terça-feira, 3 de setembro de 2013

220 - Reflexões sobre os recursos minerais de Portugal. Continuação 11



        Em 1962, a evolução natural dos estudos, na Brigada do Sul do Serviço de Fomento Mineiro (BSFM), neutralizara praticamente a malévola decisão do Director de separar por três Brigadas, de si directamente dependentes, as investigações que anteriormente se concentravam na BSFM.

        Relativamente a pessoal técnico superior, a situação, não sendo a ideal, não era impeditiva de realizar, com qualidade, as previstas campanhas de prospecção.

        Levantamentos litológicos, com bastante pormenor, vinham sendo efectuados, desde longa data, sobretudo por pessoal recrutado nos locais de trabalho, obedecendo a instruções por mim ministradas, no sentido de serem implantados, em cartas topográficas à escala 1:5 000, os afloramentos das variadas rochas, o “float” dessas rochas (resíduos da sua desagregação, na ausência de afloramentos) e os indícios de mineralizações.
        Foi assim que se definiu a verdadeira geologia da região de Cercal - Odemira, corrigindo os grosseiros erros, que constam de publicação subscrita por 5 autores, entre os quais um Geólogo (Ver post N.º 202).
        Foi também assim que se ampliou a área com potencialidade para jazigos de pirite, na região de Castro Verde – Almodôvar, de que viria a resultar a descoberta do jazigo de Neves – Corvo.
        Ainda estimulei o Geólogo João Martins da Silva a integrar-se na BSFM, prometendo proporcionar-lhe meios para desempenhar, com alguma qualidade, as suas funções.
        Lamentavelmente rejeitou o convite e continuou a produzir mapas, à escala de 1:50 000, com informação insuficiente e de duvidosa qualidade, que tiveram escassa ou nula utilidade para os objectivos do SFM.

        Conforme já referi, o Eng.º La Cueva Couto, que chefiava a BPG, conseguira libertar-se das influências negativas, não apenas do seu antecessor Orlando Cardoso, mas também do Director do SFM e seus Adjuntos Múrias de Queiroz e António Neto.
        Delegara, praticamente, em mim a orientação superior dos trabalhos de prospecção geofísica.
       
        Foi nesta conformidade que auxiliei Marques Bengala a dar início à aplicação da técnica gravimétrica, que era suposto ter aprendido, quando prestou colaboração à Lea Cross Geophysaical Company, na Mina de S. Domingos.
        Com algum desalento, constatei que Bengala pouco proveito tirara do seu prolongado estágio.
        Para além das leituras no gravímetro e dos cálculos simples das correcções nas leituras a diferentes latitudes, altitudes, horas do dia, etc… nada mais tinha aprendido!!!
        Nem a calibragem para a latitude da zona de investigação se mostrou capaz de efectuar, não lhe ocorrendo consultar as instruções do livro que acompanhava o aparelho!
        E quanto ao nivelamento rigoroso dos pontos das observações, revelou total incapacidade!
        Obviamente, não estaria apto a fazer a interpretação dos resultados da aplicação do método.
        Perante tal mediocridade e tendo em consideração a enorme importância do método, tive que dedicar boa parte do meu tempo a estudar o que constava da bibliografia sobre a matéria, de modo a especializar-me, eu próprio, progressivamente nesta técnica.

        O Director do SFM, que nunca se desembaraçou da qualidade de “técnico de papel selado”, consolidada durante longa permanência na sede da DGMSG, em Lisboa, apenas se apercebia dos acontecimentos no Sul, quando o diligente Agente Técnico de Engenharia Fernando Macieira lhe chamava a atenção para a gravidade dos comentários inseridos nos meus. Relatórios e Planos de trabalhos, que previamente tinha analisado, para lhe poupar o esforço de os ler.
        Mas Guimarães mantinha-se indiferente, consciente da sua impunidade, ao fazer uso do poder em que estava investido, esquecendo o seu juramento de “cumprir com lealdade as funções que lhe tinham sido confiadas”.
        Não era, obviamente, leal, desrespeitar os interesses do País, para os quais eu lhe chamava vigorosamente a atenção!

        Os Trabalhos Mineiros, nas diferentes Secções, que constituíam as principais tarefas atribuídas à BSFM, prosseguiam, a bom ritmo.
        Atingiam o seu maior desenvolvimento, na Mina de Aparis, em Barrancos, demonstrando franco progresso da BSFM, nesse âmbito.
        Projectava-se instituir novo piso, 60 m abaixo do piso 150, que se encontrava em reconhecimento e fazer exploração de algumas bolsadas, com o objectivo de obter os dados essenciais à determinação do valor do jazigo, para poder tomar decisão bem fundamentada sobre a sua futura exploração.
        Guimarães dos Santos que, perante problema difícil de resolver, com os meios existentes no SFM, procurava auxílio externo, como foi o caso do projecto da lavaria de Aparis, resolveu demonstrar o seu saber, emitindo instruções técnicas para melhorar a eficiência desta lavaria.
        Foi mais uma das suas ridículas intervenções.
        A elas eu tinha reagido, declarando que, a respeitarem-se as normas de amostragens aconselhadas, não me admiraria que viessem a obter-se análises, em que o teor de cobre no estéril fosse superior ao do minério bruto (tout venant).
        .
        Numa das minhas ocasionais visitas ao Director-Geral Castro e Solla, em Lisboa, revelei estas infelizes instruções de Guimarães dos Santos.
        Castro e Solla, que no decurso do tempo, se fora apercebendo do seu erro, ao designar Guimarães para tão importante cargo, soltou espontânea gargalhada, perante a ironia da minha reacção.
        Não resistiu a comentar que tinham incensado Guimarães e ele até se julgava um génio!
        Acrescentou que estava prevista uma reorganização da DGMSG, aproveitando a próxima aposentação de um Inspector Superior e que, nessa reorganização, eu seria o técnico qualificado para assumir a direcção do SFM.

