terça-feira, 10 de setembro de 2013

221 - Reflexões sobre os recursos minerais de Portugal. Continuação 12

O meu optimismo quanto ao início de nova era, no aproveitamento dos recursos minerais do País, em que passasse a respeitar-se a disposição legal que classifica esses recursos como “bens dominiais”, cuja exploração só é, portanto, permitida a portugueses, não teve, na devida conta, os numerosos poderes instalados, por favoritismo político–religioso, sem base em competência profissional, que demonstraram extraordinária capacidade de adaptação a qualquer regime político.

Sem o mínimo escrúpulo, detentores de poder, que tinham jurado exercer, com lealdade, as funções que lhes tinham sido confiadas, sobrepuseram os seus interesses pessoais ao interesse colectivo!

De facto, quando em 1962, tudo parecia bem encaminhado, acontecimentos inesperados vieram perturbar a entrada em vigor da nova era. Grande foi a minha surpresa, com a notícia de o Engenheiro Luís de Castro e Solla ter pedido a exoneração do cargo de Director-Geral de Minas (Ver post N.º 22).

Era óbvio que o próximo Director-Geral não se iria sentir vinculado ao projecto que Castro e Solla me havia transmitido, relativamente à nova chefia do Serviço de Fomento Mineiro (SFM).

Fernando Soares Carneiro foi o Engenheiro nomeado, em fins de Agosto de 1962, para o cargo de Director-Geral de Minas. Meu contemporâneo na Faculdade de Engenharia do Porto, não fora brilhante a sua carreira académica. Tinha classificação inferior à minha e à de vários outros colegas. Fizera o seu terceiro estágio no SFM, participando em trabalhos de prospecção e pesquisa mineiras, que estavam em curso nas Secções de Montemor-o-Novo e Cercal do Alentejo da Brigada do Sul.
Concluída a licenciatura, ingressou no SFM, e foi integrado na Brigada do Norte. A sua passagem, por este importante departamento da Direcção-Geral de Minas, limitou-se ao período de 1942 a 1944, e não deixou marca assinalável.
Achei, porém, estranho que uma das suas principais actividades tivesse sido desempenhada, assumindo o papel de Colector (submetido às instruções do colaborador Cotelo Neiva) em levantamentos geológicos da Região de Trás-os-Montes, quando tanto havia para investigar, no âmbito da Engenharia de Minas (Ver post N.º 120).
Em 1944, transitou para a Circunscrição Mineira do Norte e chefiava este departamento da DGMSG, quando foi indigitado para as funções de Director-Geral.

Atribuiu-se a nomeação a artigo publicado na Revista do SFM, sob o título “A riqueza da indústria extractiva metropolitana”, no qual fez sugestões para o desenvolvimento da indústria mineira nacional, criticando os seus próprios procedimentos como dirigente responsável pela atribuição de concessões sem respeito pela lei. (Ver post N.º 25)

Soares Carneiro não era detentor de um currículo que me induzisse a depositar grandes esperanças na sua actuação como Director-Geral. O auto-elogio que fez constar em livro de sua autoria, publicado no ano 2000, com o título, “ A Fala das Pedras. Histórias Mineiras”, sobre as suas actividades, é mais uma das muitas fantasias, com que se inebriou.

Não é verdade que tenha feito “quase tudo”, na indústria mineira. Pouco de útil fez, mas muito de prejudicial se lhe ficou devendo! Teria sido bem mais vantajoso para o País que tivesse tido menos intervenções no SFM, pois estas se centraram, essencialmente na satisfação de interesses pessoais.

Comportou-se como se dono fosse do Organismo, que lhe foi confiado, aproveitando-se das facilidades orçamentais que o Governo tinha atribuído ao SFM. Dotações atribuídas para trabalhos foram desviadas para compra de várias viaturas que passaram a estar ao seu serviço, praticamente exclusivo, em Lisboa. Assalariados que deviam ocupar-se em actividades mineiras, passaram a prestar serviço em Lisboa como motoristas em notório contraste com o seu antecessor, que se deslocava de autocarro!

O Eng.º La Cueva Couto, que chefiava a Brigada de Prospecção Geofísica (BPG), fora acometido, de grave enfermidade e viria a falecer em Novembro ou Dezembro (não posso precisar) de 1962.

Guimarães dos Santos não esteve presente no funeral, delegando em mim a representação da Direcção do SFM.

Perante a situação criada na BPG, Guimarães dos Santos, no uso dos seus poderes de Director, emitiu, em 11-12-1962, a Ordem de Serviço N.º 523, do seguinte teor:

“A Brigada de Geofísica, que prosseguirá com os trabalhos em curso no Sul, passa a ser chefiada pelo Eng.º de 2.ª Classe Fernando José da Silva”.

Esta Ordem constituía mais do que uma despótica demonstração de um poder absoluto, indiferente às minhas propostas no sentido de melhorar a produtividade do SFM, expressas nos relatórios e nos Planos de Trabalhos da Brigada do Sul.

Era um grave insulto à minha profissão e ao cargo que desempenhava, cuja dignidade tinha o dever de preservar. Perante tal desrespeito pela deontologia profissional, reagi, vigorosamente, por ofício, com data de 31-12-1962, explicitado em 14 páginas dactilografadas, nas quais chamei a atenção para as evidentes ilegalidades de que a ordem enfermava e para os funestos efeitos do seu cumprimento.

Extraordinária a celeridade com que Guimarães quis preencher a vaga ocorrida na BPG. Não tivera igual celeridade, em 1947, quando necessitou de um ano para me promover à categoria correspondente a chefia da BSFM, que eu desempenhava. Só corrigiu o lapso, que me pareceu intencional, depois de eu lhe ter chamado a atenção para a ilegalidade em que estava incorrendo.

O grupo de Engenheiros acomodados na sede do SFM no Porto já havia demonstrado, com vários procedimentos, que eu apenas poderia, deles esperar, atitudes hostis. Todavia, durante muitos anos, acreditei que Fernando José da Silva era um leal companheiro. E, nessa presunção, frequentes vezes acorri em seu auxílio, até em assuntos de carácter pessoal, por reconhecer a sua inferioridade, que chegava a causar-me embaraços, quando aconteciam confrontos com Agentes Técnicos de Engenharia, muito mais competentes. Só tardiamente percebi a sua subserviência perante o Grupo do Norte, a cuja protecção se acolhia, comportando-se como seu “infiltrado” no Sul.

