terça-feira, 28 de dezembro de 2010

152 – O 5.º Director do SFM. Continuação

Fernando da Silva Daniel, quando me foi apresentado pelo Director-Geral, na qualidade de novo Director do SFM, não mostrou pressa em ter reunião comigo.

Conforme revelei no post anterior, na sua primeira conversa, já denunciava influência dos funcionários que tiveram maiores responsabilidades na decadência a que tinha chegado o SFM.

Era com eles que tinha privilegiado os seus primeiros contactos.

De facto, em 22-9-83, Laurentino Rodrigues dá-me conhecimento de que Daniel fizera, nesse dia, a sua primeira aparição nas instalações de S. Mamede de Infesta, acompanhado do seu antecessor, Jorge Gouveia.

Jorge Gouveia, afinal, não se tinha aposentado, como eu ingenuamente presumira.
Ele que tinha, desde 27-9-79, a categoria de Assessor da letra B, equivalente à do Director-Geral, aceitara cargo de Chefe de Serviços Gerais, isto é, Chefe das Oficinas de Serralharia, Carpintaria, etc., que exerceria a partir de Lisboa, onde residia!!!

Constou que tentaram atribuir-lhe o pelouro da Documentação, não obstante ser bem conhecida a sua acção negativa neste sector, pois foi durante o seu mandato que deixaram de se receber muitas Revistas essenciais à permanente actualização dos técnicos do SFM.

Nesta primeira aparição, Daniel não teve a elementar atitude de se apresentar ao numeroso pessoal que exercia funções, com base nas instalações de S. Mamede de Infesta, para dar a conhecer as suas ideias sobre o modo como iria desempenhar o importante cargo em que fora investido.
Ignorou, deliberadamente, a minha existência, ausentando-se sem passar pelo meu gabinete.

Foi em 11 de Outubro, isto é, mais de um mês após o encontro de Lisboa, que se dispôs a ter comigo a reunião que havia sido combinada.
Mas não manifestava grande empenho em iniciá-la.
Informado da sua presença nas instalações de S. Mamede de Infesta e admirado por não me convocar, perguntei à telefonista D. Flávia se o tinha visto. Fiquei a saber que conversava com vários funcionários., no átrio, à entrada do edifício.

Indo ao seu encontro, vi-o exuberante, dissertando sobre temas vários, perante um grupo constituído pelo Ex-Director do SFM, Múrias de Queiroz, pelo Geólogo Dr. Orlando Gaspar, pelo Arquitecto Linhares de Oliveira, pelo Engenheiro Rui Reynaud, que com ele viera de Lisboa e pelo Engenheiro Bento recentemente admitido para se encarregar das viaturas.

Causou-me surpresa a presença de Múrias de Queiroz, que julgava também já aposentado, pois tinha visto em Diário da República, a sua nomeação para Inspector Superior de Organismo que já tinha sido extinto (Ver post n.º 127), e depois, em 23-3-80 a promoção à categoria de Assessor da letra B.
Tinha interpretado estas curiosas nomeações como procedimento para o afastar de um Organismo em cuja direcção não tinha sido feliz (para dizer o menos), sem lhe causar prejuízo na remuneração e beneficiando-o até.
Soube, mais tarde, que aceitara encarregar-se da Documentação, apesar de ser bem conhecido o seu carácter desorganizado.
Múrias de Queiroz, quando Director do SFM, muito prejudicara este departamento, ao fazer regressar à sua sede, em Lisboa, o diligente Agente Técnico de Engenharia Fernando Macieira, que fora o seu organizador.
Desde que Fernando Macieira deixou o SFM, não mais se publicou o relatório anual do SFM, que era um importante documento de consulta, sobretudo por entidades privadas. Era Macieira quem se encarregava de compilar os relatórios de todos os departamentos, e elaborar depois o relatório anual do SFM, que o Director subscrevia.

Demonstrando inconsciência das responsabilidades que assumia ao aceitar o cargo de dirigente de Organismo em situação caótica, onde a indisciplina se tornou regra, não se mostrava interessado no combate às causas dessa situação, alegando que, nela não tinha responsabilidades.
Fez a revelação de que iria trabalhar por projectos que entregaria a “responsáveis”, ficando ele “de fora!”.
Só teria de apreciar os projectos e controlar!
E acrescentou: “Não vim aqui para trabalhar. Isso compete aos mais novos!”!
Eu e Gaspar observamos que o difícil era encontrar no SFM “responsáveis” com competência, sabido como se tinha desprezado, nos últimos tempos, a experiência dos técnicos mais competentes, ao retirar-lhes a chefia de projectos e se não tinha estimulado a formação científica de novos técnicos.

Em tom ameaçador, declara ter carta branca de Alcides para agir com dureza, perante os que não entrarem no esquema.
Dirigindo-se a Bento, pergunta o que faria se tivesse um parafuso a estragar o movimento da caixa de velocidades. Tirava o parafuso, não era?!
Referiu-se, então, ao corte de um braço, com machado, se esse braço perturbasse!
Daqui a alcunha do “corta braços” com que logo foi baptizado

Bento, falava de viaturas e Daniel corrige, informando que o Fomento não tem viaturas. Estas pertencem agora ao Serviço de Apoio. Será este novo Serviço a distribuí-las, quando solicitadas! E Bento, que delas estava encarregado, ainda não sabia!

O grupo desintegra-se acabando por ficar reduzido a Daniel, Dr. Gaspar e eu.

Dr. Gaspar, que fora seu colega na Universidade e não estava na sua dependência, aconselha-lhe prudência nas suas atitudes, pois nota já haver muita gente assustada.
Pergunta se vai ser mais um engenheiro de papel selado.
Daniel responde que não, que é técnico e, como tal, se irá comportar.
Chama-lhe a atenção para as responsabilidades dos Engenheiros que, com a minha excepção, não trabalharam; só davam ordens, ocupando as posições de chefia.
Dr. Gaspar que é técnico laboratorial, especializado em microscopia de minérios, faz-lhe ver a necessidade de reintegrar os Laboratórios no Fomento e de combater a sua actual ineficácia, uma vez que praticamente não produzem análises.
Daniel, em atitude fanfarrona, diz que vai mesmo obter análises, mas não parece preocupado com a falta de credibilidade para que Dr. Gaspar e eu lhe chamamos a atenção...

Na sua desconexa divagação, refere sondagens projectadas, cuja finalidade lhe pareceu mal justificada e muitas sondas paradas em Vila Franca de Xira, por falta de projectos.

Comentando a situação que encontrou no Sul, Daniel diz que pôs o problema da chefia aos 3 engenheiros. (Alvoeiro, Bengala e Nolasco) e todos recusaram.
Então, na impossibilidade de ser Goinhas a dirigi-los, encarou nomear um contínuo para os chefiar!!
Ainda que proferida em tom chocarreiro, era desprestigiante tal expressão!

Fiquei, assim, a saber que não estava nos seus propósitos imediatos fazer regressar esta Brigada à normalidade, que tinha sido destruída com a minha demissão da sua chefia, provocada pelo infame documento, de que lhe tinha dado conhecimento.
Gaspar revela-lhe que esses Engenheiros estavam habituados a que eu, Rocha Gomes, lhes resolvesse os problemas, salientando que eu tinha a Brigada organizada e eles, apesar da sua mediocridade, ainda tiveram o bom senso de manter a estrutura que herdaram.

Quando se decide a ter a projectada reunião comigo, dirigimo-nos para um pequeno gabinete, que era anteriormente ocupado pelo Chefe do MOVIC, o qual o Director do Laboratório, Santos Oliveira, lhe cede para seu uso.
Santos Oliveira não tivera a deferência de convidar Daniel a usar o salão que originalmente tinha sido instituído para as reuniões do SFM.

Continua no próximo post

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

151 – O 5.º Director do SFM

Conforme referi, no post anterior, o Engenheiro Fernando da Silva Daniel, oriundo da indústria privada, esteve, durante três horas, em sala contígua ao gabinete do Director-Geral de Minas, aguardando que este o chamasse para lhe dar conhecimento do que tinha sido acordado na reunião que acabava de ter comigo.

Causou-me estranheza mais este acto de indelicadeza e desrespeito por princípios éticos elementares.

O cargo de Director do Serviço de Fomento Mineiro exigia que lhe fosse conferida dignidade correspondente às suas elevadas funções.

Em meu entender, Fernando Daniel também deveria ter sido convocado para a reunião, e deveria ter participado na análise da situação decadente em que se encontrava o SFM.
Seria de esperar que, dessa análise, resultasse uma clara definição dos projectos a cumprir e das regras a respeitar para uma eficaz execução.

Até para funcionário subalterno seria censurável tratamento igual ao que foi dispensado ao Engenheiro Daniel.
A um futuro dirigente do departamento mais importante de toda a DGGM, era inadmissível semelhante humilhação.

Perante o que descrevi no post anterior, fiquei convencido de que a decisão final de nomear o Engenheiro Daniel, para o cargo de Director do SFM, estaria dependente da minha aprovação, e Daniel disso estaria consciente.

Durante a sua curta presença no gabinete do Director-Geral, Daniel, que já se sujeitara àquele desprestigiante tratamento inicial, depressa demonstrou que talvez dele fosse merecedor.
De facto, rapidamente revelou carácter muito diferente do que eu tinha o direito de esperar, não só por ter sido escolhido para o cargo, mas também pelas boas referências que Nabais Conde me fizera a seu respeito.

Não foi um encontro franco e cordial de técnicos que encarassem, com entusiasmo, a resolução dos aliciantes problemas suscitados pela prospecção mineira.
Mais uma vez, parecia começar a confirmar-se a famosa lei de Murphy.

Como era inevitável, o tema em que eu mais insistia, na conversa a três, era a decadência, em que o SFM mergulhara, a qual tinha conduzido à demissão de Jorge Gouveia da respectiva chefia.

Grande foi a minha decepção, quando Fernando Daniel, em vez de mostrar interesse em analisar as causas de tal decadência e em introduzir as correcções que se impunham, fez o seguinte infeliz comentário, quando eu me propunha auxiliá-lo no correcto desempenho das suas futuras funções “Vemos nos outros aquilo que nós somos!”.
Interpretei que já estava negativamente influenciado por elementos nocivos da DGGM, com os quais teria contactado.

Avisei-o de que tinha que conhecer com quem iria trabalhar, salientando que, com os actuais chefes, não iria a lado algum!
Como exemplo típico, citei o caso do Geólogo de recente contratação, Luís Francisco Viegas, que apesar da sua comprovada incompetência e da indisciplina que acrescentou ao SFM, conseguiu, talvez por considerações de ordem política (gabava-se da sua militância na LCI – Liga Comunista Internacionalista) ascender a Chefe de Divisão.
Daniel reage, dizendo acreditar nos que dele faziam boas referências.
Deduzo que os seus informadores pertenceriam ao grupo de ignorantes no qual Viegas se incluía.

Num discurso desconexo, pretendeu mostrar desinteresse pelo passado do SFM, dando a entender que só o futuro o preocupava.
Idêntica atitude tinha assumido Jorge Gouveia, quando fora nomeado para o cargo, o que constituía mais um mau prenúncio.
Procurei esclarecê-lo de que o futuro teria, obviamente que ser alicerçado na experiência válida acumulada ao longo dos 40 anos que o SFM já contava. Insistiu em discordar.

Acompanhei-o até à porta do edifício de António Enes, onde me aguardava nova surpresa.
Já lhe tinha sido distribuída uma viatura Renault 4L, para seu uso pessoal, e era nela que iria regressar à sua residência em Oeiras! Privilégio sem base legal!

Na curta conversa que tivemos, antes de entrar na viatura, começou por me revelar a sua tentativa de ingressar na DGGM, na década de 70, à qual Soares Carneiro se opôs. Comentou que, nessa época, só entravam Geólogos.

Demonstrou, em seguida, que, afinal, contrariamente ao que afirmara, se interessara pelo passado do SFM, pois estava bem informado de comportamentos reprováveis de vários funcionários.

Referiu-se, por exemplo, à Secção de Vila Viçosa, onde o seu Chefe, Manuel Camarinhas, se dedicava essencialmente a trabalhos particulares, em pedreiras.
Informei o que conhecia do passado de Camarinhas, desde a longa permanência em levantamentos geológicos de deficiente qualidade, integrado na 2.ª Brigada de Levantamentos Litológicos, até ao início da actividade de prospecção mineira, integrado no 1.º Serviço, sob minha direcção, na qual mostrou dificuldade de adaptação, pois estava habituado a um regime de trabalho muito pouco exigente, acabando, porém, por constituir uma Secção verdadeiramente eficaz.

Pergunto-lhe se sabe o que fazem as Secções de Melres, Mirandela, S. João da Madeira, Aveiro e Coimbra e se tem conhecimento de passeatas de funcionários, a colher amostras com o único objectivo de justificar deslocações com direito a ajudas de custo.
Declarou conhecer bem o estado em que o SFM se encontrava, o que, de novo, me surpreendeu.
Não pude deixar de manifestar as minhas sérias dúvidas. Disse-lhe mesmo: “Você não sabe no que se meteu!”

As suas referências a técnicos superiores da DGGM eram essencialmente de ordem política, nos seus aspectos mais negativos.
Goinhas, dirigente do PSD em Beja, estava mais envolvido nos problemas do partido, que no desempenho das suas funções no SFM.
Borralho também se tinha politizado, mas em partido de esquerda, por isso, previa choques entre ambos.
De Delfim de Carvalho, realçava a pressa em se filiar no Partido Socialista.
Só muito mais tarde, tomei conhecimento de que, afinal, também a nomeação de Daniel obedecera a favorecimento político. Teria sido Mota Pinto, que chegara a exercer o cargo de Primeiro-Ministro, quem o recomendara para Director do SFM.