        Mas Guimarães dos Santos não era pessoa para desperdiçar oportunidade que se lhe oferecesse para despoticamente me afrontar, com a ostentação do seu poder.
        Ignorando as minhas propostas, decidiu destacar para a Brigada do Sul, o Engenheiro Vítor Alvoeiro de Almeida, recentemente contratado pelo SFM.
        Achei estranho que, em 1951, quando emitiu Ordem de Serviço, a integrar o Engenheiro Fernando Silva na BSFM, especificou que lhe competiria promover o estudo dos jazigos de manganés.
        Agora, não entendeu necessário distribuir trabalho ao novo Engenheiro, nem se lembrando de consultar, nos Planos de trabalho que eu apresentava, qual o projecto em que seria útil a sua contribuição.

        Na realidade, eram os métodos geofísicos que estavam desfalcados de pessoal qualificado, sobretudo para a interpretação mais avançada dos resultados da aplicação do método magnético.
        Com o acordo de La Cueva Couto, indigitei Vítor Alvoeiro de Almeida, para preencher essa lacuna, começando por lhe fornecer bibliografia que já tinha coligido, para se especializar no método magnético.
       
        Em época anterior, Guimarães tinha decidido promover o Agente Técnico de Engenharia Vitorino Correia a especialista em magnetometria, enviando-o à BSFM para aplicar o método, em Mina de ferro do concelho de Alvito.
        Quando da campanha de prospecção magnética, a cargo da ABEM de Estocolmo, empreendida no início da década de 40 do passado século, em áreas do Sul e do Norte do País, envolvendo minas de magnetite (Montemor-o-Novo, Alvito, Orada, Vila Cova do Marão) Vitorino tinha sido destacado pelo SFM para colaborar nos trabalhos.
        Isso e a exibição de Vitorino, perante interlocutores ignorantes na matéria, visando auto-promoção, bastaram a Guimarães para o considerar especialista em magnetometria!
       
        Quando a BSFM tinha em progresso, galerias, nos pisos 30 e 60 do poço 3 da sede Mendonça da Mina de Aires, localizada na freguesia de Vila Nova da Baronia do concelho de Alvito, chegara ao meu conhecimento que a Direcção do SFM tinha, em armazém, um magnetómetro de Thalén-Tiberg, que já pouco se usava, devido à sua fraca sensibilidade.
        Requeri ao Director que me enviasse esse aparelho, embora dele pouco esperasse, para o aplicar na Mina do Alvito e em outras minas abandonadas da região.
        Foi, pois, com surpresa que vi aparecer na BSFM o Senhor Vitorino, que o Director encarregara de proceder às “complexas” leituras de um obsoleto magnetómetro, que era apenas uma simples bússola, preparada para medir grosseiras variações da componente vertical.
        Maior foi a minha surpresa com a demora na entrega dos resultados.
        Vitorino fizera um longo relatório de 24 (!) páginas, que me foi enviado, acompanhado de um texto manuscrito de Guimarães dos Santos, bem revelador da sua ignorância e do aproveitamento que Vitorino dela soubera fazer.
        Vitorino fizera detalhada interpretação das suas observações, apresentando “previsões”, em jeito de astrólogo.
        Terminava o relatório, datado de Março de 1950, com o seguinte expressivo parágrafo:
        “Resta-me, então, afirmar, que se tal acontecer, aquelas faltas justificam, afinal, uma tolerância, que não é mais do que o previlégio (sic) sempre pedido em trabalhos, como os propostos neste relatório, pertencentes à ancestral ARTE DE MINAS”    
        Toda esta ridícula retórica Guimarães aceitou e até elogiou!
        Obviamente que nenhuma das recomendações de Vitorino, que até implicavam elevados dispêndios, foi tida em consideração, por notória ausência de fundamentos.

        Considerando ultrapassada, no Sul, esta fase de predomínio do poder absoluto sobre o saber, em que a distância do grupo de anedóticos Engenheiros, acomodados na sede do SFM no Porto era, nessa data, factor pouco propício a contactos pessoais, fortaleci as minhas esperanças de que uma nova era no aproveitamento dos nossos recursos minerais iria ter o seu embrião na BSFM, generalizando-se, posteriormente a todo o País.
        Para isso, contribuíam também, as conversas a que me referi, com o Director-Geral Castro e Solla.

        Continua …

sábado, 24 de agosto de 2013

219- Reflexões sobre os recursos minerais de Portugal. Continuação 10



        Prossigo na descrição de acontecimentos ocorridos na Faixa Piritosa Alentejana, que seleccionei como emblemáticos do “uso do poder em oposição ao saber, impunemente praticado por dirigentes da Direcção-Geral de Minas e Serviços Geológicos (DGMSG).