O estranho comportamento que assumiu, no caso do processo disciplinar que fui forçado a mover a um perverso Agente de Engenharia, forneceu-me inesperadas provas da sua ingratidão e deslealdade. (Ver post N.º 91)

Tornou-se-me claro que aguardava a oportunidade de me conquistar a chefia de uma Brigada bem organizada, recolhendo as consequentes benesses, sem se aperceber quão difícil lhe seria manter a qualidade que nela se tinha atingido.



A seguir, transcrevo passagens do meu ofício ao Director:

“Com o devido respeito e, ao abrigo do disposto no § 4.º do art.º 9 do Estatuto Disciplinar dos Funcionários Civis, aprovado pelo Decreto-lei N.º 32659 de 9 de Fevereiro de 1943, cumpre-me declarar que considero a decisão de V. Ex.ª ilegal e contrária aos interesses do Serviço.

Com efeito, é óbvio que o interesse do País exige que, salvo caso de força maior, um funcionário não seja desligado das funções em que está investido, sem prestar contas do desempenho dessas funções, e sem transmitir a outrem, expressamente designado para tal fim, os poderes e valores que lhe hajam sido confiados para tal fim. Ora, nada disto sucedeu, no caso presente.

O Engenheiro Senhor Fernando José da Silva não apresentou relatório algum dos mencionados no meu ofício N.º 2217 de 6 do corrente, os quais se referem a estudos já concluídos” … “Pode, portanto, dizer-se que o Engenheiro Senhor Fernando José da Silva vai entrar em domínio, no qual tem muito pouca experiência, pois não deve esquecer-se que o método electromagnético continua a estar fora do âmbito da Brigada de Prospecção Geofísica.

É lógico, portanto, perguntar qual a utilidade desta nomeação.

Para já, sabe-se que houve manifesto prejuízo. O Engenheiro Senhor Fernando José da Silva, como tem em preparação relatórios referentes ainda à sua actuação na Brigada do Sul e está fora dos problemas da Brigada de Prospecção Geofísica, não pode dar aos trabalhos desta a assistência que seria para desejar. Limitar-se-á a “deixar correr”. É evidente que não foi para isto que foi nomeado.

Então, tinham-se-lhe criado, antes, as condições para poder deixar a Brigada do Sul, de forma a que, quando assumisse a chefia da Brigada de Prospecção Geofísica pudesse a ela dedicar-se inteiramente.

Anteriormente à nomeação do Engenheiro Senhor Fernando José da Silva, para a chefia da Brigada de Prospecção Geofísica, os trabalhos desta estavam decorrendo em franca e leal colaboração com a Brigada do Sul.

A Brigada do Sul, consciente como sempre esteve, da importância do problema do ferro do Sul do País e reconhecendo que há muito trabalho de campo que não teve ainda adequado tratamento no gabinete, destacou mesmo, para prestar colaboração à Brigada de Prospecção Geofísica, nesta matéria, o Engenheiro Senhor Vitor Alvoeiro de Almeida, que em Novembro ingressara na Brigada do Sul.

Planeava-se marcar novas sondagens na região de Cuba - Vidigueira, para dar continuidade ao estudo iniciado, nesta semana e que, há longos anos se acha interrompido sem se saber porquê.

É claro que a nomeação do Engenheiro Senhor Fernando José da Silva forçou a nova interrupção deste estudo.

Outros problemas sofreram inevitáveis atrasos, com manifesto prejuízo para o Serviço e, portanto, para o País”. … “De tudo o que ficou dito e do muito mais que haveria ainda para dizer, resulta evidente que a organização do Serviço, no Sul do País, se já era defeituosa, passou, a partir das recentes Ordens de Serviço, a sê-lo ainda mais.

Sabemos que o Ex.mo Senhor Engenheiro Director-Geral projecta uma reforma de toda a estrutura da Direcção-Geral de Minas e que o Serviço de Fomento Mineiro será também abrangido.

Isto seria argumento para esperar. Todavia, o tempo passa e não se recupera.

O Serviço de Fomento Mineiro tem uma missão basilar para a economia do País. Impõe-se que se tome verdadeira consciência dessa missão e que se retome, quanto antes, o caminho de que nunca deveria ter-se saído.

Há que conjugar os esforços de todos para que se faça a obra que ao Fomento foi confiada e não desperdiçar energias em tarefas como esta que eu sou agora forçado a enfrentar, bem contra minha vontade, quando problemas vitais aguardam a minha disponibilidade de tempo.

No caso do problema que tenho vindo a tratar a melhor solução, para o momento presente, seria, como já numerosas vezes tenho sugerido, a extinção da Brigada de Prospecção Geofísica, uma vez que, na prática, se tem verificado não ser propícia a uma eficiente colaboração a existência de Brigadas independentes.

Tem falhado a coordenação das suas actividades.

… Mas se se entender que deve manter-se a Brigada de Prospecção Geofísica, sugiro, então, que eu seja nomeado interinamente seu Chefe (não me considerando um perito em prospecção geofísica, tenho honra em afirmar que toda a actividade de prospecção geofísica do Serviço de Fomento Mineiro no Sul do País, resultou de iniciativas que tomei e para cujo cumprimento tenho arduamente combatido e colaborado activamente, durante largos anos, perante a incompreensão de alguns que as deveriam ter acarinhado) até se encontrar alguém com as qualificações necessárias para assumir essa chefia.

Como V.Ex.ª está em causa, neste assunto, requeiro respeitosamente que o mesmo seja superiormente apresentado, para que se encontre a solução que mais convém aos interesses do País.

Nesta data, envio cópia do presente ofício ao Ex.mo Senhor Director-Geral de Minas e Serviços Geológicos.”.


As reacções de Guimarães dos Santos e de Soares Carneiro não tiveram na mínima consideração o bom aproveitamento dos recursos minerais do País.
O objectivo para que foi criado o SFM foi completamente ignorado.

