segunda-feira, 7 de março de 2011

159 – A eficiência da secretaria e da sala de desenho da sede do SFM

No post anterior, revelei não poder contar com a secretaria da sede do SFM para a dactilografia do relatório exigido por Ordem de Serviço de 7-2-84 do Director-Geral de Minas.

Na realidade, desde que, em 1964, na minha nova qualidade de Chefe do Serviço de Prospecção Mineira, passei a exercer funções, a partir da sede do SFM, em S. Mamede de Infesta, eu tomara consciência de graves deficiências, no funcionamento da sua secretaria.

Eu vinha do Sul do País, onde durante 20 anos (1944 a 1964) dirigira as mais importantes Brigadas do SFM (Brigada de Prospecção Eléctrica, Brigada do Sul) e mantivera até 1975, a chefia da 1.ª Brigada de Prospecção, sediada em Beja, cumulativamente com a chefia do 1.º Serviço.

Em todas estas Brigadas, recrutei, localmente, pessoal habilitado ou capaz de se habilitar a realizar, com eficácia, as tarefas normais de uma secretaria: dactilografia de ofícios, relatórios, informações, etc. registo de correspondência recebida e emitida, arquivo de variado tipo de documentos, em pastas apropriadas, de modo a permitir a sua fácil e rápida consulta, aquisições de materiais e subsequentes formalidades para seu pagamento, etc. etc.

Tive, além disso, a preocupação de dar ou proporcionar formação, em diversas outras áreas, também a pessoal localmente recrutado.

De assinalar, foi o facto de o SFM, no Sul do País, ter funcionado como escola, onde trabalhadores adquiriam formação em dactilografia, topografia, prospecção nas suas variadas técnicas e tinham depois facilidade em encontrar emprego melhor remunerado, em empresas privadas e até em outros organismos públicos, ocasionando constantemente problemas com a sua substituição, já que as tabelas salariais em vigor, no SFM, não permitiam recompensá-los devidamente e os dirigentes se não mostravam dispostos a alterá-las.

Nos posts N.ºs 24, 84, 90, 145 e 146, faço referências às minhas constantes preocupações em tal domínio.

Dentre as outras áreas contempladas nas acções de formação, destaco a de Desenho, pois era permanente a necessidade de registar, convenientemente, os resultados dos trabalhos que se iam realizando, qualquer que fosse a sua natureza (mapas topográficos, geológicos, geofísicos, geoquímicos; perfis geológicos, geofísicos, geoquímicos, plantas e perfis longitudinais e transversais de trabalhos mineiros; logs de sondagens; gráficos, etc.)

Foi através destas acções que se tornou possível apresentar, dentro de prazos normais, relatórios extensos, com numerosas peças desenhadas, algumas de grandes dimensões, contendo abundante informação.

Como elucidativos exemplos, cito os seguintes:

1 - O relatório, intitulado “Jazigos ferro - manganíferos de Cercal – Odemira”, apresentado em 4 espessos volumes, com 338 páginas dactilografadas, 86 desenhos e 45 fotografias e ainda um pormenorizado mapa de avanços e despesas. Foram enviadas 4 cópias em Outubro de 1957, poucos meses após a decisão superior de dar por terminados os estudos que eu vinha dirigindo na Região de Cercal – Odemira. (Ver post N.º 16)

2 - O relatório sobre trabalhos de pesquisa e reconhecimento, no jazigo de cobre de Aparis, realizados desde 1-1-1956 até 31-12-1958. Tem 86 páginas, 39 desenhos, 4 gráficos, 11 fotografias e um pormenorizado mapa de avanços e despesas. Foram enviadas 4 cópias em 13 de Maio de 1959 (Ver post N.º 21)

3 - O último relatório anual que elaborei na qualidade de Chefe da Brigada do Sul, referente ao ano de 1962. Tem 177 páginas e um pormenorizado mapa de avanços e despesas de todos os trabalhos e dele foram enviados 4 exemplares, em 29-1-63.

4 – Um relatório que tinha em preparação sobre ocorrências minerais na Região de Montemor-o-Novo, de que constavam 108 peças desenhadas, que não me foi permitido concluir, por ter sido nomeado para novas e absorventes funções, no âmbito da prospecção mineira, ao mesmo tempo que me eram cerceados meios para lhes dar cabal cumprimento.