        Em cumprimento de disposições legais, tinham sido declaradas cativas, para os estudos do Serviço de Fomento Mineiro (SFM), áreas envolventes dos três principais centros mineiros da Faixa Piritosa Alentejana (S. Domingos, Aljustrel e Louzal-Caveira).
        Pretendeu-se, com tal medida, impedir que entidade privada utilizasse resultados dos estudos do SFM, sem as devidas compensações ao Estado.

        Acontecia, porém, que a Direcção do SFM não dava andamento às propostas de aquisição dos equipamentos indispensáveis para que se cumprisse o programa constante do relatório de minha autoria “Prospecção de Pirites no Baixo Alentejo”, publicado em 1955, na Revista do SFM.

        Durante a 2.ª Guerra Mundial, apenas a Mina de S. Domingos manteve produção significativa, porque tinha instalado fábricas, nas quais produzia enxofre, a partir da pirite.
        Aljustrel e Louzal procediam quase exclusivamente a trabalhos de manutenção.
        E a Mina da Caveira estava sem actividade, desde o grande incêndio que nela deflagrara.

        Com o termo do conflito, todas as Empresas instaladas na Faixa, mostraram grande interesse em investigar áreas adjacentes às suas concessões, apesar de essas áreas se situarem no interior de zonas reservadas para os estudos do SFM.
Pretendiam garantir a continuidade das suas explorações, com novas reservas minerais, que esperavam descobrir.
No caso de S. Domingos a situação até já era crítica. Mina quase com um século de contínua exploração, só tinha reservas para extrair, durante 20 anos.

Era óbvio que Organismo instituído com o objectivo de desenvolver a indústria mineira nacional, não deveria criar obstáculos a Empresas, que se propunham realizar o que a Direcção desse Organismo não demonstrava grande empenho em levar à prática.

As pretensões de todas as Empresas foram atendidas, não tendo sequer sido exigidas compensações pela valorização introduzida, nessas parcelas das áreas cativas, pelos estudos geológicos e pela aplicação de técnicas geofísicas, da iniciativa do SFM.
Nas cláusulas contratuais, nem sempre foi exigida a entrega de relatórios desenvolvidos dos estudos que viessem a ser efectuados.

Os contratos, apesar de levianamente elaborados por “técnicos de papel selado”, sediados em Lisboa, que nem tiveram na devida consideração as disposições do art.º 6.º do Decreto-lei 29725, que visavam acautelar os interesses do Estado, acabaram por trazer notáveis benefícios ao SFM.
        De facto, todas as concessionárias trouxeram, a Portugal, conceituados cientistas e prestigiadas Companhias especializadas em técnicas geofísicas, a fim de efectuarem campanhas para a descoberta de novas concentrações de minério.

        Eu não desperdicei a extraordinária oportunidade que se me oferecia para adquirir algum conhecimento directo da aplicação prática de técnicas que já tinha estudado na teoria.
        Entrei em contacto com todos estes cientistas e com os técnicos das empresas especializadas em métodos geofísicos, encontrando sempre excelente receptividade perante as questões que lhes apresentei.

        Os Professores ingleses J. Bruckshaw, John Webb, David Williams e o Professor francês Delcey não foram bem-sucedidos nos seus denodados esforços para revelar novas concentrações de minério, que permitissem prolongar a laboração na Mina de S. Domingos.
        Porém, na Mina de Aljustrel, embora  a “Compagnie Générale de Géophysique (CGG)” francesa, não tivesse adicionado novas reservas às evidenciadas pelo método electromagnético Turam, foi notável a vigorosa expressão gravimétrica da massa de Carrasco – Moinho, que até permitiu fazer a estimativa das suas reservas.
        Notável também a anomalia de polarização espontânea, que muito valorizou a aplicação futura deste método de grande simplicidade.

        As Companhias McPhar e Excalibur, que actuaram sobretudo no Centro Mineiro de Louzal – Caveira, aplicando o método de polarização induzida, também não tiveram sucessos práticos nas suas campanhas.

Mas foi, numa fase mais tardia (1960-61), que eu pude tirar o proveito, que ambicionava, da presença de Empresa especializada em métodos geofísicos e geoquímicos, em território nacional.

A Lea Cross Geophysical Company actuava na Mina de S. Domingos, aplicando diversas técnicas, com realce para a gravimetria e a análise geoquímica de Cu, Pb, Zn em amostras de solos.
Num dos meus frequentes contactos com os seus dirigentes, foi-me solicitada a indicação de um Geólogo ou Engenheiro de Minas português, para colaborar nos seus trabalhos.
Logo me ocorreu que esta seria uma óptima oportunidade para que o Engenheiro Marques Bengala, que acabara de ser destacado para a BPG, juntando-se aos que se entretinham com a magnetometria, aprendesse as técnicas que a Lea Cross usava.
Não foi com entusiasmo que este recém–admitido colega aceitou trocar, durante alguns meses, o conforto do gabinete em que o tinham instalado, por trabalho diário, de campo ou laboratorial, na zona de S. Domingos (Ver post N.º 14).

O Chefe da BPG, Eng.º La Cueva Couto, que começava a conseguir libertar-se da passividade herdada do seu antecessor, concordou em enviar ao Director do SFM proposta, que eu me encarreguei de elaborar, para ser autorizado o estágio de Marques Bengala na Lea Cross Geophysical Company.
A autorização foi concedida por ter sido solicitada por ofício subscrito pelo Chefe da BPG.