A Ordem de Serviço, nomeando Fernando Silva, Chefe da BPG foi mantida, apesar das minhas informações sobre a impreparação daquele Engenheiro para o cargo e sobre as naturais consequências no cumprimento dos programas da BSFM.

Para ambos os dirigentes, verdadeiramente importante era manter aquela hierarquia, que tinha sido muito incorrectamente estabelecida, embora dela estivessem a resultar graves prejuízos para o País!

Foi mais uma ostensiva manifestação do “Poder em oposição ao saber”.

Curiosamente, em ligação com o meu ofício contestando a legitimidade da Ordem de Serviço de Guimarães dos Santos, eu tinha recebido, em jeito de conselho amigo, aviso de colega que se tinha instalado em Lisboa e que viria, anos mais tarde a conseguir do Ministro Nobre da Costa, nomeação de Director-Geral Gabinete para a Prospecção e Exploração de Petróleo, isto é, de Organismo que nem prospectava nem explorava petróleo e apenas acompanhava, com intenção fiscalizadora, difícil de cumprir, perante a complexidade dos problemas técnicos envolvidos, o que Empresa privada ia fazendo neste âmbito (Ver post N.º 118).
Nesta mensagem, avisava-me dos riscos da minha atitude, pois está estabelecido na Função Pública, que ... “os Chefes têm sempre razão” (Ver post N.º 23 )

Pelo que me diz respeito, Soares Carneiro confirmou, logo no início do seu mandato, as minhas suspeitas de que não iria facilitar a minha actividade.

Não teve coragem de induzir Guimarães dos Santos a anular a insensata Ordem de Serviço, que designava Fernando Silva para a chefia da BPG, assim desprezando a opção por mim apresentada, que solucionaria muito melhor o problema originado pelo falecimento de La Cueva Couto.

Não seria, afinal, a primeira vez que Guimarães dos Santos seria convidado, por um Director-Geral, a anular uma infeliz Ordem, Tal foi o caso da correcção diplomaticamente aconselhada por Castro e Solla a uma Ordem que alterava a residência oficial de grande número de funcionários, a qual teria muito negativos reflexos nos proventos destes funcionários (Ver post N.º 24).

Mas de Carneiro não era expectável um comportamento diplomático.

Assisti a muitas das atitudes grosseiras, que adoptava, em demonstração de autoridade. Curiosamente, um dirigente de importante Companhia mineira canadiana, com o natural à-vontade que o convívio em trabalho havia gerado, quando se referia a Soares Carneiro, apelidava-o de “the grocer”, isto é, “o merceeiro”, sem ofensa para esta digna classe de trabalhadores.

Infelizmente este mau exemplo teve seguidores, que chegavam a ufanar-se de até o excederem, acabando com uma aristocracia de trato, que caracterizava anteriormente o corpo de técnicos da DGMSG.

Contrariamente ao posicionamento de Castro e Solla (Ver Post N.º 197), Soares Carneiro iria ter permanente intervenção no SFM, apropriando-se, praticamente, deste importante departamento da DGMSG. As suas arbitrariedades começaram logo a causar-me preocupação. Um exemplo pouco edificante foi a sua ordem para suspensão de campanha de sondagens que estava em curso na região de Montemor-o-Novo, na Mina de cobre de Alcalaínha, com base em anomalias registadas pela aplicação do método electromagnético Turam.

A Brigada de Sondagens, encarregara para dirigir a execução desta campanha, o Agente Técnico de Engenharia Raul da Silva Dionísio, que tinha sido companheiro de trabalho da Soares Carneiro, na Brigada do Norte do SFM. Aparentemente, Soares Carneiro não nutria simpatia por Dionísio, por motivos que eu desconhecia. Aconteceu que a vila de Montemor-o-Novo, onde Dionísio residia temporariamente, fora dotada de uma Escola Técnica, que lutava ainda com carências de pessoal docente. Dionísio foi convidado a colaborar, para preencher lacunas, dentro das suas competências. Pediu autorização superior para prestar essa útil colaboração. Soares Carneiro, não conseguindo melhores argumentos para recusar a colaboração, mandou transferir Dionísio para local distante de Montemor-o-Novo, suspendendo a campanha que estava em curso na Mina de Alcalainha!!!

Não era estimulante este prenúncio sobre o modo arbitrário como Soares Carneiro iria exercer o seu poder, impedindo a transmissão de saber, sem respeito pelos interesses do País.

Apesar disso, o facto de termos sido contemporâneos na Universidade e colegas de idêntica categoria na hierarquia da DGMSG, dava-me grande à-vontade para lhe expor, com firmeza, as minhas opiniões e alimentar esperanças de que as passasse a ter na devida consideração. .

Continua …

terça-feira, 3 de setembro de 2013

220 - Reflexões sobre os recursos minerais de Portugal. Continuação 11



        Em 1962, a evolução natural dos estudos, na Brigada do Sul do Serviço de Fomento Mineiro (BSFM), neutralizara praticamente a malévola decisão do Director de separar por três Brigadas, de si directamente dependentes, as investigações que anteriormente se concentravam na BSFM.

        Relativamente a pessoal técnico superior, a situação, não sendo a ideal, não era impeditiva de realizar, com qualidade, as previstas campanhas de prospecção.

        Levantamentos litológicos, com bastante pormenor, vinham sendo efectuados, desde longa data, sobretudo por pessoal recrutado nos locais de trabalho, obedecendo a instruções por mim ministradas, no sentido de serem implantados, em cartas topográficas à escala 1:5 000, os afloramentos das variadas rochas, o “float” dessas rochas (resíduos da sua desagregação, na ausência de afloramentos) e os indícios de mineralizações.
        Foi assim que se definiu a verdadeira geologia da região de Cercal - Odemira, corrigindo os grosseiros erros, que constam de publicação subscrita por 5 autores, entre os quais um Geólogo (Ver post N.º 202).
        Foi também assim que se ampliou a área com potencialidade para jazigos de pirite, na região de Castro Verde – Almodôvar, de que viria a resultar a descoberta do jazigo de Neves – Corvo.
        Ainda estimulei o Geólogo João Martins da Silva a integrar-se na BSFM, prometendo proporcionar-lhe meios para desempenhar, com alguma qualidade, as suas funções.
        Lamentavelmente rejeitou o convite e continuou a produzir mapas, à escala de 1:50 000, com informação insuficiente e de duvidosa qualidade, que tiveram escassa ou nula utilidade para os objectivos do SFM.

