ex-cathedra: Temos que deixar alguma coisa para as gerações futuras descobrirem!.
Nem vale a pena comentar!

Quando isto acontecia, encontrava-se no Região, o Geólogo holandês Klein, ocupado em trabalho de campo, sob a orientação do Professor Mc Gillavry, com vista à sua tese de doutoramento.
A ambos, eu tinha proporcionado visitas a locais, com especial interesse para o seu objectivo, entre os quais, os trabalhos subterrâneos da Mina do Torgal.

Mc Gillavry, a quem eu dera conhecimento de ter em fase terminal o relatório sobre os jazigos ferro-manganíferos de Cercal – Odemira, assumiu, de moto -próprio, o compromisso de não fazer publicar a tese de Klein, antes de publicado o meu relatório.

Tendo mencionado este compromisso, em relatório mensal da Brigada do Sul, o Director do SFM teve uma imediata e inesperada reacção, que interpretei como significativa de que, no seu entendimento, eu teria ultrapassado abusivamente, as competências da minha posição na hierarquia do SFM!!

Enviou ofício, a informar que: “Não sabia quando e se seria publicado tal relatório”.

A minha surpresa foi enorme, porque era prática corrente publicar os estudos feitos, as mais das vezes, até sem o carácter final que tinha este relatório, relativamente às mineralizações ferro-manganíferas.

Grande foi também a minha decepção, perante o esmero com que o estava elaborando e a certeza de ser documento cuja publicação prestigiaria o SFM, servindo mesmo de guia para estudos oficiais ou privados, em outras áreas.
Além disso, era oportunidade a não desperdiçar para corrigir os erros indesculpáveis bem patentes em publicações anteriores, relativamente à geologia da Região, à génese dos jazigos e á planificação de trabalhos de reconhecimento dos principais jazigos, aos quais oportunamente aludi.

Perante esta reacção do Director do SFM, de imediato libertei Mc Gillavry do seu compromisso para comigo.

Em 1957, fiz seguir exemplares do meu Relatório, em 4 volumes, para a Direcção do SFM no Porto, e para a DGMSG, em Lisboa.
O terceiro exemplar ficou arquivado na Brigada do Sul, em Beja; o quarto ficou na minha posse.

Deste relatório consta:
a) Texto de 290 páginas dactilografadas, do qual saliento a descrição individualizada dos estudos efectuados nas 129 minas conhecidas na Região e os respectivos resultados, finalizando na avaliação de reservas, quando tal se justificou.
Os jazigos de Serra da Mina, Serra do Rosalgar, Serra Comprida e Serra da Velha, devido à sua maior importância, são tratados, de modo mais desenvolvido.
Saliento, também, as minhas reflexões sobre o problema do ferro no Sul do País, chamando a atenção para a potencialidade da Faixa magnetítica, que justificaria uma campanha de prospecção aeromagnética.
b) 86 peças desenhadas, figurando todos os trabalhos realizados (sanjas, galerias, poços, chaminés, sondagens), em plantas e perfis geológicos transversais e longitudinais, com localização de amostragens, apresentação de quadros com as respectivas análises de Fe%, Mn% e SiO2% e indicação dos blocos considerados nas avaliações de reservas certas e prováveis.
Destaque para as 3 cartas litológicas e mineiras, à escala de 1:25.000, obtidas por redução dos levantamentos efectuados à escala de 1:5.000, numa área de 399 km2.
c) 45 fotografias, com destaque para as vistas panorâmicas dos afloramentos dos filões da Serra da Mina, Serra do Rosalgar, Serra Comprida e Serra da Velha, onde se evidenciam os trabalhos antigos a cotas elevadas e as bocas das recentes galerias a flanco de encosta, a cotas inferiores.
Destaco, também, as amostras de pórfiros da Mina do Cerro dos Cunqueiros na Herdade do Castelo, com bem evidentes fenocristais.
d) Despesas, com destaque para o mapa de avanços e despesas respeitante ao período de 1 de Janeiro de 1949 a 31 de Agosto de 1956, no qual estão registados os progressos em trabalhos anteriormente iniciados e os novos trabalhos, com as respectivas secções, e as formações atravessadas, discriminando, com todo o pormenor, as correspondentes despesas em perfuração, remoção do escombro, revestimento, ventilação, esgoto, transportes, diversos, terminando com o custo por metro de avanço e por m3 de rocha desmontada.
e) Apêndice relativo a amostras enviadas para análises mineralógicas, da maioria das quais não recebi resultados

O que o ofício de Guimarães dos Santos deixava prever realmente aconteceu. O relatório não foi publicado!!!!

No post N.º 17, fiz já referência ao facto de eu ter manifestado ao Director-Geral de Minas, que era então o Eng.º Luís de Castro e Solla, a minha surpresa pelo tratamento discriminatório que estava a ser dado a todos os relatórios de minha autoria.
Castro e Solla, simpaticamente, logo telefonou procurando explicação para esta situação anormal.
Guimarães dos Santos, verdadeiramente embaraçado, apresentou o esfarrapado argumento de ser muito dispendiosa a publicação dos meus relatórios, por serem muito longos, o que estava longe de ser verdade.
Longo era apenas o respeitante à Região de Cercal – Odemira, por corresponder a uma intensa actividade, durante muitos anos, com resultados positivos, que seria útil divulgar!

Guimarães acabou por seleccionar para publicação, alguns dos meus relatórios que, de facto, não eram longos.
Todos estes relatórios tinham interesse e estavam devidamente preparados para publicação.
Um deles até deu origem a contrato com empresa privada, que se propôs dar continuidade aos estudos programados pelo SFM (Ver post N.º 3).
Mas o relatório sobre os Jazigos ferro - manganíferos de Cercal – Odemira manteve-se em arquivo, completamente ignorado da comunidade mineira.

O argumento do elevado custo era mais uma das falácias, em que este Director era fértil.

Nem sequer foi publicado o relatório sobre o jazigo do Torgal, que tem apenas 48 páginas, apesar do abundante conteúdo de sulfuretos de cobre, zinco e chumbo deste jazigo constituir relevante justificação para campanhas de prospecção, pelo SFM ou por entidades privadas, incluindo obviamente, os concessionários locais, com o objectivo de detectar concentrações destes metais, idênticas às da Faixa Piritosa.

Foi, sem dúvida, um propósito deliberado de ocultar os êxitos conseguidos com os estudos realizados por minha iniciativa.

A este propósito, ocorre-me referir que um grupo de Geólogos ambiciosos, recém – ingressados no SFM, menos interessados nos objectivos deste Serviço, do que na ocupação de cargos para que não tinham competência, a fim de justificarem o seu estranho comportamento, punham em dúvida o mérito do meu passado profissional, com o argumento de que poucos artigos de minha autoria encontravam publicados! (Ver post N.ºs 94 e 127)

Era, conhecido o critério do Director do SFM, na aplicação dos dinheiros que o Governo prodigamente disponibilizava, com a propósito de proporcionar o integral aproveitamento dos nossos recursos minerais, cuja potencialidade se evidenciava vigorosamente.

Em vez de apresentar bons resultados da aplicação dos dinheiros despendidos, vangloriava-se com a exibição de grandes saldos, no fim de cada ano.
Quando se apercebeu de que as dotações anuais teriam em conta os gastos dos anos anteriores, passou a evitar esses grandes saldos, não com aplicação dos dinheiros em estudos bem planificados e realizados, mas com aquisições de equipamentos de duvidosa utilidade, quando se aproximava o final de cada ano!

O que o Director, de facto, revelou, foi grande desorientação no uso das verbas concedidas ao SFM.

Durante o seu mandato, quase toda a actividade do SFM, que decorria sob sua directa orientação, no Norte e no Centro do País, foi mal planificada e deficientemente posta em prática, conduzindo a enorme desperdício de dinheiros públicos.

Dela não resultou significativa contribuição para acréscimo da riqueza mineira nacional (Ver post N.º 200).

Com base nos elementos constantes dos relatórios anuais, publicados até 1964, deduzi que as Brigadas do SFM, que actuaram no Norte e no Centro do País, unicamente, definiram reservas significativas, no jazigo de ferro de Guadramil e no jazigo de chumbo argentífero de Terramonte. Só este último foi objecto de exploração por empresa privada.

Tudo isto pude confirmar, após a deserção de Guimarães dos Santos, para Lisboa, para ocupar vaga de Inspector Superior, com muito menores responsabilidades, quando o novo Director me nomeou Chefe do Serviço de Prospecção Mineira, com âmbito de acção extensivo a todo o território metropolitano nacional.

Se Guimarães dos Santos pretendia parcimónia nos gastos, deveria ter seguido os exemplos, da Brigada de Prospecção Eléctrica e da Brigada do Sul, quando tive a meu cargo a respectiva chefia.

Tinha obrigação de ter valorizado os seguintes factos:
a) a redução de despesas equivalente a cerca de 1,2 milhões de euros, na moeda actual, quando adicionei às minhas funções normais de Chefe da Brigada de Prospecção Eléctrica, a orientação de toda a actividade no campo que estava a cargo de um dos engenheiros suecos, libertando o País dos pesados encargos resultantes da presença deste técnico. (Ver post N.º 7)
b) a diminuição de despesas equivalente a mais de 2,25 milhões de euros na moeda actual, com a substituição de 4 Agentes Técnicos de Engenharia, por operários localmente admitidos, que foram instruídos na execução das tarefas antes a cargo desses técnicos, daí resultando até aumento de produtividade (Ver também post N.º7).
c) Embora não seja possível quantificar a economia consequente da reorganização que introduzi, no período de 1948-56, na Secção de Cercal e Odemira, porque, relativamente ao período de 1942-48, não havia registo das despesas correspondentes aos trabalhos efectuados, é significativo o acréscimo de 30% da actividade no 2.º período, em que se enfrentaram problemas de maior dificuldade.
É, no entanto possível quantificar a diminuição das despesas, originada pela redução do número de técnicos envolvidos nos estudos. De 5 técnicos, passou-se para 2 em tempo integral e 1 (eu), em tempo parcial.
Esta diminuição foi equivalente a cerca de 1 milhão de euros, na moeda actual.