Bengala permaneceu durante 6 meses em estágio, na Lea Cross, beneficiando do meu constante apoio, pois fazia regresso a Beja com passagem pela Mina de S. Domingos, nas minhas frequentes deslocações à Mina de Aparis, em Barrancos, onde dirigia importantes trabalhos de reconhecimento deste jazigo cuprífero.
Terminado o estágio, o Director do SFM aceitou, finalmente que fosse adquirido um gravímetro!!

Tinham passado 10 anos sobre a data da minha primeira referência à necessidade de aquisição deste aparelho!!!.

         O gravímetro chegou, em 1962.

O SFM poderia, finalmente cumprir, com meios próprios, o objectivo para que fora instituído, dispensando a concurso de Empresas estrangeiras!

É certo que ainda não dispunha de equipamentos para aplicação do método de refracção sísmica e de alguns métodos eléctricos, mas estas técnicas não se apresentavam com o mesmo grau de urgência.

Relativamente a pessoal técnico, o Eng.º La Cueva Couto, aceitava e até agradecia a colaboração que sempre me dispusera a prestar-lhe.
E Marques Bengala era suposto ter-se especializado em gravimetria, durante o seu prolongado estágio na Mina de S. Domingos.

        Perante estes factos, convenci-me de que, Portugal reunia agora condições para entrar em nova era, no que respeita ao aproveitamento dos seus recursos minerais.
      
       Era chegada a oportunidade de a DGMSG passar a respeitar o preceito legal de defesa do património mineiro nacional, - que tem sistematicamente ignorado - , segundo o qual, os recursos minerais são classificados como “bens dominiais”, estando consequentemente interdita, a entidades estrangeiras, a concessão de direitos para sua exploração.

        O desiderato expresso nas Considerações finais do meu relatório “Prospecção de Pirites no Baixo Alentejo” publicado em 1955, quanto ao papel dos portugueses no aproveitamento dos seus recursos minerais teria assim o seu normal cumprimento.
       

        Continua …

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

218- Reflexões sobre os recursos minerais de Portugal. Continuação 9


Iniciei, no post anterior, a descrição do terceiro caso emblemático do uso de poder em oposição ao saber, praticado por dirigentes da Direcção-Geral de Minas e Serviços Geológicos (DGMSG).

Este caso diz respeito aos estudos efectuados na Faixa Piritosa Alentejana.

Os negativos efeitos dos abusos praticados foram completamente ofuscados pelo sensacionalismo dos êxitos conseguidos nesta Faixa.

De facto, não houve despedimentos de mineiros, como aconteceu na Faixa Carbonífera do Douro e na Faixa Metalífera da Beira Litoral.

Houve, pelo contrário, a admissão de mais de um milhar de trabalhadores, em consequência desses êxitos.

Quais foram, então, as consequências funestas dissimuladas pelos êxitos?

Conforme declarei, no post anterior, foi árdua a minha luta para que fossem técnicos portugueses a chegar às descobertas, que eu previra, evitando continuar a entregar os nossos recursos, a países ricos, para depois termos de importar produtos deles derivados, que facilmente poderíamos cá fabricar.

Citei já o caso da metalurgia do chumbo, na Mina do Braçal.
Mas várias outras metalurgias estiveram instaladas, tais como a Siderurgia do Seixal, o complexo da Companhia União Fabril (CUF) no Barreiro.
Não seria, portanto difícil cumprir os desígnios dos Decretos-leis N.ºs 18713 e 29725, neste âmbito.
Intrigava-me que os grandes jazigos minerais portugueses estivessem a ser explorados por empresas estrangeiras.

Também me causava estranheza que, na maior parte das Minas em exploração por empresas estrangeiras, os portugueses nelas empregados desempenhassem, sobretudo, tarefas subalternas, acontecendo, em muitos casos, nem os Directores Técnicos exercerem localmente os seus cargos, apesar de a legislação vigente (art. 61.º do Decreto-lei N.º 18713) exigir que residissem nas Minas, sempre que a exploração empregasse mais de 200 indivíduos.


Alguns desses Directores permaneciam em Lisboa e encarregavam-se principalmente dos contactos com os serviços oficiais.
De novo, vinha à minha memória o espírito patriótico de Camões (Ver post N.º 124)
Que nunca os admirados Alemães, Galos, Ítalos e Ingleses possam dizer que são para mandados, mais que para mandar os Portugueses!


Foi durante a minha presença, em 1944-47, na Faixa Piritosa Alentejana, primeiro na Mina de S. Domingos que, então, estava a ser explorada pela empresa inglesa “Mason & Barry” e depois, na Mina de Aljustrel, que era explorada pela empresa belga “Société Anonyme Belge des Mines d’Aljustrel”, que me fui apercebendo desta estranha realidade.
Achei até curioso que o SFM tivesse vindo, actuar de modo que redundaria em benefício de poderosas empresas estrangeiras.