        Conforme já referi, o Eng.º La Cueva Couto, que chefiava a BPG, conseguira libertar-se das influências negativas, não apenas do seu antecessor Orlando Cardoso, mas também do Director do SFM e seus Adjuntos Múrias de Queiroz e António Neto.
        Delegara, praticamente, em mim a orientação superior dos trabalhos de prospecção geofísica.
       
        Foi nesta conformidade que auxiliei Marques Bengala a dar início à aplicação da técnica gravimétrica, que era suposto ter aprendido, quando prestou colaboração à Lea Cross Geophysaical Company, na Mina de S. Domingos.
        Com algum desalento, constatei que Bengala pouco proveito tirara do seu prolongado estágio.
        Para além das leituras no gravímetro e dos cálculos simples das correcções nas leituras a diferentes latitudes, altitudes, horas do dia, etc… nada mais tinha aprendido!!!
        Nem a calibragem para a latitude da zona de investigação se mostrou capaz de efectuar, não lhe ocorrendo consultar as instruções do livro que acompanhava o aparelho!
        E quanto ao nivelamento rigoroso dos pontos das observações, revelou total incapacidade!
        Obviamente, não estaria apto a fazer a interpretação dos resultados da aplicação do método.
        Perante tal mediocridade e tendo em consideração a enorme importância do método, tive que dedicar boa parte do meu tempo a estudar o que constava da bibliografia sobre a matéria, de modo a especializar-me, eu próprio, progressivamente nesta técnica.

        O Director do SFM, que nunca se desembaraçou da qualidade de “técnico de papel selado”, consolidada durante longa permanência na sede da DGMSG, em Lisboa, apenas se apercebia dos acontecimentos no Sul, quando o diligente Agente Técnico de Engenharia Fernando Macieira lhe chamava a atenção para a gravidade dos comentários inseridos nos meus. Relatórios e Planos de trabalhos, que previamente tinha analisado, para lhe poupar o esforço de os ler.
        Mas Guimarães mantinha-se indiferente, consciente da sua impunidade, ao fazer uso do poder em que estava investido, esquecendo o seu juramento de “cumprir com lealdade as funções que lhe tinham sido confiadas”.
        Não era, obviamente, leal, desrespeitar os interesses do País, para os quais eu lhe chamava vigorosamente a atenção!

        Os Trabalhos Mineiros, nas diferentes Secções, que constituíam as principais tarefas atribuídas à BSFM, prosseguiam, a bom ritmo.
        Atingiam o seu maior desenvolvimento, na Mina de Aparis, em Barrancos, demonstrando franco progresso da BSFM, nesse âmbito.
        Projectava-se instituir novo piso, 60 m abaixo do piso 150, que se encontrava em reconhecimento e fazer exploração de algumas bolsadas, com o objectivo de obter os dados essenciais à determinação do valor do jazigo, para poder tomar decisão bem fundamentada sobre a sua futura exploração.
        Guimarães dos Santos que, perante problema difícil de resolver, com os meios existentes no SFM, procurava auxílio externo, como foi o caso do projecto da lavaria de Aparis, resolveu demonstrar o seu saber, emitindo instruções técnicas para melhorar a eficiência desta lavaria.
        Foi mais uma das suas ridículas intervenções.
        A elas eu tinha reagido, declarando que, a respeitarem-se as normas de amostragens aconselhadas, não me admiraria que viessem a obter-se análises, em que o teor de cobre no estéril fosse superior ao do minério bruto (tout venant).
        .
        Numa das minhas ocasionais visitas ao Director-Geral Castro e Solla, em Lisboa, revelei estas infelizes instruções de Guimarães dos Santos.
        Castro e Solla, que no decurso do tempo, se fora apercebendo do seu erro, ao designar Guimarães para tão importante cargo, soltou espontânea gargalhada, perante a ironia da minha reacção.
        Não resistiu a comentar que tinham incensado Guimarães e ele até se julgava um génio!
        Acrescentou que estava prevista uma reorganização da DGMSG, aproveitando a próxima aposentação de um Inspector Superior e que, nessa reorganização, eu seria o técnico qualificado para assumir a direcção do SFM.

        Mas Guimarães dos Santos não era pessoa para desperdiçar oportunidade que se lhe oferecesse para despoticamente me afrontar, com a ostentação do seu poder.
        Ignorando as minhas propostas, decidiu destacar para a Brigada do Sul, o Engenheiro Vítor Alvoeiro de Almeida, recentemente contratado pelo SFM.
        Achei estranho que, em 1951, quando emitiu Ordem de Serviço, a integrar o Engenheiro Fernando Silva na BSFM, especificou que lhe competiria promover o estudo dos jazigos de manganés.
        Agora, não entendeu necessário distribuir trabalho ao novo Engenheiro, nem se lembrando de consultar, nos Planos de trabalho que eu apresentava, qual o projecto em que seria útil a sua contribuição.

        Na realidade, eram os métodos geofísicos que estavam desfalcados de pessoal qualificado, sobretudo para a interpretação mais avançada dos resultados da aplicação do método magnético.
        Com o acordo de La Cueva Couto, indigitei Vítor Alvoeiro de Almeida, para preencher essa lacuna, começando por lhe fornecer bibliografia que já tinha coligido, para se especializar no método magnético.
       
        Em época anterior, Guimarães tinha decidido promover o Agente Técnico de Engenharia Vitorino Correia a especialista em magnetometria, enviando-o à BSFM para aplicar o método, em Mina de ferro do concelho de Alvito.
        Quando da campanha de prospecção magnética, a cargo da ABEM de Estocolmo, empreendida no início da década de 40 do passado século, em áreas do Sul e do Norte do País, envolvendo minas de magnetite (Montemor-o-Novo, Alvito, Orada, Vila Cova do Marão) Vitorino tinha sido destacado pelo SFM para colaborar nos trabalhos.
        Isso e a exibição de Vitorino, perante interlocutores ignorantes na matéria, visando auto-promoção, bastaram a Guimarães para o considerar especialista em magnetometria!
       