Comentou, ironicamente, que a Direcção-Geral de Minas actuava em benefício de Soares Carneiro, fazendo “uns trabalhos de prospecção”.
Conseguindo manter-me calmo, perante tão insensata depreciação da principal actividade do SFM, expliquei-lhe que os trabalhos de prospecção por mim dirigidos faziam a admiração de estrangeiros, e nunca tinham sido orientados para proveito de Soares Carneiro; mas sim em defesa dos reais interesses do País.
Por ser notório que nunca trabalhei para agradar a dirigentes; tive permanentes dificuldades na Direcção-Geral.

Falando-se da exposição dos 25 funcionários contratados da 1.ª Brigada de Prospecção que conduziu à minha demissão da chefia desta Brigada, atribuiu o principal papel ao Geólogo Goinhas, mas não manifestou repulsa pelo acto, nem disposição para corrigir a situação que me foi criada pelo calunioso documento.
Para que se tornasse possível a realização de trabalho útil, no SFM, era essencial sanear o ambiente, enfrentando corajosamente os problemas suscitados por aquela sórdida exposição.
E não parecia que Daniel tivesse tal disposição.
Ele colocava-se numa posição subalterna, de ex-infeliz companheiro de trabalho de Goinhas e, daquele grupo de 25 funcionários, só este Geólogo o preocupava.
Tinha tido, com ele, sérios problemas, quando ambos estiveram contratados pela Compagnie Royale Asturienne des Mines, durante as investigações desta Companhia nas Minas das Preguiças em Moura e parecia agora disposto a retaliar.

Abordando o tema de Neves – Corvo, diz que Soares Carneiro apresentava Delfim – o seu delfim – como o autor da descoberta, mas ele atribuía-a ao Geólogo Nabais Conde, assim demonstrando total ignorância, quanto ao fundamental papel do SFM neste sucesso.
Informei-o da entrega da área, sem eu ter sido consultado, a uma Associação privada, quando a anomalia gravimétrica, que era a assinatura do jazigo, estava quase totalmente definida. Não pareceu, porém, acreditar tratar-se de um êxito essencialmente do SFM.

Não notei, em Daniel, capacidade para exercer, com eficácia e dignidade, as funções em que iria ser investido.

Apesar desta desagradável apresentação, mantive a esperança de poder esclarecê-lo, quanto às medidas indispensáveis para fazer sair o SFM da deplorável situação em que se encontrava.
Ficou combinado um encontro, talvez em S. Mamede de Infesta, dentro de 2 a 3 semanas, para mais ampla análise da situação do SFM e para definir o papel que eu deveria desempenhar, nesta fase da minha carreira profissional,
Não mostrava pressa, o que continuava a não ser de bom augúrio.

Continua …

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

150 - Alcides Pereira manda secretária transmitir ordem para eu comparecer, no seu gabinete, em Lisboa

Em 7-9-83, regressado de um dia de trabalho de campo, na região de Caminha, fui informado de que Alcides Pereira deixara mensagem para eu lhe telefonar.

Quando pretendia dar cumprimento a esta ordem, não foi Alcides quem me atendeu.
Não teve essa consideração, como exigiam princípios elementares de ética e deontologia profissional, apesar de saber que eu, com 40 anos de permanência no SFM, era, não só o funcionário mais antigo da DGGM, mas também o técnico detentor do mais valioso currículo, sendo responsável pelos maiores êxitos do SFM, em toda a sua existência.

Foi D. Maria Eugénia quem surgiu ao telefone, dizendo ser sua secretária e logo comunicando ter sido incumbida de transmitir convocatória para me apresentar no gabinete, do Director-Geral, em Lisboa, na próxima 6.ª feira, 9 de Setembro.
Perguntei qual era a agenda de trabalhos. Respondeu não saber!

Perante o que constava sobre a demissão de Jorge Gouveia, era de prever que Alcides pretendesse terminar com a situação originada pela sucessão de ordens ilegais e lesivas da eficiência do SFM, que tinham confinado a minha actividade à região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima.

Eu apresentava os meus relatórios, na qualidade de Chefe do Serviço de Prospecção Mineira do SFM, cujas funções eram extensivas a todo o território metropolitano nacional, porquanto todas as ordens, visando restringir essas funções, tinham sido emitidas por Comissões ilegalmente constituídas, conforme demonstrei, em reuniões na Secretaria de Estado da Indústria.
Numa dessas reuniões, em que tinham participado o Dr. Luís Lobo, em representação do Ministro da Indústria e Alcides Pereira, em representação do Secretário de Estado, ficou claramente confirmada essa indiscutível ilegalidade (Ver post n.º 112).

Seguiram-se as exonerações de Soares Carneiro e de Múrias de Queiroz dos cargos de Director-Geral e de Director do Serviço de Fomento Mineiro, sem que lhes fossem exigidas responsabilidades pela degradação que tinham introduzido no SFM e também noutros departamentos da Direcção-Geral de Minas.

Após as duas Resoluções que o Conselhos de Ministros sentiu necessidade de publicar, para exigir que o respeito pela hierarquia e a competência profissional fossem princípios fundamentais para a nomeação de cargos dirigentes (Ver posts n.ºs 128 e 133), esperavam-se medidas enérgicas no sentido de serem corrigidas as decisões erradas que tinham justificado a exoneração daqueles funcionários.

Não foi, porém, isso que aconteceu, como tenho vindo a revelar em sucessivos posts.

Pelo contrário. Os novos dirigentes que, em escandalosa desobediência àquelas Resoluções, não tinham sido escolhidos com base em competência técnica ou outros predicados, patentes nos seus currículos, não tinham, obviamente, capacidade nem autoridade moral, para corrigir esses erros e, muito menos, para promover a responsabilização de quem permitiu o “assalto” aos cargos de chefia criados pela Decreto-lei 548 /77.
Eles, afinal, incluíam-se no bando de “assaltantes”.
Por isso e por comodismo que gera inércia, começaram por aceitar a situação que receberam e acabaram até por agravá-la.
Daí resultou a necessidade de exonerar Jorge Gouveia.

Alcides era um exemplo típico do “Chico esperto” português.

De modestíssimo funcionário do Gabinete para a Prospecção e Exploração de Petróleo (Organismo cuja existência não tinha justificação, conforme denunciei no post n.º 118), conseguiu, em apenas três anos, ser promovido ao cargo máximo na DGGM!!!

Na reunião de 10-8-77, a que fiz referência no post n.º 112, Alcides Pereira, na qualidade que lhe tinha sido conferida de representante do Secretário de Estado da Indústria, foi por mim informado, na presença de Soares Carneiro e de Múrias de Queiroz, de vasta série de irregularidades cometidas por ambos estes funcionários, que então detinham ainda os cargos de Director-Geral de Minas e de Director do SFM, respectivamente.

Apresentei documentos comprovativos de tudo quanto afirmei, salientando que, na sua maioria, já deviam constar dos arquivos da Secretaria de Estado, pois tinham sido enviadas cópias, em várias das minhas exposições, a solicitar a intervenção governamental para travar a marcha do SFM no sentido da sua destruição.
Alcides Pereira pediu que lhe deixasse todos esses documentos para serem devidamente analisados.
Acedi ao seu pedido, com a condição de me serem devolvidos, pois de alguns deles não tinha cópias.
Alcides concordou, mas nunca devolveu tais documentos, com diversas evasivas que, juntamente com outras das suas atitudes, não eram abonatórias do seu carácter.

Por consequência, quando, em 11-11-1980, foi nomeado Director-Geral de Minas, estava plenamente informado das graves irregularidades que, na DGGM estavam a ser impunemente cometidas.

No entanto, o seu comportamento, como Director-Geral, caracterizou-se por uma total passividade, perante as atitudes criminosas que lhe revelara, permitindo que Jorge Gouveia se mantivesse nas funções de Director do SFM, durante mais 3 anos, apesar de ele persistir nas irregularidades do seu antecessor, e até ter contribuído para apressar a destruição do Organismo que lhe fora confiado.

Perante o carácter que Alcides Pereira já tinha evidenciado, de que acabei de dar elucidativos aspectos, eu não esperava uma boa recepção.
Fui preparado para ter que abandonar o SFM, encarando a possibilidade de me transferir, a tempo inteiro, para uma das várias Faculdades (Ciências ou Engenharia da Universidade do Porto, ou Geociências da Universidade de Aveiro), cujos dirigentes, em variadas ocasiões, haviam manifestado empenho em que eu participasse mais activamente na preparação dos seus alunos.

Logo no início da reunião me apercebi de que as minhas apreensões tinham plena justificação.
Alcides começou por breve comentário sobre o “caos” em que disse ter encontrado a Direcção-Geral, que Soares Carneiro lhe deixara.
À minha pergunta sobre as explicações ao País sobre os fundamentos da exoneração do seu antecessor, não soube ou, se sabia, não quis responder.
Sem perda de tempo, logo lhe chamei a atenção para as diversas Comissões ilegais que ocasionaram consideráveis prejuízos ao País, lembrando-lhe as minhas denúncias, na reunião de 10-8-77, em que ele participara ainda como representante do Secretário de Estado da Indústria.

Teve o enorme despudor de declarar que se não lembrava dessa reunião e que a permanência de tais Comissões ilegais se baseava em “razões políticas”!!!

Procurei esclarecê-lo de que o Serviço de Fomento Mineiro è um Organismo eminentemente técnico e que, em conformidade com o Decreto de sua criação, tem por objectivo promover o racional aproveitamento dos recursos minerais do País.
Tem, por isso, que dispor de um conjunto de técnicos com a competência exigida para o metódico cumprimento das sucessivas fases em que deve desenvolver-se a inventariação desses recursos e a sua futura exploração.

Alcides alude a um certo mal-estar que tem detectado no SFM, manifestando o desejo de corrigir essa inconveniente situação,
Pretendia que os funcionários se sentissem bem, nas funções que estivessem a desempenhar.
Não tive dúvidas em declarar que, há cerca de 35 anos, tenho sentido esse mal-estar e, várias vezes, encarei a hipótese de abandonar o Serviço, aproveitando convites que me foram feitos, quer para organismos oficiais da Metrópole, quer para as ex-províncias ultramarinas.
Com excepção do primeiro Director, o Engenheiro António Bernardo Ferreira, prematuramente falecido, sempre tive maus chefes.
Todavia, nunca se havia chegado tão longe em decisões erradas, como no mandato de Jorge Gouveia, com o consequente desrespeito pelo bom uso dos dinheiros públicos.

Muito do que eu estava a dizer já tinha sido exposto em 1977, quando me recebeu na Secretaria de Estado de Indústria.
Insistiu que não se lembrava!!!.

Apesar do mau ambiente criado à minha volta, disse-lhe que sempre estive de alma e coração no SFM, mas não estava a servir dirigentes que, por acidente, passavam por este Organismo. Estava a servir o País!

Após esta infeliz introdução, Alcides passou a referir a existência de um “esquema da estrutura da DGGM”, salientando que, “pela primeira vez, o SFM tem o seu diploma orgânico”.
Mostrei-me surpreendido, pois tal diploma não era do meu conhecimento.
O que eu sabia e constava de publicação no Diário da República, era a nomeação para os cargos directivos criados pelo Decreto 548/77 de diversos funcionários, sem qualquer relação com os respectivos currículos, mantendo-se a estrutura que vigorava desde 1963, com a divisão do SFM, em vários Serviços, subdivididos em Secções, dos quais o Serviço de Prospecção continuava a meu cargo.

Não me dando a conhecer tal diploma orgânico, pergunta-me onde me enquadro.

Respondo-lhe que, perante o meu currículo, que ele tinha obrigação de conhecer e respeitar, era a mim que competia dirigir o SFM, como era reconhecido nos sectores sãos deste Organismo, embora fosse notório que muitos funcionários preferiam continuar com o regabofe, que se tinha instalado sobretudo após a Revolução de Abril de 1974.
Afinal também ele reconhecera o caos em que mergulhara a DGGM.
Revelei-lhe que no SFM, desde 1944, sempre desempenhei, efectivamente e não nominalmente, funções de chefia, nunca tendo recebido remuneração correspondente a essas chefias, com isso deixando de receber alguns milhares de contos.
No entanto, há actualmente funcionários com cargos de chefia que nada chefiam, não só porque não souberam preparar pessoal (Ver post n.º 138), mas também porque quem os nomeou não destinou, ainda, projectos concretos para eles.
Além disso, sendo os meus boletins itinerários preenchidos com respeito pela verdade, sou remunerado em grande inferioridade relativamente a muitos outros técnicos, que foram autorizados a preencherem os seus boletins com deslocações fictícias.

Quando me referi aos êxitos do SFM, originados pela minha actividade, os quais tiveram a sua maior expressão na descoberta do jazigo de dimensão mundial de Neves-Corvo, percebi que a sua ignorância em prospecção mineira era tal que não valeria a pena perder tempo em grande explicações. Ele nunca frequentara cadeira de Prospecção Mineira!
Duvido até que tivesse penetrado nalguma mina, antes do seu ingresso como Subdirector-geral na DGGM!

Confirmava-se a sua característica de corpo estranho à DGGM.

Não manifestou o mínimo apreço pelos êxitos que consegui.