Anos mais tarde, viria a surpreender-me, ainda mais, com o procedimento de “Mason & Barry”, ao requerer ao Estado português o reembolso das despesas que fizera, sem sucesso, para tentar descobrir novas reservas, quando já se encontrava em situação aflitiva e tomara a iniciativa, não só de contratar empresa inglesa especializada em métodos geofísicos e geoquímicos, mas também de efectuar sondagens, projectadas ou não por essa empresa especializada.
O seu requerimento veio à minha mão para informar, enviado directamente pelo Director-Geral Castro e Solla.
O meu parecer foi obviamente negativo, porquanto para que o SFM pudesse prestar auxílio que a lei consignava, impunha-se a prévia aprovação pelo SFM do projecto de trabalhos e a subsequente fiscalização do seu cumprimento.
Isto não tinha, porém, acontecido!
Na apreciação final do requerimento foi tido na devida consideração o meu parecer, sendo indeferida a pretensão de “Mason and Barry”.


Durante a minha presença em Minas da Faixa Piritosa, fui adquirindo progressiva preparação em prospecção geofísica, não apenas na aplicação directa do método electromagnético Turam, mas também em outros métodos que ia investigando na literatura disponível.


Considerava-me, por isso, dentro do SFM, o técnico mais qualificado para dirigir estudos desta natureza, que se tornassem necessários.


Mas não foi este o entendimento do Director Guimarães dos Santos, ao tomar a resolução de dividir por 3 Brigadas o que antes se concentrava na Brigada do Sul (BSFM).


Nos Planos de Trabalho da BSFM, quando ficou sob minha chefia, eu inseria a premente necessidade de novos estudos geológicos mais pormenorizados e vasta aplicação de métodos geofísicos.
Neles, indicava as áreas onde deveriam incidir tais estudos e o Director do SFM limitava-se a encarregar, da respectiva execução, as Brigadas que colocara na sua dependência, não revelando capacidade para avaliar a correcção e a produtividade do trabalho que era efectuado.


Na nova Brigada de Levantamentos Litológicos (BLL), o Geólogo João Martins da Silva continuava a demonstrar a impreparação que já o tinha induzido a cometer clamorosos erros, nas regiões de Cercal do Alentejo e Montemor-o-Novo, os quais estão bem patentes em relatórios publicados (Ver posts N.ºs  200 e 202).
Lamentavelmente, quem promoveu ou autorizou a publicação desses relatórios também demonstrou não estar preparado, em matéria de geologia, para se aperceber da gravidade de tais erros!!!
A criação de uma Brigada de Prospecção Geofísica (BPG), na dependência do Director do SFM, com chefia confiada ao Engenheiro Orlando Martins Cardoso, resultou em enorme atraso no uso destas novas técnicas, que eram essenciais para mais rápido, menos oneroso  e mais eficaz conhecimento das nossas reservas de recursos minerais.


Orlando Cardoso revelou surpreendente inexperiência nestas técnicas.
A sua passagem pela Brigada do Centro, onde teria participado em campanha de prospecção sísmica, modalidade de refracção, com vista à detecção de sais de potássio, não lhe fez adquirir a noção da real importância que deveria ser atribuída aos métodos geofísicos.


Sintomática foi a sua reacção, quando sugeri que um recém-licenciado Engenheiro, que o Director do SFM destacara para a BSFM, fosse, de preferência, integrado na BPG, pois vastas eram as tarefas exigidas à BPG, para cumprir os projectos apresentados pela BSFM, que impunham a aplicação de métodos geofísicos.
Fiquei perplexo, quando ouvi Cardoso, doutoralmente, exclamar: Na Geofísica, quanto menos, melhor!
Tal à-vontade, ao exprimir tamanha barbaridade, pressupunha apoio do Director do SFM.
De facto, Cardoso beneficiava de uma protecção talvez difícil de encontrar, em qualquer outro Organismo de Estado.


Na BPG, foram apenas integrados mais um Engenheiro e um Agente Técnico de Engenharia, ambos sem real experiência na matéria.


Com o propósito de auxiliar a BPG a dar início à sua actividade, estabeleci contactos com a ABEM de Estocolmo, visando a aquisição de dois magnetómetros de modelo recentemente concebido por esta Empresa, com a sensibilidade adequada aos estudos projectados pela BSFM e também de um equipamento de prospecção electromagnética Turam.


O Director do SFM autorizou estas aquisições e tratava-se agora de passar à acção.


Mais novas surpresas me esperavam.
A BPG nem sequer se mostrou apta a implantar no terreno os pontos onde deveriam ser feitas as observações magnéticas.
Tive que ser eu a deslocar-me á Região de Cuba – Vidigueira, que tinha seleccionado para início da campanha de prospecção visando detectar novas concentrações de minério magnetítico, na vasta zona que denominei de Faixa Magmetítica Alentejana, na qual eram já conhecidas, entre outras, as Minas de ferro de Montemor-o-Novo, Alvito e Orada.
Foi aí, que partindo de vértices trigonométricos, cujas coordenadas, no sistema Hayford-Gauss com origem no Ponto Central, tinham sido previamente solicitadas ao Instituto Geográfico e Cadastral (IGC), dei as necessárias instruções para que a piquetagem, com malha de 50m x 50 m, pudesse prosseguir, com o rigor pretendido.
Eu tinha conseguido que fossem adquiridos dois magnetómetros, para não prolongar, por muitos anos, a campanha, mas a BPG decidiu manter apenas um deles em uso, deixando o outro de reserva para ocorrer a possíveis avarias!!
Nem sequer quis usar o segundo aparelho para a correcção da variação diurna, evitando usar o procedimento menos rigoroso de regresso a bases, ao fim de uma hora de trabalho.