        Quando a BSFM tinha em progresso, galerias, nos pisos 30 e 60 do poço 3 da sede Mendonça da Mina de Aires, localizada na freguesia de Vila Nova da Baronia do concelho de Alvito, chegara ao meu conhecimento que a Direcção do SFM tinha, em armazém, um magnetómetro de Thalén-Tiberg, que já pouco se usava, devido à sua fraca sensibilidade.
        Requeri ao Director que me enviasse esse aparelho, embora dele pouco esperasse, para o aplicar na Mina do Alvito e em outras minas abandonadas da região.
        Foi, pois, com surpresa que vi aparecer na BSFM o Senhor Vitorino, que o Director encarregara de proceder às “complexas” leituras de um obsoleto magnetómetro, que era apenas uma simples bússola, preparada para medir grosseiras variações da componente vertical.
        Maior foi a minha surpresa com a demora na entrega dos resultados.
        Vitorino fizera um longo relatório de 24 (!) páginas, que me foi enviado, acompanhado de um texto manuscrito de Guimarães dos Santos, bem revelador da sua ignorância e do aproveitamento que Vitorino dela soubera fazer.
        Vitorino fizera detalhada interpretação das suas observações, apresentando “previsões”, em jeito de astrólogo.
        Terminava o relatório, datado de Março de 1950, com o seguinte expressivo parágrafo:
        “Resta-me, então, afirmar, que se tal acontecer, aquelas faltas justificam, afinal, uma tolerância, que não é mais do que o previlégio (sic) sempre pedido em trabalhos, como os propostos neste relatório, pertencentes à ancestral ARTE DE MINAS”    
        Toda esta ridícula retórica Guimarães aceitou e até elogiou!
        Obviamente que nenhuma das recomendações de Vitorino, que até implicavam elevados dispêndios, foi tida em consideração, por notória ausência de fundamentos.

        Considerando ultrapassada, no Sul, esta fase de predomínio do poder absoluto sobre o saber, em que a distância do grupo de anedóticos Engenheiros, acomodados na sede do SFM no Porto era, nessa data, factor pouco propício a contactos pessoais, fortaleci as minhas esperanças de que uma nova era no aproveitamento dos nossos recursos minerais iria ter o seu embrião na BSFM, generalizando-se, posteriormente a todo o País.
        Para isso, contribuíam também, as conversas a que me referi, com o Director-Geral Castro e Solla.

        Continua …

sábado, 24 de agosto de 2013

219- Reflexões sobre os recursos minerais de Portugal. Continuação 10



        Prossigo na descrição de acontecimentos ocorridos na Faixa Piritosa Alentejana, que seleccionei como emblemáticos do “uso do poder em oposição ao saber, impunemente praticado por dirigentes da Direcção-Geral de Minas e Serviços Geológicos (DGMSG).

        Em cumprimento de disposições legais, tinham sido declaradas cativas, para os estudos do Serviço de Fomento Mineiro (SFM), áreas envolventes dos três principais centros mineiros da Faixa Piritosa Alentejana (S. Domingos, Aljustrel e Louzal-Caveira).
        Pretendeu-se, com tal medida, impedir que entidade privada utilizasse resultados dos estudos do SFM, sem as devidas compensações ao Estado.

        Acontecia, porém, que a Direcção do SFM não dava andamento às propostas de aquisição dos equipamentos indispensáveis para que se cumprisse o programa constante do relatório de minha autoria “Prospecção de Pirites no Baixo Alentejo”, publicado em 1955, na Revista do SFM.

        Durante a 2.ª Guerra Mundial, apenas a Mina de S. Domingos manteve produção significativa, porque tinha instalado fábricas, nas quais produzia enxofre, a partir da pirite.
        Aljustrel e Louzal procediam quase exclusivamente a trabalhos de manutenção.
        E a Mina da Caveira estava sem actividade, desde o grande incêndio que nela deflagrara.

        Com o termo do conflito, todas as Empresas instaladas na Faixa, mostraram grande interesse em investigar áreas adjacentes às suas concessões, apesar de essas áreas se situarem no interior de zonas reservadas para os estudos do SFM.
Pretendiam garantir a continuidade das suas explorações, com novas reservas minerais, que esperavam descobrir.
No caso de S. Domingos a situação até já era crítica. Mina quase com um século de contínua exploração, só tinha reservas para extrair, durante 20 anos.

Era óbvio que Organismo instituído com o objectivo de desenvolver a indústria mineira nacional, não deveria criar obstáculos a Empresas, que se propunham realizar o que a Direcção desse Organismo não demonstrava grande empenho em levar à prática.

As pretensões de todas as Empresas foram atendidas, não tendo sequer sido exigidas compensações pela valorização introduzida, nessas parcelas das áreas cativas, pelos estudos geológicos e pela aplicação de técnicas geofísicas, da iniciativa do SFM.
Nas cláusulas contratuais, nem sempre foi exigida a entrega de relatórios desenvolvidos dos estudos que viessem a ser efectuados.

Os contratos, apesar de levianamente elaborados por “técnicos de papel selado”, sediados em Lisboa, que nem tiveram na devida consideração as disposições do art.º 6.º do Decreto-lei 29725, que visavam acautelar os interesses do Estado, acabaram por trazer notáveis benefícios ao SFM.
        De facto, todas as concessionárias trouxeram, a Portugal, conceituados cientistas e prestigiadas Companhias especializadas em técnicas geofísicas, a fim de efectuarem campanhas para a descoberta de novas concentrações de minério.

        Eu não desperdicei a extraordinária oportunidade que se me oferecia para adquirir algum conhecimento directo da aplicação prática de técnicas que já tinha estudado na teoria.
        Entrei em contacto com todos estes cientistas e com os técnicos das empresas especializadas em métodos geofísicos, encontrando sempre excelente receptividade perante as questões que lhes apresentei.

