domingo, 5 de julho de 2015

56ª - 9.º parte


XXXIX – O processo disciplinar que me foi instaurado

Quando recebi a informação de me ter sido instaurado processo disciplinar, não fiquei preocupado.

Pelo contrário, considerei ser-me proporcionada excelente oportunidade para denunciar as irregularidades que estavam a ser impunemente cometidas na DGGM, com os consequentes prejuízos para a economia nacional.

A nível interno, tinha dúvidas de que justiça viesse a ser praticada, porquanto a atitude criminosa de membro do Governo, à qual me referi na 5-ª parte deste post, não consentia expectativa optimista!!!

Todavia, o argumento utilizado era tão absurdo, que seria natural implicar o imediato termo da “comissão de serviço” do indivíduo, que tinha sido convidado para dirigir o SFM, com base em suposta excepcional competência, para esse fim.

Tal personagem não revelou o mínimo interesse em conhecer a qualidade do meu trabalho.

Ao mesmo tempo que se vangloriava de nada perceber do que eu estava fazendo e de ”até ter raiva a quem percebia”, insistia em conhecer os procedimentos adoptados, nos meus estudos.

Não teve, por isso, pejo em tomar decisão insensata, de puro autoritarismo, altamente desprestigiante para o SFM.

           Este intruso, originário da indústria privada, que me dizia “ter engolido muita coisa”, na sua passada actividade mineira, classificava como qualidade notável, essa capacidade de suportar ofensas à sua dignidade.

Era assim que justificava a aceitação das ultrapassagens às suas funções, que o Director-Geral lhe fazia.

Como ele aceitava, com naturalidade, ser desconsiderado pelo seu imediato superior, apesar de ter a seu cargo o mais importante departamento da DGGM, julgava-se no direito de desconsiderar, igualmente, os funcionários que lhe estavam subordinados.

A sua ordem, era claramente contraditória de “despacho” que me tinha sido entregue, pessoalmente, pelo seu superior na hierarquia da DGGM e, logicamente, era a este “despacho” que eu deveria dar preferência.

Foi isso que, reiteradamente, declarei.

 Declarei também não ser, como ele, tolerante, com ofensas à minha dignidade profissional, até por respeito ao Organismo, no qual exercia funções há mais de 40 anos.

Estava convencido de que, se tivesse de levar o caso a Tribunal comum, os reais criminosos teriam as merecidas punições, embora contasse com a lentidão, que caracteriza o funcionamento da justiça em Portugal.

Preocupava-me, sobretudo, o tempo, que iria desperdiçar com a minha defesa, e o consequente novo atraso na conclusão do Relatório “circunstanciado”.

Recorri a advogado com experiência em assuntos da Função Pública e este logo me advertiu de ser regra estabelecida, nos Organismos do Governo, castigar sempre quem fosse alvo de processo disciplinar!

Fiquei, pois consciente de que deveria esperar condenação, a nível interno.

A minha defesa, que eu próprio me encarreguei de elaborar, consistiu num vigoroso ataque aos indivíduos que tinham conseguido introduzir-se no SFM, essencialmente preocupados com seus interesses pessoais, a ponto de nem sequer hesitarem em criar obstáculos à actuação dos funcionários que se empenhavam no bom cumprimento dos nobres objectivos deste Serviço.

O advogado, a que recorri, aproveitou, quase integralmente, o texto que eu escrevi, apenas me aconselhando a eliminar passagens que, pelo seu maior vigor, poderiam eventualmente ser mal interpretadas.

Na tramitação do processo, ocorreram situações extremamente caricatas, bem demonstrativas do grau de degradação a que chegara o SFM, tornando previsível a sua próxima extinção.

Mas reservo, para futuro post, a descrição deste estranho episódio da minha vida profissional, ocorrido após 40 anos de dedicação à causa do SFM, durante os quais fui o principal responsável pelos maiores êxitos de todos os tempos, na indústria mineira nacional.

Por agora, apenas quero dizer que tudo tinha sido preparado, ao pormenor, para eu ser expulso da Função Pública.

Todavia eu, que não sou religioso e, desde muito novo, me recusei a participar nos rituais católicos que observava serem praticados por pessoas que, nos actos da sua vida, não respeitavam, de facto, os sãos preceitos da religião pregada por Cristo, acabei por ser bafejado por uma benesse concedida, como gratidão pela visita de um Papa a Portugal!!!

Fui amnistiado da condenação que me ia ser imposta!

 
XL - A prospecção mineira, na Região de Caminha, após eu ter sido proibido de realizar trabalho de campo

Em fase inicial desta proibição, fui indicando, por telefone, ao Senhor José Catarino, os trabalhos que poderia executar, para dar cumprimento ao projecto aprovado, a nível ministerial, que eu havia apresentado, com vista à descoberta de novas concentrações de minérios tungstíferos.

José Catarino era merecedor da minha total confiança.

Embora tivesse apenas a qualificação académica da antiga 4.ª Classe da Instrução Primária, havia sido, por mim, instruído a realizar diversificadas tarefas, no campo e no gabinete, respeitantes à prospecção mineira.

Mas não podia, obviamente, dispensar a minha activa participação, nessas tarefas.

O Director-Geral de Minas que, não obstante me ter declarado a sua total ignorância em prospecção mineira, fora capaz de concluir, dispensando-se de apresentar fundamentação, isto é, em ostensivo abuso de autoridade, ser essencial reprogramar a   campanha superiormente aprovada, que eu dirigia, há duas dezenas de anos, na região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima,  considerou fácil de suprir a minha ausência, no terreno.

Nomearia para dirigir a Secção de Caminha, Engenheiro de Minas, que se encontrasse disponível.

Lurentino Rodrigues, que havia sido contratado pelo SFM para funções de ajudante, no Laboratório de Química e que, na qualidade de estudante-trabalhador, muito beneficiara dos meus auxílios em várias fases da sua preparação académica, estava sem área de actuação claramente definida, lamentando-se até, perante mim, dessa lamentável situação.

Poderia, portanto, em seu entendimento, ser o Engenheiro apto a substituir-me na chefia da Secção, sob a orientação do Geólogo Viegas, que era Chefe de Divisão!

Ingenuamente, eu até chegara a pensar que este jovem, que se não conformara com cargo subalterno no SFM e se esforçara por melhorar a sua formação académica, poderia vir a qualificar-se para dar continuidade aos estudos que eu tinha em curso, na 2.ª Brigada de Prospecção, quando me aposentasse.

E dispunha-me, ainda, a prestar-lhe colaboração, na fase de aposentado!

Essa fora a razão pela qual, o auxiliei, a ponto de ter planeado trabalhos de campo, envolvendo variadas técnicas, em áreas não prioritárias, que selecionava, quase exclusivamente para o fazer participar activamente nesses trabalhos, visando a sua preparação (Ver post N.º 116).

Grande foi, pois, a minha consternação ao constatar que o seu comportamento viria a assemelhar-se ao dos traidores da 1.ª Brigada de Prospecção (Ver post N.º 83).

Laurentino desprezou todos os conselhos sobre honestidade científica e lealdade de procedimentos, que lhe fui ministrando, ao longo de vários anos.

Usando o que agora se denomina, eufemisticamente de “pragmatismo”, aliou-se ao grupo de funcionários que estavam a destruir o Organismo que os acolhera.

Aceitou, facilmente a chefia do Geólogo Viegas, que já se havia evidenciado como um dos mais perversos elementos introduzidos no SFM.

Em vez de procurar contactar-me, para continuar a beneficiar do meu auxílio, na situação que lhe fora criada, preferiu agir clandestinamente, para ter acesso a peças desenhadas por mim elaboradas, nas quais estavam patentes as expressivas anomalias, sobretudo pelo método magnético, mencionadas nos meus relatórios periódicos.

Extasiado com a intensidade de algumas dessas anomalias, logo decidiu, com a concordância de Viegas, projectar sondagens, esperando encontrar concentrações de minerais magnéticos, a que estivessem associados minerais de tungsténio, fazendo assim grande “brilharete”, à semelhança do procedimento do falsário “semvergonhista” Delfim de Carvalho, relativamente à ocorrência que, inopinadamente denominou de “jazigo do Salgadinho” (Ver post N.º 27)

Surpreendentemente, conseguiu fazer regressar à Região, a sonda que havia sido retirada, quando estava projectada a sondagem N.º 69, que se previa ter excepcionais resultados (que vieram a ser evidenciados, quando a área em que se situava, foi adjudicada - sem eu ter sido consultado - à Union Carbide), para ir investigar uma ocorrência de scheelite, em Cravezes (Mogadouro), que tinha sido alvo de estudos muito mal conduzidos, por um grupo de inexperientes Geólogos, sob a orientação do então Director-Geral de Minas, Soares Carneiro (Ver posts N.ºs 117 e 190).

            Não percebeu que, dadas as suas características, essas anomalias seriam facilmente explicadas com simples sanjas.

            Revelou, também, não saber distinguir estratificação de xistosidade e, por isso, acabou por mandar executar sondagem paralelamente à estrutura que pretendia investigar!!!!.

            Foi isto que constatei, em aula de campo aos meus alunos da Faculdade de Ciências do Porto, na qual tive a colaboração de alunos e professores da Universidade de Aveiro, que costumava convidar para estas aulas práticas.

            Estando proibido de realizar trabalho de campo, usava, para poder dar aulas, autocarro contratado pela Faculdade de Ciências do Porto e equipamentos cedidos pela Faculdade de Engenharia do Porto e pelo Departamento de Geociências da Universidade de Aveiro!

            Esta primeira sondagem teve resultados nulos, como era fácil de prever, pois se apoiava em errada interpretação de anomalia magnética,

            Deste novo fiasco de Viegas, a adicionar ao de Cravezes e a outros que se lhe seguiram, iria resultar, efectivamente, a extinção da Secção de Caminha.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

56 A – 8.ª parte

 
XXXVIII– A elaboração do Relatório “circunstanciado”

Na “Ordem de Serviço”, impropriamente designada por “despacho”, que Alcides Rodrigues Pereira emitiu, em escandaloso abuso da autoridade do cargo de Director-Geral de Minas, que irregularmente ocupava, estava implícita a necessidade urgente de um relatório “circunstanciado” da minha actividade na Região de Caminha.

Mas eu não poderia deixar de dar atenção prioritária a um caso de crucial importância, que surgiu, a nível externo, embora com origem na DGGM.