Quanto ao método electromagnético Turam, tentei, durante vários dias, no terreno, ensinar Cardoso a utilizá-lo, mas não consegui que aprendesse.
Todo o volumoso material respeitante a esta técnica foi mantido, durante bastante tempo, empacotado, na sede do SFM, no Porto.
Foi, então, que eu tomei a decisão de informar o Director do SFM que, para mim, não havia qualquer dificuldade em adicionar às minhas funções normais na BSFM, a aplicação deste método.
Foi com surpresa que recebi o assentimento do Director e de Cardoso, pois ambos se tinham mostrado anteriormente muito ciosos em não consentir que eu usasse o magnetómetro inactivo em ensaios em minas de manganés.
A realidade foi que, de imediato, passei a usar sistematicamente, em todas as Secções da BSFM este método Turam e a obter resultados, por vezes sensacionais, como foi o caso da Mina de Aparis em Barrancos (Ver post N.º 20).
E que aconteceu, relativamente ao método gravimétrico?
Perante a minha insistência na sua aplicação na Faixa Piritosa, era essencial que alguém se preparasse nessa técnica, que ainda não era ensinada em Portugal.
Mas não foi Cardoso a deslocar-se a Universidade estrangeira, a fim de nela se especializar.
Foi o Professor do Imperial College of Science and Technology de Londres, J. Bruckshaw que veio a Portugal, por duas vezes, para ensinar Cardoso !!!! (Ver post N.º 13)      
Eu estive presente, em algumas dessas aulas, sobretudo para auxiliar na tradução para português, pois Cardoso, que até frequentara Curso de Inglês, no Porto, tinha alguma dificuldade em acompanhar o que o Professor Bruckshaw ia ensinando.


Mas para nada serviram estas aulas, pois Cardoso, por decisão do Director, foi temporariamente desligado do SFM, para se especializar em prospecção de minerais radioactivos e ir prestar colaboração à Direcção-Geral dos Serviços de Prospecção e Exploração Mineira da Junta de Energia Nuclear, que acabava de ser criada no País, nas mais estranhas circunstâncias (Ver post N.º 13).
Finalmente, Cardoso acabaria por ser completamente desligado da Prospecção Mineira, onde se não notou que tivesse produzido algo de  útil, durante mais de uma dezena de anos, nos quais permaneceu como seu chefe!!!.
Passou a ser-lhe confiada outra chefia!   
Passou a chefiar um departamento denominado 2.º Serviço do SFM, que teria a seu cargo   “Trabalhos Mineiros e Laboratórios”!!!


A ele, no Norte do País e a Fernando Silva no Sul, se ficou devendo a extinção do que devia ser um dos mais importantes departamentos do SFM: o sector dos “Trabalhos Mineiros tradicionais” !!!


Cardoso passou, portanto, a dirigir Laboratórios, isto é, matéria em que era completamente ignorante, limitando-se a desempenhar o papel de intermediário entre os requisitantes de análises, químicas, mineralógicas,  etc, e os Laboratórios onde as análises eram realizadas!
Mais uma vez se confirmava o anedótico rifão: “Quem sabe faz; quem não sabe, dirige!”


Nem Orlando Cardoso, nem o Director do SFM, nem o principal adjunto do Director, o Engenheiro Múrias de Queiroz tinham consciência dos prejuízos que estavam a ocasionar ao País, com a sistemática oposição que manifestavam às minhas insistentes propostas no sentido de tornar o SFM um Organismo de Investigação, dotado dos meios materiais e humanos adequados ao cumprimento dos objectivos enunciados no Decreto de sua criação.


Mais um exemplo de atitude que bem caracteriza Múrias de Queiroz:
Em ocasião, em que, francamente inquieto com atrasos artificiais, que se verificavam nos estudos projectados pela BSFM, me desloquei propositadamente de Beja ao Porto, com o objectivo de tentar esclarecer o Director das vantagens de restabelecer a Orgânica que vigorou durante o mandato de Bernardo Ferreira, concentrando todos os estudos, em curso no Sul, numa única Brigada, pois era notório que  a BPG e a BLL tinham produção ridícula e de duvidosa qualidade, Múrias de Queiroz, sem  que alguém tivesse pedido o seu parecer, permite-se comentar, em tom agressivo:
“Ele julga que é o melhor do Mundo!”


Porém, o Director-Geral Eng.º Castro e Solla, embora raramente interferisse na actividade do SFM  - costumava dizer que os dirigentes dos Serviços não são chancelas  -  ia-se apercebendo da  reduzida eficácia de alguns sectores do SFM.
Por isso, sem necessidade de me qualificar de o melhor do Mundo, como exigia Múrias de Queiroz, quando recebeu da OECE (que depois passou a OCDE), convite para que o País se fizesse representar, em reuniões a realizar em Paris, sobre métodos modernos de prospecção mineira,  foi a mim, e não a um Engenheiro da BPG, que decidiu nomear como delegado de Portugal no Grupo “ad hoc” de peritos nesses métodos
Nesta qualidade, participei, em reuniões do Grupo, em Paris, no qual estavam representados 18 países.


Das acções negativas de Guimarães dos Santos, Orlando Cardoso, Múrias de Queiroz e de vários outros que lamentavelmente vieram seguir os seus exemplos, resultou que, só passados 10 anos sobre a minha primeira proposta, consegui que o SFM passasse a efectuar, com meios próprios, levantamentos pelo método gravimétrico!!