Perante estas reais economias, o custo da publicação que Guimarães dos Santos recusou teria sido insignificante.

Importantíssima foi a contribuição que estudos criteriosamente conduzidos deram, não só para o acréscimo da riqueza mineira nacional, mas também na formação de pessoal, para o correcto desempenho das variadas tarefas, no campo e no gabinete, exigidas para cumprimento dos objectivos do SFM.

Como já tinha constatado o desaparecimento de alguns relatórios do arquivo do SFM, cheguei a ter dúvidas quanto ao destino deste e de outros relatórios não publicados, de minha autoria.

De facto, Múrias de Queiroz, em vez de se preocupar em resolver esta grave situação, optou por solução fácil, quando não foi encontrado, na Secretaria, relatório de minha autoria, que entidade privada pretendia consultar.
Na minha ausência, teve a ousadia de retirar do meu gabinete, a cópia pessoal, que eu lá conservava, facto de que só tomei conhecimento, quando precisei de a usar e não a encontrando procurei saber a causa do desaparecimento.
A partir deste insólito acontecimento, todas as pastas do arquivo, que tive de organizar no meu gabinete, deixaram de ter, na lombada, indicação do seu conteúdo, socorrendo-me eu de um esquema memorizado, para as consultar (Ver post N.º 39).

Correram rumores de que relatórios respeitantes a minas de ouro, que tinham sido retirados do arquivo do SFM foram objecto de negociação.

Foi, porém, com satisfação, que tomei conhecimento de que, Gomes Moura, docente da Faculdade de Ciências do Porto, autor de valiosos livros de carácter didáctico, sobre os recursos minerais do País, conseguira consultar, nas actuais instalações do LNEGI, em S. Mamede de Infesta, o meu relatório sobre os jazigos ferro – manganíferos de Cercal – Odemira.
O seu comentário, no post N.º 15, destas “Vivências Mineiras”, é deveras elucidativo.
Classificou de “impressionante” este relatório.

Tenho também razões para acreditar que o exemplar arquivado em Beja ainda lá pode ser consultado, pois felizmente o núcleo mineiro oficial criado nesta cidade, que resistiu à destruição do SFM, com fortes responsabilidades dos autores de nefando documento (Ver posts 81 a 91), está actualmente entregue a pessoa com provas dadas de dedicação à causa mineira.

Suponho que o exemplar enviado à DGMSG em Lisboa foi cedido ao principal concessionário, para que dele fizesse uso, na retoma da lavra activa nas suas minas.
As minas entraram, de facto, em exploração, sendo o minério expedido para a Siderurgia Nacional, que o dinâmico empresário Champalimaud instalara no Seixal.

Conforme assinalei no post N.º 198, o meu relatório não foi publicado deliberadamente, mas o Colaborador do SFM, Cotelo Neiva já se tinha encarregado de preencher esta previsível lacuna.

Apresentou à III Assembleia Geral do “Instituto del Hierro y del Acero”, realizada em Madrid, em 1955, comunicação intitulada “Minerais ferro – manganesiens du Portugal”.
As duas visitas que lhe proporcionei à Região foram suficientes para descrever os jazigos, para mencionar as reservas certas e prováveis do seu conjunto, e para pôr em destaque as potencialidades para sulfuretos de cobre, chumbo e zinco.

E o Director do SFM fez publicar esta comunicação no Volume X de “Estudos, Notas e Trabalhos do SFM”!!!

Digno de realce é o contraste entre as atitudes do Professor Mc Gillavry da Universidade de Amsterdam e as do Professor Cotelo Neiva da Universidade de Coimbra.
Mc Gillavry, que viera, a Portugal, a título gratuito, orientar discípulos seus, que trouxe para prepararem teses de doutoramento, de que constariam investigações geológicas de alta qualidade, sobretudo do ponto de vista estrutural, respeitantes a diversas áreas do Alentejo (Ver post N.º 179), comprometera-se a não publicar a tese de Klein, antes de publicado o meu relatório, porque eu lhe facultara alguns dados sobre a Região de Cercal – Odemira.
Mc Gillavry chegara a desabafar comigo a pouca receptividade que encontrara nos Serviços de Geologia sediados em Lisboa, salientando o facto de me encontrar a mim, em actividade no campo, e não aos Geólogos desses Serviços.
Cotelo Neiva, em vez de prestar a colaboração que eu lhe pedira, para a qual era bem remunerado, apressou-se a publicar, sem minha autorização, os dados que ingenuamente lhe facultei, nas duas únicas visitas que lhe proporcionei à região.
Habituado, no Norte do País, a inverter os papéis, colocando Engenheiros e Agentes Técnicos de Engenharia a trabalhar para produzir documentos cuja publicação alimentasse a sua vaidade (Ver post N.º 198) achou natural adoptar idêntico procedimento no Sul, para comigo.
Conforme referi, foi grande a minha estupefacção por tamanho desrespeito por princípios éticos da parte de quem tinha o dever de dar bons exemplos nesse âmbito.
Quem, actualmente, quiser saber algo sobre os jazigos ferro – manganíferos de Cercal – Odemira, encontrará publicado este artigo de Cotelo Neiva e outra informação copiada do meu relatório de 1957, subscrita por Delfim de Carvalho, no Livro – Guia de Excursão que se realizou, em 1970-71, no âmbito do CHILAGE (Ver post N.º15) .

Conforme voltei a realçar, era essencial aprofundar o reconhecimento geológico da Região, não só para selecção das zonas de aplicação prioritária de métodos geofísicos e geoquímicos, mas também para facilitar a interpretação dos resultados obtidos com estes métodos.

A oportunidade surgiu quando, após a reorganização do SFM verificada em 1964, todos os estudos de geologia do SFM passaram a ficar sob a minha responsabilidade, incluídos nas atribuições do Serviço de Prospecção Mineira.

Começaram, então a ingressar no SFM novos Geólogos, e o Director, que então ainda respeitava a Orgânica de sua autoria (Ver post N.º 25), destacou, em 1966, o Delfim de Carvalho, para colaborar nos estudos programados, no Sul do País.

Foi este Geólogo que encarreguei de dar continuidade aos estudos na Região de Cercal – Odemira, tendo-lhe sugerido, logo de início, que analisasse a possibilidade de alterações hidrotermais constituírem guias a utilizar.

Todavia, Delfim de Carvalho, apesar das excepcionais condições de que desfrutou para bem desempenhar a sua missão, deixou-se dominar pela desmesurada ambição de rápida promoção pessoal, que lhe foi facilitada pela vaga de oportunismos gerados no pós – 25 de Abril.
Desrespeitou ostensivamente a disciplina que vigorava na 1.ª Brigada de Prospecção e os princípios de ética profissional (Ver post N.º86).
O caso do Salgadinho apressadamente promovido a Jazigo mineral, comparável a Neves – Corvo é bem elucidativo, a esse respeito.

Delfim de Carvalho acabou por se tornar o grande responsável por não ter sido feita cabal investigação das potencialidades da região de Cercal – Odemira, para jazigos idênticos aos da Faixa Piritosa.
Tenho tomado conhecimento, por diversas fontes, de contratos de prospecção, com várias empresas, para investigação desta Região, mas não consta que tivesse sido registado sucesso algum.

Assim se confirma o que anteriormente acontecia. As empresas privadas só eram bem sucedidas quando o sucesso já estava praticamente concretizado pelo SFM, como foram os casos de Carrasco – Moinho e Gavião, em Aljustrel, Neves – Corvo, em Castro Verde - Almodôvar e o caso presente dos jazigos ferro –manganíferos de Cercal – Odemira, que escapou á pedagógica história da prospecção mineira em Portugal, apresentada por José Goinhas.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

204 - As investigações mineiras na Região de Cercal – Odemira Continuação 2

Os minérios de ferro e manganés, que ocorrem na Região de Cercal – Odemira, têm características muito vantajosas para aplicação na metalurgia do ferro.
O manganés, que acompanha o ferro, contribui para a eliminação do enxofre contido nos materiais do leito de fusão, evitando a passagem deste elemento nocivo, para o produto final.

Os principais jazigos da Região estavam abrangidos por concessões mineiras outorgadas ao Banco Burnay.
O Decreto-lei, então vigente, só consentia que, por motivos ponderosos, as respectivas minas não estivessem em “lavra activa”.
Acontecia, porém, que, desde 1937, se mantinham com “lavra suspensa”, e nem o seu reconhecimento tinha sido efectuado, para garantir uma exploração racional, baseada em reservas, que tivessem sido determinadas.

Conforme tenho vindo a relatar, o SFM encarregou-se de preencher esta lacuna.

No que respeita ao Plano apresentado em 1945, para reconhecimento do sistema filoniano, que tem a sua principal representação na concessão da Serra da Mina, já referi que, com os recursos existentes na Brigada do Sul, quando esta Brigada passou a ficar a meu cargo, não fora possível realizar parte importante dos trabalhos que tinham sido projectados.

Utópica foi também a “ordem de precedência e simultaneidade dos trabalhos”, que constitui o capítulo II desse Plano.
Nada aconteceu como estava planeado. Os trabalhos sucederam-se, com grande irregularidade, na dependência da operacionalidade dos velhos moto-compressores.

O recurso à Brigada de Sondagens do SFM foi a alternativa para prosseguir o reconhecimento dos principais jazigos da Região.
A Brigada de Sondagens, que, nessa época, estava a cargo do Agente Técnico de Engenharia António Rodrigues Cavaco, demonstrou louvável diligência para resolver problemas que foram surgindo, entre os quais avultava o controlo das trajectórias dos furos.