        Os Professores ingleses J. Bruckshaw, John Webb, David Williams e o Professor francês Delcey não foram bem-sucedidos nos seus denodados esforços para revelar novas concentrações de minério, que permitissem prolongar a laboração na Mina de S. Domingos.
        Porém, na Mina de Aljustrel, embora  a “Compagnie Générale de Géophysique (CGG)” francesa, não tivesse adicionado novas reservas às evidenciadas pelo método electromagnético Turam, foi notável a vigorosa expressão gravimétrica da massa de Carrasco – Moinho, que até permitiu fazer a estimativa das suas reservas.
        Notável também a anomalia de polarização espontânea, que muito valorizou a aplicação futura deste método de grande simplicidade.

        As Companhias McPhar e Excalibur, que actuaram sobretudo no Centro Mineiro de Louzal – Caveira, aplicando o método de polarização induzida, também não tiveram sucessos práticos nas suas campanhas.

Mas foi, numa fase mais tardia (1960-61), que eu pude tirar o proveito, que ambicionava, da presença de Empresa especializada em métodos geofísicos e geoquímicos, em território nacional.

A Lea Cross Geophysical Company actuava na Mina de S. Domingos, aplicando diversas técnicas, com realce para a gravimetria e a análise geoquímica de Cu, Pb, Zn em amostras de solos.
Num dos meus frequentes contactos com os seus dirigentes, foi-me solicitada a indicação de um Geólogo ou Engenheiro de Minas português, para colaborar nos seus trabalhos.
Logo me ocorreu que esta seria uma óptima oportunidade para que o Engenheiro Marques Bengala, que acabara de ser destacado para a BPG, juntando-se aos que se entretinham com a magnetometria, aprendesse as técnicas que a Lea Cross usava.
Não foi com entusiasmo que este recém–admitido colega aceitou trocar, durante alguns meses, o conforto do gabinete em que o tinham instalado, por trabalho diário, de campo ou laboratorial, na zona de S. Domingos (Ver post N.º 14).

O Chefe da BPG, Eng.º La Cueva Couto, que começava a conseguir libertar-se da passividade herdada do seu antecessor, concordou em enviar ao Director do SFM proposta, que eu me encarreguei de elaborar, para ser autorizado o estágio de Marques Bengala na Lea Cross Geophysical Company.
A autorização foi concedida por ter sido solicitada por ofício subscrito pelo Chefe da BPG.

Bengala permaneceu durante 6 meses em estágio, na Lea Cross, beneficiando do meu constante apoio, pois fazia regresso a Beja com passagem pela Mina de S. Domingos, nas minhas frequentes deslocações à Mina de Aparis, em Barrancos, onde dirigia importantes trabalhos de reconhecimento deste jazigo cuprífero.
Terminado o estágio, o Director do SFM aceitou, finalmente que fosse adquirido um gravímetro!!

Tinham passado 10 anos sobre a data da minha primeira referência à necessidade de aquisição deste aparelho!!!.

         O gravímetro chegou, em 1962.

O SFM poderia, finalmente cumprir, com meios próprios, o objectivo para que fora instituído, dispensando a concurso de Empresas estrangeiras!

É certo que ainda não dispunha de equipamentos para aplicação do método de refracção sísmica e de alguns métodos eléctricos, mas estas técnicas não se apresentavam com o mesmo grau de urgência.

Relativamente a pessoal técnico, o Eng.º La Cueva Couto, aceitava e até agradecia a colaboração que sempre me dispusera a prestar-lhe.
E Marques Bengala era suposto ter-se especializado em gravimetria, durante o seu prolongado estágio na Mina de S. Domingos.

        Perante estes factos, convenci-me de que, Portugal reunia agora condições para entrar em nova era, no que respeita ao aproveitamento dos seus recursos minerais.
      
       Era chegada a oportunidade de a DGMSG passar a respeitar o preceito legal de defesa do património mineiro nacional, - que tem sistematicamente ignorado - , segundo o qual, os recursos minerais são classificados como “bens dominiais”, estando consequentemente interdita, a entidades estrangeiras, a concessão de direitos para sua exploração.

        O desiderato expresso nas Considerações finais do meu relatório “Prospecção de Pirites no Baixo Alentejo” publicado em 1955, quanto ao papel dos portugueses no aproveitamento dos seus recursos minerais teria assim o seu normal cumprimento.
       

        Continua …

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

218- Reflexões sobre os recursos minerais de Portugal. Continuação 9


Iniciei, no post anterior, a descrição do terceiro caso emblemático do uso de poder em oposição ao saber, praticado por dirigentes da Direcção-Geral de Minas e Serviços Geológicos (DGMSG).

Este caso diz respeito aos estudos efectuados na Faixa Piritosa Alentejana.

Os negativos efeitos dos abusos praticados foram completamente ofuscados pelo sensacionalismo dos êxitos conseguidos nesta Faixa.

De facto, não houve despedimentos de mineiros, como aconteceu na Faixa Carbonífera do Douro e na Faixa Metalífera da Beira Litoral.

Houve, pelo contrário, a admissão de mais de um milhar de trabalhadores, em consequência desses êxitos.

Quais foram, então, as consequências funestas dissimuladas pelos êxitos?

Conforme declarei, no post anterior, foi árdua a minha luta para que fossem técnicos portugueses a chegar às descobertas, que eu previra, evitando continuar a entregar os nossos recursos, a países ricos, para depois termos de importar produtos deles derivados, que facilmente poderíamos cá fabricar.

Citei já o caso da metalurgia do chumbo, na Mina do Braçal.
Mas várias outras metalurgias estiveram instaladas, tais como a Siderurgia do Seixal, o complexo da Companhia União Fabril (CUF) no Barreiro.
Não seria, portanto difícil cumprir os desígnios dos Decretos-leis N.ºs 18713 e 29725, neste âmbito.
Intrigava-me que os grandes jazigos minerais portugueses estivessem a ser explorados por empresas estrangeiras.

Também me causava estranheza que, na maior parte das Minas em exploração por empresas estrangeiras, os portugueses nelas empregados desempenhassem, sobretudo, tarefas subalternas, acontecendo, em muitos casos, nem os Directores Técnicos exercerem localmente os seus cargos, apesar de a legislação vigente (art. 61.º do Decreto-lei N.º 18713) exigir que residissem nas Minas, sempre que a exploração empregasse mais de 200 indivíduos.