À aplicação desta técnica se deveram os maiores êxitos nacionais em prospecção mineira, em todos os tempos.
Em próximos posts, revelarei novos ostensivos abusos de “poder, em oposição ao saber”, com “grande  desrespeito pelos interesses do País” praticados por dirigentes incompetentes e malévolos da DGMSG, que  não tiveram pejo em transferir para empresas estrangeiras a concretização final de êxitos resultantes de trabalhos displinada e pacientemente executados pelo SFM, ao longo de muitos anos, quando se encontravam já praticamente definidos os alvos a sondar!!!.
Continua...

segunda-feira, 22 de julho de 2013

217- Reflexões sobre os recursos minerais de Portugal. Continuação 8



Dos três casos que seleccionei, como emblemáticos do poder, em oposição ao saber”, abusivamente utilizado por dirigentes da DGMSG, os descritos em posts anteriores, respeitantes à Faixa Carbonífera do Douro e à Faixa Metalífera da Beira Litoral, tiveram muito funestas consequências.
        Centenas de mineiros perderam os seus empregos!

O terceiro caso, que vou descrever, respeitante à Faixa Piritosa Alentejana, não teve efeitos de tal natureza.
Pelo contrário, mais de mil postos de trabalho foram criados, em resultado dos trabalhos de prospecção mineira realizados nesta Faixa!

Embora me regozije com êxitos, que tiveram a sua origem na actuação do Serviço de Fomento Mineiro (SFM), não posso deixar de lamentar o total desprezo que o Director-Geral de Minas Soares Carneiro e os Directores do SFM, Guimarães dos Santos e Múrias de Queiroz, demonstraram pelas minhas recomendações, no sentido de serem confiados a técnicos portugueses os estudos para à completa concretização desses êxitos.

Era minha opinião que aos técnicos portugueses competia a obrigação de adquirir progressivamente capacidade para atingir os objectivos do SFM, de modo a só se tornar necessária a intervenção de especialistas estrangeiros, a título excepcional.
Esta intervenção deveria, no entanto, ser orientada exclusivamente para formação mais especializada de pessoal português.

É oportuno lembrar, uma vez mais, passagem do capítulo “Considerações finais” do relatório de minha autoria, Prospecção de pirites no Baixo Alentejo: publicado, em 1955, na Revista “Estudos, Notas e Trabalhos do Serviço de Fomento Mineiro”:

Todos os estudos a que nos vimos referindo podem e devem, em nosso entender, estar a cargo de técnicos portugueses que hajam, para o efeito, adquirido a necessária especialização, conforme prevê o Decreto-lei de criação do Serviço.
Só aceitamos a intervenção de técnicos de outras nacionalidades, como consultores ou em execução de campanhas de curta duração, principalmente com o propósito de proporcionar instrução a pessoal português.
A favor deste modo de proceder falam, não só a economia como o próprio interesse no assunto, que não poderá esperar-se de outros superior ao dos nacionais”.

Estas “Considerações finais”, impuseram-se pela óbvia necessidade de retomar os estudos na Faixa Piritosa, os quais, Guimarães dos Santos, muito levianamente, mandara terminar, em 1949, quando nem sequer estava concluída a campanha pelo método electromagnético Turam, lançada em 1944, por iniciativa do anterior Director, o malogrado Engenheiro António Bernardo Ferreira!!! (Ver post N.º 35)

A realidade, para a qual, persistentemente, chamei a atenção, quer em relatórios, quer em informações orais, era de que o estudo da Faixa Piritosa Alentejana estava ainda numa fase muito incipiente, quando foi extinta a Brigada de Prospecção Eléctrica.

Desde 1951, eu inseria, sistematicamente, nos Planos de Trabalho da Brigada do Sul, a aplicação de variadas técnicas, na Faixa Piritosa, com realce para o método gravimétrico (Ver post N.º 10).

Guimarães dos Santos, que tinha sido destacado da sede da DGMSG em Lisboa, já com avançada idade, nunca deixou de se comportar, no SFM, como “técnico de papel selado”.

Durante o mandato de Bernardo Ferreira, sentava-se à secretária, ao lado dele, e dali dirigia a Brigada do Norte, cuja chefia lhe tinha sido atribuída
As suas visitas aos trabalhos, no campo, tinham características de turismo rural, não evidenciando preparação para aplicar os métodos científicos, que os objectivos do SFM tornavam essenciais.

Além de incompetente do ponto de vista profissional, Guimarães dos Santos tinha uma cultura geral confrangedoramente medíocre, que originava frequentes situações embaraçosas. 
Lembro-me, por exemplo, de uma reunião marcada em 1948, a realizar, em Lisboa, para a qual viera propositadamente da Suécia o Director da ABEM, Helmer Hedstrom.
 Esta reunião tinha sido por mim sugerida, a Bernardo Ferreira, para que a ABEM, volvidos 4 anos de presença na Faixa Piritosa Alentejana, apresentasse a sua interpretação das numerosas anomalias registadas pela aplicação do método electromagnético Turam, a fim de poder avaliar os reais méritos do método.
Esperava-se relatório com projecto de sondagens, ou outros trabalhos, que revelassem novas concentrações de pirite, pois esse era o objectivo pretendido com a aplicação da técnica, que era patente da ABEM.