No entanto, foi sancionar, com a sua presença oficial, em sessão solene, a condecoração a Xavier Leca, por membro do Governo francês que, em reconhecimento pela descoberta do jazigo de Neves-Corvo, de que era considerado o principal autor (!!!), se deslocara propositadamente a Portugal.
Não tivera capacidade para perceber o que eu, mais tarde, iria publicar em revista inglesa, isto é, que Leca, em vez de condecorado, deveria ter sido responsabilizado por vários erros que cometeu, sobretudo pelo atraso de 5 anos que originou na descoberta.

Também não mostrou reconhecimento pela colaboração que eu vinha prestando a várias instituições de ensino superior e médio, nem reprovação pela hostilidade de Gouveia no aproveitamento de oferta de colaboração da Faculdade de Ciências do Porto, no estudo de testemunhos da Região de Caminha, não obstante ter prometido publicamente toda a colaboração para que fossem formados os bons técnicos de que o País necessita!

Refiro o argumento que alguns elementos do SFM puseram a circular acerca do”meu mau feitio” e pergunto como foi possível organizar a mais importante Brigada do SFM, mantendo más relações com o pessoal.
Saliento as óptimas relações, nalguns casos durante mais de 30 anos, com a maior parte dos técnicos que me atraiçoaram, para poderem usar procedimentos fraudulentos no preenchimento dos seus boletins itinerários, vendendo-se a Soares Carneiro, que os aconselhara nesses procedimentos, não se apercebendo de que a permanência deste funcionário no cargo de Director-Geral estava próxima do fim.

Chamo-lhe a atenção para o vergonhoso documento que subscreveram pedindo a minha demissão da chefia da 1,ª Brigada de Prospecção, por me ter recusado a visar esses boletins itinerários fraudulentos.

Com o maior dos despudores, Alcides disse desconhecer tal documento, que lhe havia deixado na Secretaria de Estado, quando por lá passara e que antes tinha sido enviado directamente ao Secretário de Estado!!!
Tenho até ofício em que ele Alcides se refere a esta fraude das ajudas de custo.

Alcides informa que, realmente se encarou a hipótese de eu ser nomeado Director do SFM…, mas que “se não foi por aí”.
Foi esta a (não) explicação que foi capaz de apresentar para me informar que tinha sido escolhido um Engenheiro vindo da indústria privada, para passar a dirigir o Fomento Mineiro.

Informou-me que estava indigitado o Engenheiro Fernando da Silva Daniel, que vinha de Minas de Aljustrel.

Quis saber a minha opinião a seu respeito.

Informei não o conhecer, mas que Nabais Conde, Geólogo que me merecia especial consideração, fizera dele boas referências.

A reunião prolongou-se por cerca de três horas, durante as quais Alcides Pereira, pretendendo demonstrar preocupação em bem desempenhar o cargo em que fora investido, conseguia sempre reforçar a ideia que eu dele criara, de ser um “corpo estranho”, dentro da DGGM.

Parecia ignorar os reais objectivos do SFM. Não lhe ouvi uma única referência aos projectos que deveriam ser cumpridos.
Mas mostrava-se exigente para comigo na entrega de relatórios da actividade que eu dirigia em Caminha, patenteando completa ignorância quanto aos numerosos relatórios em que eu dava detalhada conta dessa actividade, um dos quais até fora objecto de publicação!
Nesta matéria, estava a seguir o exemplo das ilegais e incompetentes Comissões, que Conselhos de Ministros haviam condenado!

Chamei-lhe a atenção para a obrigatoriedade de os Organismos oficiais prestarem, ao País, contas do modo como administram os dinheiros públicos, esclarecendo-o que, até 1963, o SFM prestava, no seu relatório anual, publicado em “Estudos, Notas e Trabalhos do Serviço de Fomento Mineiro” essas contas, com todo o pormenor.
Porém, a partir de 1963, tal prática terminou, por incapacidade do novo dirigente do SFM.
Era importante que ele, Alcides Pereira se preocupasse mais em retomar a antiga prática, para que o País tomasse verdadeiro conhecimento do modo como estão a ser utilizados os dinheiros destinados ao inventário dos seus recursos minerais, do que em insistir em novos relatórios sobre áreas de que são constantemente apresentados documentos elucidativos da actividade em curso.

Também lhe chamei a atenção para relatórios importantes de estudos concluídos na 1.ª Brigada de Prospecção, que nunca foram apresentados tais como, Vale do Vargo, Oradas, Portel, Vale de Pães, Montemor-o.-Novo.

Não mostrou o mínimo interesse em analisar os reais problemas com que se debatia o SFM.

Fugia às questões que tinham conduzido o SFM à decadência em que se encontrava, mentindo, com o maior despudor, quando afirmava não se lembrar da exposição que eu fizera em 10-8-77, na Secretaria de Estado da Indústria. E também não revelava a mínima disposição em analisar agora os factos que voltei a relatar-lhe.

Acerca da minha posição na hierarquia da DGGM, considerava-a mal definida. Todavia afirma que já no tempo de Soares Carneiro, eu me encontrava na directa dependência do Director-Geral e que ele não alterara essa posição.
Contestei, naturalmente, tal afirmação, lembrando que Soares Carneiro dera franco acolhimento a um pedido de sanções disciplinares apresentado por uma Comissão dita de Direcção do SFM, por eu ter recusado acatar as ordens que dela recebera que considerara ilegais.
Também não era verdade que ele Alcides me considerasse na sua directa dependência, pois, durante os três anos que já levava no cargo de Director-Geral, jamais dele recebera quaisquer instruções de trabalho e era este o primeiro contacto que com ele tinha após a reunião de 10-8-77, ainda na qualidade de Assessor do Secretário de Estado da Indústria.
Por outro lado, Gouveia, tentara, por mais de uma vez, colocar-me na dependência de Goinhas, que estava nomeado Director da Prospecção, apesar de ser de seu conhecimento o procedimento criminoso que este Geólogo tinha tido para comigo.

Sempre tenho assinado documentos na qualidade de Chefe do 1.º Serviço e a receber correspondência também nessa qualidade, pois jamais surgiu Ordem de Serviço legal que me retirasse tal chefia.

Alcides termina a reunião, propondo que eu continue a dirigir a campanha de prospecção na região de Vila Nova de Cerveira – Caminha - Ponte de Lima, directamente subordinado a Daniel, se o projecto for considerado com interesse.

Curiosíssima esta condição final!

Alcides admitia que eu tivesse estado dele directamente dependente, desde que assumiu o cargo de Director-Geral, porque herdara essa situação, do seu antecessor.

Ao impor esta condição demonstrara que nunca lera os meus relatórios, nos quais eu insistira, vigorosamente, em que me fossem entregues todos os documentos (incluindo testemunhos de sondagens), que, por minha exclusiva iniciativa, tinham sido entregues por Union Carbide, para eu poder fazer uma reavaliação do projecto.

Por outro lado, a quem poderia ele encarregar de fazer a apreciação de um projecto apresentado pelo técnico, com provas dadas, de ser, de longe, o mais competente, em matéria de prospecção mineira, dentro de toda a Direcção-Geral de Minas, senão do País?

Era caso para dizer: “Perdoai-lhe, Senhor, que ele não sabe o que diz, e o mal que está a fazer ao País!”

Manda chamar Daniel, que se encontrava aguardando o fim da reunião, em sala contígua e faz as apresentações, informando Daniel da decisão que tinha sido tomada a meu respeito.

No próximo post, referirei as primeiras atitudes para comigo, deste novo Director do SFM.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

149 – Atitudes de Jorge Gouveia perante a rescisão de Union Carbide de todos os seus contratos de prospecção mineira. Continuação

No relatório da actividade do Serviço de Prospecção Mineira, respeitante ao 1.º trimestre de 1980, que enviei ao Director do SFM, Jorge Gouveia, fiz referência a factos demonstrativos da obstrução aos trabalhos a meu cargo e à negligência quanto à utilização de dinheiros públicos e à conservação de valiosos elementos de estudo.

A adicionar ao que revelei no post anterior, a seguir transcrevo, o que escrevi, relativamente a mais alguns desses lamentáveis factos:

4 – Incúria no tratamento de valioso material de sondagens alienado por Union Carbide, a favor da Direcção-Geral de Minas

Três meses e meio passaram sobre a data do ofício que endereçamos, em 5-12-79, ao Director do Serviço, acerca dos testemunhos que Union Carbide pretendia alienar a favor da Direcção-Geral de Minas, até que o funcionário representante do Director no núcleo de S. Mamede de Infesta, para “assuntos de rotina” se decidisse a cumprir a ordem que recebera de promover o transporte desse material para as instalações de S. Mamede de Infesta.
Argumentou-se que o problema não fora resolvido em Dezembro de 1979, aproveitando transporte gratuito oferecido por Union Carbide, porque nós estivéramos ausentes.
No entanto, os transportes foram iniciados com total desrespeito pelas recomendações a que aludimos no número anterior.
Não se procurou identificar os testemunhos, antes de os retirar do local onde se encontravam metodicamente acondicionados.
Não houve o elementar cuidado de levar caixas para substituir as que apresentassem indícios de má conservação.
Não se estabeleceu qualquer plano para as cargas e descargas.
Não se aproveitou a nossa sugestão de utilizar pessoal da Secção de Caminha para as cargas em Covas, tendo-se preferido deslocar, de S. Mamede de Infesta ou de mais longe ainda, diversos funcionários (talvez 4 ou 5), em percursos superiores a 200 km, durante vários dias, com uso de duas viaturas (1 jeep para pessoal; um pequeno camião para os testemunhos)!!
Afinal, uma vez mais se comprova que as dificuldades de meios de transporte e de combustíveis só existem, em certos casos!
Em S. Mamede de Infesta, empilharam-se as caixas, ao ar livre, junto a um muro, de modo muito pouco cuidadoso, tendo algumas já caído, e prevendo-se que a outras, em breve aconteça o mesmo. Há já testemunhos dispersos pelo terreno, sendo duvidoso que se possa reconstituir a sua origem.
Receamos que grande parte do material transportado esteja já inaproveitável, constituindo pouco mais que lixo.
Não nos tendo sido facultada a documentação entregue por Union Carbide, obviamente nos poderia ser interdito ou revestir-se-ia de um reduzido interesse, o exame dos testemunhos.
Este é mais um assunto para o qual chamamos a atenção superior. O País não pode mais permitir que tão inconscientemente se destruam valiosos documentos de estudo, que custaram muitos milhares de contos a produzir.

5 – Hostilidade perante uma oferta de colaboração do Departamento de Mineralogia e Geologia da Faculdade de Ciências do Porto, em estudos de testemunhos de sondagens efectuadas na região de Caminha.
O Departamento de Mineralogia e Geologia da Faculdade de Ciências do Porto, teve conhecimento de Union Carbide ter abandonado a sua actividade de prospecção mineira na região de Caminha, e de ter alienado, a favor da Direcção-Geral de Minas, os testemunhos das numerosas sondagens, cuja execução promoveu.
Consciente do valor deste material, para investigações de carácter científico, endereçou, em 20 de Fevereiro, ao Director-Geral de Minas, ofício oferecendo colaboração, em tais investigações.
O Assistente do Departamento, Licenciado João Manuel Domingues Coelho, que já em 1977 havia efectuado, na região de Caminha, um estágio de fim de curso, mostra-se interessado em realizar, sob directa orientação do Professor Montenegro de Andrade, novos estudos, na mesma região, socorrendo-se dos testemunhos das sondagens e de mais elementos que porventura lhe pudessem ser facultados.
Tais estudos seriam aproveitados para a preparação da sua tese de doutoramento e seriam, obviamente, comunicados à Direcção-Geral de Minas.
Dos contactos que temos tido com o Professor Montenegro de Andrade e com o Dr. João Coelho, no Departamento de Mineralogia e Geologia, onde também exercemos funções docentes, temo-nos apercebido da lamentável hostilidade com que a oferta foi acolhida.
Alegando que a região não tem interesse económico, face à deserção, primeiro do grupo checo, agora da Companhia americana, e empregando outra frágil argumentação, sem abertamente negar autorização para fazer uso do material, tem-se inventado toda a série de obstáculos para protelar o consentimento real, dando uma imagem exterior péssima do funcionamento interno do Serviço de Fomento Mineiro.
No final do trimestre, ainda o Dr. João Coelho era mantido na incerteza de poder fazer a sua tese com base na região de Caminha, ou se teria de escolher outro tema.
De salientar o contraste com a atitude de Union Carbide, aquando do estágio, a que nos referimos.
Não só todos os elementos de estudos lhe foram abertamente facultados, como lhe foi prestada conveniente assistência. E tratava-se de empresa privada que até poderia ter interesse em não dar a conhecer todos os seus resultados.
Vários logs de sondagens cuja consulta é, presentemente dificultada, foram elaborados pelo Dr. João Coelho.
Agora é um Organismo oficial, cuja missão deveria ser fomentar o desenvolvimento da indústria mineira nacional, a criar obstáculos a estudos científico de outro organismo oficial, cujas repercussões de natureza económica são, de momento, impossíveis de prever, mas que podem ser muito importantes.