Alguns desses Directores permaneciam em Lisboa e encarregavam-se principalmente dos contactos com os serviços oficiais.
De novo, vinha à minha memória o espírito patriótico de Camões (Ver post N.º 124)
Que nunca os admirados Alemães, Galos, Ítalos e Ingleses possam dizer que são para mandados, mais que para mandar os Portugueses!


Foi durante a minha presença, em 1944-47, na Faixa Piritosa Alentejana, primeiro na Mina de S. Domingos que, então, estava a ser explorada pela empresa inglesa “Mason & Barry” e depois, na Mina de Aljustrel, que era explorada pela empresa belga “Société Anonyme Belge des Mines d’Aljustrel”, que me fui apercebendo desta estranha realidade.
Achei até curioso que o SFM tivesse vindo, actuar de modo que redundaria em benefício de poderosas empresas estrangeiras.


Anos mais tarde, viria a surpreender-me, ainda mais, com o procedimento de “Mason & Barry”, ao requerer ao Estado português o reembolso das despesas que fizera, sem sucesso, para tentar descobrir novas reservas, quando já se encontrava em situação aflitiva e tomara a iniciativa, não só de contratar empresa inglesa especializada em métodos geofísicos e geoquímicos, mas também de efectuar sondagens, projectadas ou não por essa empresa especializada.
O seu requerimento veio à minha mão para informar, enviado directamente pelo Director-Geral Castro e Solla.
O meu parecer foi obviamente negativo, porquanto para que o SFM pudesse prestar auxílio que a lei consignava, impunha-se a prévia aprovação pelo SFM do projecto de trabalhos e a subsequente fiscalização do seu cumprimento.
Isto não tinha, porém, acontecido!
Na apreciação final do requerimento foi tido na devida consideração o meu parecer, sendo indeferida a pretensão de “Mason and Barry”.


Durante a minha presença em Minas da Faixa Piritosa, fui adquirindo progressiva preparação em prospecção geofísica, não apenas na aplicação directa do método electromagnético Turam, mas também em outros métodos que ia investigando na literatura disponível.


Considerava-me, por isso, dentro do SFM, o técnico mais qualificado para dirigir estudos desta natureza, que se tornassem necessários.


Mas não foi este o entendimento do Director Guimarães dos Santos, ao tomar a resolução de dividir por 3 Brigadas o que antes se concentrava na Brigada do Sul (BSFM).


Nos Planos de Trabalho da BSFM, quando ficou sob minha chefia, eu inseria a premente necessidade de novos estudos geológicos mais pormenorizados e vasta aplicação de métodos geofísicos.
Neles, indicava as áreas onde deveriam incidir tais estudos e o Director do SFM limitava-se a encarregar, da respectiva execução, as Brigadas que colocara na sua dependência, não revelando capacidade para avaliar a correcção e a produtividade do trabalho que era efectuado.


Na nova Brigada de Levantamentos Litológicos (BLL), o Geólogo João Martins da Silva continuava a demonstrar a impreparação que já o tinha induzido a cometer clamorosos erros, nas regiões de Cercal do Alentejo e Montemor-o-Novo, os quais estão bem patentes em relatórios publicados (Ver posts N.ºs  200 e 202).
Lamentavelmente, quem promoveu ou autorizou a publicação desses relatórios também demonstrou não estar preparado, em matéria de geologia, para se aperceber da gravidade de tais erros!!!
A criação de uma Brigada de Prospecção Geofísica (BPG), na dependência do Director do SFM, com chefia confiada ao Engenheiro Orlando Martins Cardoso, resultou em enorme atraso no uso destas novas técnicas, que eram essenciais para mais rápido, menos oneroso  e mais eficaz conhecimento das nossas reservas de recursos minerais.


Orlando Cardoso revelou surpreendente inexperiência nestas técnicas.
A sua passagem pela Brigada do Centro, onde teria participado em campanha de prospecção sísmica, modalidade de refracção, com vista à detecção de sais de potássio, não lhe fez adquirir a noção da real importância que deveria ser atribuída aos métodos geofísicos.


Sintomática foi a sua reacção, quando sugeri que um recém-licenciado Engenheiro, que o Director do SFM destacara para a BSFM, fosse, de preferência, integrado na BPG, pois vastas eram as tarefas exigidas à BPG, para cumprir os projectos apresentados pela BSFM, que impunham a aplicação de métodos geofísicos.
Fiquei perplexo, quando ouvi Cardoso, doutoralmente, exclamar: Na Geofísica, quanto menos, melhor!
Tal à-vontade, ao exprimir tamanha barbaridade, pressupunha apoio do Director do SFM.
De facto, Cardoso beneficiava de uma protecção talvez difícil de encontrar, em qualquer outro Organismo de Estado.


Na BPG, foram apenas integrados mais um Engenheiro e um Agente Técnico de Engenharia, ambos sem real experiência na matéria.


Com o propósito de auxiliar a BPG a dar início à sua actividade, estabeleci contactos com a ABEM de Estocolmo, visando a aquisição de dois magnetómetros de modelo recentemente concebido por esta Empresa, com a sensibilidade adequada aos estudos projectados pela BSFM e também de um equipamento de prospecção electromagnética Turam.


O Director do SFM autorizou estas aquisições e tratava-se agora de passar à acção.


Mais novas surpresas me esperavam.
A BPG nem sequer se mostrou apta a implantar no terreno os pontos onde deveriam ser feitas as observações magnéticas.
Tive que ser eu a deslocar-me á Região de Cuba – Vidigueira, que tinha seleccionado para início da campanha de prospecção visando detectar novas concentrações de minério magnetítico, na vasta zona que denominei de Faixa Magmetítica Alentejana, na qual eram já conhecidas, entre outras, as Minas de ferro de Montemor-o-Novo, Alvito e Orada.
Foi aí, que partindo de vértices trigonométricos, cujas coordenadas, no sistema Hayford-Gauss com origem no Ponto Central, tinham sido previamente solicitadas ao Instituto Geográfico e Cadastral (IGC), dei as necessárias instruções para que a piquetagem, com malha de 50m x 50 m, pudesse prosseguir, com o rigor pretendido.
Eu tinha conseguido que fossem adquiridos dois magnetómetros, para não prolongar, por muitos anos, a campanha, mas a BPG decidiu manter apenas um deles em uso, deixando o outro de reserva para ocorrer a possíveis avarias!!
Nem sequer quis usar o segundo aparelho para a correcção da variação diurna, evitando usar o procedimento menos rigoroso de regresso a bases, ao fim de uma hora de trabalho.