Tratava-se de um projecto de nova Lei de Minas, que tinha sido enviado à Ordem dos Engenheiros, para obter o seu parecer.

Desde longa data, se reconhecera, em reuniões da DGGM, a conveniência de proceder à actualização da lei que vigorava desde 1935, tendo em conta os progressos alcançados, no decurso do tempo, tanto no conhecimento da geologia dos jazigos minerais, como nas técnicas para a exploração destes jazigos.

Porém, apenas ligeiras alterações se efectuavam, as quais até se revelavam de duvidosa eficácia.

 É que não era por carência de disposições legais, que se não aproveitavam devidamente as potencialidades do País em recursos minerais.

Acontecia que a lei não era respeitada pelos Organismos oficiais, que tinham obrigação de a cumprir e fazer cumprir!

Alcides, talvez influenciado pelos “técnicos de papel selado” da sua “entourage”, sediados em Lisboa, pouco mais competentes do que ele, em temas mineiros, quis demonstrar capacidade de corrigir esta situação.

Quando tomei conhecimento de que o tema ia ser debatido, na Ordem dos Engenheiros, entendi dever prestar a minha colaboração, com receio de que viesse a ser posta em vigor uma lei muito pior que a de 1935.

Começou por me causar grande surpresa a informação de que a nova lei já passara em Conselho de Ministros e se encontrava na Assembleia da República, para publicação, só sendo consentidos pequenos aperfeiçoamentos!

E estranhamente, apenas os Engenheiros que presidiam à sessão, dispunham do seu texto!

Durante a discussão, tal como previra, fui induzido a fazer várias intervenções, sobretudo para realçar a importância da investigação científica da ocorrência de recursos minerais no território nacional, defendendo que tal investigação deveria continuar a cargo do Estado, perante a notória insuficiência e falta de qualidade da iniciativa privada.

A nova lei retiraria ao Estado aquele fundamental papel!!!

Seria revogado o Decreto-lei N.º 29 725 que, em 1939, em plena “febre do volfrâmio”, instituiu o Serviço de Fomento Mineiro (SFM), com a finalidade de disciplinar a actividade mineira, que decorria de modo caótico.

Apesar da falta de respeito que Alcides exuberantemente demonstrava pelo cargo que ocupava, custava-me perceber como ele e seus conselheiros ignoraram os espectaculares êxitos do SFM, conseguidos pela actuação de alguns dedicados funcionários, que tiveram capacidade para ultrapassar obstáculos artificialmente criados por dirigentes de mesquinho carácter, preocupados essencialmente com seus interesses pessoais.

Tendo-me sido facultada rápida leitura do texto da lei, em intervalo entre as duas partes da sessão, vi plenamente confirmados os meus receios.

Em conversa com o presidente da sessão, comentei que a nova lei tinha sido feita sobre o joelho e ele concordou abertamente, acrescentando que, na DGGM, se estão a aproveitar da ignorância dos membros do Governo nestas matérias, para obter a aprovação de leis levianas!

A Ordem dos Engenheiros considerou pertinentes as minhas intervenções e solicitou-me a sua apresentação em texto escrito, para envio directo à Assembleia da República.

Mas não ficou por aqui a minha defesa do SFM, na qual, lamentavelmente, não notei participação de qualquer outro Engenheiro dos quadros deste Organismo.

Em oficio que dirigi ao Vice-Primeiro-Ministro, Dr. Almeida Santos, apelei à sua qualidade de jurista para impedir que fosse posta em vigor tão deficiente lei.

E o facto é que a lei não foi aprovada!

Mas foram sobretudo incidentes, a nível interno, que contribuíram para retardar a conclusão do Relatório

Por incrível que pareça, a preocupação dos dirigentes não era, de facto, o Relatório!
Embora simulassem pressa em o receber, tudo inventavam para me perturbarem na sua elaboração!

Era a minha presença na DGGM que os incomodava!

Eu conhecia, de casos anteriores, a incapacidade da Secretaria da sede do SFM, para tarefas fora da sua rotina.

Também o Chefe da Sala de Desenho declarou a indisponibilidade da Sala para colaboração que eu pretendesse, para além de cópias em papel ozalid, de originais que eu preparasse.

Consequentemente, teria de ser eu a dactilografar o texto e a produzir as peças desenhadas.

Mas isto não constituiria dificuldade de maior pois, desde que a minha actividade de gabinete passou a ser exercida nas instalações de S. Mamede de Infesta, me vi compelido a realizar tarefas que, em circunstâncias normais, competiriam a pessoal menos qualificado.

Eu tinha criado melhor organização, na Brigada do Sul, que chefiara, desde 1948 até 1963.
Nessa Brigada, tinha promovido a instrução de pessoal, localmente admitido, para realizar, com eficácia, estas e muitas outras tarefas, de que costumavam encarregar-se técnicos mais qualificados, do ponto de vista académico.

Enquanto nisto me afadigava, recebia acidentais visitas de Alcides e de Daniel.
Alcides parecia arrependido do seu “despacho”, pois me disse “quero vê-lo, de novo, no campo” (sic)!!
Daniel não se coibia dos seus habituais ridículos comentários. Vangloriava-se de não tencionar ler o que eu escrevesse e também de não analisar as peças desenhadas. Disso encarregaria Reynaud, cujo saber admirara, pela “genial” proeza de reavaliar reservas minerais de parcela do jazigo tungstífero de Covas, com base em dados de Empresa americana, já utilizados por esta Empresa, para estimativa muito mais fiável.

Nem Alcides, nem Daniel faziam ideia do que iria constar do relatório, exigido com o carácter de “circunstanciado”.
Surpreendentemente, nas suas visitas, não demonstravam o mínimo interesse em sequer tentar perceber o que eu estava fazendo.

Todavia, em total contradição com esta atitude negativa, a estranha criatura, que ocupava o cargo de Director-Geral de Minas, manifestava a maior preocupação em receber o Relatório!

Como o tempo ia passando e o Relatório não era apresentado, Alcides, inquieto com tal facto, iria novamente ultrapassar Daniel, sem que este reagisse, a nova ofensa à dignidade do seu cargo.
Sem o mínimo escrúpulo, Alcides, envia-me, em 19-7-84, ordem que persiste em denominar de “despacho”, a exigir que informe, no prazo de 10 dias, a data previsível para terminar o Relatório.

Uma semana mais tarde é Daniel a fazer a pergunta, por telefone!
Na minha resposta, com data de 27-7-84, descrevi as condições de trabalho, que estava a enfrentar, concluindo necessitar de dois anos (!) para dar cabal cumprimento ao que me era exigido.
Grande foi a minha surpresa com a aceitação, que este prazo teve!

Eu esperava que Alcides percebesse o seu erro e rectificasse o “despacho”, substituindo “circunstanciado” por “sucinto”, de modo a dispor do que simulava necessitar, em prazo normal, nunca após longo tempo, que deveria, preferencialmente, ser ocupado com real trabalho, não com inoportunos relatos, a adicionar aos muitos que eu tinha produzido e às informações directas que já prestara.

Mas a triste realidade foi que até este longo prazo me impediram de poder cumprir!

Como referi anteriormente, mais que o Relatório, era a minha presença, na DGGM, que alarmava criaturas receosas de que, alguma das minhas exposições aos sucessivos Governos, originasse a severa punição dos responsáveis pelos crimes, que cometiam.
Daniel chegou a aconselhar-me que me dedicasse exclusivamente ao ensino, já que as minhas aulas eram tão apreciadas e os deixasse em paz, a eles, que só recentemente tinham ingressado na DGGM, onde tudo parecia indicar só terem procurado asilo.

Com a sua habitual fanfarronice, foi usando os mais variados pretextos, para abalar a minha calma, esperando talvez induzir-me a requerer a aposentação, à semelhança do procedimento que tinha adoptado com outro colega originário dos extintos Serviços de Prospecção da Junta de Energia Nuclear.

 
Dentre os casos caricatos, em que ele e Alcides foram protagonistas, destaco os seguintes:

1 –Um dos apaniguados de Daniel, cuja ocupação, na sede em Lisboa, consistia em parasitar trabalho por outros efectuado, descobriu que eu não tinha ainda entregue o relatório da minha actividade, respeitante ao ano de 1983.
Daniel, que se vangloriava de não ter lido relatório algum dos que eu já apresentara e de até não ter intenção de ler o que estava elaborando, ficou tão excitado com a lacuna para que foi alertado, que me ameaçou com “processo por incompetência”, com reflexos até nas minhas funções docentes, caso não regularizasse, imediatamente, tão clamorosa falta!!
Se dúvida eu ainda tivesse quanto à sanidade mental do indivíduo que ocupava o cargo de Director do SFM, esta atitude deixou-me perfeitamente esclarecido.
Porém, na tentativa de acalmar tão perigoso personagem, condescendi em desperdiçar algumas horas a elaborar um relatório tornado supérfluo, perante a exigência do “circunstanciado”, ao qual deveria, obviamente, dar prioridade.

2 - Alguns Governos, após a Revolução de 25 de Abril de 1974, aperceberam-se de se ter generalizado, na função pública, a ocupação de cargos de responsabilidade, por pessoas incompetentes.
Fizeram, por isso, publicar Resoluções e normas tendentes a moralizar e disciplinar a Administração Pública.
Uma dessas normas consistia na classificação periódica dos funcionários, a fim de corrigir essa aberrante situação, através de uma criteriosa selecção para os diferentes cargos.
Esta norma foi, porém, escandalosamente pervertida.

Tornara-se evidente, serem os dirigentes de mais elevada categoria que deveriam ser avaliados, pois eram eles os principais responsáveis pelo atraso do País.
Deu-se, na DGGM, o caso caricato de Alcides e Daniel, se terem prestado a fazer a minha classificação, apesar de ambos terem declarado, em diferentes ocasiões, nada perceberem das actividades que eu desempenhava!!!

Era óbvio que eu não iria aceitar tal afronta à minha dignidade profissional, qualquer que fosse a classificação que me atribuíssem.

A Daniel declarei, dever ser ele um dos primeiros funcionários a precisar de ver esclarecida a sua colocação na escala hierárquica do SFM e eu até reunia as condições para o classificar, estando seguro de que daria nota muito negativa, tal era a ignorância que ele constantemente demonstrava, da qual até se ufanava.

Alcides, depois de ter declarado, em resposta a pergunta que lhe fiz, nada perceber das minhas actividades, informou vir classificar-me, porque eu isso pedira e, em nova atitude de extrema grosseria, desmentiu-me quando neguei tal pedido!!