9 – Obstrução à sequência normal dos trabalhos de prospecção do 1.º Serviço. Consequente protelamento na concretização de previsíveis descobertas de jazigos minerais.
Os levantamentos geológicos, geofísicos e geoquímicos, por mais bem conduzidos que sejam, raramente poderão, por si sós, levar à descoberta de concentrações minerais susceptíveis de exploração rendível, mormente em países com tradição mineira.
Em campanhas de prospecção criteriosamente orientadas, tais levantamentos serão constantemente seguidos de sondagens e outros trabalhos de investigação directa, tais como sanjas, galerias, poços, etc.
Durante cerca de 8 anos, a Secção de Caminha, pôde contar com o apoio de uma sonda pata investigar os resultados da aplicação das técnicas referidas.
Tornou-se, assim, possível chegar às descobertas que permitiram, não só prolongar a vida da mina de tungsténio de Valdarcas e reabrir à exploração as minas igualmente de tungsténio de Cerdeirinha e Fervença, mas também encorajar a importante Companhia americana Union Carbide Exploration Corporation a firmar contratos de prospecção e pesquisa mineira, na região de Vila Nova de Cerveira - Caminha – Ponte de Lima.
Em Setembro de 1976, decidiu o Director do Serviço, então em funções, eng.º Múrias de Queiroz, sem qualquer fundamento válido, apenas com os propósitos destrutivos constantemente por nós referidos em relatórios e outros documentos, retirar a sonda da região de Caminha.
Os trabalhos de prospecção continuaram, naturalmente a produzir resultados que justificam sondagens.
No entanto, a sonda não mais regressou à região de Caminha, persistindo até ao presente, a obstrução superior, nesta matéria, não obstante o eng.º Múrias de Queiroz ter já sido substituído no cargo de Director, há cerca de um ano.
No que respeita aos trabalhos de prospecção na Faixa Metalífera da Beira Litoral, que decorreram a cargo da Secção de Talhadas, sem interrupção, desde 1968 até que foram suspensos em Janeiro de 1980, há, também, a registar, com mágoa, que se mantêm sem investigação por sondagens, resultados de excepcional interesse.
Já oportunamente nos referimos ao “pouco entusiasmo” que o Director-Geral, eng.º Soares Carneiro manifestou pela Faixa, para justificar a falta de andamento ao projecto de sondagens para a região do Braçal, que apresentamos em 1974.
A leitura do Programa para 1980 revela-nos, por exemplo já um facto muito estranho.
Uma sonda do Serviço foi utilizada, durante bastante tempo, para efectuar três furos longos, com um comprimento global superior a 1500 metros, dentro de área concedida a poderosa Companhia estrangeira.
Não nos parece normal que se prejudique a actividade própria do Serviço, para beneficiar uma Companhia estrangeira, cuja capacidade técnica e financeira é mundialmente reconhecida.
A Companhia seria, certamente, a principal interessada em investigar as possibilidades mineiras, dentro das suas concessões, se considerasse justificável o correspondente esforço financeiro.
É para nós incompreensível que se executem trabalhos de prospecção visando a descoberta de jazigos minerais, e se trave deliberadamente a sequência de estudos, sobretudo quando há resultados que permitem prever êxitos.
Quem estará interessado na não concretização de êxitos?
Será este o modo mais eficaz de fomentar o desenvolvimento da indústria mineira nacional?

Pelo que vinha denunciando e provavelmente por muitas outras razões, tornara-se demasiado escandaloso manter Jorge Gouveia, por mais tempo, na direcção do SFM.
Em meados de 1983, constou que, por pressões externas à DGGM, Gouveia tinha sido compelido a aposentar-se.
Foi o que realmente veio a acontecer. Mais um caso, em que um funcionário não foi responsabilizado por indesculpáveis erros que cometeu, com grave prejuízo para a economia nacional.
À designação do 5.º Director do SFM será objecto do post seguinte.

sábado, 20 de novembro de 2010

148 – Atitudes de Jorge Gouveia perante a rescisão de Union Carbide de todos os seus contratos de prospecção mineira

Uma característica comum a quase todos os Directores que o SFM teve, ao longo de 40 anos da sua existência, foi a deficiente interpretação das disposições do Decreto-lei que criou o Organismo que lhes foi confiado.
Jorge Gouveia não fugiu a essa regra.
Apenas o seu fundador, o Engenheiro António Bernardo Ferreira, teve a exacta noção dos procedimentos que deveriam ser adoptados para seu cumprimento.

Logo no artigo 1.º deste Decreto é realçado o papel fundamental atribuído ao Estado, na investigação sistemática das existências de recursos minerais no País, com vista ao seu racional aproveitamento.
E, no parágrafo único do artigo 2.º, impõe-se que, para protecção dos resultados que se forem obtendo, sejam declaradas cativas para o Estado as áreas onde incidirem os trabalhos do SFM, exceptuando naturalmente as parcelas, nelas inclusas, que já tenham sido objecto de concessões.

Porém, nos termos do parágrafo 1.º do artigo 5.º, o Estado admite que possam ser adjudicados, através de hasta pública, trabalhos no interior dessas áreas cativas, reservando aos adjudicatários o direito à exploração dos jazigos que evidenciarem, atribuindo-lhes as respectivas concessões.

Foi na Faixa Piritosa Alentejana, que esta disposição legal começou a ter aplicação, generalizando-se depois a diversas outras áreas, sobretudo do Sul do País.

Na qualidade de Chefe da Brigada do Sul do SFM, eu tive a meu cargo investigar as existências de recursos minerais da região do País, a sul do Rio Tejo.
Posteriormente, como Chefe do Serviço de Prospecção, as minhas funções tornaram-se extensivas a todo o território metropolitano nacional.
Era, pois, com inquietação, que tomava conhecimento de contratos celebrados com empresas privadas, respeitantes a parcelas das áreas cativas, sem a devida consideração pela valorização introduzida, nessas parcelas, pelos estudos empreendidos sob minha orientação.
Os dirigentes só muito excepcionalmente solicitaram os meus pareceres, procedendo discricionariamente e, quase sempre, sem recurso a hasta pública.
Os termos dos contratos também não eram divulgados, através de publicação no jornal oficial ou no Boletim de Minas!

O clausulado dos primeiros contratos foi muito pouco exigente (Ver, a este respeito, por exemplo o post n.º 19).
Os adjudicatários apresentavam relatórios, dando conta resumida dos trabalhos que efectuavam, directamente ou com intervenção de empresas especializadas.

Não eram designados técnicos para fiscalizarem essa actividade.
Houve até uma Empresa que, habituada ás facilidades excessivas, chegou a reivindicar o direito à exploração de massa de minério descoberta pelo SFM, na proximidade da sua concessão (Ver post n.º 35)

Todavia, embora sem funções de fiscalização, que me não tinham sido conferidas, eu acompanhava, de perto, os estudos das adjudicatárias, aproveitando a oportunidade para entrar em contacto com empresas estrangeiras, especializados em técnicas modernas de prospecção, às quais recorriam, habitualmente, as adjudicatárias.
Através destes contactos, obtive preparação nessas novas técnicas, que passei a aplicar, quando consegui convencer dirigentes pouco esclarecidos a autorizarem a aquisição dos necessários equipamentos.
Proporcionei, também a outros funcionários idêntica formação.

As Empresas eram apenas obrigadas a dar conta da sua actividade à direcção do SFM, no que dizia respeito às áreas que não tinham sido objectos de concessões mineiras.
E, obviamente, relatavam apenas o essencial para dar cumprimento às cláusulas contratuais.

No que respeita aos contratos com concessionários, era a estes que competia prestar contas, não ao SFM, mas às Circunscrições Mineiras.

Era bem conhecido o ambiente de facilitismo que vigorava nas Circunscrições.
Por carência de pessoal técnico competente, a actividade dos concessionários não era eficazmente acompanhada, acontecendo haver minas que nunca foram visitadas e, quando foram, não se corrigiram erros graves, sistematicamente cometidos, com desrespeito de regras fundamentais, sobretudo quanto ao bom aproveitamento dos jazigos. (Ver, por exemplo, post n.º 48)

Nos contratos de prospecção, raramente se inseria cláusula que obrigasse as Empresas a entregar os testemunhos das sondagens que efectuassem.
De facto, tal obrigatoriedade implicava que o SFM tivesse local apropriado onde os arquivar criteriosamente.
O SFM nem sequer tinha onde arrumar, capazmente, os testemunhos das suas próprias sondagens, pois uma proposta por mim apresentada em sessão da Comissão de Fomento para a construção de um armazém na aldeia de Penedo Gordo, perto de Beja, que até chegou a merecer aprovação, acabou por não ter seguimento. (Ver post n.º 53)

Nos meus frequentes contactos com os técnicos de Union Carbide, que estavam instalados em Covas, a dar cumprimento a contratos de prospecção com concessionários locais e com o Estado, apercebi-me das suas crescentes dúvidas quanto à revelação de reservas minerais, em quantidade e qualidade que justificassem a passagem a uma fase de lavra activa.

Apercebi-me, também, de a Empresa ter produzido documentos, que não anexara aos relatórios que apresentava à Direcção do SFM, por tal não ser exigido nas cláusulas contratuais.

Considerando que a hipótese mais desfavorável pudesse vir a verificar-se, revelei, aos vários Geólogos que foram assumindo, ao longo de anos, a direcção do seu projecto de Covas, o meu interesse em receber toda a documentação que tinham produzido, nela incluindo os testemunhos das sondagens.

Embora o contrato com o Estado não o exigisse, de todos obtive o compromisso de me fazerem entrega dessa vasta documentação.

Quando, em fins de 1979, tive conhecimento de que Union Carbide decidira rescindir todos os seus contratos, logo procurei indagar qual o espólio que iria receber.

Em 4-12-79, Bronkhorst, que era então o dirigente do projecto de Covas, confirmou que iria entregar toda a documentação.
Quanto aos testemunhos, encarregava-se de os fazer transportar para as instalações do SFM em S. Mamede de Infesta.
Queria tudo resolvido antes do fim do ano.
Informou-me ter ido a Lisboa, apresentar a sua cortês despedida ao Director-Geral, e ter ficado surpreendido com a sua afirmação de já esperar a decisão de Union Carbide abandonar a área, acrescentando que sempre tivera a noção da pequena dimensão do jazigo de Covas!!
Quando lhe falou na documentação que me prometera entregar, o Director-Geral logo mostrou um inesperado interesse em a receber.
Já havia, segundo disse, Empresa candidata a continuar a investigação do jazigo.
Era óbvio que estas afirmações não mereciam o mínimo crédito.
No seu pretensioso comentário sobre a dimensão do jazigo de Covas, esquecera o entusiasmo que dele se apoderou, quando decidiu orientar, directamente, inexperientes Geólogos, a que chamou “scheeliteiros”, em campanhas de prospecção visando encontrar grandes jazigos, “as Torres dos Clérigos”, na sua curiosa expressão (Ver post n.º 56).
Estas campanhas redundaram em grande “fiasco”, com já oportunamente referi.
Esquecera também que não tivera o mesmo interesse em conservar documentos dos estudos que pessoalmente dirigira, os quais apenas conduziram à revelação da insignificante ocorrência de Cravezes, apesar de ter sido muito propagandeada como descoberta de novo jazigo.
A realidade é que nem logs tinham sido feitos e os testemunhos tinham sido abandonados. (Ver Observação no fim do post n.º 114)

Os concessionários locais também não se tinham mostrado minimamente interessados em acompanhar os estudos de Union Carbide, nas áreas das suas concessões, confiantes que, nos termos contratuais, teriam boa participação nos lucros da exploração que a Empresa americana realizaria. Se estivessem interessados teriam já na sua posse cópia de toda essa documentação.

Mas o facto de a documentação não me ser entregue directamente enquadrava-se na política obstrucionista à minha actividade na Região.
No meu relatório do 1.º trimestre de 1980, que enviei a Jorge Gouveia, fiz referência a este assunto, a pág. 8 a 11.
A seguir, transcrevo o que, a este respeito, deixei registado:

“3 – Obstrução à consulta de documentação técnica entregue por Union Carbide
Por termos estado ausente, em gozo de licença graciosa, durante a segunda quinzena de Dezembro de 1979, só em 2 de Dezembro recebemos a resposta do Director do Serviço, com data de 20-12-79, acerca da intenção de Union Carbide de entregar à Direcção-Geral de Minas, diversos documentos respeitantes à sua actividade na região de Caminha e também os testemunhos das sondagens efectuadas a expensas suas, na mesma região.
Verificamos, com estupefacção, que se não aproveitou a oferta de Union Carbide de custear o transporte de cerca de 1650 caixas de testemunhos de Covas para S. Mamede de Infesta, quando é certo que constantemente se afirma haver falta de meios de transporte no Serviço e, por este motivo, se criam obstáculos a certos trabalhos. Surgem, além disso, ordens recomendando parcimónia no consumo de combustíveis, já que as dotações são escassas.
Verificamos, ainda, com alguma surpresa (na realidade já nada nos deveria surpreender do que acontece na Direcção-Geral de Minas) que, tendo sido exclusivamente mercê das nossas diligências e não por obrigação imposta por qualquer disposição legal ou contratual, que Union Carbide consentiu em fazer entrega quer dos testemunhos quer dos logs das sondagens e outros documentos, o Director do Serviço decidiu, em nova atitude prepotente e obstrucionista, dificultar ou impedir mesmo a nossa consulta a este material.
A maneira mais eficaz de atingir este objectivo foi intrometer no assunto o seu representante no núcleo de S. Mamede de Infesta “para assuntos de rotina”, encarregando-o de receber o material e elaborar um documento, a que chamou “relatório”, sobre essa recepção.
Apesar das deficientes relações pessoais que, há muito, mantemos com esse funcionário, cuja actuação no Serviço não tem merecido o nosso apreço, não tivemos dúvida em nos deslocarmos, no dia 3 de Janeiro, à região de Caminha, por ele acompanhados, a fim de lhe mostrarmos a quantidade de testemunhos a transportar, agora a expensas do Serviço, e o modo como estavam acondicionados nas instalações de Union Carbide e lhe fazermos perceber os cuidados a ter no transporte, para que nada se destruísse e esse valioso material pudesse ser inteiramente aproveitado para novos estudos, quer do Serviço, quer de qualquer outra entidade.
Nessa data e em vários dias seguintes, insistimos vigorosamente na indispensabilidade de prévia consulta à documentação já entregue ou a entregar ainda por Union Carbide, antes de se iniciar o transporte, para que a arrumação dos testemunhos em S. Mamede de Infesta obedecesse a um plano, evitando que, por falta de cuidados, viesse a tornar-se inaproveitável tão valioso material.
Apesar das nossas insistências e das respectivas promessas, do género “Estou a elaborar o relatório (?!) que o Director pediu; Na próxima semana, a documentação estará à sua disposição” feitas desde Janeiro, sempre foram surgindo evasivas e a realidade é que nenhum documento nos foi entregue por tal representante, até ao fim do trimestre.
A partir de certa data, quando nos convencemos de que a atitude era superiormente estimulada e que se pretendia nitidamente sonegar-nos a documentação, deixamos mesmo de falar no assunto.
O Director do Serviço, a terminar o seu ofício de 20-12-79, escreve:
“Na medida em que V. conhece melhor do que ninguém a actividade da empresa, poderá actuar junto da empresa no sentido de não ser olvidada qualquer espécie de documentação”
Como poderíamos nós saber se foi ou não olvidado algum documento de interesse, se ainda, nesta data, nos mantemos na ignorância do que realmente foi entregue?
Não deveria, para tal, ser-nos confiada, com tempo para estudo, toda a documentação, antes de Union Carbide ter abandonado a região?
Que se pretende com esta sonegação?
Escrevemos no nosso parecer de 28-8-79, sobre a actividade de Union Carbide Geotécnica Portuguesa – Assistência Mineira, L.da, na região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima:
“…Em terceiro lugar, embora a região mineira de Covas apresentasse perspectivas francamente aliciantes, após a valorização introduzida pelo Serviço de Fomento Mineiro, a realidade é que a prospecção é sempre um empreendimento de resultados aleatórios.
Haveria, portanto que considerar a hipótese de não virem a evidenciar-se, através dos trabalhos de Union Carbide, reservas de minério de tungsténio, suficientemente importantes para que a Companhia se interessasse na sua exploração.
A verificar-se esta hipótese, o projecto de Covas deveria ser reavaliado e poderia acontecer que, não sendo atractivo para uma Companhia estrangeira, habituada a empreendimentos de muito maior dimensão, ele fosse francamente rendível para uma Companhia nacional de ambições mais modestas ou, preferivelmente, para uma empresa estatal devidamente estruturada.”
Escrevemos, também, no relatório da actividade do 1.º Serviço, no trimestre anterior:
“ Uma vez que se verificou a hipótese desfavorável considerada, pretendemos fazer a reavaliação a que aludimos e planificar a campanha de prospecção do Serviço de Fomento Mineiro na região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima, tendo em conta essa reavaliação.”
Até ao fim do trimestre, não se nos tornou possível, mercê da sonegação mencionada, dar qualquer passo no sentido da reavaliação do projecto de Covas e sua integração no plano geral de prospecção mineira, na região de Vila Nova de Cerveira – Caminha - Ponte de Lima.
Estamos convictos de que os documentos permaneceram intactos, sem que alguém os tenha consultado, desde que Union Carbide os entregou.
Talvez seja mero capricho pueril ou talvez senil a causa do obstrucionismo que se está praticando.
Entendemos ser já tempo de começar a responsabilizar aqueles que, além de não estimularem, nem colaborarem seriamente como é seu dever (para isso são remunerados) no inventário e valorização da riqueza mineira nacional, pelo contrário, criam dificuldades à consecução desse objectivo.”

Continua ...

terça-feira, 16 de novembro de 2010

147 – Como Jorge Gouveia interpretava as suas funções de Director do SFM. Continuação 1

No post anterior, revelei que Gouveia decidira ignorar a existência da Secção de Caminha, cuja actividade decorria sob minha orientação, e com a minha activa participação, porque não conseguira submeter-me aos Geólogos Goinhas e Viegas, que se tinham apoderado de cargos de chefia, na onda de “assaltos” originada pela criação desses cargos no Decreto-lei n.º 544/77.

Goinhas, já designado Director do Serviço de Prospecção, e Viegas, Chefe de Divisão, nomeado Chefe do Grupo de Trabalho do Tungsténio, também se não mostraram empenhados em comigo contactar, lembrando-se da tentativa mal sucedida do Geólogo Farinha Ramos (Ver post n.º 114).
Há muito que se tinham mostrado muito mais interessados nas compensações pecuniárias do que em demonstrações de carácter ou no desempenho eficaz de funções justificativas daquelas remunerações.
É elucidativo exemplo, a traição de Goinhas a quem o orientou na sua vida profissional (ver posts n.º s 83 e 88)

Em coerência com esta cómoda atitude, de que não ousara dar-me conhecimento, antes de ter surgido problema que não conseguiria resolver sem o meu auxílio, Gouveia não se considerou obrigado a respeitar os compromissos que tinha chegado a assumir para comigo.

Foi assim que jamais me foi cedido, um dos gravímetros distribuídos à 1ª Brigada de Prospecção, apesar das repetidas afirmações de que tal cedência estaria “para breve”!

Eu tinha realçado o facto de estar piquetado um perfil de alguns quilómetros de extensão, transversalmente às formações geológicas da Região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima, e pretender, através do seu levantamento gravimétrico, definir, com precisão, a verdadeira estrutura geológica regional, tirando partido da minha grande experiência nesta técnica, adquirida nos trabalhos que dirigi, durante muitos anos, no Alentejo.

Através de outros métodos geofísicos que já tinham sido aplicados, tornara-se muito consistente a hipótese de que a formação mineralizada em volframite e scheelite, aflorante nas Minas de Fervença, Fraga, Valdarcas, Cerdeirinha e Lapa Grande, encontrar-se-ia oculta, a profundidade acessível, em zonas próximas, por acção de dobramentos, ou outros acidentes tectónicos.
Era, pois, de fundamental importância para o progresso dos estudos, na região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima, procurar, para esta hipótese, o apoio gravimétrico.
A obter-se confirmação, as reservas de minérios de tungsténio da Região seriam consideravelmente acrescidas.

Admitia que este problema estrutural teria solução, através de minuciosos estudos geológicos. Todavia, como várias vezes tenho referido, jamais foi destacado, para a Região, Geólogo com competência para dele poder ser encarregado.

A piquetagem desse perfil, em terreno acidentado e, na sua maior parte revestido de denso mato, tinha sido difícil e dispendiosa.
Gouveia que tão cuidadoso se mostrou em defender a economia do País, ao vender documentos técnicos a candidatos a volumosos investimentos, através de contratos de prospecção, em áreas cativas para o Estado, desperdiçava agora todo o esforço e dispêndio havidos na preparação do perfil longo!

Também se não impressionava com o facto de ter sido por mim introduzida no SFM, a gravimetria, após uma luta de mais de 10 anos e de ter sido por minha iniciativa que um engenheiro, contra sua vontade, foi estagiar, nessa matéria, junto de Empresa inglesa Lea Cross Geophysical Company, quando esta Empresa se encontrava a cumprir contrato com Mason and Barry, que então explorava o jazigo de pirite de S. Domingos! (A este respeito, ver post n.º 14).

Não se preocupou também com o facto de a 1ª Brigada de Prospecção andar desorientada, a “inventar trabalho”, na sua própria expressão, e a actuar sobretudo como empreiteira de Empresas privadas, que não teriam dificuldade em contratar Companhias especializadas, nos seu países de origem, sem necessidade de prejudicar a actividade própria do SFM.

Em 3 anos, não foi possível distrair, durante apenas uma semana, de trabalhos que “estavam a ser inventados” um dos dois gravímetros existentes na 1.ª Brigada de Prospecção!!!!

Ficou, assim, por investigar o possível aumento significativo das reservas de minérios de tungsténio da Região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima.

Foi, também, pelo mesmo motivo, isto é, por não considerar a Secção de Caminha pertencente ao SFM, que Gouveia permitiu ao Laboratório de S. Mamede de Infesta deixar de fazer as análises geoquímicas por mim requisitadas.
Estas amostras, cuja colheita e preparação tinham sido dispendiosas, estiveram a caminho de destruição, só tal não acontecendo, por casualmente, eu as ter encontrado e recolhido, impedindo esse destino.
Conforme já revelei, foi Cominco que as aproveitou e mandou analisar nos seus Laboratórios do Canadá, quando conseguiu contrato com o Estado para a área onde tinham sido colhidas.

Continua…

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

146 – Como Jorge Gouveia continuava a interpretar as suas funções de Director do SFM

No post n.º 140, registei declaração do novo Director-Geral, em sessão pública, prometendo colaboração com as Universidades e o facto de Jorge Gouveia, presumivelmente por esse motivo, ter desistido de me subordinar aos Geólogos Goinhas e Viegas, que tinham conseguido cargos de chefia, na vaga de “assaltos” originada pela criação desses cargos, no Decreto n.º 544/77.

Gouveia passara, praticamente, a ignorar a minha existência.

Tornou-se, assim, possível que eu desse continuidade à prospecção mineira, na Região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima e mantivesse estreita colaboração, não só com diversos estabelecimentos de ensino superior e médio, mas também com empresas que actuavam naquela Região, conforme descrevi, nos posts anteriores.

Mas, em meados de 1981, não lhe foi possível continuar a ignorar-me.
Tinha recebido ordem para apresentar a classificação de todo o pessoal do SFM e até estava nomeado “notador” dos funcionários do núcleo de Caminha.
Gouveia, que desconhecia o pessoal deste núcleo, ao qual nunca tivera a consideração de se apresentar, não teve alternativa senão convocar-me, para poder cumprir a ordem.

A este respeito, escrevi, nas páginas 3 e 4 do “Relatório da Actividade do 1.º Serviço, durante o 2.º trimestre de 1981”, que enviei a Gouveia, o que, a seguir transcrevo:

“ 3 - Afirmações do Director do Serviço de Fomento Mineiro, relativamente à situação de Caminha, no esquema orgânico da Direcção-Geral de Geologia e Minas.

Por convocação do Director do Serviço, comparecemos, em 4 de Junho, no seu gabinete, em S. Mamede de Infesta, a fim de colaborarmos na classificação dos funcionários da Secção de Caminha, conforme preceituado no Decreto Regulamentar n.º 57/80, de 10 de Outubro.
A Ordem de Serviço n.º 14/81, de 19 de Maio, emitida pelo Director-Geral, havia designado os engenheiros Jorge Gouveia (Director do S.F.M) e A. Rocha Gomes (Chefe do 1.º Serviço) como notadores, na classificação do pessoal de Caminha.
O Director do Serviço pretendia, pois, dar cumprimento a esta Ordem, embora se não considerasse habilitado a dar parecer sobre pessoal que não conhece. Confiaria nas classificações que nós atribuíssemos.
Estavam também presentes os engenheiros António Neto, Adalberto Carvalho e Arouca Teixeira, o engenheiro técnico Pereira Viana e o arquitecto Linhares de Oliveira, por motivo idêntico, pois deles dependiam diversos funcionários a classificar.
No que respeita ao caso da Secção de Caminha, o Director afirmou estar apenas cumprindo a Ordem do Director-Geral, pois tal Secção não pertence ao Serviço de Fomento Mineiro.
Interrogado por nós sobre a natureza da actividade ali decorrente, reconheceu ser de Fomento Mineiro; porém, não se enquadra no seu esquema….
Não podemos, obviamente, tomar a sério estas surpreendentes afirmações.
A Secção de Caminha pertence muito mais ao Serviço de Fomento Mineiro do que o actual Director deste Serviço.
O eng.º Jorge Gouveia, tanto quanto nos temos apercebido, tem limitado a sua acção a meros actos administrativos, subordinados a uma orientação tendenciosa do ex-Director-Geral, eng.º Soares Carneiro, portanto, quase sempre pouco felizes.
A Secção de Caminha, com todas as dificuldades que lhe são artificialmente impostas, pratica verdadeiro fomento mineiro e vai chegando a resultados, embora exigindo cada vez mais esforço e pertinácia.
Os funcionários, embora tivessem ficado profundamente magoados pelo ostracismo a que foram votados, a ponto de agora até os considerarem excluídos do Organismo que sempre dedicadamente serviram, não se deixam desmoralizar.
Têm a consciência de que o seu trabalho é útil ao País, é criteriosamente planificado, correctamente executado, tem produzido os seus frutos, bem patentes nas actividades privadas que neles se têm apoiado e, sem dúvida, continuarão a contribuir para a valorização dos recursos minerais do País.
Manterão, pois, o mesmo interesse na sua actuação, na esperança de que não venha longe o dia em que se dê a inversão da marcha retrógrada, que tem caracterizado o Serviço de Fomento Mineiro, nos últimos anos.
Se a nós já não magoaram as afirmações do Director, por serem apenas mais algumas dentre muitas outras do mesmo jaez que temos ouvido, e não apenas a ele, não podemos deixar de lhe atribuir significado.
Na realidade, elas explicam as dificuldades constantemente criadas à actividade da Secção.
O Director não tem que se preocupar com uma Secção que não pertence ao Serviço que dirige !!!!
Deste modo simplório, o Director procura eliminar problemas originados pelas promoções a dirigentes de departamentos de prospecção, de indivíduos de mau carácter e sem competência técnica, que era necessário compensar pelo apoio prestado ao eng.º Soares Carneiro, para o manter no cargo de Director-Geral, apoio que afinal se revelou insuficiente, uma vez que o eng.º Soares Carneiro acabou por ser afastado, sem que ao País fossem explicadas as razões do seu súbito e inesperado afastamento.
Aceita nos não subordinarmos a esses indivíduos e, consequentemente, exclui-nos do Serviço de Fomento Mineiro e, connosco, todo o pessoal que connosco colabora na Secção de Caminha.
Esquece-se, porem, que a obra por nós realizada no Fomento Mineiro nos dá muito mais direito de permanecer neste Serviço do que a ele próprio e aos que o estão ajudando a destruir o Organismo que nós sempre procuramos defender e valorizar.
O assunto justificaria intervenção a nível mais elevado, sobretudo no momento em que constantemente se proclama a necessidade de conseguir a maior eficiência dos Serviços Oficiais.
A experiência, porém, de diligências anteriores, inteiramente frustradas, desaconselha seguir esta via. Examinaremos, oportunamente, a questão, na tentativa de encontrar uma saída mais prática que, por agora, se não vislumbra.”