Relativamente ao sistema filoniano que tem a sua principal expressão na concessão da Serra do Rosalgar, havia Plano de reconhecimento da autoria do Eng.º Costa Almeida e do Agente Técnico de Engenharia Mendes Pereira.

Um extracto, que se classificou de resumo, está publicado, com data de Dezembro de 1947, no Vol. III, Fasc. 1 e 2 de “Estudos, Notas e Trabalhos do Serviço de Fomento Mineiro”.

Este Plano, apesar de superiormente aprovado, enfermou também de graves deficiências.

No resumo publicado, abundam supérfluas divagações, mas omitiu-se capítulo respeitante ao orçamento dos trabalhos projectados.

Da análise da peça desenhada, com o título “Mina da Serra do Rosalgar. Perfil longitudinal e planta dos trabalhos”, na qual estão representados os trabalhos projectados, deduzi que pouca informação adicional resultaria do seu cumprimento.

Impunha-se Plano mais ambicioso, não só porque seria de fácil execução, mas também porque as boas características do minério, nos locais onde foi acessível, o justificavam plenamente.

Tal Plano consistiria, essencialmente, no prolongamento da galeria em direcção, que tem origem na galeria-travessa da Cela, até se atingir o poço interior da sede da galeria 3 e na abertura de recortes, para determinação de possanças e para colheita de amostras representativas do minério, em toda a extensão de 467m da galeria em direcção.

Os autores do Plano inicial declararam, no “resumo” publicado, que os “trabalhos propostos já tinham entrado na fase de execução” e recomendaram que se usassem as bombas a ar comprimido para esgoto de águas que surgissem, se tal fosse necessário!!
O que eu constatei, porém, foi ter sido suspensa o aprofundamento dos poços N:ºs 3 e 4, que constavam desse Plano, quando apareceu água!

Durante o 2.º semestre de 1948 e em 1949, a Secção ocupou-se, já sob a minha orientação, sobretudo do cumprimento do novo Plano.

Mas outra grande surpresa me esperaria!
O poço interior da sede da galeria 3, tinha sido atingido a uma cota 14 m (!) superior à calculada, com base no perfil longitudinal que figura entre páginas 82 e 83 da publicação citada.
O levantamento topográfico desse perfil estava errado, e esse erro teria óbvio reflexo no cômputo das reservas minerais.
Nem sequer houve o cuidado de extrair o perfil, da planta fornecida pelo instituto Geográfico e Cadastral (IGC), para ver se coincidia com o levantado pelo pessoal técnico da Secção!

Já me tinha causado estranheza que tivesse sido necessário recorrer ao IGC, para obter planta topográfica da região, à escala adequada aos estudos previstos, pois se me afigurava normal que qualquer dos 5 (!) funcionários do quadro técnico da Secção tivesse preparação, nessa matéria.

Era tão importante o rigoroso posicionamento no terreno de todos os trabalhos de prospecção mineira, que sempre considerei essencial uma boa preparação, em topografia, de todo o pessoal técnico.
Mas, o que se me apresentou como inevitável para conseguir tal rigor, foi dar lições teóricas e práticas a Engenheiros e Agentes Técnicos de Engenharia, que comigo deviam colaborar, e que demonstravam preparação nula, ou pior do que isso, viciada, nesta matéria.
Na sua maioria, nem de uma piquetagem, que merecesse confiança, se mostravam capazes!

De facto, as minhas preocupações quanto à formação profissional do pessoal, a todos os níveis, não se limitaram à topografia.
Afigurava-se-me, importante e perfeitamente ao alcance desse pessoal, encarregar-se de todas as tarefas necessárias às investigações conducentes aos objectivos do SFM.

Era até minha prática corrente fazer colaborar alunos da cadeira de Prospecção Mineira, que eu regia na Faculdade de Ciências do Porto, desde 1970, nos trabalhos de campo do SFM.
A colaboração estendeu-se à Faculdade de Engenharia do Porto e ao Departamento de Geociências da Universidade de Aveiro (Ver posts N.ºs 141 e 142).

Estas minhas preocupações nem sequer eram originais.
Já o primeiro Director do SFM, o Engenheiro António Bernardo Ferreira, reconhecendo a deficiente preparação dos técnicos dos Serviços sediados em Lisboa, para o desempenho das funções que lhes estavam atribuídas, aconselhava que o SFM viesse a ser a Escola pós-graduação, pela qual teriam passagem obrigatória os candidatos a ingressar naqueles Serviços de Lisboa. (Ver post N.º 1)

O tema é de tal importância que são constantes as minhas alusões, nestas “Vivências Mineiras”.

Todavia, os dirigentes que sucederam a Bernardo Ferreira e a Castro e Solla, nos respectivos cargos, ignoraram completamente o seu louvável propósito de prestigiar a DGGM, através da melhoria da qualidade das suas decisões.
No post N.º 24, não pude deixar de exprimir a minha estupefacção por duas infelizes manifestações de desprezo pela eficácia do SFM, expressas pelo seu Director Guimarães dos Santos e por Soares Carneiro, quando foi Director-Geral.

Guimarães dos Santos não considerava prejudicial, à eficácia ao SFM, que os técnicos mais competentes rescindissem os seus contratos, em consequência de medidas irreflectidas que decidira tomar.
Disse-me, quando procurei esclarecê-lo sobre os inevitáveis malefícios que tais medidas provocariam: “Vão-se uns; Vêm outros!”
Muito prudentemente, porém, o Director-Geral, que era, então, Castro e Solla fez revogar tão infeliz decisão.

Soares Carneiro, quando eu manifestava o meu desalento, por ver abandonar o SFM pessoal localmente recrutado, que eu tinha feito especializar em diversas técnicas de prospecção, apenas por não lhe ser concedido insignificante aumento de salário que eu tinha proposto, disse-me, com a máxima desconsideração pelo meu passado profissional no SFM, de cujos êxitos até se tinha aproveitado para sua promoção pessoal (Ver post N.º 24), que se eu também quisesse abandonar o SFM, a porta estava aberta.
Uma vez mais, ousava ostentar o seu poder discricionário, como se fosse dono do SFM!

Atitudes de deslealdade, como estas conduziriam, em País onde a Justiça fosse uma prática corrente, à condenação, por perjúrio, dos funcionários que, na sua tomada de posse, haviam jurado cumprir com lealdade as funções que lhes eram confiadas.

A actividade do SFM, na Região de Cercal –Odemira, para investigação das existências de minérios de ferro e manganés, teve a sua maior expressão, no período decorrido de 1-1-1949 até 31-8-1956, data em que teve que ser terminada, em cumprimento de instruções superiores.

Muitos estudos do período anterior tiveram que ser completados e corrigidos dos erros com que tinham sido descritos, sobretudo no âmbito da geologia.
Muitos trabalhos, não tinham sido representados em peças desenhadas, nas quais se evidenciassem os elementos essenciais ao conhecimento dos jazigos (faixas de óxidos de ferro e manganés, barita, quartzo, pórfiro encaixante ou intercalante, e respectivas possanças e inclinações, locais de amostragem e análises de Fe, Mn e SiO2).

Perante as deficiências que detectei, nas actividades em curso na Brigada do Sul do SFM, quando assumi a sua chefia, ocorriam-me reflexões sobre o progresso que teriam introduzido, na indústria mineira de Moçambique, os técnicos que tinham prestado serviço nesta Brigada e foram destacados para aquela ex-província ultramarina portuguesa, na suposição de serem especialistas em investigações mineiras.

Pelo que me constou, afinal até teriam aprendido algo, com os que já lá se encontravam.

Um deles, o Agente Técnico de Engenharia Adalberto de Carvalho, que após a Revolução de 1974, facilmente conseguiu licenciatura em Engenharia de Minas, reapareceu na Metrópole, como especialista em jazigos de ouro, porque tinha aprendido a usar a bateia!
E até fez artigos, sobre o seu uso, que foram publicados, na Revista do SFM.
Deveras elucidativo é o artigo que cito no post N.º 70, suscitado pela preocupação, manifestada por entidade privada, de virem a ser inundados pelas águas de albufeira que resultaria da construção de barragem de Fratel, projectada, no Rio Tejo, valiosos jazigos de ouro, a cuja exploração se candidatara, através da apresentação de vários manifestos na Câmara Municipal de Vila Velha de Ródão

Mas afinal o seu conhecimento, quanto ao uso da bateia, restringia-se à procura de ouro.
As virtualidades da mineralometria estavam para além da sua sabedoria.

Aproveito o ensejo para registar que, logo no início das minhas funções na Brigada do Sul, enviei a todas as Secções, normas de estudo, insistindo no método de Thiébaut, baseado na investigação cuidada dos materiais que confluem nas linhas de água.
Exemplo do sucesso deste método foi a descoberta do jazigo do Torgal.

Quando, alguns anos mais tarde, em 1965, fui nomeado para representar a Metrópole nas Jornadas de Engenharia, que iriam decorrer em Moçambique (Ver post N.º 126), grande foi a minha surpresa, ao ouvir o Engenheiro Jorge Augusto da Cunha Gouveia, técnico dos mais categorizados dos Serviços de Geologia e Minas, declarar-se descrente das potencialidades minerais de um território 9 vezes maior que Portugal. o que é contrário a todas as estatísticas.

Eu tinha conhecimento, por ter prestado colaboração ao Ministério do Ultramar, de riquezas desta ex-província ultramarina que não estavam aproveitadas.
A título de curiosidade, registo que esta colaboração que dedicadamente prestei desde Julho de 1964 até Agosto de 1965 foi mais uma das minhas actividades oficiais não remuneradas, neste caso, em ostensivo incumprimento do que me fora oralmente prometido (gratificação de 5 200$00 mensais) por Soares Carneiro, na presença do membro do Governo Eng.º Amaro da Costa, pai do malogrado Adelino Amaro da Costa.