5 - O último relatório trimestral da 1.ª Serviço (nessa data ainda incluía a 1.ª Brigada de Prospecção), referente ao 4.º trimestre de 1974. Tem 225 páginas, onde se incluem os relatórios de todos os departamentos do 1.º Serviço, com numerosas peças desenhadas e projectos de sondagens.

6 - A constituição de um arquivo de que já constavam muitos milhares de mapas (topográficos, geológicos, geofísicos, geoquímicos, a diversas escalas, com predomínio da escala de 1:5000). (Ver post N.º 27)

Foi, pois, com surpresa que constatei a incapacidade da secretaria da sede do SFM de cumprir as suas naturais funções, nas amplas instalações de que dispunha.
Um simples ofício, que nem uma página exigiria, demorava a aparecer dactilografado!

Para remover esta incompreensível deficiência, adquiri máquina de escrever portátil que frequentemente passei a usar no SFM.

Mas outra deficiência ainda mais grave se me deparou. Documento que eu pretendesse consultar, para dar sequência a matéria que tivesse em estudo, ou não aparecia, ou aparecia tardiamente e eu não estava habituado a tais atrasos, perturbadores da minha actividade.

A importância que atribuía à documentação, levou-me a fazer propostas concretas visando a sua eficaz organização e protecção. (Ver post N.º 29).
O Director, desprezando as minhas recomendações, decidiu assumir directamente a gestão de departamento que um dedicado funcionário tinha começado a organizar. Afastou até, do SFM, este funcionário, logo se fazendo sentir as nefastas consequências de tão insensata decisão.
A primeira consequência foi ter deixado de se publicar o relatório anual da actividade do SFM, ficando assim a indústria mineira nacional privada de importante informação que poderia suscitar investimentos em áreas cuja potencialidade ia sendo revelada.
Outra consequência foi a perda de relatórios técnicos que eram retirados, com facilidade, dos arquivos e não eram lá repostos.

Um elucidativo exemplo, que referi no meu post N.º 30, foi o caso da documentação respeitante às Minas de ferro de Vila Cova do Marão.
O SFM tinha feito realizar, no princípio da década de 40, uma campanha de prospecção magnética, por contrato com a Companhia sueca ABEM.
Em anos mais recentes, tinha dado cumprimento a um projecto de sondagens.
Em reuniões promovidas pelo Director, quando em 1964 assumi as funções de Chefe do 1.º Serviço, tomei conhecimento de divergências grandes entre resultados dos estudos do concessionário e os do SFM.
Impunha-se uma análise cuidada de toda a documentação respeitante a este jazigo, pois se considerava a hipótese de novas sondagens deverem ser projectadas.
O Director encarregou-se de encontrar, não só os relatórios, como os logs, plantas e perfis pelas sondagens e os testemunhos destas sondagens.
Em reuniões seguintes, este caso de Vila Cova voltou a ser por mim abordado. Todavia, o Director começou a ficar embaraçado, pois nem relatórios, nem desenhos, nem testemunhos se encontravam. Deste embaraço resultou que não mais se realizaram reuniões!

Posso também citar o caso de um relatório de minha autoria que um representante de Empresa privada pretendia consultar e que o Director não conseguiu encontrar. Na minha ausência, foi ao meu gabinete e lá conseguiu encontrar a cópia que, de direito, me pertencia como seu autor.

Correram rumores de que alguns dos relatórios desviados da secretaria foram objecto de negociações ilícitas.

Para resolver esta nova e inesperada dificuldade, resolvi arquivar, no meu gabinete, cópias dos documentos de que necessitasse, à medida que fossem produzidos. E para evitar novas intromissões abusivas, as pastas deixaram de ter indicação do que lá se continha, confiando eu na minha memória para as consultar.

Se a secretaria funcionava mal, também a sala de desenho enfermava de graves deficiências.
Quando abordei o Arquitecto Linhares, sobre o apoio que poderia esperar, para o relatório “circunstanciado”, fui informado de que dos três únicos desenhadores de que dispunha, um estava destacado para prestar colaboração aos Serviços Geológicos, outro andava a trabalhar no campo (!) e o terceiro era praticamente ineficaz.
Além disso, havia uma “feira” em preparação, na qual a DGGM iria participar, exigindo actuação prioritária. Só poderia contar com apoio para cópias e pintura de desenhos!