Outras afirmações foram produzidas, na mesma data, que me abstive de introduzir em relatórios, mas que registei nos relatos das reuniões de serviço, que sempre fazia, para minha defesa futura, perante o clima de hostilidade que me tinha sido criado.

A seguir, menciono algumas dessas afirmações:

1 – Perguntado sobre se pretendia acabar com os trabalhos na Região de Vila Nova de Cerveira – Caminha - Ponte de Lima, tal como já havia procedido relativamente à Faixa Metalífera da Beira Litoral, Gouveia respondeu que não sabia; isso saberia o Director-Geral !!!

2 – Gouveia gabava-se de ter vendido, a alemães, por 13 000 contos, cartas de prospecção, respeitantes à obra que eu fizera no Alentejo, da qual nem me tinha apercebido!
Era ele quem tivera a capacidade de aproveitar essa obra, em benefício do SFM, uma vez que, durante a minha chefia da 1.ª Brigada de Prospecção, tais cartas eram cedidas gratuitamente às entidades que se mostravam verdadeiramente interessadas em dar continuidade a essa obra.
Com pouco rejubilava este medíocre Director!
O objectivo da Organização, que introduzi, naquela Brigada, era muito mais ambicioso do que permitir tão insignificantes negócios!

3 - Gouveia teve o impudor de declarar que, se o núcleo de Caminha deixou de pertencer ao SFM, foi porque eu não aceitara a chefia da Prospecção; por isso, me excluíra do SFM, passando a considerar-me assessor do Director-Geral!!.
Perante tão intencional deturpação de conversa anterior, chamei-lhe a atenção para o facto de a oferta de um lugar de Director ter sido feita quando Goinhas já estava nomeado para dirigir a Prospecção Mineira. E tal oferta, fora condicionada, à minha renúncia à realização de trabalho no campo!
A minha aceitação corresponderia a ocupar, como vários outros chefes, um cargo simbólico, como se o meu objectivo no SFM visasse apenas a remuneração, não me preocupando em “ser arrumado na prateleira”, vendo afundar-se o Organismo de que fui sempre o principal dinamizador!!

4 - Após tão imprevista Introdução, Gouveia passou a enunciar as várias alíneas constantes das normas classificativas que trazia: qualidade de serviço, quantidade de trabalho, discernimento e responsabilidade, qualidades dirigentes, etc.

A minha primeira observação foi sobre a oportunidade e validade destas classificações.
Manifestei o parecer de que as classificações deveriam ter precedido as nomeações para os cargos de chefia criados pelo Decreto-lei n. 544/77, e de que as personalidades indigitadas para delas se encarregarem, deveriam ser dotadas de reconhecida idoneidade e isenção na apreciação dos currículos, o que, obviamente excluía, de imediato, todos os dirigentes da DGGM ainda em funções.

Se tivesse sido adoptado este lógico e elementar procedimento, ter-se-iam evitado os problemas que agora estavam a surgir e os que, seguramente, ainda iriam aparecer.

5 - Quanto à classificação do pessoal do núcleo de Caminha, para que tinha sido nomeado “notador”, já Gouveia havia declarado a sua incapacidade de se desempenhar da incumbência, apesar de a ter aceite.

6 -Relativamente ao pessoal da Secção de Talhadas, que deixara de me estar subordinado, após a suspensão da actividade na Faixa Metalífera da Beira Litoral, perguntei qual a competência de Goinhas e Viegas, para se desempenharem da função de “notadores”, que aceitaram, sendo certo que não possuíam preparação em técnicas geofísicas e até nem tinham tido tempo de conhecer esse pessoal.
Perguntei se seria tida em conta a deterioração de que este pessoal estava dando provas - segundo tinha chegado ao meu conhecimento - originada pela incapacidade de Viegas lhe confiar tarefas em conformidade com o nível técnico a que tinham chegado.
Salientei as dificuldades na formação disciplinada deste pessoal, ao longo de muitos anos e a facilidade com que agora estava a ser destruído.

7 - A propósito do item das qualidades dirigentes, perguntei se estas se exigiam aos dirigidos. E os dirigentes? Aproveitei, então, a oportunidade para lhe chamar a atenção para os novos chefes que nada dirigem e dos reais dirigentes que não têm essa categoria, como era o meu caso.

8 - Gouveia mostrava-se incapaz de explicar os procedimentos que estavam a ser adoptados.
Em vez disso, passou a divagar sobre o comportamento que os funcionários deveriam adoptar para com os seus chefes. Em seu entender, deveriam procurar agradar-lhes, para serem bem classificados.
Contestei, vigorosamente, este entendimento, que me fazia lembrar advertência que me fora feita, em 1963, por ter enviado ofício ao Director-Geral com o objectivo de ver corrigida Ordem do Director do SFM, que eu declarara ilegal e contrária aos interesses do SFM.
Essa advertência baseava-se no princípio de que “os Chefes têm sempre razão”. (Ver post n.º 23)
Estimular os funcionários a procurarem agradar aos Chefes, em vez de pugnarem pelo interesse do Serviço, era desenvolver as suas características negativas, e fazer, depois, promoções injustas.
Era isto, de facto, o que estava acontecendo, com os tristes resultados bem visíveis.
Chegou-se à incoerência de quase todos os funcionários serem classificados “muito bons”, num Organismo em plena decadência.
Era deste modo leviano que os actuais dirigentes escondiam a sua incapacidade de aproveitarem funcionários potencialmente muito bons, mas que não demonstravam essas qualidades, sabendo, pelo contrário, tirar partido das facilidades que a incompetência dos dirigentes lhes proporcionava.

9 - Sem que eu percebesse a intenção, Gouveia revelou a experiência que adquiriu, quando esteve no ex-Ultramar português, quanto a processos disciplinares, surpreendendo-se com o facto de na Metrópole tais processos serem pouco frequentes.
Talvez tivesse pretendido intimidar-me !!

10 - Entrando, então, na análise dos currículos do pessoal do núcleo de Caminha, que ainda me estava subordinado, comecei por salientar o elevado nível atingido pelo Senhor José Catarino, que transferi da Secção de Évora, quando ainda chefiava a 1.ª Brigada de Prospecção.
Tendo ingressado no SFM em 1957, apenas com a Instrução Primária, José Catarino foi, ao longo dos anos, adquirindo formação profissional nos variados métodos de prospecção mineira, tornando-se um dos técnicos que me ofereciam mais confiança na execução dos trabalhos de campo e em alguns trabalhos de gabinete.
Não passara da categoria de Colector, porque as disposições legais então em vigor, exigiam maior nível de escolaridade para poder ascender a categoria superior.

José Catarino já tinha ficado a chefiar, interinamente a Secção de Évora, quando o Agente Técnico de Engenharia José Gameiro se ausentara, durante dois anos, em comissão de serviço em Angola. E o seu desempenho foi muito satisfatório, só se tendo sentido a ausência de Gameiro, pelo ambiente mais calmo que passou a vigorara neste núcleo.

Com estupefacção, eu tinha tomado conhecimento, pelo Diário da República de um louvor de Gouveia a José Gameiro, realçando as suas qualidades de relacionamento humano. Não resisti a perguntar em que se baseou para tal louvor. É que Gameiro trabalhara, sob minha direcção, durante cerca de 30 anos e fora um dos técnicos que mais problemas me originaram, sobretudo pelos seus conflitos com o pessoal, chegando à agressão física.
Surpreendia-me que, o escasso tempo de contacto de Gouveia com Gameiro lhe tivesse permitido encontrar matéria para tão expressivo louvor.
Por esta amostra, poder-se-ia avaliar o mérito das suas classificações.

A minha decisão de o transferir José Catarino para Caminha foi motivada pela impossibilidade de prosseguir trabalhos nesta Região, com o rigor e a produtividade a que estava habituado, contando com a participação do pessoal técnico, que o Director destacara para a 2.ª Brigada de Prospecção.
De facto, os dois Agentes Técnicos, que tinham sido destacados para comigo colaborarem, estavam cheios de vícios (um deles, que reivindicava a chefia da Secção de Caminha, até chegou a apresentar-se embriagado ao trabalho, cometendo erros graves que Catarino tivera de corrigir). O trabalho de ambos não merecia confiança, apesar de serem considerados especialistas em topografia. Tive que os devolver ao Director de então.

Foi graças à capacidade do Senhor Catarino para interpretar as minhas instruções e as seguir rigorosamente, e ao seu fino trato, que foi possível obter os êxitos conhecidos neste núcleo de Caminha.

11 - O restante pessoal da Secção de Caminha teve as classificações de que realmente era merecedor. Eu conhecia bem todos estes funcionários, pois com eles participava na execução das tarefas que projectava, nas minhas frequentes visitas à Secção.
Com muitos deles criara até relações de amizade, tal como tinha sucedido com o pessoal da 1.ª Brigada de Prospecção, antes da traição que me fizeram, como Gouveia tivera ocasião de observar, quando viera de Moçambique aprender técnicas de prospecção mineira.
Classifiquei alguns funcionários de “muito bons”; outros, de “bons”, de harmonia com as provas que tinham dado.
Continua …

terça-feira, 2 de novembro de 2010

145 - Reunião com representante do Ministério da Reforma Administrativa

Em princípios de Fevereiro de 1982, fui convocado para participar em reunião com Dr.ª Graça Cristina, para análise de situações de injustiça, que tinham chegado ao conhecimento do Ministério da Reforma Administrativa, quanto a classificação de funcionários nas categorias correspondentes às funções que desempenhavam.

Pretendia-se introduzir as correcções que se impunham.

Tinham sido, também convocados o pessoal da Secção de Caminha, o Engenheiro Adalberto de Carvalho e os trabalhadores que deste Engenheiro dependiam.

Surpreendeu-me que a Dr. Graça tivesse, na sua agenda, apenas a análise de casos respeitantes a pessoal que, pela sua posição na hierarquia dos Serviços, pouca influência poderia ter na sua produtividade.

Mas era uma realidade que, se tinha havido flagrantes injustiças, durante a vigência do regime político de Salazar – Caetano, as soluções adoptadas, após a Revolução de 25 de Abril de 1974 vieram agravar a situação.
Antes, o pessoal auxiliar era, na sua maior parte, assalariado e era recrutado localmente, sendo dispensado quando deixava de ser necessário.
Algum deste pessoal, apesar das suas poucas habilitações escolares, demonstrava capacidades para desempenhar tarefas que, normalmente, eram confiadas a técnicos com cursos médios e até superiores.
Acontecia que, em numerosos casos, os estudos se prolongavam por anos e este pessoal permanecia na situação legal, com que tinha ingressado, isto é, praticamente sem direitos.
A agravar a situação, havia uma tabela de salários, imposta pelos Serviços de Contabilidade, que dificultava justa remuneração a esses trabalhadores, que iam progredindo na sua formação profissional.
O problema já não era só do trabalhador, que mercê da formação adquirida, não tinha dificuldade em encontrar trabalho fora da instituição que lhe dera essa formação.
O problema era do próprio Serviço, que, frequentemente se via desfalcado dos seus melhores elementos, com prejuízo da eficácia das suas investigações.
Insistentemente, abordei este tema, quer em documentos, quer em exposições orais, em reuniões da Comissão de Fomento, sem que lhe fosse dada solução.
Até para serem autorizados insignificantes aumentos salariais, dentro da tabela em vigor, surgiam dificuldades internas!

Após a Revolução, os dirigentes que se mostravam tão severos na justa retribuição do trabalho dos assalariados, tornaram-se magnânimos.
Desconhecendo as realidades no terreno, onde não eram vistos, cederam às reivindicações das Comissões instituídas com base nas liberdades trazidas pela Revolução e, promoveram todos os assalariados à situação de contratados, atribuindo-lhes categorias, sem directa relação com o trabalho que executavam.
Muitos dos assalariados tinham currículo justificativo de promoção.
Mas a generalização demonstrou grande imprudência. Nem todos reuniam, as condições mínimas para que tal se justificasse.
Isto veio originar considerável aumento de despesa e, contrariamente ao que seria de esperar, resultou em significativa quebra de produtividade.
Perante esta nova situação, cheguei a ser incriminado por ter admitido demasiados assalariados sobretudo para a 1ª Brigada de Prospecção!
Só faltou atribuírem-me culpas por ter instruído este pessoal nos métodos de prospecção que permitiram a sua decisiva contribuição para os maiores êxitos do SFM, em toda a sua existência.