Lembro-me de projecto da “Strategic-Udi Processes, Inc (SUPI)” que, na minha qualidade de colaborador, me chegou à mão para informar, relativo à instalação de uma indústria siderúrgica na província de Tete, aproveitando as magnetites titaníferas de Machedua, e o carvão de Moatize, para o fabrico de ferro ou aço, como produtos principais, e óxidos de titânio e vanádio, como sub-produtos que, em certos casos, poderiam ser mais valiosos do que o ferro.

Lembro também as minas de ouro na fronteira com a antiga Rodésia, que eram pouco importantes, enquanto as da Rodésia, no mesmo ambiente geológico, se encontravam em grande actividade

O carvão de Moatize, o gás natural, as pedras preciosas e semi-preciosas, as tantalites e columbites (coltan), actualmente tão procuradas para utilização no fabrico de telemóveis, eram outras riquezas insuficientemente reconhecidas, que teriam justificado estudos para investigação do seu real mérito.

Mas a realidade era que a prospecção do território estava praticamente por fazer, apesar das louváveis tentativas de Rogério Cavaca, quando, em 1948, (Ver post n.º 5) fez deslocar da Metrópole, vários técnicos, supostamente preparados para esse fim.

Foi, por isso, que a comunicação que apresentei sobre resultados positivos da aplicação de métodos geofísicos e geoquímicos à prospecção mineira na Metrópole (Casos de Portel e Barrancos, referidos nos posts n.ºs 20, 21 e 44) despertou grande interesse nos Serviços de Geologia e Minas de Moçambique (Ver post n.º 44).

Gouveia mostrou, então, interesse em aproveitar a experiência do SFM nesses métodos, para fazer estagiar, na 1.ª Brigada de Prospecção, alguns técnicos dos Serviços Ultramarinos e criar posteriormente em Moçambique um departamento com idênticas atribuições para fomentar o desenvolvimento da indústria mineira da Província.

Veio à Metrópole tomar contacto directo com as campanhas de prospecção que se encontravam em curso, sobretudo no Sul do País e, na sequência do que observou, vieram alguns técnicos fazer estágios para aprendizagem das técnicas estavam a ser aplicadas.

Para a maior produtividade e qualidade dos estudos na Região de Cercal - Odemira, contribuiu, não só o bom equipamento fornecido à Secção, o qual tinha sido recebido ao abrigo do Plano Marshall, mas também a melhor organização imprimida aos estudos.

Durante a maior parte desse período, a Secção esteve localmente confiada aos Agentes Técnicos de Engenharia Cristino Fernandes e Manuel Pina, que se revelaram bons colaboradores, demonstrando brio profissional no desempenho das suas funções.

Porém, na parte final, viu-se privada da sua participação, por ambos esses funcionários terem sido destacados para outros Organismos.
A Secção ficou, então, durante alguns meses, sob minha directa orientação.

Para a chefia, que ficara vaga, foi nomeado Orlando Barros Gaspar, técnico recém-formado no Instituto dos Pupilos do Exército, que tinha ingressado, em fins de Maio de 1954, na Brigada do Sul.
Sem experiência em prospecção mineira, mais uma vez tive de exercer funções de professor encarregando-me, durante prolongadas presenças locais, de o preparar para o cabal desempenho da sua missão.
Tive, porém, a satisfação de encontrar pessoa muito interessada, que rapidamente adquiriu competência para a execução prática das diversas técnicas com aplicabilidade na área.
Orlando Gaspar mostrou-se tão reconhecido, que até manifestou desejo de continuar a colaborar comigo, quando se verificou alteração da Orgânica do SFM.
Tal desejo, além de não ter sido satisfeito, apesar de só beneficiar o SFM, foi mal interpretado pelo novo Director do SFM, que passou a tratá-lo como “persona non grata”.
Orlando Gaspar, acabou por decidir libertar-se do mau ambiente que lhe estava a ser criado, e rescindiu o seu contrato com o SFM. (Ver post N.º 28)
Encontrou, porém, bom acolhimento noutros Organismos, que souberam aproveitar a competência técnica que tinha adquirido, sob minha orientação, facto ao qual alude, com frequência, o que eu aqui registo, com agrado.

Tal atitude de Orlando de Barros Gaspar esteve em total contraste com a que assumiram outros funcionários de nível académico superior ou médio, que muito tinham beneficiado das constantes lições que lhes fui ministrando, ao longo de anos, não apenas no domínio técnico, mas também no respeito por princípios éticos de honestidade e lealdade. (Ver posts N.ºa 81 a 91),

Durante os 14 anos em que decorreram os estudos na Região de Cercal Odemira, foram, efectuados trabalhos, de maior ou menor importância, nas 129 minas de ferro e manganés, que tinham sido registadas, e nos locais onde o levantamento geológico conduziu à descoberta de outras ocorrências de mineralizações
A maior intensidade verificou-se ao período de 1948 a 1956.
No que respeita a Trabalhos Mineiros, o que se realizou, foi o seguinte:
a) desobstrução, limpeza e entivação de grande número de trabalhos antigos
b) cerca de 1200 sanjas
c) 3820 m de galerias
d) 127 poços verticais ou inclinados com o comprimento global de 1150 m
e) chaminés com um comprimento total de 170 m
Cerca de 65% destes trabalhos foram efectuados no período de 1948 a 1956

Deste 2.º período, além dos trabalhos na Mina do Rosalgar, na sequência de projecto anterior, há a destacar projecto para investigação do jazigo da Serra da Velha, que foi apresentado para apreciação superior, dele constando orçamento, baseado em dados estatísticos, adrede registados, o qual foi cumprido dentro das previsões, até com ligeiro saldo.

Além dos Trabalhos Mineiros, foi também efectuado o levantamento litológico de uma área de 399 km2, sobre base topográfica à escala de 1:5000 e o levantamento electromagnético de uma área de 4 km2.

A Brigada de Sondagens efectuou 7 furos com um comprimento total de 880 m.

Nas mais importantes minas foram evidenciadas as seguintes reservas:
Serra da Mina - Reservas certas - 1 250 000 toneladas, com 44% Fe; 9% Mn; 10% SiO2
Toca do Mocho - Reservas prováveis - 280 000 toneladas
Serra do Rosalgar – Reservas certas 2 200 000 toneladas com 41% Fe; 8% Mn;16% SiO2
Reservas prováveis - 1 200 000 toneladas
Serra da Velha - Reservas certas de 1 200 000 toneladas, com 47% Fe; 6% Mn; 15% SiO2
Serra Comprida - Reservas prováveis de 600 000 toneladas

As despesas, com estes trabalhos, foram:
De 10-12-1942 até 31-12-1948 …… 1 849 285$40
De 01-01-1949 até 31-08-1956 …… 3 435 225$20

As despesas com vencimentos, ajudas de custo e subsídios de marcha do pessoal técnico foram.
De 10-12-1942 até 31-12-1948 …..1 041 522$60
De 01-01-1949 até 31-08-1956….. 721 375$20

No 1.º período, em que não havia estatística organizada, as despesas dizem respeito a cerca de 30 locais de ocorrências de minério, com maior incidência no grupo da Serra da Mina.
No 2.º período, as despesas resultam de estudos em toda a Região e estão pormenorizadamente discriminadas, em mapas de avanços e despesas, que se incluem no relatório final.

Não posso deixar de registar que esta intensa fase de “Trabalhos Mineiros”, na Região de Cercal - Odemira passou completamente despercebida a José Goinhas, na sua versão da história da prospecção mineira em Portugal, com a qual pretendia contribuir, “pedagogicamente”, para um novo Plano Mineiro Nacional, que evitasse a repetição dos erros responsáveis pela crise que se considerava estar a atravessar a nossa indústria mineira.

Continua …

domingo, 22 de julho de 2012

203 – As investigações do SFM na Região de Cercal – Odemira. Continuação 1

No anterior post, comecei a descrever a actuação do Serviço de Fomento Mineiro (SFM), na Região de Cercal – Odemira.

Conforme tenho relatado, a instituição do SFM tornou-se indispensável, para suprir o escasso interesse das empresas privadas, pela investigação mineira.

Investimentos nesta matéria, não eram considerados atractivos, perante o elevado risco que envolviam.
Havia até empresas que, embora beneficiassem de direitos de exploração, não os utilizavam e mantinham as suas concessões mineiras na situação de “lavra suspensa”, com tolerância da DGMSG, raramente justificável.

Com o declarado intuito de contribuir para novo Plano Mineiro Nacional, exigido pelo Governo, o Geólogo José Goinhas apresentara uma versão da história da “Prospecção Mineira em Portugal”, eivada de deturpações e omissões, com o deliberado propósito de desvalorizar a actuação do SFM, que auspiciosamente o tinha acolhido.

No seu texto, nem uma palavra se encontra, relativamente à importante fase de “Trabalhos Mineiros”, que constituiu a principal actividade da Secção de Cercal – Odemira do SFM, em matéria de prospecção mineira, durante cerca de 14 anos (1942 a 1956).

É certo que, nos seus primórdios (1942 a 1948), esta actividade não decorreu com a desejável eficácia.
O pessoal técnico, destacado para dirigir os estudos, era de recente formação académica e não teve capacidade para se valorizar, de modo a conseguir uma produtividade normal.

Habituado à organização que tinha imprimido na Brigada de Prospecção Eléctrica, cujos rigor e eficiência eram bem conhecidos em todo o SFM, (Ver post N.º 6), impressionou-me uma série de situações aberrantes, com as quais deparei, quando passei a assumir as funções de Chefe da Brigada do Sul.

Passados 6 anos, ainda os técnicos, que tinham apresentado Planos de reconhecimento dos principais sistemas filonianos da Região de Cercal – Odemira, não tinham consciência do real custo dos trabalhos que projectaram e estavam a executar!

Num desses Planos, que está publicado, com o N.º 12, na série “Relatórios” do SFM, consta orçamento, que surpreende, pelo irrealismo dos custos unitários atribuídos aos trabalhos projectados, apesar do seu pretenso rigor (aproximação até aos centavos!!).