Regressado à sede em Lisboa, deu instruções a sua secretária, para explicar, por telefonema, que a minha classificação se tornou necessária, por eu ter concorrido à Carreira de Investigação, recentemente criada.
 
Fui, pois, compelido a usar muitas horas de trabalho a fazer todas as reclamações que a lei me permitia, apesar de ambos os dirigentes me terem classificado com a pontuação máxima no item da competência técnica.
Era no item das “relações humanas”, que me pontuavam mais desfavoravelmente, ignorando todo o meu excepcional passado neste domínio, como constava de documentos arquivados no meu processo individual.

3 - Uma estranhíssima ordem de Daniel para eu apresentar um “plano de visitas ao campo”, lembrada em insistentes telefonemas, a qual eu interpretava como um grosseiro lapso.
Efectivamente, quando me deslocava ao campo, não era para visitas; era para trabalho e disto eu estava proibido, como ele sabia.
Visitas, tinha-lhe eu proporcionado, por ele não ter ingressado no SFM para trabalhar, conforme ostensivamente declarou.
Perante a minha recusa em obedecer a esta insensata ordem, Daniel encontrou motivo para me instaurar processo disciplinar.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

56 A – 7.ª parte


            XXXVI – A minha decisão de elaborar o Relatório “circunstanciado”
 
Quando fui impedido de fazer trabalho de campo, a Secção de Caminha, apesar dos escassos meios de que dispunha, era o único núcleo do SFM que conseguia manter, no terreno, investigações com elevado nível de qualidade.

Isto acontecia, devido não só a insensatas ordens emitidas por indivíduos que tinham tomado de assalto os cargos dirigentes recentemente criados, mas também ao facto de os mais categorizados técnicos da 1.ª Brigada de Prospecção terem desertado para outras paragens.

No período de presença de Múrias de Queiroz no cargo de Director do SFM, o sector de “Trabalhos Mineiros”, para cujo desenvolvimento eu dera importante contributo, no desempenho das funções de Chefe da Brigada do Sul, tinha entrado em franco declínio, chegando à extinção!!

A Prospecção Mineira que, nesse período, me foi confiada, apesar de lhe terem sido atribuídas mais amplas funções, excluía a fase de “Trabalhos Mineiros”, não obstante eu ter declarado poder manter, facilmente, essa fase, no meu âmbito de actuação.

Eu conhecia bem a competência técnica do indivíduo indigitado para me substituir, pois era meu subordinado, na Brigada do Sul.

Apesar do auxílio que sempre tive de lhe prestar, para ficar apto a executar as tarefas de que o encarregava, muito pouco consegui que aprendesse, mas consegui a sua ingratidão e até conivência nos obstáculos à minha actuação, em que o Director do SFM era fértil.

Receava, por isso, que o fundamental sector dos Trabalhos Mineiros entrasse em degradação e viesse a extinguir-se, como sucedeu.

Soares Carneiro, usando o seu tradicional poder discricionário, em vez de procurar solução para a crise que se acentuava naquele sector, optou por tirar proveito da situação, dando forte impulso para o deplorável fim, que eu previa.

Dava-se, então, a circunstância de ser na mina de cobre de Aparis, no concelho de Barrancos, que se concentrava a maior actividade, no terreno, de toda a DGGM.

E tinha sido, sob minha orientação, que se iniciara e mantinha em curso o reconhecimento do jazigo.

Estavam já identificadas reservas certas e prováveis, que permitiriam a exploração do jazigo, em termos económicos.

Dentre os projectos que, oportunamente, submeti a apreciação superior, para continuar as investigações relacionadas com o aproveitamento dos recursos do jazigo, destaco os seguintes:

   a) a instituição de novo piso a 210 m de profundidade (já tinham sido efectuados trabalhos de algum vulto no piso 150):
 
    b) a exploração das bolsadas menos importantes que tinham sido identificadas, não só para adquirir experiência nesta fase, mas também para permitir colher os elementos essenciais a uma correcta avaliação, e ainda para compensar as avultadas despesas com o reconhecimento;

    c) o uso da Mina como Mina–Escola para formação pós-graduada de técnicos recém –licenciados, pois era preocupante a deficiente preparação dos técnicos que ingressavam no SFM, pelo facto de os estabelecimentos de ensino superior e médio não proporcionarem formação adequada à execução das tarefas exigidas.

   d) o tratamento metalúrgico do minério, nos fornos eléctricos recebidos ao abrigo do Plano Marshall, que tinham sido instalados no amplo recinto da sede do SFM, em S. Mamede de Infesta, com o respectivo posto de transformação e linha de alta tensão.
 
Nenhum destes projectos teve o ambicionado seguimento.

A exploração, que nunca me fora autorizada, pelo Conselho Superior de Minas, obteve surpreendente aprovação, quando fui obrigado a deixar o sector de Trabalhos Mineiros.

Mas, como era previsível, o indivíduo que me substituiu nem sequer soube extrair os elementos essenciais para a correcta avaliação do jazigo.

Perante tal incapacidade, Soares Carneiro foi progressivamente apresentando esta Mina como um sério problema de que a DGGM deveria libertar-se, quando o normal seria que os trabalhos realizados, durante a minha chefia, que até tinham suscitado rasgados elogios a categorizados técnicos estrangeiros que a visitaram, servissem de exemplo para o reconhecimento de jazigos similares,

Como consequência desta desvalorização, a Mina acabou por ser praticamente “doada” a Companhia constituída “ad hoc”, por um Professor Catedrático, amigo de Soares Carneiro e por outro Professor, também da Faculdade de Engenharia do Porto.

E esta Companhia iria praticar “lavra ambiciosa”, proibida por lei, que ambos Professores tanto condenavam nas suas aulas, tendo ficado por explorar valiosas parcelas do jazigo, cuja recuperação será agora anti-económica.

E assim findaram, ingloriamente, os Trabalhos Mineiros no SFM!

A 1.ª Brigada de Prospecção, que eu laboriosamente organizara, no Alentejo, tinha entrado em desagregação, com a fuga para outros departamentos, dos principais autores do hediondo documento, que tinha conduzido à minha demissão da chefia daquela Brigada, nas criminosas circunstâncias a que tenho feito frequente alusão.

Lembro que eu tinha proporcionado a esses personagens, excepcionais condições para se tornarem reais especialistas nas técnicas mais adequadas ao cumprimento dos objectivos do SFM.

Mas, renegando tudo isso, os “dedicados servidores”, que tanto empenho manifestaram em corrigir “as deficiências no planeamento, execução e controle das vastas e delicadas tarefas a cargo desta Brigada” (sic), das quais passaram a considerar-me responsável, não hesitaram em abandonar a Brigada, para ocuparem cargos, noutros departamentos da DGGM, com melhor remuneração e muito menor exigência de trabalho.

Jorge Gouveia, em desabafo para comigo, comentou, em termos depreciativos que, por lá, andavam a “inventar trabalho”, para manter ocupado o seu numeroso pessoal, por cuja admissão me responsabilizava.

Reagindo a esta leviana acusação, esclareci que, quando dirigi aquela Brigada, nunca se conseguiam realizar todos os trabalhos que eu projectava e eram, muitas vezes, empresas estrangeiras a efectuá-los, mediante contratos que requeriam ao Estado, não desdenhando, depois, o recurso à colaboração da Brigada.

Jorge Gouveia quisera ainda, deixar bem assinalada a sua efémera passagem pela direcção do SFM, ao ordenar a suspensão das investigações na Faixa Metalífera da Beira Litoral, com uma pueril justificação.

E, naquela data, não existia, no terreno, outra actividade de prospecção, digna de tal designação.

Eu estava consciente de que o ignorante Alcides não tinha a veleidade de se considerar apto a reprogramar a actividade em Caminha.

E não vislumbrava para que pretenderia ele mais um relatório, com a exigência de ser circunstanciado, se nem ele nem os seus apaniguados, tinham demonstrado o mínimo interesse na leitura dos relatórios que eu já tinha apresentado.

Quem pretenderia, então, encarregar da reprogramação?

Daniel não era, com certeza, pois até já o tinha desconsiderado, ao emitir ordem que a este competiria, se a entendesse justificável, sem lhe dar qualquer satisfação.

E Daniel já havia declarado, alto e bom som, que não viera para o SFM para trabalhar!

Seria Reynaud, o parasita que para se manter ocupado, simulando trabalhar, recalculava reservas, apoiado em dados de quem tinha projectado e executado o trabalho no terreno e fizera, com base nos seus resultados, estimativas muito mais fiáveis?

Pretenderia agora Reynaud parasitar o meu trabalho?

O facto real era que nenhum técnico da DGGM teria capacidade para uma séria reprogramação, sabido que, em prospecção mineira, o que de positivo se fizera no SFM, tinha sido com a minha activa participação, no cumprimento de projectos por mim apresentados e superiormente aprovados.

Após alguma reflexão, durante a qual cheguei a ponderar a hipótese de requerer a passagem à aposentação, decidi ultrapassar mais esta afronta, confiante de que, em nova diligência, junto de um Ministro da tutela, menos ignorante e mais consciente dos seus deveres, que surgisse, em futura remodelação governamental, a situação que me tinha sido criada fosse objecto da necessária análise e consequente punição dos malfeitores que tanto prejuízo estavam a causar à economia do País.          

Do Relatório “circunstanciado”, que decidi elaborar, iriam constar:

            a) um longo texto, com cerca de 50 temas organizados em capítulos, alíneas, etc.

            b) 246 peças desenhadas.
           

            XXXVII – A intervenção do Ministro Veiga Simão

A nomeação de Veiga Simão, para a pasta da Indústria, em remodelação governamental que tinha ocorrido, aumentou a esperança, que eu vinha acalentando, de as minhas exposições serem, finalmente analisadas, como mereciam.

De facto, ao contrário de outros Ministros e Secretários de Estado, que haviam sido nomeados sem base em análise curricular, Veiga Simão era bem conhecido, por iniciativas, nas quais evidenciou grande competência, no desempenho de elevados cargos, antes e depois da Revolução de 25 de Abril de 1974.

Logo que concluí o 1.º Capítulo denominado “Informação introdutória circunstanciada”, com 46 páginas dactilografadas a um espaço, enviei-o a este Ministro, acompanhado de ofício a solicitar as urgentes correcções dos desmandos, que nesse Capítulo denunciava e as consequentes punições.