É digno de realce o confronto com o que acontecia, em matéria de desenho, na sede da 1.ª Brigada de Prospecção, em Beja e nas suas Secções de Vila Viçosa, Évora, Ferreira do Alentejo e Castro Verde.
Nesses núcleos, tinham sido preparados para desenhar, com eficácia, mais de uma dezena de trabalhadores, localmente recrutados,
Só assim se tornou possível constituir o arquivo de muitos milhares de mapas, ao qual fiz referência, e que causava a admiração de estrangeiros.
O ex-Director Gouveia comentou que eu nem me apercebera do valor desse arquivo, que lhe havia permitido vender mapas a empresa interessada em firmar contrato de prospecção mineira com o Estado.
De tal capacidade, para a qual pouco ou nada tinham contribuído, estavam a aproveitar-se sobretudo os Geólogos, que haviam subscrito o calunioso documento que conduziu ao meu afastamento da chefia da Brigada (Ver post N.º 81)

Na Secção de Talhadas da 2.ª Brigada de Prospecção, graças à dedicação e ao dinamismo do Colector Silvestre Vilar, que teve o mérito de se tornar excelente prospector, também se conseguiu preparar pessoal para desenhar os mapas respeitantes à actividade da Secção.
A capacidade deste pessoal foi posta à prova, quando em 1-7-74, o Director do SFM pôs em causa a existência da Secção, dispondo-se a extingui-la, pois no seu entender, “não estava a dar nada”.
Foi então possível apresentar, no curto prazo de mês e meio, um relatório em 2 Volumes, com 42 páginas dactilografadas e 25 peças desenhadas, a demonstrar o contrário do que o Director afirmava. (Ver post N.º 62)
O número de desenhos elaborados nesta Secção ultrapassava já um milhar, quando Jorge Gouveia, na sua fugaz presença como Director do SFM, entre outros malefícios a que se dedicou, consciente da impunidade de mais um abuso de autoridade, resolveu suspender os estudos na Faixa Metalífera da Beira Litoral e transferir o pessoal da Secção de Talhadas para a Secção de Coimbra, onde era patente completa desorientação. (Ver post N.º 138).

O Colector Silvestre Vilar, com notável dedicação, que ia muito para além do que seria exigível a um funcionário da sua categoria, ainda me auxiliava, por vezes, na dactilografia de relatórios do 1.º Serviço, mas a sua transferência para o núcleo de Coimbra tornou impossível a continuação desta importante colaboração.

Eu que sempre tivera a preocupação de promover a formação de auxiliares em tarefas secundárias, de modo a libertar-me delas, para poder concentrar-me nas que competiam à minha profissão e que outros não poderiam desempenhar, encontrei-me, na incrível situação de ter que desempenhar funções de dactilógrafo e de desenhador!

O Director-Geral de Minas nem fazia ideia do trabalho que me era exigido, para dar cumprimento às suas insensatas exigências, ele que provavelmente nunca teria elaborado relatório de actividade real, que tivesse desempenhado, no âmbito da profissão de Geólogo.

Mas isto não era tudo! Em vez de serem tomadas providências no sentido de facilitar a execução do relatório que tanta falta estaria a fazer para “programar convenientemente as actividades da DGGM”, ainda me foram criados novos obstáculos.
Até a aquisição de papel vegetal e de papel ozalid, para cópias, me foi dificultada!
Tive que requisitar este material ao Director do SFM, pois a secretaria se recusara a proceder à sua aquisição, como era hábito.
O Director do SFM chegou à mesquinhez de apenas autorizar a compra de papel para um único exemplar dos desenhos do relatório, pondo em dúvida que se justificasse fazer cópias.
Queria primeiro avaliar o conteúdo, ele que me declarara nada perceber de técnicas de prospecção e até ter raiva a quem percebia!

Por estas e por outras razões, que indicarei, em próximos posts, o famigerado relatório “circunstanciado” ia sofrendo constantes atrasos, da exclusiva responsabilidade de dirigentes que, em contradição com a sua actuação, pretendiam que tal relatório fosse rapidamente concluído.

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