Os custos previstos, por metro de avanço, nos quais até se incluía a amortização do material de perfuração, foram os seguintes (!!!):
galerias no xisto encaixante - 160$38
galerias no filão - 174$66
chaminés - 120$23
poços de secção 2,1x1,6 m2 - 404$67
poços de secção 1,6x1,6 m2 - 304$42

O Conselho Superior de Minas, não só aprovou o Plano, de que constava tal orçamento, (too good to be true!), como lhe reconheceu mérito, justificativo de recompensa ao principal autor. (Ver post anterior)

A realidade é que a importância global prevista, de 300 000$00, rapidamente, se esgotara, deixando o Plano muito aquém do seu cumprimento, apesar de não ter sido adquirido material algum!.
Por tal motivo, já tinha sido solicitado um “reforço de verba”, que foi concedido, mas se revelou insuficiente.
Aguardava-se a aprovação de um segundo pedido, recentemente formulado.

Eu estava a ficar deveras preocupado com a tendência para o rápido esvaziamento de uma verba atribuída à Brigada do Sul, com diferente finalidade, que estava a ser utilizada, enquanto não surgia a aprovação do segundo pedido.

Neste novo pedido, o principal autor do orçamento inicial passou a usar, para os trabalhos que estavam por realizar, os custos unitários seguintes:
metro de galeria: 300$00
metro de poço 900$00

A minha preocupação levou-me a tomar a decisão de me deslocar, de Beja a Lisboa, para informar o Director-Geral de Minas das sérias dúvidas que me assolavam, quanto à possibilidade de realizar os trabalhos ainda em falta, com o “reforço” que aguardava aprovação.

O Director-Geral convocou, então, o Inspector Superior, Manuel Maria de Lancastre Ferrão de Castelo-Branco, mais conhecido por Conde de Arrochela, que tinha o processo a seu cargo, e este Inspector Superior logo manifestou grande estranheza por tantos pedidos, para os mesmos trabalhos.

A minha pronta reacção foi dizer-lhe que, também eu achava estranho, mas acrescentei que não assumia o compromisso de completar, com este novo “reforço”, os trabalhos projectados, que tinham merecido aprovação do Conselho Superior de Minas.
O Director-Geral esclareceu que tal situação anómala não era de minha responsabilidade, pois só em data recente assumira a chefia da Brigada do Sul do SFM.

Conde de Arrochela, perante a minha atitude, resolveu aumentar a importância do item de imprevistos, de 10% para 20%, pensando assim ajudar a resolver o problema.

Mas o problema não era, dessa ordem de grandeza!

O que eu iria encontrar descrito em relatórios da Secção, anteriores à minha chefia da Brigada do Sul, foi surpreendente.
Devido a avarias dos velhos moto-compressores, (Ver post anterior), enquanto se procedia à reparação de máquina que ficasse inoperacional, o pessoal cuja actividade dela dependia, era entretido a arranjar caminhos, para se manter ocupado!

Como as avarias eram constantes, não havia, obviamente, orçamento que resistisse a tão inúteis despesas.

Por outro lado, não havia registo das despesas ocasionadas pelas operações exigidas pelos diferentes tipos de trabalhos, em variadas circunstâncias, não só para avaliar a qualidade da execução, mas também com a finalidade de obter dados para elaborar futuros orçamentos.

Não foram difíceis as providências que tive que tomar, para tornar normal a actividade da Secção.

A primeira tinha, obviamente, que ter por objectivo terminar com a inconcebível necessidade de sucessivos “reforços de verba” para efectuar o reconhecimento do sistema filoniano, que tem a sua maior representação na concessão da Serra da Mina.

A solução foi fácil.

Esgotado já o segundo reforço, havia que confrontar as despesas feitas, com os trabalhos que as ocasionaram.
Partindo do princípio de que os trabalhos a executar iriam decorrer em idênticas condições, o problema resumia-se a uma simples regra de três.
O resultado, a que cheguei, atingiu um pouco mais do dobro do orçamento inicial!!!
Foi esta verba que solicitei e foi aprovada, sem objecções.

A segunda foi a decisão de mandar proceder, em competente oficina de Lisboa, a grande reparação de todos os moto-compressores, de modo a eliminar as longas paralisações.

A terceira foi adoptar procedimentos para ficar a saber o custo real dos diferentes trabalhos, nas várias fases da sua execução.
Mandei fazer impressos, para registo diário, por todos os grupos de trabalho, directamente dependentes dos Chefes de Secção.
Nestes impressos figuravam o pessoal e os materiais aplicados. Em coluna de Observações, indicar-se-iam circunstâncias especiais que justificariam preços anormais.

Nos relatórios anuais da Brigada, passaram a constar, com discriminação pormenorizada pelas diversas operações exigidas pelos trabalhos (perfuração, revestimento, transporte, ventilação, esgoto, diversos) mapas de avanços e consumos e mapas de avanços e despesas
Fiquei, assim, a saber o custo real dos trabalhos, nas diversas circunstâncias, em que eram executados, obtendo bases para poder elaborar orçamentos realistas.

Do Plano de reconhecimento do sistema filoniano que tem a sua maior expressão na concessão da Serra da Mina, ficou rapidamente concluído o que era de possível execução.
Não mais se sentiu necessidade de “reforços” e houve até substancial saldo, não só devido às medidas organizativas adoptadas, mas também porque se tornou impossível, com os meios existentes, a realização de alguns trabalhos projectados,

Ocorrera uma situação, que não tinha sido devidamente ponderada.

“Para o esgoto dos poços utilizam-se bombas, que serão movidas a ar comprimido, sempre que for necessário“
É isto que consta no N.º IV do capítulo I do “Plano de pesquisa e reconhecimento em profundidade”, com o título “Meios a empregar na abertura dos trabalhos, transporte extracção, ventilação e esgoto”, (Ver último parágrafo da pág.54 da publicação N.º 12, da série “Relatórios do SFM”),

Mas o que se me tornou evidente foi que, anteriormente à minha chefia, se tinha suspendido a actividade nos poços e nas galerias deles derivadas, sempre que aparecia água e a tinham tentado esgotar, com bombas manuais!!! (Ver pág.35 da mesma publicação)

Ao pretender retomar o trabalho nos poços, verifiquei que os caudais a esgotar eram tais, que tornavam impraticável o seu aprofundamento ou o progresso de galerias deles derivadas, apenas com recurso aos meios disponíveis na Brigada do Sul.

Continua …

segunda-feira, 9 de julho de 2012

202 – Novo Plano Mineiro Nacional. Continuação 25. Especial referência à Região de Cercal – Odemira

Na minha análise à versão que o Geólogo José Goinhas apresentou sobre a história da Prospecção Mineira em Portugal, com declarada “intenção pedagógica” de contribuir para novo Plano Mineiro Nacional, exigido pelo Ministro da Indústria, cheguei à fase final, caracterizada por trabalhos mineiros desenvolvidos, destinados a definir reservas minerais economicamente exploráveis.

Prospecção mineira, no seu sentido lato, era o objectivo fundamental de Organismo estatal instituído pelo Decreto-lei N.º 29725, de Junho de 1939, propositadamente para suprir a escassa iniciativa privada, em tal domínio.

Esse Organismo, designado por “Serviço de Fomento Mineiro” (SFM), ficou integrado na Direcção-Geral de Minas e Serviços Geológicos (DGMSG).

Perante a importância que o SFM foi progressivamente assumindo, a minha análise tem-se centrado, quase exclusivamente, na sua acção.

Não pude, no entanto, deixar de salientar o facto insólito de a actividade do SFM, no Norte do País, onde se localizava a sua sede e também no Centro, durante mais de 20 anos (1940 a 1963) não ter produzido resultados significativos, por deficiente orientação superior.
A prospecção continua, pois, por fazer nessas zonas e não consta do documento em que José Goinhas, prometia indicar “Áreas potenciais para aplicação de projectos”.

Foi a Sul do Rio Tejo, que, no período de 1948 a 1963, se praticou verdadeiro fomento mineiro, traduzido em intensa actividade, nas diferentes fase da prospecção.
Dessa actividade, resultaram significativas explorações mineiras, e contratos com empresas privadas que deram continuidade aos estudos do SFM.

É certo que, no período anterior a 1948, também, no Sul do País, se registara deficiente orientação, em alguns estudos.

Referi-me, no post N.º 200, ao caso de Montemor-o-Novo.
Lembrei vicissitudes pelas quais passou o SFM, as quais foram responsáveis por considerável atraso, na execução dos estudos programados para extensa e promissora Faixa, que passei a designar por Magnetítica e Zincífera, na qual se inseria a Região de Montemor-o-Novo.

E ainda a respeito da Região de Montemor-o-Novo, não resisti a dedicar o post N.º 201, a novo artigo do “semvergonhista” Goinhas, como lhe teria chamado Odorico Paraguaçu, da famosa telenovela brasileira.
Nesse artigo, também plagiado, é apresentada, sem explicação, extraordinária anomalia gravimétrica, que, a ser genuína, seria a assinatura de enorme jazigo de sulfuretos, maior que Neves – Corvo !!!!

E Goinhas mostra total insensiblidade pelo que poderá ser o maior sucesso do SFM.

O que é grave e revelador da desorganização a que se tinha chegado no SFM, é que Goinhas tinha tarefas por cumprir, das quais eu o tinha incumbido, quando o convidei a integrar a equipa da 1.ª Brigada de Prospecção, havendo vários relatórios (Vale de Vargo, Algares de Portel – Balsa, Vale de Pães) que deviam ter sido apresentados e ainda faltavam.