Estava, porém, a ficar decepcionado com a falta de reacção, quando amigos meus providenciaram no sentido de o Ministro me conceder uma audiência.

Veiga Simão recebeu-me, no dia 19-6-1984, no seu gabinete, em edifício da Rua da Horta Seca, indo eu acompanhado de um destes amigos, que era pessoa muito prestigiada, pelo seu saber.

 Este amigo fez a minha apresentação, salientando:
            a) os êxitos do SFM, graças à minha actividade, com destaque para a descoberta de Neves – Corvo,
            b) o meu sucesso como docente da Universidade.

Quando tive a oportunidade de usar da palavra, comecei por entregar ao Ministro cópias dos ofícios que lhe tinha endereçado, perguntando se deles tivera conhecimento.

O Ministro fez rápida leitura, carregou o semblante e disse que a documentação respeitante a Minas era sempre remetida directamente para o Secretário de Estado Rocha Cabral e nem chegava às suas mãos.

Acrescentou julgar que, nas Minas, “tudo corria bem”.

Reagi dizendo que a realidade é que tudo corre muito mal, a exigir urgentes medidas correctivas.

O Ministro prometeu investigar.

Só passados dois meses e meio, me foram enviados alguns dos documentos que esta investigação originou.

Fiquei sem conhecer, por exemplo, o despacho inicial de Veiga Simão e o papel que terá assumido Rocha Cabral, o personagem que tivera o despudor de subscrever despacho insultuoso, concebido para poder contratar, para a função pública, o geólogo Vítor Pereira, que se apresentara como detentor de um currículo claramente falso.

Mas os documentos que recebi foram suficientemente esclarecedores da desorientação que se apoderou de Alcides para justificar a afronta que me tinha feito.

Tendo desconsiderado o Director do SFM, ao proibir-me de realizar trabalho de campo e ao exigir um relatório circunstanciado da minha actividade em Caminha, foi para ele que endossou, agora, o despacho do Ministro!!

Daniel, com a sua habitual cobardia, usou expediente que o libertaria da responsabilidade pelas ordens estranhas que eu recebera.

Mentindo descaradamente, declarou que a minha actividade na Região de Caminha estava subordinada à chefia de Reynaud e, perante tal circunstância, endossou para este personagem, o despacho que havia recebido.

Este “jogo de empurra” terminou em Reynaud, que revelou, então, o seu verdadeiro carácter.

Reynaud esqueceu-se de me ter dito ignorar a convocatória de Daniel para comparecer em Lisboa, com documentação de Caminha, lamentando a “súbita doença”, que o impediu de me receber.

Esqueceu-se também de ter submetido à minha apreciação exercício académico, a comportar-se como aluno que apresenta trabalho ao seu professor.

Esqueceu-se, ainda, de se ter mostrado profundamente consternado com o incrível “despacho” de Alcides e com as consequências que dele pudessem advir.

Colaborando nas mentiras de Daniel, acrescentou muitas outras, para justificar o “despacho” de Alcides e permitiu-se até fazer apreciações desfavoráveis sobre o meu currículo, que demonstrou não conhecer.

O despacho sintético de Veiga Simão, recomendando ao Director-Geral de Minas que aproveitasse a minha capacidade técnica, no cumprimento dos programas superiormente aprovados, demonstra que o Ministro percebeu o estado a que a DGGM havia chegado.

A sua recomendação era clara. O Director-Geral deveria ocupar-se, essencialmente, em promover que trabalho útil fosse produzido por quem tivesse a indispensável competência e não em assumir arrogantes demonstrações de autoridade, desprovidas daquele fundamental suporte.

Eu esperava um despacho muito mais enérgico, mas constatei que o Ministro enfrentava também problemas delicados, no Governo, em que participava.

Talvez um desses problemas derivasse da presença de um Secretário de Estado, que em vez de ser um honesto colaborador da confiança do Ministro, se mostrou conivente com os desmandos na DGGM.

Após o seu despacho, Veiga Simão pouco tempo, mais se manteve nesse Governo.

Alcides e seus comparsas puderam, assim, continuar, impunemente, a praticar atentados contra à indústria mineira nacional.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

56 A - Divagações suscitadas por uma amostra de minério de tungsténio - 6.º parte


XXXIV –A prospecção de tungsténio na Região de Vila Nova de Cerveira–Caminha–Ponte de Lima e a importância, que simulava atribuir–lhe, um Geólogo, que havia sido nomeado Director–Geral de Minas, em muito estranhas circunstâncias.

As minhas persistentes diligências, no sentido de travar a degradação que observava no SFM, estavam a incomodar certos funcionários, que demonstravam muito maior preocupação com os seus interesses pessoais do que com os do País, que tinham jurado servir, com lealdade.

Isso acontecia, principalmente com dirigentes introduzidos na DGGM, para substituírem os que, pelos seus nefastos procedimentos, tornavam excessivamente escandalosa a sua permanência, em elevados cargos.Porém, esses novos dirigentes, não só mantiveram os vícios herdados, mas até os ampliaram, acrescentando ainda outros, bem maiores.
Com tão incríveis atitudes, estavam a conduzir à destruição do SFM, isto é, do Organismo instituído para promover o racional aproveitamento dos nossos recursos minerais.

Já referi que, em Outubro de 1983, uma das primeiras decisões de Fernando da Silva Daniel, quando conquistou o cargo de Director do SFM, foi ordenar que a prospecção do tungsténio, no núcleo de Caminha, ficasse concluída em 1984.
Todavia, com a mesma ligeireza com que deu esta insensata ordem, assim a anulou e nem ficou pela simples anulação.

Resolveu que dois Engenheiros sediados em Lisboa (Rui Reynaud e Gonzalez), passassem a parasitar as actividades que decorriam ou tinham decorrido, na Região.

Na tentativa de evitar que Daniel viesse a repetir insensatas decisões, eu tinha-o aconselhado a consultar os numerosos relatórios de minha autoria, respeitantes à actividade do SFM na Região, um dos quais fora objecto de publicação. 
Não consegui, porém, que atendesse ao meu conselho, porque isso lhe dava trabalho e ele já tinha declarado, oralmente, perante vasto auditório, não ter vindo para o SFM para trabalhar!
Pensando que, em visitas às zonas em estudo, poderia, sem grande esforço físico e mental, ficar esclarecido sobre o projecto que eu tinha em execução e sobre os escassos meios de que dispunha para seu cumprimento, ousei fazer-lhe sugestão nesse sentido.

Concordou, mas demorou a concretizar a minha sugestão.

Surpreendeu-me que se fizesse acompanhar de Rui Reynaud e do Eng.º Quesado, da Circunscrição Mineira do Norte.
Mas, o facto é que, mesmo após aquelas visitas, não se considerou cabalmente elucidado! 

Por tal motivo, convocou-me para comparecer em Lisboa, com toda a documentação técnica respeitante à Região, a fim de a analisar, em pormenor.Embora isto me tivesse causado profunda estranheza, não tive dúvidas em me deslocar a Lisboa, às instalações do SFM, na Rua de Diogo Couto, carregado com volumoso embrulho, contendo vasta documentação, por mim produzida, durante muitos anos.
Estava, porém, longe de imaginar a armadilha que me estava preparada, pelo conjunto de malfeitores, que tinha conseguido albergar-se, na sede da DGGM.Fernando Daniel, um desses malfeitores, decidira simular súbita doença, para se esquivar à reunião, para a qual me convocara. 
Ausente era, também, Reynaud, um dos parasitas que Daniel tinha associado ao projecto de Caminha.
Acreditando, ingenuamente, na fictícia doença, resolvi ficar em Lisboa, confiante de que os males de Daniel fossem passageiros e ele pudesse ainda aparecer.Mas tal não aconteceu.
No dia seguinte, surgiu, em seu lugar, Reynaud, que aproveitou a oportunidade para submeter à minha apreciação, estudo, de que parecia ufanar-se, baseado nos documentos entregues por Union Carbide.Ele tinha procedido à reavaliação das reservas de uma pequena parcela do jazigo tungstífero de Covas!!!
Manifestei-lhe o meu parecer de que a sua reavaliação era um mero exercício de aplicação de normas instituídas para definir as várias classes de reservas.
Não era legítimo desvalorizar as estimativas da entidade que tinha o conhecimento directo do jazigo e era autora dos documentos em que ele se apoiara.

Como Daniel continuava ausente, já eu me preparava para regressar ao Porto, quando surge telefonema de Alcides Rodrigues Pereira, a solicitar a minha presença, nas instalações da DGGM, na Rua de António Enes, sem informar a agenda de trabalho.

O que se passou, na sede da DGGM, foi do mais patético que se possa imaginar!

Após longa espera, a ponto de perder o comboio, para o qual já tinha adquirido bilhete, fui recebido num gabinete, onde se encontravam, Alcides Rodrigues Pereira e Vítor Borralho, ambos sentados a uma das cabeceiras de longa mesa
Alcides indicou-me a outra cabeceira, à qual me devia sentar.
A presença de Borralho, detentor de um passado criminoso, não foi de bom augúrio!

Com rude ar de censura, Alcides pergunta-me se conheço as ordens de serviço que têm sido emitidas, respeitantes aos deveres dos funcionários para com os novos dirigentes, nomeadamente se sabia que, na ausência do Director do SFM, quem o substitui é Vítor Borralho, na sua qualidade de Director de Serviço.
Perplexo, manifesto a minha ignorância, esclarecendo que não é costume serem-me remetidas as ordens de serviço, pois se terminara com o antigo procedimento de fazer essa distribuição, a nível individual.

Empurra, então, com grosseria, na minha direcção, cópia dessa ordem, para que a assine, a confirmar dela ter tomado conhecimento.
Seguidamente, incrimina-me, asperamente por duas razões:
a) Por não me ter apresentado a Vítor Borralho, quando soube da ausência de Daniel.
b) Por ter andado a passear pela cidade, usando viatura e motorista da DGGM, durante o dia em que cheguei a Lisboa e no dia seguinte.

Conseguindo manter-me calmo, perante tamanho ultraje, só comparável a comportamento de garoto malcriado e irreverente, comecei por explicar que o facto de Vítor Borralho ser a pessoa designada para substituir o Director do SFM, era irrelevante para os objectivos da minha vinda Lisboa.