Isto que descrevi, era a consequência lógica da indisciplina que passara a reinar no SFM.
Os dirigentes, para não perderem os cargos que iam conseguindo manter, apesar da Revolução, iam fazendo cedências, sem reflectirem nas suas consequências.

Nas minhas diversas intervenções, manifestei o receio de que, com a Agenda que trazia Dr. Cristina, não viesse a conseguir-se qualquer progresso, na eficácia do SFM.

Era bem conhecido o mau funcionamento dos serviços públicos, em geral. Disso se faziam eco, os jornais.

Se o Ministério da Reforma Administrativa pretendia, de facto, reformar, deveria, em minha opinião, começar muito por cima. Doutro modo, corria-se o risco de esta reunião ser inútil.

Eu já tinha escrito, em relatórios, que “O fraco dirigente tornará fraca a forte gene”, parafraseando Camões, nos Lusíadas.

Dirigentes competentes saberiam classificar devidamente os seus funcionários.

Lembrei proposta antiga que fizera, no sentido de atribuir aos funcionários as categorias correspondentes às funções que eles realmente desempenham, sem as fazer depender das habilitações escolares com que tinham ingressado no SFM, como vinha acontecendo.

Esta proposta, na sua essência, assemelhava-se ao programa “Novas oportunidades” que o Governo recentemente aprovou.

Passei, depois a fazer a história do Fomento Mineiro, acentuando que sempre exerci funções de chefia, nunca tendo recebido a remuneração correspondente a tais funções.
Isso não me impediu de trabalhar com dedicação e obter assinaláveis êxitos.
Estes êxitos eram apresentados ao Governo como justificativos da existência do SFM, precisamente por aqueles que, ocupando cargos directivos apropriadamente remunerados, só dificultavam a minha actividade.

Nesses recuados tempos ainda foi possível realizar importantes trabalhos, em todas as fases da indústria mineira. A título de exemplo, citei os trabalhos mineiros da Mina da Aparis, onde se abriram quilómetros de galerias, em diversos pisos, até uma profundidade de 150 metros. Tudo isso acabou!

Referi as várias Resoluções de Conselhos de Ministros, chamando a atenção para a imperiosa necessidade de fazer o provimento dos cargos directivos por técnicos de competência comprovada e para o total desrespeito que se verificou no preenchimento dos lugares de chefia, quando estes foram criados pelo Decreto-lei n.º 548/77.

Para preenchimento destes cargos, verificou-se um verdadeiro assalto, sem preocupação em analisar os currículos dos seus candidatos.
A grande maioria dos novos chefes não tinha funções definidas, nem pessoal para chefiar, mas tinha a remuneração que pretendia!
Estamos hoje a sentir as nefastas consequências destes assaltos.

A actividade do SFM decresceu acentuadamente, restando, no terreno, pouco mais do que os trabalhos da 1.ª Brigada de Prospecção por mim criada no Alentejo mas retirada da minha real chefia, através de criminoso processo e os trabalhos que, com grande dificuldade, eu continuava a dirigir, na Região de Vila Nova de Cerveira – Caminha - Ponte de Lima.

Informei que o actual Director do SFM, na sua ânsia destrutiva, chegou a oferecer-me cargo de Director de Serviço, porém com a condição de não realizar trabalho de campo!
Rejeitei, obviamente esta proposta, pois me recusava a aumentar o número de engenheiros de papel selado.

Referi, a este propósito a anedota que consta de Plano de Trabalhos, da autoria do actual Director do SFM, enviado ao Governo, sem que tivesse originado a sua imediata demissão.

Diz-se, nesse documento, que eu poderia exibir, que a promoção de determinados funcionários a cargos de chefia fez diminuir o número de unidades de trabalho, pelo que se tornava necessária a admissão de mais pessoal.
No seu conceito, quem é chefe manda, não trabalha!

Prestei informação sobre as minhas numerosas exposições a membros do Governo, acerca da necessidade urgente de sindicância à DGMSG, com especial incidência no SFM, lamentando que delas não tivesse resultado qualquer acção correctiva.
Os dirigentes persistiam, em total impunidade, a fazer obstrução a quem desejava realizar trabalho útil.

“Será que desta reunião vai resultar alguma acção mais eficaz?”, perguntei eu.

Já no final da reunião, em reforço das minhas afirmações anteriores, um elemento da Secção de Caminha, que se sentia lesado por não lhe ter sido atribuída a categoria de prospector, sendo certo que prospecção, nos seus variados métodos, era o que efectivamente fazia, há mais de uma dezena de anos, chamou vigorosamente, a atenção de Dr.ª Graça, para o facto de ajudantes do Engenheiro Adalberto de Carvalho, que andam, no campo, simulando pesquisar ouro, não fazendo, de facto, verdadeira prospecção, terem essa categoria, pela qual auferem melhor remuneração.

Não chegou ao meu conhecimento Acta que tenha sido feita desta reunião. Também não me apercebi de qualquer aperfeiçoamento no SFM, dela resultante.
Mais uma decepção, a juntar a muitas outras, que, todavia, não iria fazer-me desistir de lutar pela revitalização do SFM, transformando-o num Instituto de Investigação dos Recursos Minerais do País, com independência da DGGM.

domingo, 31 de outubro de 2010

144 – Colaboração com Empresas, na Região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima

A todas as Empresas, que exerciam actividade na Região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima, ou nela pretendiam instalar-se, com vista à exploração de jazigos de tungsténio, prestei colaboração, a partir do ano de 1968.

Muitas foram as referências que fiz, em posts anteriores, a este respeito.

Agora, pretendo revelar alguns factos demonstrativos do meu empenhamento para o êxito de iniciativas que visassem o racional aproveitamento do património mineiro nacional.

1 – Colaboração a Geomina

Geomina, apesar de ter como Director Técnico o Professor Catedrático da Faculdade de Engenharia, Alberto Morais Cerveira, explorava os minérios existentes nas áreas das suas concessões, com insuficiente apoio geológico.

Não tinha havido a preocupação de definir o enquadramento das ocorrências de minerais úteis, através de estudos geológicos consistentes.
Esta era, aliás, a regra, na generalidade das minas portuguesas.
A este respeito, ocorre-me revelar que, numa reunião com o Director-Geral Soares Carneiro e o chamado Gabinete de Estudos, sugeri a obrigatoriedade de, pelo menos, as Minas de maior dimensão serem obrigadas a incluir no seu Quadro Técnico, um ou mais Geólogos, de modo a terem constantemente actualizado o levantamento geológico dos trabalhos interiores. A minha sugestão não foi aceite e ainda fui alvo fui alvo de chacota.
Não havia, então, a tradição de os Geólogos penetrarem no ambiente dos trabalhos subterrâneos das Minas, isto é, onde poderiam observar as formações inalteradas.
Impunha-se que esta tradição terminasse, para que pudessem fazer-se investigações de melhor qualidade.

A falta de estudos geológicos prévios, nas concessões de Geomina, originou que se tivessem classificado, como filões, jazidas interestratificadas, daí resultando erros, que poderiam ter sido evitados.
Por exemplo, tomei conhecimento, em conversa com o Senhor João, capataz de Valdarcas, que lhe havia causado grande perplexidade que uma galeria aberta, nesta Mina, sob possante afloramento mineralizado, apenas tivesse atravessado formações estéreis, não obstante a sua pequena distância desse afloramento.
Não houvera a percepção de que se estava perante uma dobra secundária da formação mineralizada e que a galeria passara sob a charneira dessa dobra, que era responsável pelo espessamento observado no afloramento.

Toda a exploração que Geomina efectuou nas Minas de Fervença e também na Cerdeirinha (após ter contratado com “Gaudêncio, Valente e Faria”, a transmissão da respectiva concessão), se baseou exclusivamente nos resultados de campanhas de prospecção magnética empreendidas sob minha direcção. Lamentável foi observar que se praticava “lavra ambiciosa”, com desrespeito por regras fundamentais da “arte de minas”, que os Serviços de fiscalização da DGMSG não deveriam ter consentido.

Na Mina de Valdarcas, a única em exploração, quando foi criada a Secção de Caminha, igualmente Morais Cerveira, recorreu ao meu auxílio quando perdera o contacto com o jazigo, no 4.º piso, que começara a instituir, através de poço inclinado interior, com origem em galeria do 3.º piso.

Usando um magnetómetro de compensação da ABEM, procedi a observações da variação da componente vertical do campo magnético terrestre, ao longo de uma galeria - travessa, conseguindo facilmente localizar a perdida formação mineralizada.
Os trabalhos de exploração puderam, então, prosseguir.
A título de curiosidade, revelo que me auxiliava, nas observações, uma filha minha estudante de Medicina, que eu convidara a acompanhar-me.
Era ela que me iluminava, com luz de gasómetro, a janela do magnetómetro, a fim de poder fazer as leituras.
Enquanto isto acontecia, o Geólogo Vítor Manuel Correia Pereira, ao qual fiz referência, no post anterior, conversava, animadamente, com Morais Cerveira.
A este Geólogo do SFM, que então prestava colaboração remunerada, a Geomina nem sequer passou pela cabeça que o problema teria fácil solução, através de levantamento geológico, no interior da mina.
Duvido, porém, que ele soubesse desempenhar-se de tal tarefa.

Geomina, que produzia concentrados de volframite, ferberite e scheelite, não usava a fluorescência da scheelite sob a acção de raios ultra-violetas de adequado comprimento de onda, para detectar a presença deste mineral.
Foi por meu intermédio que foi introduzido, na Empresa, o primeiro aparelho portátil de produção desses raios, satisfazendo pedido de Morais Cerveira, conhecedor das minhas boas relações com Geólogo argelino que trabalhava para o BRGM e se deslocava frequentemente a França, onde o poderia adquirir.

2 - Colaboração com “Gaudêncio, Valente e Faria”

”Gaudêncio, Valente e Faria” era uma Empresa que detinha, entre outras, as concessões mineiras de Lapa Grande e Cerdeirinha, quando, em 1968, iniciei as investigações na Região Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima, com vista a localizar concentrações de minérios de tungsténio.
Tinha, então, todas as suas concessões, na situação de lavra suspensa, ao abrigo de disposições legais que invocou e tinham merecido deferimento.
Os levantamentos magnéticos que, sob minha direcção, foram efectuados, revelaram anomalias suficientemente pronunciadas para justificarem a imediata execução de sondagens.
As duas primeiras que projectei revelaram concentrações de volframite e scheelite, próximas da superfície, com teores elevados, acima do mínimo para que a sua exploração fosse considerada lucrativa.
A sondagem n.º 2 ainda se encontrava em execução, quando, no exercício das minhas funções de Chefe do Serviço de Prospecção do SFM, fui realizar uma semana de trabalho no Alentejo.
Nessa época, o Geólogo que tinha sido indigitado para proceder aos estudos essenciais ao desenvolvimento do programa de prospecção, ao qual me referi no post n.º 143, a propósito da impreparação que demonstrou para as tarefas que dele eu esperava, estava encarregado da classificação dos testemunhos das sondagens em curso.
Quando regressei do Alentejo, foi grande a minha estupefacção, ao verificar que já estava em curso a sondagem n.º 3, implantada em local indicado pelo Agente Técnico de Engenharia, que era Director Técnico da Mina.
Procurei, junto do Director do SFM, encontrar explicação para tão insólito facto, e a resposta que obtive foi que aquele técnico conhecia bem o jazigo e, portanto, era-lhe concedido o direito de participar activamente nos trabalhos!!
Aconteceu, porém, o que era de esperar. O furo n.º 3, sem apoio magnético, revelou-se totalmente estéril.
Quando, casualmente, encontrei na Mina esse Director Técnico, procurei indagar em que se baseara para a marcação daquele furo.
A resposta que me deu ainda me deixou mais estupefacto. O furo tinha sido marcado, em dia de nevoeiro e por isso, saiu deslocado do local que ele pretendia!!
Passei a denominar, em documentos oficiais, este furo por ”sondagem do nevoeiro”,.

Como descrevi também no post n.º 143, este concessionário conseguiu trazer a Portugal dois categorizados Geólogos checos, que realizaram bom trabalho na região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima.
Com eles estabeleci boa colaboração, da qual muito beneficiou o concessionário.
Tirando partido da valorização conseguida na Mina da Cerdeirinha, através dos estudos do SFM e dos Geólogos checos, negociou com Geomina a transmissão desta Mina, em condições que considerou vantajosas.
Todavia, da intervenção checa não resultou que “Gaudêncio. Valente e Faria” passasse a exercer lavra activa, em qualquer das concessões que detinha.

Anos mais tarde, apresentou requerimento a solicitar que o SFM realizasse ensaios de beneficiação do minério que havia sido evidenciado em sondagens realizadas, na concessão da Lapa Grande.
Este concessionário manifestava, então, o propósito de “reiniciar os trabalhos mineiros, tão rápido quanto possível, com instalações completamente novas e, sob o ponto de vista técnico, mais aconselháveis.”

Sobre este requerimento incidiram vários despachos do Director-Geral de Minas e do Director do SFM, o último dos quais determinando que eu informasse da “viabilidade de localização dos testemunhos e sua utilização”!!!