Já liberto da minha tutela, nas circunstâncias a que frequentemente tenho aludido, foi-lhe fácil, seguir o exemplo de outros Geólogos, com destaque para Delfim de Carvalho.
Consciente da sua impunidade, em vez de demonstrar brio profissional e honestidade - características que eu sempre tinha estimulado a todos os meus colaboradores -, relatando trabalho que ele próprio tivesse produzido no terreno, preferiu continuar a parasitar o que se continha em relatórios internos, não publicados, sem sequer mencionar os seus autores!.

Foi assim que surgiu o artigo a que dediquei o post N.º 201.
Tudo quanto nele é relatado foi obra de outros e Goinhas nem se apercebeu da relevância do que lá apresentou.
Nem se preocupou com o facto anormalíssimo de ter ficado sem explicação a extraordinária anomalia gravimétrica, que consta de peça desenhada, apesar de ter obrigação de se lembrar da norma rígida, nos tempos em que eu chefiava a Brigada, de nunca deixar anomalia alguma por interpretar.

Também os governantes, para os quais chamei a atenção, demonstraram igual insensibilidade, não obstante eu ter invocado a minha qualidade de Investigador Principal no SFM e de Professor Convidado das Faculdades de Ciências e de Engenharia do Porto, encarregado da regência de cadeiras de Prospecção Mineira, para dar peso ao meu alerta!

Estranho País este, que assim desperdiça as suas riquezas, ou as oferece, de mão beijada, a estrangeiros, para agora, na iminência de entrar em bancarrota, lhes vir, subservientemente, mendigar ajuda.

Vêem à minha memória dois velhos provérbios:
1 - Dá Deus nozes a quem não tem dentes!”
2 – Quem dá o que tem, a pedir vem!

Quando, em meados de 1948, fui encarregado de chefiar a Brigada do Sul do SFM, a equipa técnica desta Brigada, que anteriormente era constituída por 3 Engenheiros, 1 Geólogo e 12 Agentes Técnicos de Engenharia, ficou limitada, a 2 Engenheiros (sendo eu um deles) e 7 Agentes Técnicos de Engenharia,
O Geólogo passou a ficar independente, embora actuando na área atribuída à Brigada do Sul; 2 Engenheiros e 3 Agentes Técnicos de Engenharia tinham sido requisitados para prestar serviço em Moçambique; 2 Agentes Técnicos de Engenharia tinham rescindido os seus contratos.

A actividade da Brigada distribuía-se pela sede em Beja e por diversos núcleos, denominados Secções e consistia na investigação, exclusivamente por trabalhos clássicos (sanjas, galerias, poços) do real mérito de ocorrências de minérios vários, que constavam dos arquivos da DGMSG, relativamente a áreas a sul do Rio Tejo.

Do conhecimento, que não demorei a adquirir, sobre o modo como estavam a ser cumpridos os programas superiormente aprovados, cheguei à conclusão de que o caso de Montemor-o-Novo, a que aludi, não era excepção.
Destacava-se apenas pelo facto de os estudos, nessa área, já terem sido considerados concluídos, sem resultados de interesse, quando, na realidade se tratava de uma zona com excepcional potencialidade,

Outras situações se me depararam, nas quais tive rapidamente que intervir, para corrigir não só a orientação que estava a ser seguida, mas também o modo como os trabalhos estavam organizados.

A redução do número de técnicos da Brigada não ocasionou diminuição da sua produtividade.

Verificou-se, pelo contrário, até considerável progresso, devido a mais eficaz organização, que mais se fez sentir, quando passei a dispor, de bom equipamento (grupos electrogéneos, grupos moto-compressores, grupos electro-bombas, ventiladores eléctricos, martelos pneumáticos, etc,) recebido ao abrigo do Plano Marshall.
Este equipamento permitiu substituir o que estava em utilização, e que tinha sido o único de possível aquisição, perante as dificuldades originadas pela 2.ª Grande Guerra.
Já com muito uso, tinha ficado disponível, quando a guerra na Europa terminou e as empresas que tinham vindo explorar o nosso volfrâmio, para fabrico de material bélico, já dele não necessitavam, tendo, por isso, alienado as suas concessões mineiras.

Havia até núcleos (Montemor-o-Novo, Moura e Odemira), nos quais os novos trabalhos (sanjas, galerias, poços) dependiam, de métodos artesanais. Os furos para introdução de explosivos eram feitos à broca e à maça, com o inerente fraquíssimo rendimento!

O mais importante núcleo da Brigada do Sul era, então, a Secção de Cercal do Alentejo.

Tal como acontecera em Montemor-o-Novo, também em Cercal – Odemira, as investigações começaram com trabalhos mineiros, incidindo principalmente em jazigos, que não se encontravam em exploração, apesar de incluídos em concessões mineiras, outorgadas a importante empresa privada, sendo certo que, tais jazigos não estavam devidamente reconhecidos.

Estas primeiras investigações do SFM, na Região de Cercal – Odemira, enfermaram, igualmente, de defeitos originados pela inexperiência dos técnicos nelas envolvidos.

Estavam, então, a ser cumpridos Planos de reconhecimento de dois dos mais importantes sistemas filonianos da Região:
1 - o sistema que tem a sua parcela mais importante na concessão da Serra da Mina
2 - o sistema que tem a parcela mais importante na concessão da Serra do Rosalgar.

Ambos estes Planos tinham sido submetidos a apreciação do Conselho Superior de Minas e tinham merecido aprovação.

O Plano de reconhecimento intitulado “Jazigos de ferro e manganés do Alentejo. Estudo das Minas da Serra da Mina, Toca do Mocho, Serra do Lagar da Belas Vista, Cerro do Pinheiro da Bela Vista”, da autoria de um Engenheiro de Minas, um Geólogo e 3 Agentes Técnicos de Engenharia, está publicado no N.º 12 da série “Relatórios” do SFM.

O que dele consta a respeito da geologia da Região está totalmente errado.

Está também errado o que consta sobre geologia regional, na publicação N.º 13 da mesma série, subscrita por um Engenheiro de Minas e um Agente Técnico de Engenharia, intitulada “Jazigos de ferro e manganés do Alentejo. Mina da Serra das Tulhas”.

Errado está ainda o que consta, sobre geologia regional, nos artigos publicados na Revista do SFM, com o n.º 46 no Volume III e com o N.º 74, no Volume IV, o primeiro sobre o Plano de Reconhecimento da Mina de ferro e manganés da Serra do Rosalgar; o segundo sobre o Reconhecimento das Minas de ferro e manganés de Cerro da Figueira, Nascedios, Serra Comprida, Penedo Amarelo, Cerro da Serpe e Cabeço do Coelho.

São ridículas as ilações quanto à génese dos jazigos, sem base científica e até contrárias ao mais elementar bom senso.

Na publicação N.º 12, da série Relatórios, os autores ainda se referem a artigo do Geólogo alemão, Heinrich Quiring, no qual é mencionada a ocorrência, na Região, de rochas com origem em actividade ígnea.
Não tiveram, porém a curiosidade, que seria natural, de as procurar localizar, no terreno!

O que eu constatei, nas minhas primeiras visitas a esta Região, devido à experiência, adquirida, na Faixa Piritosa, durante os 3,5 anos, em que actuei nesta Faixa, dirigindo a Brigada de Prospecção Eléctrica, foi que as rochas que predominavam em Cercal – Odemira, tinham origem vulcânica.

Eram, na sua maior parte, pórfiros graníticos, com fenocristais, por vezes, de dimensões superiores a 2 cm (Ver posts N.ºs 17 e 195).

Não é fácil de compreender como, ao fim de 6 anos de actuação, nem o Geólogo, nem nenhum dos outros autores dos relatórios citados, se tivessem apercebido dos abundantes afloramentos destas rochas porfíricas, cujo carácter identificativo está bem patente, por exemplo, na zona da Serra Comprida, que tinha sido, por eles investigada, essencialmente com trabalhos à superfície.

Por outro lado, actuando a 1.ª Brigada de Levantamentos Litológicos e a Brigada de Prospecção Eléctrica, em conformidade com instruções do Director do SFM, em estreita ligação com a Brigada do Sul, para a qual enviavam, com regularidade, relatórios das suas actividades, mais estranha se torna tamanha falta de curiosidade.

Mas as deficiências não se limitaram ao domínio da geologia.

No cumprimento dos Planos de reconhecimento dos sistemas filonianos mais importantes da Região, verificavam-se inaceitáveis divergências, não só relativamente ao orçamento que tinha sido aprovado, mas também relativamente à execução dos trabalhos previstos.

O que mais me impressionou foi o facto de o mérito reconhecido, por dirigentes da DGMSG a estes Planos de reconhecimento, nos quais abundam gravíssimos erros, ter sido usado como argumento para me fazer ultrapassar, na hierarquia do SFM, o principal autor destes Planos, o Engenheiro Costa Almeida, que era, até então menos classificado que eu (comparar, na publicação N.º 18, as listas com a hierarquia do pessoal, em 1945 e em 1946).

No próximo post, continuarei a revelar as circunstâncias em que se desenvolveu, em diferentes épocas, a actividade na Região de Cercal – Odemira.

Referirei, também, os resultados conseguidos, que justificaram a passagem à fase de “lavra activa”, nas principais minas, e a utilização do seu valioso minério, na siderurgia nacional.

Referirei, ainda, o início das investigações tendentes a encontrar concentrações de sulfuretos complexos, idênticas às da Faixa Piritosa e o que ficou por realizar, perante a progressiva degradação do SFM, que acabou por conduzir à extinção deste Organismo, que chegou a ter prestígio nacional e internacional.

Continua …

sexta-feira, 15 de junho de 2012

201 - Possível enorme jazigo de sulfuretos na região de Montemor-o-Novo

Na sequência do que consta do último parágrafo do post anterior, transcrevo carta que escrevi ao Secretário de Estado da Indústria e Energia:

“Assunto: Um enorme jazigo se sulfuretos complexos em Montemor-o-Novo? Maior que Neves – Corvo?

Em documento que entreguei ao Senhor Ministro da Indústria, em 11 de Fevereiro passado, referi deficiências graves no funcionamento do SERVIÇO DE FOMENTO MINEIRO, a exigirem urgente correcção.