Eu tinha sido convocado, com a expressa finalidade de dar conta pormenorizada das actividades a meu cargo, na zona tungstífera de Caminha e Vítor Borralho nada tinha a ver com estas acções.
Quanto ao uso da viatura, informei que Daniel a tinha colocado à minha disposição, para as minhas deslocações em serviço, relacionadas com a sua convocatória, conforme me dera conhecimento o respectivo motorista. Usei-a exclusivamente para me deslocar a casa de familiar onde me iria instalar, quando decidi ficar em Lisboa, e também para, a partir da casa desse meu familiar, me deslocar, no dia seguinte, a Diogo Couto.
Em nova manifestação da sua extrema grosseria, Alcides ousou desmentir-me!!! Eu tinha, na sua certeza, andado mesmo a passear pela cidade!!!

Mas isto era apenas a introdução para a armadilha que os malfeitores, bem instalados nos seus gabinetes, em Lisboa me tinham preparado.

Alcides Rodrigues Pereira, em nova atitude grosseira, empurra, na minha direcção, documento, que li, verdadeiramente atónito       
Era o seguinte o que nele estava escrito:

DESPACHO N.º 5/100/83
A fim de programar convenientemente as actividades da DGGM, determino que o Sr. Eng. Rocha Gomes elabore um relatório circunstanciado sobre os trabalhos que vem desenvolvendo em Caminha, expondo os resultados já obtidos e anexando a respectiva documentação, e, eventualmente, apresente sugestões para o prosseguimento de tais trabalhos.
Até à conclusão e despacho sobre tal relatório, ficará suspensa toda a sua actividade de campo.

Conhecimento ao Senhor Subdirector-Geral, Eng. Fernando Daniel e Direcção de Serviços de Gestão.

Lisboa, 7 de Fevereiro de 1984
                     O Director Geral
 a) assinatura ilegível de Alcides Rodrigues Pereira 

Acrescentou, ainda, oralmente, de modo acintoso:

“E não faz ajudas de custo!!”

Vítor Borralho, que vim a saber ter sido um dos promotores desta vergonhosa reunião, manteve-se discretamente calado.

Vale a pena recordar que, depois do calunioso documento que subscreveu, em conjunto com outros 24 traidores, que o devia ter levado a Tribunal, o qual esteve na origem da destruição da 1.ª Brigada de Prospecção, por mim laboriosamente organizada, resolveu, enveredar pela política, chegando a pretender o cargo de Governador Civil de Beja.
Como tal pretensão não teve êxito, candidatou-se a Administrador de Minas de Aljustrel.

Conseguiu realmente o cargo, mas não foi longa a sua presença nas Minas, acabando por ser exonerado.

Em tais circunstâncias, refugiou-se, de novo, no SFM e, facto curiosíssimo, veio preencher a vaga de Director de Serviço que o anterior Director do SFM, Jorge Gouveia, me tinha oferecido “com a condição de eu não fazer trabalho da campo”!!!!

Considerei esta oferta ofensiva e mais uma das manifestações de senilidade em que Jorge Gouveia se revelava fértil, as quais acabariam por conduzir ao seu afastamento do cargo de Director do SFM.

Era óbvio, para quem conhecia o meu passado, que eu jamais prescindiria de tentar que o SFM cumprisse a sua missão e recuperasse o prestígio que tinha alcançado, graças à actuação de trabalhadores por mim preparados, sobretudo dos mais baixos escalões hierárquicos.

Eu continuava a realizar trabalho de campo, porque isso era essencial não só para manter activo o SFM, com trabalho de investigação cientificamente organizado, mas também para poder dar aulas de campo aos meus alunos da Universidade de Porto e também para prestar auxílio à Universidade de Aveiro.

Agora, era Borralho, que pelo seu passado criminoso, surgia como meu superior hierárquico, ao qual eu devia prestar contas!!
O despacho de Alcides foi mais um grave insulto à minha dignidade profissional, praticado por indivíduo que eu sabia ter ascendido ao cargo de Director-geral, também com base em procedimento criminoso.

Abstenho-me, por agora, de mais comentários a tão indecoroso despacho, talvez inédito, na Função Pública.

Finda aquela incrível reunião, dirigi-me às Instalações do SFM, na Rua de Diogo Couto, para trazer os documentos que lá deixara e que não tinham, afinal, sido necessários!!
Apesar da hora tardia, ainda lá se encontrava Reynaud, que se mostrou muito consternado quando lhe dei conhecimento do despacho de Alcides.

E eu até acreditei.

Revelarei, oportunamente, quão grande era a sua hipocrisia.

XXXV – A meteórica promoção de Alcides Rodrigues Pereira a elevado cargo dirigente na DGGM

Quem era, afinal, a insolente criatura, que tivera o arrojo de ultrajar o técnico que mais contribuíra, com o seu saber e a sua sistemática actuação, durante 40 anos, para os maiores êxitos, de todos os tempos, da indústria mineira nacional e até internacional?

Qual o currículo desta criatura, a sua competência técnica?

Que critério terá sido seguido para a sua colocação no cargo de Director-Geral de Minas?

Sem disso me ter apercebido, eu tinha sido, afinal, o principal responsável por uma das maiores catástrofes que atingiram a DGGM.

Conforme já referi, eu não me conformava com os graves erros que estavam a ser cometidos no SFM, com a conivência do Director-Geral.

E como não obtinha resposta aos ofícios que endereçava ao Ministro da tutela, tomei a iniciativa de me dirigir, pessoalmente, ao Ministério, na esperança de conseguir audiência.

Não tendo, porém, o Ministro disponibilidade, na sua agenda, encarregou um dos seus Assessores de me receber e ouvir o que eu pretendia dizer.

Mas este Assessor, que era licenciado em Direito, embora tivesse manifestado grande interesse pelas matérias de que eu o ia informando, parecendo até manifestar o desejo de ver corrigidos os clamorosos erros que lhe revelava, teve a hombridade de declarar que, tratando-se de assuntos da especialidade do outro Assessor do Ministro, entendia dever ser ele a apreciar os casos, por mim apresentados, como justificativos da sindicância que insistentemente reclamava.

Como esse Assessor se encontrava ausente, em férias, sugeriu que se aguardasse o seu regresso e se marcasse, então, nova audiência.

Tratando-se de indivíduo licenciado em Geologia, eu até fiquei satisfeito, por acreditar que ele poderia, de facto, entender melhor as razões que me tinham induzido a solicitar a sindicância.

Eu não o conhecia, mas na minha ingenuidade, tomara como axiomáticas, a honestidade e a competência do indivíduo que o Ministro tinha decidido contratar, para o auxiliar em temas das Ciências da Terra.

Não apresentei, consequentemente, qualquer objecção, em aceitá-lo como representante do Ministro, na nova reunião que me foi sugerida e até acrescentei que também desejaria a presença de Soares Carneiro e Múrias de Queiroz, os quais eu tinha denunciado como os principais responsáveis por enormes prejuízos á economia nacional, no domínio dos nossos recursos minerais.

Afinal, mais uma vez, eu me enganara rotundamente, como só tardiamente viria a perceber.

O Geólogo Alcides Rodrigues Pereira estivera colocado na antiga província ultramarina portuguesa de Angola e regressara à Metrópole, após a Revolução de Abril de 1974.

Em Angola, especializara-se em burocracias relacionadas com contratos de investigação de petróleo, por empresas estrangeiras.

Do seu currículo não constava exercício da profissão de Geólogo, em trabalhos, no campo ou no gabinete.

Um Ministro dera-lhe emprego, talvez acreditando, como eu, ser competente na profissão em que se licenciara.

A reunião foi marcada para o dia 10 de Agosto de 1977, tendo comparecido, de facto, ambos os dirigentes que eu indicara.
Muito estranho me pareceu, porém, o atraso no seu início, originado por longo tempo em que aqueles dirigentes se mantiveram em conferência com Alcides.

No decurso da reunião, fui progressivamente notando que algo se passara, naquela conferência, susceptível de influenciar negativamente o seu resultado final.

Alcides não atingia, ou recusava perceber, a real importância dos casos de que lhe ia dando conhecimento, nomeadamente a minha sistemática actividade, aplicando as mais modernas técnicas de prospecção mineira, durante cerca de 30 anos, na Faixa Piritosa Alentejana, da qual resultou a descoberta do gigantesco jazigo de Neves-Corvo.

Ficou completamente indiferente, quando revelei que Soares Carneiro, sem me consultar, resolveu adjudicar a Consórcio em que predominavam entidades estrangeiras, vasta área que englobava a zona onde o SFM detectara a anomalia gravimétrica, que era a assinatura do jazigo, impedindo assim o SFM de concretizar o êxito, que tão laboriosamente tinha preparado, com enormíssimo prejuízo para a economia nacional.

Durante a reunião, descrevi os factos justificativos da sindicância e entreguei-lhe, a título devolutivo (que afinal, não respeitou, apesar de lhe ter dito que alguns documentos eram originais) abundante documentação comprovativa de tais factos, para que a pudesse analisar mais calmamente.

Constatando que Alcides realmente não se comportava como técnico, mas apenas como burocrata, que realmente era, tive mesmo de lhe chamar a atenção para o facto de eu ter concordado com a sua presença, em representação do Ministro, por ele ser licenciado em ser Geologia!

Resultou óbvio que na longa conferência com Soares Carneiro e Múrias de Queiroz, Alcides ficara ciente da atitude que lhe conviria assumir, para seu proveito pessoal.

“O País que se lixasse!”, como diria um governante dos tempos actuais!

Da reunião acabaria por resultar, apenas, o extraordinário imprevisto, a que aludi: a nomeação de Alcides Rodrigues Pereira para o cargo de Subdirector-geral!!!!.

Soares Carneiro, velha raposa, ciente da facilidade com que muitas pessoas se deixam subornar, teve a habilidade de, uma vez mais, usar do seu poder absoluto, oferecendo a Alcides um dos lugares de Subdirector-geral, recentemente criados na DGGM, para compensar a atitude, a que Alcides se comprometesse, de não dar qualquer seguimento à sindicância à DGGM.

 

domingo, 25 de janeiro de 2015

56 A - Divagações suscitadas por uma amostra de minério de tungsténio - 5.º parte

      

         XXXIII-Ministros insultam técnicos superiores da DGGM, para readmitirem, na função pública, em cargo dirigente, Geólogo fraudulento, ignorante nas matérias em que se afirmava perito.