Guimarães compareceu, na qualidade de Adjunto do Director, por súbito impedimento de Bernardo Ferreira.
Tentou explicar a sua presença, mas embaraçou-se de tal modo, que tive que acorrer em seu auxílio, pois nem tivera o cuidado de se preparar para a reunião nem conseguia expressar-se em inglês.
Apercebendo-se desta circunstância, que tornaria ineficaz a reunião, Hedstrom propõe que nos desloquemos ao Porto, para que Bernardo Ferreira lá pudesse expor as suas pretensões, já que era bem conhecido o seu domínio de várias línguas.
Uma vez mais tive que auxiliar Guimarães, pois não tinha percebido a sugestão de Hedstrom.
Concordou, de imediato, como era de esperar, e a reunião realizou-se, de facto, no SFM do Porto.

Quando, por falecimento de Bernardo Ferreira, Guimarães dos Santos foi designado para assumir a direcção de SFM, o seu mandato começou da pior maneira, pelo que dizia respeito aos estudos no Sul do País.

Onde, anteriormente, havia a Brigada do Sul, na qual se concentravam todos os estudo do SFM, em curso no Sul do País, os quais incluíam não apenas os das Secções (Montemor-o-Novo, Alvito, Moura, Cercal do Alentejo e Odemira), mas também os das Brigadas de Levantamentos Litológicos e de Prospecção Eléctrica, Guimarães dos Santos dispersou esses estudos por 3 Brigadas distintas, que colocou na sua directa dependência:
A Brigada do Sul, cuja chefia me tinha sido confiada por Bernardo Ferreira;
A Brigada de Levantamentos Litológicos, sob a chefia do Geólogo João Martins da Silva;
A Brigada de Prospecção Geofísica, sob a chefia do Engenheiro Orlando Martins Cardoso.

Usou o conhecido método de dirigente inseguro:
“Dividir para governar”

Devo esclarecer que, quando chefiei a Brigada de Prospecção Eléctrica, a minha dependência hierárquica do Chefe da Brigada do Sul só me foi benéfica, e eu sempre estive grato pelo amistoso apoio que me foi proporcionado por esse Chefe, o Eng.º Abilino Vicente.
Sei que o mesmo acontecia com a Brigada de Levantamentos Litológicos, pois o clima que dominava, então, no Sul, era de verdadeira fraternidade.

Este saudável clima era coerente com o ambiente, que o Director Bernardo Ferreira gerava à sua volta.
Bernardo Ferreira visitava, com frequência os trabalhos que decorriam no Sul e era sempre com agrado que o recebíamos, sobretudo porque ele sabia reconhecer o mérito das nossas actividades, estimulando-nos a prosseguir no rumo certo.

Mas não foi só no Sul que o mandato de Guimarães dos Santos começou mal.

No Norte, escolheu para seus directos colaboradores, três dos menos produtivos Engenheiros do SFM: Múrias de Queiroz, Orlando Cardoso e António Neto.

Achei isso muito estranho, pois era seu costume dizer que alguns funcionários tinham de ser incitados a melhorar a sua produtividade, enquanto outros havia que tinham de ser travados nos seus impulsos!!
Não lhe ocorreu incitar esses seus colaboradores a melhorarem a produtividade, talvez porque se sentisse bem, entre eles.
Confirmava-se o velho provérbio Símiles cum similibus facile congregantur”

Eu estaria, obviamente, classificado entre os que deveriam ser travados nos seus “devaneios”.

De facto, outra das suas estranhas afirmações era de que não deveríamos ter a pretensão de tudo descobrir! Deveríamos deixar algo para os vindouros!!!!

Talvez, com estas dissertações, pretendesse justificar o seu pouco interesse pelas minhas recomendações, … não viesse a acontecer eu tudo descobrir e nada deixar aos vindouros!!!

Era obsessiva a sua preocupação em extinguir núcleos de actividade dispersos pelo território continental, que tinham sido instituídos por Bernardo Ferreira, sem curar de se informar se os estudos que os tinham justificado estavam, de facto, concluídos.

No seu entendimento, os trabalhos no campo, deveriam ter curta duração.
Suspeitava que o prolongamento no tempo reflectiria o propósito de os funcionários envolvidos nesses trabalhos manterem as magras vantagens da deslocação da sua residência oficial.

Foi assim que ordenou o fim do levantamento pelo método electromagnético Turam, a cargo da ABEM, na Faixa Piritosa Alentejana, a que já fiz referência.

Foi também assim que ordenou o termo dos estudos que eu dirigia na Região de Cercal – Odemira.
Foi muito difícil obter a sua condescendência para deixar concluir o levantamento geológico desta Região, que já se encontrava na fase final.
Este levantamento adquiria enorme importância, pois definia um ambiente idêntico ao da Faixa Piritosa, sendo portanto previsível a existência de massas de pirite cuprífera, nesta Região de Cercal - Odemira.
Mas isso não impressionava Guimarães, talvez por não acreditar na hipótese que eu formulava, ou não a achar relevante.
Em prazo record, apresentei extenso relatório sobre os estudos empreendidos na Região de Cercal – Odemira, que me estava a ser exigido, com carácter de urgência, prevendo eu que se destinava a publicação, como era normal acontecer a documentos desta natureza.
Porém, o relatório foi mantido oculto, só acessível ao principal concessionário local (Ver Post N.º3).


Continua …