Quanto ao método electromagnético Turam, tentei, durante vários dias, no terreno, ensinar Cardoso a utilizá-lo, mas não consegui que aprendesse.
Todo o volumoso material respeitante a esta técnica foi mantido, durante bastante tempo, empacotado, na sede do SFM, no Porto.
Foi, então, que eu tomei a decisão de informar o Director do SFM que, para mim, não havia qualquer dificuldade em adicionar às minhas funções normais na BSFM, a aplicação deste método.
Foi com surpresa que recebi o assentimento do Director e de Cardoso, pois ambos se tinham mostrado anteriormente muito ciosos em não consentir que eu usasse o magnetómetro inactivo em ensaios em minas de manganés.
A realidade foi que, de imediato, passei a usar sistematicamente, em todas as Secções da BSFM este método Turam e a obter resultados, por vezes sensacionais, como foi o caso da Mina de Aparis em Barrancos (Ver post N.º 20).
E que aconteceu, relativamente ao método gravimétrico?
Perante a minha insistência na sua aplicação na Faixa Piritosa, era essencial que alguém se preparasse nessa técnica, que ainda não era ensinada em Portugal.
Mas não foi Cardoso a deslocar-se a Universidade estrangeira, a fim de nela se especializar.
Foi o Professor do Imperial College of Science and Technology de Londres, J. Bruckshaw que veio a Portugal, por duas vezes, para ensinar Cardoso !!!! (Ver post N.º 13)      
Eu estive presente, em algumas dessas aulas, sobretudo para auxiliar na tradução para português, pois Cardoso, que até frequentara Curso de Inglês, no Porto, tinha alguma dificuldade em acompanhar o que o Professor Bruckshaw ia ensinando.


Mas para nada serviram estas aulas, pois Cardoso, por decisão do Director, foi temporariamente desligado do SFM, para se especializar em prospecção de minerais radioactivos e ir prestar colaboração à Direcção-Geral dos Serviços de Prospecção e Exploração Mineira da Junta de Energia Nuclear, que acabava de ser criada no País, nas mais estranhas circunstâncias (Ver post N.º 13).
Finalmente, Cardoso acabaria por ser completamente desligado da Prospecção Mineira, onde se não notou que tivesse produzido algo de  útil, durante mais de uma dezena de anos, nos quais permaneceu como seu chefe!!!.
Passou a ser-lhe confiada outra chefia!   
Passou a chefiar um departamento denominado 2.º Serviço do SFM, que teria a seu cargo   “Trabalhos Mineiros e Laboratórios”!!!


A ele, no Norte do País e a Fernando Silva no Sul, se ficou devendo a extinção do que devia ser um dos mais importantes departamentos do SFM: o sector dos “Trabalhos Mineiros tradicionais” !!!


Cardoso passou, portanto, a dirigir Laboratórios, isto é, matéria em que era completamente ignorante, limitando-se a desempenhar o papel de intermediário entre os requisitantes de análises, químicas, mineralógicas,  etc, e os Laboratórios onde as análises eram realizadas!
Mais uma vez se confirmava o anedótico rifão: “Quem sabe faz; quem não sabe, dirige!”


Nem Orlando Cardoso, nem o Director do SFM, nem o principal adjunto do Director, o Engenheiro Múrias de Queiroz tinham consciência dos prejuízos que estavam a ocasionar ao País, com a sistemática oposição que manifestavam às minhas insistentes propostas no sentido de tornar o SFM um Organismo de Investigação, dotado dos meios materiais e humanos adequados ao cumprimento dos objectivos enunciados no Decreto de sua criação.


Mais um exemplo de atitude que bem caracteriza Múrias de Queiroz:
Em ocasião, em que, francamente inquieto com atrasos artificiais, que se verificavam nos estudos projectados pela BSFM, me desloquei propositadamente de Beja ao Porto, com o objectivo de tentar esclarecer o Director das vantagens de restabelecer a Orgânica que vigorou durante o mandato de Bernardo Ferreira, concentrando todos os estudos, em curso no Sul, numa única Brigada, pois era notório que  a BPG e a BLL tinham produção ridícula e de duvidosa qualidade, Múrias de Queiroz, sem  que alguém tivesse pedido o seu parecer, permite-se comentar, em tom agressivo:
“Ele julga que é o melhor do Mundo!”


Porém, o Director-Geral Eng.º Castro e Solla, embora raramente interferisse na actividade do SFM  - costumava dizer que os dirigentes dos Serviços não são chancelas  -  ia-se apercebendo da  reduzida eficácia de alguns sectores do SFM.
Por isso, sem necessidade de me qualificar de o melhor do Mundo, como exigia Múrias de Queiroz, quando recebeu da OECE (que depois passou a OCDE), convite para que o País se fizesse representar, em reuniões a realizar em Paris, sobre métodos modernos de prospecção mineira,  foi a mim, e não a um Engenheiro da BPG, que decidiu nomear como delegado de Portugal no Grupo “ad hoc” de peritos nesses métodos
Nesta qualidade, participei, em reuniões do Grupo, em Paris, no qual estavam representados 18 países.


Das acções negativas de Guimarães dos Santos, Orlando Cardoso, Múrias de Queiroz e de vários outros que lamentavelmente vieram seguir os seus exemplos, resultou que, só passados 10 anos sobre a minha primeira proposta, consegui que o SFM passasse a efectuar, com meios próprios, levantamentos pelo método gravimétrico!!


À aplicação desta técnica se deveram os maiores êxitos nacionais em prospecção mineira, em todos os tempos.
Em próximos posts, revelarei novos ostensivos abusos de “poder, em oposição ao saber”, com “grande  desrespeito pelos interesses do País” praticados por dirigentes incompetentes e malévolos da DGMSG, que  não tiveram pejo em transferir para empresas estrangeiras a concretização final de êxitos resultantes de trabalhos displinada e pacientemente executados pelo SFM, ao longo de muitos anos, quando se encontravam já praticamente definidos os alvos a sondar!!!.
Continua...