         A progressiva degradação, que eu observava, no SFM, originada pelo abuso das liberdades conquistadas pela Revolução de 25 de Abril de 1974, causava-me profunda preocupação.
          Numerosos foram, por isso, os meus apelos aos sucessivos Governos e até ao Presidente da República, para que fossem adoptadas as medidas correctivas que se impunham.
         Ingenuamente, acreditava que, a nível governamental, o interesse do País se sobreporia a outros interesses e que Ministro era, obviamente, personagem honesta.
         Estava, porém, profundamente equivocado!
         Houve Governos capazes de pactuar, ostensivamente, com elementos perversos que estavam a destruir o SFM!!!
         Vários Ministros, sem escrúpulos, não tiveram pejo em subscrever despacho, insultando funcionários detentores de valiosíssimo currículo, com abundantes provas de competência técnica e dedicação à causa mineira.
         Com esse aviltante insulto, pretenderam justificar o recrutamento, para alto cargo directivo, de Geólogo ignorante em prospecção mineira, o qual teve a desfaçatez de declarar, no currículo que apresentou para publicação no Diário da República, a autoria de trabalho por outros produzido!!!
         Enorme foi, pois, a minha estupefacção, quando deparei, a páginas 2638 da I Série do Diário da República de 28-8-1984, com a portaria que, a seguir, transcrevo: (a passagem realçada é de minha iniciativa)
           “PRESIDÊNCIA DO CONSELHO DE MINISTROS E MINISTÉRIO DA INDÚSTRIA E ENERGIA" - Portaria N.º 649/84 de 28 de Agosto
 
          A prossecução dos novos objectivos da Direcção – Geral de Geologia e Minas, na sequência da aprovação do Decreto Regulamentar n.º 46/83 de 8 de Junho, não se compadece com soluções de continuidade na gestão de um dos seus serviços operativos – a Direcção de Serviços de Prospecção.          A especificidade de competências a esta cometidas decorrentes do artigo 13.º da lei orgânica exige que para o cargo de director de serviços seja recrutado um técnico de elevado nível e comprovada experiência profissional nos domínios da definição de áreas geologicamente favoráveis à ocorrência de minerais com interesse económico, prospecção e pesquisa de recursos de minérios metálicos e não metálicos, gestão do sector empresarial extractivo, direcção de pessoal e bem assim da função pública.
         Dada a inexistência de indivíduos na função pública com o perfil adequado para exercer o cargo pela via do recrutamento normal previsto pelo artigo 2.º n.º 2 alínea a), do Decreto –lei N.º 191-F/79 de 26 de Junho, e considerando o disposto no n.º 4 do mesmo artigo e diploma e o n.º 3, alínea b) do Decreto Normativo n.º 66/82 de 30 de Abril:
        Manda o Governo da República Portuguesa, pelo Ministro da Indústria e Energia e pelo Secretário de Estado da Administração Pública, o seguinte:
         1.º É alargada a área de recrutamento para o provimento do lugar de director de Serviços de Prospecção a indivíduo não vinculado à função pública, licenciado em Ciências Geológicas, de elevado nível técnico e comprovada experiência profissional no domínio das competências legalmente cometidas aos serviços.
         2.º O despacho de nomeação deve ser acompanhado, para publicação do currículo do candidato.

         Presidência do Conselho de Ministros e Ministério da Indústria e Energia. 
Assinada em 2 de Agosto de 1984, pelo Ministro da Indústria e Energia, Joaquim Leitão da Rocha Cabral, Secretário de Estado da Energia – O Secretário de Estado da Administração Pública, José Manuel San-Bento de Menezes. 

         Na sequência deste despacho, surgiu, na II Série do Diário da República de 12-9-1984, o documento de que faço parcial transcrição:

         “Secretaria de Estado da Energia Direcção Geral de Geologia e Minas
         Por despacho de 29 de Agosto de 1984, do Secretário de Estado da Energia, foi nomeado, em comissão de serviço, director dos Serviços de Prospecção do quadro da Direcção-Geral de Geologia e Minas, por urgente conveniência de serviço, com efeitos, a partir de 29 de Agosto de 1984 “Vítor Manuel Correia Pereira”   
          Este novo despacho é acompanhado de extenso currículo, apresentado pelo candidato, sem validação por entidade idónea, cujos elementos mais salientes são:
1965 a 1972 – Geólogo do SFM, em cuja qualidade, declara as seguintes actividades:
    a) ter constituído, com os colegas António Ribeiro e Nabais Conde, o grupo de trabalho, para o estudo dos jazigos de scheelite em Portugal;
    b) ter acompanhado permanentemente os Geólogos checos Prof Janecka e Jiri Strnad, durante os meses em que aqueles Geólogos estiveram em Portugal a estudar a Região mineira de volframite e scheelite de Covas, Valdarcas, Cerdeirunha e Lapa Grande (Vila Nova de Cerveira)
    c) ter feito o estudo geológico das Minas de Covas (Vila Nova de Cerveira) para inclusão no Livro-Guia da Excursão N.º 7 do 1.º Congresso Hispano-Luso-Americano de Geologia Económica.

         Sobre o chamado “Grupo dos Scheeliteiros”, o Director-Geral, que o orientou, reconheceu a sua completa ineficácia, conforme já tive ensejo de descrever.
        Quanto ao acompanhamento permanente dos Geólogos checos e aos estudos nas Minas de Covas, é tudo inteiramente falso.
         Com os checos, foi-lhe concedido o privilégio de fazer estágio de aprendizagem, por mim sugerido, com o objectivo de o SFM ir tomando iniciativas no sentido de melhorar a preparação dos seus Geólogos, evitando acções inúteis como foi o caso da lamentável incompetência demonstrada por anterior Geólogo, que tinha sido destacado para a Região.
         Vítor Pereira não se revelou, porém, bom discípulo, pois foram fugazes as suas presenças no campo.
          E, como já referi, fui eu quem lhe forneceu, a seu pedido, o levantamento geológico da Região, elaborado pelos Geólogos checos, para poder fazê-lo figurar na Livro Guia da Excursão do CHILAGE!
         Em 1972, rescindiu o seu contrato com o SFM, passando a dedicar-se à indústria privada, essencialmente no sector de “Não Metálicos”.
         Não deve ter tido sucesso, pois, em 1984, diligenciou acolher-se, de novo, na função pública, tirando partido das relações políticas e comerciais, que tinha adquirido.
         Era óbvio que não se atreveria a orientar trabalhos de Prospecção Mineira pois era ignorante, em tal matéria, como, aliás, acontecia com todos os Geólogos recém-diplomados pela Universidade de Coimbra, pois a disciplina não constava do Curso.
         Mas iria ter nova oportunidade de evidenciar o seu carácter.
         É simplesmente inacreditável como foi possível acontecerem tão aberrantes despachos.

         De facto, simultaneamente com nomeações para cargos directivos instituídos pelo Decreto-lei N.º 548/77, sem a intenção de os nomeados desempenharem as funções correspondentes às suas categorias, continuava em vigor a Orgânica instituída em 1963, pelo então Director do SFM, Múrias de Queiroz.
         Era assim que, afinal, se conseguia manter ainda alguma actividade útil!!

          Segundo essa Orgânica, eu era Chefe do 1.º Serviço, cabendo-me numerosas funções, que concentrei sob a designação de Serviço de Prospecção Mineira do SFM, dando à Prospecção, pela primeira vez, um âmbito vasto, que incluía fases sucessivas, desde a documentação até à definição de reservas minerais.
         No desempenho dessas funções, foi às minhas exclusivas iniciativas que se ficou devendo a introdução, no SFM, das técnicas geológicas, geofísicas e geoquímicas, adequadas aos objectivos em vista.
         Foi através de sistemática e rigorosa aplicação dessas técnicas, que se registaram os maiores êxitos, de todos os tempos, em prospecção mineira, com destaque para o gigantesco jazigo de Neves-Corvo, por cuja descoberta sou o principal responsável, após árdua luta, que se prolongou por 30 anos, durante os quais tive que enfrentar incríveis dificuldades criadas por dirigentes incompetentes e malévolos.
         Além disso, fui também o introdutor de disciplina de Prospecção Mineira, no Curso de Geologia da Faculdade de Ciências do Porto, na qualidade de Professor Convidado, correspondendo a pedido que não podia recusar, apesar da minha escassa disponibilidades de tempo, porquanto as minhas funções no SFM eram realmente absorventes.
         Esta regência iria prolongar-se por 20 anos.
         Pelo sucesso que alcançou, induziu outros estabelecimentos de ensino superior e médio de Porto, Aveiro e Braga a solicitarem também a minha colaboração.
         Ao convite da Faculdade de Engenharia, correspondi, regendo a disciplina, durante dois anos, sem remuneração (não era permitida segunda acumulação), comprometendo-me ainda a prestar colaboração a futuro Engenheiro, que tendo frequentado as minhas aulas, tivesse demonstrado aptidão para se encarregar do ensino da matéria que aprendera.
         Ao Instituto Superior de Engenharia do Porto, facultei aulas de campo, aos seus alunos, na Região de Caminha.
         Extraordinário foi o interesse manifestado por Engenheiros recém-licenciados, em frequentarem as minhas aulas na Faculdade de Ciências do Porto.
         Não se contentaram com um ano. Estiveram presentes, durante dois anos e foram depois bons colaboradores, em aulas de campo, na Região de Caminha, para as quais traziam os seus alunos, na sua nova qualidade de docentes da Universidade de Aveiro.
         À Universidade de Braga, iria, já aposentado, prestar colaboração em Curso de Mestrado.
         Muitas mais referências poderia fazer sobre as minhas actividades em prospecção mineira.
         A realidade era que a DGGM, sempre que pretendia demonstrar, a nível externo, a sua capacidade técnica, era a mim que convocava, para esse efeito.
         Foi assim, por exemplo, que representei Portugal, em reuniões, de um Grupo “ad hoc” constituído para promover a aplicação de métodos modernos de prospecção, no âmbito da OECE (depois evoluída para OCDE).

         Nestas reuniões, realizadas em Paris, em 1961, participaram 18 países e, na sua sequência eu apresentei projecto de prospecção aérea no Alentejo, que teve boa aceitação.
         Foi também assim que fui designado para dar conta de actividades de prospecção a meu cargo em representação da DGGM, proferindo várias palestras, no Laboratório Nacional de Engenharia Civil.
         Vale ainda a pena citar a minha participação nas Jornadas de Engenharia de Moçambique, em 1965, às quais apresentei comunicação sobre recentes êxitos da aplicação de técnicas geofísicas e geoquímicas à prospecção mineira, que foi muito apreciada e foi publicada pela Sociedade de Estudos.