Invoquei a minha qualidade de Investigador Principal e de Professor Universitário Convidado e o meu currículo de quase 45 anos de diversificada actividade profissional, para dar peso às minhas afirmações.

Citei, por exemplo, uma campanha de prospecção mineira empreendida na região de Montemor-o-Novo, que é descrita no artigo de J. Goinhas e L. Martins, publicado a págs.119-149 do Tomo 29 de “ESTUDOS, NOTAS E TRABALHOS DO SERVIÇO DE FOMENTO MINEIRO”.

Deste artigo, consta desenho – de que anexo cópia – apresentando um perfil gravimétrico e um pseudo-perfil de resistividades eléctricas, em correspondência com secção geológica, elaborada com base em dados de superfície e de duas sondagens apoiadas nos resultados geofísicos.

O perfil gravimétrico evidencia anomalia de 2,45 mgal, isto é, uma alteração do campo gravítico normal, que só muito excepcionalmente será de esperar atingir-se, em prospecção mineira. O jazigo de Neves – Corvo, que foi descoberto essencialmente pela aplicação do método gravimétrico, provocou anomalia substancialmente menor!!!!

Valor tão elevado como o que se registou em Montemor-o-Novo, deveria ter provocado forte excitação aos técnicos da equipa a cujo cargo esteve a campanha de prospecção.

A realidade quase inacreditável é que se não procurou explicar tão desmesurada anomalia e, nesta data, ela está amplamente divulgada por esse mundo fora, através da distribuição da Revista.

Em estudo que fiz, utilizando os poucos dados da publicação, não me foi difícil concluir que, para gerar tal anomalia, seria necessária a existência de corpo denso de enormes proporções, que poderá ser jazigo mineral, talvez maior que Neves – Corvo.

Três hipóteses são de considerar:

a) Lapso grosseiro no desenho do perfil, talvez na escala gravimétrica;
b) Levantamento gravimétrico errado, no trabalho de campo ou de gabinete;
c) Anomalia genuína

Há que analisar cuidadosamente todas estas hipóteses

A verificar-se a terceira, impõe-se que se procure explicação cabal para a anomalia, antes que alguém de um país estranho apareça a candidatar-se a um contrato de prospecção e concretize uma invulgar descoberta …um pouco à semelhança do que aconteceu relativamente a NEVES-CORVO.

Este é, porém, apenas um exemplo, embora bem expressivo.

Estou à disposição de V. Ex.ª para outras informações e eventuais sugestões tendentes à desejável correcção do funcionamento do SERVIÇO DE FOMENTO MINEIRO e, consequentemente, a um melhor aproveitamento dos recursos minerais nacionais.

Apresento a V. Ex.ª os melhores cumprimentos.

S. Mamede de Infesta, 27 de Maio de 1988
(a) Albertino Adélio Rocha Gomes

Cópia a S. Ex.ª o Senhor Ministro da Indústria”

A esta carta, deu o Senhor Secretário de Estado, a seguinte resposta:

“Senhor Engenheiro Rocha Gomes:

Agradeço os elementos enviados em carta datada de 27 de Maio de 1988.

Tomei boa nota das informações aí expressas e procedi no sentido do meu Gabinete dar prosseguimento adequado às questões enunciadas.

Com os melhores cumprimentos

(a) Nuno Ribeiro da Silva

Nada, porém, aconteceu!!!

A extraordinária anomalia gravimétrica mantém-se sem explicação, até aos dias de hoje e ninguém com isso se preocupa!!

O pessoal técnico da 1.ª Brigada de Prospecção depressa esqueceu as lições que prodigamente lhes fui ministrando, durante vários anos.

Se há uma anomalia clara, geofísica ou geoquímica, tem que se encontrar uma explicação para ela.

Deviam lembrar-se do caso de Neves – Corvo e do clamoroso erro cometido pelo pessoal técnico da associação luso-francesa, que desvalorizou a importância da anomalia gravimétrica, preferindo valorizar interpretação geológica que se provou estar errada.

Deviam também lembrar-se do caso do jazigo da Estação em Aljustrel e das pressões do Director-Geral para terminar uma sondagem que estava a tornar-se muito dispendiosa e da minha recusa por não ter sido ainda explicada a anomalia que se investigava, apesar de ser de moderada intensidade.

Este artigo é mais um escandaloso exemplo da apropriação do trabalho de outros, para publicação.

Neste caso, nem sequer são citados os chamados “relatórios internos”, em Bibliografia consultada!
Nenhum deste Geólogos foi autor dos trabalhos de prospecção geofísica que apresentou.
Nenhum deles teve participação nas descobertas de ocorrências auríferas, as quais foram de minha exclusiva responsabilidade, muito anteriormente ao seu ingresso no SFM (Ver post N.º 18).
Estudos, feitos em ocorrências de vários outros minérios, constavam do relatório que eu tinha em preparação, quando tive que dedicar todo o meu tempo a organizar um Serviço de Prospecção extensivo a todo o território metropolitano nacional. (Ver também post N.º 18)
O que foi realizado nestas ocorrências consta, porém, dos relatórios anuais do SFM publicados até 1964.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

200 – Novo Plano Mineiro Nacional. Continuação 24, Referência especial à Região de Montemor-o-Novo

A prospecção mineira, no seu conceito lato, inclui todos os estudos, que visem a definição de reservas de recursos minerais, para futura exploração e comercialização.

Seguindo este conceito, que deduzi ter sido adoptado por José Goinhas, no documento sobre a história da "Prospecção Mineira em Portugal", que tenho vindo a analisar, cheguei, nesta análise, à fase final, caracterizada pela execução de trabalhos mineiros desenvolvidos.

Com base nos elementos constantes dos relatórios anuais, publicados até 1964, salientei que a acção das Brigadas do SFM, do Norte e do Centro, desde a criação do Serviço, conduziu, unicamente, à definição de reservas significativas, no jazigo de ferro de Guadramil e a exploração, por empresa privada, no jazigo de chumbo argentífero de Terramonte.

Vou agora referir-me à actividade da Brigada do Sul no mesmo período.

A região de Montemor-o-Novo foi a seleccionada para os primeiros estudos.
As publicações nºs 3 e 15 da série “Relatórios” dão conta dos trabalhos efectuados nas minas de ferro existentes nesse concelho e dos respectivos resultados.

Da Introdução do relatório de 123 páginas e 39 peças desenhadas, subscrito por um Engenheiro, um Geólogo e dois Agentes Técnicos de Engenharia, que foi publicado em 1949, com o N.º 15, destaco as seguintes passagens:

“Com a designação “Minas de Ferro de Montemor-o-Novo”, incluímos o conjunto de minas, situadas neste concelho, constituindo a faixa mineralizada de cerca de 12 quilómetros, que se estende desde a Herdade da Nogueirinha, a sudeste, até à Herdade da Gamela, a noroeste”

“Algumas destas minas foram largamente exploradas, como se verá no decorrer deste relatório, tanto em tempos bastante remotos, como há uma dezena de anos a esta data; outras não apresentam quaisquer trabalhos.
Circunstâncias umas vezes de ordem técnica e outras de ordem económica conduziram estas minas a uma exploração pouco regular e intermitente.
O estado actual dos trabalhos e os estudos realizados levam-nos à desoladora conclusão de que as massas importantes deste jazigo foram extraídas, apenas restando pequenas tonelagens dispersas com minério de qualidade inferior ao extraído.”

Do capítulo “Conclusões” destaco:

“Os autores de alguns relatórios antigos admitem a possibilidade de o jazigo se prolongar em profundidade sob a forma de pirite. Para nós, as condições genéticas do jazigo e as observações feitas em profundidade, principalmente para o grupo sudeste da faixa mineralizada, são suficientes para excluir esta hipótese.”

Não sei o que mais me surpreendeu:
... se, em completo desrespeito por disposições legais em vigor, se ter permitido a manutenção, por empresa privada, de concessões mineiras, nas quais o SFM, após estudos que realizou, ter declarado não existirem concentrações de minério que justifiquem exploração;
... se a escolha, para publicação, de um relatório, com conclusões negativas, que não era obviamente estimulante para novos estudos por empresas mineiras.

O mesmo Director do SFM, o Engenheiro Guimarães dos Santos, viria, poucos anos mais tarde, a manter sem publicação, vários relatórios de minha autoria, nos quais eram apresentados resultados positivos, de muito interesse.
Só por intervenção do Director-Geral, Engenheiro Castro e Solla, quando lhe dei conhecimento desse facto insólito, é que Guimarães dos Santos decidiu publicar alguns dos meus relatórios, seleccionando, porém, para o efeito, os que tinham menos páginas e peças desenhadas e, mantendo os principais em arquivo.
Aconteceu que a publicação de um desses relatórios logo suscitou o interesse de Companhia estrangeira para celebrar contrato com o Estado, visando dar continuidade aos estudos que o SFM não tinha podido completar por não dispor, então, dos equipamentos necessários. (Ver post N.º 3)

A óbvia realidade é que as conclusões a que chegaram os 4 autores da publicação N.º 15 da série “Relatórios”, não podem ser levadas a sério.

Todos aqueles autores eram técnicos recém-formados, até com baixas classificações nos seus cursos, portanto sem experiência profissional e com pouca capacidade para a terem adquirido durante os anos em que participaram nos estudos destas Minas.

De facto, tratando-se de um jazigo com a extensão de 12 km, seria natural formular a hipótese de que também atingisse grande profundidade.

A zona onde o concessionário fez exploração e onde o SFM procedeu principalmente a desobstruções e a amostragens de minério não extraído pelo concessionário, devido à sua inferior qualidade, seria a parte superior de um jazigo de enormes dimensões, que conteria, não apenas magnetite, mas provavelmente também sulfuretos vários.