Estes despachos, demonstrativos da ignorância das leis vigentes, por quem tinha a obrigação de as fazer cumprir, mereceu, da minha parte, uma informação de 8 páginas dactilografadas, nas quais registei o abandono a que tinham sido votados cerca de 20 000 metros de testemunhos das sondagens que a Union Carbide entregou, por minha exclusiva iniciativa, e apesar dos minhas constantes denúncias deste verdadeiro crime.
Oportunamente, voltarei a este tema.

3 – Colaboração com BRGM

O BRGM (Bureau de Recherches Géologiques et Minières) era o equivalente francês do SFM (Serviço de Fomento Mineiro).
BRGM já se havia apercebido de potencialidades de Portugal em recursos minerais, que não estavam sendo devidamente reconhecidas pelos Organismos oficiais.
Já tinha conseguido, para a Faixa Piritosa Alentejana, associar-se a Empresa Portuguesa, passando a dar continuidade aos estudos que eu ali dirigia, há mais de 20 anos, com vários importantes sucessos, os quais acabaram por conduzir à descoberta do famoso jazigo de Neves-Corvo.
Também no Norte do País, BRGM pretendeu instalar-se, para investigar existências de minérios de tungsténio.
O seu emissário, para os primeiros contactos, foi o Geólogo de origem argelina Jean Paul Bonnici.
Várias foram as visitas que proporcionei a este Geólogo para conhecer, na região de Vila Nova de Cerveira – Caminha - Ponte de Lima, as condições de ocorrência dos minérios que procurava.
Daí não resultou, porém, contrato do BRGM, quer com o Estado, quer com concessionários locais, mas a troca de conhecimentos foi de interesse mútuo.
Foi através de Jean Paul Bonnici, que consegui o “mineralight” para Geomina, ao qual acima aludi.

4 – Colaboração com Union Carbide Exporation Corporation

A Companhia americana Union Carbide surgiu, em Portugal, no ano de 1974, interessada em fazer investimentos em exploração mineira, a fim de garantir o abastecimento em minerais de tungsténio, de que necessitava para as suas indústrias químicas.

Contactou, então, diversos concessionários de minas de tungsténio e as instituições oficiais que regulavam a indústria mineira nacional.

Foi, naturalmente, encaminhada para me contactar, já que eu estava, há alguns anos, a orientar estudos no mesmo sentido dos que pretendia executar Union Carbide.

Nessa data, já eu tinha apresentado uma Comunicação ao CHILAGE (Congresso Hispano-Luso-Americano de Geologia Económica), que se realizou, em Portugal e Espanha, em Setembro – Outubro de 1970, expondo, com detalhe, o estado avançado em que se encontravam as investigações, na Região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima.
Na Comunicação, inseri, como peça desenhada fundamental, uma planta com as curvas de nível da formação mineralizada, indicando as zonas onde era possível a ocorrência dos minerais de tungstènio e onde, consequentemente, deveriam ser implantadas novas sondagens.

Union Carbide, perante a qualidade dos dados que lhe apresentei, em contraste com o estado menos evoluído, que notara nos estudos de outras áreas, que lhe foram apresentados, apenas se interessou em firmar contratos com concessionários instalados na Região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima e, mais tarde, com o próprio Estado, para áreas da mesma Região, também com potencialidade para jazigos tungstíferos, mas que não tinham sido objecto de concessões.

Sobre o clausulado do contrato com o Estado, já referi a incapacidade e impunidade de dirigentes que não souberam acautelar os interesses do Estado. Pelo contrário, os concessionários locais foram capazes de firmar vantajosos contratos, à custa dos êxitos do SFM, nas áreas das suas concessões.

Além de ter a sua actividade facilitada, pelo que já se continha na minha Comunicação ao CHILAGE e na vasta documentação que lhe forneci, Union Carbide teve a minha constante colaboração.

Union Carbide propunha-se definir reservas da ordem de 1 milhão de toneladas com um teor médio aproximado de 0,8% de WO3.
Para tal, concentrou a sua atenção essencialmente, na pormenorização dos levantamentos geológicos e na realização de sondagens.

Nas minhas frequentes passagens pelas suas instalações, na freguesia de Covas, tive profícuos diálogos com mais de uma dezena de Geólogos, que por lá foram passando.
Era normal a presença de, pelo menos, 5 Geólogos.
Lembro-me dos seguintes: Carlos Aguirre, Holingsworth, Mathias, Cahoon, Bronkhorst, David Graber, Gouin, Durão, João Farinha, Acúrcio Parra.

É digno de registo o contraste com a actividade da reduzida equipa de trabalhadores que eu dirigia, na sua maior parte localmente recrutados e por mim instruídos.
Dela, não constava Geólogo algum, sendo eu o único técnico com curso superior!!
Era eu, que não sou Geólogo, quem procedia aos estudos geológicos fundamentais para apoio das outras técnicas de prospecção que usava.
Não desdenhava, porém, o concurso de técnicos competentes, que na Região surgissem, como tinha sido o caso dos Geólogos checos, a que me referi no post n.º 143.
Também quis aproveitar a experiência que os Geólogos de Union Carbide vinham adquirindo e, nesse sentido, sugeri-lhes, no final do ano de 1977, que estudassem os testemunhos das sondagens realizadas pelo SFM, para os comparar com os constantes dos logs por mim elaborados.
Surpreendente foi a censura que recebi de uma Comissão ilegalmente constituída, com inacreditável suporte superior, a qual assumia, nessa época, funções dirigentes.
Em vez de me apoiar nas minhas diligências para aperfeiçoar os estudos, ameaçou-me com procedimento disciplinar, por ter autorizado Union Carbide a realizar novo exame dos testemunhos.
O procedimento disciplinar só não se concretizou, porque entidade jurídica consultada sobre o assunto, não encontrou justificação!

Com carácter episódico, Union Carbide procedia, também, a levantamentos pelo método magnético. Não dispondo, porém, de pessoal especializado nesta técnica, era frequente recorrer ao meu auxílio, não só para as piquetagens preparatórias e para outros trabalhos de topografia, mas também para a correcta execução das observações magnéticas e subsequentes correcções.
Acontecia, ainda que recorria à minha experiência para resolução de pequenas avarias que ocorriam no magnetómetro de precessão nuclear, que usava.

Reconhecendo a importância do meu auxílio, Union Carbide requereu, em 3-9-75, ao Director-Geral de Minas, a minha nomeação como representante do Estado junto da Empresa, a exemplo do que tinha acontecido com contratos firmados para a Faixa Piritosa.

Todavia, a este requerimento, jamais foi dada resposta, prejudicando-se, intencionalmente a acção que eu estava efectivamente desempenhando.

Tendo solicitado o meu auxílio para a execução de trabalhos mineiros, para os quais não dispunham de pessoal especializado, não pude aplicar a experiência que tinha adquirido, neste âmbito, durante os 15 anos, em que dirigi a Brigada do Sul.
De facto, foi nesta Brigada que se realizaram os mais importantes trabalhos desta natureza, em toda a vida do SFM (Ver, por exemplo post n.º 21, sobre o estudo do jazigo de cobre de Aparis).

Indiquei o Engenheiro Mourão recentemente licenciado pela Faculdade de Engenharia do Porto e que eu sabia ter dirigido trabalhos de exploração, na Mina da Fonte Santa, perto da Barca d’Alva.

A colaboração, que se estabeleceu com Union Carbide, não foi unilateral. Esta Empresa também prestou valioso auxílio aos trabalhos que decorriam sob minha direcção.

Mais de uma vez, nos emprestou o seu magnetómetro.
Em casos de anomalias de pequena amplitude, provavelmente originadas por massas mineralizadas profundas, em que a correcção da variação diurna deveria ser efectuada com mais rigor, tornava-se útil recorrer a leituras do campo magnético sempre no mesmo local a intervalos de tempo curtos usando um segundo aparelho.

Prestou, também como referi no post n.º 140, valiosa colaboração em programa de Reunião de Geólogos do Oeste Peninsular.

Chegou até a ceder-nos, por um período dilatado, um dos seus jipões, quando a Secção esteve privada de meio de transporte próprio, sem que o Director do SFM tomasse providências para resolver o problema.
Eu pude, então, observar pessoal do 2.º Serviço, deslocando-se em jeeps, na área onde eu actuava, a realizar trabalhos,simbólicos em Minas abandonadas, para investigar a existência de ouro, mas cujo real objectivo era justificar a atribuição de ajudas de custo e de subsídios de marcha a determinados funcionários.

Além disto, Union Carbide ainda proporcionou proveitosos estágios a dois dos meus ex-alunos.

Tendo iniciado a sua actividade em 1974, quando requerera, em meados de 1979, a prorrogação do seu contrato com o Estado, já tinha efectuado mais de 17 000 metros de sondagens a acrescentar aos 7 000 perfurados pelas sondas do SFM.

Tinha-se aproximado do objectivo que se tinha proposto alcançar, estimando as reservas indicadas e inferidas em cerca de 1 milhão de toneladas.
Não obstante, classificava o projecto, ainda com carácter marginal.
Tinham procedido a ensaios de beneficiação do minério, em Laboratório dos Estados Unidos, utilizando testemunhos de sondagens propositadamente efectuadas para esse efeito e tinham recebido resultados algo decepcionantes. As recuperações conseguidas foram inferiores às que Geomina obtinha na sua lavaria de Valdarcas.

Os denominados “Scheeliteiros” ainda pretenderam interessar Union Carbide numa área de Cravezes (Mogadouro), onde afirmavam ter descoberto jazigo tungstífero.
Cahoon, que então dirigia o departamento de Covas, aceitou o convite para uma visita a essa área. Confidenciou-me, depois, que o estéril da lavaria de Valdarcas tinha um teor de WO3 superior ao do minério bruto de Cravezes
Cravezes não poderia, pois, contribuir para o acréscimo de reservas, de modo a estimular a permanência de Union Carbide no País.

Apesar do moderado optimismo de Union Carbide, considerando a hipótese de a Empresa vir a abandonar a Região, procurei que todos os elementos dos seus estudos, incluindo os testemunhos das numerosas sondagens, fossem entregues ao SFM.
Se a área não tivesse interesse para uma grande multinacional, poderia ser atractiva para uma Empresa menos ambiciosa.

Contra todas as expectativas, Union Carbide tomou, em fins de Novembro de 1979, a decisão de rescindir os contratos que tinha firmado, quer com concessionários radicados na Região, quer com o Estado Português.

A razão principal para tão súbita decisão foi a oferta que passou a verificar-se, nos mercados internacionais, de produtos oriundos da China, a preços com os quais as minas europeias tinham dificuldade em competir. Até a excepcionalmente rica mina da Panasqueira atravessou períodos de grande dificuldade.

No post n.º 146, referirei atitudes surpreendentes do Director do SFM, no que respeita ao aproveitamento da documentação que Union Carbide entregou, por minha exclusiva iniciativa.

5 – Colaboração com COMINCO

Cominco era uma Companhia canadiana, já minha conhecida desde meados da década de 60 do século passado. Nessa época, havia-se associado à Union Corporation sul-africana e a um grande capitalista americano de nome Taylor, para formar a Companhia Mining Explorations (International), que se dedicava a prospecção mineira, em vários países, com realce para Portugal e Espanha.
Mining Explorations (International firmou vários contratos para áreas do Sul de Portugal, sendo os mais importantes os que estabeleceu com o Estado para a Faixa Piritosa Alentejana.
Com esta Companhia estabeleci franca colaboração, no cumprimento de uma cláusula que me conferia representação do Estado, para acompanhar e auxiliar a sua actividade.
Quando se realizou, em Portugal e Espanha, a reunião de Geólogos do Oeste Peninsular a que me referi no post n.º 140, o experiente Geólogo da Cominco, Dr. João Rafael Serpa Magalhães, bem impressionado com o que observou, durante a exposição que fiz sobre a actividade que eu dirigia, em prospecção na área do Serro (Argela) da Região de Vila Nova de Cerveira – Caminha - Ponte de Lima, sugeriu à Cominco que procurasse firmar contrato com o Estado para dar continuidade aos estudos nessa área, tendo em vista a futura exploração dos jazigos de tungsténio, que viessem a ser detectados.
A sugestão foi aceite e, em 1982, Cominco firmou contrato com o Estado e, logo deu início a estudos geológicos preparatórios, por intermédio dos Geólogos John Lowery e Gustavo Zazo, que fez deslocar para a Região.
Com ambos estabeleci boa colaboração, tendo observado, com satisfação, a sua total concordância com a interpretação da estrutura geológica que eu lhes tinha apresentado.
A sua actividade centrou-se, sobretudo na geoquímica, tendo começado por fazer analisar, nos seus Laboratórios do Canadá, alguns milhares de amostras que tinham sido colhidas pela equipa da Secção de Caminha e que o Laboratório de S. Mamede de Infesta decidira não analisar e até já tinha encaminhado para destruição!
As análises revelaram significativas anomalias, reforçando resultados de outras técnicas que o SFM tinha aplicado.
Infelizmente, a actividade da Cominco não teve a continuidade que se esperava.
Segundo me informou Serpa Magalhães, tinha havido grande reestruturação da Empresa, que a levara a dar preferência a outros ramos da sua diversificada actividade. Isso conduziu-a a suspender vários dos seus projectos mineiros.

O Director do SFM. Jorge Gouveia, mantinha-se completamente indiferente a mais estes meus esforços de valorização dos recursos minerais da Região de Vila Nova de Cerveira - Caminha – Ponte de Lima.