         É, consequentemente, um gravíssimo insulto à minha dignidade profissional o despacho que Rocha Cabral subscreveu e induziu outros Ministros a seguirem-lhe o exemplo.
         Em circunstâncias normais, isto teria justificado procedimento criminal.
         Não era, porém, caso único. Outros crimes foram cometidos impunemente, os quais, sem dúvida, deram a sua contribuição para a crise que o Pais actualmente atravessa.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

56 A - Divagações suscitadas por uma amostra de minério de tungsténio - 4.º parte -



XXIX - O meu parecer sobre a actividade de Union Carbide (UC)

Em 22-6-1979, Union Carbide requereu a prorrogação do seu contrato de prospecção mineira, com o Estado Português.

Deste requerimento foi-me enviada cópia com carimbos de entrada em vários departamentos da DGM, e com os seguintes despachos:

    a) SFM para se pronunciar sobre o mérito do seu trabalho, em relação aos contratos 12-7-79 (a) F. Soares Carneiro, na qualidade de Director-Geral de Minas
     b) Envie-se fotocópia ao Eng.º Rocha Gomes, para a Amieira, para cumprimento do despacho do DG 20-7-79 (a) Jorge Gouveia, na qualidade de novo Director do SFM.

Dando cumprimento a este último despacho, entreguei, em 28-8-1979, o meu parecer, francamente favorável à continuação da actividade de UC, pois acompanhava sistematicamente os seus trabalhos e até colaborava na respectiva execução.

Este parecer constou de documento de 68 páginas dactilografadas e uma peça desenhada.
No longo texto, manifestei estranheza, por me ser pedido que me pronunciasse acerca do mérito de uma actividade que decorrera nos termos de um contrato celebrado, sem me ter sido dado conhecimento, respeitante à zona que era objecto dos meus estudos.

Foi apenas através dos meus contactos com UC que tomei conhecimento de documentação, que a Direcção da DGM se “esquecera” de me enviar.

Perante a persistente obstrução dos dirigentes da DGGM à realização de trabalho útil, aproveitei a oportunidade para repetir sugestões feitas, em vários outros documentos, no sentido de serem tomadas providências para se atingirem os objectivos de fomento da indústria mineira nacional, consignados no Decreto-lei N.º 29 725 de 28 de Junho de 1939.

Um Instituto de Investigação dos Recursos Minerais de Portugal, independente da actual DGGM, seria a solução racional.
Tal Instituto teria, obviamente, de ficar sob a orientação de dirigentes aptos a bem desempenharem a sua nobre missão.
Impunha-se também sindicância à DGGM, para responsabilização dos autores dos gravíssimos prejuízos para a economia nacional.

Não obtive qualquer reacção ao meu Parecer, de que conservo cópia. Provavelmente terá sido destruído.
Fiel ao princípio de que “quem teima, vence” ou de que “água mole em pedra dura, tanto dá até que fura”, continuei a insistir e alguns resultados acabaram por aparecer.

Já tinha chegado a vez de Múrias de Queiroz sair de cena. Estava para breve a vez de Soares Carneiro.


XXX - A documentação técnica entregue pela Union Carbide, quando rescindiu os seus contratos de prospecção mineira,


Quando tive conhecimento da decisão da Union Carbide (UC) rescindir os seus contratos de prospecção mineira com o Estado Português e com empresas concessionárias, apressei-me a convidar os dirigentes da equipa local de UC a proceder à entrega dos documentos técnicos, que sabia terem sido elaborados, mas que não tinham dado entrada na DGGM, como seria normal, em cumprimento da Lei de Minas e das cláusulas contratuais.
Solicitei também a entrega dos testemunhos das numerosas sondagens efectuadas pela Empresa.

UC acolheu favoravelmente este convite e até se propôs promover o transporte dos testemunhos das sondagens para as instalações do SFM, em S. Mamede de Infesta.

O Geólogo Bronkorst que chefiava o projecto de UC, informou-me que formalizaria a entrega da documentação, nas instalações da DGM, em Lisboa.

Embora esperasse ser eu o natural destinatário, não ousei sugerir tal alternativa, confiante de que a documentação rapidamente me seria remetida.
Surpreendentemente, não foi isto que aconteceu.
Alguém iria parasitar os estudos de UC, para simular trabalho que não estava apto a produzir!


XXXI - Os testemunhos das sondagens de Union Carbide.

Em ofício que enderecei ao novo Director do SFM, Jorge Gouveia, que sucedera a Múrias de Queiroz, dei conhecimento da intenção de UC colocar os testemunhos das suas sondagens, nas instalações do SFM, em S. Mamede de Infesta, se o local de arrumação lhe fosse comunicado, até data ainda distante, que indicou.

Aconteceu que tendo-me ausentado do País, em gozo de licença graciosa, quando regressei, constatei que aquela data tinha sido ultrapassada, sem que comunicação alguma tivesse sido feita a UC e esta Companhia até já tinha terminado todas as actividades na Região.

Jorge Gouveia deu, então, ordem para que um Agente Técnico de Engenharia tomasse a seu cargo o transporte a arrumação dos testemunhos.

Isto foi feito, em numerosas viagens, usando uma pequena camionete e um jeep, durante tempo suficiente para justificar ajudas de custo a diverso pessoal, em período em que constantemente se proclamava a necessidade de reduzir despesas!
Os testemunhos foram arrumados atabalhoadamente, junto a uma parede, ao ar livre, sem cuidado em preservar as indicações da sua proveniência.
No decurso do tempo, foram-se espalhando, tornando-se quase inúteis, conforme se constatou quando se começou a organizar uma caroteca.



XXXII – Consequências nas investigações mineiras, em curso, na Região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima, por mudanças ocorridas nas principais chefias da DGGM

Apesar da ignorância em matérias relacionadas com o aproveitamento dos nossos recursos minerais, revelada pelos Ministros da Economia ou da Indústria, dos sucessivos Governos constituídos após a Revolução de 25 de Abril de 1974, os desmandos de Soares Carneiro eram tão evidentes, que se tornou imperioso destituí-lo do cargo de Director-Geral de Minas.

Foi, por isso, publicado no Diário da República de 17 de Março de 1980, despacho ministerial exonerando-o dessas funções.

Não foram, todavia, explicadas as razões da exoneração, nem foi praticada a sindicância à DGGM que era essencial, porquanto Soares Carneiro teve seguidores da sua acção destrutiva.

Dentre esses seguidores, Jorge Gouveia, acabou por ter efémera presença na qualidade de Director do SFM, pois foi também exonerado.

Não foram, porém, felizes as nomeações para os cargos que ficaram vagos.

Alcides Rodrigues Pereira, Geólogo, sem currículo técnico, mas conhecedor da burocracia no ambiente ministerial, por ter sido Assessor de um Ministro, foi ocupar o cargo de Director-Geral. Um desastre, que era facilmente previsível.

O Engenheiro Fernando da Silva Daniel, que vinha da indústria privada, com fama de ter realizado bom trabalho nas Minas de Aljustrel, veio ocupar o cargo de dirigente do SFM.
As atitudes que, desde o início, assumiu para comigo, fizeram-me duvidar da sua sanidade mental.
Sem respeito pelo meu currículo, que ostensivamente ignorou, teve a ousadia de dar-me instruções, quanto a procedimentos a adoptar em prospecção mineira, isto é, relativamente a matéria de que viria a revelar-se grande ignorante.
Quando denunciava as barbaridades que proferia, não tinha pejo em afirmar: “Disso nada sei e até tenho raiva a quem sabe!”

 Sem se preocupar em conhecer os estudos que decorriam nos diversos núcleos do SFM, nomeadamente no sector que eu dirigia, logo me destinou zona de investigação, como se o SFM começasse, então, a sua actividade e não tivesse realizado imensa obra, nos 40 anos anteriores!!

Destinava-me a zona de Góis – Panasqueira!

Reagindo a esta precipitada decisão, recomendei-lhe que procurasse conhecer o SFM actual, que era essencial que visitasse os diversos locais de trabalho e consultasse a documentação arquivada.
Respondeu que “não viera para o SFM para trabalhar. Para isso, havia gente mais nova!!!”

Informei-o de que a zona de Góis – Panasqueira tinha muito interesse e que constava dos Planos de Trabalho que apresentava anualmente na minha qualidade de Chefe do Serviço de Prospecção Mineira.

Estava, porém, ainda em fase muito atrasada, exigindo estudos geológicos, por pessoal qualificado, antes que passasse a fase de prospecção, por outras técnicas.
Já tinha indigitado o Professor Décio Tadeu, ao concessionário da Mina de Góis, quando este pedira o meu auxílio.
O Professor Décio, que tinha participado no corpo de técnicos das Minas da Panasqueira, aceitou realizar tal tarefa. Desconheço a sequência.

Quanto a mim, respondi não estar em idade de iniciar estudos nessa zona, nem ser minha opinião suspender as investigações em curso na Região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima.
Daniel teve, então, reacção, própria da inconsciência que vinha demonstrando, nas suas decisões:
         “Então, quero tudo acabado em 1984”!!!”

Conseguindo manter a minha calma, aconselhei-o a visitar a área que estava em estudo e a tomar conhecimento dos meios que estavam à minha disposição para realizar esses estudos, antes de tomar novas decisões apressadas.
Concordou, mas tardou a concretizar a sua visita e, quando tal aconteceu, fez-se acompanhar do Engenheiro Rui Reynaud, que tinha conseguido a categoria de Director de Serviço (!!!), recentemente criada, e pertencia ao grupo de técnicos sediado em Lisboa, nas antigas instalações da extinta Direcção-Geral dos Serviços de Prospecção e Exploração da Junta de Energia Nuclear.

Esta visita permitiu-me tirar duas conclusões:
a) Daniel pouco ou nada percebeu das explicações que lhe dei sobre os estudos em curso, as quais apoiei em peças desenhadas, com resultados das várias técnicas geofísicas e geoquímicas que tinham sido aplicadas.
b) A presença de Rui Reynaud justificava-se porque, em funções que lhe foram atribuídas, estava parasitando os documentos que UC entregara, sendo esta a razão porque não tinham chegado à minha mão. Reynaud usava os dados dos logs das sondagens de UC para recalcular as reservas, que UC considerara como passíveis de exploração e até já tinha feito publicação, sobre esta matéria!!!