A parcela conhecida seria o que, em linguagem corrente se exprimiria por “ponta de um iceberg”.

O primeiro Director do SFM, o Engenheiro António Bernardo Ferreira, apercebendo-se desta possibilidade, promoveu que fosse empreendida campanha de prospecção, pelo método magnético, para localizar concentrações de minério ocultas.
A campanha esteve a cargo da Companhia sueca ABEM, mas não conduziu a resultados com interesse.
A abundância de magnetite, à superfície, derivada das explorações, provocava anomalias que mascaravam efeitos provenientes de possíveis concentrações profundas.

Quando, em 1948, passei a dirigir a Brigada do Sul, uma área que, de imediato, mereceu a minha atenção, foi a que passei a denominar de Faixa Magnetítica, onde ocorrem os conhecidos jazigos de Montemor-o-Novo, Alvito, Orada e outros de menor importância.

Alguns anos mais tarde, fui induzido a alterar a designação para “Faixa Magnetítica e Zincífera”, por ter reconhecido que, no mesmo ambiente geológico, ocorriam também mineralizações de sulfuretos, sobretudo de zinco, constituindo horizonte mineralizado idêntico à Faixa Piritosa, situada mais a sul. (Ver posts N.ºs 8, 12 e 19).

Em 1961, foi-me dada uma extraordinária oportunidade de resolver o problema ocasionado pela abundância de magnetite à superfície.

Eu tinha sido nomeado para representar Portugal, em reuniões em Paris, por um Grupo de técnicos de 18 países, constituído “ad hoc”, no âmbito da OCDE, para aplicação de métodos modernos de prospecção
Na sequência destas reuniões, apresentei um ante-projecto de prospecção aérea no Alentejo. (Ver posts N.ºs 4 e 22).

A seguir, transcrevo, o que escrevi, a este respeito no post N.º 22

“O ferro apresenta-se geralmente sob a forma de magnetite. Os seus jazigos situam-se “grosso-modo” numa faixa paralela á Faixa Piritosa, que se alonga desde as imediações de Montemor-o-Novo até à fronteira, perto de Moura.
Não temos elementos que nos permitam ajuizar se esta Faixa continua em Espanha. Haveria interesse em estudar esta questão.
Presentemente há apenas um jazigo de magnetite em exploração.
Para encontrar outros que mereçam exploração, cuja existência se crê possível, têm sido feitos levantamentos magnéticos, à superfície, numa parcela importante da Faixa.
Os resultados já obtidos oferecem um certo interesse.
Todavia, há ainda uma extensa zona a estudar, com problemas difíceis de resolver por este método, com observações no solo, devido a pequenas concentrações de magnetite sem interesse económico que se encontram perto da superfície e que, interpondo-se, podem mascarar a influência de massas importantes que eventualmente se encontrem em profundidade.

Acreditamos que um levantamento aéreo, pelos métodos magnético, electromagnético, gravimétrico e talvez radiométrico (se a Junta de Energia Nuclear nisso revelar interesse) cobrindo a área indicada na carta mineira, deveria ser considerado, a fim de contribuir para uma mais rápida solução dos problemas enunciados.”

Este ante-projecto incluía um extracto da Carta geológica do Sul de Portugal (a Sul do Rio Tejo), à escala de 1:500 000 e um extracto da carta mineira da mesma área, à mesma escala.

Foi tão boa a aceitação do ante-projecto que a OCDE decidiu considerar a sua extensão ao Sul de Espanha.

Entretanto, ocorreram na Direcção-Geral de Minas alguns acontecimentos que vieram alterar a sequência do ante-projecto.

No segundo semestre de 1962, o Engenheiro Luís de Castro e Solla pediu a exoneração do cargo de Director-Geral de Minas (facto a que oportunamente me referirei mais detalhadamente, pelo seu ineditismo), indicando para o substituir o Engenheiro Fernando Soares Carneiro.

O novo Director-Geral, sem me dar qualquer explicação, nomeou, em Maio de 1963, como representante de Portugal no Grupo de Trabalho da OCDE para a prospecção mineira, o Engenheiro que acabara de deixar o cargo de Director do SFM, no qual se mantivera durante 15 anos.

A experiência deste Engenheiro em prospecção mineira era nula.

Isso se reflectiu, em contactos posteriores com representantes da OCDE vindos a Portugal para reuniões tendo em vista a concretização da prospecção aérea no Sul de Portugal e Espanha.

Numa dessas reuniões, que teve lugar em Lisboa, com presença do Director-Geral de Minas, de um seu Adjunto (o cognominado Ajax), dos representantes portugueses da OCDE e do dirigente máximo do Grupo de Trabalho da OCDE, vindo propositadamente de Paris, foi pedida a minha participação, como elemento mais conhecedor do tema, de que fora autor.

Senti-me tão mal impressionado com a falta de empenhamento dos principais representantes da Direcção-Geral de Minas e com as atitudes grosseiras do novo Director-Geral, que logo me apercebi de que o projecto se iria gorar.

E foi o que aconteceu. Não mais ouvi falar dele! “

. Não tendo tido concretização, este projecto havia que prosseguir as investigações, a partir da superfície, nesta Faixa Magnetítica e Zincífera, com aplicação das técnicas geofísicas e geoquímicas, nas quais o Serviço de Prospecção, por mim dirigido, vinha adquirindo larga experiência.

Foi assim que se fizeram as descobertas dos jazigos de Algares de Portel e de Vale de Pães e se confirmou que ocorrências de minérios de ferro, tais como Vale do Vargo e outras dos arredores de Moura eram afinal chapéus de ferro de jazidas de sulfuretos.

Registo que Goinhas não alude, na sua história, a estes importantes factos, esquecendo-se até de citar, na bibliografia, a Comunicação que apresentei nas Jornadas de Engenharia de Moçambique, em 1965, sobre a notável descoberta de Algares de Portel, a qual foi publicada pela Sociedade de Estudos daquela ex-província ultramarina portuguesa.

A prioridade que era dada aos estudos na Faixa Piritosa, perante os espectaculares resultados que vínhamos obtendo, originava progressos mais lentos, na Faixa Magnetítica e Zincífera.

Impunha-se prosseguir, nessa Faixa, sobretudo, com as campanhas de gravimetria.

A 1.ª Brigada de Prospecção estava organizada para esse efeito.

Mas, em Janeiro de 1975, conforme descrevi nos posts N.ºs 81 até 91, os Engenheiros, os Geólogos, os Agentes Técnicos de Engenharia, e outro pessoal contratado, ao qual eu tinha dado formação técnica, ou promovido que fosse especializado na prática dos diversos métodos de prospecção, decidiram solicitar a minha demissão da chefia da 1.ª Brigada de Prospecção, que tinha sido pacientemente por mim organizada, ao longo de muitos anos.
Tomaram esta atitude de prescindir da minha orientação superior, obedecendo a instruções de dirigentes malévolos, que tentavam, a todo o custo, manter-se nos cargos a que tinham ascendido, no regime político anterior à Revolução de Abril de 1974, não por competência, mas por considerações de ordem político-religiosa (Ver post N.º 25)

Nestas circunstâncias, deixei de ter conhecimento do progresso dois estudos na Faixa Magnetítica e Zincífera.

Sabia apenas que, tendo-me acusado de ter ocasionado enormes prejuízos ao País, o Geólogo Delfim de Carvalho, que passara a assumir-se como principal dirigente da Brigada, declarou publicamente que, com a minha demissão da chefia da Brigada, “nada parou, tudo continuou”!!!. (Ver post N.º 101)

Isto induziria a pensar que continuavam os prejuízos, … ou então, se tudo continuava a correr bem, que eles a si próprios se classificavam de traidores.

O facto era que a Brigada estava organizada, com os seus diferentes núcleos, actuando por todo o Alentejo e, até por “inércia de movimento”, teria de manter-se activa, seguindo ou não os planos que eu traçara.

Mas o que chegava ao meu conhecimento não era animador.
A Brigada que eu pacientemente organizara, durante anos, estava a desintegrar-se.
O Geólogo Delfim de Carvalho, apesar do caloroso empenho que quis manifestar pelo progresso da Brigada, logo que pôde, abandonou-a para ocupar a chefia dos Serviços Geológicos.
E o Engenheiro Vítor Borralho, outro dos principais autores do vergonhoso documento que conduziu à minha demissão da chefia da Brigada, conseguiu ser nomeado Administrador de Minas de Aljustrel.
E o próprio Goinhas acabaria por sair para dirigir o Gabinete para a Prospecção e Pesquisa de Petróleo !!!

Já me tinha surpreendido o comentário depreciativo de Jorge Gouveia, quando ocupou o cargo de Director do SFM, ao informar-me de que, no Sul, andavam a inventar trabalho.
Queria significar que faziam cobertura de áreas por técnicas geofísicas, apenas para manter activo o seu excessivo pessoal, de cuja admissão me culpava.
A minha reacção foi, então de que, quando estiveram sob minha chefia, não conseguiam realizar senão uma parcela mínima do que eu projectava. (Ver post N.º 134).

Mas a qualidade que passaram a ter os estudos na 1.ª Brigada de Prospecção ficou bem patente em diversos documentos publicados.

Já me referi ao caso do Salgadinho, que Delfim de Carvalho promoveu a jazigo, colocando-o em paralelo com Neves – Corvo e que não passa, por enquanto, de um bom indício da ocorrência de calcopirite, para cuja descoberta Delfim de Carvalho além de nada ter contribuído, passou a investigar de modo muito incorrecto, com enorme desperdício de dinheiros públicos.

A outros casos semelhantes me referirei oportunamente.

No próximo post, revelarei a decisão que fui compelido a tomar, após a leitura do artigo da autoria dos Geólogos José Goinhas e Luís Martins, publicado em 1986, no Tomo 28 da Revista do SFM, com o titulo:
“Área metalífera de Montemor o Novo. Um exemplo da evolução dos objectivos em prospecção mineira”.