 Estranhando tão grande reviravolta na atitude de Daniel, chamei-lhe a atenção para zonas do País, incluídas nos meus Planos de Trabalhos, anualmente apresentados, a necessitarem de estudo, parecendo-me inútil a concentração que estava a verificar-se na Região de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima, sem efectiva participação na actividade local, pois até tinha notado que um Engenheiro de nome Gonzalez, também sediado em Lisboa, surgia clandestinamente em S. Mamede de Infesta a recolher fragmentos das sondagens do SFM, provavelmente para simular, igualmente, trabalho que não estava apto a executar.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

56 A - Divagações suscitadas por uma amostra de minério de tungsténio - 3.º parte



XXIII – O “dogma” instituído por Soares Carneiro, de não se justificar a prospecção de minérios de tungsténio.

Durante os 20 anos que precederam a minha nomeação para chefiar o Serviço de Prospecção Mineira, com âmbito de acção extensivo a todo o território metropolitano nacional, Soares Carneiro tinha instituído o dogma de a prospecção do volfrâmio ter ficado concluída, “com as botas”, devido á sua intensa procura, durante a 2,ª Guerra Mundial.
Não era, consequentemente, de esperar a descoberta de novos jazigos!!


XXIV - O Grupo de Trabalho do Tungsténio “Os scheeliteiros”

Soares Carneiro, ficou perplexo, quando se apercebeu de que, além dos método magnético, eléctricos e geoquímicos, eu aproveitava, na procura de jazigos de tungsténio, a fluorescência da scheelite, sob determinada radiação ultra-violeta.
Por incrível que pareça, ele e os outros técnicos que fizeram investigações mineiras, no Norte do Pais, ignoravam esta propriedade da scheelite, durante os 20 anos que precederam a minha nomeação como Chefe do Serviço de Prospecção Mineira.
Esta tardia descoberta fez-lhe considerar que, afinal, teriam escapado à “prospecção com as botas” jazigos de scheelite, dada a fácil confusão deste mineral com minerais sem valor económico.
Passou, pois, a admitir ao seu dogma, mais uma excepção: a prospecção de scheelites.
Com auxílio do mineralight, julgava possível encontrar, rapidamente, grandes jazigos deste mineral, que permaneciam escondidos, os quais, pelas suas prováveis dimensões, classificava de “Torres dos Clérigos”!
Ele-próprio se encarregaria de orientar campanha, com vista à sua detecção.
Com o seu beneplácito, o subserviente Director do SFM, Múrias de Queiroz, fez Ordem de Serviço, criando o Grupo de Trabalho do Tungsténio.
Este Grupo passou a ser, designado pelos “Scheeliteiros”


XXV– A constituição do “Grupo dos Scheeliteiros”

Este Grupo foi instituído, em 1975, após a Revolução da Abril de 1974, com total desrespeito pela Orgânica do SFM.
Sem o mínimo escrúpulo, Soares Carneiro e Múrias de Queiroz deram assim mais uma contribuição para a indisciplina na actividade do SFM.
À margem dos vários Serviços criados pela Orgânica posta em vigor em 1964, decidiram promover, para seus mais directos colaboradores, funcionários que dessem garantias de subserviência, independentemente da sua competência.
Esperavam deste modo, manter-se nos cargos que ocupavam, não por competência técnica, mas por fidelidade à política do regime que tinha sido deposto.
Soares Carneiro, que auxiliara o Professor Cotelo Neiva, em levantamentos geológicos, na província de Trás-os-Montes, quase se considerava Geólogo.
Assumia-se, pois, como competente para orientar, directamente, Geólogos recém-diplomados, que tinham sido integrados no SFM e que se apresentavam como detentores de uma excelente preparação académica.
O Grupo dos Scheeliteiros ficou constituído, não só por 3 desses “excelentes” Geólogos, mas também por numeroso pessoal dos diversos serviços da sede em S. Mamede de Infesta e ainda por pessoal operário a recrutar nos locais de trabalho.
Os Geólogos, todos oriundos da Universidade de Coimbra não tinham, “de facto” a preparação de que se vangloriavam.
Eram, afinal, completamente ignorantes em prospecção mineira, pois esta matéria não constava do elenco do Curso que frequentaram.
A realidade era que o Director do Departamento de Geologia da Universidade de Coimbra, o Professor Cotelo Neiva, tinha igual ignorância, como tive ocasião de constatar directamente, quando, na sua qualidade de Colaborador do SFM, me censurou por aplicar, no Sul, técnicas geofísicas.
O pessoal auxiliar, sem qualquer preparação académica ou de outra natureza, deslocado da sede em S. Mamede de Infesta, era afectado ao Grupo, para o aliciar, proporcionando-lhe auferir ajudas de custo.


XXVI – O programa do “Grupo dos Scheeliteiros

Este Grupo de Trabalho escolheu como zona principal de actuação, uma vasta área abrangendo os concelhos de Mogadouro, Alfândega da Fé. Almendra e Figueira de Castelo Rodrigo.
Seleccionara para determinação do valor económico, com vista a futura exploração uma ocorrência, que designou como “jazigo de Cravezes”.

 
XXVII – As intenções dos “Scheeliteiros”, relativamente à Região de Vila Nova de Cerveira – Caminha - Ponte de Lima.

Era intenção do “Grupo dos Scheeliteiros” apropriar-se da zona de Vila Nova de Cerveira – Caminha – Ponte de Lima, deixando eu de dirigir os estudos, que lá iniciara há vários anos.
Foi Farinha Ramos o Geólogo encarregado de me exigir a entrega da documentação respeitante aos estudos efectuados na Região até àquela data.
Apresentava-se a cumprir Ordem de uma “Comissão de Direcção do SFM”.
Esta Comissão, instituída após a Revolução de Abril de 1974, tinha sido o expediente que Múrias de Queiroz encontrara, para se manter no poder de que desfrutara, no regime político anterior, apesar da sua notória incompetência, simulando agora a comparticipação, na Direcção, de funcionários de categorias inferiores, convenientemente eleitos.
Declarando ilegal esta Comissão, por não respeitar a Orgânica do SFM, que se mantinha em vigor,
recusei, cumprir tão exorbitante Ordem.
Curiosíssima a atitude de Farinha Ramos, quando lhe perguntei se percebia das técnicas de prospecção que eu estava a aplicar. Respondeu que não percebia, mas que estava ali apenas a cumprir uma Ordem!
Não fui, portanto, impedido de continuar a orientar os estudos na Região de Vila Nova de Cerveira – Caminha - Ponte de Lima.


XXVIII – O fiasco da actuação dos Scheeliteiros”

Os Scheeliteiros lograram descobrir, na região de Mogadouro, a existência de scheelite, em rochas, que classificaram de calcossilicatadas, e logo “embandeiraram em arco”.
Durante anos, realizaram sanjas e sondagens, nesta ocorrência, que denominaram de “jazigo de Cravezes”.
Em artigo publicado em Revista da Universidade de Coimbra, um desses Geólogos, embora declarando que o “jazigo” se encontrava ainda em início de estudo, apressou-se a dar notícia da “sensacional”descoberta.
Revelou terem sido feitas amostragens das rochas mineralizadas, para análise de WO3, Sn, Pb e Ag, em 14 sanjas, mas, perante os baixos teores de”WO3 detectados, explicou que a operação de amostragem tinha sido efectuada por pessoal não especializado!!!!
Para darem a conhecer os seus “brilhantes” êxitos, os Scheeliteiros fizeram exposições no Salão Nobre do edifício de S. Mamede de Infesta.
Tive, casualmente, conhecimento de uma dessas exposições quando ela já decorria e fui assistir.
Estava, então, Farinha Ramos no uso da palavra, encontrando-se exposto um diapositivo com foto de um campo onde apenas se percebia a existência de restolho de seara já ceifada.
Este diapositivo manteve-se, com a Sala em semi-obscuridade, durante toda a sessão!!
Os Geólogos Santos Oliveira e Luís Francisco Viegas intervieram seguidamente, sobretudo para realçar o espírito de equipa que norteou as investigações.
“Não era como noutros casos, em que havia um sábio que tudo descobria”!
O Director do SFM, Múrias de Queiroz estava eufórico! Tinha visitado a área em estudo e ficara deslumbrado com a quantidade de scheelite que vira … até nos muros!  Ignorava que musgos e outros materiais também brilham quando sobre eles incide radiação ultra-violeta!!!
Na “selecta” assistência, encontrava-se a maior parte do pessoal do chamado núcleo de S. Mamede de Infesta, incluindo funcionários da Secretaria, da Sala de Desenho, das Oficinas, da Cantina, mulheres da limpeza, etc., tudo pessoal que pouco ou nada entendia do que se dizia, até porque o palavreado não foi tornado acessível.
Para demonstração dos sucessos, uma amostra de rocha com mineralização de scheelite ia passando, de mão em mão, por todo este pessoal, que obviamente não conseguia detectar a presença do mineral de tungsténio, pois ele só se torna visível a observador não experimentado, usando radiação ultra-violeta de determinado comprimento de onda, em completa escuridão.
A finalizar, insistiu-se em realçar o espírito de equipa, que desejariam servisse de exemplo a outros departamentos do SFM.
A esta euforia, sucedeu um marasmo gradual, pois os resultados não correspondiam às expectativas optimistas que tinham sido geradas em pessoal impreparado para a realização de trabalhos de prospecção mineira.
Sei que foram realizadas numerosas sondagens, não apenas na região de Mogadouro, mas também noutras áreas, como foi o caso da Fonte Santa, em Lagoaça.
Sei, também, que na maior parte delas, se obteve escassa recuperação de testemunhos.
Constou-me que, quando O SFM começou a organizar uma “caroteca”, em novo edifício, construído na sua sede em de S. Mamede de Infesta, não foram encontrados os testemunhos destas sondagens.
Sei que se procurou interessar no “jazigo de Cravezes” a Companhia americana Union Carbide.
Em conversa que tive com o Geólogo americano responsável pelo cumprimento de contratos na Região de Vila Nova de Cerveira – Caminha - Ponte de Lima, soube que Cravezes não lhe despertou o mínimo interesse, porquanto os seus teores de WO3 eram inferiores aos do estéril das minas que estavam em exploração na zona de Covas.
As “Torres dos Clérigos” que Soares Carneiro esperava encontrar afinal ... não apareceram!!!!